Ginecologia e ObstetríciaHemorragias da gestação e do puerpério

Placenta prévia

A prova cobra três coisas: reconhecer o sangramento vermelho-vivo e indolor da segunda metade, não encostar o dedo no colo antes do ultrassom, e saber que a nomenclatura mudou — a classificação clássica em quatro graus e a binária convivem nos documentos brasileiros vigentes, e o que separa uma placenta prévia de uma inserção baixa é uma distância em milímetros.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos, G3P2, com 38 semanas de gestação, chega à maternidade com sangramento vaginal vermelho-vivo, indolor, de início súbito, sem contrações. O tônus uterino é normal, e há batimentos cardíacos fetais presentes e regulares. Não foi realizado toque vaginal. A ultrassonografia prévia (32 semanas) descrevia placenta de inserção baixa recobrindo o orifício interno. Qual é o diagnóstico mais provável?

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Como esse tema cai

Placenta prévia é o outro lado do par que a prova monta na segunda metade da gestação. A vinheta chega com sangue, e o avaliador quer ver você separar quatro causas antes de tocar em qualquer coisa. A tabela completa desse diferencial está no capítulo do descolamento prematuro de placenta; aqui interessa o que faz o quadro ser prévia: sangramento vermelho vivo, indolor, imotivado, que começa e cessa de repente, volta e vem pior a cada episódio — com útero mole, de tônus normal, indolor à palpação, e feto com batimentos preservados. Sangue escuro com útero lenhoso e doloroso é a outra doença.

O que faz este tema render questão, porém, não é o quadro clínico — é a nomenclatura. Ela mudou, e mudou pela metade. A classificação clássica em quatro graus (centro-total, centro-parcial, marginal e lateral ou baixa) foi substituída em boa parte da literatura por uma classificação binária: ou a placenta recobre o orifício interno do colo, e aí é placenta prévia, ou ela não recobre e a borda está a menos de 20 mm dali, e aí é placenta de inserção baixa. Vinte milímetros, dois centímetros: é este o número que separa as duas. O problema é que os documentos brasileiros vigentes não falam a mesma língua entre si — o Manual de Gestação de Alto Risco de 2022 imprime os quatro graus; o protocolo da FEBRASGO de 2018 e o protocolo de ultrassonografia da FEBRASGO de 2025 usam a binária. Você precisa das duas, e precisa saber traduzir uma na outra.

O resto do capítulo são três decisões e um número cada. Não fazer toque vaginal — o dedo descola a placenta do leito e transforma um sangramento moderado em hemorragia. Não fechar o diagnóstico cedo demais — antes da 26ª semana o achado é provisório, porque a maioria dessas placentas some do caminho quando o segmento inferior cresce. E não esperar o termo completo — o risco de a paciente sangrar de emergência sobe rápido depois das 36 semanas, e a resolução é eletiva, agendada, antes disso.

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O que muda decisão

Definição, e o número que separa prévia de inserção baixa

Placenta prévia é a implantação de tecido placentário no segmento inferior do útero, total ou parcialmente, recobrindo ou não o orifício interno do colo. É uma definição anatômica, e o adjetivo que a diferencia do descolamento prematuro está na outra doença: lá a placenta é normalmente inserida e se solta; aqui ela está no lugar errado desde o começo.

A idade gestacional a partir da qual se usa o nome varia entre os documentos e vale a pena guardar as três. O Manual de Gestação de Alto Risco define a condição a partir da 22ª semana. O protocolo da FEBRASGO fala em 'após 28 semanas de gestação'. O Green-top 27a autoriza o termo 'placenta baixa' a partir de 16 semanas, mas só para descrever o achado — não para dar o diagnóstico. Nenhum dos três está errado; os três estão descrevendo momentos diferentes do mesmo fenômeno, e o que resolve a confusão é a seção seguinte, sobre migração.

A classificação binária, que é a que domina a literatura recente, tem exatamente duas categorias e um número. Placenta prévia: a placenta recobre o orifício interno do colo, total ou parcialmente. Placenta de inserção baixa: a borda placentária não chega a recobrir o orifício, mas está a menos de 20 milímetros dele. A partir de 20 mm, a localização é registrada como normal e a gestante volta ao pré-natal de risco habitual. O protocolo de ultrassonografia da FEBRASGO de 2025 escreve o critério com a exigência técnica junto: placenta baixa é a borda inferior a menos de 2,0 cm do orifício interno 'em avaliação transvaginal, necessariamente'. A medida por via abdominal não serve para tomar essa decisão.

A classificação clássica tem quatro graus e continua impressa no documento oficial brasileiro. Centro-total ou completa: recobre inteiramente o orifício interno. Centro-parcial ou parcial: recobre parte dele. Marginal: a borda placentária atinge a borda do orifício, sem recobri-lo. Lateral ou baixa: implantação no segmento inferior sem atingir o orifício. A tradução entre os dois sistemas é direta e é o que a prova pode cobrar: centro-total e centro-parcial viraram 'placenta prévia'; marginal e lateral viraram 'placenta de inserção baixa'. O próprio protocolo da FEBRASGO escreve essa equivalência entre parênteses, chamando a prévia de 'anteriormente denominada centrototal ou centroparcial' e a inserção baixa de 'anteriormente denominada marginal'.

Por que a mudança aconteceu está dito, sem querer, no próprio Manual do Ministério: 'a classificação é dinâmica, pois poderá variar com o avanço da idade gestacional e também se o colo apresentar algum grau de dilatação'. É essa a fraqueza dos quatro graus. Uma placenta centro-parcial com o colo fechado pode virar centro-total quando o colo dilata, e a diferença entre 'marginal' e 'lateral' depende de um julgamento visual que dois examinadores fazem diferente. A binária troca o julgamento por uma régua: mede-se em milímetros a distância entre a borda placentária e o orifício interno, e a medida é reprodutível. A consolidação internacional veio na década de 2010 — o protocolo da FEBRASGO cita como referência o artigo de Dashe sobre padronização da terminologia de localização placentária, de 2013 — e a RCOG incorporou a nomenclatura binária na 4ª edição do Green-top 27a, em 2018, abandonando a divisão anterior entre prévia 'maior' e 'menor'.

Migração placentária: por que antes da 26ª semana o diagnóstico não fecha

A placenta não caminha. O que acontece é que o segmento inferior do útero, que praticamente não existe no segundo trimestre, se forma e se alonga ao longo do terceiro — e a borda placentária, que estava perto do orifício, fica cada vez mais longe dele. O nome 'migração placentária' é uma metáfora consagrada para um fenômeno de crescimento do continente, não de deslocamento do conteúdo.

Os números explicam por que não se fecha o diagnóstico cedo. O achado isolado de inserção placentária segmentar antes da 20ª semana ocorre em até 25% das gestantes normais — uma em cada quatro. Cerca de 90% das placentas baixas ou prévias identificadas no segundo trimestre deixam de sê-lo no terceiro trimestre ou no termo; esse número aparece igual no protocolo da FEBRASGO de 2018, no protocolo de ultrassonografia da FEBRASGO de 2025 e no Green-top 27a. A diretriz da AMB é ainda mais generosa, falando em resolução de 92% a 100% dos casos identificados no segundo trimestre. Ou seja: rotular uma gestante de 20 semanas como portadora de placenta prévia é, na maioria esmagadora das vezes, criar uma gestação de alto risco que não existe.

O número brasileiro para cravar é 26 semanas. O Manual de Gestação de Alto Risco é explícito: 'o diagnóstico ultrassonográfico de placenta prévia somente se estabelece após a 26ª semana de gestação'. Antes disso, o laudo descreve um achado, não uma doença.

