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Mononucleose infecciosa: a sorologia data a infecção e o baço marca o retorno

Mononucleose infecciosa na criança e no adolescente: sorologia específica, exantema após aminopenicilina e retorno ao esforço físico

O heterófilo negativo não exclui a doença, a sorologia específica data a infecção e o risco esplênico — não um ultrassom isolado — organiza o retorno gradual ao esforço.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 22 anos apilha-se ao PS com odinofagia e febre. Ao exame: T 38,9 °C, FC 98 bpm, adenomegalia cervical posterior dolorosa, faringe hiperemiada com exsudato e esplenomegalia palpável. Hemograma: leucócitos 14.000/mm³ com predomínio de linfócitos atípicos. Monoteste positivo. Qual o agente etiológico mais provável?

02

Como esse tema cai

A mononucleose infecciosa é a expressão clínica da primo-infecção pelo vírus Epstein-Barr, e ela chega ao consultório como uma amigdalite que não melhora. O vírus é de distribuição universal e a infecção quase sempre acontece cedo e em silêncio; a doença com nome próprio é a que aparece quando o encontro com o vírus se atrasa até a adolescência. Entre uma coisa e outra existe um problema prático: o mesmo agente produz dois pacientes diferentes, e o exame que confirma um deles não serve para o outro.

O que este capítulo resolve é a sequência que vai da suspeita ao laudo, e do laudo à liberação. Qual hemograma sustenta a hipótese; por que um anticorpo heterófilo negativo não encerra a discussão; quais anticorpos específicos datam a infecção; por que o exantema após amoxicilina não confirma nem exclui alergia; e como o tempo desde o início dos sintomas e o tipo de esforço organizam o retorno gradual ao esporte.

Fica de fora o diagnóstico diferencial completo da faringoamigdalite, com escore clínico, teste rápido e escolha de antibiótico, que tem capítulo próprio; e ficam de fora as demais causas de exantema febril da infância, que têm outro. Nesses dois territórios a mononucleose entra como diferencial a afastar. Aqui ela é o objeto, e o eixo é o laboratório.

Os números vêm de dois artigos do Jornal de Pediatria separados por dezessete anos e de uma revisão soroepidemiológica brasileira. Onde eles discordam — e discordam sobre que fração das infecções adoece, sobre o que fazer com o baço roto e sobre quando o esforço é liberado — o bloco de divergências mostra de que lado cada número está.

03

O que muda decisão

A infecção é de quase todos; a doença é de quem escapou na infância

O vírus Epstein-Barr, também chamado herpes-vírus humano tipo quatro, tem distribuição universal e infectividade baixa. Ele não produz epidemias porque depende de contato íntimo: a porta de entrada é a nasofaringe e a via que importa é a saliva. A eliminação oral do vírus prolonga-se por cerca de dezoito meses depois do início da doença, de forma constante ou intermitente, e é essa eliminação longa e discreta que espalha o vírus sem nunca concentrá-lo num surto.

A consequência epidemiológica é uma curva de anticorpos que sobe cedo. Em São Paulo, oitenta por cento da população já tem anticorpos anti-Epstein-Barr aos doze anos de idade; e mesmo numa escola privada de padrão socioeconômico melhor, sessenta e oito vírgula nove por cento das crianças de seis a catorze anos já os têm. Quanto pior o padrão de higiene e de renda, mais cedo a soroconversão acontece — e ela acontece, na maioria das vezes, sem que ninguém perceba.

Daí sai o achado que organiza o capítulo inteiro: quem se infecta cedo raramente adoece de forma reconhecível, e quem adoece de forma reconhecível é quem escapou na infância. A doença clássica concentra-se no adolescente e no adulto jovem de melhor padrão socioeconômico, com pico entre quinze e vinte anos nos países desenvolvidos. Não há predomínio sazonal nem por sexo, com uma exceção: os casos tendem a ocorrer mais cedo em meninas.

O período de incubação é longo e mal delimitado — de dez a sessenta dias, com prazo médio de trinta a quarenta e cinco. Isso desmonta a pergunta que resolve tantas viroses da infância, a do contato. Apenas dez por cento dos familiares suscetíveis expostos a um doente se infectam, e o intervalo entre a exposição e a febre é longo demais para que a família o reconstrua. O vírus ainda é detectável em lavado de orofaringe de quinze a vinte por cento de pessoas já infectadas, o que significa que haver vírus na saliva de alguém em volta não explica nada.

Para quem atende, a leitura prática é esta: diante de amigdalite arrastada em adolescente, a história epidemiológica não confirma nem afasta. O que decide está no exame físico e no hemograma, e é para lá que a consulta precisa ir.

A tríade que engana, e os três achados que deslocam o diagnóstico

O quadro clássico do adolescente é febre prolongada, odinofagia intensa e adinamia desproporcional ao resto. A orofaringe mostra amígdalas muito aumentadas com exsudato espesso, às vezes com aspecto de membrana, e o paciente parece — e é tratado como — uma faringite bacteriana. A doença pode começar de modo abrupto ou insidioso, e o cansaço costuma durar mais que a febre.

Três achados deslocam a hipótese e devem ser procurados de propósito. O primeiro é a linfadenomegalia cervical posterior: o gânglio que drena a amígdala é o anterior, e o posterior aponta para outro lado. O segundo é a linfadenomegalia generalizada, fora do pescoço. O terceiro é a esplenomegalia, que é o achado que muda a conduta e não apenas o diagnóstico.

