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Tuberculose na infância

A criança não escarra e é paucibacilar — por isso o Brasil diagnostica por sistema de pontuação, e é a tabela do escore que a prova cobra item a item. Junto dela vêm o corte da prova tuberculínica, o esquema sem etambutol e a conduta no recém-nascido de mãe bacilífera.

01

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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Criança de 6 anos, contato domiciliar de adulto com tuberculose pulmonar bacilífera, é levada à UBS com tosse há 4 semanas, febre vespertina, sudorese noturna e emagrecimento. A radiografia de tórax mostra adenomegalia hilar e infiltrado. O teste tuberculínico é reator. Considerando o diagnóstico de tuberculose na infância e o manejo no SUS, qual a conduta correta?

02

Como esse tema cai

A tuberculose da criança é outra doença operacional. Ela é paucibacilar, costuma ser primoinfecção recente e, abaixo dos cinco ou seis anos, a criança não expectora: engole a secreção. O resultado é que a confirmação bacteriológica falha na maioria dos casos, e esperar por ela significa deixar de tratar quem tem a doença. O Brasil resolveu isso com um sistema de pontuação que combina clínica, radiografia, epidemiologia e prova tuberculínica, e decide sem exigir bacilo. Esse escore é o centro deste capítulo.

Sintomático respiratório, baciloscopia e cultura como eixo diagnóstico, teste rápido molecular na triagem do adulto, esquema RIPE de seis meses, falência terapêutica, efeitos adversos dos tuberculostáticos e tratamento da infecção latente no adulto pertencem ao capítulo de tuberculose pulmonar do adulto. Aqui esses temas só aparecem onde a regra da criança é diferente da regra do adulto — e ela é diferente em quase tudo que decide conduta.

O número que sustenta o capítulo inteiro é dez anos. O Ministério da Saúde parte a pediatria nessa idade, e não na puberdade: abaixo de dez anos a criança é diagnosticada pelo escore, tratada com três fármacos e tem o corte de infecção latente lido de um jeito; a partir dos dez anos o adolescente entra no esquema do adulto, com quatro fármacos. Praticamente toda questão de prova sobre o tema testa se o candidato sabe de que lado dessa fronteira o paciente está.

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O que muda decisão

Por que a criança tem um escore e o adulto não

A criança adoece pouco tempo depois de se infectar, e adoece de formas que o adulto raramente faz. As apresentações graves — miliar e meningoencefálica — concentram-se nos primeiros anos de vida, e são exatamente as que a demora diagnóstica transforma em sequela ou morte. Por isso a criança com tuberculose funciona como sentinela epidemiológica: onde há uma, houve um bacilífero por perto e a busca de contatos falhou.

A dificuldade de isolar o bacilo não vem só de a doença ser paucibacilar. Vem também da coleta: obter espécime respiratório adequado de uma criança pequena é trabalhoso e nem sempre possível. A probabilidade de confirmação depende da extensão da doença e do tipo de material colhido, e a combinação de espécimes rende mais que um só. A confirmação deve sempre ser tentada quando há dúvida — mas não pode atrasar o tratamento.

Daí o desenho do escore: ele soma dados que qualquer unidade básica de saúde consegue produzir — a história, a radiografia, o interrogatório sobre contato, a prova tuberculínica e o peso — e devolve uma decisão. Não precisa de teste molecular nem de especialista, e é o sistema de pontuação com mais estudos de validação no país, com sensibilidade e especificidade consistentes.

A radiografia de tórax deve ser pedida cedo em toda criança com suspeita, em incidências póstero-anterior e perfil. Ela pode estar alterada antes dos sintomas, e uma radiografia normal não exclui o diagnóstico — apenas desconta pontos. Os achados mais sugestivos na criança são pneumonias de qualquer aspecto com evolução lenta, às vezes com adenomegalia hilar ou paratraqueal, às vezes cavitando ao longo da evolução, e o infiltrado nodular difuso do padrão miliar. Tomografia raramente é necessária. No adolescente, o que se vê são infiltrados e escavações nos terços superiores: é o padrão tipo adulto.

Três radiografias de tórax pediátricas mostram adenomegalia hilar ou mediastinal com consolidação adjacente, padrão miliar difuso e doença cavitária apical em adolescente.
Exemplos radiológicos para treinar reconhecimento dos achados que alimentam a suspeita e o escore; a radiografia isolada não confirma tuberculose.

A prova tuberculínica na criança: um corte, não três

A prova tuberculínica é lida como sugestiva de infecção pelo M. tuberculosis quando a induração é de 5 mm ou mais, e como negativa abaixo disso, independentemente do tempo decorrido da vacinação com BCG. O argumento é epidemiológico: o efeito da BCG sobre a prova decai com o tempo, e decai mais quando a vacina foi aplicada antes de um ano de idade — que é a realidade brasileira, com BCG na maternidade. A idade em que a última BCG foi feita é o principal determinante do seu efeito sobre a prova.

Só que o escore não usa esse corte binário. Ele gradua: induração de 10 mm ou mais vale 10 pontos, entre 5 e 9 mm vale 5 pontos, abaixo de 5 mm vale zero. As duas leituras convivem porque respondem a perguntas diferentes. Uma induração de 7 mm num contato assintomático já basta para tratar infecção latente; a mesma induração de 7 mm numa criança em investigação de doença ativa entra no escore valendo metade do que valeria com 10 mm.

Quando a primeira prova não atinge critério numa criança contato assintomática com radiografia normal, ela é repetida em 8 semanas. O que se procura na segunda é conversão: incremento de pelo menos 10 mm em relação à primeira. O incremento é exigido porque a própria aplicação da prova estimula a resposta imune à BCG feita ao nascimento, e um aumento pequeno não distingue esse efeito de uma infecção nova.

