Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

Linfomas Hodgkin e não Hodgkin

Dois protocolos federais separados por seis anos governam este tema no SUS, e eles discordam sobre o que a sorologia do HIV muda. A prova cobra reconhecer a célula, escolher a biópsia certa, ler o estádio — e saber qual dos dois documentos vale para o paciente à frente.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 50 anos apresenta há 1 ano placa eritematosa infiltrada e descamativa na região glútea, pruriginosa, que não respondeu a corticoides tópicos e antifúngicos. A biópsia mostra infiltrado de linfócitos T atípicos com núcleos cerebriformes na epiderme, agrupados em coleções intraepidérmicas. A imuno-histoquímica revela células CD4+ com perda de CD7. Qual é o diagnóstico e o achado histológico epônimo característico?

02

Como esse tema cai

Este é o capítulo de quem recebe um paciente com um gânglio, não o do hematologista que conduz a quimioterapia. A vinheta quase sempre entrega um adulto jovem com linfonodomegalia cervical indolor de semanas a meses, às vezes com febre vespertina, sudorese que molha a roupa de cama e perda de peso — e pergunta o que vem depois. Esquemas de resgate, condicionamento de transplante e doença residual mínima ficam de fora.

A prova cobra o tema em cinco formatos. O primeiro entrega a histologia e pede o nome: célula grande e binucleada em fundo inflamatório é uma coisa, proliferação difusa de grandes linfócitos B é outra. O segundo entrega o gânglio e pergunta qual biópsia — e a alternativa errada costuma ser a punção por agulha. O terceiro entrega o mapa das cadeias acometidas e pede o estádio. O quarto entrega um número (massa mediastinal em centímetros, velocidade de hemossedimentação, contagem de linfócitos) e pergunta se aquilo muda o grupo de risco. O quinto entrega o esquema de tratamento e testa se o candidato sabe qual doença recebe qual sigla.

A régua nacional deste tema é feita de dois documentos federais que não conversam entre si. O linfoma de Hodgkin do adulto tem protocolo próprio desde a Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 24, de 29 de dezembro de 2020, a primeira sobre a doença no país — a portaria não revoga nada porque não havia o que revogar. O linfoma difuso de grandes células B, o subtipo agressivo mais comum entre os não Hodgkin, tem protocolo desde a Portaria SAS/MS nº 956, de 26 de setembro de 2014, que revogou a Portaria SAS/MS nº 621, de 2012. Seis anos separam os dois textos, e a distância aparece em coisas que a prova cobra: o corte de doença volumosa, o papel do PET-CT e o que a sorologia do HIV autoriza.

Ficam fora deste capítulo, com endereço. O linfoma da criança e do adolescente está na apostila de Pediatria: o protocolo federal de Hodgkin inclui apenas pacientes de 19 anos ou mais, e abaixo disso a régua é outra. A síndrome de lise tumoral, a compressão medular e a síndrome da veia cava superior estão nos capítulos de emergências oncológicas. A micose fungoide, linfoma cutâneo de células T, está em Dermatologia. As leucemias, inclusive a linfocítica crônica, estão no capítulo vizinho desta mesma apostila. A sarcoidose e o diagnóstico diferencial das massas de mediastino por compartimento estão em Pneumologia e Cirurgia Torácica — e é de lá que vêm os distratores mais caros deste tema.

03

O que muda decisão

A célula rara num tumor que é quase todo reação

O linfoma de Hodgkin é definido pela multiplicação clonal de uma célula com morfologia peculiar, a célula de Reed-Sternberg, derivada da transformação maligna de linfócitos B do centro germinativo. O detalhe que governa toda a etapa diagnóstica está na proporção: as células de Reed-Sternberg representam apenas 1% a 2% da massa tumoral do tecido acometido. O resto é população reacional — linfócitos T e B maduros, granulócitos, histiócitos, fibroblastos. O tumor, ao microscópio, é quase todo inflamação.

Daí sai a regra que a prova mais cobra e que o candidato mais erra. Se a célula diagnóstica ocupa uma em cada cinquenta a cem células do fragmento, uma amostra pequena tem chance real de não conter nenhuma. Por isso o procedimento padrão é a biópsia excisional do linfonodo suspeito, com retirada completa, material congelado e fixado em formalina, seguida de imuno-histoquímica. Punção aspirativa por agulha fina e biópsia por agulha grossa são consideradas geralmente inadequadas: não removem material suficiente e impedem o diagnóstico preciso. A agulha grossa dirigida por imagem fica reservada a linfonodos internos de difícil acesso.

Uma orientação operacional completa a regra: o linfonodo inguinal deve ser evitado, por ser região mais sujeita a infecções locais que degradam a arquitetura e confundem a leitura. A escolha do gânglio é decisão clínica, feita em acordo prévio com o cirurgião, e não logística de centro cirúrgico.

A imuno-histoquímica separa os dois grandes grupos e é o que a prova transforma em alternativa. No linfoma de Hodgkin clássico, as células de Hodgkin e Reed-Sternberg expressam CD30 em 100% dos casos e CD15 em 75% a 85%, com CD45 negativo e CD20 apenas ocasionalmente positivo. No linfoma de Hodgkin de predomínio linfocítico nodular, o padrão se inverte: as células predominantes de linfócitos expressam CD20 e CD45 e não expressam CD15 nem CD30. Guardar esse par invertido resolve sozinho boa parte das questões de histopatologia deste tema.

O sinal semiológico que aparece com frequência desproporcional em prova é a dor no linfonodo acometido logo após a ingestão de bebida alcoólica. Não é critério de nada, não entra em escore e não muda conduta — mas é específico o bastante para que a banca o use como chave da vinheta. Os linfonodos do linfoma costumam ser indolores, de consistência fibroelástica, e não fistulam, o que os separa da adenite tuberculosa, que amolece, coalesce e fistula.

