PediatriaInfectologia Pediátrica

Meningites na infância

Meningites bacterianas e virais na infância

A prova cobra três decisões: separar bacteriana de viral pelo líquor, escolher o antibiótico empírico pela idade da criança e dizer quem recebe quimioprofilaxia, em que dose e em quanto tempo.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 5 anos é levado à UPA com quadro de febre há 1 dia, cefaleia intensa, vômitos e rigidez de nuca. Ao exame apresenta sinal de Kernig positivo, sonolência e petéquias em tronco. Além do suporte, qual é a medida de saúde pública indispensável neste caso?

02

Como esse tema cai

Meningite é o tema em que a prova quase nunca pede diagnóstico difícil: a vinheta entrega febre, rigidez de nuca e um líquor. O que ela cobra é a decisão que vem depois. Qual antibiótico, na dose de quantos miligramas por quilo, por quantos dias. Quem da creche toma rifampicina e quem não toma. Se o caso é de notificar hoje ou na semana que vem. São perguntas com resposta escrita em documento brasileiro, e é por isso que meningite rende questão de recorte estreito.

A régua nacional aqui tem uma particularidade que vale entender antes de decorar qualquer número: ela é de vigilância, não de terapêutica. Meningite não tem PCDT nem linha de cuidado clínica; o que existe é o Guia de Vigilância em Saúde, que traz as tabelas de antibiótico dentro de um capítulo cuja função é organizar notificação, investigação e bloqueio. Isso explica dois fatos que confundem o aluno: as tabelas de tratamento do Guia são enxutas e citam livro-texto como fonte, e assuntos clínicos de beira de leito — corticoide adjuvante, tempo de imagem antes da punção — passam de raspão ou não aparecem. Em outubro de 2024, uma nota técnica do Ministério refez as definições de caso suspeito, de contato próximo e de surto, e revogou as que estavam no Guia. Quem estudou pela edição de 2023 ou de 2024 do Guia está com uma definição que não vale mais.

O capítulo cobre a criança fora do período neonatal e o lactente jovem, a meningite bacteriana e a viral, a quimioprofilaxia dos contatos e as vacinas que previnem. Meningite tuberculosa tem escore, esquema e duração próprios e fica no capítulo de tuberculose; sepse e meningite do recém-nascido nos primeiros dias de vida ficam no capítulo de sepse neonatal, e aqui entram só as doses do lactente com menos de 2 meses, porque é a faixa em que a escolha do antibiótico muda de raiz.

03

O que muda decisão

Quem causa meningite na criança brasileira hoje — e por que a resposta mudou

Como usar este capítulo: responda primeiro a três perguntas — qual síndrome e faixa etária estão diante de você, o que deve ser colhido sem atrasar o tratamento e qual esquema empírico cobre esse cenário. Só depois acrescente doses, duração e exceções.

A etiologia bacteriana da meningite se organiza por idade, e a vacinação reescreveu essa lista duas vezes em trinta anos. Nos primeiros 2 meses de vida dominam os agentes adquiridos no canal de parto e no ambiente: estreptococo do grupo B, bacilos gram-negativos entéricos como Escherichia coli e Klebsiella, e Listeria monocytogenes. Depois dos 2 meses, o palco é do meningococo e do pneumococo. O Haemophilus influenzae tipo b, que já foi a principal causa de meningite bacteriana do pré-escolar, praticamente saiu de cena: a vacina entrou no calendário nos anos 1990 e a queda foi progressiva. Entre 2010 e 2023, a meningite por Haemophilus registrou média de 137 casos por ano no país inteiro, e a maior parte dos isolados recentes é de cepas não tipáveis e do sorotipo a, e não mais do b.

A doença meningocócica seguiu o mesmo caminho depois da introdução da vacina meningocócica C conjugada, em 2010. O coeficiente de incidência ficou abaixo de um caso por 100 mil habitantes na população geral na última década e foi de 0,35 por 100 mil em 2023. A doença continua sendo, porém, uma doença de criança pequena: entre os menores de 5 anos a média é de 1,7 caso por 100 mil, com 1,42 por 100 mil em 2023. Os sorogrupos que importam no Brasil são o B, o C e o W, com o Y em menor escala — e o B é justamente o que a vacina de rotina do calendário público não cobre.

Dois números explicam por que a vigilância trata contato de meningococo com pressa. O período de incubação médio é de 4 dias, variando de 2 a 10, e o risco de doença invasiva entre contatos domiciliares de um doente é de 500 a 800 vezes o da população geral. Em compensação, a transmissibilidade acaba rápido: o meningococo some da nasofaringe em até 24 horas de antibioticoterapia adequada.

Corte sagital da cabeça de um lactente mostrando as meninges com exsudato purulento no espaço subaracnóideo e a fontanela abaulada, com ampliação celular exibindo neutrófilos e diplococos.
O exsudato ocupa o espaço subaracnóideo e converte o líquor de água de rocha em líquido turvo com centenas a milhares de neutrófilos. No lactente, a pressão que ele gera encontra a única saída disponível: a fontanela ainda aberta.

A definição de caso suspeito mudou em outubro de 2024

Até 2024, o Guia de Vigilância em Saúde definia caso suspeito como criança acima de 1 ano ou adulto com febre, cefaleia, vômitos, rigidez de nuca e outros sinais de irritação meníngea, convulsões ou manchas vermelhas no corpo, com um parágrafo separado dizendo que abaixo de 1 ano esses sinais podem faltar. A Nota Técnica Conjunta nº 154/2024 trocou isso por uma definição de contagem de sintomas, sem corte de idade na entrada: febre acompanhada de dois ou mais entre cefaleia intensa, vômito, confusão ou alteração mental, fotofobia, torpor e convulsão; ou febre com pelo menos um sinal de irritação meníngea — rigidez de nuca, Kernig ou Brudzinski; ou febre de início súbito com petéquias ou sufusões hemorrágicas.

O acréscimo que interessa ao pediatra vem no fim: em menores de 2 anos, além de todas as apresentações acima, conta como caso suspeito febre com irritabilidade, ou choro persistente, ou sonolência, ou abaulamento de fontanela. Um só desses itens, somado à febre, já qualifica. É a formalização, dentro da definição de vigilância, daquilo que a beira do leito sempre soube: o lactente não faz o quadro clássico.

Em situação de surto, a definição afrouxa de propósito para capturar mais gente: aí basta febre com um único sintoma entre confusão ou alteração mental, convulsão, torpor, sinal de irritação meníngea e petéquias; ou febre com dois entre cefaleia intensa, vômito e fotofobia. Trocar sensibilidade por especificidade quando há surto é uma decisão de vigilância, e a prova gosta de perguntar isso na forma de um enunciado que avisa que já há dois casos na mesma creche.

