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Doença mão-pé-boca: quem não engole é quem interna, e a via divide as fontes

Doença mão-pé-boca na criança: topografia das lesões, o critério de internação por recusa de líquido e os sinais de gravidade

A doença é benigna e a decisão é uma só: essa criança consegue beber? O que muda depois disso são a via da reidratação, que os documentos brasileiros escrevem diferente, e os sinais que tiram o quadro do território benigno.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

A mãe de uma criança que teve doença mão-pé-boca há cinco semanas retorna assustada porque as unhas das mãos do filho estão se descolando a partir da base. A criança está bem, sem febre, e as lesões de pele e boca desapareceram há semanas. Qual é a conduta?

02

Como esse tema cai

O capítulo trata da doença mão-pé-boca da criança pequena: como a topografia das lesões dá o nome, o que separa esse quadro das outras bocas doloridas da creche, qual é a única complicação comum, quem fica internado, o que se faz com quem fica, e quais achados tiram a doença do território benigno. O eixo é estreito e prático — a decisão que importa não é o diagnóstico laboratorial, é se aquela criança está conseguindo beber.

Entram junto a herpangina, que é o mesmo grupo de vírus com outra distribuição, e a gengivoestomatite herpética, que é a principal concorrente na mesma faixa etária e muda a conduta. Entram também o afastamento escolar, a notificação de surto e o sinal tardio na unha, porque são as três perguntas que a família faz e que costumam ficar sem resposta.

Ficam de fora a meningite viral por enterovírus, com o perfil do líquor e a decisão de antibiótico, que tem capítulo próprio nesta apostila; a varicela e as demais exantemáticas maculopapulares, que estão no capítulo de doenças exantemáticas e aqui entram apenas pelo traço que as separa; a doença herpética do recém-nascido, que é outra porta de entrada e outro esquema; e a dermatite atópica, que aparece aqui só porque concentra as lesões e piora durante a erupção.

As afirmações numéricas deste capítulo foram lidas nos documentos citados no bloco de fontes, e as divergências entre eles são mostradas com as duas posições, porque decidem conduta à beira do leito.

03

O que muda decisão

A criança para de beber, e é isso que decide onde ela passa a noite

A doença é benigna, autolimitada e muito contagiosa, e quase tudo o que ela faz se resolve sozinho em menos de uma semana. Por isso o exame da criança não é um inventário de lesões: é uma pergunta única, repetida em voz alta para a família e verificada na frente do médico. Ela está aceitando líquido? Tudo o que decide destino nesta doença passa por aí.

A razão é anatômica. As úlceras são rasas, dolorosas e ficam onde a língua encosta para deglutir, e a criança pequena não negocia com essa dor: simplesmente para. Recusa o copo, depois a colher, e no ponto em que o quadro fica sério deixa de engolir a própria saliva — o que a mãe descreve como babar muito, sem saber que relata gravidade.

A complicação mais comum da doença, e a única que aparece com frequência na criança sem outro problema, é a desidratação secundária à dor. Não é diarreia, não é vômito de repetição, não é febre alta prolongada: é sede não atendida por uma boca que dói. Todos os documentos nacionais consultados dizem a mesma coisa nesse ponto, e é a única frase em que eles concordam sem ressalva.

Daí sai o critério de internação, e ele é curto. Interna quem tem muitas úlceras na cavidade oral com prejuízo real da ingestão — não quem tem muitas lesões na pele nem quem tem febre. A criança coberta de vesículas que bebe água no consultório vai para casa; a que tem meia dúzia de úlceras e recusa líquido há horas fica.

E o inverso também precisa ser dito, porque erra na mesma frequência: extensão de exantema não é gravidade nesta doença. Formas extensas, com lesões em cotovelos, joelhos, nádegas e até bolhas espalhadas, existem, assustam, e continuam sendo a mesma doença benigna se a criança bebe.

O nome promete três lugares, e a definição oficial dispensa um deles

A definição de caso suspeito escrita pelo Ministério da Saúde, e repetida quase palavra por palavra pela nota estadual mais recente, é esta: quadro febril com lesões cutâneas em mãos e pés, associadas ou não a úlceras em mucosa oral. Leia de novo a expressão do meio. A doença que se chama mão-pé-boca é definida sem exigir a boca.

O documento de sociedade diz o mesmo por outro caminho, ao registrar que as lesões ulceradas da cavidade oral podem não estar presentes em todos os casos. Duas fontes independentes, com finalidades diferentes — uma normativa, outra didática — chegam ao mesmo ponto: o enantema é o achado mais lembrado e não é o achado obrigatório.

Isso tem consequência imediata na consulta. A criança com febre e vesículas nas palmas e nas plantas, sem nenhuma lesão dentro da boca, preenche a definição. Quem exige a tríade completa para nomear o quadro devolve para casa sem diagnóstico uma criança que precisa de orientação sobre hidratação e sobre afastamento, e não notifica um caso que talvez seja o segundo da creche.

A definição federal traz ainda um detalhe de distribuição que quase nunca é ensinado: as mãos costumam ser mais envolvidas do que os pés. Não é simetria perfeita entre as extremidades, e a mão é o lugar de olhar primeiro. As lesões aparecem tanto no dorso quanto nas palmas e plantas, o que é útil porque poucas doenças da infância colocam vesícula em palma e planta.

Fora do trio do nome, os sítios que mais aparecem são nádegas e região genital, e depois cotovelos, joelhos e tornozelos. A nádega é frequente na criança de fralda e é onde o exantema se confunde com dermatite de contato; na face, o acometimento é perioral. O artigo brasileiro que sequenciou o vírus de um surto nacional registra esse padrão ampliado como característico do sorotipo que circulou aqui.

Silhueta infantil de frente e de costas com áreas destacadas em mãos, pés, nádegas, cotovelos, joelhos e região perioral, ao lado de um detalhe ampliado de vesículas ovaladas sobre base avermelhada.
As mãos costumam ser mais envolvidas que os pés, e nádegas, cotovelos e joelhos completam a distribuição; a vesícula de contorno ovalado é a forma que se procura na pele.

A vesícula tem forma própria, e o polimorfismo é de outra doença

A lesão elementar é descrita pelo documento de sociedade com uma imagem que resolve muita dúvida: as vesículas são ovaladas, com formato de grão de arroz. Não são redondas como as da varicela, não são umbilicadas, e o eixo maior costuma acompanhar as linhas da pele. Sobre base avermelhada, de conteúdo claro a acinzentado.