Os números brasileiros — e os dois que não fecham

O protocolo federal abre com epidemiologia e cita o Instituto Nacional de Câncer: para cada ano do biênio 2018/2019 estimaram-se 2.530 casos novos de linfoma de Hodgkin no Brasil, sendo 1.480 em homens e 1.050 em mulheres. A conta fecha, e os dois números são exatamente os que constam da tabela nacional da Estimativa 2018. Guarde a ordem de grandeza: é uma doença de baixa incidência absoluta e alta taxa de cura, o oposto do perfil que a palavra câncer costuma evocar.

Duas frases vizinhas, porém, não sobrevivem à conferência. A primeira diz que o linfoma de Hodgkin corresponde a aproximadamente 10% de todos os linfomas. A mesma fonte que o documento cita duas linhas abaixo estima, para o mesmo biênio, 5.370 casos novos de linfoma não Hodgkin em homens e 4.810 em mulheres, ou seja, 10.180. Somando os dois grupos chega-se a 12.710 casos por ano, e a fatia do Hodgkin é 19,9% — o dobro do que a frase afirma. O número de 10% é a proporção de séries norte-americanas e europeias; no denominador brasileiro que o próprio parágrafo apresenta, ele não se sustenta.

A segunda frase diz que a doença corresponde a cerca de 0,6% de todos os cânceres. A Estimativa 2018 projeta 600 mil casos novos por ano no país e, excetuando o câncer de pele não melanoma (cerca de 170 mil), 420 mil. Com 2.530 casos, a fatia é de 0,42% sobre o total e de 0,60% sobre os 420 mil. O número publicado só fecha com o denominador que exclui a pele não melanoma, e o texto não diz que exclui. É a mesma família de defeito: um percentual importado de fora, colado num parágrafo cujo denominador brasileiro é outro.

Um terceiro tropeço está na classificação histológica e tem valor didático maior do que aritmético. O texto de 2020 diz que o linfoma de Hodgkin clássico corresponde a cerca de 90% dos casos e o de predomínio linfocítico nodular ao restante; em seguida afirma que a esclerose nodular é o subtipo mais comum, representando de 70% a 80% dos 10% dos casos. Lido ao pé da letra, isso colocaria a esclerose nodular em 7% a 8% do total, enquanto a frase seguinte atribui 15% à celularidade mista — o segundo mais comum seria o dobro do primeiro. A versão submetida à consulta pública, em março de 2020, dizia 70% a 80% de todos os casos, sem o recorte. A troca entrou entre a consulta e o texto que virou norma, e o número vizinho ficou intacto, o que isola o defeito num único parágrafo.

A hierarquia real, que é o que a prova cobra: a esclerose nodular é o subtipo mais frequente do linfoma de Hodgkin clássico, seguida da celularidade mista; rico em linfócitos e depleção linfocítica são incomuns. A incidência tem distribuição etária bimodal — um pico no fim da adolescência e outro no idoso — e a apresentação exclusivamente infradiafragmática, incomum, implica pior prognóstico.

Ann Arbor, Cotswolds e Lugano: três nomes para o mesmo estádio

O estadiamento continua sendo o de Ann Arbor, em quatro estádios, com a modificação de Cotswolds. O eixo é anatômico e simples de decorar porque não conta linfonodos: conta lados do diafragma. Estádio I é uma cadeia linfonodal ou estrutura linfoide (baço, timo, anel de Waldeyer) ou um sítio extralinfático isolado. Estádio II são duas ou mais cadeias do mesmo lado do diafragma. Estádio III são cadeias nos dois lados. Estádio IV é acometimento disseminado de um ou mais órgãos extralinfáticos, ou um sítio extralinfático com acometimento linfonodal à distância — situação encontrada em cerca de 20% dos casos.

Aos quatro estádios somam-se os sufixos. A é ausência e B é presença de sintomas sistêmicos: febre acima de 38 graus, sudorese noturna profusa e perda maior que 10% do peso habitual em seis meses — presentes em cerca de 40% dos casos e com impacto prognóstico negativo. Os sufixos E e S marcam extensão extralinfática por contiguidade e acometimento esplênico. O sufixo X marca massa igual ou maior que 10 centímetros ou que ocupe mais de um terço da caixa torácica.

A alternativa moderna é a classificação de Lugano, que incorpora o PET-CT ao estadiamento e à avaliação de resposta. Ela reorganiza os mesmos quatro estádios em dois blocos — doença localizada (I e II) e avançada (III e IV) —, cria o rótulo de estádio II volumoso, que pode ser tratado como localizado ou avançado conforme histologia e fatores prognósticos, e abandona o sufixo X, mantendo os sufixos A e B porque a presença de sintomas constitucionais continua a mudar o tratamento na doença localizada. Em Lugano, doença volumosa é massa nodal única de 10 centímetros ou maior que um terço do diâmetro transtorácico em qualquer nível das vértebras torácicas.

Duas consequências práticas do PET-CT valem alternativa inteira. A primeira: o exame é considerado o padrão para a avaliação inicial, e a alta sensibilidade para acometimento medular faz com que a biópsia de medula óssea não seja indicada em quem foi avaliado por PET-CT. Quando o exame não está disponível, o substituto é radiografia de tórax mais tomografia com contraste de pescoço, tórax e abdome — e aí a biópsia de medula volta a ser pedida. A segunda: para confirmar acometimento esplênico, o achado tomográfico aceito é aumento maior que 13 centímetros na medida craniocaudal, ou massa e nódulos não císticos e não vasculares.

O corte de doença volumosa é armadilha porque muda entre os dois protocolos federais. No linfoma de Hodgkin, volumoso é 10 centímetros ou mais. No linfoma difuso de grandes células B, a indicação de imunoquimioterapia usa o limiar de doença volumosa maior que 7,5 centímetros para os estádios I e II. Mesma palavra, dois números, duas normas vigentes.

Fatores de risco: três comitês, três listas

Na doença localizada, o estádio sozinho não decide o tratamento. É preciso separar favorável de desfavorável, e essa separação é feita por listas de fatores de risco que três grupos cooperativos escreveram de maneira diferente. O protocolo brasileiro reproduz as três lado a lado, sem eleger uma — o que significa que a prova pode cobrar qualquer delas, e que a alternativa correta depende de qual critério o enunciado nomeia.

