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Clínica MédicaInfectologia

Antibioticoterapia racional e resistência antimicrobiana

A moldura que governa os outros capítulos de infectologia: quatro perguntas antes de prescrever, o gatilho do descalonamento, o que o antibiograma não responde, a duração que encurtou e os fenótipos de resistência que a prova cobra pelo nome

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 68 anos, diabético, internado há quatro dias por pielonefrite, em uso de meropenem empírico iniciado na admissão por gravidade do quadro. Hemoculturas e urocultura foram colhidas antes da primeira dose. Está afebril há 26 horas, aceitando dieta por via oral, com dor lombar em franca melhora e creatinina em queda; a tomografia da admissão não mostrou coleção nem obstrução. Os resultados chegam hoje: duas hemoculturas e a urocultura com Escherichia coli, sensível a ceftriaxona, ciprofloxacina e sulfametoxazol-trimetoprima, sem produção de beta-lactamase de espectro estendido. Qual é a conduta correta?

02

Como esse tema cai

Este capítulo não ensina nenhuma doença. Ele ensina a decisão que existe antes e depois de todas elas. Os quadros estão escritos em outros lugares desta apostila e das vizinhas: sepse e choque séptico, pneumonia adquirida na comunidade, infecção do trato urinário, infecção urinária complicada e prostatite, meningites, endocardite infecciosa, diarreia aguda infecciosa, antibioticoprofilaxia cirúrgica, sepse cirúrgica e controle do foco. Cada um deles resolve uma pergunta clínica. Este resolve a pergunta que atravessa todos: dado um paciente com suspeita de infecção, o antimicrobiano entra, com que largura, por quanto tempo, e o que faz ele sair.

O eixo tem duas metades. A primeira é uma sequência de quatro perguntas — é infecção bacteriana, qual é o sítio e a flora provável, o que neste paciente muda o espectro, e por quantos dias — que a banca cobra sempre pela pergunta que o candidato pulou. A segunda é a resistência: os mecanismos, os fenótipos com nome próprio e o que cada nome muda na conduta. As duas metades se encontram num único parágrafo do laudo do laboratório, e é ali que a maioria dos erros acontece.

Uma advertência de método, porque ela muda a forma de estudar. Aqui o Brasil tem norma, e tem mais de uma. A Anvisa publicou em 2023 a revisão da Diretriz Nacional do Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos, que define o que o serviço de saúde precisa ter. A RDC nº 471/2021 define como se prescreve e como se dispensa. A Lei nº 9.431/1997 obriga todo hospital a manter programa de controle de infecções e a constituir a CCIH. O Módulo 10 do manual de microbiologia da Anvisa descreve os mecanismos de resistência e registra que, no Brasil, as orientações a seguir no antibiograma são as do BrCAST. E o Pan-br 2026-2030 fixa as metas nacionais. Questão de prova sobre uso racional no Brasil costuma sair desses documentos, não de diretriz estrangeira.

As perguntas que se repetem: esta prescrição deveria existir, qual é a largura mínima que resolve, o que o resultado da cultura autoriza a fazer no terceiro dia, quantos dias, e — quando o laudo traz um nome próprio de resistência — o que exatamente muda por causa dele.

03

O que muda decisão

As quatro perguntas, e por que a ordem importa

A prescrição de um antimicrobiano se decompõe em quatro perguntas encadeadas. Primeira: isto é infecção bacteriana? Segunda: qual é o sítio, e que flora habita esse sítio? Terceira: o que neste paciente obriga a alargar o espectro? Quarta: por quantos dias? Elas não são intercambiáveis, e a ordem não é estética. A primeira pergunta pode encerrar o assunto sem que exista prescrição nenhuma — e é a que o candidato mais pula, porque a vinheta já entrega o antibiótico começado e convida a discutir qual, quando a resposta era nenhum.

A Anvisa condensou o mesmo raciocínio em oito regras de ouro, no Anexo I da Diretriz Nacional de 2023: guiada por resultados microbiológicos sempre que possível; indicação baseada em evidência científica; espectro restrito, se possível; dose apropriada de acordo com sítio e tipo de infecção; priorizar a via oral quando possível; minimizar a duração da terapia; monoterapia sempre que possível; reavaliação do paciente 48 horas após o início. Repare que quatro das oito regras são sobre estreitar, encurtar, simplificar e reavaliar — nenhuma é sobre cobrir mais.

A quarta pergunta tem uma peculiaridade que vale isolar: a duração se decide no dia um, não no dia sete. A mesma diretriz pede que indicação, dose, duração e tempo de uso estejam facilmente identificáveis na prescrição, e que o prescritor registre no prontuário o esquema em progresso com dias decorridos e duração provável. Prescrição sem data de término é prescrição que só termina quando alguém lembra — e o que costuma lembrar é a alta.

Guarde a frase que resume o capítulo inteiro: a decisão antimicrobiana é uma aposta feita sob incerteza no dia um, e uma dívida a ser paga com informação no dia três. Quem não colhe a cultura no dia um não tem com que pagar; quem não reavalia no dia três não paga.

Pergunta 1: é infecção bacteriana? — o degrau que apaga a prescrição

Febre não é indicação de antibiótico. Leucocitose não é. Proteína C-reativa alta não é. Nenhum desses achados distingue infecção bacteriana de infecção viral, de inflamação estéril, de trombose, de neoplasia ou de reação a droga. O que os enunciados de prova fazem é empilhar marcadores inespecíficos e observar se o candidato converte empilhamento em prescrição.

Existe um segundo degrau, mais sutil e mais cobrado: a diferença entre colonização e infecção. Bactéria isolada de um sítio não estéril, em paciente sem manifestação clínica atribuível àquele sítio, é colonização — e colonização não se trata. As quatro situações clássicas são urocultura positiva sem sintoma urinário, ponta ou secreção de cateter vascular sem sinal sistêmico nem local, secreção traqueal de paciente traqueostomizado sem novo infiltrado nem piora respiratória, e swab de úlcera crônica sem sinal de infecção de partes moles. Em todas, a cultura positiva é a resposta correta a uma pergunta que não deveria ter sido feita.

Daí a ideia de gerenciamento do diagnóstico, que o Pan-br 2026-2030 nomeia como diagnostic stewardship e coloca entre as práticas que o profissional da assistência deve priorizar: a decisão de colher já é uma decisão terapêutica. A Diretriz da Anvisa atribui explicitamente à enfermagem o papel de otimizar as coletas, informando se o paciente tem ou não sintomas que justifiquem uma cultura de urina. Cultura pedida sem pergunta clínica gera resultado que alguém vai tratar.

A terceira armadilha desta pergunta é a síndrome viral com nome de bactéria. Faringite viral, rinofaringite, bronquite aguda e a maioria das rinossinusites agudas não pedem antimicrobiano — e a régua de decisão da faringoamigdalite, com os critérios de Centor, está no capítulo de Faringoamigdalite e rinofaringite, na apostila de Pneumologia Pediátrica. O que interessa aqui é o formato do erro: a vinheta descreve um quadro autolimitado, o paciente pede antibiótico, e a alternativa que prescreve está sempre presente.

A quarta é a assimetria da urgência. Nada nesta seção vale para o paciente com sepse ou suspeita de meningite bacteriana: ali a incerteza diagnóstica não adia o antimicrobiano, e o pacote de primeira hora está no capítulo de Sepse e choque séptico. A pergunta 1 governa o paciente estável; no instável, ela é respondida depois, e a resposta se chama descalonamento.

Pergunta 2: qual é o sítio, e que flora mora nele

O tratamento empírico não é um chute: é uma aposta epidemiológica sobre a flora do sítio. A Diretriz da Anvisa define terapia específica como aquela orientada por testes microbiológicos do isolado do paciente, e terapia empírica como a iniciada antes do diagnóstico laboratorial — justificável na infecção grave, quando não é possível obter isolado clínico confiável, e quando os testes microbiológicos são ineficientes para a bactéria em questão. Fora dessas três justificativas, empírico é sinônimo de apressado.

O sítio decide duas coisas ao mesmo tempo, e a prova gosta de cobrar a segunda. A primeira é quem provavelmente está lá. A segunda é se a droga chega lá: a mesma diretriz lembra que a seleção da via deve considerar o sítio e a biodisponibilidade, sobretudo em sítios de difícil manejo como sistema nervoso central, ossos, ouvido médio e fluido peritoneal. Um antimicrobiano ativo contra o agente e incapaz de alcançar o sítio é um antimicrobiano inútil com laudo bonito.

Há um terceiro dado que quase nunca aparece explicitamente na vinheta e que decide o empírico na vida real: o perfil de sensibilidade da instituição. A Anvisa recomenda que o laboratório de microbiologia ajude a otimizar a prescrição empírica elaborando e interpretando um relatório histórico de resistência microbiana, e que a definição dos antimicrobianos restritos se baseie no perfil microbiológico local. Resistência é um número local; a média nacional não trata paciente nenhum.

Por fim, a regra da monoterapia. A associação de antimicrobianos existe para três razões declaradas — ampliar sinergicamente o espectro, tratar infecção mista e prevenir emergência de resistência — e não para conforto do prescritor. Fora delas, dois fármacos com espectros sobrepostos são o que a Diretriz chama de terapia duplicada, e lista entre os alvos dos alertas farmacêuticos: atividade anaeróbia duplicada e atividade contra Gram-positivo resistente duplicada são os dois exemplos citados.

Pergunta 3: o que neste paciente muda o espectro

O espectro não se define pela gravidade sozinha, e sim pelo cruzamento entre gravidade e probabilidade de agente resistente. A Diretriz da Anvisa organiza os fatores ligados ao paciente em uma lista curta: presença de alergia; gestação; aleitamento; extremos de peso corporal; extremos etários; comorbidades, com atenção à disfunção hepática e renal; medicamentos em uso, pelas interações. E acrescenta o que ela chama de histórico, que é o item de anamnese mais esquecido do tema: uso recente de antimicrobianos, sítio da infecção e tempo de internação.

Traduzindo para o que a vinheta esconde no meio do texto. Antimicrobiano nos últimos 90 dias, internação recente ou prolongada, dispositivo invasivo em uso, hemodiálise, residência em instituição de longa permanência, imunossupressão e — o mais determinante de todos — colonização ou infecção prévia documentada por microrganismo multirresistente. Esse último dado transforma o empírico: quem já cresceu uma Klebsiella produtora de carbapenemase há dois meses tem probabilidade pré-teste alta de tê-la de novo.

A regra tem os dois sentidos, e o segundo é o que separa candidato de aprovado. O fator de risco presente alarga o espectro inicial; o fator de risco ausente obriga a estreitar. Paciente jovem, sem comorbidade, sem antibiótico prévio, com pneumonia adquirida na comunidade, não recebe carbapenêmico porque está com taquipneia. Gravidade justifica começar cedo e em dose cheia, não começar largo por reflexo.

Há um fator do paciente que merece seção própria por ser quase sempre falso: o rótulo de alergia à penicilina. Ele muda o espectro do jeito errado — empurra para clindamicina, vancomicina e fluoroquinolona — e volta no fim deste capítulo, com o custo medido.

Espectro: por que mais largo não é melhor

Existe uma confusão de vocabulário que produz erro clínico: largo e forte não são sinônimos. Espectro largo significa que a droga age sobre mais espécies diferentes, não que age melhor sobre a espécie que o paciente tem. Contra um pneumococo sensível à penicilina, a penicilina é pelo menos tão boa quanto o carbapenêmico — e o carbapenêmico é pior em tudo o mais.

O espectro largo é uma apólice de seguro contra a incerteza, e a apólice tem prêmio. O prêmio se paga em cinco moedas. A primeira é pressão seletiva: a Anvisa abre a Diretriz de 2023 exatamente nessa premissa, de que o uso de antimicrobianos promove a seleção de microrganismos resistentes. A segunda é infecção por Clostridioides difficile, que a mesma diretriz elege como indicador microbiológico de resultado do programa, ao lado das taxas de bactérias multirresistentes. A terceira é toxicidade e interação. A quarta é custo — a mesma diretriz registra que os antimicrobianos são a segunda classe de medicamentos mais utilizada em hospitais e costumam figurar entre os insumos terapêuticos hospitalares de alto custo, respondendo por 20 a 50% das despesas farmacoterapêuticas institucionais, que é o denominador exato do número. A quinta, a mais difícil de enxergar no paciente individual, é a perda de opções futuras.