O texto federal descreve a mesma erupção pelo comportamento: manchas vermelhas planas ou ligeiramente elevadas, às vezes com bolha e uma área de vermelhidão na base, e acrescenta um dado que a família sempre pergunta — a erupção geralmente não causa coceira. Doer, pode; coçar, em geral não. Prurido intenso deve mover o raciocínio para outro diagnóstico.

O traço que mais separa esta doença da concorrente mais temida é o tempo interno das lesões. Aqui as lesões de uma mesma área caminham juntas: aparecem juntas, evoluem juntas, secam juntas. Na varicela acontece o contrário, e o documento de sociedade escreve isso como critério de diferenciação — lesões em vários estágios evolutivos, mácula, pápula e vesícula, convivendo numa mesma região anatômica.

Há uma consequência prática dessa regra que vale para as duas doenças. Quando o quadro é extenso e bolhoso, o que engana não é a forma da lesão isolada, e sim a impressão de gravidade. O documento de sociedade adverte que as formas atípicas podem ser confundidas com varicela, e o caminho de volta é sempre o mesmo: procure na mesma área da pele lesões de idades diferentes. Se não houver, a hipótese de varicela enfraquece.

Um subgrupo merece nota à parte. Quem tem dermatite atópica desenvolve as lesões preferencialmente sobre as áreas de eczema, em número maior, e piora o eczema durante a erupção; o erro que isso produz é tratar a piora como falha do controle da dermatite, e não como doença nova em cima dela. A gravidade também acompanha a carga viral a que a criança foi exposta.

Prancha clínica de doença mão-pé-boca com vesículas em mãos, pés e região perioral e úlceras orais.
A combinação de vesículas ovaladas em mãos e pés com úlceras orais sustenta o diagnóstico; formas atípicas podem ser mais disseminadas, mas a distribuição e a morfologia ajudam a separar mão-pé-boca de varicela, herpes e impetigo.

Onde a boca dói separa as três estomatites da creche

Três quadros levam a criança pequena ao pronto-socorro recusando líquido por dor na boca, e a distinção entre eles se faz pelo lugar da lesão dentro da cavidade oral, não pela intensidade da queixa. A regra é topográfica e é aprendida uma vez.

A herpangina, causada pelo mesmo grupo de vírus desta doença, coloca vesículas e pequenas úlceras na parte posterior da boca: pilares anteriores das amígdalas, palato mole e úvula. Poupa gengiva e poupa lábios. Febre alta, odinofagia, criança de creche — e o desafio é analgesia e hidratação, não antibiótico.

A gengivoestomatite herpética, que é a primoinfecção pelo vírus do herpes simples, faz o oposto: as lesões são anteriores. Gengiva edemaciada e sangrante ao menor toque, úlceras em língua, em lábios e na mucosa da bochecha, hálito fétido e salivação abundante. A febre é alta e dura mais dias. Gengivite mais localização anterior é o par que fecha esse diagnóstico.

A doença mão-pé-boca fica no meio: o enantema é vesicular e pode ocupar língua, palato e mucosa, mas o que a define não está dentro da boca. Diante de uma boca dolorida na criança pequena, o gesto que economiza raciocínio é virar as duas mãos e olhar as palmas. Se há vesícula ovalada ali, e mais ainda na planta dos pés, o diagnóstico está feito.

Duas outras entidades entram como diferencial e são separadas pela mesma lógica. A aftose comum e a gengivoestomatite acometem a cavidade oral isoladamente, sem nada nas extremidades. E a disidrose faz vesículas pruriginosas na face lateral dos dedos das mãos e dos pés, em escolares e adolescentes, sem febre e sem boca — coça, é mais velha, e não tem enantema.

O documento federal fecha a lista com o cenário em que o diferencial deixa de ser trivial: lesões espalhadas por todo o corpo, conjuntivite, sintomas respiratórios e adenomegalia mandam considerar sarampo, rubéola, varicela, escarlatina, adenovírus, mononucleose, estomatite aftoide, escabiose e reação medicamentosa. São esses acompanhantes que tiram o caso do território simples.

A via de reidratar é onde as fontes brasileiras se afastam

Definido que a criança não consegue engolir e que precisa de suporte, resta escolher por onde o líquido entra. É aqui que os documentos brasileiros deixam de dizer a mesma coisa, e a diferença não é de estilo: é de procedimento.

A nota técnica federal escreve, em dois pontos distintos, que a dificuldade de deglutição pode exigir hidratação parenteral, e nomeia isso como indicação de internação. A palavra sonda não aparece nenhuma vez no documento inteiro. O caminho federal é, portanto, a veia.

O documento de sociedade descreve a mesma criança e prescreve outra coisa: internação para alimentação por sonda nasogástrica, pela dificuldade de deglutir. E a palavra parenteral não aparece nenhuma vez nesse documento. O caminho da sociedade é o tubo.

A nota estadual mais recente que consultamos copia os dois. Ela traz a hidratação parenteral na seção de tratamento e, poucas linhas adiante, na seção de indicação de internação, traz a alimentação por sonda nasogástrica — as duas vias no mesmo texto, para a mesma criança, sem uma frase que escolha entre elas ou explique quando cada uma serve.

À beira do leito a escolha não é arbitrária, e vale enunciá-la porque nenhum dos três documentos o faz. A sonda repõe água e calorias por via fisiológica, e é a escolha na criança que está apenas com dor e não quer engolir. A veia é a via de quem vomita, tem desidratação moderada a grave ou não tolera a sonda. Lidas como indicações distintas, e não como alternativas em disputa, cobrem a mesma criança em momentos diferentes.

O que tira a doença do território benigno não está no documento federal

A nota federal reconhece que uma pequena proporção de crianças apresenta complicações graves e as nomeia: meningite, encefalite, paralisia flácida aguda e síndrome neurorrespiratória. Nomeia o desfecho e para aí. Não escreve um único sinal que permita antecipá-lo — as expressões sinais de alerta, sudorese fria e pele moteada não aparecem no documento.

Quem escreve os sinais é o documento de sociedade, e a sequência que ele descreve é o que mais muda a conduta à beira do leito. Primeiro vem o sistema nervoso central: mioclonia, tremores, ataxia e paralisia de nervos cranianos. Depois, a desregulação do sistema nervoso autônomo. Só então a falência cardiopulmonar, que é o que mata.

Os sinais autonômicos são seis e formam um conjunto reconhecível: sudorese fria, pele moteada, taquicardia, taquipneia, hipertensão arterial e hiperglicemia. Repare que dois deles caminham na direção contrária à intuição de quem procura choque — a pressão sobe, não cai, e a glicemia sobe. A criança com esse conjunto exige internação e monitorização contínua, mesmo que a pele e a boca estejam melhorando.