As diferenças são poucas e todas cobráveis. O grupo europeu conta idade igual ou maior que 50 anos como fator; o grupo alemão e a rede norte-americana não usam idade. Na massa mediastinal, o alemão e a rede norte-americana usam a razão da massa mediastinal maior que 0,33 (largura máxima da massa dividida pelo diâmetro intratorácico máximo), enquanto o europeu usa a razão toracomediastinal maior que 0,35 (largura máxima da massa dividida pelo diâmetro intratorácico em T5-T6). No número de áreas linfonodais, o alemão marca risco a partir de mais de duas áreas e os outros dois a partir de mais de três. Acometimento extranodal de qualquer tipo conta apenas para o grupo alemão; grande massa acima de 10 centímetros conta apenas para a rede norte-americana.

A velocidade de hemossedimentação entra nos três com a mesma lógica de duas faixas: acima de 50 mm/h em quem não tem sintomas B, acima de 30 mm/h em quem tem. O raciocínio a levar: sem sintomas constitucionais é preciso inflamação sistêmica maior para a doença ser considerada desfavorável; quem já tem sintomas B qualifica com menos.

Há uma armadilha de vocabulário no meio do quadro, e o próprio documento avisa. Área linfonodal não é o mesmo que região linfonodal. As áreas dos critérios europeu e alemão não correspondem às regiões de Ann Arbor nem às de Lugano, porque uma área pode conter várias regiões: no critério alemão a região infraclavicular entra junto com a cervical e supraclavicular do mesmo lado, os linfonodos hilares entram junto com os do mediastino e o abdome se divide em superior e inferior. O resultado é aritmético e brutal — o mesmo mapa de doença tem nove regiões por Ann Arbor e cinco áreas pelos critérios europeu e alemão. Contar as regiões e aplicar o corte das áreas superestima o risco e leva o candidato à alternativa mais agressiva.

O escore que não classifica metade dos pacientes

Para doença avançada existe um segundo instrumento, o escore prognóstico internacional, proposto em 1998 a partir de 5.141 pacientes de 25 instituições. São sete fatores, todos binários e todos disponíveis na primeira consulta: sexo masculino; idade acima de 45 anos; estádio IV; albumina abaixo de 4,0 g/dL; hemoglobina abaixo de 10,5 g/dL; linfócitos abaixo de 600/mm³ ou abaixo de 8% dos leucócitos; e leucócitos acima de 15.000/mm³. Cada fator adicional reduz a sobrevida livre de progressão em cerca de 8 pontos percentuais.

Repare no que não está na lista. A velocidade de hemossedimentação, que é fator de risco nos três critérios de doença localizada, não entra neste escore. Massa mediastinal também não. A confusão entre as duas ferramentas é o erro mais produtivo que a banca pode explorar neste tema: são instrumentos de populações diferentes — um separa localizada favorável de desfavorável, o outro estratifica a doença avançada.

E há um vão declarado no próprio texto normativo. A interpretação publicada diz que escore igual a 3 classifica como risco moderadamente alto, com sobrevida livre de progressão de 55% e sobrevida global de 70% em cinco anos, e que escore maior ou igual a 4 representa risco alto, com 47% e 59%. Nenhuma faixa é atribuída a quem tem 0, 1 ou 2 fatores — que é, na prática, a maior parte dos pacientes com doença avançada. O paciente de baixo risco existe no cálculo e não existe na tabela de interpretação.

O vão fica mais concreto quando se olha para onde o escore é usado. O regime intensificado alemão, o esquema BEACOPP escalonado, aparece no item de tratamento reservado a pacientes bem selecionados definidos como escore maior ou igual a 3 e idade abaixo de 60 anos. Trinta páginas adiante, no fluxo adaptado ao PET-CT da doença avançada, a mesma indicação vem escrita como escore maior ou igual a 4 e idade abaixo de 60 anos — duas vezes, no texto e na legenda da figura. Um paciente com escore exatamente 3 é elegível numa página e inelegível na outra, dentro da mesma norma. O corte de 60 anos é o mesmo nas duas, o que isola a divergência no número do escore.

As duas leituras nasceram juntas: a versão da consulta pública, de março de 2020, já trazia o par 3 e 4 nos mesmos dois lugares, e a versão resumida publicada em julho de 2021 manteve apenas o corte de 4. Três renderizações, uma delas rediagramada do zero, e o par sobreviveu.

Deauville: o escore 3 que muda de lado

A resposta ao tratamento é lida por PET-CT segundo os critérios de Deauville, escala de cinco pontos que compara a captação mais intensa no sítio inicial com dois órgãos de referência: o mediastino e o fígado. Sem captação é 1; até o mediastino é 2; acima do mediastino e até o fígado é 3; moderadamente acima do fígado é 4; muito acima do fígado ou lesão nova é 5.

O ponto que a prova explora é que o escore 3 não tem lado fixo. Na doença localizada favorável, após dois ciclos, o protocolo diz que, se o critério de estratificação usado foi o do grupo alemão, PET-CT negativa significa Deauville de 1 a 3 e o paciente vai direto para a radioterapia; se foi o do grupo europeu, negativa significa Deauville de 1 a 2 e o paciente recebe mais um ciclo antes da radioterapia. O mesmo exame, no mesmo paciente, com o mesmo laudo, muda de rótulo conforme o critério com que a doença foi estratificada semanas antes.

Na doença localizada desfavorável a fronteira se desloca de novo, e desta vez sem menção a qual critério a produz: o texto indica ABVD para Deauville 3 e BEACOPP escalonado para Deauville 4, tratando ambos como resposta positiva. Ou seja, o escore 3 é resposta suficiente numa página e insuficiente na seguinte. Não é erro de cálculo — é a herança de ensaios diferentes, com pontos de corte diferentes, empilhados no mesmo fluxo sem que o documento nomeie a escolha como escolha.

Só o escore 5 tem conduta unívoca em todos os fluxos: nova biópsia. Quem tiver exame histopatológico positivo é tratado como doença refratária ou recaída. É a única situação em que o protocolo manda voltar ao tecido antes de mudar de linha, e é a resposta que a banca espera quando a vinheta traz captação marcadamente superior à hepática ou lesão nova.