As frequências ajudam a calibrar o que se procura. O aumento dos linfonodos cervicais aparece em oitenta a cem por cento dos casos e costuma vir acompanhado de linfadenopatia generalizada; as adenomegalias surgem no fim da primeira semana e atingem o máximo por volta do décimo dia. O baço aumenta em cinquenta a setenta e cinco por cento e habitualmente não alcança grandes proporções. O fígado aumenta em quinze a vinte e cinco por cento, às vezes com dor.

Somam-se dois sinais menores e úteis. O edema palpebral, conhecido como sinal de Hoagland, ocorre em cerca de um terço dos casos e é mais frequente nas crianças de menor idade — chama atenção justamente por não combinar com uma dor de garganta. E o exantema espontâneo é incomum: aparece em três a oito por cento dos doentes, envolve tronco e face e raramente as extremidades, sem característica definida — pode ser urticariforme, escarlatiniforme, morbiliforme, hemorrágico ou petequial, embora predomine o aspecto maculopapular com textura de lixa fina.

Guarde o contraste entre esses três por cento a oito por cento e o que acontece quando entra antibiótico, porque é ele que produz a cena mais cobrada da doença. E registre a assimetria pediátrica: o quadro de amigdalofaringite com obstrução de vias aéreas parece ser mais grave em crianças do que em adultos, de modo que a mesma hipertrofia que no adulto é desconforto, no pré-escolar pode ser via aérea.

O que fecha a suspeita clínica não é nenhum achado isolado, e sim a combinação de febre que já dura mais de uma semana com cansaço fora de proporção, gânglio posterior e baço palpável. Amigdalite que não melhora com antibiótico em adolescente é mononucleose até que se demonstre o contrário — e a demonstração é laboratorial.

A criança pequena faz outra doença com o mesmo vírus

Abaixo dos cinco anos o quadro clínico pode ser francamente atípico. A primo-infecção se apresenta como pneumonia, diarreia, otite média, bronquite ou infecção do trato urinário, associadas ou não a hepatoesplenomegalia, amigdalofaringite e linfadenopatia. A criança não traz a tríade, e ninguém pensa no vírus.

A dificuldade diagnóstica está exatamente aí: esses quadros são atribuídos, quase sempre, ao agente que costuma causá-los. Há, porém, uma âncora que não se desfaz. As atipias linfocitárias devem estar presentes também nessas crianças, e é o hemograma que levanta a suspeita quando a clínica não a levanta.

E há um segundo dado, que decide qual exame pedir. Essas crianças praticamente não desenvolvem anticorpos heterófilos, de modo que o diagnóstico conclusivo fica na dependência da avaliação dos anticorpos específicos anti-Epstein-Barr. Num pré-escolar com suspeita, o teste rápido de aglutinação não é apenas pouco sensível: ele é, na prática, o exame errado.

A regra prática que sai daí é assimétrica, e é preciso dizê-la nos dois sentidos. No adolescente, a clínica sugere e o laboratório confirma. Na criança pequena, a clínica quase nunca sugere, e o laboratório é o que abre a hipótese — o que faz do achado de linfocitose atípica num lactente com um quadro respiratório ou digestivo arrastado um motivo legítimo para investigar o vírus.

Vale registrar também o outro extremo do espectro. Metade das infecções pelo vírus é subclínica, e nesses casos há soroconversão sem resposta heterófila e sem o padrão hematológico característico. A pessoa se infecta, produz anticorpos específicos, e nada aconteceu que alguém pudesse ter notado.

O hemograma vem antes da sorologia, e ele tem três números

O primeiro exame subsidiário é o hemograma, e não a sorologia. A contagem global de leucócitos costuma ficar entre dez mil e vinte mil por milímetro cúbico, com aumento absoluto e relativo dos linfócitos. Em números, o que se procura é uma contagem absoluta de linfócitos de cinco mil por milímetro cúbico ou mais, linfocitose relativa acima de cinquenta por cento e formas atípicas acima de dez por cento — frequentemente ultrapassando vinte por cento.

Os linfócitos atípicos, também chamados células de Downey, diferem dos normais pelo tamanho, pelo citoplasma abundante e basofílico, com degeneração vacuolar, e pelo núcleo fortemente corado. Eles não são células malignas: são linfócitos T ativados reagindo à expansão dos linfócitos B infectados. Essa linfocitose absoluta costuma preceder o aparecimento dos anticorpos heterófilos e atinge o ápice em duas a três semanas de doença.

Há uma trava importante de especificidade. A atipia linfocitária não é patognomônica: ela chega a dez por cento ou pouco mais em citomegalovírus, caxumba, hepatite aguda, sarampo, rubéola, exantema súbito e reação a drogas. O que praticamente não se encontra fora da mononucleose é a atipia alta — quem mostra linfocitose atípica de quarenta por cento ou mais tem, quase sempre, sorologia compatível. O degrau de dez por cento levanta a hipótese; o de quarenta por cento a sustenta.

Dois achados hematológicos surpreendem quem espera apenas linfocitose. Cerca de vinte por cento dos doentes apresentam granulocitopenia absoluta, que pode chegar a menos de dois mil por milímetro cúbico e durar até quatro semanas, com desvio à esquerda. E a linfocitose atípica pode persistir por até doze semanas, de modo que um hemograma ainda alterado no segundo mês não significa que a doença não passou.

O corolário clínico é direto: neutrófilos baixos numa mononucleose não são motivo para procurar outra doença nem para prescrever antibiótico. Uma resposta polimorfonuclear efetiva, quando aparece, costuma anunciar uma complicação — infecção bacteriana secundária, que é rara fora da agranulocitose, ou rotura do baço.