O IGRA, dosagem sanguínea de interferon gama, também não separa infecção de doença. Tem boa especificidade e em geral não reage a outras micobactérias, mas custa caro e é pouco confiável nos pequenos: não se recomenda abaixo de 2 anos e produz 10% ou mais de resultados indeterminados em menores de 5 anos, principalmente sob imunossupressão.

Duas regras de borda fecham o assunto. Não se faz prova tuberculínica antes de aplicar a BCG. E crianças com HIV, em pré-transplante de órgãos ou prestes a iniciar terapia imunossupressora devem ser avaliadas com prova tuberculínica mesmo sem história de contato: com 5 mm ou mais, são consideradas infectadas e tratam a infecção latente.

Quando o escore não fecha: o que dá para coletar

O lavado gástrico continua sendo a forma mais comum de obter amostra respiratória da criança pequena, e o padrão são duas coletas em dias subsequentes. Pode ser feito ambulatorialmente ou com a criança internada, por profissional experiente. A condição é ter cultura disponível no serviço: o conteúdo gástrico pode conter outras micobactérias, e a baciloscopia isolada corre risco real de falso-positivo. O risco do procedimento é pequeno sangramento durante a aspiração.

O escarro induzido aumenta o rendimento do exame bacteriológico, mas fica reservado a casos especiais, a critério clínico, porque idealmente exige condições adequadas de biossegurança. Seus riscos são hipoxemia transitória, broncoespasmo, vômitos e aumento de derrames pleurais preexistentes.

O rendimento é modesto e vale decorar: tanto a indução de escarro quanto o lavado ou aspirado gástrico ficam em torno de 20% a 40%. O teste rápido molecular pode ser usado nesses materiais, mas sempre associado à cultura, porque na criança sua sensibilidade é menor que a da cultura. Em adolescentes a lógica se inverte: eles em geral são bacilíferos, e o teste molecular é muito útil. A coleta de escarro espontâneo costuma se tornar possível a partir dos cinco ou seis anos.

Cerca de 20% da tuberculose infantil é extrapulmonar, e as duas principais formas na criança são a ganglionar e a meníngea. Crianças infectadas pelo HIV apresentam sintomas não clássicos, o que atrasa ainda mais o diagnóstico.

Tratamento: três fármacos, não quatro

Abaixo de dez anos o esquema básico é 2RHZ/4RH: dois meses de rifampicina, isoniazida e pirazinamida, seguidos de quatro meses de rifampicina e isoniazida. Não entra etambutol. As doses até 20 kg são rifampicina 15 mg/kg/dia, com faixa aceita de 10 a 20; isoniazida 10 mg/kg/dia, faixa de 7 a 15; e pirazinamida 35 mg/kg/dia, faixa de 30 a 40. Acima de 20 kg passa-se a dose fixa por faixa de peso.

A partir dos dez anos o paciente recebe o esquema do adulto, 2RHZE/4RH, em comprimidos de dose fixa combinada. A fronteira do etambutol é essa, e o motivo é de monitoramento, não de eficácia: o sinal precoce de toxicidade do etambutol é ocular, e se rastreia testando discriminação de cores. Isso exige um paciente que relate queixa visual e colabore com o teste — o adolescente consegue, a criança pequena não.

Crianças com tuberculose que tenham infecção pelo HIV ou desnutrição devem receber suplementação de piridoxina, vitamina B6, de 5 a 10 mg/dia. Em todos os esquemas os medicamentos são tomados diariamente e de uma só vez.

O acompanhamento é clínico e mensal, e as doses são recalculadas a cada ganho de peso. A criança responde rápido: a febre costuma ceder em cerca de uma semana, e na consulta do primeiro mês já se notam ganho de peso e melhora da tosse. Exames bioquímicos não são de rotina, porque efeitos adversos são raros nessa faixa — pedem-se por avaliação individual. As formas extrapulmonares duram seis meses, com exceção da meningoencefálica e da osteoarticular.

O esquema encurtado de quatro meses

Desde abril de 2024 o Ministério da Saúde admite reduzir o tratamento de seis para quatro meses em criança e adolescente de 3 meses a 16 anos, com tuberculose sensível e não grave, sem suspeita de resistência. A base é o ensaio SHINE, que mostrou não inferioridade do regime de quatro meses frente ao de seis, inclusive em crianças vivendo com HIV, com ganho de adesão e menos exposição a medicamento.

A definição de tuberculose pulmonar não grave é textual e cai em prova: tuberculose com acometimento de linfonodos periféricos; tuberculose intratorácica sem sinais de obstrução de vias aéreas; doença paucibacilar não cavitária confinada a um lobo pulmonar, sem padrão miliar; ou tuberculose pleural não complicada, isto é, sem pneumotórax e sem empiema.

Os critérios de elegibilidade vêm em três situações. Com radiografia disponível: imagem compatível com uma das formas acima, bacteriologia com teste rápido molecular não detectado ou detectado com traços, very low ou low, ou baciloscopia negativa, e sintomas leves que não exijam internação. Sem radiografia: mesma bacteriologia, sintomas leves sem internação ou tuberculose ganglionar periférica isolada extratorácica, sem suspeita de outro sítio extrapulmonar. Sem radiografia e sem bacteriologia: apenas o critério clínico dos sintomas leves sem internação, ou a mesma tuberculose ganglionar periférica isolada.

