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Eventos adversos pós-vacinação

O calendário diz o que aplicar; este tema diz o que fazer depois. Classificar por gravidade, achar a caixa de causalidade certa, separar erro de imunização de reação ao produto, decidir a próxima dose e notificar no prazo — com o rótulo que mudou de nome em 2026.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Um lactente de 3 meses é levado pela mãe à unidade básica de saúde para consulta de rotina, dois dias após ter recebido a primeira dose da vacina pentavalente (DTP + Hib + hepatite B) e das demais vacinas do calendário. A mãe relata que, cerca de quatro horas após a vacinação, a criança ficou subitamente pálida, "molhada", com o corpo "mole" e pouco responsiva ao chamado, episódio que durou aproximadamente 15 minutos, com recuperação espontânea e completa, sem movimentos anormais. Nasceu a termo, sem intercorrências, e mama bem. Ao exame, encontra-se ativo, reativo, corado, afebril, sem sinais meníngeos e com exame neurológico normal. A mãe está assustada e pergunta se a criança poderá tomar as próximas doses.

02

Como esse tema cai

Há dois temas de vacinação na prova, e eles não se misturam. Um pergunta o que aplicar, com que idade e com que intervalo — é o calendário, e ele mora no capítulo Calendário vacinal da criança (PNI), nesta mesma apostila. O outro pergunta o que fazer quando algo acontece depois da agulha: como classificar o quadro, de quem é a responsabilidade, o que muda na próxima dose e para onde vai a notificação. É este.

A palavra que organiza o assunto é supostamente. Evento adverso pós-vacinação não quer dizer evento causado pela vacina: quer dizer qualquer ocorrência médica indesejada observada depois dela, com ou sem relação causal. A distinção não é filosófica — é o motivo pelo qual existe uma classificação de causalidade com cinco categorias, e pelo qual duas delas ficam do lado da associação consistente sem responsabilizar o produto.

Em maio de 2026 o nome mudou na lei. A Lista Nacional de Notificação Compulsória trocou o item Eventos adversos graves ou óbitos pós-vacinação por Evento supostamente atribuível à vacinação ou imunização — ESAVI, com notificação imediata, em até 24 horas, às três esferas de gestão. O manual que rege a conduta continua sendo o de 2021, que ainda escreve EAPV; a Instrução Normativa do calendário vigente já o cita como Manual ESAVI. Enunciado que ainda usa o rótulo antigo foi escrito sob a lista anterior a 14 de maio de 2026 — o regime de notificação compulsória em si está no capítulo Vigilância epidemiológica e investigação de surtos, da apostila de SUS, políticas de saúde, APS e vigilância.

O tratamento da anafilaxia em si — critérios diagnósticos, dose de adrenalina, segunda linha, reação bifásica — está no capítulo Anafilaxia, da apostila de Imunologia. Aqui interessa o que é próprio da sala de vacina: distinguir anafilaxia de síncope vasovagal e de episódio hipotônico-hiporresponsivo, saber a dose que o manual do Ministério da Saúde tabela por peso, e decidir o que cada um desses três quadros faz com a dose seguinte. São respostas diferentes para quadros que se parecem nos primeiros trinta segundos.

03

O que muda decisão

O que a definição inclui — e o que ela deliberadamente não afirma

A definição oficial é curta: evento adverso pós-vacinação é qualquer ocorrência médica indesejada após a vacinação, não possuindo necessariamente uma relação causal com o uso de uma vacina ou de outro imunobiológico. A frase abrange imunoglobulinas e soros heterólogos, e abrange sintoma, doença ou achado laboratorial anormal. O que ela não faz é atribuir causa.

A consequência prática aparece logo: muitos eventos são apenas associação temporal. A vacinação da criança acontece justamente nas idades em que várias doenças de base se manifestam pela primeira vez, e o manual do Ministério da Saúde usa o exemplo mais duro — a síndrome da morte súbita infantil ocorre na mesma janela de idade em que se aplicam vários imunobiológicos do calendário básico, e vários estudos mostraram que as imunizações não aumentam esse risco. O objetivo da vigilância de óbitos, diz o texto, é primordialmente afastar as causas coincidentes indevidamente atribuídas às vacinas.

Existe ainda uma categoria à parte, que a prova cobra pelo nome: o evento adverso de interesse especial. É aquele que constitui preocupação científica em relação a um produto, a uma classe de produtos ou a um programa de imunização, exigindo monitoramento contínuo e comunicação rápida ao Programa Nacional de Imunizações. Pode ser grave ou não grave — o manual exemplifica com queda de cabelo e perda do paladar — e inclui eventos que possam ser precursores ou pródromos de condições mais graves em pessoas suscetíveis.

Uma observação que a banca gosta de plantar em alternativa: vacinas mais reatogênicas costumam ser mais eficazes. O manual afirma isso com dois exemplos — a pertússis de células inteiras é mais reatogênica e mais eficaz que as acelulares, e a cepa Urabe da caxumba é mais reatogênica e mais imunogênica que a Jeryl Lynn. Reação, portanto, não é sinônimo de desvio de qualidade; a escolha do produto equilibra reatogenicidade e imunogenicidade.

Grave ou não grave: são cinco critérios, e intenso não é um deles

A primeira classificação, feita pela própria unidade que atende, é por gravidade. Evento adverso grave é qualquer evento clinicamente relevante que requeira hospitalização, que ocasione risco de morte e exija intervenção clínica imediata para evitar o óbito, que cause disfunção significativa ou incapacidade permanente, que resulte em anomalia congênita ou que ocasione o óbito. São cinco portas, e basta uma.

O erro clássico é ler a lista como grave é o que interna. O próprio manual antecipa a armadilha: eventos clinicamente relevantes em pacientes que não necessitem internação — e ele nomeia broncoespasmo, discrasias sanguíneas e convulsões febris — têm potencial de gravidade e devem ser investigados e acompanhados. A criança que convulsionou, ficou em observação e voltou para casa não some da vigilância porque não ficou internada.

A segunda armadilha é semântica, e o manual a explicita: gravidade não é intensidade. Um evento pode ser leve, moderado ou intenso independentemente de ser ou não grave — o exemplo dado é a hiperemia local intensa, que é intensa e não é grave. Alternativa que classifica uma reação local exuberante como evento adverso grave está trocando os dois eixos.