O calendário de reavaliação difere um pouco entre os documentos, e todos são operacionais. A FEBRASGO orienta que, quando a suspeita surge antes de 28 semanas em paciente assintomática, uma nova ultrassonografia seja feita na 32ª semana. O Manual do Ministério manda repetir o exame com 28 semanas na gestante com prévia ou inserção baixa — não só para confirmar a localização, mas para procurar sinais de acretismo. A RCOG faz a reavaliação transvaginal na 32ª semana e, se a prévia persistir em paciente assintomática, mais uma por volta da 36ª semana, dessa vez para decidir a via de parto. Um dado prático fecha a seção: a migração é menos provável em quem já teve cesárea. A cicatriz ancora a placenta.

Há um corolário que a prova gosta de cobrar pelo avesso. Se a borda placentária está a 20 mm ou mais do orifício interno na ultrassonografia transvaginal, a localização é normal — não há estudo demonstrando aumento de risco de cesárea por hemorragia nesses casos, e não se cria vigilância nenhuma por causa disso. Já uma placenta que ultrapassa o orifício interno no segundo trimestre tem alta chance de ainda estar prévia na 32ª semana, embora a migração continue possível depois.

Fatores de risco: a cesárea manda, e manda em dose-resposta

A prevalência depende de quem se mede e de quando. O Manual de Gestação de Alto Risco registra 5,2 por 1.000 gestações (IC 95% 4,5 a 5,9). O protocolo da FEBRASGO fala em 0,26% a 1,0%. A diretriz da AMB, contando apenas gestações a termo, encontra 0,4% a 1,7%. Todos concordam em uma coisa: a incidência está subindo, e sobe porque o número de cesáreas sobe.

O fator de risco mais importante é a cesárea anterior, e a relação é de dose-resposta. A metanálise que a RCOG usa encontrou risco relativo de placenta prévia de 4,5 (IC 95% 3,6 a 5,5) para uma cesárea prévia, 7,4 (IC 95% 7,1 a 7,7) para duas, 6,5 (IC 95% 3,6 a 11,6) para três e 44,9 (IC 95% 13,5 a 149,5) para quatro ou mais, comparadas ao parto vaginal. O valor de três cesáreas sai fora da escada porque o intervalo de confiança é largo e o número de mulheres nessa faixa era pequeno; a tendência é o que importa. Uma revisão sistemática de 22 estudos com mais de dois milhões de partos traduz isso em números absolutos mais palatáveis: a incidência sobe de 10 em 1.000 partos com uma cesárea prévia para 28 em 1.000 com três ou mais.

Os demais fatores de risco são os mesmos nos documentos brasileiros e no britânico, com pesos menores. Reprodução assistida aumenta o risco de forma independente do número de gestações múltiplas que a técnica gera (RR 3,71 numa metanálise de 2016). Tabagismo aumenta modestamente (OR 1,42). Idade materna avançada aparece com efeito pequeno (OR 1,08), possivelmente explicado pela paridade que a acompanha. O Manual do Ministério acrescenta à lista: placenta prévia em gestação anterior, gestação múltipla, multiparidade, idade acima de 35 anos, uso de cocaína, curetagens e cirurgias uterinas prévias, e abortos eletivos ou espontâneos. O denominador comum de metade dessa lista é um endométrio previamente agredido.

Vale registrar o custo da condição, porque explica por que o planejamento do parto é tão detalhado. A presença de placenta prévia multiplica o risco de hemorragia no anteparto por 9,8, no intraparto por 2,5 e no pós-parto por 1,9. A perda sanguínea acima de 1.000 mL na cesárea é quase quatro vezes mais frequente do que em cesáreas por outras indicações (RR 3,97). E a placenta anterior, independentemente do tipo, sangra mais.

O quadro clínico e o exame que não se faz

As palavras do Manual de Gestação de Alto Risco merecem ser decoradas literalmente, porque são elas que aparecem nas alternativas: sangramento 'vermelho vivo, de início e cessar súbitos, indolor, imotivado, reincidente e progressivo'. O protocolo da FEBRASGO escreve praticamente o mesmo, acrescentando 'de gravidade progressiva' e 'na segunda metade da gravidez'. Traduzindo cada adjetivo: vermelho vivo porque é sangue materno arterializado do espaço interviloso, saindo direto pelo colo, sem ficar represado; imotivado porque não há trauma, esforço nem gatilho; reincidente e progressivo porque o primeiro episódio costuma ser pequeno e cada episódio seguinte é maior que o anterior.

O exame obstétrico é o que confirma. Útero de consistência normal, indolor, com tônus normal, e batimentos cardíacos fetais preservados. As condições fetais não se deterioram, a não ser que a hemorragia seja grave o bastante para levar a mãe ao choque — o feto sofre por consequência hemodinâmica materna, não por perda de superfície de troca. Contrações uterinas podem aparecer durante ou logo após o episódio de sangramento, mas nos intervalos o tônus volta ao normal. Apresentações fetais anômalas são frequentes, porque a placenta ocupa o espaço onde o polo cefálico se encaixaria, e a rotura prematura de membranas está associada.

A armadilha desta seção está num intervalo: em 10% a 20% dos casos a placenta prévia se apresenta com contrações uterinas, sangramento vaginal e dor — quadro que se confunde com o descolamento prematuro. 'Sangramento com dor, portanto não é prévia' é um raciocínio que erra em um a dois casos de cada dez. E do outro lado: em menos de 10% dos casos a gestante é assintomática e o diagnóstico cai no colo do obstetra num ultrassom de rotina do pré-natal.

O exame proibido é o toque vaginal. A FEBRASGO usa a palavra: 'o exame de toque vaginal é proscrito pelo risco de ocasionar hemorragia abundante'. O Manual do Ministério repete: 'não se deve proceder com o exame de toque vaginal, pelo risco de agravamento no quadro hemorrágico'. O mecanismo é mecânico e imediato — o dedo entra no canal cervical, encontra tecido placentário aderido ao segmento inferior e o descola do leito, abrindo seios venosos que sangram sem contenção. Nunca se faz toque em sangramento da segunda metade antes de a placenta prévia estar afastada, seja por ultrassonografia daquele atendimento, seja por exame prévio conhecido e confiável.

O exame especular, ao contrário, é permitido e útil. Ele mostra se o sangue vem do orifício do colo ou está acumulado na vagina, estima o volume, e afasta as causas do trato genital inferior que entram no diferencial e não têm nada a ver com a placenta: pólipos, ectrópio sangrante, lesões cervicais e tumores. O espéculo não toca a placenta; o dedo, sim.

Diagnóstico: ultrassonografia transvaginal, e por que ela é segura

A ultrassonografia transvaginal é o padrão-ouro para o diagnóstico de placenta prévia — isso está no Manual de Gestação de Alto Risco e no protocolo da FEBRASGO, com a mesma palavra. Parece paradoxal proibir o dedo e liberar o transdutor, e a explicação é geométrica: o transdutor é introduzido com cuidado sob visão da tela e permanece a cerca de 2,0 cm do lábio anterior do colo, sem entrar no canal cervical e sem encostar no orifício interno nem na placenta. O ângulo entre o eixo do transdutor e o canal cervical faz com que a sonda não avance sobre o orifício mesmo se empurrada. É por isso que a via transvaginal é reconhecida como segura, e a experiência acumulada confirma.

