Ginecologia e ObstetríciaHemorragias da gestação e do puerpério

Doença trofoblástica gestacional

A prova raramente para no diagnóstico da mola: ela cobra o que vem depois do esvaziamento. A curva de hCG é o exame que faz o diagnóstico de neoplasia — sem biópsia, sem imagem e sem esperar laudo.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Gestante de 26 anos, com 10 semanas de gestação pela DUM, comparece para primeira consulta de pré-natal. Refere náuseas intensas e vômitos frequentes com perda de 4 kg. Ao exame, o útero está aumentado, incompatível com a idade gestacional (compatível com 16 semanas). A ultrassonografia mostra imagem intrauterina heterogênea em "tempestade de neve", sem embrião identificável. O beta-hCG está em 320.000 mUI/mL. Qual é a conduta definitiva?

02

Como esse tema cai

A doença trofoblástica gestacional entra nesta apostila porque é assim que ela chega: sangramento de primeiro trimestre. Só que é a única causa de sangramento precoce em que o sangue é o problema menor. O que decide o desfecho — e o que a prova cobra — é o que acontece depois que o útero é esvaziado: uma curva de hCG semanal que separa a mulher que sarou sozinha da mulher que tem um câncer curável e ainda assintomático.

Duas ideias organizam o tema. A primeira é que mola completa e mola parcial não são graus da mesma coisa: têm origem genética diferente, cara diferente no ultrassom, risco diferente de malignizar e prazo diferente de seguimento. Cerca de 70% das molas parciais chegam com diagnóstico de abortamento retido ou incompleto e só aparecem no histopatológico — por isso todo material de esvaziamento vai para exame. A segunda é que o diagnóstico de neoplasia trofoblástica gestacional é químico-hormonal: platô ou elevação do hCG bastam, e o tratamento oncológico começa sem biópsia e sem lesão visível em imagem.

A régua brasileira tem dois documentos vivos. A Linha de Cuidados para Doença Trofoblástica Gestacional, do Ministério da Saúde com a Associação Brasileira de Doença Trofoblástica Gestacional (2021), cobre a doença benigna, o esvaziamento e o seguimento pós-molar. O Protocolo Febrasgo nº 61, de 2025, cobre a forma maligna. Os dois usam o estadiamento anatômico da FIGO de 2000 e o escore de risco FIGO/OMS. Onde o Brasil se afasta do guia britânico é em duas coisas concretas: por quanto tempo seguir a paciente e o que fazer com ocitócicos durante a aspiração.

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O que muda decisão

Duas doenças com o mesmo sobrenome

A mola hidatiforme completa tem genoma inteiramente paterno. O cariótipo mais comum é 46,XX, resultado da duplicação do genoma haploide de um único espermatozoide com exclusão do complemento cromossômico materno; 5% a 10% carregam um cromossomo Y, e nesses casos a fertilização foi por dois espermatozoides. Não há embrião, vasos ou hemácias fetais: o material que originaria o concepto é reabsorvido antes de o sistema circulatório se formar. Macroscopicamente, a placenta inteira vira vesículas translúcidas, de 1 a 1,5 mm no primeiro trimestre e de 1,5 a 3 cm no segundo, com aspecto de cacho de uva.

A mola hidatiforme parcial é triploide. Deriva de dois conjuntos haploides paternos e um materno, com cariótipo 69,XXX ou 69,XXY. Há evidência de desenvolvimento fetal — âmnio, vasos com hemácias fetais, um feto pequeno e malformado. As vesículas são menores e focais, entremeadas por áreas de placenta de aparência normal, e a proliferação trofoblástica é focal, não difusa.

A imuno-histoquímica resolve o caso duvidoso. O p57 é um gene com impressão paterna cujo alelo expresso é o materno. Na mola completa, que não tem genoma materno, o p57 não é expresso pelas vilosidades — é negativo. Na mola parcial e nas gestações não molares, é positivo. Ou seja: o p57 separa mola completa precoce de mola parcial, sobretudo abaixo de 10 semanas, quando a morfologia ainda não decidiu; mas não separa mola parcial de abortamento hidrópico, porque nos dois há genoma materno.

A consequência prática dessa diferença é o risco de malignização. De 15% a 20% das molas completas e de 0,5% a 5% das molas parciais evoluem para neoplasia trofoblástica gestacional. É esse número que justifica prazos de seguimento diferentes, e é por isso que o caso não classificado como completo ou parcial é acompanhado como se fosse completo.

Corte de dois úteros lado a lado: à esquerda, cavidade tomada por vesículas uniformes sem qualquer estrutura fetal; à direita, feto pequeno e malformado ao lado de placenta parcialmente vesicular.
Mola completa (esquerda): vesículas em toda a placenta e ausência de feto. Mola parcial (direita): vesículas focais entremeadas por placenta de aparência normal, com concepto malformado.

Quando suspeitar — e as armadilhas do hCG

O sangramento transvaginal é a manifestação mais comum. Começa em pequena quantidade, em borra de café, e pode progredir para hemorragia; a eliminação de vesículas fecha o diagnóstico sem exame nenhum. Com ultrassonografia e hCG disponíveis no primeiro trimestre, porém, a maioria dos casos é surpreendida antes de aparecer qualquer sinal clássico.