O hepatograma completa o painel e é o exame que mais frequentemente vem alterado. Mesmo sem hepatomegalia evidente, os testes de função hepática mostram-se alterados em noventa e cinco por cento dos casos, entre o sétimo e o vigésimo primeiro dia de doença. A icterícia, essa sim, é incomum: surge em cinco a onze por cento, em geral com bilirrubina até três miligramas por cento, e apenas em um vírgula cinco por cento ultrapassa oito. Transaminase alta numa mononucleose é a regra e não pede investigação adicional; icterícia franca pede.

O anticorpo heterófilo, e o degrau que ele não sobe

Depois do hemograma vem a contagem quantitativa dos anticorpos heterófilos. São anticorpos que aglutinam hemácias de outras espécies e que não têm relação com antígenos do vírus: eles medem a reação, não o agente. Por serem baratos e rápidos, continuam sendo a primeira linha sorológica onde estão disponíveis.

O problema é o degrau que eles não sobem. Mesmo na faixa em que a doença é mais típica, entre quinze e vinte anos, pelo menos cerca de dez por cento dos pacientes com mononucleose não desenvolvem anticorpos heterófilos. Um resultado negativo, portanto, não afasta a doença nem no paciente ideal para o teste.

Abaixo dos cinco anos a limitação deixa de ser uma fração e passa a ser a regra: essas crianças praticamente não desenvolvem a resposta heterófila. O teste que funciona razoavelmente no adolescente é o teste que não funciona no pré-escolar — e é exatamente no pré-escolar que a clínica também não ajuda. Os dois instrumentos falham na mesma criança, e sobra um só caminho.

Nos casos subclínicos a limitação é ainda maior: há soroconversão específica sem resposta heterófila. Isso significa que a mesma pessoa pode ter tido a infecção, ter anticorpos específicos pelo resto da vida e nunca ter tido um teste heterófilo positivo em momento nenhum.

A conduta que decorre disso é simples de enunciar e frequentemente esquecida: diante de quadro compatível com heterófilo negativo, o passo seguinte não é abandonar a hipótese, e sim pedir a sorologia específica contra os antígenos do vírus. O heterófilo, quando positivo, encurta o caminho; quando negativo, apenas devolve a pergunta ao médico.

A sorologia específica: três anticorpos e uma linha do tempo

A análise dos anticorpos anti-Epstein-Barr é o exame que data a infecção, e ela se lê com três marcadores. O primeiro é a imunoglobulina M contra o antígeno do capsídeo viral, o anti-VCA da classe M. Ele se positiva precocemente, em cerca de noventa por cento dos casos, e depois declina; às vezes é francamente transitório, e pode ser detectado no líquido cefalorraquidiano de doentes com quadro neurológico.

O segundo é a imunoglobulina G contra o mesmo capsídeo, o anti-VCA da classe G. Ela atinge o pico na fase aguda, entre a segunda e a terceira semana, em títulos bastante altos; na convalescença os títulos caem, mas permanecem detectáveis pelo resto da vida. Uma consequência prática nasce daí e vale ser dita com todas as letras: como os títulos já são quase máximos quando o exame é colhido, o aumento de quatro vezes entre duas amostras é demonstrado em apenas dez a vinte por cento dos casos. Pedir sorologia pareada para documentar viragem, nesta doença, quase sempre não entrega o que promete.

O terceiro é o anticorpo contra o antígeno nuclear, o anti-EBNA, e é ele que resolve a questão da data. Ele aparece tarde, depois da fase aguda, e permanece. Por isso a leitura do painel se faz de trás para frente: presença de imunoglobulina M contra o capsídeo com antígeno nuclear ainda ausente descreve infecção aguda ou recente; presença de imunoglobulina G contra o capsídeo junto com o antígeno nuclear, sem a classe M, descreve infecção antiga, e não explica a febre de hoje.

Há ainda a imunoglobulina G contra os antígenos precoces, o anti-EA, que sobe na fase aguda e é menos usada na rotina. E há um recurso para o caso difícil: a avidez da imunoglobulina G contra capsídeo e contra antígenos precoces é hoje considerada marcador importante nos casos clássicos, e ajuda quando a classe M vem baixa ou indetectável.

Um alerta de especificidade fecha o assunto. Títulos positivos de imunoglobulina G contra o capsídeo aparecem em leucemia linfoide crônica, lúpus eritematoso disseminado, sarcoidose, hanseníase virchowiana, ataxia-telangiectasia e doenças renais crônicas, sem que o vírus tenha qualquer papel etiológico — provavelmente por estímulo à replicação de um vírus latente. Ler apenas essa linha do painel, isolada, não diz que a doença de hoje é mononucleose.

O exantema depois da aminopenicilina não prova alergia — nem segurança futura

O exantema maculopapular após amoxicilina ou ampicilina durante mononucleose é uma associação clássica, mas os números históricos de 69% a 100% vieram sobretudo da era da ampicilina. Em uma coorte pediátrica contemporânea, 29,5% das crianças expostas à amoxicilina tiveram exantema, contra 23,1% das não tratadas; a diferença não foi estatisticamente significativa. A cena continua sendo pista de Epstein-Barr, mas não é uma regra biológica.

A reação costuma ser tardia e não corresponde ao fenótipo de hipersensibilidade imediata mediada por IgE. Isso, porém, não autoriza escrever que toda exposição futura será segura: testes cutâneos documentaram sensibilização verdadeira em parte dos pacientes investigados. Exantema durante mononucleose não confirma alergia, mas também não a exclui.