O lactente não faz sinal meníngeo — o que examinar no lugar

Crianças de até 9 meses podem não apresentar nenhum dos sinais clássicos de irritação meníngea, e a rigidez de nuca nem sempre está presente mesmo em lactentes maiores com meningite comprovada. O que substitui esses sinais é um conjunto pouco elegante e muito útil: irritabilidade ou agitação, choro persistente, o chamado grito meníngeo — a criança grita ao ser manipulada, tipicamente quando se flexionam as pernas para trocar a fralda —, recusa alimentar, vômitos, convulsão e abaulamento da fontanela. O exame cuidadoso da fontanela bregmática, procurando abaulamento ou aumento de tensão, é obrigatório em todo lactente febril com alteração de comportamento.

No recém-nascido a lista muda outra vez, e piora: a febre pode simplesmente não existir. Observa-se com frequência hipotermia, recusa alimentar, cianose, convulsões, apatia e irritabilidade que se alternam, respiração irregular e icterícia. Nenhum desses achados é específico, e é exatamente por isso que meningite entra no diferencial de todo neonato que parece doente sem explicação.

Do outro lado do espectro está a doença meningocócica com petéquias. Cerca de 60% dos casos de meningite meningocócica cursam com lesões cutâneas petequiais, e em até 15% das crianças com meningococcemia o exantema inicial é maculopapular, não petequial, e some rápido — indistinguível de uma virose. Em 15% a 20% dos pacientes a doença é apenas septicêmica, sem meningite, com choque e coagulação intravascular disseminada; é a síndrome de Waterhouse-Friderichsen, cuja letalidade passa de 40% e cujos óbitos se concentram nas primeiras 48 horas.

Punção lombar: o que espera e o que não espera

A coleta de líquor e de sangue para hemocultura deve ser feita tão logo se tenha a suspeita clínica, e o antibiótico deve ser instituído o mais precocemente possível, de preferência logo depois da punção. A regra que resolve o conflito entre os dois está escrita: não se atrasa o início do tratamento por causa da coleta. Quando a punção não é possível antes, coleta-se o mais próximo possível do momento em que o antibiótico começou — o líquor já tratado perde cultura, mas mantém celularidade, bioquímica e, com sorte, PCR.

O material colhido é processado primeiro no laboratório local, porque é ele que orienta a conduta médica nas próximas horas: bacterioscopia pelo Gram, citoquímica, látex e cultura. Depois a amostra ou a cepa isolada segue para o Laboratório Central de Saúde Pública, que faz a caracterização fina — sorogrupo do meningococo, sorotipo do pneumococo e do Haemophilus, qPCR. Essa segunda etapa não muda o tratamento do paciente à sua frente; muda a vigilância, a decisão de surto e a política de vacina.

A cultura é o padrão-ouro e vale para líquor, sangue e raspado de lesão petequial. A bacterioscopia dá a resposta em minutos com especificidade baixa, mas orienta: diplococo gram-negativo aponta meningococo, diplococo gram-positivo aponta pneumococo, cocobacilo gram-negativo aponta Haemophilus. O látex detecta antígeno e pode dar falso-positivo em portador de fator reumatoide ou por reação cruzada. A PCR detecta DNA e continua positiva mesmo depois do antibiótico — é ela que salva o diagnóstico etiológico do caso que chegou já tratado.

O líquor decide: bacteriana, viral e o que os números significam

O líquor normal é límpido e incolor, descrito como água de rocha, com 0 a 5 células por mm³, glicose de 45 a 100 mg/dL, proteínas totais de 15 a 50 mg/dL e cloretos de 680 a 750 mg/dL, que o quadro nacional imprime como mEq/L — a concentração real de cloreto no líquor fica em torno de 120 mEq/L. Na meningite bacteriana o aspecto vira turvo, de cor branco-leitosa ou levemente xantocrômica, a celularidade vai de 200 a milhares com predomínio de neutrófilos, a glicose e os cloretos caem e as proteínas sobem. Na meningite viral o líquor continua límpido, com 5 a 500 células de predomínio linfocitário, glicose normal, proteínas levemente aumentadas e cloretos normais. Na tuberculosa o aspecto é límpido ou opalescente, a celularidade fica entre 25 e 500 linfócitos e a glicose e os cloretos caem — é a combinação de líquor claro com glicose baixa que denuncia a tuberculose.

Duas leituras do mesmo quadro derrubam candidato. A primeira: predomínio linfocitário não exclui bactéria. Nas primeiras horas de uma meningite bacteriana o líquor pode ainda ser pobre em células, e no paciente que tomou antibiótico antes de chegar ao hospital a celularidade se desloca para linfócitos, a bacterioscopia negativa e a cultura estéril — é a meningite parcialmente tratada, que continua bacteriana. A segunda: glicose normal com centenas de linfócitos e criança em bom estado geral é o retrato da meningite viral, e ali o antibiótico não é obrigatório; glicose baixa não é achado de virose.

Vale registrar o que a prática acrescenta ao que o quadro tabelado diz. O líquor do lactente com menos de 2 meses tem celularidade e proteína basais mais altas que as do escolar, de modo que os cortes acima classificam mal essa faixa; e diante de líquor duvidoso em criança com aspecto tóxico, em uso prévio de antibiótico ou com menos de 2 meses de vida, a conduta é tratar como bacteriana e reavaliar com o resultado da cultura, e não esperar para ver.

Antibiótico empírico: a idade escolhe o esquema

Em lactentes com até 2 meses de idade, o esquema empírico é a associação de ampicilina com uma cefalosporina de terceira geração, e essa cefalosporina é a cefotaxima. A ceftriaxona deve ser evitada no período neonatal porque compete com a bilirrubina pela albumina. A ampicilina está no esquema por causa da Listeria e do enterococo, que as cefalosporinas não cobrem. A alternativa é ampicilina com um aminoglicosídeo — gentamicina ou amicacina —, escolhida não só pelo espectro de cada droga, mas pelo sinergismo contra as enterobactérias que também causam meningite nessa idade.

As doses nessa faixa são divididas por dias de vida e por peso de nascimento. Ampicilina: 100 mg/kg/dia de 12 em 12 horas até o 7º dia em quem tem menos de 2.000 g, e 150 mg/kg/dia de 8 em 8 horas até o 7º dia em quem tem mais de 2.000 g; depois do 7º dia, 150 a 200 mg/kg/dia de 8 em 8 horas abaixo de 2.000 g e 200 a 300 mg/kg/dia de 6 em 6 horas acima de 2.000 g. Cefotaxima: 100 a 150 mg/kg/dia de 12 em 12 horas até o 7º dia, e 200 mg/kg/dia de 6 em 6 horas depois disso. Gentamicina: 5 mg/kg/dia de 12 em 12 horas até o 7º dia abaixo de 2.000 g, 7,5 mg/kg/dia de 12 em 12 horas até o 7º dia acima de 2.000 g, e 7,5 mg/kg/dia de 8 em 8 horas depois do 7º dia. Todas por via endovenosa.