Útero maior que o esperado para a idade gestacional — mais de 4 cm acima do previsto — é o achado de exame físico característico. Não está sempre presente, mas quando está tem peso: é fator de risco para neoplasia pós-molar e para embolização trofoblástica maciça para os pulmões.

Três manifestações valem por si só como pista. Hiperêmese gravídica, quando as náuseas e vômitos passam a cursar com desidratação, distúrbio hidroeletrolítico e perda de peso. Hipertireoidismo, em cerca de 5% dos casos, quase sempre com hCG acima de 400.000 mUI/mL, útero de 16 cm ou mais e cistos tecaluteínicos maiores que 6 cm; o TSH fica abaixo de 0,01 mU/L e o quadro regride sozinho em duas a três semanas depois do esvaziamento, que é o tratamento definitivo. E pré-eclâmpsia antes de 20 semanas: 25% dos casos quando a mola é diagnosticada tarde, por volta de 16 semanas, e 1% quando o diagnóstico é no primeiro trimestre. Hipertensão com proteinúria antes de 20 semanas praticamente não tem outra explicação placentária.

Os cistos tecaluteínicos são consequência, não causa. A subunidade alfa do hCG é comum ao LH e ao FSH, e níveis muito altos — em geral acima de 500.000 mUI/mL — estimulam a teca ovariana. São bilaterais, multiloculados, volumosos, e regridem espontaneamente em seis a oito semanas, acompanhando a queda do hCG. Não se opera: a ooforectomia só entra se houver torção do pedículo com necrose.

O hCG tem dois erros de laboratório que a prova adora. O efeito Hook: valores exageradamente altos, acima de 500.000 mUI/mL, saturam simultaneamente os anticorpos de captura e de marcação do ensaio sanduíche, o teste é lido como negativo e a paciente com massa molar enorme sai com hCG baixo — a correção é diluir a amostra. E o falso-positivo por anticorpos heterófilos, presente em cerca de 2% das mulheres em idade reprodutiva, em geral com valores abaixo de 300 UI/L: como a molécula não é excretada, o hCG urinário é negativo; a diluição seriada não faz o valor cair proporcionalmente; e trocar de ensaio comercial costuma mudar bastante o resultado.

O preparo pré-operatório em mola precoce, com útero compatível com o atraso menstrual, é enxuto: hCG quantitativo, hemograma completo, tipagem sanguínea, VDRL e anti-HIV. Se o útero passa de 16 cm ou há cistos tecaluteínicos, acrescentam-se TSH e T4 livre e eletrocardiograma, e reservam-se duas unidades de concentrado de hemácias pelo risco de hemorragia intraoperatória. Havendo hipertensão, somam-se proteinúria, AST/ALT e creatinina. Na admissão com sangramento, o índice de choque — frequência cardíaca dividida pela pressão sistólica — acima de 0,9 aciona o protocolo de hemorragia obstétrica.

Esvaziar: o que se faz e o que não se faz

A aspiração a vácuo é o método de escolha, manual ou elétrica — as duas se equiparam, e a manual é a praticada em 70% dos centros de referência brasileiros. As cânulas mais usadas têm 7 a 8 mm; acima de 20 cm de útero, usam-se as de 10 a 12 mm e a aspiração é guiada por ultrassonografia transabdominal, o mesmo valendo para útero retrovertido ou anomalia mülleriana.

O toque bimanual vem antes da anestesia, para conferir tamanho e posição do útero. Não se usa histerômetro: por ser fino, aumenta o risco de perfuração. A ocitocina entra depois de dilatado o colo. Depois da aspiração o útero reduz de imediato, o que torna seguro passar delicadamente a cureta fenestrada apenas para confirmar que o esvaziamento foi completo — delicadamente, para não fazer sinéquia. Todo o material é examinado a olho nu e vai para formol tamponado a 10%, com pedido de histopatológico.

O misoprostol tem um papel e só um: preparar o colo em pacientes selecionadas, tipicamente no diagnóstico precoce, antes de haver sangramento e cólica. A dose não passa de 400 µg e o esvaziamento acontece em até três horas — e se a paciente entrar em cólica e sangramento antes disso, esvazia-se na hora. Induzir contração para expulsar o tecido molar é proibido: aumenta a evolução para doença persistente e a embolização trofoblástica para os vasos pulmonares.

A histerectomia é alternativa de abordagem inicial, hoje pouco empregada, para mulher acima de 40 anos com prole definida, ou sem condições de fazer o seguimento. Ela reduz a progressão para neoplasia de cerca de 20% para 3,5%, porque elimina o risco de invasão miometrial — mas não elimina o risco de doença em outros órgãos. Quem faz histerectomia continua fazendo hCG seriado.

As complicações a antecipar são a insuficiência respiratória (por edema agudo de pulmão, quase sempre de reposição volêmica excessiva ou pré-eclâmpsia, ou por embolia pulmonar não trombótica de tecido trofoblástico), a hemorragia e a anemia. Hemoglobina abaixo de 7 g/dL, mesmo com paciente compensada, indica transfusão de dois concentrados de hemácias antes do esvaziamento, que deve ser feito assim que houver condição anestésica. Entre 7 e 9 g/dL, ferro parenteral em ambiente hospitalar antes da alta; entre 9 e 11 g/dL, ferro oral de 40 a 80 mg/dia fora das refeições. Sem complicação, a alta sai com deambulação e micção espontâneas, quatro a seis horas depois.