Escala vertical de cinco pontos de Deauville, com as referências do mediastino entre os degraus 2 e 3 e do fígado entre os degraus 3 e 4. Três colchetes cortam a escala em pontos diferentes: pelo critério do grupo alemão a resposta negativa vai de 1 a 3 e segue para radioterapia; pelo critério do grupo europeu vai de 1 a 2 e recebe mais um ciclo antes da radioterapia; na doença localizada desfavorável o escore 3 leva a ABVD e o 4 leva a BEACOPP escalonado. O degrau 3 está destacado com três destinos e o degrau 5 traz a indicação de nova biópsia.
O escore 3 de Deauville é resposta negativa por um critério de estratificação e insuficiente por outro, dentro do mesmo protocolo; só o escore 5 tem conduta única, que é nova biópsia.

Doença refratária e doença recidivada também têm definições fixas que valem alternativa. Refratária é ausência de resposta ou progressão durante a quimioterapia ou dentro de 90 dias após o término do tratamento. Recidivada é o reaparecimento no sítio anterior ou em novos sítios depois de resposta completa. A diferença não é semântica: o prazo de 90 dias é o que separa as duas.

Quem trata o quê: os dois protocolos, lado a lado

No linfoma de Hodgkin clássico, o esquema de primeira linha é o ABVD — doxorrubicina, bleomicina, vimblastina e dacarbazina. A modalidade combinada, quimioterapia seguida de radioterapia em campo envolvido ou nodal, é a melhor opção na doença localizada: dois ciclos seguidos de radioterapia na doença sem fatores de risco, quatro ciclos seguidos de radioterapia na doença com fatores de risco. Quem tem contraindicação à radioterapia ainda tem bom prognóstico só com quimioterapia. Na doença avançada, o padrão é seis ciclos de ABVD e radioterapia apenas se houver doença residual superior a 2,5 centímetros.

O regime intensificado alemão é a alternativa nas formas desfavorável e avançada, com toxicidade aguda maior — anemia, neutropenia, plaquetopenia e infecções — e uso restrito a serviços com suporte adequado. Nos fluxos adaptados ao PET-CT, a doença avançada com resposta negativa após dois ciclos segue com quatro ciclos sem a bleomicina, o que reduz a toxicidade pulmonar sem perder eficácia; no idoso vale a mesma lógica. A bleomicina deve ser omitida em maiores de 80 anos, em quem tem função pulmonar reduzida e em fumantes ativos.

Na doença recaída ou refratária, que atinge cerca de 10% dos pacientes segundo o próprio documento, a rota é poliquimioterapia à base de platina — ICE ou DHAP — seguida de transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas em quem tiver condições. Depois do transplante entra o brentuximabe vedotina, anticorpo monoclonal anti-CD30 conjugado a um agente antitubulina: 1,8 mg/kg em infusão intravenosa de 30 minutos a cada três semanas, mínimo de oito doses e máximo de 16 ciclos, com dose inicial reduzida para 1,2 mg/kg na insuficiência renal grave e na hepática. Nunca em bolus. A neuropatia é o principal efeito não hematológico, e melhora ao longo de um ano na maioria.

No linfoma difuso de grandes células B a régua é outra e mais antiga. O esquema padrão é o CHOP — ciclofosfamida, doxorrubicina, vincristina e prednisona — em intervalo de 21 dias, seis ciclos, podendo chegar a oito se não houver resposta completa após o quarto ou se restar doença após o sexto; o tratamento é suspenso se não houver resposta nenhuma após o quarto ciclo. O rituximabe associado ao CHOP tem indicação escrita como lista de condições cumulativas: mais de 18 anos, CD20 positivo, doença de novo, fora do sistema nervoso central primário, estádio III ou IV ou então I e II com sintomas B ou doença volumosa maior que 7,5 centímetros, sem tratamento prévio, e com sorologia negativa para HIV e sem hepatite B ou C ativa. Segunda linha usa DHAP, ESHAP, EPOCH, ICE ou MINE, com o mesmo objetivo de identificar doença quimiossensível para transplante.

O índice prognóstico do linfoma difuso é o internacional, com cinco fatores: idade acima de 60 anos, estádio III ou IV, mais de um sítio extranodal, estado funcional acima de 2 e desidrogenase láctica acima do limite superior. E aqui o documento entrega duas réguas: o agrupamento clássico em quatro faixas (0-1 baixo; 2 intermediário-baixo; 3 intermediário-alto; 4-5 alto) e um agrupamento simplificado em três faixas para quem recebe rituximabe (0 baixo; 1-2 intermediário; 3-5 alto). O mesmo paciente com três fatores é intermediário-alto numa e alto na outra — e como o rituximabe é condicionado à lista acima, nem sempre está claro qual das duas se aplica.

O HIV e as duas respostas do mesmo sistema

Este é o ponto em que os dois protocolos federais se afastam de forma verificável, e o candidato precisa saber que se afastam. O documento do linfoma de Hodgkin, de 2020, é explícito: pacientes infectados pelo HIV devem receber o mesmo tratamento planejado para os não infectados, acrescido da terapia antirretroviral, iniciada antes ou concomitantemente e mantida durante a quimioterapia. Traz ainda a interação que a prova gosta: esquemas com inibidores de protease, como o ritonavir, podem potencializar a mielotoxicidade, e os inibidores de integrase são a alternativa com menor potencial de interação.

O documento do linfoma difuso de grandes células B, de 2014, diz o contrário sobre o anticorpo monoclonal: não recomenda rituximabe em pacientes com anti-HIV positivo, mesmo em uso de terapia antirretroviral potente e antibioticoprofilaxia, particularmente com contagem baixa de linfócitos CD4 — e leva essa restrição para dentro da indicação, que exige sorologia negativa para HIV. Como a portaria de 2014 nunca foi revogada, é ela que continua a governar a autorização do procedimento para essa doença.