Acima de 2 meses, o tratamento empírico é uma cefalosporina de terceira geração isolada — ceftriaxona 100 mg/kg/dia de 12 em 12 horas, ou cefotaxima 200 mg/kg/dia de 6 em 6 horas, ambas endovenosas. O esquema clássico de ampicilina com cloranfenicol só se justifica se as cefalosporinas não estiverem disponíveis, e o cloranfenicol sozinho fica reservado a quem tem história de anafilaxia a betalactâmico. Nada de vancomicina de rotina no empírico brasileiro: a resistência do pneumococo às cefalosporinas de terceira geração ainda é baixa no país, ao contrário do que ocorre onde o empírico padrão já nasce com vancomicina.

Terapia dirigida e duração: cada agente tem o seu relógio

Assim que a cultura identifica o agente, o esquema é reavaliado. Pneumococo sensível à penicilina: penicilina G 200.000 a 400.000 UI/kg/dia de 4 em 4 horas, ou ampicilina 200 a 300 mg/kg/dia de 6 em 6 horas, por 10 a 14 dias. Pneumococo com resistência intermediária, ou resistente à penicilina mas sensível à cefalosporina: ceftriaxona 100 mg/kg/dia de 12 em 12 horas ou cefotaxima 200 mg/kg/dia de 6 em 6 horas, também por 10 a 14 dias. Pneumococo resistente à penicilina e à cefalosporina de terceira geração: vancomicina 60 mg/kg/dia de 6 em 6 horas associada à cefalosporina de terceira geração, mais rifampicina 20 mg/kg/dia de 12 em 12 horas.

Haemophilus influenzae: ceftriaxona ou cefotaxima nas mesmas doses, por 7 a 10 dias. Meningococo: 5 a 7 dias, com penicilina G 200.000 a 400.000 UI/kg/dia de 4 em 4 horas, ampicilina 200 a 300 mg/kg/dia de 6 em 6 horas ou ceftriaxona 100 mg/kg/dia de 12 em 12 horas — no adulto, ceftriaxona 2 g de 12 em 12 horas por 7 dias. Outros bacilos gram-negativos, como E. coli e Klebsiella: 21 dias. Pseudomonas aeruginosa: ceftazidima 150 a 200 mg/kg/dia de 8 em 8 horas, 21 dias. Listeria monocytogenes: ampicilina com amicacina, no mínimo 21 dias.

Duas notas de resistência valem número. Cerca de 30% dos isolados de Hib produzem betalactamase e, portanto, são resistentes à ampicilina, mas seguem sensíveis às cefalosporinas de terceira geração. No pneumococo, estudos nacionais mostram isolados de líquor não suscetíveis à penicilina acima de 30%, com resistência às cefalosporinas de terceira geração ainda baixa. A rifampicina entra no esquema do pneumococo em três situações fechadas: piora clínica após 24 a 48 horas de vancomicina com cefalosporina, falha na esterilização liquórica, ou concentração inibitória mínima igual ou maior que 4 µg/mL para cefotaxima ou ceftriaxona. E a vancomicina nunca é usada isolada em meningite, porque penetra mal no líquor.

Meningite viral: quem é, o que fazer e o que não fazer

A meningite viral é mais comum que a bacteriana e tem outro prognóstico. Os principais agentes são os enterovírus — poliovírus, echovírus, coxsackie A e B —, transmitidos sobretudo por via fecal-oral e também por via respiratória, com incubação habitual de 7 a 14 dias, podendo variar de 2 a 35. As crianças são o grupo mais vulnerável. Outros vírus entram na lista: caxumba, adenovírus, HIV, sarampo, arbovírus e o grupo herpes, incluindo varicela-zóster, Epstein-Barr e citomegalovírus.

O quadro do enterovírus costuma começar com febre, mal-estar, náusea e dor abdominal, e um a dois dias depois aparecem os sinais de irritação meníngea com rigidez de nuca e vômitos. Manifestações gastrointestinais, respiratórias, mialgia e erupção cutânea acompanham com frequência. A duração é em geral inferior a uma semana e o restabelecimento costuma ser completo, com complicações raras fora do imunodeficiente.

O tratamento é de suporte, com avaliação criteriosa e acompanhamento clínico; não há antiviral de rotina. A exceção é a meningite herpética, por HSV 1 e 2 e por varicela-zóster, que se trata com aciclovir endovenoso. Na caxumba, a gamaglobulina hiperimune específica pode reduzir a incidência de orquite, mas não melhora o quadro neurológico. E o ponto que a prova cobra pelo avesso: meningite viral é de notificação compulsória exatamente como a bacteriana, com a mesma ficha e o mesmo prazo.

Notificação em 24 horas — e o que a notificação dispara

Meningite, de qualquer etiologia, é doença de notificação compulsória em até 24 horas para as secretarias municipais e estaduais de saúde. Notificam profissionais da assistência, da vigilância e os laboratórios públicos e privados, por telefone, e-mail ou outra forma de comunicação, e o registro é feito no Sinan pela Ficha de Investigação de Meningite. Surtos, aglomerados de casos e óbitos também são de notificação imediata. Caso confirmado de meningite tuberculosa preenche, além dessa, a ficha de notificação da tuberculose.

A notificação não é papelada: é o gatilho de tudo que vem depois. É dela que sai a identificação dos contatos próximos, a quimioprofilaxia, a avaliação da cobertura vacinal do território e a eventual caracterização de surto. As Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030 fixam como meta que 90% das quimioprofilaxias de contatos de doença meningocócica sejam feitas em até 24 horas da notificação — ou seja, o prazo da notificação e o prazo do bloqueio são, na prática, o mesmo prazo.

Vale saber o horizonte em que essas diretrizes foram escritas, porque ele explica a pressa: o Brasil aderiu ao roteiro global com três objetivos até 2030 — eliminar as epidemias de meningite bacteriana, reduzir em 50% os casos de meningite bacteriana imunoprevenível e reduzir em 70% as mortes, e prevenir incapacidade depois da doença. O terceiro objetivo não é retórico: o próprio documento cita revisão em que cerca de metade dos sobreviventes entre 1 mês e 18 anos apresentou pelo menos uma sequela em cinco anos de seguimento, sendo as deficiências auditiva e motora as mais frequentes na infância.

Contato próximo: a definição que decide quem toma rifampicina

Contato próximo é quem teve contato direto e prolongado com o caso suspeito ou confirmado de doença meningocócica ou de doença invasiva por Hib, com exposição direta a gotículas de secreção respiratória, em duas janelas: a retrospectiva, que vai do início dos sintomas do caso até 10 dias antes, e a prospectiva, que vai do início dos sintomas até 24 horas depois do começo do tratamento com cefalosporina de terceira geração ou com rifampicina.