Daí a regra prática: a largura do espectro deve ser proporcional à incerteza, e a incerteza tem prazo de validade. No dia um, o paciente grave sem agente identificado justifica cobertura ampla. No dia três, com hemocultura crescida e antibiograma na tela, a mesma cobertura ampla deixou de ser prudência e virou inércia.

Uma consequência que a prova adora: a associação de um segundo antimicrobiano não é escalonamento legítimo quando o paciente não melhorou e o diagnóstico não foi revisto. Alargar por não saber o que está acontecendo é confessar que a pergunta 1 nunca foi respondida.

Descalonamento: o gatilho é o resultado, não a melhora

Descalonar é reduzir o espectro do esquema em curso à luz de informação nova. Na prática, isso é uma de quatro coisas: trocar a droga larga pela droga estreita ativa contra o agente identificado; suspender o componente redundante de uma associação; passar de esquema combinado a monoterapia; e trocar a via endovenosa pela oral. As duas últimas contam, e são as mais esquecidas — a Diretriz da Anvisa lista a terapia sequencial, com conversão de endovenoso para oral, entre as intervenções guiadas pela farmácia, citando fluoroquinolonas, sulfametoxazol-trimetoprima e linezolida como exemplos de boa absorção.

O gatilho é temporal e está escrito: os prescritores devem ser encorajados a revisar a prescrição após dois ou três dias, isto é, 48 a 72 horas de tratamento, quando há mais informações clínicas e microbiológicas disponíveis. A Anvisa acrescenta que o momento ideal não está bem estabelecido na literatura e que especialistas sugerem revisões diárias até que o diagnóstico definitivo e a duração estejam estabelecidos, recomendando a revisão diária onde for viável. O percentual de revisão após 48 a 72 horas e o percentual de descalonamento são, os dois, indicadores de processo do programa.

O que o prescritor deve registrar no prontuário nessa revisão também está listado: o esquema em progresso com nome, dose, via, posologia, dias decorridos e duração provável; o diagnóstico atualizado; os resultados laboratoriais; a avaliação das possibilidades de redução do espectro conforme os achados microbiológicos; e a possibilidade de passagem para via oral. É uma lista de verificação, e a diretriz observa que incluí-la no registro médico aumenta significativamente a adesão.

Agora o erro conceitual que a banca explora. Melhora clínica não é razão para manter o espectro largo — é a condição que autoriza estreitá-lo. O raciocínio inverso, tão comum quanto errado, soa assim: o paciente está melhorando com meropenem, então não vou mexer. Traduzido: vou deixar de usar a informação que paguei para obter. Se a hemocultura mostrou Escherichia coli sensível à ceftriaxona e o paciente está afebril há 24 horas, a conduta é trocar, não manter.

E o descalonamento máximo é a suspensão. Cultura negativa colhida antes da primeira dose, paciente estável, e um diagnóstico alternativo que explica o quadro — isso não pede antibiótico estreito, pede antibiótico nenhum. A Diretriz inclui, entre as ações complementares, o percentual de prescrições com suspensão ou revisão.

Cultura: colher antes, e o que fazer quando ela contradiz o paciente

A regra é literal no Anexo I da Diretriz Nacional: a terapia empírica não deve prescindir da coleta de amostras para cultura antes do início da antibioticoterapia, e é importante que os resultados laboratoriais sejam utilizados para ajustes da prescrição. A segunda metade da frase é a que se descumpre mais: colhe-se e não se lê.

Colher antes tem um limite, e ele é de tempo, não de princípio. Na sepse e na suspeita de meningite bacteriana, a coleta não atrasa a primeira dose — o encadeamento correto está nos capítulos de Sepse e choque séptico e de Meningites bacteriana e viral. Fora da emergência, porém, começar antes de colher significa jogar fora a única chance de descalonar com segurança: depois da primeira dose, a cultura negativa deixa de significar ausência de agente.

Quando o resultado chega, há quatro cruzamentos possíveis entre laudo e paciente, e cada um tem uma conduta diferente. Primeiro: o paciente melhorou e a cultura mostra agente sensível a uma droga mais estreita. Descalone — é o caso mais frequente e o mais desperdiçado.

Segundo: o paciente melhorou e a cultura mostra agente resistente à droga em uso. Antes de trocar, faça três perguntas. O isolado é mesmo o agente, ou é colonizante ou contaminante — um Staphylococcus coagulase-negativo em uma única de duas hemoculturas, uma bactéria de pele, um crescimento de swab superficial? O sítio concentra a droga acima do que o ponto de corte sistêmico pressupõe, como acontece na urina? O foco foi controlado por drenagem ou retirada de dispositivo, de modo que a melhora não depende mais do antimicrobiano? Melhora clínica sustentada com fonte controlada é um dado forte; laudo é um dado sobre uma placa.

Terceiro, o cruzamento mais perigoso: o paciente não melhorou e a cultura mostra agente sensível à droga em uso. Aqui o problema quase nunca é a droga. É foco não controlado — coleção, obstrução, tecido morto, dispositivo mantido; é dose ou penetração insuficiente no sítio; é diagnóstico errado; é complicação nova; ou é o tempo, porque em algumas infecções a defervescência leva mais de 72 horas. Trocar o antimicrobiano nessa situação é a conduta mais escolhida e a mais errada. O relógio das 48 a 72 horas na infecção urinária que não melhora, e o que a imagem procura, estão no capítulo de Infecção urinária complicada e prostatite.

Quarto: o paciente não melhorou e a cultura é negativa. Reabra o diagnóstico. Cultura negativa em paciente que piora sob antibiótico é, com frequência, a informação mais valiosa do caso — e a que menos se usa.

Matriz de dois por dois cruzando o resultado da cultura com a evolução do paciente. Laudo sensível com melhora manda descalonar. Laudo resistente com melhora manda fazer três perguntas antes de trocar. Laudo sensível sem melhora indica que o problema não é a droga, e sim foco não controlado, penetração insuficiente ou diagnóstico errado. Cultura negativa sem melhora manda reabrir o diagnóstico. Uma tarja inferior lembra que cultura colhida depois da primeira dose não serve para nenhum dos quatro quadrantes.
Os quatro cruzamentos entre o laudo e o paciente. O quadrante que decide questão é o inferior esquerdo: agente sensível e paciente que não melhora quase nunca é problema de droga.

O antibiograma por dentro: o que é a CIM

A concentração inibitória mínima é a menor concentração do antimicrobiano capaz de inibir o crescimento bacteriano visível in vitro. Ela se determina por três metodologias, segundo o Módulo 10 da Anvisa: diluição em ágar, diluição em caldo e fitas de gradiente de concentração. O disco-difusão é o método qualitativo — informa a categoria, não o número.

A CIM é uma medida da bactéria diante daquela droga, em condições padronizadas. Não é uma medida de potência comparável entre drogas diferentes: comparar a CIM de duas moléculas distintas e concluir que a de número menor é melhor é um erro de raciocínio, porque cada droga tem ponto de corte próprio, derivado da sua farmacocinética e das doses aprovadas. Uma CIM de 0,5 pode ser sensível para um fármaco e resistente para outro.

O ponto de corte clínico é o número que transforma a CIM em categoria. Ele não sai da placa: sai da farmacocinética e da farmacodinâmica, da distribuição de CIM da população selvagem da espécie e dos dados clínicos. É por isso que ponto de corte muda com o tempo, e é por isso que o mesmo isolado pode receber categorias diferentes segundo o comitê que o laboratório adota.

Quem manda no Brasil tem nome. O Módulo 10 registra que o teste de sensibilidade deve seguir comitês internacionais especializados, como o CLSI ou o EUCAST, e que, no Brasil, conforme a Portaria nº 64, de 11 de dezembro de 2018, do Ministério da Saúde, devem ser seguidas as orientações do BrCAST, que é a versão brasileira do documento do EUCAST — com todos os documentos de livre acesso. A mesma seção adverte que a concentração do antimicrobiano no disco recomendada pelo EUCAST/BrCAST difere, em alguns casos, da do CLSI.

S, I e R depois de 2019 — e o que o antibiograma NÃO responde

Entre 2019 e 2020 o EUCAST alterou as definições das categorias, mantendo as siglas. O BrCAST traduziu e adotou. As definições vigentes, na redação do próprio Módulo 10 da Anvisa e da carta do BrCAST aos clínicos, são estas. S é sensível, dose padrão: há alta probabilidade de sucesso terapêutico usando o regime de dosagem padrão do agente. I é sensível, aumentando a exposição: há elevada probabilidade de sucesso porque a exposição ao antimicrobiano é aumentada pelo ajuste do regime de dosagem ou por aumento da concentração no local da infecção. R é resistente: há alta probabilidade de falha terapêutica mesmo com exposição aumentada.

A consequência é a frase que a prova quer ver reconhecida: passamos a ter dois níveis de sensibilidade, e não dois níveis de resistência. O termo não sensível agora abrange apenas o R. O I não é pior do que o S — ele apenas indica que é preciso mais exposição, o que se obtém aumentando a dose ou prolongando o tempo de infusão. Escalonar para uma classe de espectro maior por causa de um I é exatamente o comportamento que a mudança de nomenclatura quis extinguir.

O documento do EUCAST traduzido pelo BrCAST explica por que a categoria antiga era ruim: ela embrulhava quatro coisas diferentes numa sigla só — efeito terapêutico incerto, sítios onde o antimicrobiano se concentra fisiologicamente, situações em que uma dose alta pode ser usada, e uma zona-tampão metodológica para impedir que pequenos erros técnicos virassem discrepâncias grandes de interpretação. Separar incerteza de exposição foi o ponto inteiro da reforma.

Dois exemplos que a carta do BrCAST usa e que caem. Pseudomonas aeruginosa com ciprofloxacina: mesmo isolados desprovidos de qualquer mecanismo de resistência são categorizados como I, sensível aumentando exposição — nunca como S. E Streptococcus pneumoniae com benzilpenicilina: microrganismos com valores de CIM entre 0,125 e 2 mg/L são relatados como I, para lembrar ao clínico a necessidade de maior exposição.

Agora a parte que decide questão: o que o antibiograma não responde. Ele não diz que a droga chega ao sítio — sistema nervoso central, próstata, osso, vítreo, interior de abscesso e vegetação valvar não estão na placa. Ele não diz que o isolado é o agente da infecção, porque não distingue infecção de colonização nem de contaminação. Ele não diz nada sobre bactéria aderida a biofilme, porque testa células livres em meio rico. Ele não permite comparar potência entre drogas pela CIM. Ele não informa sinergia de combinações. E ele não traz a posologia: um I é um pedido de dose ou infusão específicas que o laudo não escreve. O laudo responde com exatidão a uma pergunta de laboratório; o paciente fez outra.

Duração: a década em que os cursos encurtaram

A maior mudança prática da última década em antibioticoterapia não foi uma droga nova: foi a descoberta sistemática de que os cursos tradicionais eram longos demais. O desenho dos ensaios é sempre o mesmo — não inferioridade, curso curto contra curso longo, desfecho duro — e o resultado se repetiu em síndrome após síndrome.

Dois marcos bastam para fixar o princípio. Na infecção intra-abdominal complicada com controle adequado do foco, o STOP-IT randomizou 518 pacientes para curso fixo de 4 dias mais ou menos 1, contra antibiótico até 2 dias depois da resolução de febre, leucocitose e íleo, no máximo 10 dias. O desfecho composto de infecção de sítio cirúrgico, infecção intra-abdominal recorrente ou morte em 30 dias ocorreu em 21,8% do curso fixo e 22,3% do curso guiado, diferença absoluta de 0,5 ponto percentual. As medianas de tratamento foram 4 e 8 dias. A condição que faz o número valer está no nome do braço: foco controlado.

Na infecção de corrente sanguínea, o balance randomizou 3.608 pacientes em 74 hospitais de sete países, com 55,0% deles em UTI, para 7 ou 14 dias. Em 90 dias morreram 14,5% no braço de 7 dias e 16,1% no de 14, diferença de 1,6 ponto percentual a favor do curso curto, dentro de uma margem de não inferioridade de 4 pontos. A origem mais frequente da bacteremia foi o trato urinário, com 42,2%, seguida de abdome, pulmão, cateter vascular e pele e partes moles.