O encurtamento tem exceções firmes. Lactente com até 3 meses de idade ou peso abaixo de 4 kg fica fora dele em qualquer gravidade, e recebe rifampicina, isoniazida e pirazinamida em doses individualizadas por seis meses. Quem não preenche os critérios de doença não grave faz o regime padrão de seis meses, ou o regime próprio das formas graves — doze meses na meníngea e na osteoarticular. E o seis meses continua sendo o tratamento principal: o de quatro meses é alternativa para casos bem definidos, e a evolução clínica desfavorável manda estender a manutenção para quatro meses, completando seis.

A formulação segue o peso. Criança abaixo de dez anos entre 4 e 25 kg usa comprimidos dispersíveis em dose fixa combinada de rifampicina, isoniazida e pirazinamida na primeira fase e de rifampicina e isoniazida na segunda; acima de 25 kg, doses individualizadas. A partir dos dez anos, RHZE em dose fixa combinada no ataque e Rh também combinado na manutenção. No seguimento, espera-se que os sintomas desapareçam em até um mês e que o estado nutricional aos quatro meses seja o de antes do adoecimento.

Formas graves: meningoencefálica e osteoarticular

Na criança abaixo de dez anos, a tuberculose meningoencefálica e a osteoarticular são tratadas com 2RHZ/10RH: a fase de manutenção se prolonga para dez meses, e o tempo total vai a doze. A osteoarticular de baixa complexidade pode ser tratada em seis meses, a critério clínico. Quando a forma meningoencefálica ou a osteoarticular coexistem com qualquer outra apresentação, o esquema que vale é o delas.

Associa-se corticosteroide: prednisona de 1 a 2 mg/kg/dia por quatro semanas ou, nos casos graves de tuberculose meningoencefálica, dexametasona injetável de 0,3 a 0,4 mg/kg/dia por quatro a oito semanas, com redução gradual da dose nas quatro semanas subsequentes.

A fisioterapia deve começar o mais cedo possível nos casos de tuberculose meningoencefálica, para evitar sequela. Essas formas estão fora do encurtamento de quatro meses por definição — elas são o exemplo que a própria nota informativa usa para dizer o que não encurta.

Contato e infecção latente na criança

O contato menor de dez anos entra por consulta. Se estiver sintomático, investiga-se tuberculose ativa empregando o quadro de pontuação. Se estiver assintomático, pedem-se radiografia de tórax e prova tuberculínica. Radiografia alterada manda continuar a investigação de doença. Radiografia normal com prova tuberculínica de 5 mm ou mais fecha infecção latente e trata. Radiografia normal com prova abaixo de 5 mm manda repetir a prova em 8 semanas: havendo conversão, trata-se a infecção latente; não havendo, é alta com orientação.

Crianças contato de até cinco anos são prioridade absoluta: investigação e tratamento com avaliação clínica imediata. E vale a regra que atravessa o tema todo — antes de tratar infecção latente é obrigatório investigar sinais e sintomas de doença ativa; havendo qualquer suspeita, investiga-se a doença e não se trata a latente naquele momento.

Os regimes disponíveis abaixo de dez anos são quatro. O 3RH, com comprimidos dispersíveis de rifampicina 75 mg mais isoniazida 50 mg, é para a criança de 4 a menos de 25 kg que não consegue deglutir comprimido: 90 doses diárias, tomadas entre três e cinco meses. O 3HP, rifapentina com isoniazida, são 12 doses semanais, para maior de 2 anos, sem HIV, que já degluta comprimido. O 4R, rifampicina em suspensão de 20 mg/mL, são 120 doses diárias e está indicado exclusivamente para criança abaixo de 4 kg, na dose de 15 mg/kg/dia, faixa de 10 a 20. O 6H ou 9H, com isoniazida, são 180 a 270 doses e servem quando os demais não são possíveis.

As doses de referência abaixo de dez anos são isoniazida 10 mg/kg/dia até o máximo de 300 mg e rifampicina 15 mg/kg/dia, faixa de 10 a 20, até o máximo de 600 mg. Na criança vivendo com HIV em uso de lopinavir com ritonavir, darunavir, raltegravir, dolutegravir ou nevirapina, prefere-se isoniazida por nove meses, 270 doses, pelo risco de interação com a rifampicina e pela incerteza quanto à rifapentina.

O 3RH tem contraindicações próprias: efeito adverso grave prévio à rifampicina ou à isoniazida, alergia, hepatopatia e contato de monorresistente. Contato de monorresistência à isoniazida usa rifampicina por quatro meses; contato de monorresistência à rifampicina usa isoniazida por seis ou nove meses. Considera-se interrupção do 3RH a criança que passa dois meses sem tratamento, consecutivos ou não; se o abandono se deu com 72 doses ou mais, ou seja, 80% do esquema, considera-se tratamento completo e não se reintroduz. Os medicamentos são tomados em jejum, aguardando ao menos uma hora para oferecer alimento, e a família deve ser avisada de que a rifampicina deixa os fluidos alaranjados.

Recém-nascido de mãe bacilífera

Recém-nascido exposto a caso de tuberculose pulmonar ou laríngea pode se infectar e desenvolver forma grave. A primeira decisão é a que mais cai: esse recém-nascido não é vacinado com BCG ao nascer. A vacinação fica adiada até o fim do tratamento ou da quimioprofilaxia.

A conduta vigente, definida em 2024, é quimioprofilaxia primária preferencialmente com rifampicina por quatro meses. Nesse desenho não se faz prova tuberculínica ao final, e a vacinação com BCG é realizada depois de terminada a quimioprofilaxia. É o caminho mais simples porque tira a prova tuberculínica da rota.