A ordem importa porque estabelece o que vigiar. O documento adverte que nem toda criança com acometimento do sistema nervoso central vai ter sintoma cardíaco ou pulmonar grave, mas que a manifestação neurológica é o sinal de alerta. É o degrau que autoriza tirar a criança de casa e colocá-la sob observação, antes de qualquer instabilidade.

Há um segundo grupo de achados, menos dramático, que também pede observação atenta: letargia, ataxia, tremores, fraqueza muscular e febre acima de trinta e nove graus por mais de quarenta e oito horas. Meningite asséptica, quando ocorre, tem bom prognóstico; encefalite e meningoencefalite são as que precisam de avaliação repetida.

Vale registrar de onde vem a preocupação, porque ela explica por que uma doença benigna tem lista de alarme. Desde o fim dos anos noventa foram descritas epidemias, sobretudo no sudeste asiático, com o enterovírus setenta e um como principal agente e com óbitos. As autópsias mostraram edema pulmonar e disfunção cardíaca ligados a lesão dos neurônios autonômicos que controlam a vasculatura, e não a doença primária do coração.

O exame que não se pede, e as exceções que o trazem de volta

O diagnóstico é clínico. A nota federal é explícita ao escrever que não é recomendado exame laboratorial específico para diagnosticar a doença, e acrescenta um argumento operacional que costuma passar despercebido: a condução do surto não depende do resultado da coleta. Ou seja, mesmo do ponto de vista da vigilância, o resultado chega tarde e não muda nada do que já se está fazendo.

Isso não significa que o laboratório não exista para esta doença. O documento de sociedade descreve o caminho técnico: a cultura celular, que era o padrão, foi substituída pela pesquisa do material genético viral, que detecta todos os enterovírus e serve em líquor, fezes, secreção de orofaringe, urina e sangue.

A sorologia, que é o exame que a família costuma pedir pelo nome, tem uso restrito. Ela serve para determinar imunidade prévia em estudos populacionais, é específica por sorotipo, tem sensibilidade e especificidade baixas e custo alto. Não é exame de doença aguda, e pedi-la para confirmar o quadro na criança da creche é gastar sem decidir.

As exceções que trazem o laboratório de volta são duas, e ambas aparecem nas notas estaduais. A primeira é o caso atípico, aquele com os acompanhantes que já foram listados — exantema por todo o corpo, conjuntivite, sintomas respiratórios, adenomegalia — em que o laboratório serve ao diferencial, não à confirmação. A segunda é o caso grave ou hospitalizado, em que a identificação do agente e a investigação de complicações passam a importar.

As notas estaduais vão além do texto federal nesse ponto. Uma manda notificar individualmente os casos que demandam hospitalização e coletar amostras para o laboratório central de saúde pública; outra detalha a coleta com precisão de manual — fezes em frasco estéril, secreção das lesões colhida com haste e transporte refrigerado. A régua tem duas camadas: no caso típico e ambulatorial não se pede exame; no grave, internado ou atípico, a coleta passa a ser esperada.

O antiviral que uma norma reserva e que ainda não existe

Não há tratamento antiviral específico com eficácia comprovada para infecção por enterovírus. A frase é do documento de sociedade e é categórica; ela vale inclusive para os casos graves, como encefalites, miopericardites, infecções neonatais e infecções em pacientes com defeito de células B, cujas opções terapêuticas o documento descreve como limitadas.

O único candidato com nome próprio é o pleconaril, que tem atividade demonstrada fora do organismo contra muitos enterovírus. Ensaios clínicos em meningite asséptica mostraram redução da duração e da gravidade da cefaleia e diminuição da excreção viral, mas o benefício foi limitado e a droga não foi licenciada. Não é um medicamento que se prescreve; é uma nota de rodapé da farmacologia.

Contra esse pano de fundo há uma frase brasileira que precisa ser lida com cuidado. Uma nota técnica estadual instrui, no tratamento, que os medicamentos antivirais devem ficar reservados para os casos mais graves. É orientação sem medicamento por trás, e ler essa linha depressa leva à prescrição de aciclovir, ativo contra o herpes simples e não contra este grupo.

O que existe para o caso grave é outra coisa. A imunoglobulina intravenosa é usada na Ásia nas formas graves e nas que acometem os sistemas nervoso central e autônomo; a recomendação de sociedade é usá-la na encefalite e na paralisia flácida, estendê-la aos quadros disautonômicos e considerá-la na falência cardiopulmonar. Na falência instalada entram também as drogas vasoativas, com o milrinone reduzindo a mortalidade por diminuir a atividade simpática.

Há, por fim, o antibiótico, e sua indicação é única: infecção bacteriana secundária das lesões cutâneas. Pele escoriada de criança que coça e mão que não se lava dão impetiginização, e aí se trata a bactéria. Fora disso, antibiótico nesta doença não tem alvo.

O contraste entre os documentos brasileiros vale guardar. A nota federal escreve que o tratamento é sintomático, com analgésicos e antitérmicos, até mesmo para os casos graves, e não menciona imunoglobulina nem vasoativo em nenhuma linha. A nota estadual mais recente repete essa frase e traz as drogas vasoativas — ficou com metade da conduta do caso grave.

A unha que descola semanas depois, e a consulta que ela gera

Semanas depois de a criança ter melhorado, a família volta assustada com as unhas. É o achado tardio desta doença, e tem nome: onicomadese, o descolamento da unha a partir da base, nas mãos, nos pés ou em ambos.

O intervalo é característico e ajuda a fechar o diagnóstico retrospectivamente: de três a oito semanas após a infecção aguda. O mecanismo exato não é conhecido, mas atribui-se à agressão da matriz ungueal durante a fase de viremia, com efeito citopático direto. A unha para de crescer por alguns dias na fase aguda, e o segmento defeituoso aparece depois, quando já cresceu o suficiente para se destacar.

A conduta é a mais simples de todas: nenhuma. A melhora é gradual, com recuperação total das unhas em cerca de dois meses. O trabalho do médico é de comunicação — reconhecer o achado, ligá-lo ao episódio que a família já esqueceu e tirar da mesa a investigação de deficiência nutricional, de micose e de trauma que costuma ser aberta quando ninguém faz a ligação.

Junto com a unha aparece o outro achado de descamação: mãos e pés podem descamar de forma importante algumas semanas depois do início do quadro. É a mesma família de fenômeno e a mesma conduta, e não se deve confundi-la com a descamação em dedo de luva da convalescença de outras doenças, que tem significado próprio.