O que esses ensaios estabelecem não é uma tabela de dias: é uma inversão do ônus. A pergunta deixou de ser por que encurtar e passou a ser o que justifica prolongar. E há uma vantagem didática rara no balance — os critérios de exclusão do ensaio desenham, um a um, a lista de quem não recebe curso curto: imunossupressão grave, focos que exigem tratamento prolongado, hemocultura única com possível contaminante e — nomeadamente — Staphylococcus aureus.

Traduzindo a exclusão para a regra clínica. Curso curto não vale quando o foco não foi controlado; quando há material protético ou dispositivo mantido; quando o agente é S. aureus na corrente sanguínea; nas infecções que se definem pela duração, como endocardite, osteomielite e artrite séptica; e no imunossuprimido grave. A duração da antibioticoterapia depois do controle do foco cirúrgico, com seus números, está no capítulo de Sepse cirúrgica e controle do foco; as durações da pneumonia adquirida na comunidade e da infecção urinária estão nos capítulos respectivos.

Um último ponto, porque a banca gosta dele: o que não encerra o tratamento é a normalização de um marcador. Não se trata proteína C-reativa, não se trata leucograma, e não se colhe cultura de controle para provar cura fora das situações em que ela é recomendada. Duração se cumpre; exame de controle não a substitui nem a prorroga.

Mecanismos de resistência, um por linha

O Módulo 10 da Anvisa organiza os mecanismos em quatro, e vale decorá-los nessa ordem porque toda questão de fenótipo cai em um deles. Alteração da permeabilidade celular ao antimicrobiano — em Gram-negativos, a perda ou alteração de porinas fecha a porta de entrada. Remoção do antimicrobiano por bombas de efluxo — a droga entra e é expulsa antes de agir. Alteração do sítio de ação — o alvo muda e a droga deixa de reconhecê-lo. Modificação ou inativação enzimática do agente — a bactéria destrói a molécula.

Ao lado dos mecanismos, o modo de aquisição, que é o que transforma um caso em surto. A resistência intrínseca é característica natural da espécie: Gram-positivos são intrinsecamente resistentes às polimixinas, porque o alvo dessas drogas é a membrana externa que eles não têm; Gram-negativos são intrinsecamente resistentes aos glicopeptídeos, porque vancomicina e teicoplanina são moléculas grandes demais para atravessar essa mesma membrana externa; e anaeróbios estritos são intrinsecamente resistentes aos aminoglicosídeos, que precisam de transporte ativo de elétrons para entrar na célula. A resistência adquirida vem por mutação ou por transferência horizontal de genes — conjugação, transformação e transdução — carregada em plasmídeos, transposons e integrons.

Três rótulos de gravidade, com definição numérica, aparecem em prova. MDR, multirresistente: a espécie apresenta resistência a antimicrobianos de três ou mais classes diferentes. XDR, extensivamente resistente: mantém sensibilidade a, no máximo, duas classes. PDR, pan-resistente: resistente a todos os agentes antibacterianos disponíveis, de todas as classes.

E a lista de patógenos prioritários da OMS, que o Módulo 10 reproduz na versão de 2017 e que a prova cobra pelo grupo de prioridade. Prioridade crítica: Acinetobacter baumannii resistente aos carbapenêmicos, Pseudomonas aeruginosa resistente aos carbapenêmicos e Enterobacterales resistentes aos carbapenêmicos e às cefalosporinas de terceira geração. Prioridade elevada: Enterococcus faecium resistente à vancomicina, Staphylococcus aureus resistente à meticilina, Helicobacter pylori resistente à claritromicina, Campylobacter e Salmonella resistentes às fluoroquinolonas, Neisseria gonorrhoeae resistente a cefalosporinas e fluoroquinolonas. Prioridade média: pneumococo não sensível à penicilina, Haemophilus influenzae resistente à ampicilina e Shigella resistente às fluoroquinolonas.

Beta-lactamases: quem hidrolisa o quê

Quatro classes moleculares organizam o assunto inteiro. Classe A, serino-beta-lactamases, que reúnem as penicilinases, a maioria das ESBL e as serino-carbapenemases do tipo KPC. Classe B, as metalo-beta-lactamases, com um ou dois átomos de zinco no sítio ativo. Classe C, as AmpC. Classe D, as oxacilinases.

ESBL, beta-lactamase de espectro estendido. O Módulo 10 é explícito: hidrolisa praticamente todas as penicilinas e as oxiimino-cefalosporinas — cefuroxima, cefotaxima, ceftriaxona, ceftazidima e cefepima —, além dos monobactâmicos como o aztreonam. não hidrolisa carbapenêmicos nem cefamicinas, isto é, cefoxitina e cefotetana, e é bloqueada por inibidores de beta-lactamase: ácido clavulânico, sulbactam, tazobactam e avibactam. A maioria é da categoria molecular A e funcional 2be. No Brasil, as ESBL mais frequentes são dos tipos CTX-M, SHV e tem, e depois dos anos 2000 o isolamento em pacientes da comunidade deixou de ser exceção.

AmpC, classe C, é a cefalosporinase. Geralmente cromossômica, com versões plasmidiais. O microrganismo que a hiperexpressa é tipicamente resistente às penicilinas, às combinações de beta-lactâmico com inibidor e às cefalosporinas de primeira e terceira gerações, mas geralmente mantém a sensibilidade à cefalosporina de quarta geração, a cefepima, quando não há outro mecanismo associado. Algumas espécies têm o gene intrinsecamente, induzível na presença de beta-lactâmico — o grupo tradicionalmente chamado de CESP, que o Módulo 10 apresenta como Citrobacter freundii, Enterobacter spp., Serratia marcescens e Providencia spp., e também pela sigla myspace, que acrescenta Morganella morganii, Yersinia, Aeromonas e Pseudomonas aeruginosa.

Carbapenemases de classe A. Os quatro representantes principais são GES, SME, IMI/NMC e KPC. Hidrolisam ampla variedade de beta-lactâmicos, incluindo carbapenêmicos, cefalosporinas, penicilinas e o aztreonam, e podem ser inibidas por ácido clavulânico e tazobactam na classificação bioquímica — o que não faz do tazobactam uma opção terapêutica. KPC é a de maior importância clínica e epidemiológica: KPC-2 é a carbapenemase mais detectada no mundo e, no Brasil, é endêmica.

Metalo-beta-lactamases, classe B. Hidrolisam todos os beta-lactâmicos com exceção dos monobactâmicos, têm alta atividade contra carbapenêmicos e são resistentes aos inibidores de beta-lactamase como sulbactam e clavulanato; são inibidas por quelantes como o EDTA — o que é achado de bancada, não de tratamento. As famílias mais comuns são VIM, IMP, GIM, sim, NDM e SPM. A SPM foi descrita pela primeira vez no Brasil, em 2002, a partir de isolado recuperado em 1999, e é a principal metalo-beta-lactamase em amostras brasileiras de P. aeruginosa, por disseminação de um clone endêmico, o ST 277.

Guarde a diferença que decide conduta entre as duas famílias de carbapenemase: a serino-carbapenemase, tipo KPC, hidrolisa o aztreonam; a metalo-beta-lactamase, tipo NDM, não. Essa única linha é a razão de o aztreonam voltar à conversa quando o laudo mostra metalo-beta-lactamase.

Classe D, as oxacilinases. Há enzimas com perfil de penicilinase, como OXA-1; com perfil de ESBL, como OXA-15; e com perfil de carbapenemase, como OXA-23 e OXA-48. São fracamente inibidas pelo ácido clavulânico.

Os fenótipos Gram-positivos: MRSA e VRE

MRSA. O mecanismo mais importante de resistência aos beta-lactâmicos em Staphylococcus é mediado pelo gene mecA, que codifica uma proteína ligadora de penicilina alterada, a PBP2a, com baixa afinidade pelos beta-lactâmicos e atividade de transpeptidase preservada — a bactéria continua construindo parede na presença da droga. A consequência está numa nota de rodapé do Módulo 10 que vale como regra: cepas de estafilococos resistentes à oxacilina ou à cefoxitina devem ser consideradas resistentes a todos os beta-lactâmicos, com exceção do ceftobiprol e da ceftarolina. Não existe carbapenêmico que resolva MRSA, e o antibiograma que sugerir o contrário deve ser questionado.

O inverso também é conteúdo de prova, e é o erro mais caro do par. Diante de S. aureus sensível à oxacilina, o tratamento é o beta-lactâmico — oxacilina ou cefazolina —, não a vancomicina. Manter vancomicina em MSSA depois do antibiograma é falha de descalonamento com desfecho pior, e não neutra.

Ainda em Staphylococcus, dois fenótipos de laudo que aparecem em questão. A resistência a macrolídeos, lincosamidas e estreptogramina B por metilase do RNAr 23S, mediada por genes erm, que pode ser constitutiva ou induzível — o iMLSB é o motivo pelo qual um laudo pode mostrar eritromicina resistente e clindamicina sensível sem que a clindamicina seja confiável. E a sensibilidade diminuída aos glicopeptídeos, o GISA, por espessamento da parede e produção de terminais D-alanil-D-alanina livres, distinta da resistência de alto grau do VRSA, que se deve à síntese de precursores com D-alanil-D-lactato codificada pelo gene vanA.

VRE. Em Enterococcus, a resistência aos beta-lactâmicos vem de alterações na PBP5, e por isso todos os enterococos são resistentes de alto nível às penicilinas semissintéticas e à maioria das cefalosporinas — enterococo não se cobre com cefalosporina, ponto. A resistência aos glicopeptídeos vem da troca do terminal D-alanil-D-alanina do precursor do peptidoglicano por D-alanil-D-lactato ou D-alanil-D-serina, dipeptídeos de baixa afinidade pela vancomicina. Os genótipos têm fenótipos distintos, e a distinção cai. vanA, em E. faecalis e E. faecium, é induzível e plasmidial, e dá resistência à vancomicina E à teicoplanina. vanB, nas mesmas espécies, também é induzível e plasmidial, e poupa a teicoplanina no teste — mas o Módulo 10 acrescenta a ressalva que a prova gosta: cepas com fenótipo VanB são sensíveis à teicoplanina, e ainda assim o uso da teicoplanina para tratar essas infecções não é recomendado. É o capítulo inteiro numa linha: o laudo respondeu, e a resposta não é a conduta. vanC1 e vanC2 são constitutivos e pertencem a espécies específicas — Enterococcus gallinarum e Enterococcus casseliflavus —, com resistência de baixo nível; diante de CIM baixa para vancomicina, o manual recomenda detectar o gene vanC e fazer o teste de motilidade, positivo nessas espécies e em E. flavescens. Ou seja, VRE nessas duas espécies costuma ser achado de identificação, não alarme epidemiológico.

As duas espécies que importam são Enterococcus faecium e Enterococcus faecalis, e o E. faecium é o da lista de prioridade elevada da OMS. Como em todo o resto deste capítulo, colonização intestinal por VRE não se trata: ela se isola em precaução de contato e se vigia.

Clostridioides difficile: a resistência que vem como efeito colateral

C. difficile não é um fenótipo de resistência: é a consequência ecológica de ter usado o espectro largo. Bacilo Gram-positivo anaeróbio formador de esporos, coloniza o intestino grosso de forma assintomática com frequência em adultos internados, e algumas cepas produzem as toxinas A e B, que causam a doença. O Informe Técnico da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, de 2023, registra o essencial da epidemiologia: aproximadamente 10% a 30% dos pacientes apresentam pelo menos uma recorrência após um episódio inicial, e o risco aumenta a cada recorrência sucessiva.

A prevenção primária é o próprio uso racional de antimicrobianos. Não por acaso, a Diretriz da Anvisa elege a taxa de incidência de infecção por C. difficile como indicador microbiológico de resultado do programa de gerenciamento, ao lado das taxas de bactérias multirresistentes, registrando a evidência de que o uso adequado dos antimicrobianos pode prevenir essas infecções.

As regras de teste são as mais cobradas, e são todas negativas. Os exames para diagnóstico não devem ser solicitados em paciente sem diarreia, em paciente que foi testado nos 7 dias anteriores, e em criança abaixo de 1 ano. A razão é a mesma do resto do capítulo: em quem não tem diarreia, um teste positivo significa colonização, e colonização não se trata. Não existe teste de cura — o resultado permanece positivo após a resolução clínica.

