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Clínica MédicaInfectologia

Doença de Chagas e leishmanioses

Três negligenciadas que a prova cobra por via de transmissão, fase e esquema padronizado no SUS

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 40 anos, morador de área rural do Nordeste, apresenta febre irregular há 2 meses, emagrecimento importante, palidez e aumento progressivo do volume abdominal. Ao exame: PA 100x64 mmHg, FC 96 bpm, hepatoesplenomegalia volumosa (baço a 8 cm do rebordo costal), palidez intensa. Exames: hemoglobina 7 g/dL, leucócitos 2.200/mm³, plaquetas 80.000/mm³ e hipergamaglobulinemia. Qual é a hipótese diagnóstica principal?

02

Como esse tema cai

Três doenças, um mesmo eixo de cobrança. A prova de residência não pergunta o ciclo do parasito: pergunta por onde ele entrou, em que fase o paciente chegou e qual esquema o SUS padroniza para aquela combinação. Quem sabe responder essas três coisas resolve praticamente toda vinheta de doença de Chagas, leishmaniose tegumentar e leishmaniose visceral — inclusive as que parecem clínicas e são, no fundo, de vigilância.

O que organiza a doença de Chagas é o par fase-exame. Na fase aguda o parasito está no sangue e o diagnóstico é parasitológico direto; na crônica ele sumiu da circulação e o diagnóstico é sorológico, com duas técnicas de princípios distintos. Trocar as janelas é o erro que a banca mais explora. Nas leishmanioses, o que organiza é a forma clínica: ela define o fármaco, a dose, a duração e o lugar onde o tratamento acontece. E há uma armadilha aritmética própria — o antimonial se prescreve em miligramas de antimônio pentavalente por quilo por dia, não em mililitros de ampola nem em miligramas do sal.

Este capítulo é a doença negligenciada como ela cai na prova. O manejo da insuficiência cardíaca por miocardiopatia dilatada — inibidor da enzima conversora, betabloqueador, antagonista mineralocorticoide, titulação — está em Insuficiência cardíaca com FE reduzida, em Cardiologia; aqui entra apenas o que é próprio do coração chagásico, que é a cautela com o betabloqueador diante de bradiarritmia e a régua de quando o tratamento etiológico ainda faz sentido. O manejo do megacólon e do megaesôfago repete o dos casos não chagásicos — dieta, laxativos, dilatação, toxina botulínica, cirurgia — e aqui entra apenas o que muda por causa do parasito: os dois fármacos que relaxam o esfíncter esofágico inferior e a contraindicação que a forma cardiodigestiva cria contra um deles. O capítulo de Doença do refluxo gastroesofágico, em Gastroenterologia, guarda a peça vizinha que a prova cobra junto — a manometria esofágica de alta resolução obrigatória antes de qualquer procedimento antirrefluxo, exatamente para excluir acalasia. A infecção pelo HIV está em HIV/aids, e a lógica geral da Lista Nacional de Notificação Compulsória está em Vigilância das arboviroses e notificação compulsória — deste capítulo saem apenas as quatro linhas que dizem respeito a estas três doenças.

03

O que muda decisão

Três doenças, uma pergunta: por onde o parasito entrou

A via de transmissão é o primeiro dado da vinheta e, muitas vezes, o único que a banca precisa dar. Na doença de Chagas ela define o período de incubação, a gravidade e até a probabilidade de haver porta de entrada visível. Na leishmaniose tegumentar e na visceral ela é sempre a mesma — picada de fêmea de flebotomíneo infectada, sem transmissão de pessoa a pessoa —, e o que varia é o desfecho tecidual.

O Guia de Vigilância em Saúde lista, para o Trypanosoma cruzi, seis vias: vetorial, vertical, oral, transfusional, por transplante de órgãos ou tecidos e por acidente laboratorial, mais as formas acidentais como a ingestão do próprio triatomíneo. Os períodos de incubação separam-se com nitidez: 4 a 15 dias na vetorial, 3 a 22 dias na oral, 30 a 40 dias ou mais na transfusional e até 20 dias após a exposição no acidente laboratorial. Nas demais vias, o Guia registra que não há período definido.