Vale notar de onde vem essa informação, porque isso muda o que se espera encontrar consultando norma. Entre os documentos brasileiros consultados para este capítulo, apenas o documento de sociedade descreve a onicomadese; as notas técnicas federal e estaduais não a mencionam. Quem estudou apenas pela norma vigente não reconhece o achado, e é justamente ele que traz a família de volta ao consultório.

Afastar não interrompe a transmissão, e a própria norma diz por quê

A orientação de afastamento é curta e igual em quase todos os documentos: afastar a pessoa doente da escola ou do trabalho até o desaparecimento dos sintomas, o que costuma levar de cinco a sete dias. É o que se escreve no atestado e o que a creche quer ouvir.

Só que a mesma nota federal registra, poucos parágrafos antes, que a pessoa continua eliminando vírus nas fezes por semanas depois de recuperada. O documento não deixa a tensão em aberto: conclui que, por isso mesmo, a higiene das mãos precisa ser mantida, sobretudo após o banheiro e a troca de fraldas. Afastamento encerra a fase de maior transmissibilidade — a primeira semana de sintomas — e não encerra a transmissão.

Por isso as medidas que funcionam são as de higiene e de ambiente, não as de isolamento prolongado. Lavar as mãos com água e sabão, com atenção especial depois de trocar fralda e usar o banheiro; limpar e desinfetar superfícies e objetos compartilhados, incluindo brinquedos e maçanetas; não compartilhar talheres, copos e toalhas. Nos serviços de saúde, além da precaução padrão, mantém-se precaução de contato para crianças em uso de fralda, para diarreia incontinente e durante surto na unidade.

Duas perguntas da família têm resposta fechada. A primeira é sobre o peito: não é necessário interromper a amamentação — a nota federal registra que amamentar não afeta a incidência da doença. A segunda é sobre repetição, e a resposta contraria a intuição: a imunidade não é duradoura, e reinfecções foram documentadas, inclusive pela mesma cepa viral. Ter tido a doença no ano passado não é argumento para excluir o diagnóstico hoje.

Sobre a gestante, os documentos estaduais consultados dizem coisas opostas, e é honesto registrar isso em vez de escolher um lado sem base. Um afirma que o quadro evolui de forma benigna, sem consequências para o feto ou para a mãe; outro afirma que pode levar a abortamento, como qualquer síndrome febril. Nenhum dos dois apresenta dado que sustente a afirmação.

A notificação é de surto, e o sorotipo que circulou aqui não é o que as normas nomeiam

A regra de notificação tem duas metades e a segunda é a que se esquece. O caso individual não é de notificação compulsória. Já o surto, definido como dois ou mais casos em uma mesma instituição ou ambiente de convivência, é de notificação imediata e obrigatória. Consultório e unidade básica erram nas duas pontas: notificam caso isolado e deixam de notificar o segundo caso da mesma creche.

Aqui também há divergência entre entes, e ela é aritmética. Uma nota estadual define surto como três ou mais casos na mesma instituição, contra os dois ou mais do texto federal e dos demais documentos; o mesmo estado trata a síndrome como agravo de notificação compulsória estadual, invertendo a regra federal do caso individual. Onde se trabalha decide o que se notifica, e isso não se deduz — se consulta.

Sobre o agente, os documentos oficiais brasileiros nomeiam dois vírus, e sempre os mesmos: o coxsackievírus A dezesseis e o enterovírus setenta e um. Um deles nomeia apenas o coxsackie. Todos pertencem à família Picornaviridae e ao gênero Enterovírus, que inclui ainda os poliovírus e os echovírus, e habitam o tubo digestivo — daí a transmissão fecal-oral e respiratória e a incubação curta, de três a seis dias.

Um artigo brasileiro indexado, que investigou um surto no Nordeste, encontrou outra coisa. De quarenta e nove amostras de soro de crianças com quadro compatível, a infecção por enterovírus foi confirmada em setenta e um vírgula quatro por cento, e a mediana de idade foi de um ano. Vinte e duas amostras foram sequenciadas na espécie A, e treze trouxeram o genótipo coxsackievírus A seis — que nenhum dos documentos oficiais consultados nomeia no próprio texto.

Esse sorotipo importa por um motivo específico, e o artigo o registra: ele se caracteriza por apresentação atípica, com lesões em outras áreas, como tronco, membros e nádegas — explicação provável para as crianças que chegam com exantema espalhado e recebem outro diagnóstico. A espécie A responde por mais de noventa por cento dos casos no mundo, e a literatura reconhece três sorotipos líderes de surto: os dois que as normas nomeiam, mais este.

O fecho é uma constatação de sistema, não de laboratório. O artigo atribui a escassez de dados epidemiológicos brasileiros à ausência de vigilância laboratorial contínua, e pede vigilância mais intensa. Do outro lado, a norma federal desestimula o exame no caso típico — com boa razão clínica, porque o resultado não muda a conduta daquela criança. As duas não se contradizem: descrevem, de dois ângulos, por que o país trata bem a criança e sabe pouco sobre o vírus que a adoeceu.

04

Os quatro degraus, da porta à alta

A sequência abaixo é a que se executa na unidade básica ou no pronto-socorro diante de uma criança pequena com febre e boca dolorida. Cada degrau elimina uma decisão.

Primeiro degrau: reconhecer pela topografia, não pelo nome

Quadro febril com lesões cutâneas em mãos e pés, associadas ou não a úlceras em mucosa oral — a definição de caso não exige a boca. Mãos são mais envolvidas do que pés; as lesões ocupam dorso, palmas e plantas, e é comum haver nádegas e região genital. Vesícula ovalada em grão de arroz, sobre base eritematosa, geralmente sem prurido, e todas na mesma idade evolutiva dentro de uma mesma área. Lesões de estágios diferentes na mesma área apontam varicela.

Segundo degrau: separar as três bocas doloridas da creche

Herpangina — vesículas e úlceras posteriores (pilares, palato mole, úvula), poupa gengiva e lábios; mesmo grupo de vírus. Gengivoestomatite herpética — lesões anteriores, gengiva edemaciada e sangrante, língua, lábios e mucosa jugal, hálito fétido, sialorreia, febre mais alta e mais prolongada. Mão-pé-boca — enantema vesicular em qualquer ponto, e o que decide está fora da boca: vesícula ovalada em palma e planta. Aftose e gengivoestomatite acometem a cavidade oral isoladamente; disidrose é pruriginosa, na face lateral dos dedos, em escolar e adolescente.