O critério epidemiológico de infecção relacionada à assistência, na redação do Informe Técnico, é a presença de diarreia ou evidência de megacólon ou íleo grave, mais um resultado positivo de teste laboratorial ou evidência de pseudomembranas demonstradas por endoscopia ou histopatologia, com início dos sintomas 3 dias após a hospitalização.

O tratamento tem duas camadas. A primeira, não farmacológica e não negociável: suspender ou trocar, se possível, o antimicrobiano desencadeante. A segunda é a droga anti-C. difficile — e é aqui que a referência brasileira municipal e a diretriz internacional divergem, o que está registrado no bloco de divergências. As medidas de bloqueio de transmissão estão no mesmo informe: precaução de contato com quarto individual de preferência, coorte quando não houver quarto disponível, higiene das mãos, e desinfetante esporicida aprovado pela Anvisa, como hipoclorito de sódio diluído a 1:10, na limpeza ambiental. Álcool em gel não elimina esporo — o hipoclorito ambiental e a água e sabão nas mãos existem por isso.

Profilaxia cirúrgica: três marcos e um teto

A profilaxia cirúrgica é o exemplo mais puro do capítulo: uma indicação inteiramente definida por relógio. As classes de ferida, a indicação por classe, a droga e a dose por sítio e os ajustes por peso e alergia estão no capítulo de Antibioticoprofilaxia cirúrgica, na apostila de Pré e Pós-operatório. O que interessa aqui é a linha do tempo, porque ela é a mesma para qualquer cirurgia e é cobrada em qualquer prova.

Marco um, a dose. O Caderno 4 da Anvisa manda administrar a dose efetiva de 0 a 60 minutos antes da incisão cirúrgica, com uma exceção nomeada: vancomicina e ciprofloxacina começam a infusão de 1 a 2 horas antes. Há ainda a regra do torniquete, que a prova de ortopedia adora: administrar a dose total antes de insuflar o torniquete, porque depois disso o membro está fora da circulação. A Diretriz de 2023 transformou esse marco em indicador auditável — a taxa de antibioticoprofilaxia cirúrgica no tempo certo tem no numerador o número de profilaxias realizadas até 1 hora antes da incisão.

Marco dois, o repique. Na maioria das cirurgias, uma única dose antes da incisão basta. Em cirurgias longas, repete-se o antibiótico após um intervalo igual a duas vezes a meia-vida do antimicrobiano, contado a partir da infusão da primeira dose — não do início da cirurgia, não da incisão. Essa preposição é o distrator mais comum do item.

Marco três, o fim. O Caderno 4 é direto: descontinuar em 24 horas, e a profilaxia antibiótica não deve ser estendida por mais de 24 horas. Leia o número como teto, não como meta — e note que a régua contemporânea encurtou ainda mais esse teto, discussão que está registrada como divergência no capítulo de Antibioticoprofilaxia cirúrgica. O que não muda em nenhuma das leituras é a lista do que não prorroga profilaxia: dreno mantido, cateter vesical, acesso venoso central, tala, febre isolada no primeiro dia. Nada disso é indicação de antimicrobiano.

E o limite conceitual, também no Caderno 4: se uma infecção for identificada durante a cirurgia, o antimicrobiano passa a ter cunho terapêutico, deve ser reformulado de acordo com a infecção encontrada e se estender até quando clinicamente indicado. Isso deixou de ser profilaxia — e chamar tratamento de profilaxia é o erro que produz esquemas de 24 horas em quem precisava de sete dias, e de sete dias em quem precisava de uma dose.

Stewardship no Brasil: o que a norma exige do serviço e do prescritor

Comece pela obrigação mais antiga e mais simples. A Lei nº 9.431, de 6 de janeiro de 1997, determina no art. 1º que os hospitais do País são obrigados a manter Programa de Controle de Infecções Hospitalares, e no art. 2º, inciso I, que, para executá-lo, devem constituir Comissão de Controle de Infecções Hospitalares. A CCIH não é comitê consultivo opcional: é exigência legal, com penalidades sanitárias em caso de descumprimento.

Sobre ela se monta o Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos, o PGA, que a Anvisa detalhou na Diretriz Nacional revisada em 2023. Os componentes essenciais são apoio das lideranças; definição de responsabilidades; educação, dos profissionais e também dos pacientes e acompanhantes; ações para melhorar o uso; monitoramento do programa; e divulgação dos resultados. O líder operacional deve trabalhar alinhado com a CCIH e com a Comissão de Farmácia e Terapêutica, e deve haver um farmacêutico clínico nomeado.

As três ações prioritárias, cuja implementação a diretriz chama de altamente recomendável, são as que caem: utilização de protocolos clínicos para as principais síndromes; auditoria da prescrição de antimicrobianos, com retorno ao prescritor; e medidas restritivas, por formulário de restrição ou exigência de pré-autorização. A diretriz aponta as medidas restritivas como um dos métodos mais eficazes de controle, e no mesmo parágrafo impõe a ressalva que a prova cobra: é importante garantir que a restrição não atrase o tratamento, sobretudo em casos de sepse, independentemente do dia e do horário — noite, fim de semana ou feriado.

Os indicadores têm siglas e fórmulas. DDD, dose diária definida, é a dose média diária de manutenção, padronizada pela OMS. DOT, dias de terapia, conta qualquer dose de um antimicrobiano recebida em 24 horas como 1 DOT: em esquema combinado de três antimicrobianos por 10 dias somam-se 30 DOT, enquanto a monoterapia pela mesma indicação somaria 10. LOT, duração de terapia, conta os dias em que o paciente recebeu qualquer antimicrobiano, e por isso é sempre menor ou igual ao DOT. A razão DOT/LOT mede o quanto se combina drogas. A diretriz aponta o DOT como a medida mais apropriada para avaliar o impacto do programa, e registra a limitação da DDD em pediatria, onde não existe DDD padrão.

A prescrição para o paciente ambulatorial é regulada pela RDC nº 471/2021, que revogou a RDC nº 20/2011 mantendo o conteúdo. E aqui mora uma armadilha de enunciado. A prescrição de antimicrobiano deve ser feita em receituário privativo do prescritor ou do estabelecimento de saúde, não havendo modelo de receita específico; ela sai em duas vias, legível e sem rasuras; a farmácia retém a 2ª via e devolve a 1ª ao paciente, registrando data, quantidade aviada, lote e rubrica; em tratamento prolongado a mesma receita serve para aquisições dentro de 90 dias, com indicação de uso contínuo e quantidade para cada 30 dias; e o rótulo traz, em caixa alta, a frase de venda sob prescrição médica com retenção da receita. O prazo de validade e a lista de substâncias migraram para Instrução Normativa específica.

Ou seja: receita de antimicrobiano não é receita de controle especial. A própria norma diz que a receita pode conter outras categorias de medicamentos desde que não sujeitas a controle especial — frase que só faz sentido porque ela mesma não é uma delas. Confundir as duas coisas é o erro mais frequente do item de legislação.

Por fim, as metas nacionais, que o Pan-br 2026-2030 fixa e que rendem questão de saúde coletiva. O plano se estrutura em cinco objetivos estratégicos, sete objetivos principais, 14 metas, 28 intervenções estratégicas e 84 atividades, com avaliação intermediária formal prevista para 2028. Duas metas operacionais são numéricas: reduzir em 10% o consumo de antimicrobianos na saúde humana até 2030, e ampliar para 70% o uso de antibióticos da classe Acesso da classificação AWaRe da OMS. O plano atua em sinergia com o pnpciras e com o Programa Nacional de Imunizações — a vacina entra como medida de prevenção da resistência, porque infecção que não acontece não consome antimicrobiano.

Alergia à penicilina: o rótulo que quase nunca é verdadeiro

Poucos dados de anamnese custam tanto quanto este, e poucos são tão frequentemente falsos. O ensaio PALACE abre pela constatação: menos de 5% dos pacientes rotulados como alérgicos à penicilina são de fato alérgicos. O rótulo costuma nascer de um exantema na infância, de um efeito adverso não imunológico — náusea, diarreia — ou de um sintoma da própria infecção viral que estava sendo tratada.

O custo do rótulo foi medido. Numa coorte pareada de base populacional com 301.399 adultos do Reino Unido, dos quais 64.141 com alergia à penicilina documentada, a razão de risco ajustada foi de 1,69 para MRSA (IC 95% 1,51 a 1,90) e de 1,26 para C. difficile (IC 95% 1,12 a 1,40), ao longo de 6,0 anos médios de seguimento. O mecanismo ficou explícito nas razões de taxa de uso: 4,15 para macrolídeos, 3,89 para clindamicina e 2,10 para fluoroquinolonas. O aumento do uso de alternativas ao beta-lactâmico explicou 55% do excesso de risco de MRSA e 35% do de C. difficile. O rótulo não é neutro: ele empurra o paciente para as classes que mais selecionam.

Existe uma regra de decisão validada para separar quem precisa de investigação de quem não precisa. O PEN-FAST tem quatro itens, derivados de coorte de 622 pacientes e validados externamente em 945. Critérios maiores, 2 pontos cada: o evento alérgico ocorreu há 5 anos ou menos; e anafilaxia ou angioedema, ou reação adversa cutânea grave. Critério menor, 1 ponto: houve necessidade de tratamento para o episódio alérgico. Menos de 3 pontos classifica baixo risco — nessa faixa, apenas 17 de 460 pacientes, 3,7%, tiveram teste alérgico positivo, o que corresponde a valor preditivo negativo de 96,3% (IC 95% 94,1 a 97,8).

E o desfecho prático: no PALACE, 377 adultos com PEN-FAST menor que 3 foram randomizados para provocação oral direta com penicilina ou para o padrão de referência de teste cutâneo seguido de provocação. O desfecho primário — provocação positiva verificada por médico na primeira hora — ocorreu em 1 paciente de 187 no braço de provocação direta e em 1 de 190 no braço padrão, ambos 0,5%, dentro da margem de não inferioridade de 5 pontos percentuais. Não houve evento adverso grave. Em paciente de baixo risco, a provocação oral direta retira o rótulo com segurança.

Duas consequências para a conduta. A primeira: reação adversa não imunológica não é alergia, e registrar o que aconteceu — o que o paciente sentiu, quando, e se precisou de tratamento — vale mais que registrar a palavra alergia. A segunda: história de anafilaxia verdadeira e recente é contraindicação real, e nesse caso a saída é a droga alternativa ou, quando o beta-lactâmico é insubstituível, a dessensibilização — cujo exemplo canônico, a gestante com sífilis, está no capítulo de Sífilis na gestação e sífilis congênita.

Os cinco erros que a prova pune

Primeiro: tratar bacteriúria assintomática. Urocultura positiva em paciente sem sintoma urinário é colonização, e a lista de quem se trata mesmo assim é curtíssima — ela está, com os nomes e as exceções, no capítulo de Infecção do trato urinário. O idoso institucionalizado com urina turva e o diabético com bacteriúria não entram nela.

Segundo: antibiótico para quadro viral. Faringite, rinofaringite e bronquite aguda. O erro se disfarça de prudência e se justifica com pressão do paciente — que a Diretriz da Anvisa antecipa ao colocar a educação do paciente e do acompanhante entre os componentes essenciais do programa, e ao citar a prescrição tardia como prática possível na atenção primária.

Terceiro: tratar colonização de dispositivo. Cultura de ponta de cateter, secreção de traqueostomia, swab de úlcera crônica, urina de sonda vesical. Em todos, o dispositivo faz parte do problema e o antibiótico não o resolve; o que muda o desfecho é mexer no dispositivo.

Quarto: prolongar a profilaxia cirúrgica. Manter enquanto houver dreno, ler as 24 horas como meta em vez de teto, e continuar por febre isolada no primeiro dia pós-operatório.

Quinto, e o mais grave: cobrir mais o paciente que não melhorou, sem reavaliar o diagnóstico. Trocar o esquema por um mais largo na ausência de reavaliação é substituir raciocínio por espectro. O paciente que não melhora em 48 a 72 horas de antimicrobiano adequado tem, quase sempre, um problema que nenhum antibiótico resolve — e o exame que resolve é imagem, drenagem ou uma anamnese refeita.