Evento adverso não grave é, por definição, todo o resto: qualquer evento que não preencha os critérios de grave. Não representa risco potencial para a saúde do vacinado, mas continua sendo monitorado, porque pode sinalizar um problema maior em relação àquela vacina ou àquela imunização, e porque tem impacto sobre a aceitabilidade da vacinação em geral. A diferença prática entre os dois está no que a vigilância faz com cada um, e isso se vê na última seção.

As cinco categorias da causalidade — e as duas que não acusam o produto

Depois da gravidade vem a causalidade, e é aqui que o tema deixa de ser tabela. O manual apresenta o assunto duas vezes, e as duas apresentações precisam ser lidas juntas. Na primeira, ao definir o evento adverso, ele lista cinco categorias segundo a relação causal: reação relacionada ao produto, reação relacionada à qualidade da vacina, erro de imunização, reação de ansiedade relacionada à imunização e evento coincidente. Na segunda, no capítulo de avaliação de causalidade, ele organiza essas mesmas categorias em quatro níveis — A, associação consistente; B, indeterminada; C, inconsistente ou coincidente; e D, inclassificável —, e é o nível A que se subdivide nas quatro primeiras categorias. Quem decora uma das duas apresentações e ignora a outra erra a questão que cobra a numeração.

A1 é a reação relacionada ao produto: causada ou precipitada pela vacina ou por um de seus componentes, entendendo por componente também os adjuvantes, conservantes, estabilizantes e resíduos do processo de produção, como proteínas do ovo, leveduras e antibióticos. A2 é a reação relacionada à qualidade — desvio de qualidade da vacina, incluindo embalagens e acessórios como diluente, seringa e agulha; quando aparece ligada a um lote específico, a distribuição desse lote precisa ser verificada, e a ocorrência comunicada ao Programa Nacional de Imunizações, à Anvisa e ao fabricante.

A3 é o erro de imunização, causado por manuseio, prescrição ou administração inadequados. A4 é a reação de ansiedade relacionada à imunização, também chamada de estresse desencadeado em resposta à vacinação — inclui síncope vasovagal, reações de hiperventilação e reações consequentes a desordens psiquiátricas, e pode ser desencadeada imediatamente antes, durante ou depois da vacinação. Repare no que A3 e A4 têm em comum: são associação consistente com a vacinação, e nenhuma das duas responsabiliza o produto. Uma responsabiliza o processo; a outra, a resposta da pessoa à agulha.

B é a caixa dos casos que ainda não fecharam. B1 é relação temporal consistente sem evidência na literatura para estabelecer relação causal — e o manual avisa que isso pode ser um sinal em potencial, digno de investigação. O exemplo dado é a narcolepsia após determinada vacina influenza pandêmica, classificada como coincidente ou indeterminada até que a evidência científica de 2010 a movesse para consistente. B2 é quando os dados da investigação são conflitantes em relação à causalidade.

C é a associação inconsistente ou coincidente: condições preexistentes ou emergentes causadas por outros fatores — infecções em geral, manifestação de doença congênita ou hereditária, efeito de outro medicamento. D é o inclassificável, reservado ao caso com informação insuficiente para sequer formular a pergunta de causalidade; nesse caso a exigência é especificar os elementos que faltam e guardar o registro, porque a classificação pode mudar quando a informação adicional chegar.

Erro de imunização: o único evento adverso que não deveria existir

O erro de imunização é evitável por definição, e o manual é explícito ao dizer que, em muitos países, a maioria dos eventos adversos é desencadeada por ele — razão pela qual deve ser o primeiro a ser descartado na investigação. A classificação, nesse caso, se concentra na natureza do erro, e não no processo biológico que originou o sintoma.

Os fatores que o caracterizam se distribuem em três blocos. Produção: descumprimento das boas práticas de fabricação, com alteração de potência ou de esterilidade — o exemplo citado é a contaminação, geralmente por Staphylococcus aureus, que em algumas horas produz sensibilidade local, infiltração tecidual, vômitos, diarreia, cianose e febre elevada, o quadro da síndrome do choque tóxico. Rede de frio: transporte, armazenamento, temperatura, prazo de validade, umidade e luz — excesso de frio ou de calor compromete a potência imunogênica e pode desencadear reação local por alteração física, como a aglutinação de excipientes à base de alumínio. Manuseio e administração: reconstituição, diluente trocado, dosagem, preenchimento de seringa, tamanho de agulha, troca de vacinas, via e sítio, idade fora da recomendada, intervalo entre doses e prazo de validade.

Dois desses itens rendem questão sozinhos. Agulha curta demais deposita no subcutâneo uma vacina com adjuvante de alumínio que era para ser intramuscular e produz abscesso frio, isto é, estéril — o que separa o abscesso frio do abscesso quente não é a temperatura da criança, é a presença de infecção bacteriana secundária. E vacina de uso oral administrada por via parenteral, ou o inverso, é erro de imunização com nome próprio, ao lado das lesões musculares, vasculares e neurológicas por má técnica de administração.

Fecha o bloco a lembrança de que o erro de imunização é prevenível por treinamento de pessoal, suprimento adequado de equipamentos e insumos e supervisão dos serviços — e de que ele é uma das três primeiras classificações que a unidade notificadora faz, ao lado de grave e não grave.

Corte da coxa de um lactente com duas agulhas de comprimentos diferentes: a mais longa deposita o líquido dentro do músculo e a curta para no tecido subcutâneo, onde se forma uma coleção arredondada.
A profundidade da agulha decide o destino do produto: depositado no músculo, ele é absorvido; retido no subcutâneo, o adjuvante de alumínio forma a coleção estéril que a família encontra semanas depois.

A dose que saiu errada: quando repete e quando não repete

Esta é a régua mais cobrada do erro de imunização, e ela não é simétrica. Dose superior à recomendada não afeta a resposta de produção de anticorpos: não se repete nada, apenas se informa a família sobre a possibilidade de risco aumentado de reação local. Dose inferior à recomendada não é suficiente para desenvolver resposta imunológica completa e tem de ser repetida — idealmente no mesmo dia; não sendo possível, vacina viva se repete após intervalo mínimo de quatro semanas e vacina inativada, o mais rapidamente possível.