Terceiro degrau: decidir destino pela deglutição, e escolher a via

A pergunta que decide é uma só: a criança está aceitando líquido? Vai para casa quem bebe, por mais extenso que seja o exantema. Fica quem tem lesões extensas ou muitas úlceras orais com prejuízo real da ingestão — e a sialorreia por não engolir a própria saliva é o sinal desse ponto. A sonda nasogástrica repõe água e calorias e é a escolha de quem só tem dor; a via parenteral é de quem vomita, tem desidratação moderada a grave, não tolera a sonda ou precisa de acesso por outro motivo. Os documentos brasileiros trazem uma via cada um, e a nota estadual mais recente traz as duas sem escolher.

Quarto degrau: vigiar o que tira a doença do território benigno

A escalada tem ordem: (1) sistema nervoso central — mioclonia, tremores, ataxia, paralisia de nervos cranianos, letargia, fraqueza muscular, febre acima de 39 °C por mais de 48 h; (2) sistema autônomo — sudorese fria, pele moteada, taquicardia, taquipneia, hipertensão e hiperglicemia (a pressão sobe, não cai); (3) falência cardiopulmonar. Manifestação neurológica é o sinal de alerta e já indica internação com monitorização contínua. Meningite asséptica tem bom prognóstico; encefalite exige avaliação repetida. Na forma grave: imunoglobulina intravenosa (2 doses de 1 g/kg/dia, intervalo de 24 h) e, na falência, vasoativo — milrinone com redução de mortalidade descrita.

Depois da alta: o relógio que a família não sabe ler

Incubação 3 a 6 dias; melhora espontânea em 3 a 7 dias; afastamento da escola até o desaparecimento dos sintomas, em geral 5 a 7 dias. A eliminação viral nas fezes continua por semanas (4 a 8 pelo texto federal; cerca de 6 e até 4 nas notas estaduais; sem número no documento de sociedade) e pelas vias respiratórias por 1 a 3 semanas — por isso o que interrompe a cadeia é higiene de mãos e de superfícies, não afastamento prolongado. Precaução de contato em criança de fralda, diarreia incontinente e surto em unidade de saúde. Não interromper a amamentação. Imunidade não duradoura: reinfecção documentada, inclusive pela mesma cepa. Onicomadese 3 a 8 semanas depois, com recuperação em cerca de 2 meses e sem tratamento.

Notificação: caso individual não é compulsório; surto — dois ou mais casos na mesma instituição ou ambiente de convivência — é de notificação imediata e obrigatória (código B08.4 da classificação internacional). Uma nota estadual define surto como três ou mais casos e trata a doença como agravo de notificação compulsória estadual: confira a regra do seu estado.

Diagnóstico é clínico. Exame laboratorial específico não é recomendado no caso típico, e a condução do surto não depende do resultado. O laboratório volta em duas situações: apresentação atípica (exantema por todo o corpo, conjuntivite, sintomas respiratórios, adenomegalia) e caso grave ou hospitalizado, em que notas estaduais pedem coleta de fezes e de secreção das lesões, refrigeradas entre 2 e 8 °C e enviadas em até 24 h.

Antibiótico só para infecção bacteriana secundária das lesões. Não existe antiviral licenciado para enterovírus — o pleconaril tem atividade in vitro e não foi licenciado.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A via de suporte na criança que não engole: parenteral ou sonda nasogástrica

A veia, e só a veia

O texto federal indica hidratação parenteral quando as feridas na boca dificultam a deglutição de líquidos, e nomeia essa necessidade como indicação de internação. A palavra sonda não aparece nenhuma vez no documento. Na primeira das duas ocorrências a redação sai como hidratação de nutrição parenteral, construção que mistura repor água e nutrir; na segunda, milhares de caracteres adiante, a mesma orientação reaparece limpa.

Ministério da Saúde, Nota Técnica nº 16/2023-CGCIEVS/DEMSP/SVSA/MS, seções de atendimento do caso suspeito e de tratamento (caracteres 5.207 e 6.879 do texto extraído)

A sonda, e só a sonda

O documento de sociedade descreve a mesma criança — lesões extensas e muitas lesões na cavidade oral — e indica internação para alimentação via sonda nasogástrica pela dificuldade de deglutir. A palavra parenteral não aparece nenhuma vez nesse documento.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico Síndrome Mão-Pé-Boca, Departamentos Científicos de Dermatologia e de Infectologia, 2019, seção Indicação de internação (caractere 12.126 do texto extraído)

As duas, sem escolher

A nota estadual mais recente carrega as duas vias. Na seção de tratamento repete a hidratação parenteral do texto federal; 467 caracteres adiante, na seção de indicação de internação, indica alimentação por sonda nasogástrica para garantir suporte nutricional e hídrico. Não há, entre as duas passagens, frase que escolha uma via ou que diga quando cada uma se aplica.

Goiás, Secretaria de Estado da Saúde, Nota Técnica nº 4/2025, seções de informações sobre a doença e de indicação de internação (caracteres 3.771 e 4.238 do texto extraído)

Na prova

O enunciado que testa isto traz sempre a mesma criança — pequena, com múltiplas úlceras orais dolorosas, recusando líquido, sem vômito e sem sinais de desidratação grave — e pede a conduta. O recorte se identifica pelo que a criança não tem: se não há vômito, não há instabilidade e não há recusa da passagem da sonda, o enunciado está no terreno em que a via enteral basta e é a mais fisiológica; se aparecem vômitos, sinais de desidratação moderada a grave ou necessidade de acesso por outro motivo, o enunciado migrou para a via venosa. Nos dois casos a decisão anterior é a mesma e é a que realmente está sendo cobrada: internar por incapacidade de ingestão, e não por extensão de exantema.

O que se faz no caso grave: apenas sintomáticos, ou imunoglobulina e vasoativo

Sintomático, inclusive no grave

O texto federal afirma que o tratamento é sintomático, com analgésicos e antitérmicos, até mesmo para os casos graves da doença. Imunoglobulina e droga vasoativa não aparecem em nenhuma linha do documento; a lista de complicações graves é nomeada — meningite, encefalite, paralisia flácida aguda e síndrome neurorrespiratória — sem que nenhuma conduta específica seja associada a ela.