O caminho descrito no manual, útil quando a rifampicina não está disponível, é com isoniazida: três meses de isoniazida e então a prova tuberculínica. Com 5 mm ou mais, mantém-se a isoniazida por mais três meses, completando seis, e o recém-nascido não é vacinado — ele já tem resposta imune ao bacilo. Abaixo de 5 mm, interrompe-se a isoniazida e aplica-se a BCG. Havendo rifampicina em suspensão, a mesma lógica encurta: três meses de rifampicina e prova tuberculínica; com 5 mm ou mais mantém-se por mais um mês; abaixo de 5 mm suspende-se e vacina-se.

Se o recém-nascido tiver sido vacinado por engano antes de iniciar a profilaxia, mantém-se o esquema dos quatro meses de rifampicina e avalia-se individualmente a necessidade de revacinar depois, caso não haja pega vacinal — a rifampicina pode interferir na resposta imune aos bacilos da BCG aplicada.

Antes de iniciar qualquer quimioprofilaxia é preciso afastar tuberculose no próprio recém-nascido e, quando a fonte for a mãe, avaliar a possibilidade de tuberculose congênita. A amamentação não está contraindicada, desde que a mãe não tenha mastite tuberculosa; recomenda-se máscara cirúrgica ao amamentar e ao cuidar da criança enquanto a baciloscopia do escarro se mantiver positiva.

A tuberculose congênita é rara e grave. O parto prematuro ocorre em cerca de metade dos casos, e o quadro imita infecção congênita ou sepse bacteriana: febre, letargia ou irritabilidade, desconforto respiratório, linfadenopatia, hepatoesplenomegalia, distensão abdominal, lesões de pele, vômitos, icterícia, convulsões, apneia, anemia e plaquetopenia. A letalidade passa de 50% mesmo com tratamento adequado, e o padrão miliar aparece na radiografia em metade dos casos. Justifica-se examinar a placenta, com histopatologia e cultura, quando a mãe está com tuberculose em atividade no momento do parto.

BCG: o que ela previne e o que não previne

A BCG previne especialmente as formas graves da doença na criança — a miliar e a meníngea. Ela não protege quem já está infectado pelo M. tuberculosis e não evita o adoecimento por reativação endógena nem por reinfecção exógena. A consequência clínica é direta: cicatriz vacinal presente não afasta tuberculose pulmonar, e vacinação prévia não muda uma linha do escore.

O esquema é dose única, por via intradérmica, na inserção do deltoide direito, o mais precocemente possível e de preferência nas primeiras 12 horas de vida, em recém-nascido com peso de 2 kg ou mais. A localização foi escolhida para permitir conferir a cicatriz e limitar as reações ganglionares à axila. A vacina é indicada de zero a 4 anos, 11 meses e 29 dias; a partir dos cinco anos ninguém mais é vacinado, exceto contatos de hanseníase. Não se faz prova tuberculínica antes de vacinar.

Adia-se a vacinação no recém-nascido contato de bacilífero, no recém-nascido com menos de 2 kg até que atinja esse peso, até três meses após uso de imunossupressores ou de corticoide em dose elevada, e em pessoa hospitalizada com comprometimento do estado geral. Contraindicam a vacina as neoplasias malignas, o uso de corticosteroide em dose elevada — equivalente a prednisona 2 mg/kg/dia para criança de até 10 kg, ou 20 mg/dia ou mais acima de 10 kg — por mais de duas semanas, e outras terapias imunossupressoras.

Na criança exposta ao HIV, vacina-se ao nascimento ou o mais precocemente possível; a criança que chega ao serviço até 4 anos, 11 meses e 29 dias ainda não vacinada pode receber a vacina se estiver assintomática e sem sinais de imunodepressão; não se revacina; e a partir dos cinco anos a criança vivendo com HIV não deve ser vacinada, mesmo assintomática.

A evolução normal da lesão é conhecida e não se trata: nódulo de três a quatro semanas, pústula entre a quarta e a quinta semana, úlcera de 4 a 10 mm e crosta entre a sexta e a décima segunda semana. A cicatrização pode se prolongar até o quarto mês e raramente ultrapassa o sexto. Não se coloca medicamento na úlcera nem se cobre a lesão: água e sabão. O enfartamento ganglionar axilar não supurado faz parte da evolução normal e desaparece sozinho, sem medicamento e sem drenagem.

São eventos adversos a serem notificados em até 24 horas: úlcera com diâmetro maior que 1 cm, abscesso subcutâneo frio ou quente, linfadenopatia regional supurada, granuloma, linfadenopatia regional não supurada maior que 3 cm, cicatriz queloide e reação lupoide. Úlcera grande e abscesso costumam apontar erro de técnica de aplicação e, quando frequentes, pedem revisão do procedimento com o profissional responsável.

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O escore do Ministério da Saúde

O sistema de pontuação vale para criança e adolescente com baciloscopia negativa ou teste rápido molecular não detectado — ele existe justamente para decidir sem confirmação bacteriológica. São cinco itens: quadro clínico, radiografia de tórax, contato com adulto com tuberculose, prova tuberculínica e estado nutricional. Dois deles podem subtrair pontos, e é aí que a maioria dos erros de cálculo acontece. O total máximo é 55.