Idade abaixo da recomendada geralmente não é prejudicial, mas anticorpos maternos transferidos passivamente ao recém-nascido podem interferir na resposta — por isso a dose se repete quando a pessoa atingir a idade recomendada, com intervalo mínimo de um mês a partir da dose aplicada antes da hora.

Intervalo maior que o recomendado não causa prejuízo e não obriga a reiniciar esquema, embora possa interferir na proteção desejada. Intervalo menor tem regra própria, e ela se divide por tipo de vacina. Vacinas inativadas do mesmo tipo administradas com menos de 21 dias entre si exigem repetir uma dose quatro semanas após a última, avisando sobre o risco aumentado de reação local. Vacinas vivas de uso parenteral administradas com menos de 28 dias entre si tornam inválida a segunda dose, e recomenda-se repetir uma dose pelo menos quatro semanas depois da dose inválida — vivas de uso oral, essas, podem ser dadas ao mesmo tempo que as parenterais ou em qualquer intervalo entre elas.

Vacina aplicada fora do prazo de validade não deixa de vigorar no dia do vencimento, mas há possibilidade de degradação e queda de potência ao longo do tempo: a revacinação deve ser considerada segundo o cronograma de revacinação do próprio manual. E diluente trocado dificilmente causa evento adverso, mas pode alterar a potência a ponto de inutilizar a dose — também aqui a decisão é sobre revacinar, não sobre tratar.

O que muda na próxima dose: três degraus — e um parágrafo que se contradiz

A pergunta que chega ao consultório é sempre a mesma: aconteceu isso depois da vacina, e agora? As respostas se organizam em três degraus. Trocar o produto: convulsão, com ou sem febre, nas primeiras 72 horas, e episódio hipotônico-hiporresponsivo nas primeiras 48 horas contraindicam a continuidade com a penta ou a DTP de células inteiras, e o esquema segue com vacina acelular obtida na rede de imunobiológicos especiais. Retirar o componente: encefalopatia aguda grave instalada em até sete dias após uma dose contraindica as vacinas com pertússis, e o esquema continua com a vacina contra difteria e tétano. Contraindicar a vacina: anafilaxia após dose anterior fecha a porta daquele imunobiológico.

Existe um quarto degrau, mais discreto, que é o da precaução. Diante de temperatura igual ou maior que 40 °C nas 48 horas seguintes sem outra causa identificável, colapso ou estado semelhante a choque nas 48 horas, choro persistente e inconsolável com duração de três horas ou mais nas 48 horas, e convulsões com ou sem febre nos três dias seguintes, a norma manda avaliar cuidadosamente a administração de doses adicionais de vacina com o componente pertússis. Precaução não proíbe: manda pensar duas vezes.

Há uma distinção fina que quase nunca é ensinada e que separa o candidato bem preparado. O episódio hipotônico-hiporresponsivo após vacina de células inteiras troca o produto pela acelular. O mesmo episódio após a DTPa — que já é acelular — não troca nada: a conduta escrita no manual é manter o esquema, com as próximas doses aplicadas sob supervisão. Faz sentido, porque não há para onde escalar, e porque estudos prospectivos de crianças que tiveram episódio hipotônico-hiporresponsivo não demonstraram sequela neurológica nem tendência à repetição nas doses subsequentes.

E há um ponto em que o manual se contradiz dentro do próprio texto. No capítulo de condutas gerais, a caixa de atenção sobre episódio hipotônico-hiporresponsivo afirma que há contraindicação para doses subsequentes de vacinas e, na linha seguinte, manda utilizar preferencialmente a vacina DTP acelular na dose subsequente — duas instruções que não podem valer ao mesmo tempo, porque a segunda pressupõe a dose que a primeira proíbe. Os capítulos específicos da penta e da DTP resolvem a ambiguidade em favor da segunda leitura, ao mandar continuar o esquema com vacina acelular. É essa a conduta que a Instrução Normativa do calendário vigente também sustenta, ao dizer que crianças com risco aumentado ou que tenham desenvolvido evento adverso grave a vacina com componente pertússis de células inteiras podem dispor de vacinas especiais.

O tratamento do episódio em si é conservador e cabe em quatro linhas: observação rigorosa até a resolução completa do quadro, oferta de água e leite materno, ambiente ventilado, antitérmico se necessário e precauções especiais para evitar broncoaspiração.

Anafilaxia, síncope e episódio hipotônico: o diagnóstico diferencial da sala de vacina

Três quadros começam parecidos e terminam em condutas opostas. A anafilaxia exige comprometimento simultâneo de dois ou mais órgãos ou sistemas, incluindo sempre o cardiovascular e o respiratório — é esse envolvimento múltiplo que a separa da urticária isolada, da rinite alérgica e da asma. O manual chama a atenção para o valor dos sinais dermatológicos: a associação de sintomas cardiorrespiratórios com urticária ou angioedema é o que diferencia a anafilaxia de síncope vasovagal, infarto do miocárdio, episódio hipotônico-hiporresponsivo e choque séptico. A ressalva importante é que alguns pacientes têm quadro incompleto, sem sinais cutâneos, e entre eles estão os de progressão mais rápida ao óbito.

O tempo também ajuda. A maioria dos casos de anafilaxia acontece na primeira hora, de segundos a minutos após a exposição; uma quantidade menor aparece depois de 12 horas, e há relatos de apresentação bifásica em até 72 horas. O episódio hipotônico-hiporresponsivo ocorre nas primeiras 48 horas e, em geral, nas primeiras seis, costuma começar com irritabilidade e febre e é autolimitado. A síncope vasovagal é imediata — segundos após a picada — e se resolve com a pessoa deitada.

A adrenalina é a primeira linha, e o manual grifa que não há contraindicação para administrá-la no contexto da anafilaxia: via intramuscular, preferencialmente no músculo vasto lateral da coxa, repetindo a cada 5 a 15 minutos, no máximo três vezes. A dose vem tabelada por faixa etária e peso, da apresentação de 1 mg/mL: 0,05 mL para 4 a 8,5 kg, 0,1 mL para 9 a 14,5 kg, 0,15 mL para 15 a 17,5 kg, 0,2 a 0,25 mL para 18 a 25,5 kg, 0,25 a 0,3 mL para 26 a 34,5 kg, 0,35 a 0,4 mL para 35 a 45 kg e 0,5 mL a partir de 46 kg, com dose mínima de 0,05 mL. A coluna que resolve o caso à beira do leito é a do peso, e há um bom motivo: as faixas de peso se sucedem sem vão relevante, com degrau de meio quilo entre uma linha e outra, enquanto a coluna de idade salta de 16 meses direto para 37 meses e deixa vinte meses de vida — dos 17 aos 36 — sem linha correspondente. Diante de uma criança nessa faixa, é o peso que decide.