Seguimento pós-molar: a curva que decide tudo

O seguimento começa na semana seguinte ao esvaziamento, antes de sair o histopatológico — a suspeita clínica, ultrassonográfica e hormonal já basta para agendar. Idealmente parte-se do valor exato de hCG antes do esvaziamento: quando o laboratório devolve algo como "maior que 15.000 mUI/mL", pede-se diluição da amostra, porque esse número é o ponto inicial da curva de regressão.

A partir daí, hCG quantitativo semanal — ou, no máximo, quinzenal. Depois de três valores normais consecutivos, abaixo de 5 mUI/mL, o intervalo passa a mensal. Na mola completa, o seguimento mensal continua por mais seis meses; na mola parcial, por mais um mês. Casos que o laudo não classificou seguem a regra da completa. Cumprido o prazo, a paciente está em remissão, é liberada do seguimento e liberada para engravidar.

Não há exame de imagem no seguimento de uma mola que está regredindo. O único marcador é o hCG: queda até a normalização significa remissão espontânea; platô ou elevação significam neoplasia. Vale insistir nisso com a paciente na primeira consulta, porque é o que sustenta a adesão — se a doença malignizar, o hormônio sobe semanas antes de qualquer sintoma, e a neoplasia diagnosticada cedo é curável em praticamente 100% dos casos, com preservação da capacidade reprodutiva.

Contracepção é parte do tratamento, não conselho. Uma nova gestação durante o seguimento apaga a curva de hCG, que é o único instrumento diagnóstico disponível. O método preferencial é hormonal — pílula combinada, pílula de progestógeno, injetável mensal ou trimestral, implante de etonogestrel ou adesivo — iniciado imediatamente depois do esvaziamento, sem esperar o sangramento parar. Contracepção hormonal não aumenta a chance de evoluir para neoplasia nem de ter nova mola. O injetável trimestral tem vantagem quando a adesão à pílula é duvidosa e quando há sangramento por malformação arteriovenosa uterina pós-doença trofoblástica. Métodos comportamentais não servem: depois do esvaziamento não há como reconhecer o período fértil.

O dispositivo intrauterino, de cobre ou hormonal, não é indicado durante o seguimento pós-molar, especialmente com hCG ainda positivo, pelo risco de hemorragia e de perfuração uterina se houver invasão miometrial. Em casos selecionados pode ser considerado depois de o hCG estar normal por pelo menos três semanas.

O fluxo no SUS tem um desenho explícito. A atenção primária suspeita — sangramento no início da gravidez com útero aumentado, hiperêmese, hipertensão ou sinais de hipertireoidismo — e pede a ultrassonografia obstétrica. Confirmada a suspeita, a paciente vai para unidade hospitalar com ginecologista e obstetra. Depois da alta, a atenção primária acolhe, confere que a contracepção está em uso e que o hCG seriado está sendo feito, preferencialmente num centro de referência em doença trofoblástica gestacional próximo da residência, com acesso em regime de porta aberta. Quando o deslocamento é inviável, a própria atenção primária assume o seguimento em conjunto com o centro de referência, por teleconsultoria.

Quando a mola virou neoplasia

Basta um destes três critérios para diagnosticar neoplasia trofoblástica gestacional pós-molar: quatro ou mais valores de hCG em platô ao longo de um período maior que três semanas, ou seja, nos dias 1, 7, 14 e 21; aumento do hCG em três ou mais medidas consecutivas por pelo menos duas semanas, isto é, nos dias 1, 7 e 14; ou diagnóstico histológico de coriocarcinoma. Platô quer dizer variação menor que 10% entre os valores; aumento quer dizer subida de pelo menos 10%.

Repare no que não está na lista: histopatológico e imagem. O diagnóstico é químico-hormonal, e as lesões da neoplasia são friáveis — biopsiá-las é risco desnecessário. Metástase vaginal encontrada ao exame especular, aquele nódulo violáceo ou escurecido no fórnice ou na região suburetral, não se biopsia, porque sangra de forma copiosa e não muda a conduta. Para liberar o tratamento oncológico, anexam-se à autorização de procedimento de alta complexidade os laudos consecutivos de hCG em platô ou elevação e o laudo histopatológico da mola.

A neoplasia também nasce de gestações não molares: cerca de 50% dos casos vêm de gestação molar, 25% de abortamento ou gravidez ectópica e 25% de gestação a termo ou pré-termo. A suspeita se levanta em mulher com sangramento uterino anormal depois de qualquer gravidez, recente ou antiga — a regra prática é dosar hCG em todo sangramento vaginal persistente ou irregular com oito semanas ou mais de duração após o parto. E em metástase sem sítio primário definido numa mulher em idade reprodutiva, o hCG é o exame que resolve.

A disseminação é hematogênica: pulmão em 80%, vagina em 30%, cérebro e fígado em 10% cada. Metástase pulmonar costuma ser assintomática; quando extensa, dá dispneia, tosse, hemoptise e dor torácica. Metástase em sistema nervoso central se manifesta por hipertensão intracraniana — cefaleia, convulsão, alteração de fala, distúrbio visual, hemiplegia.