A distância tem data e causa. A busca de literatura que sustenta o texto de 2014 foi realizada em 30 de janeiro de 2012, antes da consolidação das análises que reposicionaram o rituximabe nessa população. Coortes posteriores encontraram esquema com rituximabe seguro e eficaz independentemente do status sorológico, situando o excesso histórico de mortes infecciosas nos pacientes com CD4 abaixo de 50/mm³ — a faixa em que o sinal de risco realmente se concentrava. Não é restrição econômica nem indisponibilidade no SUS: o medicamento está incorporado. É documento nacional que envelheceu.

O que fazer com isso numa prova depende do recorte, e o recorte costuma estar visível. Enunciado que nomeia o protocolo brasileiro, que fala em autorização de procedimento, regulação de acesso ou farmácia do SUS, está pedindo a régua nacional como está escrita. Enunciado de centro terciário, que discute contagem de CD4 e carga viral indetectável e cita literatura recente, está pedindo o estado da arte. Um distrator que mencione contagem de CD4 como limiar denuncia o segundo mundo, porque o texto de 2014 não trabalha com limiar — trabalha com sorologia.

Vale registrar o que não diverge: nos dois documentos a avaliação inicial inclui sorologias para hepatites B e C, HIV e sífilis, e nos dois a terapia antirretroviral é componente essencial do tratamento oncológico de quem vive com o vírus.

O que o protocolo declara não saber

Um documento normativo que diz onde a evidência acaba é mais útil do que um que finge não ter buracos, e este diz — em três lugares. Sobre a intensificação do tratamento em quem tem PET-CT interina positiva na doença avançada, registra que não há ensaios clínicos randomizados avaliando a estratégia e que o efeito preciso permanece incerto, apesar dos controles históricos. Sobre o linfoma de predomínio linfocítico nodular, registra que, por ser doença rara, não há ensaios randomizados comparando condutas, e a recomendação de radioterapia em campo envolvido na dose total de 30 Gy para o estádio IA sai de série observacional e de consenso de especialistas. Sobre a comparação entre o esquema padrão e o intensificado, registra que não há dados de estudos sobre infertilidade.

O apêndice metodológico vai além. Declara que as evidências seriam avaliadas segundo a metodologia de graduação de certeza e, em seguida, que nenhuma pergunta estruturada foi elencada e que uma busca única — na base Epistemonikos, 362 resultados — sustentou a escrita de todas as seções, porque não se identificaram tecnologias novas que exigissem revisão sistemática. Nenhuma recomendação do protocolo, portanto, carrega grau de certeza atribuído. Isso não a invalida: significa que ela codifica prática clínica estabelecida e tecnologias já disponíveis no SUS, que foi exatamente a instrução dada aos relatores.

A origem do documento explica o escopo e vale para entender por que a criança ficou de fora. A demanda nasceu da Portaria SCTIE/MS nº 12, de 11 de março de 2019, que incorporou o brentuximabe vedotina para adultos com doença refratária ou recidivada após transplante autólogo. Quando a consulta pública sugeriu incluir a população pediátrica, a resposta foi que o escopo partiu da decisão de incorporar aquele medicamento para adultos. Curiosamente, o próprio apêndice data essa incorporação em março de 2013, seis anos antes — e a nota de rodapé imediatamente abaixo cita a portaria de 2019, que é a data correta e a que consta da apresentação do relatório.

A consulta pública teve 247 contribuições entre 20 de março e 8 de abril de 2020, e os percentuais publicados fecham com os totais. Entre os anexos havia carta de coletivo de pacientes e carta de empresa fabricante de tecnologias da área. As declarações de conflito de interesse foram assinadas por todos os participantes externos e enviadas ao Ministério da Saúde como parte dos resultados; não acompanham o arquivo publicado, de modo que o leitor não consegue conferi-las no mesmo documento.

Duas frases do texto vigente já venceram e continuam impressas. Uma anuncia que, como a Classificação Internacional de Doenças em sua 11ª revisão entraria em vigor a partir de janeiro de 2022, até dezembro de 2021 a codificação continuaria a ser feita pela categoria C81 — prazo expirado há mais de quatro anos, enquanto o faturamento no SUS segue em C81. A outra, na lista de situações em que a bleomicina deve ser omitida no idoso, imprime depuração de creatinina igual ou menor que 5 mL/minuto: uma faixa de função renal em que a discussão deixou de ser qual fármaco omitir. Os itens vizinhos da mesma lista — idade acima de 80 anos, fragilidade, tabagismo ativo — são cortes clínicos comuns e sobreviveram intactos, o que localiza o problema num único número.

04

Estadiar, estratificar e ler a resposta

Três decisões em sequência, cada uma com sua ferramenta. O estádio sai do mapa anatômico; o grupo de risco sai da lista de fatores do critério que o enunciado nomear; a resposta sai da escala de cinco pontos do PET-CT. Confundir a ferramenta com a etapa é o erro que mais rende alternativa errada neste tema.

  1. 1Linfonodo suspeito: biópsia excisional completa, evitando o sítio inguinal; material congelado e fixado, com imuno-histoquímica.
  2. 2Histologia e imunofenótipo definem o grupo: CD30 e CD15 positivos com CD45 negativo no clássico; CD20 e CD45 positivos com CD15 e CD30 negativos no predomínio linfocítico nodular.
  3. 3Estadiamento por PET-CT de corpo inteiro; sem PET-CT, radiografia de tórax, tomografia de pescoço, tórax e abdome e biópsia de medula óssea.
  4. 4Estádio por Ann Arbor com sufixos A, B, E, S e X, ou por Lugano, que separa localizada de avançada e dispensa o sufixo X.
  5. 5Doença localizada: aplicar a lista de fatores de risco do critério nomeado para separar favorável de desfavorável.
  6. 6Doença avançada: contar os sete fatores do escore prognóstico internacional.
  7. 7Tratamento e reavaliação por PET-CT com escore de Deauville; escore 5 manda repetir a biópsia antes de mudar de linha.

Estádio I — uma cadeia, um lado

Uma cadeia linfonodal ou estrutura linfoide (baço, timo, anel de Waldeyer), ou um sítio extralinfático isolado.

Estádio II — duas ou mais, mesmo lado

Duas ou mais cadeias do mesmo lado do diafragma, com ou sem extensão extralinfática por contiguidade.