Ela também é melhor. A via abdominal tem dificuldade para ver a placenta posterior, para avaliar o segmento inferior quando a apresentação fetal o encobre e para atravessar a parede abdominal na obesidade materna ou na presença de miomas grandes — e ainda exige repleção vesical parcial, que por si só distorce a relação entre a borda placentária e o colo. Na comparação direta, a via transvaginal reclassifica entre 26% e 60% das placentas ditas baixas na avaliação abdominal. A acurácia é alta: valor preditivo positivo de 93,3%, valor preditivo negativo de 97,6%, sensibilidade de 87,5% e especificidade de 98,8%.

Há um dado adicional que a via transvaginal fornece de graça e que muda o planejamento: o comprimento do colo. Colo curto medido antes de 34 semanas aumenta o risco de parto de emergência prematuro e de hemorragia maciça na cesárea. Num estudo prospectivo, o melhor ponto de corte para identificar quem vai precisar de cesárea antes de 34 semanas foi comprimento cervical de 31 mm ou menos, com razão de chances de 16,4 para cesárea de emergência por hemorragia maciça; colo abaixo de 25 mm associou-se a risco relativo de 7,2 para hemorragia maciça durante a cesárea. Não é um número de rotina no Brasil, mas é o tipo de dado que aparece em enunciado de banca que quer testar profundidade.

A ressonância magnética não é exame de diagnóstico de placenta prévia. O Manual do Ministério é direto sobre a razão: alto custo, disponibilidade limitada, e a segurança e a precisão já bem estabelecidas da ultrassonografia transvaginal. A ressonância entra em outra pergunta — a do acretismo, e mesmo aí só quando a ultrassonografia não esclarece, tipicamente na placenta de localização posterior ou na obesidade materna. Duas limitações honestas da ultrassonografia merecem registro: a placenta prévia de inserção posterior pode ser difícil de ver mesmo por via transvaginal, e a presença de hematoma pode obscurecer a relação entre a borda placentária e o orifício cervical.

Corte sagital do segmento inferior do útero com o transdutor transvaginal parado a distância do colo, o feixe de ultrassom abrangendo o orifício interno e a borda inferior da placenta.
O transdutor transvaginal fica a cerca de 2 cm do lábio anterior do colo e não entra no canal cervical: enxerga a relação entre a borda placentária e o orifício interno sem tocar a placenta. É por isso que o exame é seguro onde o toque vaginal é proscrito.

Gestante estável no pré-termo: internar, esperar e o que dar

A primeira decisão é sobre o lugar. O Manual de Gestação de Alto Risco não abre exceção: 'todas as pacientes com sangramento da segunda metade da gravidez têm indicação de internação para avaliação materna e fetal'. Internada, a gestante fica em repouso no leito até que a hemorragia esteja estabilizada, com o sangramento cessado por seis horas. A conduta expectante é a regra em gestação longe do termo, quando não se espera maturidade fetal e nenhum elemento indica resolução imediata.

O pacote inicial é enxuto e conhecido: dois acessos venosos calibrosos, reposição volêmica para manter estabilidade hemodinâmica e débito urinário acima de 30 mL/h, aferição de sinais vitais a cada hora ou em intervalos menores conforme a intensidade do sangramento, e reserva de sangue providenciada. Os exames laboratoriais são tipagem sanguínea, hemograma completo, ureia e creatinina e coagulograma. A avaliação do bem-estar fetal é obrigatória, porque a anemia materna promove hipóxia fetal. Gestante Rh negativa recebe imunoglobulina anti-D nas situações indicadas.

O critério de transfusão é um número: pode haver necessidade de transfusão sanguínea 'principalmente quando a hemoglobina materna for inferior a 8,0 g/dL'. Fora da urgência, a lógica é a de qualquer gestante — prevenir e tratar anemia no pré-natal, e a FEBRASGO recomenda ferro elementar 60 mg por via oral, três a quatro vezes ao dia, para quem está em conduta expectante. Vale antecipar uma conversa que a RCOG coloca no protocolo e que muda logística: indicações de transfusão e de histerectomia devem ser discutidas e documentadas antes do parto, incluindo eventual recusa de hemoderivados, porque nesses casos a recuperação intraoperatória de sangue (cell salvage) precisa estar disponível.

Corticoide: o Manual do Ministério indica corticoterapia para acelerar a maturidade pulmonar fetal nas gestações abaixo de 34 semanas — é este o número brasileiro. A FEBRASGO estreita a janela para 25 a 34 semanas e condiciona à vigência de hemorragia, de forma individualizada. A RCOG desenha a janela em outro lugar, de 34+0 a 36+0 semanas para toda gestante com prévia ou inserção baixa, e antes de 34+0 apenas para quem tem risco aumentado de parto prematuro — a diferença está registrada no bloco de divergências.

Tocólise: o Manual de Gestação de Alto Risco fecha a porta com uma frase — 'não há evidência que justifique o uso da tocólise em casos de placenta prévia'. A FEBRASGO chama a questão de controversa por falta de estudos prospectivos e faz uma ressalva farmacológica que é boa de saber: betamiméticos devem ser evitados porque mascaram sinais clínicos de hipovolemia, especialmente a taquicardia, atrapalhando justamente o parâmetro que se está monitorando. Também não há espaço para cerclagem: a RCOG registra que a evidência não sustenta seu uso fora de ensaio clínico, e os documentos brasileiros sequer a contemplam.

O prognóstico da conduta expectante é melhor do que a cena sugere: 75% dos episódios de sangramento são autolimitados, sem risco imediato para a mãe ou o feto, e em 50% dos casos o parto pode ser adiado por pelo menos quatro semanas. Na expectância, a orientação brasileira é reavaliar quinzenalmente o crescimento fetal e a localização placentária, para programar o parto. As orientações de rotina para a gestante assintomática incluem evitar atividade física exagerada e relações sexuais, principalmente depois da 28ª semana, e procurar o hospital diante de qualquer sinal de sangramento — a RCOG detalha o gatilho para quem está em casa, incluindo spotting, contrações e até dor suprapúbica vaga, do tipo cólica menstrual.

Sobre manter a paciente em casa ou no hospital depois que o sangramento parou, os documentos divergem de forma organizada e a divergência está no bloco próprio. Em resumo operacional: a FEBRASGO admite controle domiciliar para casos selecionados em que o sangramento cessou espontaneamente por no mínimo 48 horas com a paciente clinicamente estável, desde que ela entenda o diagnóstico e os riscos, consiga chegar rápido ao hospital e mantenha repouso relativo e abstinência sexual. O Manual do Ministério trata a alta como excepcional, para pouquíssimas pacientes selecionadas, ponderando que a internação prolongada garante repouso e atendimento imediato a uma nova hemorragia, mas tem custo financeiro e emocional alto.

Momento e via de parto: por que não se espera o termo completo

A resposta brasileira ao 'quando' é 36 semanas. O Manual de Gestação de Alto Risco escreve: 'alcançada a maturidade fetal, com 36 semanas, é indicada a resolução da gestação'. O protocolo da FEBRASGO de 2018 marca outro ponto — indica resolução por cesárea diante de sangramento incontrolável, vitalidade fetal alterada, maturidade fetal comprovada ou idade gestacional acima de 37 semanas. A RCOG separa dois cenários: prévia não complicada, parto entre 36 e 37 semanas; prévia complicada — quem já sangrou, tem colo curto ou fatores preditores de parto de emergência —, parto tardio pré-termo, entre 35+1 e 36+6 semanas.