  1. 1Confirme que a criança não tem confirmação bacteriológica: baciloscopia negativa ou teste rápido molecular não detectado.
  2. 2Pontue o quadro clínico: febre ou sintomas há 2 semanas ou mais valem 15; melhora após antibiótico para germe comum subtrai 10.
  3. 3Pontue a radiografia em póstero-anterior e perfil: adenomegalia hilar, padrão miliar ou condensação que não muda em 2 semanas valem 15; radiografia normal subtrai 5.
  4. 4Pontue o contato: próximo e nos últimos 2 anos vale 10; ocasional ou negativo, zero.
  5. 5Pontue a prova tuberculínica: 10 pontos com 10 mm ou mais, 5 pontos entre 5 e 9 mm, zero abaixo de 5 mm.
  6. 6Pontue o estado nutricional: desnutrição grave, com peso abaixo do percentil 10, vale 5.
  7. 7Some e leia a faixa: 40 ou mais inicia tratamento; 30 a 35 inicia a critério médico; abaixo disso, segue investigando.

Abaixo de 25 pontos — diagnóstico pouco provável

Prossegue-se a investigação. Faz-se diagnóstico diferencial com outras doenças pulmonares e empregam-se métodos complementares: baciloscopia e cultura de escarro induzido ou de lavado gástrico, broncoscopia, histopatológico de punções.

30 a 35 pontos — diagnóstico possível

Indicativo de tuberculose. Orienta-se iniciar o tratamento a critério médico.

40 pontos ou mais — diagnóstico muito provável

Recomenda-se iniciar o tratamento da tuberculose.

ItemSituaçãoPontos
Quadro clínicoFebre ou sintomas como tosse, adinamia, expectoração, emagrecimento ou sudorese por 2 semanas ou mais15
Quadro clínicoAssintomático ou com sintomas há menos de 2 semanas0
Quadro clínicoInfecção respiratória com melhora após uso de antibióticos para germes comuns, ou sem antibióticos-10
Radiografia de tóraxAdenomegalia hilar ou padrão miliar; e/ou condensação ou infiltrado, com ou sem escavação, inalterado por 2 semanas ou mais; e/ou condensação ou infiltrado por 2 semanas ou mais evoluindo com piora ou sem melhora com antibióticos para germes comuns15
Radiografia de tóraxCondensação ou infiltrado de qualquer tipo por menos de 2 semanas5
Radiografia de tóraxRadiografia normal-5
Contato de adulto com tuberculosePróximo, nos últimos 2 anos10
Contato de adulto com tuberculoseOcasional ou negativo0
Prova tuberculínica10 mm ou mais10
Prova tuberculínicaEntre 5 e 9 mm5
Prova tuberculínicaMenor que 5 mm0
Estado nutricionalDesnutrição grave (peso abaixo do percentil 10)5
Estado nutricionalPeso igual ou acima do percentil 100

Regime de tratamento por idade e gravidade

Idade e gravidadeFase intensivaFase de manutençãoTotal
Até 3 meses de idade ou peso abaixo de 4 kg — qualquer gravidade2RHZ (doses individualizadas)4RH6 meses
Mais de 3 meses a menos de 10 anos — pulmonar não grave2RHZ2RH4 meses
Mais de 3 meses a menos de 10 anos — pulmonar grave2RHZ4RH6 meses
De 10 anos a menos de 16 anos — pulmonar não grave2RHZE2RH4 meses
De 10 anos a menos de 16 anos — pulmonar grave2RHZE4RH6 meses
Menor de 10 anos — meningoencefálica ou osteoarticular2RHZ10RH12 meses
10 anos ou mais — meningoencefálica ou osteoarticular2RHZE10RH12 meses

Doses do tratamento da tuberculose na criança menor de 10 anos

FármacoAté 20 kg21 a 25 kg26 a 30 kg31 a 35 kg36 a 39 kg40 a 44 kg45 kg ou mais
Rifampicina15 (10-20) mg/kg/dia300 mg/dia450 mg/dia500 mg/dia600 mg/dia600 mg/dia600 mg/dia
Isoniazida10 (7-15) mg/kg/dia200 mg/dia300 mg/dia300 mg/dia300 mg/dia300 mg/dia300 mg/dia
Pirazinamida (só na fase intensiva)35 (30-40) mg/kg/dia750 mg/dia1.000 mg/dia1.000 mg/dia1.500 mg/dia1.500 mg/dia2.000 mg/dia

Tratamento da infecção latente na criança menor de 10 anos

RegimeQuando se usaDoses
3RH — rifampicina 75 mg + isoniazida 50 mg dispersíveisDe 4 a menos de 25 kg, criança que não consegue deglutir comprimido90 doses diárias, tomadas entre 3 e 5 meses
3HP — rifapentina + isoniazidaMaior de 2 anos, sem infecção pelo HIV, que já degluta comprimido12 doses semanais
4R — rifampicina suspensão 20 mg/mLExclusivo para peso abaixo de 4 kg; é também a quimioprofilaxia primária do recém-nascido contato de bacilífero120 doses diárias, 15 (10-20) mg/kg/dia, máximo 600 mg
6H ou 9H — isoniazidaQuando os demais não são possíveis; preferencial na criança com HIV em uso de inibidor de protease, inibidor de integrase ou nevirapina, aí com 9 meses180 a 270 doses diárias, 10 mg/kg/dia, máximo 300 mg

Posologia dos comprimidos dispersíveis rifampicina 75 mg + isoniazida 50 mg (3RH)

PesoComprimidos por dia
4 a 7 kg1 comprimido
8 a 11 kg2 comprimidos
12 a 15 kg3 comprimidos
16 a 24 kg4 comprimidos

O texto oficial escreve a última faixa como 'abaixo de 25 pontos'. Como todos os itens pontuam em múltiplos de 5, um total de exatamente 25 é alcançável e fica fora das três faixas nomeadas; parte da literatura derivada reescreve o corte como '25 pontos ou menos'. Em qualquer das leituras, 25 pontos não autorizam iniciar tratamento — a criança segue em investigação.