Quem recebe adrenalina de emergência é imediatamente transferido para o hospital e monitorado por pelo menos 12 horas, porque a reação bifásica ocorre em até 23% dos adultos e até 11% das crianças e é mais provável quando a adrenalina foi retardada. O manejo completo — critérios diagnósticos, segunda linha, refratariedade — está no capítulo Anafilaxia, da apostila de Imunologia.

A síncope tem tratamento conservador e uma medida preventiva que é conduta: adolescentes e adultos devem estar sentados ou deitados durante a vacinação, e recomenda-se observá-los por 15 minutos depois, para diminuir o risco de trauma em caso de queda. Ocorrida a síncope, mantém-se a pessoa em decúbito dorsal com os membros inferiores discretamente elevados, em ambiente ventilado, até a recuperação completa. E o ponto que decide questão: síncope não contraindica as doses subsequentes — ela é a caixa A4 da causalidade, não uma reação ao produto.

A norma mais recente acrescentou uma regra de observação que não é geral, e sim de uma vacina. A partir do monitoramento de segurança da vacina dengue atenuada, o Ministério da Saúde identificou sinal de alerta para anafilaxia e outras reações de hipersensibilidade pós-vacinação acima do observado para outras vacinas, e passou a recomendar observação de pelo menos 30 minutos em quem tem histórico de reações alérgicas graves e de pelo menos 15 minutos em quem não tem. No mesmo texto vêm três consequências: reação grave de hipersensibilidade ou anafilaxia contraindica a dose subsequente da mesma vacina; reação não grave pede avaliação individualizada de risco e benefício, podendo incluir vacinação supervisionada por no mínimo 60 minutos em local com suporte adequado; e a vacinação contra a dengue deve ser evitada em atividades fora da sala de vacinação quando não for possível cumprir as exigências de suporte de vida e de disponibilidade de medicamentos.

Os eventos com nome próprio: BCG, rotavírus e febre amarela

A BCG tem uma lista de eventos locorregionais que a prova cobra pelo tamanho: úlcera com diâmetro maior que 1 cm, abscesso subcutâneo frio, abscesso subcutâneo quente, granuloma, linfadenopatia regional não supurada maior que 3 cm, linfadenopatia regional supurada, cicatriz queloide e reação lupoide. Em geral não estão associados a imunodeficiência e podem, em alguns casos, decorrer de técnica incorreta de administração. O tratamento, quando indicado, é isoniazida 10 mg/kg/dia, com dose máxima de 400 mg, até a regressão completa da lesão — e há duas instruções negativas explícitas: não cobrir a úlcera e não aplicar qualquer medicamento tópico. O bacilo do BCG é naturalmente resistente à pirazinamida, e a cepa Moreau-Rio de Janeiro é sensível à isoniazida.

O que muda o patamar é a disseminação. Lesões que ultrapassam a topografia locorregional — osteoarticulares, de linfonodos a distância, de vísceras, ou generalizadas, com febre persistente, hepatoesplenomegalia e linfadenite múltipla — impõem investigação de imunodeficiência e tratamento com esquema de múltiplas drogas. Também merecem conduta individualizada a ausência de resposta à isoniazida após três a quatro meses, a recidiva da lesão depois de suspender a droga, o aparecimento de linfadenopatia em outras cadeias ganglionares e os sinais de disseminação sistêmica. Ainda sobre a BCG: estima-se que cerca de 10% dos vacinados não desenvolvam cicatriz, e a ausência de cicatriz não indica ausência de proteção nem constitui indicação de revacinação.

No rotavírus, o evento com nome próprio é a intussuscepção. Estudos de vigilância pós-licenciamento das duas principais vacinas licenciadas identificaram risco aumentado principalmente nos primeiros sete dias após a primeira dose, com risco atribuído de 1,1 a 4,3 por 100 mil crianças vacinadas. Por isso história prévia de intussuscepção e malformação congênita não corrigida do trato gastrointestinal que predisponha a ela são contraindicações formais.

Na febre amarela, os dois eventos graves têm sigla e janela temporal distintas. A doença neurológica aguda associada à vacina surge geralmente de uma a quatro semanas após a aplicação, com variação de 2 a 56 dias, e pode ser neurotrópica — invasão direta do vírus vacinal, com meningoencefalite — ou autoimune, na forma de encefalomielite disseminada aguda ou de síndrome de Guillain-Barré. A doença viscerotrópica aguda é disfunção aguda de múltiplos órgãos por replicação e disseminação descontrolada do vírus vacinal, com alta letalidade e manejo em terapia intensiva; o intervalo entre a vacinação e o início dos sintomas é de três a quatro dias, variando de 1 a 18 dias. Investiga-se como suspeito quem apresentar pelo menos dois dos seguintes nos 30 dias após a vacina: febre persistente, hemorragia e/ou icterícia, hipotensão ou choque. Nos dois quadros há contraindicação para doses subsequentes. No Brasil, entre 2007 e 2012, a frequência foi de 0,04 caso de doença viscerotrópica por 100 mil doses aplicadas e de 0,20 caso de doença neurológica por 100 mil doses — 0,17 de doença neurotrópica somado a 0,03 de doença neurológica autoimune.

Notificar: quem, para onde e em quanto tempo

A obrigação não é só do serviço público: qualquer unidade de saúde, pública ou privada, deve notificar a ocorrência. A unidade notificadora faz a primeira classificação em três caixas — evento adverso grave, evento adverso não grave ou erro de imunização — e o destino de cada uma é diferente.

Evento não grave: preenche-se o formulário de notificação e investigação e insere-se no e-SUS Notifica, sem necessidade de investigação — com uma exceção, a das situações de surtos de eventos adversos. Evento grave, ou inusitado, ou com agravante registrado: notificação imediata ou em até 24 horas, admitindo-se telefone, e-mail e aplicativo de mensagem para alertar o nível hierárquico superior, e todos devem ser investigados. O prazo máximo para iniciar uma investigação de campo em tempo oportuno é de 48 horas após a notificação.