A leitura epidemiológica brasileira mudou de eixo. O controle vetorial das décadas seguintes a 1970 e a triagem nos serviços de hemoterapia derrubaram as duas vias clássicas; o que sobrou em primeiro plano é a transmissão oral, por alimento contaminado — caldo de cana, açaí, bacaba —, em surtos localizados no espaço e no tempo, e a transmissão vertical, que o Guia descreve como proporcionalmente mais relevante e ainda pouco reconhecida no País. Persiste também transmissão vetorial domiciliar sem colonização e extradomiciliar, principalmente na Amazônia Legal.

A magnitude não acompanhou a queda da transmissão. O Guia registra estimativas de prevalência da infecção entre 1,0% e 2,4% da população, o equivalente a 1,9 a 4,6 milhões de pessoas infectadas por T. cruzi, e coloca a doença entre as quatro maiores causas de morte por doenças infecciosas e parasitárias no Brasil nos últimos anos. Esse é o pano de fundo de duas frases que a prova adora: a doença de Chagas de hoje é sobretudo crônica, e quem a diagnostica é a atenção primária, não o pronto-socorro.

Chagas aguda: a vinheta do surto é oral

A vinheta clássica não tem barbeiro. Tem várias pessoas da mesma casa, da mesma escola ou do mesmo comércio febris ao mesmo tempo, dias depois de terem consumido a mesma bebida ou o mesmo fruto. O Guia descreve exatamente esse desenho: infecção em espaço geográfico definido, em tempo restrito, por ingestão de fonte comum. É a via que mais produz surtos, e é ela que transforma um caso clínico em evento de vigilância sanitária.

O que a transmissão oral muda no quadro é relevante e cobrado. Os surtos estudados mostram exantema cutâneo, hemorragia digestiva — hematêmese, hematoquezia ou melena —, icterícia, aumento das aminotransferases e quadros mais frequentes e mais graves de insuficiência cardíaca. Enterite, abdome agudo, sangramento fecal, choque e hepatite focal podem ocorrer. O Guia é explícito: a morbimortalidade é mais elevada na transmissão oral do que a observada nos casos agudos por transmissão vetorial. Uma alternativa que trate a via oral como forma branda está errada por esse parágrafo.

A febre é o sinal-âncora. Ela é constante, inicialmente elevada, entre 38,5 °C e 39 °C, com picos vespertinos ocasionais, e a síndrome febril pode persistir por até 12 semanas. Mesmo sem tratamento e sem diagnóstico, a febre desaparece espontaneamente e o paciente entra na fase crônica — o que explica por que tanta gente com doença de Chagas crônica nunca teve fase aguda reconhecida.

Ao lado da síndrome inespecífica — prostração, diarreia, vômitos, inapetência, cefaleia, mialgia, adenomegalia, exantema fugaz —, existe uma síndrome específica, e é ela que dá gravidade: miocardite difusa de graus variados, pericardite com derrame e até tamponamento, insuficiência cardíaca, derrame pleural, edema de face ou de membros, hepatoesplenomegalia leve a moderada. Meningoencefalite aparece nos quadros graves, sobretudo em lactentes e na reativação por imunodepressão.

Romaña e chagoma: a porta de entrada que quase nunca está lá

O sinal de Romaña é edema bipalpebral unilateral por reação inflamatória à penetração do parasito na conjuntiva e adjacências. O chagoma de inoculação é a lesão furunculoide, não supurativa, em membros, tronco ou face, que se torna descamativa após duas ou três semanas. Os dois são sinais de porta de entrada característicos da transmissão vetorial — e o Guia acrescenta a frase que a prova usa como pegadinha: são menos frequentes.

Duas consequências práticas. A primeira: a ausência de Romaña ou de chagoma não afasta doença de Chagas aguda, e num surto oral não se deve esperar por eles. A segunda: a presença de reação inflamatória no local da picada não prova infecção — a picada do triatomíneo pode causar reação alérgica local ou sistêmica sem que haja infecção por T. cruzi.

Onde esses sinais valem muito é na definição de caso suspeito. Um indivíduo que apresente sinal de Romaña ou chagoma de inoculação e tenha tido contato direto com triatomíneo ou suas excretas já é caso suspeito de doença de Chagas aguda pela definição do Guia, independentemente de febre. Também são casos suspeitos o recém-nascido de mãe infectada em qualquer fase, quem teve acidente laboratorial com culturas do parasito ou fezes de triatomíneos, e quem apresenta febre persistente por mais de sete dias com pelo menos uma das manifestações listadas — edema de face ou de membros, exantema, adenomegalia, hepatomegalia, esplenomegalia, cardiopatia aguda, manifestações hemorrágicas, icterícia — associada a um vínculo epidemiológico.