A prova tuberculínica entra no escore graduada, com uma faixa de 5 a 9 mm e outra de 10 mm ou mais. A decisão de tratar infecção latente num contato usa corte único de 5 mm. É o mesmo exame respondendo a duas perguntas diferentes.

Sem prova tuberculínica disponível, aplica-se o escore assim mesmo. Se a soma não permitir o diagnóstico, o caso é individualizado e, quando oportuno, encaminhado a serviço de referência.

O escore é para quem não tem bacilo demonstrado. Criança com baciloscopia positiva ou teste molecular detectado tem tuberculose confirmada e não precisa de pontuação.

Etambutol entra a partir dos 10 anos. Abaixo disso, o esquema tem três fármacos.

As doses são recalculadas a cada ganho de peso da criança, e todos os medicamentos são tomados diariamente e de uma só vez.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Corte da prova tuberculínica na criança

Corte único de 5 mm, independentemente da BCG — Ministério da Saúde a partir de 2018

Induração de 5 mm ou mais é lida como infecção pelo M. tuberculosis em qualquer criança, tenha ou não recebido BCG e há quanto tempo tiver recebido. O fundamento é que o efeito da BCG sobre a prova tuberculínica decai com o tempo e é menor quando a vacina foi aplicada antes de um ano de idade — que é o padrão brasileiro, com BCG na maternidade. A idade da última BCG é o principal determinante do seu efeito sobre a prova.

Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2ª edição (Ministério da Saúde, 2019), itens 8.1.2 e 8.4.1 e nota 2 da Figura 12; mudança introduzida pelo Protocolo de vigilância da infecção latente pelo M. tuberculosis no Brasil (Ministério da Saúde, 2018).

Leitura dependente da situação vacinal — redação brasileira anterior a 2018

A interpretação separava o resultado pelo tempo decorrido desde a vacinação, exigindo induração maior de quem tinha BCG recente para considerar a criança infectada. O sistema de pontuação foi atualizado em 2018 exatamente por causa do novo corte na leitura da prova tuberculínica.

Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 1ª edição (Ministério da Saúde, 2011); a data da mudança é registrada pela Sociedade Brasileira de Pediatria em 'Tuberculose na infância no Brasil: atualização'.

Na prova

Enunciado que faz questão de informar 'BCG na maternidade', 'cicatriz vacinal presente' ou 'vacinado há X anos' está entregando um dado que a régua de 2018 em diante não usa para mover o corte em milímetros — a informação vacinal serve ao contexto. Quando as alternativas separam condutas por tempo de BCG, ou oferecem cortes de 10 mm e 15 mm para criança vacinada, o desenho da questão é o da redação anterior. Cenário de unidade básica, contato intradomiciliar e programa do SUS apontam para o corpo brasileiro atual, e prova oficial do MEC tende à conduta do SUS.

Escore de pontuação brasileiro frente aos algoritmos de decisão da OMS

Sistema de pontuação clínico-radiológico — Ministério da Saúde

O Brasil soma cinco itens e decide por faixa, sem exigir confirmação bacteriológica. O sistema foi desenhado para funcionar na atenção primária, sem teste molecular e sem profissional especializado, e é o escore com mais estudos de validação no meio brasileiro, com sensibilidades e especificidades consistentes. A causa do formato é de rede: o instrumento tinha de caber numa unidade básica que dispõe de radiografia, prova tuberculínica e balança.

Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2ª edição (Ministério da Saúde, 2019), Quadro 11.

Algoritmos de decisão terapêutica com teste molecular — Organização Mundial da Saúde

A OMS organiza o diagnóstico pediátrico em algoritmos de decisão terapêutica que colocam o teste rápido molecular como exame inicial na criança com suspeita de tuberculose e formalizam o tratamento sem confirmação bacteriológica como desfecho previsto do algoritmo, e não como exceção. O módulo pediátrico de 2022 escreve para redes em que o teste molecular está disponível na porta de entrada.

WHO consolidated guidelines on tuberculosis, Module 5: Management of tuberculosis in children and adolescents (OMS, 2022).

Na prova

Enunciado ambientado em unidade básica, com radiografia e prova tuberculínica em mãos e sem teste molecular, está montando o escore peça por peça — inclusive quando informa o percentil de peso, dado que só serve para pontuar. Enunciado que já traz resultado de teste rápido molecular na criança, ou que usa a expressão 'algoritmo de decisão terapêutica', desenha o corpo internacional. Nas alternativas, somar pontos só existe no mundo brasileiro; partir do teste molecular como primeiro exame só existe no da OMS.

Duração do tratamento na criança: seis meses ou quatro

Seis meses (2RHZ/4RH) como esquema básico — Manual do Ministério da Saúde, 2019

O manual descreve o esquema básico da criança em seis meses: dois de fase intensiva com rifampicina, isoniazida e pirazinamida e quatro de manutenção com rifampicina e isoniazida, sem qualquer previsão de encurtamento. O documento é de 2019, anterior à publicação do ensaio SHINE e ao módulo pediátrico da OMS.

Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2ª edição (Ministério da Saúde, 2019), item 4.1.3 e Quadro 22.

Quatro meses na forma sensível não grave — OMS em 2022, adotado pelo Brasil em 2024

A OMS passou a indicar quatro meses para tuberculose sensível não grave entre 3 meses e 16 anos com base no SHINE, que demonstrou não inferioridade frente aos seis meses, inclusive em crianças vivendo com HIV, com ganho de adesão e menor exposição a medicamento. O Ministério da Saúde incorporou o encurtamento em abril de 2024, mantendo os seis meses como tratamento principal e o de quatro como alternativa para casos bem definidos.