O dano tem duas direções. Manter para sempre um rótulo não confirmado fecha uma classe de antibióticos eficaz e estreita; apagá-lo sem avaliar uma reação imediata ou grave pode reexpor o paciente ao risco. O prontuário deve registrar droga, intervalo entre dose e sintomas, morfologia, mucosas, sinais sistêmicos e tratamento necessário — não apenas a palavra alergia.

Diante do adolescente com amigdalite exsudativa, gânglio posterior, esplenomegalia e exantema após amoxicilina, suspenda o antibiótico porque ele não trata o vírus e confirme a mononucleose. Urticária imediata, angioedema, broncoespasmo, hipotensão, lesão mucosa ou reação cutânea grave mantêm o rótulo e exigem avaliação especializada. Na reação tardia maculopapular sem gravidade, programe esclarecimento alergológico depois da recuperação se o uso futuro de beta-lactâmico for provável.

O baço: o que rompe, quando rompe e por onde a dor avisa

A esplenomegalia é complicação comum da mononucleose e, na imensa maioria das vezes, autolimitada. O que assusta é o evento raro: a rotura esplênica espontânea é estimada em zero vírgula um a zero vírgula cinco por cento dos casos. O risco torna-se alto, espontaneamente ou após trauma, quando cápsula e trabéculas estão comprometidas pela infiltração linfocitária, e o quadro envolve risco de vida, com mortalidade alta.

O relógio é a informação que muda a orientação que se dá à família. A maior parte das roturas descritas ocorreu dentro das três primeiras semanas depois do diagnóstico — mas há relato de rotura mesmo depois de sete semanas. O período de maior risco, portanto, é curto; a cauda de risco é longa.

O sinal que precisa ser ensinado ao paciente é topográfico. Dor abdominal no quadrante superior esquerdo, seguida de dor abdominal generalizada, com irradiação para o ombro esquerdo, a partir da segunda semana de doença, deve ser encarada como suspeita de rotura até prova em contrário. A dor referida no ombro traduz irritação diafragmática por sangue, e é o achado que separa um mal-estar abdominal banal de uma emergência.

Há uma etapa intermediária que costuma escapar. Quase sempre a rotura do baço é precedida por hematoma subcapsular — o que significa que existe uma janela em que a cápsula ainda contém o sangramento e o paciente está estável. É essa janela que torna a orientação de retorno tão importante quanto qualquer prescrição, e é sobre a conduta dentro dela que os documentos discordam.

Baço aumentado sob o rebordo costal esquerdo com uma coleção de sangue abaulando a cápsula, e setas curvas que sobem da cúpula diafragmática até o ombro do mesmo lado.
O sangue acumulado sob a cápsula irrita o diafragma, e é por esse caminho que a dor do quadrante superior esquerdo aparece no ombro do mesmo lado.

Quanto tempo o adolescente fica fora do esforço físico

Conte o relógio a partir do início dos sintomas, não da data do teste. Nas primeiras três semanas, suspenda treinamento, competição, levantamento de peso e qualquer atividade com risco de queda ou trauma abdominal. Escola e convívio podem continuar conforme o estado geral: a restrição protege o baço, não tenta interromper uma eliminação viral prolongada.

Depois de três semanas, o paciente afebril, clinicamente bem e com energia recuperada pode iniciar atividade leve e sem contato, de forma gradual. Esporte de contato ou colisão, esforço intenso e atividades com risco abdominal pedem uma régua mais conservadora: a análise de lesões esplênicas encontrou 90,5% dos eventos até o 31º dia, embora casos tardios existam.

Palpar ou não palpar o baço não libera sozinho. O exame físico tem baixa sensibilidade para esplenomegalia, e um ultrassom isolado também não define segurança porque o tamanho basal varia muito entre indivíduos. A imagem não é recomendada de rotina como teste de alta; ultrassonografias seriadas podem ajudar em casos selecionados, sobretudo quando o retorno precoce tem grande impacto e a decisão será compartilhada.

A regra prática fica em três degraus: nenhuma atividade atlética por três semanas; retorno leve e sem contato apenas quando o paciente estiver clinicamente recuperado; contato, colisão e esforço abdominal após pelo menos 31 dias e decisão individualizada. Dor no quadrante superior esquerdo, síncope, hipotensão ou dor referida no ombro esquerdo interrompem qualquer cronograma e exigem avaliação de urgência.

O que não se trata, e onde o corticoide tem lugar

Antibiótico não trata mononucleose e não está indicado na ausência de infecção bacteriana associada. É uma frase óbvia que se torna difícil na porta do serviço, porque o exsudato amigdaliano é convincente — e é justamente essa prescrição que produz o exantema descrito acima.

O antiviral também não entrega o que se espera dele. O aciclovir inibe a replicação do vírus em células linfoblastoides e suspende a produção viral, mas não tem efeito sobre a infecção celular latente. Em estudo controlado, a droga reduziu transitoriamente a excreção viral na orofaringe sem alterar os demais sinais e sintomas: benefícios clínicos não puderam ser demonstrados, com a possível exceção do paciente com infecção pelo vírus da imunodeficiência humana e leucoplasia pilosa.

O corticoide melhora o estado geral e encurta o período febril — que pode voltar quando a droga é interrompida —, mas está indicado apenas quando a doença evolui com uma de três complicações: anemia hemolítica, púrpura trombocitopênica rapidamente progressiva ou hemorrágica, e obstrução de vias aéreas. Há pouca base para indicá-lo no comprometimento cardíaco, no comprometimento neurológico e na hemorragia subcapsular esplênica — três situações em que a gravidade tenta o médico a prescrever e em que a lista, deliberadamente, não o autoriza.