O sistema de registro mudou de casa em janeiro de 2021: o módulo de notificação de eventos adversos passou a ser o do e-SUS Notifica, em notifica.saude.gov.br, no lugar do módulo do sistema de informação de imunizações. A Instrução Normativa do calendário vigente já se refere a ele pelo nome atual, e-SUS Notifica módulo ESAVI. O registro nominal de doses aplicadas, esse, continua no sistema de informação do Programa Nacional de Imunizações, que é outra coisa e responde a outra pergunta.

Ao lado dele existe o VigiMed, da Anvisa, lançado em dezembro de 2018 como versão brasileira do VigiFlow da Organização Mundial da Saúde. Ele recebe relatos de eventos adversos a medicamentos e vacinas feitos por cidadãos e por profissionais de saúde — dispensando cadastro prévio para o cidadão e para o profissional liberal — e alimenta também o banco de dados mundial. Não confundir com o Notivisa, que é o canal das queixas técnicas, isto é, da suspeita de desvio de qualidade do produto.

No nível federal, os eventos graves são avaliados, discutidos e classificados segundo a causalidade, e os mais graves são apresentados ao Comitê Interinstitucional de Farmacovigilância de Vacinas e outros Imunobiológicos para avaliação, classificação e encerramento. Depois do encerramento e da validação, há retroalimentação a todos os envolvidos — e é essa devolutiva que fecha o ciclo da vigilância.

Uma leitura fina para a prova de saúde coletiva: a Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente desde 14 de maio de 2026 traz o item ESAVI sem qualquer qualificação de gravidade, na coluna de notificação imediata em até 24 horas para o Ministério da Saúde, a Secretaria Estadual e a Secretaria Municipal de Saúde. O rótulo anterior restringia o item aos eventos adversos graves e aos óbitos pós-vacinação. A periodicidade em si não foi alterada: o artigo que muda periodicidades na mesma portaria trata apenas de difteria e tétano. O que mudou no item foi o nome e o alcance, e o fluxo operacional graduado por gravidade continua sendo o do manual de 2021.

04

Ler o caso na ordem em que a decisão acontece

Quase toda questão do tema se resolve em cinco leituras, sempre na mesma ordem. Trocar a ordem é o que faz o candidato acertar a classificação e errar a conduta — ou tratar bem e esquecer a notificação, que é metade da resposta.

  1. 1Primeiro decida se é evento adverso. Ocorrência médica indesejada depois da vacinação já basta para entrar na vigilância — não é preciso ter certeza de que a vacina causou. É por isso que o rótulo legal, desde maio de 2026, é evento supostamente atribuível à vacinação ou imunização.
  2. 2Depois classifique a gravidade pelos cinco critérios, e não pela impressão. Ausência de internação não retira do radar o broncoespasmo, a discrasia sanguínea e a convulsão febril, que têm potencial de gravidade e continuam sendo investigados e acompanhados.
  3. 3Em seguida procure erro de imunização antes de qualquer outra explicação — dose, via, sítio, diluente, agulha, intervalo, idade, validade e rede de frio. Descartar o erro primeiro é instrução do manual, não estilo pessoal.
  4. 4Só então classifique a causalidade. Se o quadro é síncope imediata em adolescente, a caixa é a da reação de ansiedade, e ela não contraindica dose subsequente. Se é urticária generalizada com broncoespasmo e hipotensão, é anafilaxia e a caixa é a do produto.
  5. 5Decida o que muda na próxima dose antes de a família ir embora: trocar o produto, retirar o componente pertússis, contraindicar aquela vacina, ou não mudar nada. E diga em voz alta as vacinas que seguem inalteradas — evento adverso a uma delas não suspende o calendário inteiro.
  6. 6Feche notificando. Grave, inusitado ou erro de imunização: imediato, em até 24 horas, com investigação iniciada em até 48 horas. Não grave: registro sem investigação, exceto em surto. E lembre-se de que a unidade privada notifica igual à pública.

Grave é o que a lista diz

Hospitalização, risco de morte com intervenção imediata, disfunção significativa ou incapacidade permanente, anomalia congênita, óbito. Broncoespasmo, discrasia sanguínea e convulsão febril sem internação continuam sendo investigados e acompanhados. Intenso não é grave.

Cinco categorias, duas sem culpa do produto

Reação relacionada ao produto, reação relacionada à qualidade, erro de imunização, reação de ansiedade ligada à vacinação e evento coincidente. As quatro primeiras compõem o nível A, de associação consistente, e nele o erro de imunização e a reação de ansiedade não responsabilizam a vacina. Fora do A ficam B, indeterminada, C, coincidente, e D, inclassificável.

Três degraus para a próxima dose

Convulsão em 72 horas e episódio hipotônico-hiporresponsivo em 48 horas trocam a célula inteira pela acelular. Encefalopatia em até 7 dias tira o pertússis e o esquema segue com difteria e tétano. Anafilaxia contraindica aquela vacina.

24 horas para notificar, 48 para investigar

Evento grave, inusitado ou com agravante: notificação imediata ou em até 24 horas no e-SUS Notifica, e investigação de campo iniciada em até 48 horas. Evento não grave: registra-se sem investigar, salvo surto.

O que cada evento faz com a dose seguinte

Evento após vacina com pertússisJanelaConsequência para o esquema
Convulsão, com ou sem febrePrimeiras 72 horasContraindica penta e DTP de células inteiras; segue com acelular pela rede de imunobiológicos especiais
Episódio hipotônico-hiporresponsivoPrimeiras 48 horasContraindica a célula inteira; segue com acelular. Se o episódio ocorreu após DTPa, mantém-se o esquema com as próximas doses sob supervisão
Encefalopatia aguda graveAté 7 diasContraindica as vacinas com pertússis; o esquema continua com a vacina contra difteria e tétano
AnafilaxiaMinutos a horasContraindica doses subsequentes daquele imunobiológico
Febre igual ou maior que 40 °C sem outra causa; colapso; choro por 3 horas ou mais48 horasPrecaução: avaliar cuidadosamente doses adicionais com componente pertússis, sem proibir
Síncope vasovagal; reação local, mesmo intensa; febre baixa ou moderadaImediata ou nas primeiras horasNão contraindica doses subsequentes