04

Da suspeita à suspensão: os gatilhos que decidem cada etapa

Toda vinheta de antibioticoterapia racional se resolve percorrendo os mesmos marcos, e mudar a ordem é o que produz erro. Antes da primeira dose: existe indicação, o que colher, qual sítio, o que no paciente alarga o espectro e por quantos dias. Entre 48 e 72 horas: o que a cultura autoriza. Ao fim: o que encerra o tratamento, e o que não encerra. Quando aparece um nome próprio de resistência no laudo, ele entra como modificador — não como um capítulo separado.

  1. 1Antes de prescrever, responda à pergunta que apaga a prescrição: há sinal de infecção BACTERIANA, ou apenas febre, leucocitose e proteína C-reativa? Cultura positiva em sítio não estéril, sem manifestação clínica correspondente, é colonização — e colonização não se trata.
  2. 2Se há indicação, colha ANTES da primeira dose. A Diretriz da Anvisa é literal: a terapia empírica não deve prescindir da coleta de amostras para cultura antes do início da antibioticoterapia. Exceção de tempo, não de princípio: na sepse e na suspeita de meningite bacteriana, a coleta não atrasa a dose.
  3. 3Escolha o espectro pelo sítio e pela flora que o habita, e confira se a droga CHEGA ao sítio. Sistema nervoso central, próstata, osso, ouvido médio e cavidade peritoneal mudam a escolha mesmo com antibiograma sensível.
  4. 4Percorra os fatores do paciente que alargam: antimicrobiano nos últimos 90 dias, internação recente, dispositivo invasivo, hemodiálise, instituição de longa permanência, imunossupressão e colonização prévia documentada por multirresistente. Ausência deles obriga a estreitar — gravidade justifica começar cedo, não começar largo.
  5. 5Escreva a duração provável na prescrição, no dia um. Indicação, dose, duração e tempo de uso devem estar facilmente identificáveis, e o registro no prontuário deve trazer os dias decorridos e a duração provável.
  6. 6Entre 48 e 72 horas, revise obrigatoriamente. Com cultura e antibiograma na tela, descalone: droga estreita ativa, retirada do componente redundante, monoterapia, e passagem de endovenoso para oral quando a absorção permitir.
  7. 7Se o paciente melhorou e o laudo aponta agente resistente à droga em uso, pergunte antes de trocar: o isolado é o agente, ou é colonizante ou contaminante? O sítio concentra a droga? O foco foi controlado? Melhora sustentada com fonte controlada pesa mais que um laudo isolado.
  8. 8Se o paciente NÃO melhorou e o agente é sensível à droga em uso, não troque o antibiótico: procure foco não controlado, dose ou penetração insuficientes, diagnóstico errado ou complicação. O exame que resolve costuma ser imagem ou drenagem.
  9. 9Interprete o I do laudo como sensível AUMENTANDO A EXPOSIÇÃO, não como quase resistente. A conduta é ajustar dose ou prolongar a infusão, não escalonar de classe.
  10. 10Termine no dia marcado. Não prolongue por proteína C-reativa, por leucograma nem por cultura de controle. Prolongue apenas pelo que o BALANCE excluiu: foco não controlado, material protético, S. aureus na corrente sanguínea, endocardite, osteomielite, artrite séptica, imunossupressão grave.
  11. 11Se um nome próprio aparecer no laudo — ESBL, AmpC, KPC, metalo-beta-lactamase, MRSA, VRE —, aplique o modificador correspondente da tabela e some as medidas de bloqueio de transmissão: precaução de contato, comunicação à CCIH e sinalização na transferência.
DOSE0 a 60 min antesINCISAOREPIQUE2 x meia-vidacontado da 1a doseFIMteto de 24 hvanco e cipro: 1 a 2 h antestorniquete: dose total antesSEMINDICACAOdreno, sonda, acesso central e febre isolada nao prorrogaminfeccao achada na cirurgia deixa de ser profilaxia

A linha do tempo da profilaxia cirúrgica

Três marcos e um teto, e todos os quatro caem. A dose efetiva entra de 0 a 60 minutos antes da incisão — vancomicina e ciprofloxacina são a exceção, com infusão iniciada de 1 a 2 horas antes, e em cirurgia com torniquete a dose total tem de estar administrada antes de insuflar. Em cirurgia longa, repete-se após um intervalo igual a duas vezes a meia-vida do fármaco, contado a partir da infusão da PRIMEIRA DOSE, não da incisão. E o Caderno 4 da Anvisa fixa o fim: descontinuar em 24 horas, sem estender além disso. Leia 24 horas como teto, nunca como meta. Dreno mantido, cateter vesical, acesso central e febre isolada no primeiro dia não prorrogam nada. Se uma infecção for identificada durante a cirurgia, o antimicrobiano passa a ter cunho terapêutico, é reformulado conforme a infecção encontrada e dura o que a infecção exigir — isso deixou de ser profilaxia.

ESBLAmpCKPCmetalocefalosp. 3a ger.cefepima (4a)cefoxitinacarbapenemicocirculo cheio = hidrolisa · circulo vazio = poupaKPC e metalo so se separam no aztreonam:a KPC hidrolisa, a metalo-beta-lactamase nao

Quem hidrolisa o quê: ESBL, AmpC, KPC e metalo

Quatro enzimas, quatro substratos, e dois buracos que decidem a conduta. A ESBL hidrolisa penicilinas, cefalosporinas de segunda a quarta geração e o aztreonam, mas NÃO hidrolisa cefamicinas nem carbapenêmicos, e é bloqueada por clavulanato, sulbactam, tazobactam e avibactam. A AmpC hiperexpressa derruba penicilinas, combinações com inibidor, cefalosporinas de primeira e terceira gerações e as cefamicinas, mas em geral poupa a cefepima — esse é o primeiro buraco, e é o que justifica a cefepima no grupo CESP/MYSPACE. A KPC e a metalo-beta-lactamase derrubam tudo o que está na grade; separam-se em outra coisa: a metalo NÃO hidrolisa monobactâmico, e é aí que o aztreonam volta à conversa — esse é o segundo buraco. A KPC é inibida por clavulanato e tazobactam na classificação bioquímica, o que não faz do tazobactam uma opção; a metalo é inibida por EDTA, que é achado de bancada.

SIRCIM crescenteponto de corteponto de corteos DOIS niveis de sensibilidadedose padraocom mais exposicaonao sensivelI nao e quase R: e sensivel com dose ou infusao maior

S, I e R: dois níveis de sensibilidade, um de resistência

A reforma de 2019 do EUCAST, adotada pelo BrCAST, manteve as siglas e trocou os significados. S passou a ser sensível, DOSE PADRÃO: alta probabilidade de sucesso com o regime padrão. I passou a ser sensível, AUMENTANDO A EXPOSIÇÃO: alta probabilidade de sucesso quando se aumenta a exposição, ajustando o regime de dosagem ou a concentração no local da infecção. R continua sendo resistente: alta probabilidade de falha MESMO com exposição aumentada. O termo não sensível passou a abranger apenas o R. Duas consequências de prova: um isolado I não pede troca de classe, pede dose maior ou infusão prolongada; e algumas combinações nunca podem ser liberadas como S — Pseudomonas aeruginosa com ciprofloxacina sai como I mesmo sem qualquer mecanismo de resistência, e pneumococo com benzilpenicilina entre 0,125 e 2 mg/L sai como I para lembrar ao clínico que é preciso mais exposição.

Fenótipo no laudoO que ele é, em uma linhaO que muda na condutaO erro clássico
ESBL (Enterobacterales)Beta-lactamase de espectro estendido, quase sempre CTX-M, SHV ou TEM. Hidrolisa penicilinas, cefalosporinas de 2ª a 4ª geração e aztreonam; NÃO hidrolisa cefamicina (cefoxitina, cefotetana) nem carbapenêmico; é bloqueada por clavulanato, sulbactam, tazobactam e avibactamCefalosporina de 3ª e 4ª geração saem da mesa mesmo que o laudo mostre sensibilidade isolada. Na infecção invasiva, o carbapenêmico é a referência — no ensaio MERINO, a mortalidade em 30 dias foi de 12,3% com piperacilina-tazobactam contra 3,7% com meropenem. Em cistite não complicada, poupe o carbapenêmico e use a droga estreita ativa conforme o antibiogramaGastar carbapenêmico em cistite por ESBL, e manter ceftriaxona em bacteremia por ESBL porque o laudo trouxe um S isolado
AmpC induzível (grupo CESP / MYSPACE)Cefalosporinase cromossômica induzível por beta-lactâmico, típica de Citrobacter freundii, Enterobacter, Serratia marcescens e Providencia — e também Morganella, Yersinia, Aeromonas e Pseudomonas aeruginosa. Quando hiperexpressa, derruba penicilinas, combinações com inibidor, cefalosporinas de 1ª e 3ª gerações e cefamicinasMantém, em geral, a sensibilidade à cefepima quando não há mecanismo associado — daí a cefepima ser a escolha nesse grupo, e o carbapenêmico a alternativa. O laboratório usa cefepima na triagem de ESBL justamente nessas espécies, por causa da desrepressãoTratar Enterobacter com ceftriaxona porque o antibiograma inicial veio sensível, e ver a resistência emergir durante o tratamento por desrepressão
Carbapenemase serina — KPCCarbapenemase de classe A. Hidrolisa carbapenêmicos, cefalosporinas, penicilinas e o aztreonam. KPC-2 é a carbapenemase mais detectada no mundo e é ENDÊMICA no Brasil, disseminada por elementos genéticos móveisTerapia guiada por antibiograma estendido e por identificação do mecanismo — a inibição por clavulanato ou tazobactam é classificação bioquímica, não opção terapêutica. Entram, junto e imediatamente, precaução de contato, comunicação à CCIH e sinalização do status de isolamento na transferênciaTratar como se fosse ESBL, e tratar o isolado sem acionar o bloqueio de transmissão — o plasmídeo é o que transforma um caso em surto
Carbapenemase metalo (NDM, VIM, IMP, SPM)Classe B, com zinco no sítio ativo. Hidrolisa TODOS os beta-lactâmicos EXCETO os monobactâmicos; é resistente aos inibidores clássicos (clavulanato, sulbactam) e inibida por quelantes como EDTA. A SPM foi descrita primeiro no Brasil e é a principal metalo em P. aeruginosa brasileira, por um clone endêmico (ST 277)A exceção do aztreonam é o que separa esta linha da anterior e é o que faz o monobactâmico voltar à conversa. A distinção entre serino e metalo deixa de ser detalhe de laboratório e passa a ser dado de conduta — peça a caracterização do mecanismo, não só a categoriaSomar KPC e metalo num único rótulo de resistente a carbapenêmico, e perder a única droga que a metalo não destrói
MRSA (mecA / PBP2a)Proteína ligadora de penicilina alterada, com baixa afinidade pelos beta-lactâmicos e transpeptidase preservada. Estafilococo resistente à oxacilina ou à cefoxitina deve ser considerado resistente a TODOS os beta-lactâmicos, com exceção do ceftobiprol e da ceftarolinaNenhum carbapenêmico e nenhuma cefalosporina convencional resolvem. E o inverso vale igualmente: diante de S. aureus SENSÍVEL à oxacilina, o tratamento é o beta-lactâmico — oxacilina ou cefazolina —, não a vancomicinaEscalonar para carbapenêmico diante de MRSA, e manter vancomicina em MSSA depois do antibiograma
VRE (vanA, vanB, vanC)Resistência aos glicopeptídeos por troca do terminal do precursor da parede. vanA, induzível e plasmidial, dá resistência à vancomicina E à teicoplanina; vanB, também induzível e plasmidial, poupa a teicoplanina no teste, mas o uso da teicoplanina nessas infecções não é recomendado; vanC1 e vanC2 são CONSTITUTIVOS e próprios de Enterococcus gallinarum e Enterococcus casseliflavus, com resistência de baixo nível e teste de motilidade positivo. Todo enterococo é resistente de alto nível às penicilinas semissintéticas e à maioria das cefalosporinas, por alteração da PBP5Enterococo nunca se cobre com cefalosporina. E colonização intestinal por VRE não se trata: isola-se em precaução de contato e vigia-seTratar colonização por VRE, e ler um vanC de E. gallinarum como se fosse surto hospitalar
Clostridioides difficile (consequência, não fenótipo)Bacilo Gram-positivo anaeróbio esporulado, toxinas A e B. Colonização assintomática do intestino grosso é frequente em adultos internados. De 10% a 30% têm pelo menos uma recorrência após o primeiro episódio, e o risco cresce a cada recorrênciaSuspender ou trocar o antimicrobiano desencadeante é a primeira medida. Só se testa fezes DIARREICAS: não testar sem diarreia, não retestar em 7 dias, não testar criança abaixo de 1 ano e não existe teste de cura. Precaução de contato em quarto individual, higiene das mãos e desinfetante esporicida — hipoclorito de sódio diluído a 1:10 — na limpeza ambientalTestar fezes formadas, repetir o teste para provar cura, e manter o antibiótico que causou o quadro enquanto se trata a colite