As situações que caracterizam essa exposição estão listadas e são numéricas. Compartilhar ambiente doméstico, como o mesmo domicílio ou dormitório. Exposição direta a secreção nasofaríngea, como beijo ou compartilhamento de objeto que leve troca de saliva. Exposição próxima e contínua de pelo menos 4 horas e a até 1 metro de distância em ambiente fechado — o passageiro do assento ao lado numa viagem longa, a sala de aula, a reunião. Exposição próxima por pelo menos 5 dias, contínuos ou não, como a turma de creche de menores de 5 anos e o ambiente de trabalho. E a exposição a gotículas em procedimento gerador de aerossol sem equipamento de proteção adequado — intubação, passagem de sonda nasogástrica, aspiração de via aérea, respiração boca a boca — feito antes de o paciente completar 24 horas de tratamento.

O contato meramente transitório, fora desses períodos, não é considerado contato próximo e prolongado e não recebe quimioprofilaxia. Essa frase existe para conter o efeito colateral clássico de um caso na escola: a escola inteira querendo rifampicina. E há um contato que quase sempre esquecem: o próprio paciente. Ele recebe quimioprofilaxia antes da alta se o tratamento da doença não tiver sido feito com cefalosporina de terceira geração — quem foi tratado com penicilina ou ampicilina continua podendo carregar o meningococo na nasofaringe.

Quimioprofilaxia: droga, dose por quilo e prazo

A droga de primeira escolha é a rifampicina, administrada em dose adequada e simultaneamente a todos os contatos próximos. O uso preferencial e restrito da rifampicina existe para evitar seleção de isolados resistentes. Ceftriaxona e ciprofloxacino são alternativas em dose única quando há indisponibilidade, intolerância ou contraindicação à rifampicina, ou quando não se pode garantir a tomada de todas as doses — situação comum em contato que não vai voltar. A azitromicina em dose única de 500 mg fica para resistência ao ciprofloxacino ou ausência das demais opções. Na gestante, a primeira escolha passa a ser a ceftriaxona, porque estudos de reprodução animal mostraram efeitos adversos fetais com rifampicina. Na lactante não há contraindicação: a rifampicina é compatível com a amamentação, que não deve ser interrompida.

Para doença meningocócica, a rifampicina é de 12 em 12 horas por 2 dias: 5 mg/kg/dose em menores de 1 mês e 10 mg/kg/dose, no máximo 600 mg, a partir de 1 mês. As alternativas em dose única: ceftriaxona 125 mg intramuscular abaixo de 12 anos e 250 mg intramuscular a partir dos 12; ciprofloxacino 500 mg por via oral a partir dos 18 anos. Para doença invasiva por Hib o ritmo muda: rifampicina uma vez ao dia por 4 dias, 10 mg/kg/dose em menores de 1 mês e 20 mg/kg/dose, máximo 600 mg, de 1 mês a menos de 18 anos; 600 mg em adultos. A ceftriaxona alternativa aqui é 50 mg/kg intramuscular ou endovenosa uma vez ao dia por 2 dias abaixo de 12 anos, e 1 grama a partir dos 12. Guardar as duas linhas juntas evita o erro mais frequente do tema: são doses, intervalos e durações diferentes para as duas bactérias.

O prazo é parte da prescrição. A quimioprofilaxia deve ser feita o mais breve possível, idealmente nas primeiras 24 horas após o início dos sintomas do caso. Para doença meningocócica, administrada mais de 10 dias depois da exposição tem valor bastante limitado ou nulo, porque a maioria dos casos secundários acontece na primeira semana. Para doença invasiva por Hib, em que há relato de casos secundários mais tardios, a janela se estende até 30 dias após a exposição. Depois de feita, os contatos são monitorados quanto a sinais e sintomas por 10 dias contados da última exposição — que é o teto do período de incubação.

Quem recebe difere entre as duas bactérias. Na doença meningocócica, todos os contatos próximos, independentemente do estado vacinal. No Hib, a profilaxia é dirigida pela vulnerabilidade do domicílio: todos os contatos domiciliares se houver ali indivíduo imunocomprometido ou criança menor de 2 anos, independentemente da vacinação, ou criança menor de 4 anos não vacinada ou com esquema incompleto. Em creche, entram os cuidadores diretos e as crianças menores de 4 anos da sala do caso, quando o contato se deu por pelo menos 5 dos 10 dias anteriores ao início dos sintomas e existe na turma criança nessas condições de vulnerabilidade; se houver um segundo caso de doença invasiva por Haemophilus em até 60 dias, a sala inteira recebe, independentemente de idade e de estado vacinal. Não há evidência que indique quimioprofilaxia para Haemophilus não b — mas, como a tipagem demora, a profilaxia é feita já na confirmação inicial de doença invasiva por Haemophilus.

Vacinas: o que o calendário público previne e o que ele deixa de fora

A prevenção da meningite bacteriana é vacinal, e o calendário público cobre três agentes. O Haemophilus influenzae tipo b entra na pentavalente, aos 2, 4 e 6 meses, com os reforços de 15 meses e 4 anos feitos com DTP. O pneumococo entra na pneumocócica 10-valente conjugada, em duas doses aos 2 e 4 meses e reforço preferencialmente aos 12 meses; a 13-valente e a 23-valente ficam para condições clínicas especiais nos CRIE. O meningococo entra com a MenC aos 3 e 5 meses, com reforço aos 12 meses e uma dose entre 11 e 14 anos, ambos já com a vacina MenACWY. A BCG, ao nascer, protege contra as formas graves de tuberculose, incluindo a meníngea.

Há uma conduta vacinal pouco lembrada e muito específica: a criança que teve doença invasiva por Hib antes dos 2 anos de idade pode ter um segundo episódio, porque a infecção natural nessa idade não deixa anticorpos protetores robustos. Se ela não era vacinada ou tinha esquema incompleto, inicia ou completa o esquema. Se tinha esquema completo e está entre 6 meses e menos de 2 anos, recebe uma dose adicional de vacina com componente Hib, respeitado o intervalo mínimo de 60 dias da última dose. A vacinação começa 30 dias após o início da doença invasiva, ou o mais breve possível depois disso. Acima de 2 anos, com esquema completo, não é preciso dose extra.

O que o calendário público não cobre é o meningococo B — justamente um dos sorogrupos de maior relevância no país — e a proteção ampliada contra A, C, W e Y no primeiro semestre de vida. A vacina meningocócica B recombinante e o uso de MenACWY desde os 2 meses existem no Brasil e são recomendados pela SBP, mas fora da rede pública. É uma diferença de acesso, não de discordância técnica, e está detalhada no bloco de divergências.

O que não fazer

Não atrasar o antibiótico. Nem por tomografia, nem por transporte, nem porque a punção não saiu na primeira tentativa. A coleta de líquor e sangue é obrigatória, mas subordinada: quando ela não é possível antes, faz-se o mais próximo possível do início do tratamento. A demora custa sequela e vida em uma doença cuja letalidade se concentra nas primeiras 48 horas.