Os vínculos epidemiológicos têm prazos próprios, e a prova gosta deles: contato direto com triatomíneo ou suas excretas; recebimento de sangue, hemocomponentes ou transplante de tecidos ou órgãos contaminados em até 120 dias antes do início dos sintomas; ingestão de alimento suspeito, especialmente frutos como açaí, bacaba e cana-de-açúcar, ou de carne crua ou malcozida de caça. Assintomáticos também entram: quem ingeriu alimento suspeito em surto recente, e quem teve contato com o vetor nos quatro meses anteriores ao início da investigação.

Fase aguda: o exame é parasitológico direto — e por que a sorologia não fecha

Na fase aguda o parasito está no sangue periférico, e é lá que se vai procurá-lo. O exame parasitológico direto é o indicado, e o Guia detalha três caminhos. A pesquisa a fresco de tripanossomatídeos é rápida, simples e mais sensível que o esfregaço corado; a situação ideal é a coleta com o paciente febril e dentro de 30 dias do início dos sintomas. Os métodos de concentração — Strout, micro-hematócrito e creme leucocitário — são de execução rápida e baixo custo e ficam como primeira escolha para sintomáticos com mais de 30 dias de evolução, justamente porque a parasitemia declina com o tempo; as amostras devem ser examinadas em até 24 horas, pela possibilidade de lise dos parasitos. A lâmina corada de gota espessa ou de esfregaço tem menor sensibilidade e é usada prioritariamente na Amazônia Legal, pela conveniência de rodar junto com o diagnóstico de malária.

A recomendação operacional é fazer exames parasitológicos diferentes ao mesmo tempo, e repetir. Se o exame a fresco e o de concentração forem negativos na primeira coleta, novas coletas devem ser feitas até a confirmação do caso, até o desaparecimento dos sintomas da fase aguda ou até a confirmação de outra hipótese. Em assintomáticos, a coleta começa uma semana após a exposição ao parasito.

A sorologia não é o método indicado na fase aguda porque ela chega atrasada em relação à parasitemia: os anticorpos ainda estão subindo quando o parasito já é visível ao microscópio. Ela é complementar — pode ser usada quando os parasitológicos forem negativos e a suspeita clínica persistir — e deve sempre ser colhida em casos suspeitos ou confirmados e enviada ao Laboratório Central de Saúde Pública. Duas técnicas sorológicas confirmam caso agudo. A detecção de IgG exige duas coletas com intervalo mínimo de 15 dias, preferencialmente pareadas, para demonstrar soroconversão por qualquer método — ensaio imunoenzimático, imunofluorescência indireta ou hemaglutinação indireta — ou variação de pelo menos duas diluições pela imunofluorescência: de 1:80 para 1:320, por exemplo. A detecção de IgM é técnica complexa, dá falso-positivo em várias doenças febris, exige clínica compatível e história epidemiológica sugestiva, e recomenda-se fazê-la por imunofluorescência no Laboratório de Referência Nacional ou em Laboratório Central habilitado por ele; é mais adequada na fase aguda tardia, quando as repetições da pesquisa direta vieram negativas, e depende de intervalo igual ou superior a 15 dias entre o início dos sintomas e a coleta.

Os pontos de corte para considerar reagente estão na nota do fluxograma do Guia e são diferentes por classe: título maior ou igual a 1:40 para IgM e maior ou igual a 1:80 para IgG. A reação de fixação de complemento, a antiga reação de Machado-Guerreiro, não é mais usada pelos laboratórios da rede do SUS e não é recomendada para confirmação. E a reação em cadeia da polimerase, apesar de disponível em centros de pesquisa e no Laboratório de Referência Nacional, não é método isolado de confirmação ou de descarte — ela tem papel na avaliação da efetividade do tratamento, na identificação de casos crônicos sob risco de reativação e no diagnóstico da transmissão materno-fetal.