Nem toda neoplasia trofoblástica tem hCG alto. Mola invasora e coriocarcinoma vêm de cito e sinciciotrofoblasto e produzem muito hormônio; o tumor trofoblástico do sítio placentário e o tumor trofoblástico epitelioide vêm do trofoblasto intermediário e produzem pouco — em geral abaixo de 2.000 e de 2.500 UI/L, respectivamente. Esses dois são relativamente quimiorresistentes, e é por isso que o tratamento primário deles é cirúrgico. Além disso, seguem gestação não molar em 95% das vezes.

O estadiamento da neoplasia pós-molar usa ultrassonografia transvaginal com Doppler e radiografia de tórax. Radiografia sem lesão encerra a investigação de metástases. Nódulo maior que 1 cm manda seguir com tomografia de tórax e de abdome e ressonância magnética de crânio. Na neoplasia após gestação não molar, ou em resistência e recidiva, a investigação já sai ampliada: ultrassonografia transvaginal com Doppler, tomografia de tórax e abdome e ressonância de pelve e crânio.

Tratar: uma droga ou cinco

A classificação de risco existe para uma única pergunta: essa paciente vai responder a um agente único ou vai desenvolver resistência? Estádios I a III com escore de 6 ou menos são baixo risco. Estádio IV, ou escore de 7 ou mais em qualquer estádio, é alto risco. O encaminhamento ao centro de referência e o início do tratamento devem acontecer em até sete dias, e não além de catorze — a fração de crescimento celular da neoplasia é alta e a demora custa vidas.

No baixo risco, agente único: metotrexato ou actinomicina D, de eficácia semelhante e pouca toxicidade. O esquema recomendado pela Linha de Cuidados é metotrexato 1 mg/kg por via intramuscular nos dias 1, 3, 5 e 7, com ácido folínico 15 mg por via oral nos dias 2, 4, 6 e 8, repetido a cada duas semanas, mantendo três ciclos de consolidação depois que o hCG normalizar — três ciclos, e não dois, reduzem a recorrência de 8,3% para 4%. O metotrexato semanal, embora cômodo, não deve ser usado: tem as maiores taxas de resistência primária. Falha ou toxicidade limitante na primeira linha manda trocar para a droga que ainda não foi usada.

No alto risco, poliquimioterapia. O esquema de escolha é o EMA-co, com etoposídeo, metotrexato e actinomicina D no dia 1, etoposídeo e actinomicina D no dia 2, e ciclofosfamida e vincristina no dia 8, em ciclos a cada duas semanas. O tratamento segue até o hCG ficar indetectável e depois mais três ciclos de manutenção. Filgrastim entra como profilaxia secundária para não atrasar ciclo por mielotoxicidade. Em metástase cerebral, o metotrexato do EMA-co sobe para 1.000 mg/m², a infusão passa de 12 para 24 horas e o resgate com ácido folínico é reforçado.

A histerectomia continua tendo lugar dentro da neoplasia: como tratamento primário no estádio I em mulher sem desejo reprodutivo, e nos casos de quimiorresistência, recidiva, perfuração uterina pelo tumor ou hemorragia. Na doença resistente localizada no útero, é importante documentar o comprometimento uterino por imagem antes de operar — não há benefício em histerectomia de resgate sem lesão radiológica. Já o tumor do sítio placentário e o epitelioide são cirúrgicos por natureza: histerectomia total, com avaliação linfonodal, e quimioterapia com platina adjuvante nos estádios II a IV.

O prognóstico é o que torna esse tema atípico dentro da oncologia: a cura chega perto de 100% no baixo risco e fica em torno de 95% no alto risco, e a maioria das mulheres preserva o útero. Entre 2000 e 2011 registraram-se 5.250 casos de doença trofoblástica gestacional no Brasil, com 96,5% de cura.

Depois do tratamento e a próxima gravidez

Terminada a quimioterapia ou a cirurgia da neoplasia, a contracepção continua e o hCG passa a ser dosado a cada quinze dias por dois meses, e depois mensalmente por doze meses. Ao fim desses doze meses a paciente é liberada para nova gravidez. Nos casos de alto risco, o Protocolo Febrasgo de 2025 prolonga o seguimento para dois anos. A recidiva no baixo risco fica em torno de 3%, e é o que justifica manter vigilância por pelo menos um ano depois do fim da quimioterapia.

O prazo de doze meses para engravidar não é arbitrário: mais de 70% das recidivas acontecem nesse período, e uma gravidez nova torna o hCG inútil como marcador. Mas a mulher que engravidou antes do prazo deve ser tranquilizada, não recriminada: os desfechos perinatais são semelhantes aos da população geral, com uma exceção — há mais aborto quando a gravidez ocorre em até seis meses do último ciclo de quimioterapia, provavelmente por dano à gametogênese que só se corrige quando oócitos novos substituem os expostos.

A fertilidade se preserva na maioria: cerca de 90% das mulheres tratadas com quimioterapia engravidam depois. O risco de uma nova gravidez molar é baixo, em torno de 1%, e maior depois de mola completa do que de parcial. E, segundo o guia britânico de 2020, quem nunca precisou de quimioterapia não precisa mais dosar hCG depois de gestações subsequentes — a taxa de detecção nesse rastreio de rotina se mostrou muito baixa; já quem recebeu quimioterapia por neoplasia continua dosando.

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Estadiar e pontuar: o que decide entre uma droga e cinco

A neoplasia trofoblástica gestacional é classificada duas vezes: por onde está (estadiamento anatômico da FIGO, de 2000) e por quanto risco tem de resistir a um agente único (escore FIGO/OMS). As duas classificações se escrevem juntas — estádio em algarismo romano, dois-pontos, escore em arábico. A combinação, e não cada uma isolada, é o que define o esquema de quimioterapia.