Não usar ceftriaxona no recém-nascido: ela compete com a bilirrubina e a cefotaxima ocupa o lugar dela no esquema neonatal. Não usar vancomicina como agente isolado em meningite, por baixa penetração liquórica. Não prescrever a dose de rifampicina do meningococo para contato de Hib, nem o contrário: 10 mg/kg de 12 em 12 horas por 2 dias não é a mesma coisa que 20 mg/kg uma vez ao dia por 4 dias. E não dar quimioprofilaxia a contato de meningite pneumocócica — a indicação existe apenas para doença meningocócica e para doença invasiva por Haemophilus influenzae tipo b.

Não tratar líquor claro como sinônimo de vírus sem olhar a glicose e o contexto: glicose baixa com líquor límpido levanta tuberculose, e criança com antibiótico prévio pode ter líquor de aparência viral e doença bacteriana. Não deixar de notificar por achar que o caso já está resolvido — a notificação em 24 horas é o que dispara a busca de contatos. E não liberar o paciente tratado com penicilina ou ampicilina sem a quimioprofilaxia dele próprio, que segue colonizado.

04

Do líquor ao bloqueio: a sequência que a questão cobra

As três tabelas abaixo concentram o que se decora deste tema: o líquor que separa as etiologias, o antibiótico empírico e dirigido com dose por quilo, e as duas quimioprofilaxias, que têm doses e durações diferentes entre si. O fluxo antes delas mostra a ordem em que as decisões acontecem no plantão.

  1. 1Suspeitou: febre com dois ou mais sintomas, ou febre com um sinal meníngeo, ou febre com petéquias — e, em menor de 2 anos, febre com irritabilidade, choro persistente, sonolência ou fontanela abaulada.
  2. 2Colheu: líquor e sangue para hemocultura, tão logo se tenha a suspeita, com bacterioscopia, citoquímica, látex e cultura no laboratório local.
  3. 3Tratou: antibiótico empírico pela idade — ampicilina com cefotaxima até 2 meses; ceftriaxona ou cefotaxima acima de 2 meses. Se a coleta não foi possível antes, ela vem logo depois, e não o contrário.
  4. 4Notificou: em até 24 horas às secretarias municipal e estadual, com registro no Sinan pela Ficha de Investigação de Meningite.
  5. 5Bloqueou: identificou os contatos próximos pelas janelas de 10 dias para trás e de 24 horas de tratamento para frente, e prescreveu a quimioprofilaxia idealmente nas primeiras 24 horas.
  6. 6Ajustou: com a cultura na mão, direcionou o antibiótico e fixou a duração pelo agente — 5 a 7 dias no meningococo, 7 a 10 no Haemophilus, 10 a 14 no pneumococo, 21 nos gram-negativos.
  7. 7Fechou: conferiu a situação vacinal, indicou a dose adicional de Hib quando cabível e programou a avaliação auditiva do sobrevivente.
CaracterísticaMeningite bacterianaMeningite viralMeningite tuberculosaValores de referência
AspectoTurvoLímpidoLímpido ou ligeiramente turvo (opalescente)Límpido
CorBranco-leitosa ou levemente xantocrômicaIncolor ou opalescenteIncolor ou xantocrômicaIncolor, cristalino (água de rocha)
Leucócitos200 a milhares, com neutrófilos5 a 500 linfócitos25 a 500 linfócitos0 a 5 por mm³
GlicoseDiminuídaNormalDiminuída45 a 100 mg/dL
Proteínas totaisAumentadasLevemente aumentadasAumentadas15 a 50 mg/dL
CloretosDiminuídosNormaisDiminuídos680 a 750 mg/dL (o quadro nacional imprime mEq/L)

Antibiótico na criança: empírico por idade e dirigido por agente (via endovenosa)

SituaçãoEsquemaDose diáriaIntervaloDuração
Empírico até 2 meses de idadeAmpicilina + cefotaxima (a ceftriaxona é evitada no período neonatal)Ampicilina 100 a 300 mg/kg/dia conforme dias de vida e peso; cefotaxima 100 a 200 mg/kg/diaDe 6 em 6 a 12 em 12 horas, conforme a idadeAté identificação do agente
Empírico acima de 2 mesesCeftriaxona ou cefotaximaCeftriaxona 100 mg/kg/dia; cefotaxima 200 mg/kg/dia12 em 12 horas (ceftriaxona); 6 em 6 horas (cefotaxima)Até identificação do agente
Neisseria meningitidisPenicilina G, ampicilina ou ceftriaxonaPenicilina 200.000 a 400.000 UI/kg/dia; ampicilina 200 a 300 mg/kg/dia; ceftriaxona 100 mg/kg/dia4 em 4; 6 em 6; 12 em 12 horas5 a 7 dias
Haemophilus influenzaeCeftriaxona ou cefotaxima100 mg/kg/dia ou 200 mg/kg/dia12 em 12 ou 6 em 6 horas7 a 10 dias
Streptococcus pneumoniae sensível à penicilinaPenicilina G ou ampicilina200.000 a 400.000 UI/kg/dia; 200 a 300 mg/kg/dia4 em 4; 6 em 6 horas10 a 14 dias
Pneumococo resistente à penicilina e à cefalosporinaVancomicina + cefalosporina de 3ª geração + rifampicinaVancomicina 60 mg/kg/dia; ceftriaxona 100 mg/kg/dia; rifampicina 20 mg/kg/dia6 em 6; 12 em 12; 12 em 12 horas10 a 14 dias
Gram-negativos entéricos (E. coli, Klebsiella)Ceftriaxona ou cefotaxima100 mg/kg/dia ou 200 mg/kg/dia12 em 12 ou 6 em 6 horas21 dias
Listeria monocytogenesAmpicilina + amicacinaConforme peso e dias de vida12 em 12 horas21 dias ou mais

Quimioprofilaxia dos contatos próximos: as duas linhas não se confundem

DoençaDrogaFaixa etáriaDoseIntervalo e duração
Doença meningocócicaRifampicina (1ª escolha)Menor de 1 mês5 mg/kg/dose12 em 12 horas, 2 dias
Doença meningocócicaRifampicina (1ª escolha)1 mês ou mais10 mg/kg/dose (máximo 600 mg)12 em 12 horas, 2 dias
Doença meningocócicaCeftriaxona (1ª escolha na gestante)Menor de 12 anos / 12 anos ou mais125 mg / 250 mg intramuscularDose única
Doença meningocócicaCiprofloxacino18 anos ou mais500 mg por via oralDose única
Doença invasiva por HibRifampicina (1ª escolha)Menor de 1 mês10 mg/kg/dose24 em 24 horas, 4 dias
Doença invasiva por HibRifampicina (1ª escolha)1 mês a menos de 18 anos20 mg/kg/dose (máximo 600 mg)24 em 24 horas, 4 dias
Doença invasiva por HibCeftriaxona (se contraindicação à rifampicina)Menor de 12 anos / 12 anos ou mais50 mg/kg / 1 grama, intramuscular ou endovenosa24 em 24 horas, 2 dias

O paciente também recebe quimioprofilaxia antes da alta se a doença não foi tratada com cefalosporina de terceira geração — quem usou penicilina ou ampicilina segue colonizado na nasofaringe.