WHO consolidated guidelines on tuberculosis, Module 5 (OMS, 2022), e Nota Informativa nº 5/2024-CGTM/DATHI/SVSA/MS, de 3 de abril de 2024.

Na prova

Aqui os dois documentos são brasileiros e a distância entre eles é de data: o manual é de 2019 e a nota informativa é de 2024, e a nota atualiza o manual sem substituí-lo. Enunciado que descreve doença confinada a um lobo, sem cavidade, sem padrão miliar, com baciloscopia negativa ou teste molecular em carga baixa e sintomas que não pedem internação está reunindo, um a um, os critérios da nota de 2024. Enunciado que diz apenas 'tuberculose pulmonar em criança', sem detalhar extensão nem carga bacilar, não entrega o que a nota exige para encurtar. Cavidade, padrão miliar, forma meníngea ou osteoarticular fecham a porta do regime curto.

Etambutol antes dos 10 anos de idade

Três fármacos abaixo dos 10 anos — Ministério da Saúde

A criança recebe rifampicina, isoniazida e pirazinamida, e o etambutol entra apenas a partir dos 10 anos. A causa é de monitoramento, não de custo nem de eficácia: o sinal precoce de toxicidade do etambutol é ocular e se rastreia testando discriminação de cores, o que exige um paciente que relate queixa visual e colabore com o exame — algo viável no adolescente e não na criança pequena.

Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2ª edição (Ministério da Saúde, 2019), Quadro 22 e capítulo de seguimento do tratamento na criança.

Etambutol na fase intensiva em cenários definidos — Organização Mundial da Saúde

A OMS inclui o etambutol na fase intensiva do tratamento pediátrico em locais com alta prevalência de infecção pelo HIV ou alta resistência à isoniazida, e trabalha com dose de cerca de 20 mg/kg/dia na faixa pediátrica, sem excluir o fármaco por idade. O gatilho, no texto internacional, é o cenário epidemiológico do serviço.

WHO consolidated guidelines on tuberculosis, Module 5 (OMS, 2022).

Na prova

O que separa os dois mundos é o gatilho, não a droga: o texto brasileiro decide por idade, o internacional decide por cenário epidemiológico. Enunciado que descreve serviço com alta prevalência de HIV ou alta resistência à isoniazida está armando o recorte internacional. Nas alternativas, 'RHZE' oferecido a uma criança de 6 anos e 'RHZ' oferecido a um adolescente de 12 anos denunciam, cada um, o lado de que vieram — a fronteira brasileira é o aniversário de 10 anos, e a notação '2RHZ(E)' que aparece na nota informativa de 2024 significa exatamente isso: o E entre parênteses só se aplica de 10 anos em diante.

06

Caso resolvido

Menina de 3 anos é levada à unidade básica por tosse e perda de peso há 3 semanas, com febre no fim da tarde. O pai iniciou tratamento para tuberculose pulmonar bacilífera há 6 meses e mora na mesma casa. Ao exame, está ativa, sem esforço respiratório; o peso está no percentil 25. A radiografia de tórax em póstero-anterior e perfil mostra adenomegalia hilar à direita, sem cavidade e sem padrão miliar. A prova tuberculínica resultou em 8 mm. A criança não expectora e não há amostra de escarro.
quadro clínico
Tosse, emagrecimento e febre há 3 semanas: sintomas por 2 semanas ou mais. 15 pontos.
radiografia de tórax
Adenomegalia hilar à direita. É o achado que abre a linha de 15 pontos, ao lado do padrão miliar e da condensação que não muda em 2 semanas. 15 pontos.
contato
Pai com tuberculose pulmonar bacilífera, na mesma casa, há 6 meses: contato próximo nos últimos 2 anos. 10 pontos.
prova tuberculínica
Induração de 8 mm, dentro da faixa de 5 a 9 mm. 5 pontos. A mesma induração de 8 mm bastaria, sozinha, para tratar infecção latente se a criança fosse apenas contato assintomático — no escore ela vale metade do que valeria com 10 mm.
estado nutricional
Peso no percentil 25, portanto igual ou acima do percentil 10. Zero ponto.
soma
15 mais 15 mais 10 mais 5 mais 0 são 45 pontos.
conduta
Faixa de 40 pontos ou mais: diagnóstico muito provável, inicia-se o tratamento da tuberculose. Não é preciso lavado gástrico para começar — o escore existe para dispensar a confirmação bacteriológica, e a coleta jamais deve atrasar o tratamento. Como a doença está confinada a um lobo, sem cavidade e sem padrão miliar, e os sintomas são leves e não pedem internação, a criança preenche os critérios de tuberculose pulmonar não grave: pode fazer 2RHZ/2RH, quatro meses, com comprimidos dispersíveis em dose fixa combinada. Sem etambutol, porque tem menos de 10 anos.
07