As quatro perguntas e o que cada uma decide

PerguntaO que ela decideO dado da vinheta que a respondeSe a resposta for esta, a prescrição não existe
1. É infecção bacteriana?Se existe prescriçãoSíndrome clínica compatível, não marcador inespecífico. Sítio estéril ou não estéril. Sintoma atribuível ao sítio da culturaQuadro viral autolimitado; cultura positiva sem sintoma no sítio; febre isolada em paciente estável sem foco
2. Qual o sítio e a flora provável?Qual droga, e se ela chega láOrigem anatômica do quadro; comunidade ou serviço de saúde; perfil de sensibilidade da instituição— (esta pergunta escolhe, não cancela)
3. O que no paciente alarga o espectro?A largura inicialAntimicrobiano nos últimos 90 dias, internação recente, dispositivo, hemodiálise, ILPI, imunossupressão, colonização prévia por multirresistente, alergia— (a ausência de todos obriga a ESTREITAR, não a cancelar)
4. Por quantos dias?A data de término, escrita no dia umFoco controlado ou não; agente; material protético; imunossupressão— (mas a duração encurta quando o foco foi controlado)

Curso curto: o que o sustenta e o que o exclui

CenárioO que o ensaio mostrouA condição que faz o número valerOnde procurar o número da síndrome
Infecção intra-abdominal complicadaSTOP-IT, 518 pacientes: desfecho composto de infecção de sítio cirúrgico, infecção intra-abdominal recorrente ou morte em 30 dias em 21,8% do curso fixo de cerca de 4 dias contra 22,3% do curso guiado (diferença absoluta de 0,5 ponto percentual). Medianas de 4 e 8 diasCONTROLE ADEQUADO DO FOCO — é o critério de inclusão do ensaio, não um detalheCapítulo de Sepse cirúrgica e controle do foco (Pré e Pós-operatório)
Infecção de corrente sanguíneaBALANCE, 3.608 pacientes em 74 hospitais de 7 países, 55,0% em UTI: mortalidade em 90 dias de 14,5% com 7 dias contra 16,1% com 14 dias, diferença de 1,6 ponto percentual, margem de não inferioridade de 4 pontosFora da lista de exclusão do ensaio. Origem mais comum: trato urinário (42,2%), abdome (18,8%), pulmão (13,0%), cateter vascular (6,3%), pele e partes moles (5,2%)Este capítulo — a bacteremia sem foco protético é o cenário do ensaio
Pneumonia adquirida na comunidadeCurso curto consolidado, condicionado à estabilidade clínicaEstabilidade clínica alcançada antes de encerrarCapítulo de Pneumonia adquirida na comunidade (Pneumologia)
Infecção do trato urinárioCistite não complicada e pielonefrite têm esquemas e durações próprios, com divergência documentada na pielonefriteAusência de obstrução, coleção ou dispositivoCapítulos de Infecção do trato urinário (Nefrologia) e Infecção urinária complicada e prostatite (Urologia)
Onde o curso curto NÃO valeSão, um a um, os critérios de exclusão do BALANCE: imunossupressão grave, focos que exigem tratamento prolongado, hemocultura única com possível contaminante e Staphylococcus aureusAcrescente foco não controlado, material protético ou dispositivo mantido, endocardite, osteomielite e artrite sépticaCapítulo de Endocardite infecciosa (Cardiologia) para o exemplo canônico de duração longa

Mecanismo de resistência em uma linha cada

MecanismoComo funcionaExemplo que cai
Alteração da permeabilidadePerda ou alteração de porinas fecha a via de entrada na membrana externa do Gram-negativoResistência a carbapenêmico em Klebsiella SEM produção de carbapenemase, por perda de porina somada a ESBL ou AmpC
Bomba de efluxoA droga entra e é bombeada para fora antes de atingir concentração útilEfluxo em Staphylococcus e em Enterococcus contribuindo para resistência a macrolídeo e a fluoroquinolona
Alteração do sítio de açãoO alvo muda e a droga deixa de reconhecê-loPBP2a do mecA no MRSA; PBP5 alterada no enterococo; troca do terminal D-Ala-D-Ala por D-Ala-D-Lac no vanA; metilase do RNAr 23S nos genes erm; mutação em gyrA e parC nas fluoroquinolonas
Inativação enzimáticaA bactéria destrói ou modifica a moléculaBeta-lactamases das quatro classes; enzimas modificadoras de aminoglicosídeos
Aquisição: intrínsecaCaracterística natural da espécie, por gene próprio ou por estruturaGram-positivo resistente às polimixinas; Gram-negativo resistente aos glicopeptídeos; anaeróbio estrito resistente aos aminoglicosídeos
Aquisição: horizontalConjugação, transformação e transdução, em plasmídeos, transposons e integronsblaCTX-M e blaKPC-2 em plasmídeos — a razão pela qual um caso vira surto e a CCIH entra na conduta

O que a norma brasileira exige — do serviço e do prescritor

Norma ou documentoO que exigeO item que cai
Lei nº 9.431/1997Todo hospital do País é obrigado a manter Programa de Controle de Infecções Hospitalares (art. 1º) e, para executá-lo, a constituir Comissão de Controle de Infecções Hospitalares (art. 2º, I)A CCIH é obrigação LEGAL, não estrutura opcional; o descumprimento gera penalidade sanitária
Diretriz Nacional do PGA — Anvisa, revisão 2023Seis componentes essenciais e três ações prioritárias: protocolos clínicos, auditoria da prescrição com retorno ao prescritor e medidas restritivas (formulário de restrição ou pré-autorização)A ressalva junto da medida restritiva: a pré-autorização não pode atrasar o tratamento, sobretudo na sepse, em qualquer dia e horário
Indicadores do PGADDD (dose diária definida da OMS); DOT (dias de terapia — qualquer dose em 24 h conta 1 DOT por fármaco); LOT (duração de terapia, sempre menor ou igual ao DOT); razão DOT/LOT; percentual de revisão em 48 a 72 h; percentual de descalonamento; profilaxia cirúrgica no tempo certoTrês antimicrobianos por 10 dias somam 30 DOT; a monoterapia pela mesma indicação soma 10. Não existe DDD padrão em pediatria
RDC nº 471/2021 (revogou a RDC nº 20/2011)Receituário PRIVATIVO do prescritor ou do estabelecimento, SEM modelo específico, em 2 vias; retenção da 2ª via pela farmácia, com registro de data, quantidade, lote e rubrica; 90 dias para tratamento prolongado com indicação de uso contínuo; frase em caixa alta no rótulo. Validade e lista de substâncias em Instrução Normativa específicaReceita de antimicrobiano NÃO é receita de controle especial — a própria norma permite incluir outras categorias desde que não sujeitas a controle especial
Portaria nº 64, de 11/12/2018, do Ministério da Saúde (conforme o Módulo 10 da Anvisa)No Brasil, o teste de sensibilidade segue as orientações do BrCAST, versão brasileira do documento do EUCAST, de acesso livrePor isso as definições de S, I e R em vigor no laudo brasileiro são as do EUCAST de 2019, e não as antigas
PAN-BR 2026-2030Cinco objetivos estratégicos, sete objetivos principais, 14 metas, 28 intervenções e 84 atividades, com avaliação intermediária em 2028, em sinergia com o PNPCIRAS e o PNIAs duas metas numéricas: reduzir em 10% o consumo de antimicrobianos na saúde humana até 2030 e ampliar para 70% o uso de antibióticos da classe Acesso (AWaRe)

As contas do BALANCE fecham nos percentuais publicados, e não nos denominadores da randomização: 1.814 pacientes foram alocados para 7 dias e 1.794 para 14, somando os 3.608 da análise por intenção de tratar, mas 261 e 286 óbitos sobre esses denominadores dariam 14,4% e 15,9%, e não os 14,5% e 16,1% publicados — a análise de mortalidade em 90 dias tem denominador ligeiramente menor. Use os percentuais e a diferença de 1,6 ponto como estão no artigo; não os recalcule a partir dos braços randomizados.

No MERINO, a aritmética fecha: 23 de 187 são 12,3% e 7 de 191 são 3,7%, com diferença de risco de 8,6 pontos percentuais. Foram 379 pacientes na população de análise primária e 378, ou 99,7%, avaliados para o desfecho — a diferença de um paciente é real, não erro de transcrição.

No STOP-IT, 56 de 257 são 21,8% e 58 de 260 são 22,3%; a diferença absoluta de 0,5 ponto percentual está correta. Os 517 pacientes das duas colunas não somam os 518 randomizados: um paciente não entrou na análise.

No PEN-FAST, o valor preditivo negativo é o complemento direto da taxa de teste positivo na faixa de baixo risco: 17 de 460 são 3,7%, e 100 menos 3,7 são os 96,3% publicados. As duas coortes também fecham: 367 mulheres em 622 são 59,0%, e 662 em 945 são 70,1%.

No PALACE, 187 mais 190 são os 377 analisados, de 382 randomizados; 1 de 187 e 1 de 190 arredondam para os mesmos 0,5%, e a diferença de risco de 0,0084 ponto percentual é coerente com 0,535% menos 0,526%.

Duas contas que a fonte não dá prontas e que ajudam a fixar a escala do curso curto. No BALANCE, encurtar de 14 para 7 dias poupa 7 dias de terapia por paciente; nos 1.814 alocados ao braço curto, isso equivale a até 12.698 dias de antimicrobiano evitados — antes de descontar os 23,1% que foram tratados por mais tempo que o designado. No STOP-IT, a diferença de medianas foi de 4 dias por paciente, o que em 257 pacientes do braço experimental corresponde a cerca de 1.028 dias-paciente de antimicrobiano a menos.

Atenção a uma imprecisão de unidade no Módulo 10 da Anvisa: ao definir a concentração inibitória mínima, o texto escreve que ela é a menor concentração EM MG/ML capaz de inibir o crescimento visível, enquanto todos os valores de CIM citados no restante do mesmo documento — e nas tabelas do BrCAST — estão em mg/L. O erro é de fator mil. A unidade correta da CIM é mg/L, equivalente a micrograma por mililitro.

O mesmo Módulo 10 lista a sigla CESP/MYSPACE de duas formas ligeiramente diferentes em capítulos distintos: no capítulo de bases moleculares, CESP reúne Citrobacter freundii, Enterobacter, Serratia marcescens e Providencia, e MYSPACE acrescenta Morganella morganii, Yersinia, Aeromonas e Pseudomonas aeruginosa; no capítulo de testes fenotípicos, a lista traz Enterobacter, Serratia, Citrobacter freundii, Morganella morganii, Providencia e Hafnia alvei. O núcleo é estável; as bordas do acrônimo variam, e não vale decorar a variante.

A lista de patógenos prioritários reproduzida no Módulo 10 é a da OMS de 2017. Ela continua sendo a citada nos documentos brasileiros abertos aqui, mas a OMS revisou a lista depois — se o enunciado citar uma versão mais recente, siga o enunciado.

Onde a tabela importava, ela foi lida com extração otimizada para tabelas, e não com a extração linear. O Quadro 2 do Módulo 10 — fenótipos e genótipos de resistência aos glicopeptídeos — sai desalinhado na extração comum e limpo na extração tabular, e é dela que vêm as atribuições de vanA e vanB a E. faecalis e E. faecium com expressão induzível plasmidial, e de vanC1 e vanC2 a E. gallinarum e E. casseliflavus com expressão constitutiva. As concentrações de vancomicina e teicoplanina do vanA não foram reproduzidas aqui porque a extração perde os sinais de maior ou igual que acompanham esses dois valores.