Janela útil: idealmente nas primeiras 24 horas do início dos sintomas do caso; acima de 10 dias da exposição o valor é bastante limitado ou nulo na doença meningocócica, enquanto no Hib a profilaxia ainda é indicada até 30 dias.

Quimioprofilaxia existe para meningococo e para Haemophilus influenzae tipo b. Não existe para pneumococo, nem para as meningites virais.

As doses de lactente com menos de 2 meses variam por dias de vida e por peso de nascimento; a tabela acima traz a faixa, e a prescrição individual segue o quadro completo do Guia de Vigilância em Saúde.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é a definição de caso suspeito de meningite em vigor no Brasil

Febre com o quadro clássico, com corte de idade em 1 ano — Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, do Ministério da Saúde, 2024

O capítulo de Outras meningites define caso suspeito como criança acima de 1 ano de idade e adulto com febre, cefaleia, vômitos, rigidez de nuca, sinais de irritação meníngea (Kernig, Brudzinski), convulsões e/ou manchas vermelhas no corpo, acrescentando em parágrafo separado que abaixo de 1 ano esses sintomas podem não ser evidentes e que se deve considerar irritabilidade, choro persistente e abaulamento de fontanela. É a redação que ainda circula em material didático e em fluxograma de serviço.

Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, 2024, capítulos Doença meningocócica e Outras meningites, item Definição de caso.

Febre com contagem de sintomas, sem corte de idade na entrada — Nota Técnica Conjunta nº 154/2024-DPNI/SVSA/MS, de 1º de outubro de 2024

A nota define caso suspeito como febre acompanhada de dois ou mais sintomas entre cefaleia intensa, vômito, confusão ou alteração mental, fotofobia, torpor e convulsão; ou febre com pelo menos um sinal de irritação meníngea; ou febre de início súbito com petéquias ou sufusões hemorrágicas; e acrescenta que, em menores de 2 anos, conta também febre com irritabilidade, choro persistente, sonolência ou abaulamento de fontanela. O documento declara expressamente revogadas as definições que constam na 6ª edição do Guia e informa que as novas serão incorporadas à 7ª edição.

Ministério da Saúde, Nota Técnica Conjunta nº 154/2024-DPNI/SVSA/MS, itens 3.1 e 7.3.

Na prova

Aqui não há dois mundos, e sim duas datas do mesmo órgão: a nota técnica é de outubro de 2024 e revoga a redação do Guia. O que identifica o recorte é a data da prova e a fonte citada no enunciado. Questão que reproduz o texto do Guia costuma trazer a expressão crianças acima de 1 ano de idade e adultos e listar os sintomas em bloco; questão alinhada à nota técnica aparece com contagem — dois ou mais sintomas — e com a faixa de menores de 2 anos, e é nela que caem os sinais de irritabilidade e fontanela. Um enunciado que descreve lactente de 18 meses apenas com febre e fontanela abaulada só fecha caso suspeito pela definição de 2024, e essa é a pista de que a banca usou o documento novo.

Dexametasona adjuvante na meningite bacteriana da criança

Sem recomendação de corticoide adjuvante no documento nacional — Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, do Ministério da Saúde, 2024

As tabelas brasileiras de tratamento trazem apenas antibiótico, dose, intervalo e duração; o corticoide não integra o esquema. A única menção está no capítulo de doença meningocócica, que registra que o uso de corticoide nas situações de choque é discutível, porque há controvérsias sobre a influência favorável ao prognóstico. Vale lembrar que o documento é de vigilância epidemiológica, e não um protocolo clínico de terapia intensiva.

Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, 2024, capítulo Doença meningocócica, item Tratamento, e capítulo Outras meningites, Quadros 2 e 3.

Corticoide reduz perda auditiva e sequela neurológica, com benefício concentrado em Haemophilus e em países de alta renda — revisão sistemática Cochrane de Brouwer e colaboradores, 2015

A revisão reuniu 25 ensaios e 4.121 participantes. A mortalidade foi de 17,8% com corticoide contra 19,9% sem, sem redução significativa (RR 0,90; IC 95% 0,80 a 1,01). Houve menos perda auditiva grave (RR 0,67; IC 95% 0,51 a 0,88), menos perda auditiva de qualquer grau (RR 0,74; IC 95% 0,63 a 0,87) e menos sequelas neurológicas (RR 0,83; IC 95% 0,69 a 1,00). O efeito sobre perda auditiva grave se concentrou nas crianças com meningite por H. influenzae (RR 0,34; IC 95% 0,20 a 0,59), sem benefício demonstrado nas demais bactérias, e não houve efeito favorável nos estudos conduzidos em países de baixa renda, onde a mortalidade basal é maior.

Brouwer MC, McIntyre P, Prasad K, van de Beek D. Corticosteroids for acute bacterial meningitis. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2015, CD004405 (resumo público).

Na prova

A causa da diferença tem nome e é dupla: o documento brasileiro é de vigilância e não trata de terapia adjuvante, e o benefício mais sólido do corticoide foi medido justamente na meningite por Haemophilus, que quase desapareceu do país depois da vacina. Para identificar o recorte, olhe o cenário e as alternativas. Enunciado que cita o Guia de Vigilância em Saúde, notificação, quimioprofilaxia ou conduta na rede pública está no corpo brasileiro, e ali o esquema é antibiótico com suporte. Enunciado de emergência ou terapia intensiva que oferece alternativas com dexametasona 0,15 mg/kg de 6 em 6 horas iniciada antes ou junto da primeira dose de antibiótico está trabalhando com o corpo internacional — a própria existência desse distrator, com dose e momento, denuncia de qual literatura a questão saiu.

Qual vacina meningocócica o lactente deve receber

MenC aos 3 e 5 meses, com MenACWY nos reforços — Calendário Nacional de Vacinação do Programa Nacional de Imunizações

O calendário público usa a meningocócica C conjugada no esquema primário de duas doses, aos 3 e aos 5 meses de idade, com reforço aos 12 meses e uma dose entre 11 e 14 anos, ambos com a vacina MenACWY. Não há oferta rotineira de vacina contra o meningococo B na rede pública, embora o próprio Ministério registre que os sorogrupos de maior relevância no Brasil são o B, o C e o W, com o Y em menor escala.

Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, 2024, Quadros 12 e 13; Nota Técnica Conjunta nº 154/2024, item 2.1; esquema em vigor descrito no Calendário de Vacinação da SBP 2025/2026.