  1. 1Confirme que houve mola: histopatológico do material do esvaziamento; na falta dele, quadro clínico, ultrassonografia e hCG elevado sustentam o seguimento.
  2. 2Siga a curva de hCG semanal. É ela — platô, elevação, ou coriocarcinoma no histopatológico — que faz o diagnóstico de neoplasia.
  3. 3Feito o diagnóstico na neoplasia pós-molar, peça ultrassonografia transvaginal com Doppler e radiografia de tórax, e examine a vagina ao espéculo.
  4. 4Radiografia sem nódulo encerra a busca de metástases. Nódulo maior que 1 cm manda tomografia de tórax e abdome e ressonância magnética de crânio.
  5. 5Atribua o estádio anatômico (I a IV) e some o escore de risco. Escreva os dois juntos, como II:4.
  6. 6Estádios I a III com escore até 6: baixo risco, agente único. Estádio IV, ou escore 7 ou mais em qualquer estádio: alto risco, poliquimioterapia com EMA-CO.

Estádio I — doença restrita ao corpo do útero

Tudo o que a neoplasia produz está dentro do útero. É o estádio da maioria das neoplasias pós-molares diagnosticadas por curva de hCG, quase sempre com escore baixo, e é onde a histerectomia pode ser tratamento primário em mulher sem desejo reprodutivo.

Estádio II — pelve, vagina, anexos e ligamento largo

A doença passou do corpo uterino, mas continua dentro das estruturas genitais. É o estádio do nódulo violáceo visto ao espéculo, que se registra e não se biopsia — a lesão é friável e sangra de forma difícil de controlar.

Estádio III — extensão para os pulmões

Com ou sem envolvimento genital. O pulmão é o sítio mais frequente, em 80% das metástases, e costuma ser assintomático. A contagem de nódulos que entra no escore é a da radiografia de tórax.

Estádio IV — qualquer outro sítio de metástase

Cérebro, fígado, rim, baço, trato gastrointestinal. Estádio IV é alto risco por definição, independentemente do escore, e o tratamento é poliquimioterapia em centro de referência.

Fator de risco0 ponto1 ponto2 pontos4 pontos
IdadeMenos de 40 anos40 anos ou mais
Gestação antecedenteMolaAbortamentoGestação a termo
Intervalo entre a gestação antecedente e o início do tratamentoMenos de 4 meses4 a 6 meses7 a 12 mesesMais de 12 meses
hCG antes do tratamento da neoplasia (UI/L)Menos de 1.0001.000 a 10.000Mais de 10.000 até 100.000Mais de 100.000
Maior massa tumoral, incluindo o úteroMenos de 3 cm3 a 4 cm5 cm ou mais
Sítio de metástasesPulmãoBaço, rimTrato gastrointestinalCérebro, fígado
Número de metástases1 a 45 a 8Mais de 8
Falha de quimioterapia préviaAgente únicoDuas ou mais drogas

Mola completa × mola parcial

CaracterísticaMola completaMola parcial
Origem genéticaGenoma inteiramente paterno; 46,XX na maioria, com 5% a 10% carregando cromossomo YTriploide: 69,XXX ou 69,XXY, com dois conjuntos paternos e um materno
Feto e hemácias fetaisAusentesPresentes; feto pequeno e malformado
VesículasEm toda a placenta, aspecto de cacho de uvaFocais, entremeadas por vilosidades de aparência normal
p57 nas vilosidadesNegativoPositivo
hCGMuito elevadoPouco elevado
Ultrassonografia típicaConteúdo heterogêneo com áreas císticas, tempestade de flocos de neve, a partir de cerca de 10 semanasPlacenta espessada com áreas císticas; feto com restrição de crescimento ou malformação
Como costuma chegarSangramento, útero maior que o esperado, hiperêmeseCara de abortamento retido ou incompleto em cerca de 70% dos casos
Progressão para neoplasia15% a 20%0,5% a 5%
Seguimento depois de o hCG normalizarMais 6 meses de dosagens mensaisMais 1 mês

Seguimento pós-molar: quando dosar e o que fazer com o resultado

MomentoConduta
Semana seguinte ao esvaziamentoPrimeira consulta, sem esperar o laudo histopatológico; contracepção hormonal já iniciada na alta
Até três valores normais consecutivos, abaixo de 5 mUI/mLhCG quantitativo semanal, no máximo quinzenal; sem exame de imagem de rotina
Depois dos três valores normaishCG mensal: mais 6 meses na mola completa, mais 1 mês na mola parcial; caso não classificado segue a regra da completa
hCG em platô ou em elevaçãoDiagnóstico de neoplasia trofoblástica gestacional; estadiar e encaminhar ao centro de referência em até 7 dias, não além de 14
Prazo cumprido com hCG normalAlta do seguimento pós-molar e liberação para nova gravidez

O tumor trofoblástico do sítio placentário e o epitelioide recebem estádio anatômico, mas não escore de risco: o escore foi construído para prever resistência à quimioterapia com agente único, e esses dois tumores são tratados com cirurgia.