O comprometimento hepático grave é item à parte e não entra na lista do corticoide: trata-se como hepatite viral aguda, por aproximadamente um a dois meses, período em que se espera regressão do quadro. Duas condutas cirúrgicas fecham as complicações: na obstrução alta por adenomegalia que não responde, procede-se à traqueostomia; e na rotura do baço a conduta é o assunto em que a literatura mudou de lado, e está no bloco de divergências.

Convém dimensionar o risco antes de assustar a família. As complicações tornam-se importantes em menos de cinco por cento dos casos, com mortalidade da ordem de um em três mil. As neurológicas — encefalite, meningoencefalite, meningite, síndrome de Guillain-Barré — ocorrem em zero vírgula três a sete vírgula três por cento, e delas os casos fatais representam zero vírgula um a um por cento. Elas aparecem em geral de uma a três semanas após o início e podem, ocasionalmente, precedê-lo: doença neurológica de início agudo em paciente jovem admite mononucleose como hipótese mesmo sem os outros sinais.

Nas complicações renais a glomerulonefrite é a mais frequente. Anormalidades urinárias aparecem em até treze por cento dos casos, e graus variados de hematúria e proteinúria transitórias se desenvolvem em cerca de dezesseis vírgula cinco por cento — números altos o bastante para que um sedimento alterado nessa doença não desencadeie, sozinho, uma investigação nefrológica.

O resto do tratamento é sintomático: analgesia, antitérmico, hidratação e orientação de retorno. Numa criança, o antitérmico escolhido não é o ácido acetilsalicílico, pelo risco de síndrome de Reye em virose — e a mononucleose é uma virose.

Isolamento não é a medida; a doação de sangue é

Medidas de isolamento e profilaxia para pacientes com mononucleose não são preconizadas, e a razão é epidemiológica: só o contato íntimo é importante para a disseminação do vírus. Não há afastamento escolar, não há precaução respiratória, não há bloqueio de contatos. A doença não é de notificação compulsória.

A aparente contradição — um vírus eliminado por até dezoito meses e nenhuma medida de controle — se resolve pelos números já vistos. A infectividade é baixa, apenas dez por cento dos familiares suscetíveis expostos se infectam, e uma proporção considerável da população em volta já está imune. Isolar o doente não altera uma cadeia que se sustenta sobretudo em portadores assintomáticos.

Existe, porém, uma restrição real e frequentemente ignorada: não se recomenda sangue de doador que tenha tido mononucleose nos últimos seis meses, porque o vírus pode ser demonstrado no sangue periférico por muitos meses após a recuperação. A via transfusional é justamente aquela em que a barreira do contato íntimo não existe.

A mesma lógica explica um quadro que confunde: a síndrome pós-perfusão, que aparece depois de transfusão e cursa com febre e atipia linfocitária. Ali a resposta heterófila é rara, e o mecanismo proposto é a transferência maciça de linfócitos que carregam o vírus de forma crônica. Sangue estocado e transfusão de granulócitos são os cenários descritos.

Não há vacina disponível. As investigações de imunizantes vivos ou atenuados seguem sem produto em uso, e a prevenção prática se resume a não compartilhar utensílios e a não doar sangue no período de exclusão.

04

Quatro perguntas diante da amigdalite que não melhorou com antibiótico

A sequência abaixo resolve as cenas do tema porque separa, na ordem, as quatro decisões que a história embaralha: de quem é este quadro, o que o hemograma sustenta, qual anticorpo responde à pergunta que se está fazendo, e o que o baço permite. Cada passo só entrega uma coisa, e nenhum deles depende do seguinte.

  1. 1Defina quem é o paciente. Adolescente ou adulto jovem com febre há mais de uma semana, odinofagia intensa, adinamia desproporcional, linfonodo cervical posterior e baço palpável é mononucleose até prova em contrário. Criança abaixo de cinco anos chega por outro caminho — pneumonia, diarreia, otite, bronquite ou infecção urinária arrastadas — e nela a suspeita nasce do hemograma, não do exame de garganta.
  2. 2Peça o hemograma antes da sorologia e leia três números: linfócitos absolutos de 5.000/mm³ ou mais, linfocitose relativa acima de 50% e linfócitos atípicos acima de 10%, com frequência acima de 20%. Atipia de 40% ou mais praticamente já vem com sorologia compatível. Neutropenia até 2.000/mm³ ocorre em cerca de 20% e não muda a conduta.
  3. 3Escolha a sorologia pelo paciente, não pelo hábito. No adolescente, o anticorpo heterófilo encurta o caminho quando positivo — mas pelo menos 10% dos doentes dessa faixa não o produzem, e negativo não afasta. Abaixo de cinco anos, vá direto aos anticorpos específicos: anti-VCA IgM, anti-VCA IgG e anti-EBNA. A combinação com anti-EBNA ainda ausente é o que data a infecção como recente.
  4. 4Decida o que liberar. Conte desde o início dos sintomas: nenhuma atividade atlética por três semanas; depois, atividade leve e sem contato apenas se o paciente estiver recuperado; contato, colisão e esforço abdominal após pelo menos 31 dias e decisão individualizada. Palpação e ultrassom isolado não provam segurança. Dor no quadrante superior esquerdo com síncope ou irradiação para o ombro esquerdo é lesão esplênica até prova em contrário.

Primeiro: a idade escolhe o caminho

Adolescente entrega a tríade e responde ao heterófilo; pré-escolar entrega um quadro inespecífico e praticamente não produz heterófilo.

Segundo: o hemograma tem três números

Linfócitos ≥ 5.000/mm³, linfocitose relativa > 50% e atipia > 10%. Atipia ≥ 40% quase sempre já vem com sorologia compatível.