MenACWY de rotina desde os 2 meses e meningocócica B recombinante para o lactente — Calendário de Vacinação da SBP, atualização 2025/2026

A SBP recomenda o uso rotineiro das meningocócicas conjugadas em lactentes a partir dos 2 meses, dando preferência à MenACWY pelo espectro maior de proteção, inclusive nos reforços de quem já recebeu MenC, e prevê reforços cinco anos depois e na adolescência. Recomenda também a vacina meningocócica B recombinante de quatro componentes para lactentes que iniciem entre 2 e 12 meses, em duas doses com intervalo mínimo de 2 meses e reforço no segundo ano de vida. Ambas existem no Brasil fora da rede pública.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos Científicos de Imunizações e de Infectologia, Calendário de Vacinação da SBP — Atualização 2025/2026, Documento Científico nº 12, de 20 de outubro de 2025, itens 8 e 9.

Na prova

A distância entre os dois calendários é de incorporação e custo, não de discordância sobre a eficácia das vacinas — a sociedade recomenda o que existe licenciado no país, e o programa público incorpora conforme avaliação econômica e capacidade de oferta. O recorte aparece no vocabulário e no cenário: enunciado que fala em Calendário Nacional de Vacinação, PNI, unidade básica ou cobertura vacinal quer o esquema público, com MenC aos 3 e 5 meses; enunciado ambulatorial que pergunta o que orientar a uma família em consultório, ou que cita a Sociedade Brasileira de Pediatria, abre espaço para MenACWY precoce e meningocócica B. Alternativa que oferece vacina meningocócica B para lactente é sinal de que a questão saiu do calendário da sociedade, porque essa vacina não existe na rotina pública.

06

Caso resolvido

Lactente de 9 meses é levado ao pronto-socorro pela mãe por febre de 39,2 °C iniciada há cerca de 14 horas, com dois episódios de vômito, recusa das mamadas e choro que não cede no colo. A mãe conta que ele grita quando ela levanta as pernas dele para trocar a fralda. Frequenta creche há três meses. Vacinas em dia conforme o calendário público. Ao exame: sonolento entre os períodos de choro, hidratado, tempo de enchimento capilar de 2 segundos, fontanela anterior tensa e abaulada, sem rigidez de nuca, sem Kernig e sem Brudzinski, e três lesões petequiais no tronco que não desaparecem à digitopressão.
achado
Febre com irritabilidade, choro persistente, sonolência e fontanela abaulada em menor de 2 anos, mais petéquias de início recente. A ausência de rigidez de nuca, Kernig e Brudzinski não afasta nada: crianças de até 9 meses podem não apresentar os sinais clássicos de irritação meníngea.
classificação
É caso suspeito de meningite pela definição vigente por dois caminhos independentes: febre com irritabilidade, choro persistente, sonolência ou fontanela abaulada em menor de 2 anos; e febre de início súbito com petéquias, que é critério isolado em qualquer idade.
conduta imediata
Acesso venoso, coleta de líquor e de hemocultura e início do antibiótico logo em seguida. Como tem 9 meses, o empírico é cefalosporina de terceira geração isolada: ceftriaxona 100 mg/kg/dia endovenosa, de 12 em 12 horas. A coleta não pode empurrar o antibiótico para depois; se a punção não sair, o antibiótico entra e o líquor é colhido o mais próximo possível desse momento.
líquor
Aspecto turvo, 2.800 leucócitos por mm³ com predomínio de neutrófilos, glicose de 18 mg/dL, proteínas de 180 mg/dL e bacterioscopia com diplococos gram-negativos. O conjunto define meningite bacteriana e aponta meningococo; o padrão será confirmado por cultura e por qPCR com sorogrupagem no laboratório de referência.
notificação
Notificação compulsória em até 24 horas às secretarias municipal e estadual, com registro no Sinan pela Ficha de Investigação de Meningite. É a notificação que aciona a busca de contatos na creche e no domicílio.
duração e ajuste
Confirmado o meningococo, o tratamento é de 5 a 7 dias, podendo ser feito com penicilina G 200.000 a 400.000 UI/kg/dia de 4 em 4 horas, ampicilina 200 a 300 mg/kg/dia de 6 em 6 horas ou a própria ceftriaxona já iniciada. Se o esquema for trocado para penicilina ou ampicilina, o paciente precisará de quimioprofilaxia antes da alta; mantida a ceftriaxona, não precisa.
bloqueio dos contatos
Recebem rifampicina os contatos domiciliares e os da turma de creche que se enquadram como contato próximo — convívio de pelo menos 5 dias, contínuos ou não, nos 10 dias anteriores ao início dos sintomas. Dose de doença meningocócica: 10 mg/kg/dose, máximo 600 mg, de 12 em 12 horas por 2 dias, para quem tem 1 mês ou mais; irmão com menos de 1 mês receberia 5 mg/kg/dose no mesmo intervalo e duração. Idealmente nas primeiras 24 horas. Cuidadora gestante da creche recebe ceftriaxona 250 mg intramuscular em dose única.
alta
Situação vacinal conferida e avaliação auditiva programada: a deficiência auditiva é a sequela mais frequente da meningite bacteriana na infância, e o seguimento dela é objetivo explícito das diretrizes nacionais até 2030.
07