A Tabela 1 da carta do BrCAST aos clínicos e o Anexo V do Caderno 4 da Anvisa não foram usados como fonte de números: nos dois, a extração de texto colapsa colunas e desalinha as linhas. As afirmações extraídas desses dois documentos vêm apenas da prosa corrida.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Primeira linha no episódio inicial de infecção por Clostridioides difficile no adulto

IDSA/SHEA, atualização focada de 2021: fidaxomicina à frente do curso padrão de vancomicina

Para o episódio inicial, a diretriz sugere usar fidaxomicina em vez de um curso padrão de vancomicina, com recomendação condicional e certeza moderada de evidência. A vancomicina oral permanece aceitável; o argumento a favor da fidaxomicina é a menor taxa de recorrência, contra um custo significativamente maior. O metronidazol não figura como comparador na recomendação do episódio inicial.

Johnson S, Lavergne V, Skinner AM, et al. IDSA/SHEA 2021 Focused Update Guidelines on Management of Clostridioides difficile Infection in Adults. Clin Infect Dis. 2021;73(5):e1029-e1044 — recomendações lidas na página de diretriz da IDSA.

Informe Técnico COVISA/SMS-SP, 2023: metronidazol oral na diarreia leve ou moderada

O informe municipal traz o tratamento por gravidade clínica: diarreia leve ou moderada com metronidazol 500 mg por via oral três vezes ao dia por 10 a 14 dias; quadro grave, com dor abdominal, diarreia intensa e insuficiência renal, com vancomicina 125 a 250 mg por via oral quatro vezes ao dia por 10 a 14 dias; e hipotensão ou choque com vancomicina 500 mg por sonda quatro vezes ao dia associada a metronidazol 500 mg por via endovenosa a cada 8 horas.

Informe Técnico NMCIH/DVE/COVISA/SEABEVS/SMS-SP, São Paulo, 24 de julho de 2023, item 2 — tratamento antimicrobiano recomendado para CDI baseado na gravidade clínica.

Na prova

O recorte do avaliador se identifica pela fonte que ele cita no enunciado e pelo cenário. Enunciado que menciona diretriz internacional, recorrência ou custo-efetividade está pedindo a régua da IDSA/SHEA, em que fidaxomicina e vancomicina oral ocupam a primeira linha. Enunciado ambientado em serviço público brasileiro, com estratificação por gravidade e sem menção a fidaxomicina, costuma seguir a referência nacional ou municipal, em que o metronidazol ainda aparece na doença leve a moderada. O que não varia entre as duas réguas, e é o que a banca cobra com mais frequência: suspender ou trocar o antimicrobiano desencadeante, não testar fezes formadas, não repetir teste em 7 dias e não usar teste de cura. Quando a alternativa correta depender de escolher entre metronidazol e vancomicina sem que o enunciado dê a fonte, a gravidade é o desempate — vancomicina oral em quadro grave é consenso nas duas.

Como se retira o rótulo de alergia à penicilina: teste cutâneo por especialista antes da provocação, ou provocação oral direta guiada por regra de decisão?

Padrão de referência: teste cutâneo por punctura e intradérmico, seguido de provocação oral

O próprio ensaio PALACE descreve o padrão de cuidado para retirar o rótulo no adulto como teste especializado, com punctura e intradérmico, seguido de provocação oral com penicilina. Os autores registram a limitação prática desse padrão: o teste cutâneo consome recursos, restringe a prática a médicos com treinamento especializado e limita a população mundial que poderia ser deslabelada.

Copaescu AM, et al. PALACE Randomized Clinical Trial. JAMA Intern Med. 2023;183(9):944-952 — seções Importance e Design.

Provocação oral direta em quem tem PEN-FAST menor que 3

Em 377 adultos com PEN-FAST menor que 3, a provocação oral direta foi não inferior ao padrão de referência: o desfecho primário ocorreu em 1 de 187 no braço de provocação direta e em 1 de 190 no braço padrão, ambos 0,5%, com o intervalo unilateral de 95% abaixo da margem de não inferioridade de 5 pontos percentuais, e sem eventos adversos graves. A regra que estratifica o risco foi derivada em 622 pacientes e validada em 945, com valor preditivo negativo de 96,3% para escore menor que 3.

Copaescu AM, et al. PALACE. JAMA Intern Med. 2023;183(9):944-952; e Trubiano JA, et al. Development and Validation of a Penicillin Allergy Clinical Decision Rule. JAMA Intern Med. 2020;180(5):745-752.

Na prova

O que separa as duas posições é o risco do paciente, e é isso que o enunciado codifica. Reação há mais de 5 anos, sem anafilaxia, sem angioedema, sem reação cutânea grave e sem necessidade de tratamento na época — o enunciado está descrevendo baixo risco, e a resposta esperada caminha para a provocação oral direta ou para a simples reavaliação do rótulo. Reação recente, anafilaxia, angioedema, síndrome de Stevens-Johnson ou necrólise epidérmica tóxica — o enunciado está descrevendo alto risco, e a resposta esperada é droga alternativa ou encaminhamento para investigação especializada, nunca provocação. Em prova brasileira, o item mais frequente não é qual teste fazer: é reconhecer que exantema tardio na infância e náusea não constituem alergia, e que o rótulo tem custo mensurável.

Piperacilina-tazobactam como estratégia poupadora de carbapenêmico na bacteremia por Enterobacterales não sensível à ceftriaxona

A lógica de stewardship que motivou a pergunta: poupar carbapenêmico sempre que possível

O princípio normativo brasileiro é usar espectro restrito sempre que possível e monoterapia sempre que possível, e a Anvisa registra que a pressão de uso de carbapenêmicos é justamente o que tem selecionado linhagens produtoras de carbapenemase, com KPC-2 endêmica no Brasil. Sob essa lógica, uma alternativa ativa in vitro e de espectro mais estreito que o carbapenêmico seria preferível.

Anvisa. Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos, revisão 2023, Anexo I (regras de ouro); e Anvisa, Módulo 10 do Manual de Microbiologia Clínica, 2020, capítulo 3.

O ensaio que testou a hipótese e não a sustentou

O MERINO incluiu 391 pacientes com bacteremia por Escherichia coli ou Klebsiella spp. não sensível à ceftriaxona e sensível à piperacilina-tazobactam, dos quais 379 entraram na população de análise primária, alocados para piperacilina-tazobactam ou meropenem. A mortalidade por qualquer causa em 30 dias foi de 12,3% (23 de 187) contra 3,7% (7 de 191), diferença de risco de 8,6 pontos percentuais, e a não inferioridade não foi demonstrada com margem de 5%. Os autores concluem que os achados não sustentam o uso da piperacilina-tazobactam nesse cenário.

Harris PNA, Tambyah PA, Lye DC, et al. MERINO Randomized Clinical Trial. JAMA. 2018;320(10):984-994.

Na prova

Não é uma divergência entre duas condutas defensáveis: é uma hipótese de stewardship que o ensaio derrubou, e a banca cobra exatamente a distinção. Reconheça o cenário pelo par de dados que o enunciado entrega: bacteremia com Enterobacterales resistente à ceftriaxona e laudo mostrando piperacilina-tazobactam sensível. Se o quadro é invasivo — bacteremia, sepse, foco não urinário —, a alternativa esperada é o carbapenêmico, e a alternativa que escolhe piperacilina-tazobactam por economia de espectro é o distrator. O poupar carbapenêmico continua valendo, mas em outro lugar do mesmo tema: na infecção urinária baixa não complicada por ESBL, em que drogas estreitas com concentração urinária adequada resolvem sem gastar carbapenêmico.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos, diabético, internado há 4 dias por pielonefrite. Entrou com febre de 39,1 °C, dor lombar à direita, disúria e frequência respiratória de 22 incursões por minuto; a equipe colheu hemoculturas e urocultura e iniciou meropenem empírico, com justificativa registrada de gravidade. No terceiro dia estava afebril havia 26 horas, alimentando-se por via oral, com dor lombar em franca melhora e creatinina em queda. No quarto dia chegam os resultados: duas hemoculturas e a urocultura com Escherichia coli, com o mesmo antibiograma — sensível a ceftriaxona, sensível a ciprofloxacina, sensível a sulfametoxazol-trimetoprima, sem produção de beta-lactamase de espectro estendido. A tomografia feita na admissão não mostrou coleção nem obstrução. O plantonista anota no prontuário: paciente evoluindo bem, manter esquema, reavaliar no décimo quarto dia.
o que o caso é
Bacteremia de origem urinária, com foco identificado, sem obstrução e sem coleção — portanto sem indicação de procedimento. Culturas colhidas ANTES da primeira dose, o que preserva o valor informativo do resultado e é o que torna possível tudo o que vem a seguir.
o gatilho que já passou
A Diretriz Nacional da Anvisa situa a revisão da prescrição em 48 a 72 horas, quando há mais informação clínica e microbiológica, e recomenda a revisão diária onde for viável. Estamos no quarto dia com informação completa na tela: a janela da revisão não é uma possibilidade, é o momento previsto.
o erro da anotação
Evoluindo bem, manter esquema inverte a lógica. Melhora clínica não é razão para manter o espectro largo — é a condição que autoriza estreitá-lo. Manter meropenem diante de uma E. coli sensível à ceftriaxona significa continuar pagando o prêmio da apólice depois que a incerteza acabou: pressão seletiva, risco de C. difficile e consumo de uma droga que o serviço precisa preservar num país onde a KPC-2 é endêmica.
o descalonamento, item por item
Reduza o espectro para a droga estreita ativa contra o agente identificado — no caso, uma cefalosporina de terceira geração conforme o antibiograma. Verifique se há componente redundante a suspender. Avalie a passagem de endovenoso para oral, que a Diretriz lista entre as intervenções guiadas pela farmácia: o paciente está afebril, alimentando-se, e há opções orais sensíveis no próprio laudo.
a duração, e por que não são 14 dias
O BALANCE randomizou 3.608 pacientes com infecção de corrente sanguínea para 7 ou 14 dias e mostrou não inferioridade do curso de 7 dias: mortalidade em 90 dias de 14,5% contra 16,1%, diferença de 1,6 ponto percentual, dentro da margem de 4 pontos. A origem urinária foi a mais frequente do ensaio, com 42,2% dos casos. Este paciente não cai em nenhum critério de exclusão: não tem S. aureus, não tem imunossupressão grave, não tem foco que exija tratamento prolongado e a hemocultura não é única com possível contaminante.
o que NÃO encerra e o que NÃO prorroga
Não se colhe hemocultura de controle para provar cura fora das situações em que ela é recomendada — e bacteremia por Gram-negativo com boa evolução não é uma delas. Não se prolonga por proteína C-reativa ainda elevada nem por leucograma. E não se troca a droga por causa de febre baixa isolada em paciente que melhora.
o registro que fecha a decisão
A Diretriz pede que o prescritor registre esquema em progresso com nome, dose, via, posologia, dias decorridos e duração provável; diagnóstico atualizado; resultados laboratoriais; avaliação da redução de espectro conforme os achados microbiológicos; e possibilidade de via oral. Aqui isso vira uma linha: descalonado para cefalosporina de terceira geração no quarto dia, por E. coli sensível em hemocultura e urocultura, com previsão de término no sétimo dia de terapia efetiva.
o que a banca pontuaria
Reconhecer que a informação para descalonar já existe; escolher a droga estreita ativa em vez de manter o carbapenêmico; considerar a via oral; e fixar a duração em 7 dias com justificativa, em vez de 14 por hábito. O distrator mais escolhido é manter o meropenem porque o paciente está melhorando — e ele é errado exatamente pela razão que parece torná-lo certo.
07