Ministério da Saúde, Nota Técnica nº 16/2023, seção Tratamento e complicações (caractere 6.733 do texto extraído)

Imunoglobulina e vasoativo no grave

O documento de sociedade recomenda imunoglobulina intravenosa quando há encefalite e paralisia flácida, estende a recomendação aos quadros disautonômicos e manda considerá-la na falência cardiopulmonar; cita o esquema de duas doses de 1 g/kg/dia com intervalo de 24 horas, com primeira infusão em 8 a 12 horas. Para a falência cardiopulmonar registra benefício de drogas vasoativas, com o milrinone reduzindo a mortalidade por diminuir a atividade simpática e a produção de citocinas.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico Síndrome Mão-Pé-Boca, 2019, seção Indicação de internação (caracteres 12.878, 13.175 e 13.671 do texto extraído)

Metade da conduta do grave

A nota estadual reproduz a frase federal do tratamento sintomático inclusive nos casos graves e, adiante, incorpora as drogas vasoativas para a falência cardiopulmonar. Imunoglobulina não aparece nenhuma vez no documento: das duas condutas do caso grave descritas pela sociedade, a nota estadual absorveu uma e deixou a outra de fora.

Goiás, Nota Técnica nº 4/2025, seções de informações sobre a doença e de indicação de internação (caracteres 3.631 e 5.752 do texto extraído)

Na prova

A pergunta aparece de duas formas. Na primeira, o enunciado descreve criança com o quadro cutâneo típico e nada mais, e a resposta é sintomáticos — analgésico e antitérmico, hidratação, sem antiviral e sem antibiótico. Na segunda, o enunciado acrescenta o degrau neurológico ou autonômico (mioclonia, ataxia, sudorese fria, pele moteada, taquicardia com hipertensão e hiperglicemia), e aí a resposta esperada deixa de ser observação domiciliar e passa a ser internação com monitorização contínua. O que identifica o recorte é a presença dos sinais autonômicos, não a extensão das lesões de pele.

A partir de quantos casos existe surto, e se o caso isolado se notifica

Dois ou mais casos, e o individual não se notifica

Os três documentos convergem: casos individuais não são de notificação compulsória, e surtos de dois ou mais casos em uma mesma instituição ou ambiente de convivência são de notificação imediata e obrigatória. O texto federal acrescenta que é possível habilitar o código B08.4 no sistema nacional para monitoramento de interesse estadual, mas registra que o Ministério da Saúde não terá acesso a esses dados pelo sistema federal.

Ministério da Saúde, Nota Técnica nº 16/2023, seção Notificação (caracteres 9.264 e 9.705 do texto extraído); Sociedade Brasileira de Pediatria, 2019; Goiás, Nota Técnica nº 4/2025, definição de surto

Três ou mais casos, e o individual se notifica no estado

A nota estadual define surto como número de casos igual ou superior a três na mesma instituição, e o próprio assunto do documento trata a síndrome como agravo de notificação compulsória estadual. Instrui a registrar o surto no sistema nacional sob a rubrica de doença exantemática, anotando o código específico e a ocorrência de internação em planilha de acompanhamento.

Rio Grande do Sul, Centro Estadual de Vigilância em Saúde, Nota Técnica nº 05/2024, quadro de definição e seção de notificação

Na prova

O item que cobra isto costuma trazer a creche com dois casos e perguntar a conduta de vigilância. A resposta nacional é notificação imediata e obrigatória do surto, sem notificação do caso individual. O que muda o recorte é o enunciado que se ambienta explicitamente num estado e cita norma estadual: aí a régua local pode exigir três casos e transformar o caso isolado em agravo de notificação compulsória. Enunciado sem referência local segue o texto federal.

Se existe antiviral a reservar para o caso grave

Reservar antivirais para os graves

A nota estadual escreve que não há tratamento específico e que na maior parte dos casos o tratamento é sintomático, e acrescenta, na mesma seção, que os medicamentos antivirais devem ficar reservados para os casos mais graves. Nenhum antiviral é nomeado no documento.

Espírito Santo, Secretaria de Estado da Saúde, Nota Técnica nº 05/2021 SESA SSVS/GEVS/CIEVS, seção Tratamento (caractere 4.104 do texto extraído)

Não existe antiviral licenciado

O documento de sociedade afirma que não há, até o momento, tratamento específico com eficácia comprovada para infecção por enterovírus, inclusive nas formas graves. Registra que o pleconaril apresenta atividade in vitro contra muitos enterovírus e que, apesar de ensaios em meningite asséptica terem mostrado redução de duração e gravidade da cefaleia e da excreção viral, os benefícios foram limitados e a droga não foi licenciada.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico Síndrome Mão-Pé-Boca, 2019, seção Tratamento (caracteres 11.420, 11.650 e 11.923 do texto extraído)

Na prova

O enunciado apresenta criança com quadro típico e oferece, entre as condutas possíveis, um antiviral — quase sempre aciclovir. A conduta correta é sintomática. O que torna o item traiçoeiro é que existe norma brasileira que instrui a reservar antivirais para os casos mais graves, sem nomear droga; quem tiver lido apenas essa linha sente que há um antiviral a ser guardado. Não há: o aciclovir é ativo contra o herpes simples, e o único candidato com atividade contra enterovírus nunca foi licenciado.