Agora feche você

Menina de 6 anos chega à emergência com febre de 38,5 °C há dois dias, cefaleia, dois episódios de vômito e queixa de incômodo com a luz da sala. Havia tido dor abdominal e diarreia leve no início do quadro. Ao exame: em bom estado geral, ativa, conversando, hidratada, sem petéquias, com rigidez de nuca discreta e sem déficit neurológico. Nenhum antibiótico foi usado antes. O líquor vem límpido e incolor, com 240 leucócitos por mm³ e 88% de linfócitos, glicose de 62 mg/dL, proteínas de 58 mg/dL e bacterioscopia sem microrganismos. Há três casos semelhantes na mesma escola nas últimas duas semanas.
achado
Líquor límpido, celularidade de 240 com predomínio linfocitário, glicose normal (62 mg/dL, dentro da faixa de referência de 45 a 100) e proteína apenas levemente aumentada, em criança de bom estado geral e sem uso prévio de antibiótico. O pródromo gastrointestinal e o agrupamento de casos na escola completam o quadro.
interpretação
O padrão liquórico é o da meningite viral, e a etiologia mais provável é enterovírus — transmissão fecal-oral, incubação habitual de 7 a 14 dias, pródromo com náusea e dor abdominal seguido de sinais meníngeos, e duração em geral inferior a uma semana. Glicose normal é o dado que afasta tanto a bacteriana quanto a tuberculosa.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Trocar a dose de rifampicina do meningococo pela do Haemophilus Atrai porque é a mesma droga, para a mesma finalidade, na mesma lista. Mas na doença meningocócica são 10 mg/kg/dose de 12 em 12 horas por 2 dias a partir de 1 mês (5 mg/kg/dose abaixo de 1 mês), e na doença invasiva por Hib são 20 mg/kg/dose uma vez ao dia por 4 dias a partir de 1 mês (10 mg/kg/dose abaixo de 1 mês). Dose, intervalo e duração mudam nos três campos, e é exatamente aí que a alternativa errada se instala.
  2. 2Prescrever ceftriaxona ao recém-nascido com meningite Parece coerente: é a cefalosporina de terceira geração que todo mundo usa acima de 2 meses. Só que no período neonatal ela compete com a bilirrubina pela ligação à albumina, e o esquema da faixa é ampicilina com cefotaxima — a ampicilina entrando pela Listeria, que cefalosporina nenhuma cobre. Trocar cefotaxima por ceftriaxona nessa idade é erro de duas camadas.
  3. 3Atrasar o antibiótico para fazer tomografia ou repetir a punção A lógica de proteger o paciente antes de puncionar é boa; o custo de esperar é que a letalidade da doença meningocócica se concentra nas primeiras 48 horas. A regra escrita é que o tratamento não se atrasa por causa da coleta: quando a punção precisa esperar, o antibiótico entra e o líquor é colhido o mais próximo possível desse momento, apoiado depois pela PCR, que continua positiva mesmo após o início do tratamento.
  4. 4Dar quimioprofilaxia a contato de meningite pneumocócica O reflexo é generalizar: se meningite bacteriana grave pede bloqueio, todas pediriam. Não pedem. A quimioprofilaxia existe apenas para contatos próximos de doença meningocócica e de doença invasiva por Haemophilus influenzae tipo b. Para pneumococo, a prevenção do contato é a vacina, não o antibiótico.
  5. 5Liberar o paciente tratado com penicilina sem a profilaxia dele mesmo A armadilha é sutil porque parece redundante medicar quem já foi tratado. O ponto é que penicilina e ampicilina curam a doença invasiva sem erradicar o meningococo da nasofaringe — só a cefalosporina de terceira geração faz as duas coisas. Quem foi tratado com penicilina ou ampicilina recebe quimioprofilaxia antes da alta; quem recebeu ceftriaxona ou cefotaxima, não.
  6. 6Achar que líquor com linfócitos exclui bactéria É a leitura mais confortável do quadro tabelado, e ela falha em duas situações previsíveis: nas primeiras horas da meningite bacteriana, quando a resposta celular ainda não se organizou, e na meningite parcialmente tratada, em que o antibiótico prévio empurra a celularidade para linfócitos e negativa a bacterioscopia. Nesses casos o dado que mantém a suspeita é a glicose baixa, somada ao estado geral da criança.
  7. 7Aplicar a definição antiga de caso suspeito ao lactente Quem decorou o texto do Guia de Vigilância em Saúde procura febre com rigidez de nuca em criança acima de 1 ano e descarta o resto. Pela definição em vigor desde outubro de 2024, em menor de 2 anos basta febre com um único achado entre irritabilidade, choro persistente, sonolência e abaulamento de fontanela — e febre com petéquias qualifica em qualquer idade, sozinha.
  8. 8Estender a quimioprofilaxia para a escola inteira A pressão da comunidade é real e a tentação de medicar todo mundo, também. Os critérios são numéricos: exposição de pelo menos 4 horas a até 1 metro em ambiente fechado, ou convívio por pelo menos 5 dias, contínuos ou não, dentro da janela de 10 dias antes do início dos sintomas até 24 horas de tratamento. Contato transitório fora desses períodos não é contato próximo — e rifampicina distribuída sem critério seleciona resistência.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro sugere doença meningocócica (meningite com petéquias), agravo de notificação compulsória imediata (em até 24h). A medida de saúde pública indispensável é a notificação e a quimioprofilaxia (rifampicina/ciprofloxacino/ceftriaxona) dos contactantes íntimos para interromper a cadeia de transmissão. Isolamento domiciliar isolado é insuficiente. A vacinação de bloqueio é ação dirigida pela vigilância conforme sorogrupo, não vacinação indiscriminada imediata de todo o bairro. Ausência de medidas coletivas contraria a vigilância epidemiológica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Os números na ordem em que a questão os usa. Caso suspeito (Nota Técnica 154/2024): febre com dois ou mais sintomas, ou febre com um sinal meníngeo, ou febre de início súbito com petéquias; em menor de 2 anos, febre com irritabilidade, choro persistente, sonolência ou fontanela abaulada. Líquor: bacteriano turvo, 200 a milhares de neutrófilos, glicose baixa, proteína alta; viral límpido, 5 a 500 linfócitos, glicose normal; tuberculoso límpido ou opalescente, 25 a 500 linfócitos, glicose baixa; normal 0 a 5 células, glicose 45 a 100 mg/dL, proteína 15 a 50 mg/dL. Antibiótico: até 2 meses ampicilina com cefotaxima (ceftriaxona evitada por competir com a bilirrubina); acima de 2 meses ceftriaxona 100 mg/kg/dia de 12 em 12 horas ou cefotaxima 200 mg/kg/dia de 6 em 6 horas. Duração: meningococo 5 a 7 dias, Haemophilus 7 a 10, pneumococo 10 a 14, gram-negativos 21, Listeria 21 ou mais. Notificação compulsória em até 24 horas, no Sinan.

em 30 dias

A parte que se esquece primeiro é a do bloqueio. Contato próximo: janela de 10 dias para trás e até 24 horas de tratamento com cefalosporina de terceira geração para frente; exposição de pelo menos 4 horas a até 1 metro em ambiente fechado, ou pelo menos 5 dias de convívio, contínuos ou não. Rifampicina no meningococo: 5 mg/kg/dose abaixo de 1 mês e 10 mg/kg/dose (máximo 600 mg) a partir de 1 mês, de 12 em 12 horas por 2 dias. Rifampicina no Hib: 10 mg/kg/dose abaixo de 1 mês e 20 mg/kg/dose (máximo 600 mg) de 1 mês a menos de 18 anos, uma vez ao dia por 4 dias. Gestante: ceftriaxona como primeira escolha, 250 mg intramuscular em dose única a partir dos 12 anos. Prazo: idealmente 24 horas; acima de 10 dias o valor é limitado ou nulo no meningococo, e até 30 dias ainda vale no Hib. O paciente entra na profilaxia se não foi tratado com cefalosporina de terceira geração. Vacinas do PNI: Hib na pentavalente aos 2, 4 e 6 meses; pneumo 10 aos 2 e 4 meses com reforço aos 12; MenC aos 3 e 5 meses, reforço aos 12 meses e dose entre 11 e 14 anos, ambos com MenACWY. E a conduta rara: criança que teve doença invasiva por Hib entre 6 meses e 2 anos, com esquema completo, recebe uma dose adicional de vacina com componente Hib, respeitados 60 dias da última dose e iniciando 30 dias após a doença.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 9 meses com febre há 14 horas, vômitos, recusa alimentar, choro persistente, sonolência, fontanela abaulada e três petéquias no tronco, frequentador de creche — pronto-socorro pediátrico — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Meningites bacterianas e virais na infância – Meningites na infância — Preparatório para provas | OsceLabs