Estádio III — os dois lados

Cadeias acima e abaixo do diafragma, podendo somar sítio extralinfático ou acometimento esplênico.

Estádio IV — órgão tomado

Acometimento difuso ou disseminado de um ou mais órgãos extralinfáticos, com ou sem doença linfonodal associada.

Fator de risco na doença localizadaGrupo alemãoGrupo europeuRede norte-americana
Idadenão usa≥ 50 anosnão usa
Velocidade de hemossedimentação, sem sintomas B> 50 mm/h> 50 mm/h≥ 50 mm/h
Velocidade de hemossedimentação, com sintomas B> 30 mm/h> 30 mm/hpresença de sintomas B já conta
Massa mediastinalrazão da massa mediastinal > 0,33razão toracomediastinal > 0,35razão da massa mediastinal > 0,33
Número de áreas linfonodais> 2> 3> 3
Acometimento extranodalqualquernão usanão usa
Grande massanão usanão usa> 10 cm
Total de compartimentos contados5 áreas5 áreasusa as regiões de Ann Arbor

Escore prognóstico internacional na doença avançada — os sete fatores e as faixas publicadas

FatorCorteEscoreSobrevida livre de progressão em 5 anosSobrevida global em 5 anos
Sexomasculino0 a 2sem faixa atribuída no texto normativosem faixa atribuída no texto normativo
Idade> 45 anos3 (moderadamente alto)55%70%
EstádioIV≥ 4 (alto)47%59%
Albumina< 4,0 g/dLcada fator a maiscerca de 8 pontos percentuais a menos
Hemoglobina< 10,5 g/dL
Linfócitos< 600/mm³ ou < 8% dos leucócitos
Leucócitos> 15.000/mm³

Escala de Deauville e o que cada escore dispara

EscoreDefiniçãoLeitura na doença localizada favorávelLeitura na doença localizada desfavorável
1sem captaçãonegativa pelos dois critériosnegativa
2captação ≤ mediastinonegativa pelos dois critériosnegativa
3captação > mediastino e ≤ fígadonegativa pelo critério alemão; positiva pelo europeupositiva — indica ABVD
4aumento moderadamente superior ao fígadopositivapositiva — indica BEACOPP escalonado
5muito superior ao fígado ou lesão novanova biópsia; se positiva, tratar como refratárianova biópsia; se positiva, tratar como refratária
Xcaptação nova provavelmente não relacionada ao linfomanão classifica respostanão classifica resposta

Os dois protocolos federais deste tema, lado a lado

ItemLinfoma de Hodgkin no adulto (2020)Linfoma difuso de grandes células B (2014)
NormaPortaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 24, de 29/12/2020Portaria SAS/MS nº 956, de 26/09/2014
O que revoganada — é o primeiro sobre a doença no adultoPortaria SAS/MS nº 621, de 05/07/2012
Idade de inclusão19 anos ou mais18 anos ou mais
Doença volumosa≥ 10 cm ou > 1/3 do diâmetro transtorácico> 7,5 cm (na indicação de rituximabe em I e II)
Primeira linhaABVD; BEACOPP escalonado em selecionadosCHOP a cada 21 dias, 6 a 8 ciclos
Papel do PET-CTpadrão para estadiamento e resposta; dispensa biópsia de medulaalternativa à tomografia; biópsia de medula na lista de exames
Escore prognósticoescore internacional de 7 fatores (doença avançada)índice internacional de 5 fatores, em duas versões de agrupamento
Paciente com HIVmesmo tratamento dos não infectados, com antirretroviralrituximabe não recomendado; indicação exige sorologia negativa

O sufixo X existe em Ann Arbor/Cotswolds e foi abandonado em Lugano; os sufixos A e B permanecem nas duas, porque a presença de sintomas constitucionais continua a mudar o tratamento da doença localizada.

Área linfonodal e região linfonodal não são a mesma unidade: o mesmo mapa de doença tem nove regiões pelo sistema de Ann Arbor e cinco áreas pelos critérios europeu e alemão.

A radioterapia após seis ciclos na doença avançada é indicada para doença residual superior a 2,5 cm; no fluxo do paciente idoso o mesmo limiar aparece escrito como maior ou igual a 2,5 cm.

O cabeçalho da primeira página da portaria de 2020 sai impresso como 'MINITÉRIO DA SAÚDE', e o título do quadro de estadiamento grafa 'Costwolds' enquanto o interior do quadro grafa 'Cotswolds'. A cópia hospedada pela Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul é o mesmo arquivo, byte a byte: os dois erros chegam idênticos a quem consulta pelo portal estadual.

Escore prognóstico internacional e fatores de risco de doença localizada são instrumentos de populações diferentes: velocidade de hemossedimentação e massa mediastinal entram nos fatores de risco e não entram no escore.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Rituximabe no linfoma difuso de grandes células B em pessoa vivendo com HIV

Régua federal em vigor: sorologia negativa como condição

O protocolo nacional não recomenda rituximabe em pacientes com anti-HIV positivo, mesmo em uso de terapia antirretroviral potente e antibioticoprofilaxia, particularmente com contagem baixa de linfócitos CD4, e leva a restrição para dentro da indicação, que exige resultado sorológico negativo para HIV. A portaria nunca foi revogada e continua a governar a autorização do procedimento.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma Difuso de Grandes Células B — Portaria SAS/MS nº 956, de 26/09/2014, itens 2 e 6.1.2; busca de literatura realizada em 30/01/2012.

Evidência posterior: mesmo esquema, com atenção à contagem de CD4

Coorte populacional posterior encontrou o esquema com rituximabe seguro e eficaz independentemente do status sorológico para HIV, e situa o excesso histórico de mortalidade infecciosa nos pacientes com contagem de linfócitos CD4 abaixo de 50 por milímetro cúbico, e não na sorologia em si. A causa da distância é temporal: o texto brasileiro foi escrito sobre uma busca de janeiro de 2012.

Habbous S. et al. The effectiveness of rituximab and HIV on the survival of Ontario patients with diffuse large B-cell lymphoma. Cancer Medicine, 2020.