As metástases pulmonares que entram na contagem do escore são as da radiografia de tórax. Nódulos menores que 1 cm vistos apenas na tomografia não mudam o escore, porque o prognóstico nesses casos é semelhante ao da doença não metastática; na tomografia, contam-se só os nódulos de 1 cm ou mais.

Na tabela de escore da Linha de Cuidados do Ministério da Saúde a casela de pontuação zero da maior massa tumoral aparece em branco. O valor é "menos de 3 cm", como consta do protocolo Febrasgo de 2025 e da tabela original da FIGO reproduzida por ele.

As duas tabelas brasileiras diferem num detalhe do sítio de metástase: o protocolo Febrasgo de 2025 coloca vagina junto com pulmão na pontuação zero; a tabela do Ministério da Saúde lista apenas pulmão. A diferença não altera o total, já que metástase vaginal isolada define estádio II.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Por quanto tempo seguir uma mola completa depois de o hCG normalizar

Mais seis meses de dosagens mensais contados da normalização — Ministério da Saúde e Associação Brasileira de Doença Trofoblástica Gestacional, 2021

Depois de três valores semanais abaixo de 5 mUI/mL, o intervalo passa a mensal e o seguimento continua por mais seis meses na mola completa e por mais um mês na parcial. O prazo é uniforme e não depende da velocidade da queda. O documento foi escrito para uma rede em que a paciente pode morar longe do centro de referência e em que a atenção primária assume o seguimento por teleconsultoria — e em que a perda de seguimento, não o excesso de dosagens, é o gargalo conhecido.

Brasil. Ministério da Saúde; Associação Brasileira de Doença Trofoblástica Gestacional. Linha de cuidados para doença trofoblástica gestacional, 2021.

Seis meses contados da data do esvaziamento quando o hCG normaliza em até 56 dias — Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, 2020

Na mola completa, se o hCG normaliza dentro de 56 dias do evento gestacional, o seguimento vai até seis meses contados da data do esvaziamento — na prática, bem menos que seis meses de vigilância pós-normalização. Se demora mais que 56 dias, aí sim são seis meses contados da normalização. Na mola parcial, o seguimento termina com dois valores normais separados por pelo menos quatro semanas. O encurtamento se apoia num sistema de registro nacional que rastreia essas mulheres em centros dedicados.

Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. Management of Gestational Trophoblastic Disease. Green-top Guideline No. 38, 2020.

Na prova

Cenário de unidade básica, seguimento pactuado com centro de referência, teleconsultoria ou vocabulário de rede de atenção aponta para o documento brasileiro. Enunciado que informa em quantos dias o hCG normalizou está entregando um dado que só o texto britânico usa, e alternativa que conta o prazo a partir da data do esvaziamento denuncia o mesmo recorte. Prova oficial do MEC tende a cobrar a conduta do SUS.

A partir de que escore a neoplasia é de ultra-alto risco

Escore de 12 ou mais — Linha de Cuidados do Ministério da Saúde e da Associação Brasileira de Doença Trofoblástica Gestacional, 2021

O documento de 2021 registra maior mortalidade a partir de 12 pontos e nomeia esse grupo como ultra-alto risco, com tratamento sistêmico adaptado à condição.

Brasil. Ministério da Saúde; ABDTG, 2021, apoiado em Kong et al., 2017.

Escore de 13 ou mais — Protocolo Febrasgo nº 61, de 2025, e Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, 2020

O protocolo brasileiro mais recente classifica como alto risco o escore de 7 a 12 e reserva ultra-alto risco para 13 ou mais. O guia britânico usa o mesmo corte, associando 13 pontos a risco aumentado de morte precoce, em até quatro semanas, geralmente por sangramento em órgãos.

Febrasgo. Protocolos Obstetrícia nº 61, 2025 (Femina. 2026;54(2):116-21); RCOG Green-top Guideline No. 38, 2020.

Na prova

O corte que muda conduta na esmagadora maioria das questões é o 6/7, que separa agente único de poliquimioterapia, e ele é idêntico nos três documentos. A faixa de 12 a 13 só aparece quando a questão quer a nomenclatura: escore 12 é alto risco num documento e ultra-alto no outro. Enunciado que cita nominalmente o documento ou o ano está indicando de onde tirou a resposta; sem essa pista, o dado do escore costuma servir para escolher o esquema, não o rótulo.

Ocitócicos durante o esvaziamento molar

Ocitocina depois de dilatado o colo, e misoprostol só para preparo cervical — Ministério da Saúde e ABDTG, 2021

A ocitocina é recomendada depois da dilatação do colo, durante a aspiração. O misoprostol é admitido em pacientes selecionadas apenas para amadurecer o colo, em dose que não passa de 400 µg, com esvaziamento em até três horas. Induzir contração para expulsar o tecido molar é vedado nos dois documentos: aumenta a doença persistente e a embolização trofoblástica.

Brasil. Ministério da Saúde; ABDTG. Linha de cuidados para doença trofoblástica gestacional, 2021.

Nenhuma infusão de ocitócico antes de completado o esvaziamento — Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, 2020

Desaconselha infusão de ocitócico antes de completado o esvaziamento e estende a ressalva à ergometrina e ao misoprostol, pelo risco teórico de embolizar e disseminar tecido trofoblástico pelo sistema venoso, com quadro semelhante ao da embolia de líquido amniótico. Só admite ocitocina diante de hemorragia significativa, pesando os dois riscos, e recomenda evitar o esvaziamento medicamentoso da mola completa.

Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. Green-top Guideline No. 38, 2020.

Na prova

O receio é o mesmo nos dois textos — embolização trofoblástica — e a diferença está em onde cada um traça a linha do tempo. Alternativa que manda induzir com misoprostol para expulsar a mola está errada nos dois mundos e costuma ser o distrator mais atraente. Se a questão trata preparo do colo com misoprostol como aceitável, ela está construída sobre o texto brasileiro; se recusa qualquer ocitócico antes de terminada a aspiração, sobre o britânico.

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Caso resolvido

Mulher de 24 anos, G2P1, chega à emergência com sangramento vaginal escuro há duas semanas e vômitos que não cedem. Última menstruação há 13 semanas. PA 152 x 100 mmHg, FC 112 bpm, tremor fino de extremidades, mãos úmidas. Altura uterina de 20 cm, sem batimentos cardíacos fetais audíveis. hCG 640.000 mUI/mL, TSH 0,004 mU/L, proteinúria em fita 2+, hemoglobina 9,8 g/dL. Ultrassonografia transvaginal: conteúdo intrauterino heterogêneo com múltiplas áreas císticas, sem embrião, e cistos ovarianos multiloculados bilaterais de 7 cm.
achado
Hipertensão com proteinúria antes de 20 semanas, útero muito maior que a idade gestacional, hiperêmese e TSH suprimido. Essa combinação, na prática, só acontece na gravidez molar: pré-eclâmpsia de placenta normal não aparece nessa idade gestacional, e o hipertireoidismo vem do próprio hCG, cuja subunidade alfa é comum ao TSH.
achado
hCG de 640.000 mUI/mL com conteúdo intrauterino heterogêneo, áreas císticas e nenhum embrião fecha mola hidatiforme completa. Os cistos tecaluteínicos bilaterais são consequência do hCG estimulando a teca ovariana — regridem em seis a oito semanas depois do esvaziamento e não se operam.
conduta
Preparo: hCG quantitativo, hemograma, tipagem sanguínea, VDRL e anti-HIV. Como o útero passa de 16 cm e há cistos tecaluteínicos, acrescentar TSH e T4 livre e eletrocardiograma; pela hipertensão, proteinúria, AST/ALT e creatinina. Reservar duas unidades de concentrado de hemácias pelo risco de hemorragia intraoperatória.
conduta
Propranolol 40 mg de 12 em 12 horas, iniciado antes do esvaziamento, porque o TSH está abaixo de 0,01 mU/L e a frequência cardíaca passa de 90 bpm. O tratamento definitivo do hipertireoidismo é esvaziar o útero: em duas a três semanas o quadro regride sozinho.
conduta
Esvaziamento por aspiração a vácuo, guiado por ultrassonografia pelo tamanho uterino, com ocitocina depois de dilatado o colo e cureta fenestrada apenas para conferir. Nada de indução da expulsão com misoprostol. Todo o material vai para histopatológico em formol tamponado a 10%.
conduta
A pré-eclâmpsia da mola se resolve esvaziando o útero. Havendo critério de gravidade — pressão de 160 x 110 mmHg ou mais, dano cerebral ou visual, edema agudo de pulmão, alteração de enzimas, creatinina ou plaquetas —, sulfato de magnésio mantido por 24 horas depois do esvaziamento, com hidralazina intravenosa e anti-hipertensivo oral para controle pressórico.
conduta
Alta com contracepção hormonal já iniciada, sem dispositivo intrauterino, e primeira consulta na semana seguinte, sem esperar o laudo. hCG semanal até três valores abaixo de 5 mUI/mL e depois mensal por mais seis meses, porque é mola completa. Orientar retorno imediato se houver febre, sangramento, dor abdominal ou dispneia.
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Agora feche você