Adrenalina intramuscular na anafilaxia pós-vacinal — apresentação 1 mg/mL, diluição 1:1000, no vasto lateral da coxa

Faixa etária impressaPesoDose
1 a 6 meses4 a 8,5 kg0,05 mL
7 a 16 meses9 a 14,5 kg0,1 mL
37 a 59 meses15 a 17,5 kg0,15 mL
5 a 7 anos18 a 25,5 kg0,2 a 0,25 mL
8 a 10 anos26 a 34,5 kg0,25 a 0,3 mL
11 a 12 anos35 a 45 kg0,35 a 0,4 mL
13 anos ou mais46 kg ou mais0,5 mL

Os níveis e as categorias da classificação de causalidade

NívelSubtipoO que significa
A — associação consistenteA1 reação relacionada ao produtoCausada ou precipitada pela vacina ou por um de seus componentes, adjuvantes e resíduos incluídos
A — associação consistenteA2 reação relacionada à qualidadeDesvio de qualidade da vacina, do diluente, da seringa ou da agulha; verificar o lote e comunicar PNI, Anvisa e fabricante
A — associação consistenteA3 erro de imunizaçãoManuseio, prescrição ou administração inadequados; por definição, evitável
A — associação consistenteA4 ansiedade ou estresse ligado à vacinaçãoSíncope vasovagal, hiperventilação e reações consequentes a desordens psiquiátricas, antes, durante ou após a aplicação
B — indeterminadaB1 e B2B1: relação temporal consistente sem evidência na literatura, possível sinal. B2: dados de investigação conflitantes
C — inconsistente ou coincidenteCondição preexistente ou emergente causada por outro fator: infecção, doença congênita, outro medicamento
D — inclassificávelInformação insuficiente para formular a pergunta de causalidade; especificar o que falta e guardar o registro

A tabela de adrenalina do manual tem um vão na coluna de idade: as faixas passam de 7 a 16 meses direto para 37 a 59 meses, e a criança entre 17 e 36 meses não encontra linha própria. A coluna de peso avança sem lacuna relevante — o degrau entre uma faixa e a seguinte é de meio quilo —, e é ela que se usa à beira do leito. A dose mínima registrada é de 0,05 mL, e a repetição é a cada 5 a 15 minutos, no máximo três vezes.

Evento não grave dispensa investigação, mas a dispensa tem exceção escrita: situações de surtos de eventos adversos. Surto de evento adverso é hipótese de erro de imunização ou de desvio de qualidade de lote até prova em contrário, e por isso ele volta a exigir investigação.

A regra de observar 30 minutos quem tem histórico de alergia grave e 15 minutos quem não tem é da vacina dengue atenuada, não do calendário inteiro. O que vale para todas as vacinas injetáveis é outra coisa: adolescentes e adultos vacinados sentados ou deitados, com 15 minutos de observação para reduzir trauma por queda em caso de síncope.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Se o episódio hipotônico-hiporresponsivo contraindica as doses seguintes ou apenas troca o produto

Contraindica doses subsequentes

A caixa de atenção do capítulo de condutas gerais afirma que há contraindicação para doses subsequentes de vacinas e, na linha imediatamente seguinte, manda utilizar preferencialmente a vacina DTP acelular na dose subsequente. As duas frases não podem valer ao mesmo tempo: a segunda pressupõe exatamente a dose que a primeira proíbe.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação, 4ª edição atualizada, 2021, item 26.9, página 309.

Não interrompe: troca a célula inteira pela acelular

Os capítulos das vacinas com pertússis são inequívocos e detalham a conduta: observação rigorosa até o desaparecimento completo dos sinais e continuidade do esquema com vacina DTP acelular, completando também as demais vacinas do combinado com produtos isolados. Após episódio ocorrido com a própria DTPa, a instrução é manter o esquema com as próximas doses aplicadas sob supervisão.

Mesmo manual, itens 7.1.4 (penta, página 83), 7.2 (DTP, página 91) e 7.3.4 (DTPa, página 97); no mesmo sentido, a Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação vigente, que oferece vacinas especiais a quem teve evento adverso grave com componente pertússis de células inteiras.

Na prova

O enunciado avisa qual leitura está cobrando pelo verbo que usa. Quando pergunta o que fazer com o esquema, a resposta é continuar com acelular pela rede de imunobiológicos especiais — é a conduta detalhada nos capítulos específicos e a que a instrução normativa vigente sustenta. Quando o enunciado apenas repete o texto da caixa de atenção e pede a transcrição literal, ele está cobrando a frase, não a conduta. Alternativa que suspende todo o calendário da criança está errada nas duas leituras.

Até que idade a vacina penta pode ser aplicada

Contraindicada a partir dos 5 anos

A lista de contraindicações da penta abre com crianças com 5 anos ou mais de idade, ao lado da contraindicação após evento adverso grave em dose anterior. Na mesma obra, a DTP aparece contraindicada a partir dos 7 anos.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação, 4ª edição atualizada, 2021, item 7.1.3.2, página 79.

Indicada até 6 anos, 11 meses e 29 dias

A instrução normativa do calendário vigente define a penta para crianças a partir de 2 meses até 6 anos, 11 meses e 29 dias de idade, manda atualizar a situação vacinal até essa idade e diz expressamente que a vacina é contraindicada a partir dos 7 anos, quando a atualização passa a ser feita com dupla adulto e hepatite B monovalente.

Brasil. Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, seção da vacina penta (DTP+HB+Hib).

Na prova

É divergência de data, não de opinião: o manual é de 2021 e a instrução normativa é a norma operacional vigente do calendário. Enunciado que descreve uma criança de 5 ou 6 anos com esquema incompleto e pergunta o que aplicar está cobrando a norma do calendário — penta até 6 anos, 11 meses e 29 dias. O corte dos 7 anos é o único que as duas fontes compartilham, e é por isso que ele aparece com tanta frequência.

Como se chama o evento: EAPV ou ESAVI

EAPV, evento adverso pós-vacinação

O manual que rege a conduta usa EAPV em todo o texto, do título ao glossário, e é dele que saem as definições de caso, a classificação por gravidade, a classificação de causalidade e o fluxo de notificação e investigação.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação, 4ª edição atualizada, 2021.