O 'por que não esperar' tem números claros e são eles que sustentam a antecipação. O risco de a paciente ter um sangramento que obrigue a parto de emergência é de 4,7% até 35 semanas, 15% até 36, 30% até 37 e 59% até 38 semanas de gestação. Ou seja: passar das 37 para as 38 semanas transforma uma minoria de emergências em maioria. Um parto agendado, com equipe combinada, sangue reservado e anestesia planejada, é sistematicamente mais seguro do que a mesma cesárea feita às três da manhã com a paciente sangrando.

O preço da antecipação é honesto e conhecido. Comparados a recém-nascidos de 38 semanas, os nascidos com 35, 36 e 37 semanas não têm mais chance de mecônio, sofrimento fetal, anemia fetal, convulsão neonatal, necessidade de ventilação ou morte no primeiro ano. Têm, sim, mais chance de Apgar abaixo de 7 no quinto minuto (razão de chances ajustada de 3,33 com 35 semanas e 2,17 com 36) e mais admissão em UTI neonatal (2,25 e 1,57). É um custo neonatal leve e transitório trocado por uma redução real de hemorragia materna maciça — e é essa a conta que justifica o número.

A via, na placenta prévia propriamente dita, é a cesárea. A diretriz da AMB registra que a indicação de cesárea eletiva é consensual na centro-total e na centro-parcial; é indicação absoluta. A discussão real acontece embaixo do orifício. O Manual do Ministério admite o parto vaginal 'nas placentações laterais e/ou marginais'; a FEBRASGO admite 'em casos selecionados de placentas de inserção baixa, sem complicações'. A diretriz da AMB traz a evidência quantitativa: com a borda a mais de 20 mm do orifício interno o parto vaginal parece seguro; com a borda a menos de 20 mm, a indicação de cesárea eletiva não tem evidência suficiente para ser recomendada de rotina — e, na prática das séries publicadas, borda a menos de 10 mm resultou em cesárea em todas as pacientes, e entre 10 e 20 mm, em 90% delas. As taxas de sucesso de parto vaginal na faixa de 10 a 20 mm variam de 56% a 93% entre estudos, o que é outra forma de dizer que a decisão é individual e depende de espessura da borda, posição da apresentação e do serviço.

Se a via vaginal for escolhida, há um detalhe técnico que a prova cobra: as membranas devem ser rompidas precocemente, porque a apresentação fetal desce e tampona o bordo placentário, reduzindo o sangramento. A monitorização fetal intraparto é contínua, a ocitocina é usada com segurança e o misoprostol é contraindicado.

Na cesárea, o planejamento começa antes da incisão: a localização exata da placenta precisa ser conhecida — a RCOG sugere usar ultrassonografia pré ou intraoperatória para escolher o lugar da histerotomia — e sangue e hemoderivados precisam estar disponíveis na sala. A histerotomia transversa serve nas placentas posteriores e nas anteriores sem acretismo. A incisão segmento-corporal ou corporal vertical entra quando o segmento inferior não está formado, quando ele tem vasos muito calibrosos ou quando há suspeita de acretismo; a decisão sobre o tipo de incisão é tomada com a cavidade abdominal aberta, inspecionando o segmento diretamente. Se a placenta ficar à mostra, ela é descolada manualmente no sentido da menor área placentária; se for transectada pela incisão, o cordão é clampeado imediatamente após a extração fetal, para evitar perda sanguínea fetal. A anestesia regional é considerada segura e associa-se a menos hemorragia do que a geral, mas a paciente com placenta anterior deve ser avisada e consentir com a possibilidade de conversão.

Depois da dequitação, o leito placentário é revisado sistematicamente. O risco de hemorragia pós-parto é maior nessas pacientes por uma razão anatômica: o segmento inferior tem pouca musculatura e contrai mal, então a ligadura viva das miofibrilas que estanca o sangramento no corpo uterino não funciona ali. Se houver sangramento do leito, além da ocitocina cabem compressão com compressas e pontos hemostáticos (capitonagem); persistindo, ligadura das artérias uterinas ou hipogástricas e, no limite, histerectomia. O parto deve acontecer em maternidade com serviço de transfusão no local e acesso a terapia intensiva.

Acretismo: o que a placenta prévia obriga a procurar

Placenta prévia e cesárea anterior são a combinação que produz acretismo placentário, e a associação é forte o bastante para virar regra de rastreio. Os números vêm do estudo de Silver e colaboradores, de 2006, e estão reproduzidos tanto no Manual de Gestação de Alto Risco quanto no protocolo da FEBRASGO: na presença de placenta prévia, o risco de acretismo é de 3% sem cesárea anterior, 11% com uma cesárea, 40% com duas, 61% com três e 67% com quatro ou mais. Sair de uma para duas cesáreas quadruplica o risco.

A regra prática que decorre disso é curta: sempre que houver placenta prévia em paciente com cesárea anterior, o acretismo deve ser ativamente buscado. O Manual do Ministério manda repetir a ultrassonografia com 28 semanas na gestante com prévia ou inserção baixa, tanto para confirmar a localização quanto para procurar os sinais de acretismo — e explica por que o momento importa: o acretismo é condição progressiva, e as imagens mudam com o avanço da idade gestacional. A FEBRASGO acrescenta um sinal clínico contraintuitivo e muito cobrado: 'na presença de placenta prévia que não sangra, deve-se suspeitar de acretismo'.

Os sinais ultrassonográficos que mudam o planejamento são: perda do espaço hipoecoico retroplacentário, adelgaçamento do miométrio subjacente, irregularidade da interface entre útero e bexiga, protrusão da placenta para a bexiga, lacunas irregulares, aumento da vascularização útero-vesical ou subplacentária e fluxo turbulento ao Doppler. O protocolo de ultrassonografia da FEBRASGO de 2025 quantifica e nomeia alguns deles: miométrio subjacente abaixo de 1 mm, lacunas múltiplas, grandes e irregulares — a chamada 'placenta em queijo suíço' — e os 'vasos em ponte' entre o útero e a bexiga. A predição do grau de invasão tem sensibilidade alta, de 80% a 100%, mas especificidade baixa, de 40% a 77%: o exame acha, mas superestima. A ressonância magnética entra como método complementar quando a ultrassonografia não esclarece, sobretudo na placenta posterior e na obesidade materna, e para avaliar a extensão da invasão.

O que muda quando o acretismo é suspeitado são três coisas, e é isso que a prova cobra deste capítulo. Muda o lugar: a gestante é encaminhada a serviço de referência terciário, com UTI adulta e neonatal, banco de sangue e obstetras e anestesistas experientes. Muda a equipe: retaguarda cirúrgica de urologia, cirurgia geral e vascular precisa estar combinada, e o protocolo de transfusão maciça acionado previamente. E muda a data: o Manual do Ministério programa o parto entre 35 semanas e 36 semanas e 6 dias, com planejamento de cesárea-histerectomia com a placenta in situ; o protocolo da FEBRASGO de 2018 escreve 36 a 37 semanas. O manejo cirúrgico do acretismo — histerotomia que evita a placenta, proibição de tentar descolamento manual, histerectomia total com a placenta deixada no lugar — é assunto do capítulo de acretismo placentário e rotura uterina.

Sangramento maciço: quando a idade gestacional deixa de importar

Há uma frase no Manual de Gestação de Alto Risco que resolve metade das questões de conduta deste tema: 'nos casos de hemorragia grave, a interrupção imediata da gestação é obrigatória, independentemente da idade gestacional, pelo elevado risco materno e fetal'. Não há corticoide a esperar, não há tocólise a tentar, não há prematuridade que justifique adiar. A cesariana é a via preferencial.