Agora feche você

Mulher de 74 anos, com prótese de quadril à esquerda implantada há 6 anos, internada para colecistectomia videolaparoscópica eletiva. Na ficha de admissão consta alergia à penicilina — a paciente relata que, quando tinha cerca de 20 anos, apresentou manchas vermelhas pelo corpo alguns dias depois de tomar amoxicilina, sem inchaço de face, sem falta de ar, sem bolhas, sem acometimento de mucosa, e que na época não precisou de nenhum tratamento nem procurou serviço de saúde. Nunca mais usou penicilina. A equipe cirúrgica prescreveu vancomicina como profilaxia e programou mantê-la por 48 horas de pós-operatório, porque a paciente tem prótese ortopédica e será deixado um dreno subhepático. A cirurgia está marcada para as 8 horas; a enfermagem pergunta a que horas iniciar a infusão.
classifique o risco do rótulo
Aplique o PEN-FAST item a item, com a pontuação exata: evento há 5 anos ou menos vale 2 pontos; anafilaxia ou angioedema, OU reação cutânea adversa grave, vale 2 pontos; necessidade de tratamento para o episódio vale 1 ponto. Some o que a história desta paciente marca e compare com o corte de menos de 3 pontos.
decida o que fazer com o rótulo
Se o escore cair na faixa de baixo risco, releia o que o PALACE e a derivação do PEN-FAST autorizam — e o que eles NÃO autorizam fazer na manhã da cirurgia, com a paciente já internada e o horário marcado.
escolha o antimicrobiano da profilaxia
Pergunte se o rótulo de alergia é o único motivo pelo qual a vancomicina foi escolhida, e o que a literatura mede como consequência de trocar beta-lactâmico por alternativa: revise as razões de risco de MRSA e de C. difficile e as razões de taxa de uso de macrolídeo, clindamicina e fluoroquinolona na coorte de 301.399 adultos.
acerte o relógio
Responda à pergunta da enfermagem com a regra do Caderno 4 da Anvisa, e note que a droga prescrita é justamente uma das duas exceções ao intervalo geral. Diga o horário.
resolva a prótese
Decida se a prótese de quadril implantada há 6 anos, sem sinal de infecção, muda a profilaxia de uma colecistectomia eletiva — e diga qual capítulo desta coleção contém a régua de indicação por classe de ferida e por sítio.
resolva o dreno
Confronte a programação de manter a profilaxia por 48 horas com o teto normativo, e com a lista do que não prorroga profilaxia. Diga o que fazer com o antimicrobiano no momento do fechamento da incisão.
escreva a prescrição
Componha a linha final: droga, momento da primeira dose, se há repique, e quando termina. Justifique cada campo com a norma ou o estudo correspondente.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler o I do antibiograma como quase resistente e escalonar de classe Desde a reforma do EUCAST adotada pelo BrCAST, o I significa sensível AUMENTANDO A EXPOSIÇÃO: alta probabilidade de sucesso quando se ajusta o regime de dosagem ou se aumenta a concentração no local da infecção. Existem dois níveis de sensibilidade, S e I, e um só de resistência. O termo não sensível passou a abranger apenas o R. A conduta diante de um I é dose maior ou infusão prolongada, não troca para uma classe de espectro mais largo. O distrator explora a memória antiga da sigla — e há combinações que nunca saem como S, como Pseudomonas aeruginosa com ciprofloxacina, que é I mesmo sem qualquer mecanismo de resistência.
  2. 2Manter o espectro largo porque o paciente está melhorando É o raciocínio invertido mais comum do tema. Melhora clínica com informação microbiológica disponível é exatamente a condição que autoriza descalonar. A Diretriz Nacional da Anvisa situa a revisão da prescrição em 48 a 72 horas, recomenda a revisão diária onde for viável, e transforma tanto o percentual de revisão quanto o percentual de descalonamento em indicadores de processo do programa. Manter meropenem diante de uma bactéria sensível à ceftriaxona é desperdiçar a informação que se pagou para obter.
  3. 3Trocar o antimicrobiano do paciente que não melhorou, sem reabrir o diagnóstico Paciente que não melhora em 48 a 72 horas COM agente sensível à droga em uso quase nunca tem problema de droga. Tem foco não controlado — coleção, obstrução, tecido morto, dispositivo mantido —, dose ou penetração insuficientes no sítio, diagnóstico errado ou complicação nova. O que resolve é imagem, drenagem ou anamnese refeita. Alargar espectro nessa situação é substituir raciocínio por cobertura, e é o erro que a prova pune com mais frequência.
  4. 4Tratar cultura positiva de sítio não estéril em paciente sem sintoma Urocultura sem sintoma urinário, ponta de cateter sem sinal sistêmico, secreção de traqueostomia sem novo infiltrado, swab de úlcera crônica sem sinal de infecção de partes moles: em todos, o crescimento é colonização. A lista de exceções que se tratam mesmo assim é curta e está no capítulo de Infecção do trato urinário. O erro nasce antes, na decisão de colher — por isso a Diretriz da Anvisa atribui à enfermagem o papel de informar se o paciente tem ou não sintomas que justifiquem uma cultura de urina.
  5. 5Chamar de profilaxia o que já é tratamento, e prorrogar por dreno O Caderno 4 da Anvisa é explícito nas duas pontas: se uma infecção for identificada durante a cirurgia, o antimicrobiano passa a ter cunho terapêutico e dura o que a infecção exigir; e a profilaxia antibiótica não deve ser estendida por mais de 24 horas. Dreno mantido, sonda vesical, acesso central, tala e febre isolada no primeiro dia não prorrogam nada. Ler as 24 horas como meta em vez de teto é o outro lado do mesmo erro.
  6. 6Contar o repique intraoperatório a partir da incisão A regra é repetir após um intervalo igual a duas vezes a meia-vida do antimicrobiano, contado a partir da INFUSÃO DA PRIMEIRA DOSE. Como a primeira dose entra antes da incisão, contar da incisão atrasa o repique. O mesmo item costuma trazer, junto, as duas exceções de relógio — vancomicina e ciprofloxacina, com infusão iniciada de 1 a 2 horas antes — e a regra do torniquete, em que a dose total tem de estar administrada antes de insuflar.
  7. 7Aceitar o rótulo de alergia à penicilina sem perguntar o que aconteceu Menos de 5% dos rotulados são de fato alérgicos. Exantema tardio na infância, náusea e diarreia não são alergia mediada por IgE. O rótulo empurra o paciente para macrolídeo, clindamicina e fluoroquinolona, com razões de taxa de uso de 4,15, 3,89 e 2,10 respectivamente, e com aumento medido de MRSA e de C. difficile. Registre o que aconteceu, quando, e se precisou de tratamento — isso é o PEN-FAST, e vale mais que a palavra alergia no cabeçalho do prontuário.
  8. 8Tratar S. aureus sensível à oxacilina com vancomicina O erro espelha o de MRSA e é menos lembrado. Diante de MSSA, o beta-lactâmico — oxacilina ou cefazolina — é o tratamento, e manter vancomicina depois do antibiograma é falha de descalonamento com desfecho pior. Do outro lado, estafilococo resistente à oxacilina ou à cefoxitina deve ser considerado resistente a TODOS os beta-lactâmicos, com exceção do ceftobiprol e da ceftarolina: não existe carbapenêmico que resolva MRSA.
  9. 9Testar Clostridioides difficile em fezes formadas, ou repetir o teste para provar cura Não se solicita o exame em paciente sem diarreia, em quem foi testado nos 7 dias anteriores, nem em criança abaixo de 1 ano. Em paciente sem diarreia, positivo significa colonização — e colonização não se trata. Não existe teste de cura: o resultado permanece positivo depois da resolução clínica. E a primeira medida terapêutica não é a droga anti-C. difficile: é suspender ou trocar o antimicrobiano que desencadeou o quadro.
  10. 10Chamar a receita de antimicrobiano de receita de controle especial A RDC nº 471/2021, que revogou a RDC nº 20/2011 mantendo o conteúdo, determina receituário PRIVATIVO do prescritor ou do estabelecimento, SEM modelo específico, em duas vias, com retenção da segunda pela farmácia. A própria norma permite que a receita contenha outras categorias de medicamentos desde que não sujeitas a controle especial — frase que só faz sentido porque ela mesma não é uma delas. O item de legislação costuma trocar exatamente esses dois regimes.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A informação microbiológica chegou dentro da janela de revisão que a Diretriz Nacional da Anvisa situa em 48 a 72 horas, e ela autoriza as três reduções de espectro: droga estreita ativa, retirada de redundância e passagem de endovenoso para oral. A duração vem do BALANCE, que randomizou 3.608 pacientes com infecção de corrente sanguínea em 74 hospitais de sete países para 7 ou 14 dias e mostrou não inferioridade do curso curto — mortalidade em 90 dias de 14,5% contra 16,1%, diferença de 1,6 ponto percentual, com margem de 4 pontos. Este paciente não cai em nenhum critério de exclusão do ensaio: não é S. aureus, não há imunossupressão grave, não há foco que exija tratamento prolongado e não se trata de hemocultura única com possível contaminante. A alternativa que mantém o meropenem por 14 dias inverte a lógica do descalonamento: melhora clínica com laudo disponível é a condição que AUTORIZA estreitar, não a razão para manter o largo — e manter carbapenêmico contra E. coli sensível a ceftriaxona é pressão seletiva sem contrapartida, num país onde a KPC-2 é endêmica. Associar aminoglicosídeo alarga em vez de estreitar e não tem indicação em bacteremia por Gram-negativo sensível com foco identificado, contrariando a regra de monoterapia sempre que possível. Colher hemoculturas de controle diárias até a negativação não é conduta recomendada na bacteremia por Gram-negativo com boa evolução e transformaria um exame em critério de duração, o que a evidência não sustenta. Suspender no quarto dia interrompe um curso que tem alvo de 7 dias: ausência de febre não é sinônimo de tratamento completo.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: (1) as quatro perguntas antes de prescrever, na ordem, e o que cada uma decide; (2) as três definições vigentes de S, I e R, com a palavra exposição no lugar certo; (3) o que a ESBL NÃO hidrolisa e o que a AmpC hiperexpressa geralmente poupa; (4) a única diferença de substrato entre KPC e metalo-beta-lactamase; (5) a linha do tempo da profilaxia cirúrgica com os três marcos, o teto e as duas exceções de relógio; (6) os quatro itens do PEN-FAST com a pontuação de cada um e o corte; (7) as três regras negativas do teste de C. difficile; (8) as três ações prioritárias do PGA segundo a Anvisa. Depois confira: quantas dessas oito você respondeu sem hesitar?

em 30 dias

Refaça o capítulo em voz alta, em cinco blocos. Primeiro, percorra as quatro perguntas aplicando-as a um caso inventado por você — um paciente com febre e urocultura positiva — e diga em que pergunta a prescrição morre. Segundo, explique a alguém por que espectro largo não é espectro forte, e liste as cinco moedas em que se paga o prêmio da apólice. Terceiro, descreva a revisão das 48 a 72 horas item por item, incluindo os cinco campos que o prescritor deve registrar no prontuário, e depois percorra os quatro cruzamentos possíveis entre laudo e paciente, dizendo a conduta de cada um — em especial o terceiro, o do paciente que não melhorou com agente sensível. Quarto, desenhe de memória a grade de quem hidrolisa o quê, com as quatro enzimas e os quatro substratos, e aponte os dois buracos: a cefepima na coluna da AmpC e o aztreonam na linha da metalo. Quinto, recite a moldura normativa brasileira em quatro nomes — Lei nº 9.431/1997 para a CCIH, Diretriz Nacional do PGA de 2023 para o programa, RDC nº 471/2021 para a receita e PAN-BR 2026-2030 para as metas — e diga as duas metas numéricas do plano. Fecha o exercício repetindo os cinco erros que a prova pune, sem olhar.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você recebe, na visita da manhã, um homem de 68 anos internado há quatro dias com pielonefrite, em uso de meropenem empírico iniciado na admissão. Está afebril desde ontem, aceitando dieta, com dor lombar em melhora. As duas hemoculturas e a urocultura, colhidas antes da primeira dose, acabaram de voltar: Escherichia coli sensível à ceftriaxona, à ciprofloxacina e ao sulfametoxazol-trimetoprima, sem ESBL. O plantonista da noite anotou para manter o esquema até o décimo quarto dia. A família pergunta se ele vai ficar mais dez dias no hospital. Conduza a visita: reavalie, decida o que fazer com o antimicrobiano, fixe a duração e explique à família — sem prometer o que a norma não sustenta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Antibioticoterapia racional e resistência antimicrobiana — Preparatório para provas | OsceLabs