ESAVI, evento supostamente atribuível à vacinação ou imunização

O item da Lista Nacional de Notificação Compulsória deixou de se chamar eventos adversos graves ou óbitos pós-vacinação e passou a ser evento supostamente atribuível à vacinação ou imunização, com notificação imediata, em até 24 horas, ao Ministério da Saúde e às secretarias estadual e municipal. A instrução normativa do calendário vigente já usa a sigla no corpo do texto e chama o manual de 2021 de Manual ESAVI.

Brasil. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, art. 4º, inciso V, e Anexo I, item 23; e Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação.

Na prova

Os dois rótulos nomeiam a mesma coisa, e a diferença serve para datar o enunciado: quem escreve eventos adversos graves ou óbitos pós-vacinação está copiando a lista anterior a 14 de maio de 2026. O detalhe que muda substância é o alcance — o item da lista antiga se restringia aos casos graves e aos óbitos, e o atual nomeia o ESAVI sem qualificar a gravidade. O fluxo interno graduado por gravidade, esse, continua sendo o do manual.

06

Caso resolvido

Menino de 20 meses, 11,2 kg, é levado à sala de vacinação de uma unidade básica para atualizar o cartão. Recebe a vacina tetraviral, atrasada desde os 15 meses. Doze minutos depois, ainda na unidade, começa com placas urticariformes no tronco e nos membros, edema de lábios, tosse seca e sibilos audíveis à distância. Fica pálido e sonolento; a pressão arterial aferida é 62 x 30 mmHg e a frequência cardíaca, 178 bpm. Não há febre. A mãe informa que ele nunca teve reação a vacina, que não usa medicamento e que almoçou em casa, três horas antes, sem alimento novo. Na sala há adrenalina 1 mg/mL, oxigênio, soro fisiológico e telefone.
por que isto é anafilaxia e não síncope nem episódio hipotônico
Há comprometimento simultâneo de três sistemas — pele com urticária generalizada e angioedema, respiratório com tosse e sibilos, cardiovascular com hipotensão e taquicardia — e o critério da anafilaxia exige dois ou mais sistemas, incluindo sempre o cardiovascular e o respiratório. A síncope vasovagal é imediata, tem palidez com recuperação rápida ao deitar e não cursa com urticária nem broncoespasmo. O episódio hipotônico-hiporresponsivo é hipotonia, palidez e hiporresponsividade nas primeiras 48 horas, tipicamente ligado a vacina com pertússis, sem sinais cutâneos nem respiratórios. Vale registrar que a presença de sinais dermatológicos ajuda o diagnóstico, mas parte dos casos de anafilaxia não tem sinal de pele — e são justamente os de progressão mais rápida.
qual é a dose de adrenalina, e por que ela sai da coluna do peso
A dose é 0,1 mL da apresentação de 1 mg/mL, por via intramuscular no vasto lateral da coxa, repetível a cada 5 a 15 minutos, no máximo três vezes. Ela vem da linha de 9 a 14,5 kg, onde os 11,2 kg desta criança se encaixam. A coluna de idade não resolve o caso: as faixas impressas passam de 7 a 16 meses direto para 37 a 59 meses, e uma criança de 20 meses não tem linha própria. O manual grifa ainda que não há contraindicação à adrenalina no contexto da anafilaxia — e que a dose mínima é de 0,05 mL.
o que vem junto e o que vem depois
Simultaneamente: paciente em decúbito dorsal com as pernas elevadas, via aérea garantida, oxigênio suplementar de alto fluxo e expansão com soro fisiológico 0,9% 20 mL/kg intravenoso rápido para a hipotensão; anti-histamínico, broncodilatador inalatório e corticosteroide são medidas de segunda linha e não substituem a adrenalina. Acionado o serviço de emergência, a criança vai para o hospital e permanece monitorada por pelo menos 12 horas, porque a reação bifásica ocorre em até 11% das crianças e é mais provável quando a adrenalina foi retardada.
como este evento se classifica
Por gravidade, é evento adverso grave: ocasionou risco de morte e exigiu intervenção clínica imediata para evitar o óbito, e além disso resultará em hospitalização. Por causalidade, a caixa é a A1, reação relacionada ao produto, dentro do nível A de associação consistente — e é preciso antes descartar erro de imunização, verificando lote, validade, diluente, via e volume aplicados.
o que a unidade precisa fazer nas próximas 24 e 48 horas
Notificação imediata, em até 24 horas, com registro no e-SUS Notifica; por ser grave, o caso é obrigatoriamente investigado, e o prazo máximo para iniciar a investigação em tempo oportuno é de 48 horas após a notificação. A ficha deve trazer lote, sítio anatômico e a descrição detalhada do quadro e do tratamento. A obrigação independe de a vacina ter sido aplicada em serviço público ou privado.
o que fica contraindicado a partir de agora
Anafilaxia após dose anterior contraindica as doses subsequentes daquele imunobiológico — no caso, a vacina que contém sarampo, caxumba, rubéola e varicela. O que não se contraindica é o resto do calendário: as demais vacinas seguem, e a criança deve ser encaminhada à rede de imunobiológicos especiais para avaliação, porque ter apresentado evento adverso grave a uma vacina da rotina é exatamente uma das portas de entrada desses centros.
07