Terceiro: três anticorpos, uma data

Anti-VCA IgM sobe cedo e cai; anti-VCA IgG sobe e fica para sempre; anti-EBNA aparece tarde. Sem anti-EBNA, a infecção é recente.

Quarto: o baço marca o retorno

Rotura em 0,1% a 0,5%, quase toda nas 3 primeiras semanas, com relato após 7 semanas. Dor irradiada para o ombro esquerdo é emergência.

A sorologia pareada quase nunca resolve esta doença. Como os títulos de anti-VCA IgG detectados já estão próximos do máximo quando o paciente procura o serviço, o aumento de quatro vezes entre duas amostras é demonstrado em apenas 10% a 20% dos casos — pedir segunda amostra para documentar viragem costuma gastar tempo sem mudar a conduta.

Anti-VCA IgG positivo isolado não é diagnóstico de doença atual. Ele persiste por toda a vida e aparece também em leucemia linfoide crônica, lúpus, sarcoidose, hanseníase virchowiana, ataxia-telangiectasia e doenças renais crônicas, sem que o vírus tenha papel etiológico.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Que fração das primo-infecções pelo Epstein-Barr na adolescência adoece

Mesmo na adolescência, a mononucleose infecciosa não constitui mais que um terço dos casos de infecção pelo vírus — teto de aproximadamente 33%.

Jornal de Pediatria (Rio J), 1999; 75 (Supl.1): S115-S125 — "Mononucleose infecciosa", seção Etioepidemiologia.

Quando a primo-infecção ocorre durante a adolescência, ela leva a mononucleose infecciosa em 30% a 70% dos casos — o teto é mais que o dobro do anterior.

Jornal de Pediatria (Rio J), 2016; 92(2): 113-121 — "Atypical manifestations of Epstein-Barr virus in children", Introdução.

Na prova

As duas frações saem do mesmo periódico, com dezessete anos de intervalo, e o piso coincide: perto de um terço. O que muda é o teto. Enunciado que descreve a maioria dos adolescentes infectados como assintomáticos está ancorado no recorte antigo; enunciado que trata a mononucleose como desfecho comum da infecção na adolescência está no recorte recente. Onde a diferença importa de verdade é na conversa com a família: dizer que adoecer é exceção não se sustenta pelo número mais recente.

O que fazer diante da rotura esplênica na mononucleose

Em rotura de baço, proceder à laparotomia; e há sugestão de que, nos casos de hematoma subcapsular, se proceda à esplenectomia.

Jornal de Pediatria (Rio J), 1999; 75 (Supl.1): S115-S125 — "Mononucleose infecciosa", Tratamento, itens 3 e 4.

O manejo não operatório da rotura esplênica durante a mononucleose, no doente traumatizado estável, parece ser o tratamento de escolha, considerados também os riscos que decorrem de uma esplenectomia.

Jornal de Pediatria (Rio J), 2016; 92(2): 113-121 — "Atypical manifestations of Epstein-Barr virus in children", Splenic rupture.

Na prova

Aqui não há dois recortes igualmente vigentes: há uma reversão de conduta no intervalo entre os dois textos, e o mais recente é o que descreve a prática corrente da cirurgia de trauma. Enunciado que ofereça esplenectomia profilática diante de hematoma subcapsular em paciente estável está citando a posição antiga. A estabilidade hemodinâmica é a variável que decide, e ela precisa estar descrita no caso para que a conduta conservadora se sustente.

Quando o adolescente com esplenomegalia volta ao esporte

Repouso relativo por cerca de três semanas, período em que se evita aumento da pressão intra-abdominal por traumatismo, constipação intestinal ou excesso de palpação — o prazo é contado no calendário.

Jornal de Pediatria (Rio J), 1999; 75 (Supl.1): S115-S125 — "Mononucleose infecciosa", Tratamento, item 1.

A análise temporal de lesões esplênicas encontrou 90,5% dos eventos até o 31º dia desde o início dos sintomas; por isso atividades com contato, colisão ou risco abdominal devem esperar pelo menos esse marco e ser individualizadas.

Jornal de Pediatria (Rio J), 2016; 92(2): 113-121 — "Atypical manifestations of Epstein-Barr virus in children", Splenic rupture.

Na prova

Use a régua atual: o tempo é contado desde o início dos sintomas, não do diagnóstico. Três semanas são o piso sem atividade atlética; o retorno começa leve e sem contato apenas com recuperação clínica. Contato, colisão e esforço intenso ficam para depois de pelo menos 31 dias e decisão individualizada. Exame físico e ultrassom isolado não funcionam como certificados de segurança.