Na prova

O recorte costuma estar no cenário. Enunciado que nomeia o protocolo brasileiro, ou que fala em autorização de procedimento, regulação de acesso e dispensação no SUS, trabalha com a régua nacional como está escrita. Enunciado de centro terciário que discute carga viral indetectável e contagem de CD4 trabalha com a literatura recente. As alternativas denunciam o mundo: distrator que traz um limiar numérico de CD4 só existe no corpo internacional, porque o texto de 2014 raciocina por sorologia, não por limiar. Vale também o protocolo de Hodgkin do mesmo Ministério, de 2020, que manda tratar o paciente com HIV como o não infectado — quando o enunciado é de Hodgkin, a régua nacional e a internacional coincidem.

Deauville 3 conta como PET-CT negativa?

Critério do grupo cooperativo alemão: 1 a 3 é negativa

Na doença localizada favorável, se a estratificação de risco usou o critério alemão, PET-CT negativa após dois ciclos é definida como Deauville de 1 a 3 pontos, e o paciente segue direto para a radioterapia em campo envolvido ou nodal.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma de Hodgkin no Adulto — Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 24/2020, item 6.5.1.

Critério do grupo cooperativo europeu: só 1 e 2 é negativa

Se a estratificação usou o critério europeu, PET-CT negativa é definida como Deauville de 1 a 2 pontos, e há indicação de mais um ciclo de quimioterapia antes da radioterapia. Na doença localizada desfavorável, o mesmo documento trata Deauville 3 como resposta positiva e indica ABVD, reservando o esquema escalonado ao Deauville 4.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma de Hodgkin no Adulto — Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 24/2020, itens 6.5.1 e figura do fluxo da doença localizada desfavorável.

Na prova

O enunciado quase sempre entrega o critério junto, porque sem ele a questão não fecha: quando cita o grupo alemão ou fala em cinco áreas linfonodais com corte acima de duas, o mundo é o alemão e o escore 3 é resposta suficiente. Quando cita idade igual ou maior que 50 anos como fator de risco, ou a razão toracomediastinal de 0,35, o mundo é o europeu e o escore 3 pede mais um ciclo. Se o enunciado descrever doença localizada com fatores de risco e não nomear critério nenhum, o documento nacional trata o escore 3 como positivo.

Escore prognóstico exigido para o esquema escalonado na doença avançada

Seção de tratamento: escore maior ou igual a 3

No item que apresenta os esquemas, o regime intensificado é descrito como indicado para doença localizada desfavorável ou avançada, restrito a pacientes bem selecionados definidos como escore prognóstico internacional maior ou igual a 3 e idade abaixo de 60 anos.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma de Hodgkin no Adulto — Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 24/2020, item 6.1.

Fluxo adaptado ao PET-CT: escore maior ou igual a 4

No fluxo de doença avançada tratada inicialmente com o esquema escalonado, o mesmo documento restringe a indicação a pacientes com escore prognóstico internacional maior ou igual a 4 e idade abaixo de 60 anos, no texto e na legenda da figura. O corte de idade é idêntico nas duas passagens; só o número do escore muda. As duas leituras já constavam da versão submetida à consulta pública em março de 2020.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma de Hodgkin no Adulto — Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 24/2020, item 6.5.2 e figura correspondente; versão da Consulta Pública nº 11/2020.

Na prova

Questão que dependa exclusivamente do paciente com escore exatamente 3 é questão frágil, e banca cuidadosa evita. O que aparece de fato é o corte de idade, que não varia — abaixo de 60 anos — e a exigência de serviço com suporte adequado. Quando a vinheta traz escore 4 ou 5, as duas passagens concordam e a indicação do esquema intensificado é segura. Vale reconhecer os dois números para não descartar uma alternativa correta por lembrar apenas de uma das passagens.

06

Caso resolvido

Mulher de 26 anos, previamente hígida, com aumento indolor de linfonodos cervicais e supraclaviculares à direita há três meses, de consistência fibroelástica, o maior com 4 cm. Sem febre, sem sudorese noturna, sem perda de peso. Tomografia de tórax mostra massa mediastinal anterior de 11 cm de maior eixo, sem outras cadeias acometidas. Hemograma normal, velocidade de hemossedimentação de 42 mm/h, albumina 4,3 g/dL. A biópsia excisional do linfonodo cervical mostra células grandes binucleadas com nucléolos proeminentes em fundo inflamatório misto, com imuno-histoquímica CD30 e CD15 positivos e CD45 negativo.
achado
Duas cadeias acometidas — cervical e supraclavicular direitas — mais o mediastino, todas acima do diafragma. O imunofenótipo com CD30 e CD15 positivos e CD45 negativo fecha linfoma de Hodgkin clássico.
estádio
Estádio II: duas ou mais cadeias do mesmo lado do diafragma. Sem febre, sudorese ou perda de peso, o sufixo é A. A massa mediastinal de 11 cm caracteriza doença volumosa pelo corte de 10 cm, o que acrescenta o sufixo X em Ann Arbor e o rótulo de estádio II volumoso em Lugano.
grupo de risco
Doença localizada desfavorável. A massa volumosa basta: a razão da massa mediastinal supera 0,33 em qualquer dos critérios, e a grande massa acima de 10 cm é fator na régua norte-americana. A velocidade de hemossedimentação de 42 mm/h, em paciente sem sintomas B, fica abaixo do corte de 50 mm/h e não acrescenta nada.
erro que a banca cobra
Chamar de estádio I por acometer só o lado direito, ou de estádio III por somar cervical, supraclavicular e mediastino como se fossem lados diferentes. Também é comum classificar como favorável por olhar apenas a hemossedimentação e ignorar a massa mediastinal.
conduta
Modalidade combinada: quatro ciclos de ABVD seguidos de radioterapia em campo envolvido ou nodal. Antes de iniciar, sorologias para hepatites B e C, HIV e sífilis, rastreamento de infecção latente por tuberculose, teste de gravidez e oferta de planejamento reprodutivo, porque quimioterapia e radioterapia abdominal podem causar infertilidade permanente.
07