Há um atalho que a prova concede em situação de surto. O critério clínico-epidemiológico confirma o caso quando três condições estão presentes ao mesmo tempo: vínculo epidemiológico com casos confirmados por critério laboratorial durante surto por transmissão oral, ou contato direto com triatomíneo infectado ou suas fezes; clínica compatível, principalmente febre; e pelo menos uma sorologia IgG reagente, mesmo sem soroconversão ou aumento de diluição. O Guia reserva esse critério para subsidiar tratamento empírico em pacientes hospitalizados, insiste na realização dos exames sorológicos e recomenda suspender o tratamento específico se eles resultarem continuamente negativos.

Transmissão vertical: o recém-nascido tem duas janelas

A transmissão vertical ocorre principalmente por via transplacentária, em qualquer fase da doença materna, durante a gestação ou no momento do parto. Há possibilidade de transmissão pelo leite na fase aguda; em nutrizes na fase crônica, o Guia atribui a transmissão durante a amamentação ao sangramento por fissura mamária, e não propriamente ao leite. A consequência de saúde pública é grande: a infecção congênita mantém a transmissão indefinidamente, mesmo em áreas ou países sem transmissão vetorial.

O rastreio começa no pré-natal. A gestante com suspeita faz dois testes sorológicos anti-T. cruzi por métodos distintos na primeira consulta; confirmada a infecção, vai para pré-natal de alto risco com avaliação clínica e eletrocardiograma, e o recém-nascido é investigado. Descartada, segue pré-natal de rotina — e o Guia acrescenta um passo que costuma passar batido: realizar sorologia anti-T. cruzi nos demais filhos, se houver. Em cenários sem rede laboratorial adequada, com difícil acesso aos serviços, ou em gestante com suspeita durante o pré-natal ou em trabalho de parto, o teste rápido pode ser usado como triagem — negativo descarta, positivo obriga os exames sorológicos.

As duas janelas do bebê são o ponto da questão. A primeira é parasitológica: o exame parasitológico do recém-nascido de mãe sororreagente deve ser feito prioritariamente nos dez primeiros dias de vida; quando a mãe tem doença aguda ou coinfecção com HIV, recomenda-se pesquisa exaustiva do parasito até os 2 meses de vida, com parasitológicos diretos, xenodiagnóstico artificial e hemocultura. A segunda é sorológica: recém-nascido com parasitológico negativo e sem sintomatologia compatível é acompanhado e retorna aos 9 meses para dois testes sorológicos IgG. Antes desse prazo o resultado sofre interferência dos anticorpos maternos — é exatamente por isso que uma alternativa oferecendo sorologia no primeiro mês está errada.

Para vigilância, a criança com transmissão vertical identificada até os 3 anos de idade é notificada como caso agudo; depois dessa idade, como crônico. Todo recém-nascido de mãe infectada é notificado como suspeito de transmissão vertical. O encerramento automático no Sinan ocorre em 60 dias, de modo que a criança que precisará da sorologia aos 9 meses deve ser notificada de novo no sistema depois dos exames, para inserção dos resultados e confirmação ou descarte.

Chagas crônica: as três formas e o que define cada uma

Na fase crônica a parasitemia é baixa e intermitente, e o diagnóstico deixa de ser microscópico. A confirmação laboratorial exige positividade em dois testes sorológicos IgG de princípios distintos ou com preparações antigênicas diferentes — as técnicas disponíveis são ensaio imunoenzimático, imunofluorescência indireta, hemaglutinação e quimioluminescência. Um teste reagente e outro não reagente manda repetir os dois; se a discordância persistir, faz-se um terceiro teste de princípio distinto em nova amostra. Dois não reagentes descartam. Os métodos parasitológicos indiretos — xenodiagnóstico artificial e hemocultura — ficam para situações específicas, como resultados sorológicos inconclusivos ou verificação de efeito terapêutico.

A forma indeterminada é definida por ausências, e a definição é operacional: paciente assintomático, sem sinais de comprometimento do aparelho circulatório — clínica, eletrocardiograma e radiografia de tórax normais — e sem comprometimento do aparelho digestivo, com avaliação clínica e radiológica normais de esôfago e cólon. Ela pode durar a vida toda ou evoluir tardiamente para a forma cardíaca, digestiva ou associada. Repare que o rótulo exige exames, não apenas a falta de queixa: quem nunca fez eletrocardiograma nem radiografia de tórax não tem forma indeterminada, tem sorologia positiva sem estadiamento.