Agora feche você

Durante uma ação de vacinação em uma escola, uma adolescente de 13 anos recebe a vacina papilomavírus humano em pé, na fila, ao lado das colegas. Cerca de 30 segundos depois da aplicação ela empalidece, refere que está enxergando embaçado e desaba, sem trauma craniano. A equipe a deita no chão e eleva as pernas. Ao exame: consciente em cerca de 40 segundos, pele fria e pálida, sem urticária, sem edema de face, ausculta pulmonar limpa, frequência cardíaca 48 bpm e pressão arterial 88 x 54 mmHg, que sobe para 104 x 66 mmHg em dois minutos, com recuperação completa. A professora pergunta se a menina é alérgica à vacina e se as colegas devem ser vacinadas em outro dia.
qual é o quadro e o que o separa da anafilaxia
Compare o número de sistemas envolvidos, a presença ou ausência de sinais cutâneos e respiratórios, e o comportamento da frequência cardíaca. Diga o que a resposta ao decúbito com pernas elevadas acrescenta.
em que caixa de causalidade este evento entra
Escolha entre reação relacionada ao produto, erro de imunização, reação de ansiedade ligada à vacinação e evento coincidente, e explique por que o nível de associação continua sendo o A.
o que muda na dose seguinte e no esquema das colegas
Decida se há contraindicação, e diga qual é a medida preventiva que a norma manda adotar para adolescentes e adultos na hora de vacinar.
se este evento é notificável, e em que prazo
Classifique primeiro a gravidade pelos cinco critérios, e só então diga o que a unidade faz com a ficha e se é preciso investigar.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de grave só o que interna Hospitalização é apenas um dos cinco critérios. Risco de morte com necessidade de intervenção clínica imediata, disfunção significativa ou incapacidade permanente, anomalia congênita e óbito valem sozinhos. E o manual vai além: broncoespasmo, discrasias sanguíneas e convulsões febris em pacientes que não precisaram internar têm potencial de gravidade e devem ser investigados e acompanhados. Alternativa que devolve a criança para casa sem notificar porque ela não ficou internada está errada.
  2. 2Confundir gravidade com intensidade São eixos diferentes, e o manual diz isso com todas as letras: um evento pode ser leve, moderado ou intenso independentemente de ser ou não grave. O exemplo escolhido é a hiperemia local intensa — intensa e não grave. Enunciado que descreve uma reação local exuberante, dolorosa e extensa não está descrevendo um evento adverso grave; está descrevendo um evento intenso.
  3. 3Achar que erro de imunização e desmaio não são evento adverso São, e ficam no nível A da causalidade, o de associação consistente. O erro de imunização é a caixa A3 e a reação de ansiedade é a A4. O que essas duas caixas dizem é que a associação com o ato de vacinar existe, mas a causa não é o produto: uma acusa o processo, a outra acusa a resposta da pessoa à agulha. Alternativa que classifica um desmaio pós-vacinal como evento coincidente está trocando a caixa A4 pela C.
  4. 4Repetir a dose porque aplicaram volume a mais A régua é assimétrica e a banca inverte. Dose superior à recomendada não afeta a resposta de anticorpos e não se repete: informa-se a família sobre possível risco aumentado de reação local. Dose inferior não gera resposta completa e tem de ser repetida — no mesmo dia, se possível; se não, vacina viva após intervalo mínimo de quatro semanas e vacina inativada o mais rapidamente possível.
  5. 5Suspender o calendário inteiro depois de um evento adverso Nenhum dos três degraus faz isso. Convulsão em 72 horas e episódio hipotônico-hiporresponsivo em 48 horas trocam a célula inteira pela acelular; encefalopatia em até sete dias retira o pertússis e mantém difteria e tétano; anafilaxia contraindica aquele imunobiológico, e apenas ele. Ter apresentado evento adverso grave a uma vacina da rotina é, aliás, indicação de encaminhamento à rede de imunobiológicos especiais — ou seja, é motivo para continuar vacinando, com outro produto.
  6. 6Notificar no lugar errado, ou achar que um canal substitui o outro O registro do evento adverso pelo profissional que atende é no e-SUS Notifica, módulo próprio. O VigiMed é o canal da Anvisa, aberto também ao cidadão e ao profissional liberal sem cadastro prévio, e alimenta o banco mundial. O Notivisa é para queixa técnica, isto é, suspeita de desvio de qualidade do produto. E o sistema de informação do Programa Nacional de Imunizações é onde se registram as doses aplicadas — ele não recebe a notificação do evento.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Palidez súbita, hipotonia e hiporresponsividade nas primeiras 48 horas (tipicamente até 12 horas) após vacina com componente pertussis celular, com recuperação espontânea e sem sequelas, define o episódio hipotônico-hiporresponsivo (EHH). Pelo Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação do Ministério da Saúde, o EHH é evento de notificação compulsória e indica substituição do componente celular pelo acelular (DTPa) nas doses subsequentes, disponível nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE). Não houve febre nem movimentos tônico-clônicos, o que afasta crise febril — além disso, manter DTP celular seria inadequado. Não houve urticária, broncoespasmo ou choque de instalação imediata, o que afasta anafilaxia; e anafilaxia comprovada contraindicaria o imunobiológico, mas não é o caso. A criança está eutrófica, afebril e com exame normal, sem qualquer sinal de sepse.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os cinco critérios de evento adverso grave e, ao lado, os três exemplos de eventos que continuam sendo investigados mesmo sem internação. Depois desenhe as caixas da causalidade em uma folha: A1, A2, A3, A4, B1, B2, C e D, dizendo em uma frase o que cada uma significa e apontando as duas em que a vacina não é a causa do dano. Feche recitando os três degraus que mudam a próxima dose com o componente pertússis, com a janela de horas de cada um: 72 horas, 48 horas e sete dias.

em 30 dias

Reconstrua os dois casos do capítulo decidindo, item a item: qual é o quadro, em que caixa de causalidade ele entra, o que acontece com a dose seguinte e qual é o prazo de notificação. Em seguida escreva a régua da dose errada nas duas direções — dose a mais e dose a menos, idade antes da hora, intervalo abaixo do mínimo para inativada e para viva parenteral — e diga, sem consultar, quantos dias e quantas semanas há em cada uma. Por fim, responda em voz alta: qual é o sistema em que se registra o evento adverso, qual é o prazo para notificar um caso grave, qual é o prazo para iniciar a investigação e qual é a única situação em que um evento não grave também precisa ser investigado.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma mãe volta à unidade no dia seguinte à vacinação do filho de quatro meses, ainda assustada, e traz no celular o vídeo do que aconteceu: horas depois das doses, o bebê ficou pálido, mole e sem responder ao chamado por cerca de quinze minutos, e depois voltou ao normal sozinho. Hoje ele mama e sorri. Conduza a consulta: estabeleça o intervalo entre a aplicação e o início do episódio, pergunte uma a uma as características que separam esse quadro de uma crise convulsiva, confira na caderneta quais imunobiológicos foram aplicados e em que sítios, examine o local da injeção e o tônus do lactente, e resolva três coisas antes de ela ir embora: o que precisa ser notificado e por quê, o que muda na próxima dose do calendário, e o que essa mãe leva escrito como sinal de alarme. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Eventos adversos pós-vacinação — Preparatório para provas | OsceLabs