Agora feche você

Homem de 34 anos, com diagnóstico de linfoma de Hodgkin clássico, estádio IV por acometimento hepático, sem tratamento prévio. Ao diagnóstico: hemoglobina 9,8 g/dL, albumina 3,4 g/dL, leucócitos 16.800/mm³, linfócitos 520/mm³. Velocidade de hemossedimentação 68 mm/h. Sorologia para HIV não reagente. Estado funcional preservado. O serviço tem retaguarda de terapia intensiva e experiência com esquemas intensificados.
achado
Doença avançada, sem sintomas B declarados, com quatro alterações laboratoriais que pertencem ao escore prognóstico internacional e uma que não pertence.
escore
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Aceitar punção por agulha fina como diagnóstico de linfoma Atrai porque a punção é rápida, ambulatorial e resolve tireoide e mama. Aqui não resolve: a célula diagnóstica é 1% a 2% do tecido, e a amostra pequena volta com material reacional, adiando o diagnóstico em semanas. O padrão é a biópsia excisional completa, com imuno-histoquímica.
  2. 2Escolher o linfonodo inguinal porque é o mais fácil de alcançar Atrai por acessibilidade cirúrgica. O protocolo pede que se evite justamente esse sítio, por ser região mais sujeita a infecções locais que distorcem a arquitetura do gânglio e prejudicam a leitura histopatológica.
  3. 3Estadiar contando quantos linfonodos estão acometidos Atrai porque a maioria dos estadiamentos oncológicos conta estruturas. Ann Arbor não conta: separa por lados do diafragma. Duas cadeias do mesmo lado são estádio II, ainda que volumosas; uma cadeia de cada lado é estádio III, ainda que pequenas.
  4. 4Somar regiões linfonodais quando o critério pede áreas Atrai porque as duas palavras parecem sinônimas e os quadros ficam lado a lado. O mesmo mapa tem nove regiões por Ann Arbor e cinco áreas pelos critérios europeu e alemão. Contar regiões e aplicar o corte de áreas leva o candidato a classificar como desfavorável quem não é, e a marcar o esquema mais agressivo.
  5. 5Usar um único corte de doença volumosa para os dois linfomas Atrai porque o conceito é o mesmo. Os números não são: no linfoma de Hodgkin, volumoso é massa de 10 cm ou mais, ou maior que um terço do diâmetro transtorácico; na indicação de rituximabe do linfoma difuso de grandes células B em estádios I e II, o limiar escrito é maior que 7,5 cm.
  6. 6Achar que o escore prognóstico internacional classifica todo mundo Atrai porque escore costuma ter faixa para cada valor. Este só tem interpretação publicada para escore igual a 3 e para escore maior ou igual a 4; quem tem 0, 1 ou 2 fatores fica sem faixa nomeada no texto normativo. Quem tenta encaixar o paciente de baixo risco numa das duas faixas superestima gravidade.
  7. 7Pedir biópsia de medula óssea depois de um PET-CT de corpo inteiro Atrai porque a biópsia de medula é reflexo antigo do estadiamento de linfoma. A alta sensibilidade do PET-CT para acometimento medular faz com que a biópsia não seja indicada em quem foi avaliado por esse exame. Ela volta à lista quando o PET-CT não está disponível e o estadiamento é feito por radiografia e tomografia.
  8. 8Prescrever o esquema do outro linfoma Atrai porque as siglas se parecem e as duas doenças chegam com adenomegalia e sintomas B. Doxorrubicina, bleomicina, vimblastina e dacarbazina são o esquema do linfoma de Hodgkin; ciclofosfamida, doxorrubicina, vincristina e prednisona, com ou sem o anticorpo anti-CD20, são o esquema do linfoma difuso de grandes células B. Trocar os dois é o erro mais frequente das vinhetas de idoso com massa de crescimento rápido e desidrogenase láctica alta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Placa crônica refratária, linfócitos T atípicos cerebriformes com epidermotropismo, coleções intraepidérmicas e fenótipo CD4+ com perda de CD7 definem micose fungoide (linfoma cutâneo de células T); as coleções intraepidérmicas de linfócitos atípicos são os microabscessos de Pautrier. Os microabscessos de Munro (neutrófilos no estrato córneo) são da psoríase. As células de Paget (grandes, PAS+) caracterizam a doença de Paget extramamária. Disceratose com atipia de queratinócitos é do CEC in situ. Centros germinativos e fenótipo B correspondem a linfomas B, não à micose fungoide (que é de células T).

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Repasse a sequência das três ferramentas: biópsia excisional e imuno-histoquímica definem a doença; Ann Arbor ou Lugano definem o estádio pelos lados do diafragma; a lista de fatores de risco (localizada) ou o escore de sete fatores (avançada) definem a intensidade. Decore o par invertido de imunofenótipo (CD30 e CD15 positivos com CD45 negativo no clássico; CD20 e CD45 positivos no predomínio linfocítico nodular) e os cinco pontos da escala de Deauville com seus dois órgãos de referência, mediastino e fígado.

em 30 dias

Volte pelos números que mudam decisão: doença volumosa de 10 cm no Hodgkin e de 7,5 cm na indicação de rituximabe do linfoma difuso; velocidade de hemossedimentação de 50 mm/h sem sintomas B e 30 mm/h com sintomas B; sete fatores do escore prognóstico e a ausência da velocidade de hemossedimentação nessa lista; doença residual acima de 2,5 cm como gatilho de radioterapia após seis ciclos; 90 dias como fronteira entre refratária e recidivada; brentuximabe vedotina a 1,8 mg/kg a cada três semanas, reduzido a 1,2 mg/kg na insuficiência renal grave. Feche revendo o que os dois protocolos federais dizem sobre o paciente com HIV, e por que dizem coisas diferentes.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Adulto jovem chega ao ambulatório com um gânglio cervical indolor que cresce há dois meses, sudorese noturna que obriga a trocar a roupa de cama e 7 kg perdidos. Colha a história, examine todas as cadeias linfonodais, decida qual gânglio biopsiar e por qual técnica, e defina o que pedir antes de encaminhar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Linfomas Hodgkin e não Hodgkin — Preparatório para provas | OsceLabs