A forma cardíaca é a que mata. O Guia registra que ela ocorre em cerca de 30% dos casos crônicos e responde pela maior frequência de óbitos na doença crônica; frequentemente evolui para miocardiopatia dilatada e insuficiência cardíaca congestiva. O Protocolo Clínico acrescenta o retrato do risco: mais de 50% dos infectados por T. cruzi apresentarão alterações eletrocardiográficas, e a principal causa de óbito nos casos com cardiopatia é a morte súbita, que chega a 55 a 65%. O curso é lento — são necessários em torno de 20 anos de infecção até os primeiros sintomas de insuficiência cardíaca.

A forma digestiva ocorre em cerca de 10% dos casos e evolui para megacólon e megaesôfago, por destruição das células nervosas, incoordenação motora e visceromegalia. A forma associada, ou cardiodigestiva, reúne as duas. O rastreio inicial de quem tem sorologia positiva é barato e está no Guia: eletrocardiograma e radiografia de tórax para todos, com eletrocardiograma convencional anual em quem está na forma indeterminada; ecocardiograma e, se possível, Holter quando o eletrocardiograma vier alterado; enema opaco e radiografia contrastada do esôfago quando houver suspeita de megacólon ou megaesôfago.

O diagnóstico diferencial da forma digestiva merece atenção específica e cai em prova de gastroenterologia: acalasia primária idiopática, amiloidose, sarcoidose, neurofibromatose, gastrenterite eosinofílica, coinfecção por Helicobacter pylori, refluxo e tumores. Na constipação, entram malignidade, distúrbios metabólicos, amiloidose e esclerose sistêmica. O manejo do megaesôfago e do megacólon é o mesmo dos casos não chagásicos — dieta, medidas comportamentais, laxativos, dilatação, toxina botulínica, cirurgia — com dois fármacos que a doença de Chagas acrescenta para relaxar o esfíncter esofágico inferior: nifedipina 10 mg 30 minutos antes de cada refeição e dinitrato de isossorbida 5 mg 15 minutos antes de cada refeição, por via sublingual. A nifedipina não deve ser usada em cardiopatia grave, pelo risco de hipotensão e retenção hidrossalina — a contraindicação que a forma cardiodigestiva cria contra si mesma.

O eletrocardiograma que a prova mostra

A assinatura eletrocardiográfica da cardiopatia chagásica é o bloqueio completo de ramo direito, isolado ou associado ao bloqueio divisional anterossuperior. É esse par que a banca desenha ou descreve, e é ele que o Protocolo Clínico coloca num degrau próprio do fluxograma de triagem do eletrocardiograma alterado, adaptado do II Consenso Brasileiro em Doença de Chagas.

O fluxograma separa quatro faixas. A primeira reúne alterações inespecíficas isoladas — bradicardia sinusal com frequência acima de 40 bpm, baixa voltagem, bloqueio incompleto de ramo direito, bloqueio divisional anterossuperior isolado, bloqueio atrioventricular de primeiro grau e alterações inespecíficas de ST-T — e leva a avaliação individualizada, considerando clínica, idade e demanda da atividade laboral, com reavaliação periódica. A segunda é a do bloqueio completo de ramo direito, isolado ou com bloqueio divisional anterossuperior, junto de extrassístole ventricular isolada monomórfica, bloqueio atrioventricular de segundo grau, alterações primárias de onda T e frequência abaixo de 40 bpm. A terceira reúne extrassístole polimórfica ou repetitiva, área eletricamente inativa e disfunção do nó sinusal. A quarta reúne taquicardia ventricular não sustentada, fibrilação atrial, bloqueio atrioventricular total e bloqueio de ramo esquerdo.

Da segunda faixa em diante, o caminho é o mesmo e é a resposta esperada: avaliar a fração de ejeção pelo ecocardiograma e pesquisar arritmia pelo Holter ou pelo teste de esforço. O resultado estadia o paciente. Sem insuficiência cardíaca: A, ecocardiograma normal; B1, ecocardiograma alterado com fração de ejeção maior ou igual a 45%; B2, ecocardiograma alterado com fração de ejeção menor que 45%. Com insuficiência cardíaca: C, ecocardiograma alterado com insuficiência cardíaca compensável; D, ecocardiograma alterado com insuficiência cardíaca refratária. Sem arritmia, reavaliação; com arritmia, tratamento e reavaliação periódica.