Mulher de 31 anos, esvaziamento de mola hidatiforme completa há nove semanas, assintomática, com sangramento escasso. hCG antes do esvaziamento: 84.000 mUI/mL. Dosagens semanais desde então: 12.000, 900, 210, 205, 198 e 201 mUI/mL. Exame especular sem lesões. Ultrassonografia transvaginal com Doppler: massa miometrial focal hipoecogênica e hipervascular de 2,5 cm. Radiografia de tórax sem nódulos.
achado
Quatro valores de hCG em platô — 210, 205, 198 e 201, com variação menor que 10% — ao longo de mais de três semanas. Isso é diagnóstico de neoplasia trofoblástica gestacional pós-molar. Não é preciso nova biópsia, nem laudo histopatológico adicional, nem lesão visível para firmar o diagnóstico.
achado
Massa miometrial hipervascular de 2,5 cm à ultrassonografia e radiografia de tórax sem nódulos. Doença restrita ao corpo do útero: estádio FIGO I. Sem nódulo pulmonar na radiografia, a investigação de metástases termina aqui — não se pede tomografia.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Esperar laudo histopatológico para começar a quimioterapia Em oncologia o hábito é biopsiar antes de tratar, e alguns serviços chegam a exigir laudo de coriocarcinoma para autorizar o procedimento. Na neoplasia trofoblástica o diagnóstico é químico-hormonal: platô ou elevação do hCG bastam. As lesões são friáveis e biopsiá-las é risco desnecessário. O que se anexa à autorização são as dosagens consecutivas de hCG e o laudo da mola.
  2. 2Biopsiar o nódulo violáceo da vagina Um nódulo escurecido no fórnice ou na região suburetral parece exigir confirmação histológica. É metástase de neoplasia trofoblástica, sangra de forma copiosa e de difícil controle, e o laudo não mudaria nada: o tratamento já está definido pelo hCG e pelo estadiamento.
  3. 3Achar que hCG baixo ou negativo afasta doença trofoblástica Dois mecanismos derrubam essa intuição. O tumor do sítio placentário e o epitelioide vêm do trofoblasto intermediário e produzem pouco hormônio — em geral abaixo de 2.000 e de 2.500 UI/L. E o efeito Hook faz um hCG acima de 500.000 mUI/mL saturar os anticorpos do ensaio e ser lido como negativo; a correção é diluir a amostra.
  4. 4Oferecer dispositivo intrauterino no seguimento pós-molar A paciente precisa de contracepção muito eficaz e o dispositivo é o método mais eficaz do consultório — o raciocínio é bom e a conclusão é errada. Durante o seguimento, com hCG ainda positivo, o dispositivo é evitado pelo risco de hemorragia e perfuração caso haja invasão miometrial. O caminho é hormonal, iniciado imediatamente após o esvaziamento; o dispositivo só pode ser considerado, em casos selecionados, depois de o hCG estar normal por pelo menos três semanas.
  5. 5Contar as metástases pulmonares pela tomografia A tomografia enxerga mais, e parece mais rigoroso usá-la. Mas o escore de risco foi construído e validado com radiografia de tórax, e micrometástases abaixo de 1 cm não pioram o prognóstico — contá-las inflaria o escore e empurraria para poliquimioterapia uma paciente que responderia a agente único. Conta-se pela radiografia; na tomografia, só nódulos de 1 cm ou mais.
  6. 6Não mandar o material do abortamento retido para histopatológico Cerca de 70% das molas parciais chegam com diagnóstico de abortamento retido ou incompleto e não levantam suspeita no ultrassom. Sem o laudo, ninguém sabe que existe uma curva de hCG a acompanhar. Quando o exame não for possível, a alternativa mínima é verificar a normalização do hCG 30 a 40 dias depois da perda gestacional — normal, afasta mola parcial.
  7. 7Supor que a regra da imunoglobulina anti-D é a mesma nos dois tipos de mola A rotina de aplicar anti-D em toda perda gestacional de mulher RhD negativa passa por cima de uma diferença biológica. O guia britânico de 2020 dispensa a profilaxia na mola completa — o trofoblasto não expressa antígeno D e as vilosidades são mal vascularizadas — e a mantém na mola parcial, onde há tecido fetal. O mesmo texto admite aplicar mesmo assim quando a confirmação de mola completa não sai em 72 horas, por razão prática.
  8. 8Escolher metotrexato semanal por comodidade Uma aplicação por semana parece mais fácil para a paciente e para o serviço. É o esquema com as maiores taxas de resistência primária, e a Linha de Cuidados diz textualmente para não usá-lo. Os esquemas de escolha são o metotrexato em múltiplos dias com resgate de ácido folínico e a actinomicina D em pulso.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: útero maior que a idade gestacional, imagem em tempestade de neve sem embrião e beta-hCG muito elevado configuram mola hidatiforme, cujo tratamento é o esvaziamento uterino por vácuo-aspiração, seguido de seguimento com beta-hCG. Repetir USG atrasa o tratamento diante de diagnóstico já definido. Metotrexato é usado em neoplasia trofoblástica gestacional pós-molar ou gravidez ectópica. Histerectomia só se prole completa/idade avançada, não é a conduta padrão. Conduta expectante não se aplica à mola.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Mola completa: genoma só paterno, 46,XX, sem feto, p57 negativo, hCG muito alto, 15% a 20% evoluem para neoplasia. Mola parcial: triploide 69,XXX ou 69,XXY, feto malformado presente, p57 positivo, 0,5% a 5%. Suspeite diante de sangramento com útero maior que o esperado, hiperêmese, hipertireoidismo ou pré-eclâmpsia antes de 20 semanas. Esvaziamento por aspiração a vácuo, nunca por indução da expulsão. hCG semanal até três valores abaixo de 5 mUI/mL e depois mensal: mais 6 meses na completa, mais 1 mês na parcial. Contracepção hormonal desde o esvaziamento, sem dispositivo intrauterino.

em 30 dias

Neoplasia trofoblástica gestacional pós-molar: quatro valores de hCG em platô por mais de três semanas, ou elevação em três medidas por pelo menos duas semanas, ou coriocarcinoma histológico — qualquer um basta, sem biópsia e sem imagem. Estadiar com ultrassonografia transvaginal com Doppler e radiografia de tórax; sem nódulo, para por aí. Estádios I a III com escore até 6 são baixo risco e recebem agente único (metotrexato com ácido folínico, três ciclos de consolidação); estádio IV ou escore 7 ou mais é alto risco e recebe EMA-CO. Nova gravidez só depois de 12 meses do fim da quimioterapia, período em que ocorrem mais de 70% das recidivas.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 26 anos chega à emergência com sangramento vaginal em borra de café há uma semana e vômitos que não param, com 13 semanas pela última menstruação. A altura uterina está acima do esperado, a pressão é 150 x 98 mmHg e não se auscultam batimentos fetais. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.