O gatilho, no protocolo da FEBRASGO, é escrito em termos hemodinâmicos: indica-se resolução imediata diante de sangramento materno incontrolável, entendido como o que produz alteração hemodinâmica, ou de vitalidade fetal alterada. Enquanto a sala é preparada, mantém-se o mesmo pacote da estabilização — dois acessos calibrosos, cristaloide, débito urinário acima de 30 mL/h, monitorização a cada 15 minutos a 1 hora conforme a intensidade, e hemoderivados disponibilizados conforme a necessidade. Se o sangramento for abundante, o coagulograma completo entra na avaliação: fibrinogênio, plaquetas, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada.

Se as medidas farmacológicas não controlarem a hemorragia depois do parto, a orientação da RCOG é temporal e vale como princípio: iniciar tamponamento intrauterino e as técnicas cirúrgicas hemostáticas cedo, e não tarde. A sequência disponível é capitonagem do leito placentário, ligadura das artérias uterinas ou hipogástricas, técnicas de radiologia intervencionista onde houver, e histerectomia. Dispositivos de infusão rápida e aquecimento de fluidos precisam estar imediatamente disponíveis, e a recuperação intraoperatória de sangue é recomendada quando a perda esperada for grande o bastante para causar anemia — em particular na paciente que recusa hemoderivados.

Duas travas fecham o assunto. Se houver acretismo parcial ou total, a histerectomia é a terapêutica indicada, e não se tenta descolamento manual da placenta em nenhuma hipótese — a tentativa é o que transforma sangramento em catástrofe. E a gestante Rh negativa recebe imunoglobulina anti-D: sangramento vaginal na segunda metade é evento sensibilizante, e a profilaxia não pode ser esquecida no meio da urgência.

04

Onde está a borda da placenta: as duas nomenclaturas na mesma régua

A classificação é uma gradação real, e ela se lê de um jeito só: encontre o orifício interno do colo na ultrassonografia transvaginal e pergunte onde está a borda inferior da placenta em relação a ele. Recobre? É prévia. Não recobre, mas está perto? Meça em milímetros. A partir daí, cada sistema de nomenclatura dá um nome diferente ao mesmo achado — e o achado é que decide a conduta, não o nome.

  1. 1Sangramento vermelho-vivo e indolor na segunda metade da gestação: suspeite de placenta prévia e não faça toque vaginal.
  2. 2Exame especular para ver a origem do sangue e afastar causa cervical; monitorização materna e fetal; internação.
  3. 3Ultrassonografia transvaginal: localize o orifício interno do colo e meça a distância até a borda inferior da placenta.
  4. 4Recobre o orifício, total ou parcialmente, é placenta prévia. Não recobre e a borda está a menos de 20 mm, é placenta de inserção baixa. A 20 mm ou mais, a localização é normal e a gestante volta ao pré-natal de risco habitual.
  5. 5Antes da 26ª semana o achado é provisório — cerca de 90% resolvem com o crescimento do segmento inferior. Reavalie no terceiro trimestre: 28 semanas pelo Manual do Ministério, 32 semanas pela FEBRASGO e pela RCOG.
  6. 6Cesárea anterior somada a placenta prévia: procure sinais de acretismo na mesma ultrassonografia e repita com 28 semanas. Prévia que não sangra reforça a suspeita.
  7. 7Programe a resolução: 36 semanas pelo Manual do Ministério; antecipe e mude o lugar do parto se houver sinais de acretismo.

Centro-total (clássica) = placenta prévia (binária)

A placenta recobre inteiramente o orifício interno do colo. Distância à borda: não se aplica — não há borda livre entre a placenta e o orifício. Cesárea é indicação absoluta.

Centro-parcial (clássica) = placenta prévia (binária)

A placenta recobre parte do orifício interno. É a categoria mais instável da nomenclatura antiga: com o colo dilatando, uma centro-parcial pode virar centro-total. Cesárea é indicação absoluta.

Marginal (clássica) = placenta de inserção baixa (binária)

A borda placentária atinge a borda do orifício interno, sem recobri-lo: distância zero. Aqui a tradução entre os dois sistemas costuma escapar — na nomenclatura antiga é um grau próprio, na binária já é inserção baixa, porque não cobre o orifício.

Lateral ou baixa (clássica) = placenta de inserção baixa (binária)

A borda placentária fica no segmento inferior, sem atingir o orifício, a menos de 20 mm dele. É a faixa em que a via de parto se individualiza: abaixo de 10 mm a cesárea foi a regra nas séries publicadas; entre 10 e 20 mm não há evidência que sustente indicá-la de rotina.

Localização normal — borda a 20 mm ou mais do orifício

Fora da faixa dos 20 mm, a placenta é registrada como normalmente inserida. Não há vigilância adicional, não há restrição, e a via de parto segue a indicação obstétrica habitual. É este o alvo da migração placentária.

Nome clássico (quatro graus)Nome binário atualOnde está a borda placentáriaVia de parto
Centro-total ou completaPlacenta préviaRecobre inteiramente o orifício internoCesárea eletiva — indicação absoluta e consensual
Centro-parcial ou parcialPlacenta préviaRecobre parte do orifício internoCesárea eletiva — indicação absoluta e consensual
MarginalPlacenta de inserção baixaA borda atinge a borda do orifício interno, sem recobri-lo (distância zero)Cesárea na maioria dos serviços; o Manual do Ministério admite via vaginal nas placentações marginais, com amniotomia precoce
Lateral ou baixaPlacenta de inserção baixaBorda no segmento inferior, sem atingir o orifício, a menos de 20 mm deleIndividualizada: abaixo de 10 mm a cesárea foi a regra nas séries; entre 10 e 20 mm não há evidência suficiente para indicar cesárea eletiva de rotina
— (sem correspondente)Placenta normalmente inseridaBorda a 20 mm ou mais do orifício internoPré-natal de risco habitual; via de parto pela indicação obstétrica

A medida vale por via transvaginal. O protocolo de ultrassonografia da FEBRASGO de 2025 escreve a exigência: placenta baixa é a borda a menos de 2,0 cm do orifício interno 'em avaliação transvaginal, necessariamente'. A via abdominal reclassifica errado entre 26% e 60% das vezes e ainda exige repleção vesical, que distorce a relação com o colo.

Nenhum desses nomes fecha diagnóstico antes da 26ª semana. Até 25% das gestantes normais têm inserção segmentar antes da 20ª semana e cerca de 90% dessas placentas deixam de estar baixas no terceiro trimestre. O laudo precoce descreve um achado, não uma doença.

A classificação clássica muda com a dilatação do colo — uma centro-parcial pode virar centro-total durante o trabalho de parto. É exatamente essa instabilidade que motivou a troca por um critério medido em milímetros.

Placenta anterior sangra mais. Prévia recobrindo o orifício e placentação anterior são fatores de risco independentes para hemorragia maciça na cesárea (razão de chances de 4,1 e 3,5, respectivamente), e a perda acima de 1.000 mL é quase quatro vezes mais frequente do que em cesáreas por outras indicações.

Trilha rápida: sangramento vermelho e indolor → não fazer toque digital → localizar por ultrassonografia transvaginal → estabilizar se sangramento ativo → pesquisar acretismo quando prévia e cicatriz → programar parto conforme posição e recorrência.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Classificação: quatro graus clássicos ou nomenclatura binária

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022): quatro graus

O Quadro 1 do item 5.1 classifica a placenta prévia em quatro tipos pela relação com o orifício interno: centro-total ou completa (recobre totalmente), centro-parcial ou parcial (recobre parcialmente), marginal (a borda atinge a borda do orifício) e lateral ou baixa (implantação no segmento inferior sem atingir o orifício). O próprio texto reconhece que a classificação é dinâmica e varia com a idade gestacional e com a dilatação do colo. Não há distância em milímetros no quadro.

Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, item 5.1.3, Quadro 1 (fonte declarada: Nomura, 2021)

FEBRASGO (2018 e 2025) e RCOG (2018): binária, com a distância como critério

Duas categorias. Placenta prévia quando a placenta recobre total ou parcialmente o orifício interno; placenta de inserção baixa quando a borda não atinge o orifício e está em um raio de 2 cm dele. O protocolo da FEBRASGO de 2018 registra a equivalência com os nomes antigos entre parênteses: prévia era centrototal ou centroparcial, inserção baixa era marginal. O protocolo de ultrassonografia da FEBRASGO de 2025 mantém o critério e acrescenta a exigência de medida transvaginal. A RCOG usa a mesma partição com 20 mm e reserva o termo 'placenta prévia' para a placenta que está diretamente sobre o orifício.

Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 26 (2018), seção 'Definição e classificação'; Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 43, Femina 2025;53(6):821-30; RCOG Green-top Guideline No. 27a (2018), item 4.2

Diretrizes AMB / FEBRASGO (2015): híbrida — quatro graus com a distância dentro do quarto

Mantém os quatro nomes clássicos e define o grau lateral já pela régua: 'placenta de inserção baixa onde a distância do bordo da placenta ao OIC, sem margeá-lo, é menor que 20 mm'. É o documento que mostra a transição acontecendo — o vocabulário antigo com o critério novo embutido.

Diretrizes AMB, autoria FEBRASGO. Cesariana na inserção baixa de placenta, 2015, Introdução

Na prova

O vocabulário do enunciado entrega o documento. Palavras como 'centro-total', 'centro-parcial' e 'placenta prévia marginal' só existem no sistema clássico, e é nele que o Manual de Gestação de Alto Risco continua escrevendo — enunciado de cenário SUS, pré-natal de alto risco na rede, ou que cite nominalmente o Ministério da Saúde, tende a esse vocabulário. Uma alternativa que traz distância em milímetros ao orifício interno, ou que oponha apenas duas categorias ('prévia' contra 'inserção baixa'), está no mundo da FEBRASGO e da RCOG. A causa da divergência é de data, não de conteúdo clínico: a partição binária consolidou-se na literatura internacional na década de 2010, a FEBRASGO a adotou em 2018 e a RCOG na 4ª edição do Green-top 27a, também em 2018, enquanto o manual brasileiro de 2022 reproduziu um quadro de classificação da tradição anterior. Os dois sistemas descrevem os mesmos achados, e centro-total e centro-parcial correspondem a 'placenta prévia' enquanto marginal e lateral correspondem a 'inserção baixa'.

A partir de qual idade gestacional o diagnóstico se estabelece

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022): define a partir de 22 semanas, mas só fecha após 26

Define placenta prévia como a que se implanta no segmento inferior 'a partir da 22ª semana de gestação' e, adiante, crava a regra do diagnóstico: 'o diagnóstico ultrassonográfico de placenta prévia somente se estabelece após a 26ª semana de gestação'. Justifica com o achado de inserção segmentar antes da 20ª semana em até 25% das gestantes normais e com a possibilidade de migração mesmo após a 22ª semana.

Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, itens 5.1.1 e 5.1.3

FEBRASGO (2018): define após 28 semanas, com reavaliação na 32ª

A definição do protocolo é 'presença de tecido placentário total ou parcialmente inserido no segmento inferior do útero, após 28 semanas de gestação'. Se a suspeita aparecer antes de 28 semanas em paciente assintomática, uma nova ultrassonografia deve ser feita na 32ª semana, porque cerca de 90% das placentas prévias diagnosticadas no segundo trimestre não se confirmam no termo.

Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 26 (2018), seções 'Definição e classificação' e 'Diagnóstico ultrassonográfico'

RCOG (2018): o termo vale desde 16 semanas; o que se agenda é a reavaliação

Autoriza o termo 'placenta baixa' para gestações acima de 16 semanas sempre que a borda estiver a 20 mm ou menos do orifício interno, tratando o achado do ultrassom morfológico como rastreio e não como diagnóstico. A confirmação vem por ultrassonografia transvaginal na 32ª semana e, se persistir em paciente assintomática, por mais uma por volta da 36ª semana, esta última já voltada para a decisão da via de parto.

RCOG Green-top Guideline No. 27a (2018), itens 4.2 e 4.3

Na prova

A diferença é de função, e o enunciado costuma revelar qual delas está sendo testada. Quando a questão pergunta 'a partir de quando se pode afirmar que esta gestante tem placenta prévia', está atrás do diagnóstico, e o número brasileiro é 26 semanas. Quando a questão descreve um laudo de segundo trimestre e pergunta o que fazer, está atrás do calendário de reavaliação — e aí o cenário decide: enunciado que segue o pré-natal da rede tende ao Manual do Ministério, que manda repetir com 28 semanas; enunciado que cita a FEBRASGO ou a RCOG traz a 32ª semana. Um distrator que ofereça 'confirmar o diagnóstico e programar o parto' já no exame morfológico do segundo trimestre está fora dos três documentos ao mesmo tempo, porque nenhum deles fecha diagnóstico ali.

Idade gestacional do parto eletivo na placenta prévia

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022): 36 semanas

Na conduta expectante, com reavaliação quinzenal do crescimento fetal e da localização placentária: 'alcançada a maturidade fetal, com 36 semanas, é indicada a resolução da gestação'. Diante de hemorragia grave, a interrupção é imediata e independe da idade gestacional.

Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, item 5.1.4

FEBRASGO (2018): acima de 37 semanas, por cesárea

A conduta ativa é indicada diante de sangramento materno incontrolável com alteração hemodinâmica, vitalidade fetal alterada, maturidade fetal comprovada ou idade gestacional acima de 37 semanas, por cesárea.

Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 26 (2018), seção 'Ativa'

RCOG (2018): 36 a 37 semanas na não complicada; 35+1 a 36+6 na complicada

Separa dois cenários. Na placenta prévia não complicada, parto agendado por cesárea entre 36 e 37 semanas, porque o risco de hemorragia maior cresce rapidamente depois das 36. Na prévia complicada — sangramentos prévios, colo curto, preditores de parto de emergência —, parto tardio pré-termo, entre 35+1 e 36+6 semanas. Sustenta os números com o risco de sangramento de emergência que sobe de 4,7% até 35 semanas para 15% até 36, 30% até 37 e 59% até 38.

RCOG Green-top Guideline No. 27a (2018), item 4.8

Na prova

Os três documentos concordam no essencial — não se espera o termo completo — e diferem em uma semana. Enunciado de conduta em rede pública, pré-natal de alto risco do SUS ou menção nominal ao Ministério da Saúde aponta para 36 semanas. Alternativas que separem 'com sangramento prévio' de 'sem sangramento prévio', ou que escrevam a idade gestacional com dias (35+1, 36+6), são vocabulário do Green-top e denunciam o recorte britânico. Se as alternativas incluírem 39 ou 40 semanas, o que a questão está testando não é a semana exata e sim o princípio: a resolução é eletiva e antecipada, e a curva de risco de sangramento de emergência é o argumento. Régua útil: prova oficial do MEC tende a conduta SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Depois que o sangramento cessou: internação ou manejo ambulatorial

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022): internação é a regra, casa é exceção

'Todas as pacientes com sangramento da segunda metade da gravidez têm indicação de internação para avaliação materna e fetal', com repouso no leito até cessação do sangramento por seis horas. A internação prolongada garante repouso, avaliação contínua e atendimento imediato a nova hemorragia, ao custo financeiro e emocional elevado; o repouso domiciliar aparece como possibilidade 'excepcionalmente, para algumas poucas pacientes selecionadas', após estabilização e avaliação do suporte familiar, e é motivado sobretudo por reduzir a angústia da hospitalização prolongada.

Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, item 5.1.4

FEBRASGO (2018): controle domiciliar com critérios objetivos

Para casos selecionados com sangramento vaginal inicial que cessou espontaneamente por no mínimo 48 horas e paciente clinicamente estável, o controle domiciliar pode ser proposto. Exige que a gestante entenda o diagnóstico e os riscos, seja capaz de chegar rapidamente ao hospital quando necessário e mantenha repouso relativo e abstinência sexual.

Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 26 (2018), seção 'Expectante'

RCOG (2018): decisão individualizada por logística, não por protocolo fixo

Orienta ajustar o cuidado pré-natal, inclusive a hospitalização, à necessidade da paciente e às circunstâncias sociais: distância entre casa e hospital, disponibilidade de transporte, episódios de sangramento prévios, resultados hematológicos e aceitação de receber sangue ou hemoderivados. Registra que o único ensaio randomizado disponível, pequeno, não achou vantagem clara de um regime sobre o outro além da redução do tempo de internação, e exige que a paciente em casa saiba que deve ir ao hospital diante de qualquer sangramento, inclusive spotting, contrações ou dor suprapúbica vaga.

RCOG Green-top Guideline No. 27a (2018), item 4.4

Na prova

A causa da diferença é logística, não clínica, e o enunciado costuma plantá-la no cenário. Onde a paciente mora longe do hospital, depende de transporte que não existe de madrugada, ou está num serviço sem banco de sangue, a internação deixa de ser conservadorismo e vira a única forma de garantir resposta em minutos — é essa a realidade que o Manual do Ministério assume ao internar todo mundo. Enunciado que descreve residência próxima ao hospital, acompanhante disponível, transporte garantido e 48 horas sem sangrar está montando o cenário em que o documento da FEBRASGO admite o domicílio. E enunciado que enumera fatores sociais para pesar a decisão está falando a língua do Green-top. Nenhum dos três libera para casa a paciente que ainda sangra.

Tocólise e corticoide na placenta prévia pré-termo

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022): sem tocólise; corticoide abaixo de 34 semanas

Escreve que 'não há evidência que justifique o uso da tocólise em casos de placenta prévia' e indica corticoterapia para acelerar a maturidade pulmonar fetal nas gestações abaixo de 34 semanas.

Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco, 6ª ed., 2022, item 5.1.4

FEBRASGO (2018): tocólise controversa, betamiméticos evitados; corticoide de 25 a 34 semanas

Registra que a administração de qualquer tocolítico na placenta prévia com trabalho de parto prematuro permanece controversa por falta de estudos prospectivos, e recomenda evitar betamiméticos porque mascaram sinais clínicos de hipovolemia, especialmente a taquicardia, dificultando o controle clínico. O corticoide é administrado de forma individualizada entre 25 e 34 semanas, na vigência de hemorragia.

Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 26 (2018), seções 'Tratamento' e 'Expectante'

RCOG (2018): tocólise por 48 horas só para viabilizar o corticoide; corticoide de 34+0 a 36+0

Admite tocólise por 48 horas na paciente sintomática, com o objetivo declarado de permitir a administração do corticoide, e proíbe usá-la para prolongar a gestação quando já existe indicação de parto por motivo materno ou fetal. O ciclo único de corticoide é recomendado entre 34+0 e 36+0 semanas para toda gestante com prévia ou inserção baixa, e antes de 34+0 apenas nas de maior risco de parto prematuro. Sobre cerclagem, registra que a evidência não sustenta seu uso fora de ensaio clínico.

RCOG Green-top Guideline No. 27a (2018), itens 4.5, 4.6 e 4.7

Na prova

Duas pistas separam os mundos. A primeira é a própria existência da tocólise entre as alternativas: qualquer opção que ofereça inibir o trabalho de parto para ganhar semanas está fora dos documentos brasileiros, que não veem evidência para isso — mas 'tocólise por 48 horas para completar o ciclo de corticoide' é uma frase inteiramente britânica e coerente com o Green-top. A segunda é a janela do corticoide: 34 semanas como teto é a régua brasileira; 34+0 a 36+0 como janela principal, com a notação em dias, é a régua da RCOG. A causa é de data e de população: o corticoide tardio, entre 34 e 36 semanas, entrou nas diretrizes internacionais depois de 2016 e ainda não foi incorporado ao manual brasileiro. Cerclagem não aparece em nenhum documento brasileiro como opção, e o único que a menciona o faz para dizer que a evidência é insuficiente fora de pesquisa.

06

Caso resolvido

Gestante de 34 anos, G4P3 (três cesáreas anteriores), com 30 semanas, chega ao pronto-socorro obstétrico referindo perda de sangue vaginal vermelho vivo, de início súbito há duas horas, sem dor e sem qualquer fator desencadeante. Refere um episódio semelhante e menor há três semanas, que cessou sozinho e pelo qual não procurou atendimento. Pressão arterial 118 x 74 mmHg, frequência cardíaca 88 bpm, corada. Ao exame obstétrico, útero de tônus normal, indolor à palpação, apresentação córmica, batimentos cardíacos fetais de 142 bpm. O absorvente está moderadamente encharcado de sangue vivo.
achado
Sangramento vermelho vivo, súbito, indolor, imotivado e reincidente — e progressivo, porque este episódio é maior que o anterior. Útero mole, indolor, tônus normal, feto com batimentos preservados e apresentação anômala. São as seis palavras do Manual de Gestação de Alto Risco somadas ao exame obstétrico que aponta para o segmento inferior ocupado.
o que não fazer
Toque vaginal. Está proscrito nesta paciente pelo risco de descolar a placenta do leito e transformar um sangramento moderado em hemorragia abundante. O exame especular, sim, é permitido e útil: mostra que o sangue vem do orifício do colo e afasta pólipo, ectrópio e lesão cervical.
conduta imediata
Internação — o Manual do Ministério indica internar toda paciente com sangramento da segunda metade. Dois acessos venosos calibrosos, monitorização de sinais vitais a cada hora, débito urinário mantido acima de 30 mL/h, reserva de sangue providenciada, tipagem sanguínea, hemograma, ureia, creatinina e coagulograma. Avaliação de vitalidade fetal obrigatória, porque anemia materna gera hipóxia fetal. Repouso no leito até seis horas sem sangramento.
exame que confirma
Ultrassonografia transvaginal, o padrão-ouro. O transdutor entra sob visão e para a cerca de 2 cm do lábio anterior do colo, sem tocar o orifício interno — é por isso que ele pode o que o dedo não pode. Mede-se a distância entre a borda inferior da placenta e o orifício interno. Com 30 semanas, o achado já é diagnóstico: a regra brasileira é que o diagnóstico se estabelece após a 26ª semana.
corticoide e tocólise
Corticoterapia indicada — a gestação está abaixo de 34 semanas, que é a régua do Manual do Ministério. Tocólise não: o documento é explícito ao dizer que não há evidência que a justifique na placenta prévia, e a FEBRASGO acrescenta que betamiméticos ainda mascarariam a taquicardia da hipovolemia.
o que a história obriga a procurar
Três cesáreas anteriores somadas a placenta prévia colocam o risco de acretismo em 61%. A mesma ultrassonografia precisa procurar perda do espaço hipoecoico retroplacentário, adelgaçamento do miométrio, lacunas irregulares, irregularidade da interface útero-bexiga e aumento da vascularização ao Doppler — e o exame deve ser repetido com 28 semanas em quem chega antes, porque o acretismo é progressivo.
programação
Se o sangramento cessar e a paciente se mantiver estável, conduta expectante com avaliação quinzenal do crescimento fetal e da localização placentária, e resolução programada por cesárea com 36 semanas pelo Manual do Ministério. Se aparecerem sinais de acretismo, o plano muda de endereço: serviço de referência terciário com UTI adulta e neonatal, banco de sangue, retaguarda cirúrgica combinada e parto antecipado entre 35 e 36 semanas e 6 dias.
07