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Caso resolvido

Adolescente de 15 anos, previamente hígido, atleta de futebol da escola, procura a unidade de saúde com febre há 9 dias, dor de garganta intensa e cansaço que o afastou das aulas. Foi medicado há 4 dias com amoxicilina em outro serviço e, dois dias depois, surgiu exantema maculopapular difuso, pruriginoso, poupando palmas e plantas. Ao exame: temperatura axilar 38,4 °C, amígdalas hipertrofiadas com exsudato espesso bilateral, linfonodos cervicais posteriores aumentados e dolorosos, linfonodomegalia axilar e inguinal, baço palpável a 3 cm do rebordo costal esquerdo. Hemograma: leucócitos 14.200/mm³, linfócitos 6.900/mm³ (48%), 22% de linfócitos atípicos, plaquetas 168.000/mm³. ALT 96 U/L, AST 84 U/L. Anticorpos heterófilos: não reagentes.
Primeiro: nomear o quadro pela combinação, não por um achado
Febre por mais de uma semana, odinofagia com exsudato, adinamia desproporcional, linfonodo cervical posterior, linfadenomegalia generalizada e esplenomegalia formam o conjunto que define mononucleose infecciosa. Nenhum desses achados isolado fecha nada — o gânglio posterior e o baço são os que deslocam a hipótese para longe da faringite estreptocócica, cujo gânglio é o anterior e cujo baço não é palpável.
Segundo: ler o hemograma como confirmação, não como triagem
Leucócitos de 14.200/mm³ ficam na faixa esperada de 10.000 a 20.000. Linfócitos absolutos de 6.900/mm³ ultrapassam o corte de 5.000/mm³, a linfocitose relativa de 48% está no limite de 50% e a atipia de 22% supera o degrau de 10%, ficando acima dos 20% que o quadro costuma alcançar. As transaminases elevadas sem icterícia completam o padrão: função hepática alterada aparece em 95% dos casos entre o 7º e o 21º dia.
Terceiro: não deixar o heterófilo negativo encerrar a investigação
Anticorpos heterófilos não reagentes não afastam a doença: pelo menos cerca de 10% dos pacientes de 15 a 20 anos com mononucleose não os desenvolvem. O passo correto é solicitar a sorologia específica — anti-VCA IgM, anti-VCA IgG e anti-EBNA. Anti-EBNA ausente com anti-VCA IgM presente data a infecção como recente e responde à pergunta que o teste de aglutinação deixou aberta.
Quarto: registrar a reação sem fabricar certeza
O exantema dois dias após aminopenicilina reforça a suspeita de mononucleose, mas não prova nem exclui alergia. O antibiótico se suspende porque não trata o vírus. Registre o fenótipo: se foi apenas maculopapular tardio, sem mucosa nem sinais sistêmicos, programe esclarecimento alergológico após a recuperação em vez de perpetuar ou apagar o rótulo por conta própria.
Quinto: decidir o que ele pode fazer amanhã
Como os sintomas começaram há nove dias, o atleta ainda está dentro das três primeiras semanas e não deve fazer atividade atlética. Depois desse piso, só inicia atividade leve e sem contato se estiver afebril e clinicamente recuperado; futebol e esforço intenso esperam pelo menos o 31º dia e decisão individualizada. Palpação e ultrassom isolado não dão alta. Dor no quadrante superior esquerdo, síncope ou irradiação para o ombro esquerdo exige pronto-socorro.
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Agora feche você

Pré-escolar de 3 anos é levado à unidade básica pela terceira vez em cinco semanas. A mãe relata febre baixa intermitente, tosse arrastada e dois episódios de diarreia sem sangue no período; recebeu amoxicilina para otite média há três semanas e sulfametoxazol-trimetoprima para infecção urinária há dez dias, sem melhora sustentada. Ao exame: bom estado geral, temperatura 37,8 °C, orofaringe discretamente hiperemiada sem exsudato, edema palpebral bilateral discreto, fígado a 2 cm e baço a 2,5 cm do rebordo costal. Hemograma: leucócitos 12.800/mm³, linfócitos 7.100/mm³ (55%), 18% de linfócitos atípicos, plaquetas 210.000/mm³. ALT 74 U/L. Anticorpos heterófilos: não reagentes.
Primeiro: reconhecer que a idade mudou a apresentação
Abaixo dos cinco anos a primo-infecção pelo Epstein-Barr se apresenta como pneumonia, diarreia, otite média, bronquite ou infecção urinária, associadas ou não a hepatoesplenomegalia, amigdalofaringite e linfadenopatia. A criança não traz a tríade do adolescente, e cada episódio foi tratado como o quadro que aparentava ser. O que costura os cinco semanas de história é o vírus, não uma sequência de infecções independentes.
Segundo: usar o hemograma como a porta de entrada da hipótese
Linfócitos absolutos de 7.100/mm³ acima do corte de 5.000/mm³, linfocitose relativa de 55% acima de 50% e atipia de 18% acima do degrau de 10% compõem o padrão. Nessa faixa etária a atipia linfocitária deve estar presente mesmo quando a clínica é atípica — é ela que autoriza levantar a hipótese num quadro que nada tem de garganta.
Terceiro: entender por que o teste de aglutinação não serviu
Crianças abaixo de cinco anos praticamente não desenvolvem anticorpos heterófilos. O resultado não reagente não é informação sobre a criança: é informação sobre o teste. Nessa idade o diagnóstico conclusivo depende, desde o início, da avaliação dos anticorpos específicos anti-Epstein-Barr.
Quarto: pedir o painel certo e saber ler a combinação
Solicitam-se anti-VCA IgM, anti-VCA IgG e anti-EBNA. Anti-VCA IgM presente com anti-EBNA ausente descreve infecção aguda ou recente; anti-VCA IgG presente com anti-EBNA presente e IgM ausente descreve infecção antiga e obrigaria a procurar outra explicação para os cinco semanas de sintomas. O anticorpo que data é o nuclear, pela sua ausência.
Quinto: tratar o que existe e não tratar o que não existe
Não há antibiótico a prescrever sem infecção bacteriana associada, e o antiviral não altera sinais nem sintomas. O manejo é sintomático, sem ácido acetilsalicílico. O baço palpável obriga a orientar restrição de esforço e trauma abdominal — em pré-escolar isso significa conversar sobre brincadeira de contato — e a família recebe o sinal de dor no quadrante superior esquerdo com irradiação para o ombro esquerdo como motivo de retorno imediato.
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Onde a banca derruba