06

Caso resolvido

Menino de 2 anos e 4 meses é levado à unidade básica pela mãe, no fim da tarde, por febre de até 38,5 °C há dois dias e recusa alimentar. Frequenta creche, onde outras duas crianças da mesma turma adoeceram na última semana com quadro parecido. Hoje a mãe notou lesões nas mãos. Ao exame: ativo, chorando mas consolável, corado, mucosas úmidas, enchimento capilar de 2 segundos, sem sinais de desidratação. Na cavidade oral há cinco úlceras rasas e dolorosas em língua e palato, com gengiva de aspecto normal e sem sangramento. Nas palmas das mãos e nas plantas dos pés há vesículas ovaladas, de conteúdo claro, sobre base eritematosa, todas com o mesmo aspecto; há também algumas lesões nas nádegas. A mãe pergunta se precisa de exame de sangue, se pode dar remédio para o vírus, quando ele volta para a creche e se pode continuar amamentando o irmão de 8 meses.
Passo 1
Feche o diagnóstico pela topografia, sem pedir exame. Há quadro febril com lesões cutâneas em mãos e pés, e há úlceras orais — a definição de caso suspeito está preenchida com folga, já que ela nem sequer exige o componente oral. As vesículas são ovaladas, sobre base eritematosa, e todas na mesma idade evolutiva, o que afasta varicela, em que mácula, pápula e vesícula convivem na mesma área. A gengiva normal afasta gengivoestomatite herpética, cujas lesões são anteriores e cursam com gengiva edemaciada e sangrante. Diagnóstico clínico: doença mão-pé-boca.
Passo 2
Responda à pergunta que decide o destino antes de qualquer outra: ele está bebendo? Ofereça líquido na sua frente. Este menino está corado, com mucosas úmidas, enchimento capilar de 2 segundos e sem sinais de desidratação — não há indicação de internação. O critério não é o número de lesões nem a febre: é o prejuízo real da ingestão, e o sinal de que esse ponto foi ultrapassado é a criança deixar de engolir a própria saliva.
Passo 3
Prescreva o que muda o desfecho: analgesia. O tratamento é sintomático, com analgésico e antitérmico, e a analgesia aqui não é conforto — é o que permite que a criança volte a beber e é, portanto, a medida que previne a única complicação comum da doença. Oriente líquidos frios e gelados e alimentos de consistência macia, em pequenos volumes e com frequência, e repouso.
Passo 4
Não peça exame e explique por quê. O diagnóstico é clínico e a orientação nacional é de que exame laboratorial específico não é recomendado; a própria condução do caso e do surto não depende do resultado. Sorologia é sorotipo-específica, de baixo desempenho e alto custo, e não é exame de doença aguda. O laboratório teria lugar se o quadro fosse atípico — exantema por todo o corpo, conjuntivite, sintomas respiratórios, adenomegalia — ou se a criança precisasse de internação.
Passo 5
Diga não ao antiviral, com o motivo. Não existe antiviral licenciado para enterovírus; o aciclovir é ativo contra o herpes simples, que é a causa da gengivoestomatite, e não contra este grupo de vírus. Antibiótico só entraria se houvesse infecção bacteriana secundária das lesões de pele, que não há.
Passo 6
Responda sobre a creche com a régua correta: afastamento até o desaparecimento dos sintomas, em geral cinco a sete dias. Explique, sem assustar, que ele continuará eliminando vírus nas fezes por semanas depois de melhorar, e que por isso a medida que protege a turma é a higiene das mãos, especialmente após o banheiro e a troca de fraldas, além da limpeza de brinquedos, maçanetas e utensílios — não o afastamento prolongado.
Passo 7
Responda sobre o irmão: a amamentação não precisa ser interrompida, porque amamentar não afeta a incidência da doença. Oriente a mãe a lavar as mãos antes e depois de cuidar do doente e a não compartilhar talheres, copos e toalhas entre as crianças.
Passo 8
Notifique. Este é o terceiro caso da mesma turma de creche, e surto — dois ou mais casos na mesma instituição ou ambiente de convivência — é de notificação imediata e obrigatória, ainda que o caso individual não seja. Comunique a vigilância municipal e verifique a régua do seu estado, porque há estado que define surto a partir de três casos e que trata a doença como agravo de notificação compulsória estadual.
Passo 9
Combine retorno com critérios explícitos, e inclua o achado tardio. Peça retorno imediato se ele parar de aceitar líquidos, se começar a babar sem engolir, se ficar sonolento ou muito irritado, se surgirem tremores, movimentos anormais, desequilíbrio ao andar ou fraqueza, ou se a febre passar de 39 °C por mais de 48 horas. Avise que de três a oito semanas depois pode haver descolamento das unhas a partir da base e descamação de mãos e pés, que se resolvem sozinhos em cerca de dois meses e não exigem tratamento nem nova investigação.
07