Agora feche você

Gestante de 26 anos, primigesta, sem cirurgias uterinas prévias, traz à consulta de pré-natal um laudo de ultrassonografia morfológica realizada com 21 semanas: 'placenta de inserção posterior, com borda inferior distando 12 mm do orifício interno do colo uterino; exame por via abdominal'. Está assintomática, nunca sangrou, e chega preocupada porque leu na internet que precisará de cesárea e ficará internada até o parto. Exame obstétrico normal, altura uterina compatível, batimentos cardíacos fetais presentes.
achado
Borda placentária a 12 mm do orifício interno em exame de 21 semanas, feito por via abdominal, em paciente assintomática e sem fator de risco relevante — nenhuma cesárea anterior, nenhuma cirurgia uterina.
por que o laudo não fecha nada
Duas razões independentes. Primeira, a via: a medida da distância ao orifício interno vale por via transvaginal — o protocolo de ultrassonografia da FEBRASGO de 2025 escreve 'necessariamente' — e a via abdominal reclassifica errado entre 26% e 60% das placentas ditas baixas, além de exigir repleção vesical, que distorce a relação com o colo. Segunda, a idade gestacional: com 21 semanas o achado é provisório, porque o segmento inferior ainda vai se formar.
o número da migração
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Fazer o toque vaginal para 'avaliar a dilatação' antes do ultrassom Atrai porque toque é reflexo em qualquer sangramento obstétrico, e porque a alternativa costuma vir embrulhada em linguagem de bom senso ('avaliar as condições do colo antes de decidir'). Nos dois documentos brasileiros a palavra é a mesma: proscrito. O dedo encontra tecido placentário aderido ao segmento inferior, descola do leito e abre seios venosos. Especular pode; dedo não pode até que a prévia esteja afastada.
  2. 2Excluir placenta prévia porque a paciente tem dor e contrações A regra mnemônica 'prévia é indolor' está certa na maioria e erra numa faixa que a banca conhece: em 10% a 20% dos casos a placenta prévia se apresenta com contrações, sangramento e dor, quadro que se confunde com descolamento prematuro. O que resolve não é a dor isolada, e sim o conjunto — cor do sangue, tônus uterino entre as contrações, dor à palpação e vitalidade fetal.
  3. 3Fechar o diagnóstico de placenta prévia no ultrassom morfológico do segundo trimestre Parece diligência e é iatrogenia de rótulo. Até 25% das gestantes normais têm inserção segmentar antes da 20ª semana e cerca de 90% dessas placentas migram. O diagnóstico brasileiro só se estabelece após a 26ª semana; antes disso o laudo descreve um achado e o que se faz é agendar reavaliação, não criar restrição de atividade nem programar via de parto.
  4. 4Traduzir 'marginal' por 'placenta prévia' na nomenclatura binária É o erro de tradução mais caro do tema. Na classificação clássica, marginal é um grau próprio: a borda atinge a borda do orifício interno sem recobri-lo. Na binária, prévia é apenas o que recobre o orifício — então marginal cai em inserção baixa, junto com a lateral. Quem traduz marginal como prévia acaba indicando cesárea absoluta onde o documento admitiria discutir a via.
  5. 5Esperar 39 ou 40 semanas porque a gestante está bem e nunca sangrou A tentação é forte: a paciente está estável, o feto cresce, adiar reduz prematuridade. Só que o risco de precisar de um parto de emergência por sangramento sobe de 15% até 36 semanas para 30% até 37 e 59% até 38. A cesárea agendada, com sangue reservado e equipe combinada, é o que se está comprando ao antecipar — e o custo neonatal, medido, é Apgar e UTI neonatal, não mortalidade.
  6. 6Tratar a placenta prévia que nunca sangrou como o caso tranquilo É exatamente o contrário do que dizem os protocolos: 'na presença de placenta prévia que não sangra, deve-se suspeitar de acretismo'. Somada a cesárea anterior, a prévia leva o risco de acretismo a 11% com uma cesárea e 61% com três. A ausência de sangramento não é boa notícia; é indicação de procurar sinais de invasão na imagem e, se houver, mudar o serviço, a equipe e a data do parto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: sangramento vermelho-vivo, indolor, súbito, com útero de tônus normal e histórico de placenta recobrindo o orifício interno caracterizam placenta prévia. DPP cursa com dor e hipertonia uterina. Rotura uterina cursa com dor intensa, sofrimento fetal e frequentemente cicatriz prévia. Vasa prévia causa sangramento com sofrimento fetal agudo após amniorrexe. Trabalho de parto prematuro não é o quadro predominante e não explica o sangramento indolor.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as seis palavras do sangramento da placenta prévia — vermelho vivo, início e cessar súbitos, indolor, imotivado, reincidente, progressivo — e, ao lado, o achado do exame obstétrico que as acompanha (útero mole, tônus normal, indolor, batimentos preservados). Depois recite a tabela de tradução entre as duas nomenclaturas nos dois sentidos: quem é prévia na binária, quem é inserção baixa, e qual o número em milímetros que separa as duas. Feche dizendo em voz alta por que o transdutor transvaginal é seguro e o dedo não é.

em 30 dias

Reconstrua a linha do tempo inteira sem consultar: em que idade gestacional o diagnóstico se estabelece (26 semanas), quando se reavalia (28 pelo Manual do Ministério, 32 pela FEBRASGO e pela RCOG), quando se dá corticoide (abaixo de 34), quando se resolve a gestação (36 semanas) e quando se antecipa por acretismo (35 a 36 semanas e 6 dias). Em seguida escreva a escada do acretismo por número de cesáreas (3, 11, 40, 61 e 67%) e liste os sete sinais ultrassonográficos que a mudam de endereço. Termine revisitando as cinco divergências e, em cada uma, o que no enunciado denuncia o documento que a questão está usando.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 38 anos, G3P2 (duas cesáreas anteriores), com 33 semanas, chega ao pronto-socorro obstétrico com perda vaginal de sangue vermelho vivo iniciada há uma hora, sem dor, sem esforço prévio e sem contrações. Diz que já teve dois episódios menores neste mês e que não trouxe os exames do pré-natal. Está corada, pressão arterial 110 x 70 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm; o útero é mole e indolor à palpação, com apresentação pélvica e batimentos cardíacos fetais de 148 bpm. Conduza o atendimento: reconheça o quadro, decida o que examinar e o que está proibido examinar, estabilize e investigue na ordem certa, e diga o que a história obstétrica desta paciente obriga a procurar na imagem antes de programar qualquer parto. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Placenta prévia — Preparatório para provas | OsceLabs