  1. 1Transformar o exantema em prova automática de alergia — ou de tolerância O exantema tardio após aminopenicilina durante mononucleose não tem, em regra, o fenótipo de hipersensibilidade imediata; ainda assim, sensibilização verdadeira já foi documentada. Registre droga, tempo, morfologia, mucosas e sinais sistêmicos. Reação imediata ou grave exige avaliação especializada; reação tardia sem gravidade pode ser esclarecida depois da recuperação, evitando tanto o rótulo vitalício indevido quanto uma reexposição sem critério.
  2. 2Afastar mononucleose porque o anticorpo heterófilo veio negativo Pelo menos cerca de 10% dos pacientes de 15 a 20 anos com a doença não desenvolvem anticorpos heterófilos, e abaixo dos cinco anos as crianças praticamente não os desenvolvem. Negativo devolve a pergunta ao médico: o passo seguinte é a sorologia específica anti-Epstein-Barr, não o abandono da hipótese.
  3. 3Pedir teste de aglutinação no pré-escolar É o exame errado para essa idade. Na criança pequena o diagnóstico conclusivo depende dos anticorpos específicos, e a suspeita costuma nascer da atipia linfocitária num quadro respiratório, digestivo ou urinário arrastado — não de uma amigdalite exsudativa.
  4. 4Ler anti-VCA IgG positivo como prova de doença atual Esse anticorpo persiste por toda a vida e marca contato, não atividade. O que data a infecção é a ausência de anti-EBNA junto com anti-VCA IgM presente. Títulos de anti-VCA IgG também aparecem em leucemia linfoide crônica, lúpus, sarcoidose e doenças renais crônicas sem qualquer papel do vírus.
  5. 5Pedir sorologia pareada para documentar aumento de quatro vezes Os títulos de anti-VCA IgG detectados já estão próximos do máximo no momento da coleta, e o aumento de quatro vezes é demonstrado em apenas 10% a 20% dos casos. A segunda amostra atrasa a decisão sem confirmar o que se queria.
  6. 6Liberar esporte pela palpação ou por um ultrassom isolado A ausência de baço palpável não exclui esplenomegalia, e um ultrassom isolado não conhece o tamanho basal do atleta. O relógio parte do início dos sintomas: três semanas sem atividade atlética; depois, retorno leve se houver recuperação clínica; contato, colisão e esforço intenso somente após pelo menos 31 dias e decisão individualizada.
  7. 7Tratar transaminase alta como se fosse outra doença As provas de função hepática estão alteradas em 95% dos casos entre o 7º e o 21º dia, mesmo sem hepatomegalia. Isso é a doença, não uma segunda hipótese. Icterícia é que é incomum — 5% a 11% — e essa merece atenção.
  8. 8Prescrever aciclovir esperando encurtar a doença O antiviral inibe a replicação, mas não age sobre a infecção latente. Em estudo controlado houve redução transitória da excreção viral na orofaringe sem alteração dos demais sinais e sintomas: benefício clínico não foi demonstrado.
  9. 9Afastar a criança da escola e isolar o doente Medidas de isolamento não são preconizadas, porque só o contato íntimo dissemina o vírus e apenas 10% dos familiares suscetíveis expostos se infectam. A restrição real é outra e costuma ser esquecida: não se recomenda sangue de doador que tenha tido a doença nos últimos seis meses.
  10. 10Indicar corticoide pela gravidade do quadro neurológico ou cardíaco As indicações são anemia hemolítica, púrpura trombocitopênica rapidamente progressiva ou hemorrágica e obstrução de vias aéreas. Há pouca base para comprometimento cardíaco, comprometimento neurológico e hemorragia subcapsular esplênica — exatamente as três situações em que a gravidade convida a prescrever.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Faringite exsudativa + adenomegalia cervical posterior + esplenomegalia + linfócitos atípicos + monoteste (anticorpos heterófilos) positivo é a mononucleose infecciosa clássica, causada pelo vírus Epstein-Barr (EBV). Streptococcus pyogenes causa faringite, mas não linfocitose atípica, esplenomegalia nem monoteste positivo. CMV e Toxoplasma podem causar síndrome mono-like, porém com monoteste tipicamente NEGATIVO. HIV agudo dá síndrome retroviral, mas não cursa com anticorpos heterófilos positivos.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os três números do hemograma — linfócitos absolutos, linfocitose relativa e percentual de atipia — e o degrau de atipia que praticamente sela o diagnóstico. Ao lado, escreva as duas populações em que o anticorpo heterófilo falha e o que se pede no lugar dele. Por fim, reconstrua o painel específico com os três anticorpos e diga, para cada combinação, se a infecção é recente ou antiga.

em 30 dias

Refaça o relógio esplênico: conte desde o início dos sintomas, suspenda toda atividade atlética por três semanas, libere apenas atividade leve e sem contato se houver recuperação clínica e deixe contato, colisão e esforço intenso para depois de pelo menos 31 dias, em decisão individualizada. Explique por que palpação e ultrassom isolado não são testes de alta. Feche diferenciando exantema tardio após aminopenicilina de hipersensibilidade imediata e diga por que a reação não deve ser rotulada nem apagada sem registrar o fenótipo.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um adolescente de 16 anos chega ao ambulatório com febre há dez dias, dor de garganta que o impede de comer e um exantema que apareceu depois do antibiótico que tomou por conta própria. Ele quer voltar a treinar antes do campeonato, e a mãe quer saber se aquilo é alergia. Colha a história, examine o pescoço e o abdome, escolha os exames na ordem certa e diga a ele o que pode e o que não pode fazer nas próximas semanas. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Mononucleose infecciosa na criança e no adolescente – Mononucleose infecciosa: a sorologia data a infecção e o baço marca o retorno — Preparatório para provas | OsceLabs