Agora feche você

Recém-nascido a termo, 3.200 g, com 36 horas de vida, ainda não vacinado. A mãe foi diagnosticada com tuberculose pulmonar bacilífera no pós-parto imediato e iniciou tratamento ontem. O recém-nascido está assintomático, com exame físico normal e radiografia de tórax sem alterações. A maternidade dispõe de rifampicina em suspensão.
achado
Recém-nascido coabitante de caso índice bacilífero, assintomático, com tuberculose ativa afastada — inclusive a possibilidade de tuberculose congênita, já que a fonte é a mãe.
achado
Ainda não recebeu BCG. É o cenário em que a vacinação está adiada, e não simplesmente atrasada.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Achar que a cicatriz de BCG afasta tuberculose Atrai porque a vacina existe e a cicatriz é visível. A BCG previne especialmente as formas graves, miliar e meníngea; ela não protege quem já se infectou e não impede o adoecimento por reativação endógena nem por reinfecção exógena. Criança vacinada faz tuberculose pulmonar, e a cicatriz não vale um ponto no escore.
  2. 2Usar 10 mm como corte de positividade em criança vacinada Atrai porque 10 mm de fato aparece na tabela — mas como faixa de pontuação, não como limiar de infecção. O corte que define infecção é 5 mm, independentemente da BCG. Confundir os dois transforma um contato que deveria tratar infecção latente numa alta indevida.
  3. 3Esquecer que dois itens do escore subtraem Atrai porque a palavra 'escore' sugere só somar. A infecção respiratória que melhorou com antibiótico para germe comum tira 10 pontos, e a radiografia normal tira 5. Uma criança com sintomas de duas semanas que melhorou com amoxicilina e tem radiografia limpa chega a zero, não a 15.
  4. 4Esperar o lavado gástrico para começar o tratamento Atrai porque parece rigor diagnóstico. O rendimento do lavado gástrico e do escarro induzido fica em torno de 20% a 40%, e o escore foi construído justamente para decidir sem bacilo. A confirmação deve ser tentada nos casos de dúvida, mas não pode atrasar o tratamento.
  5. 5Prescrever etambutol para criança de 7 anos Atrai por analogia com o RIPE do adulto, que é o esquema mais decorado da tisiologia. Abaixo de 10 anos são três fármacos: rifampicina, isoniazida e pirazinamida. O etambutol entra a partir dos 10 anos porque só aí é possível rastrear a toxicidade ocular por discriminação de cores.
  6. 6Aplicar o encurtamento de quatro meses na forma meníngea ou na cavitária Atrai porque a nota de 2024 é recente e parece valer para toda criança. O regime de quatro meses é só para tuberculose sensível não grave: doença paucibacilar não cavitária confinada a um lobo, sem padrão miliar, ou pleural não complicada, ou ganglionar periférica. Meningoencefálica e osteoarticular são doze meses, e a forma pulmonar grave continua em seis.
  7. 7Confundir quimioprofilaxia primária com tratamento de infecção latente Atrai porque as drogas e as doses se parecem. A quimioprofilaxia primária é para quem ainda não se infectou — o recém-nascido exposto, que por isso nem prova tuberculínica tem no início. O tratamento da infecção latente pressupõe infecção documentada, por prova tuberculínica ou IGRA, e exige que a doença ativa tenha sido afastada antes.
  8. 8Tratar o enfartamento ganglionar axilar da BCG Atrai porque um gânglio aumentado depois de uma vacina parece complicação. O enfartamento ganglionar axilar não supurado faz parte da evolução normal da lesão vacinal e desaparece sozinho, sem medicamento e sem drenagem. O que se notifica é a linfadenopatia supurada, ou a não supurada maior que 3 cm.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O conjunto de contato bacilífero, sintomas clássicos (tosse prolongada, febre vespertina, sudorese noturna, emagrecimento), radiografia sugestiva e prova tuberculínica reatora fecha o diagnóstico de tuberculose na criança pelo sistema de pontuação do Ministério da Saúde, permitindo iniciar o tratamento sem confirmação bacteriológica (crianças costumam ser paucibacilares). A tuberculose é doença de notificação compulsória. Aguardar cultura atrasa o tratamento indevidamente. Amoxicilina para pneumonia não trata tuberculose. Apenas sintomáticos deixa progredir uma doença grave e transmissível.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua o escore de memória, com a pontuação de cada linha: sintomas por 2 semanas ou mais, 15; radiografia com adenomegalia hilar, padrão miliar ou condensação inalterada por 2 semanas, 15; contato próximo nos últimos 2 anos, 10; prova tuberculínica de 10 mm ou mais, 10, e entre 5 e 9 mm, 5; desnutrição grave com peso abaixo do percentil 10, 5. Os dois descontos: melhora com antibiótico para germe comum, menos 10; radiografia normal, menos 5. As faixas: 40 ou mais trata, 30 a 35 trata a critério médico, abaixo de 25 segue investigando. E o corte único da prova tuberculínica para infecção: 5 mm, independentemente da BCG.

em 30 dias

Percorra o tratamento e a prevenção. Menor de 10 anos, 2RHZ/4RH, sem etambutol, com rifampicina 15, isoniazida 10 e pirazinamida 35 mg/kg/dia até 20 kg; de 10 anos em diante, 2RHZE/4RH. Forma não grave entre 3 meses e 16 anos pode encurtar para quatro meses, e a definição de não grave é doença não cavitária confinada a um lobo, sem padrão miliar, ou pleural não complicada, ou ganglionar periférica. Meningoencefálica e osteoarticular, doze meses, com prednisona 1 a 2 mg/kg/dia por quatro semanas ou dexametasona 0,3 a 0,4 mg/kg/dia nos casos graves. Recém-nascido de mãe bacilífera: não vacinar, rifampicina por quatro meses, vacinar ao término, sem prova tuberculínica. Contato menor de 5 anos: prioridade com avaliação clínica imediata.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menino de 2 anos, trazido pela mãe à unidade básica por tosse persistente há um mês, febre baixa no fim do dia e emagrecimento. A avó materna, que cuida dele durante o dia, está em tratamento para tuberculose pulmonar há três meses. A criança tem cicatriz de BCG no braço direito e o peso caiu do percentil 25 para o percentil 5 na caderneta. Conduza a avaliação, defina o que precisa ser solicitado e decida o tratamento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Tuberculose na infância — Preparatório para provas | OsceLabs