Agora feche você

Lactente de 16 meses chega ao pronto-socorro às 23 h, trazido pelos pais, no terceiro dia de doença. Começou com febre e dor de garganta e, no segundo dia, apareceram lesões na boca e nas mãos. Desde a manhã de hoje recusa qualquer líquido e não aceita o peito; nas últimas horas os pais notaram que ele mantém a boca aberta e deixa a saliva escorrer. Não houve vômitos nem diarreia. Ao exame: irritado, choro sem lágrimas, mucosa oral seca, enchimento capilar de 3 segundos, taquicárdico, afebril no momento. Há numerosas úlceras dolorosas em língua, palato e mucosa jugal, com gengiva poupada, e vesículas ovaladas em palmas, plantas, nádegas e face lateral dos joelhos. Não há alteração do nível de consciência, tremores, ataxia ou fraqueza. Não há lesões de pele com secreção purulenta ou halo de celulite.
Passo 1
Nomeie o diagnóstico e sustente-o com três achados desta criança, dizendo qual deles seria suficiente sozinho para preencher a definição de caso adotada no país. Explique, em uma frase, por que a gengiva poupada tem peso aqui.
Passo 2
Diga qual dado desta história indica que a criança ultrapassou o ponto em que consegue deglutir e por que esse dado específico, e não o número de lesões, é o que decide o destino dela hoje.
Passo 3
Decida entre alta e internação e justifique com os achados de estado de hidratação, explicando qual é a única complicação comum desta doença e por que ela é a que está acontecendo aqui.
Passo 4
Escolha a via de suporte hídrico para esta criança e justifique a escolha com o quadro clínico dela. Diga qual é a outra via possível, em que situação ela seria preferida, e registre que os documentos brasileiros consultados não convergem nesse ponto.
Passo 5
Liste os exames que você pediria neste atendimento e diga, sobre a pesquisa etiológica especificamente, se ela deve ser solicitada e por quê, considerando o que a orientação nacional diz sobre exame laboratorial no caso típico.
Passo 6
Escreva o que não deve ser prescrito e o motivo de cada item: antiviral, antibiótico e corticoide. Diga qual seria a única circunstância, neste caso, capaz de trazer o antibiótico de volta.
Passo 7
Enumere os sinais que você vai vigiar durante a internação para detectar a passagem da doença ao território grave, separando-os em dois grupos e dizendo qual dos dois vem primeiro. Aponte, entre eles, os dois que se movem na direção contrária à intuição de quem procura choque.
Passo 8
Escreva as orientações de alta para os pais, cobrindo o prazo de afastamento da creche, o tempo durante o qual a criança continuará eliminando vírus, a medida que de fato interrompe a transmissão, a conduta quanto à amamentação do irmão e o achado tardio que pode aparecer semanas depois e não exige tratamento.
Passo 9
Diga qual é a conduta de vigilância se, na manhã seguinte, a creche informar que outra criança da mesma turma apresentou quadro semelhante, e o que muda nessa conduta conforme o estado em que você trabalha.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Exigir lesão na boca para nomear a doença A definição de caso adotada no país é quadro febril com lesões cutâneas em mãos e pés, associadas ou não a úlceras em mucosa oral, e o documento de sociedade registra que as lesões orais podem não estar presentes em todos os casos. A criança com vesículas ovaladas em palmas e plantas, sem enantema, preenche a definição — e as mãos costumam ser mais envolvidas do que os pés.
  2. 2Internar pela extensão do exantema em vez de pela deglutição Formas extensas, com lesões em cotovelos, joelhos, nádegas e até bolhas espalhadas, existem e continuam benignas se a criança bebe. A única complicação comum é a desidratação secundária à dor oral, e o critério de internação é o prejuízo real da ingestão — sialorreia por não engolir a própria saliva é o sinal desse ponto. Criança coberta de lesões que aceita líquido vai para casa.
  3. 3Prescrever antiviral porque uma norma manda reservá-lo aos casos graves Não existe antiviral licenciado para enterovírus: o pleconaril tem atividade in vitro e nunca foi licenciado, e o aciclovir é ativo contra o herpes simples, que causa a gengivoestomatite — outro diagnóstico. A instrução estadual de reservar antivirais para os casos mais graves não nomeia droga alguma. O que existe para a forma grave é imunoglobulina intravenosa e, na falência cardiopulmonar, droga vasoativa.
  4. 4Procurar choque com pressão baixa nos sinais de gravidade O conjunto autonômico que exige internação e monitorização contínua é sudorese fria, pele moteada, taquicardia, taquipneia, hipertensão arterial e hiperglicemia. A pressão sobe e a glicemia sobe, porque o mecanismo é de desregulação autonômica de origem central, não de perda volêmica. Antes deles vem o degrau neurológico — mioclonia, tremores, ataxia, paralisia de nervos cranianos — que é o sinal de alerta.
  5. 5Pedir sorologia ou cultura para confirmar o caso típico O diagnóstico é clínico e o texto federal afirma que exame laboratorial específico não é recomendado, acrescentando que a condução do surto não depende do resultado da coleta. A sorologia é sorotipo-específica, de baixa sensibilidade e especificidade e alto custo, e serve a estudos de imunidade prévia. O laboratório volta na apresentação atípica e no caso grave ou hospitalizado, onde notas estaduais pedem coleta de fezes e de secreção das lesões.
  6. 6Confundir com varicela sem olhar a idade das lesões Aqui as lesões de uma mesma área caminham juntas; na varicela convivem mácula, pápula e vesícula numa mesma região anatômica. O documento de sociedade usa exatamente esse critério para separar as formas atípicas das duas doenças. Some-se a distribuição: vesícula em palma e planta é desta doença, e a varicela é centrípeta.
  7. 7Suspender a amamentação ou afastar até parar de eliminar vírus A nota federal registra que amamentar não afeta a incidência e que não é necessário interromper. E o afastamento é até o desaparecimento dos sintomas, em geral cinco a sete dias — não até o fim da excreção, que continua nas fezes por semanas depois da cura. É por isso mesmo que o documento insiste em higiene das mãos e de superfícies: é ela, e não o afastamento prolongado, que interrompe a cadeia.
  8. 8Investigar a unha que descola semanas depois como doença nova Onicomadese é o descolamento da unha a partir da base, de três a oito semanas após a infecção aguda, com recuperação total em cerca de dois meses e sem necessidade de tratamento. Descamação de mãos e pés acompanha. Entre os documentos brasileiros consultados, apenas o de sociedade descreve o achado — o que explica a investigação de deficiência nutricional e de micose que costuma ser aberta quando a ligação com o episódio anterior não é feita.
  9. 9Notificar o caso isolado e deixar o segundo caso da creche sem notificação Caso individual não é de notificação compulsória; surto — dois ou mais casos na mesma instituição ou ambiente de convivência — é de notificação imediata e obrigatória. Atenção à régua local: há estado que define surto como três ou mais casos e que trata a doença como agravo de notificação compulsória estadual, invertendo a regra do caso individual.
  10. 10Excluir o diagnóstico porque a criança já teve a doença A imunidade não é duradoura e reinfecções foram documentadas, inclusive pela mesma cepa viral: a infecção natural não determina proteção. Além disso, os sorotipos são vários — os documentos brasileiros nomeiam o coxsackievírus A16 e o enterovírus 71, e um artigo brasileiro indexado identificou o coxsackievírus A6 num surto nacional, associado a apresentação atípica com lesões em tronco, membros e nádegas.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Onicomadese é o descolamento da unha a partir da sua base, nas mãos e nos pés, descrito de três a oito semanas após a infecção aguda por esse grupo de vírus. O mecanismo atribuído é agressão da matriz ungueal durante a fase de viremia, e a evolução é benigna, com recuperação total em cerca de dois meses e sem necessidade de qualquer tratamento; descamação de mãos e pés costuma acompanhar. Reconhecer o achado e ligá-lo ao episódio anterior é a intervenção: evita a investigação de deficiência nutricional, de micose e de trauma que costuma ser aberta quando ninguém faz essa ligação. Suplementar micronutrientes sem deficiência demonstrada, tratar como onicomicose sem quadro clínico compatível ou biopsiar a matriz de uma criança assintomática são condutas invasivas ou onerosas sem benefício. Não há aqui repetição de infecções que justifique investigar imunodeficiência: houve um episódio viral único, com sequela ungueal esperada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória a definição de caso suspeito adotada no Brasil, palavra por palavra na parte que diz respeito à boca, e explique em uma frase por que a criança sem enantema continua preenchendo a definição. Em seguida diga qual é a única complicação comum da doença, qual pergunta decide o destino da criança na porta e qual sinal físico indica que a dor já passou do ponto em que ela consegue engolir. Por fim, liste as três bocas doloridas da creche e diga, para cada uma, em que parte da cavidade oral estão as lesões.

em 30 dias

Reconstrua os quatro degraus, do reconhecimento pela topografia até a vigilância dos sinais de gravidade, dizendo o que cada degrau elimina. Depois escreva as duas vias de suporte da criança que não engole, diga qual documento brasileiro defende cada uma e em que situação clínica cada via é a escolha certa. Liste na ordem correta os três andares da escalada de gravidade e nomeie os seis sinais autonômicos, apontando os dois que sobem quando a intuição diz que deveriam cair. Encerre dizendo por quanto tempo se afasta a criança da escola, por quanto tempo ela continua eliminando vírus nas fezes, e por que essas duas respostas não se contradizem.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Criança de um a quatro anos levada à unidade básica ou ao pronto-socorro por febre e recusa alimentar, com lesões na boca e nas mãos, vinda de creche onde há outros casos. Ofereça líquido na frente da família antes de qualquer outra coisa, examine palmas, plantas e nádegas, olhe a gengiva para separar do herpes, explique por que não vai pedir exame nem prescrever antiviral, negocie o afastamento pelo prazo dos sintomas e não pelo fim da eliminação viral, e avise sobre as unhas que podem descolar semanas depois. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença mão-pé-boca na criança – Doença mão-pé-boca: quem não engole é quem interna, e a via divide as fontes — Preparatório para provas | OsceLabs