O que a doença de Chagas acrescenta ao tratamento da insuficiência cardíaca é sobretudo uma cautela. O Protocolo registra que a eficácia dos inibidores da enzima conversora, dos bloqueadores do receptor de angiotensina e dos antagonistas mineralocorticoides não foi testada de forma controlada em número expressivo de pessoas com cardiopatia chagásica, e que o uso desses fármacos vem de extrapolação dos estudos em populações com insuficiência cardíaca hipertensiva e isquêmica. O betabloqueador exige cautela: acrescenta grande benefício nos casos com taquiarritmia e ectopia ventricular, mas pode acentuar bradicardia ou bloqueios do sistema de condução, muito comuns nessa etiologia — por isso a dose máxima tolerada é muitas vezes inferior à dos estudos em outras cardiopatias.

Na arritmia, a amiodarona é o antiarrítmico mais usado, e o Protocolo gradua a indicação em quatro linhas. Parada cardíaca prévia ou taquicardia ventricular sustentada, com ou sem cardiodesfibrilador implantável: utilizar de rotina, 300 mg em bólus com 150 mg de dose suplementar. Taquicardia ventricular não sustentada com alto risco de morte súbita — disfunção sistólica do ventrículo esquerdo, escore de Rassi elevado ou áreas extensas de fibrose: considerar o uso, 200 a 400 mg ao dia. Taquicardia ventricular não sustentada com baixo risco e extrassístoles ventriculares não complexas: não utilizar. O escore de Rassi combina seis fatores — sexo masculino, classe funcional III ou IV, cardiomegalia à radiografia de tórax, disfunção sistólica segmentar ou global ao ecocardiograma, taquicardia ventricular não sustentada ao Holter e QRS de baixa voltagem no eletrocardiograma de 12 derivações — e o Protocolo registra, para o alto risco, mortalidade estimada de 84 a 85% em dez anos. Quem tem taquicardia ventricular sustentada ou não sustentada com alto risco vai para serviço especializado, para avaliar cardiodesfibrilador ou ablação; os demais seguem na atenção primária. Anticoagulação oral deve ser considerada nos de maior risco embólico: disfunção sistólica do ventrículo esquerdo, aneurisma apical, alteração primária da repolarização ventricular no eletrocardiograma e idade avançada.

Benznidazol: quem trata, por quanto tempo, e o que ele não desfaz

O benznidazol é o fármaco de primeira escolha e integra o Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica. O nifurtimox é alternativa para intolerância ou falha, e o Protocolo justifica a preferência: maior experiência de uso no Brasil, maior disponibilidade, existência de apresentação pediátrica e melhor perfil de eventos adversos. Os dois são efetivos em reduzir a duração e a gravidade clínica da doença.

A indicação segue uma tabela curta que vale decorar. Fase aguda, todas as faixas etárias: benznidazol em primeira linha, nifurtimox em segunda — e o tratamento deve ser imediato. Reativação: tratar. Crônica indeterminada ou digestiva em crianças e adolescentes: benznidazol em primeira linha, nifurtimox em segunda. Crônica indeterminada ou digestiva em adultos com menos de 50 anos: benznidazol em primeira linha, sem nifurtimox — as vantagens parecem superar as desvantagens e a evidência de prevenção de doença cardíaca é maior. Crônica indeterminada ou digestiva em adultos com 50 anos ou mais: não tratar de rotina, com decisão compartilhada quando não houver contraindicação. Cardiopatia chagásica em fase inicial — alterações no eletrocardiograma, fração de ejeção acima de 40%, ausência de insuficiência cardíaca e ausência de arritmias graves: decisão compartilhada, sendo tratar com benznidazol e não tratar alternativas igualmente válidas, sem nifurtimox. Cardiopatia chagásica avançada: não tratar.

A forma digestiva não muda a indicação por si. O Protocolo é direto: a fisiopatologia aponta para provável ausência de efeito do tratamento antiparasitário sobre a evolução natural da doença digestiva, e não há evidências de benefício ali. Por isso as recomendações da forma indeterminada se aplicam à digestiva, e as da forma cardíaca se aplicam à cardiodigestiva.

As doses. Em adultos, benznidazol 5 mg/kg/dia, em uma a três tomadas, por 60 dias. Para quem pesa acima de 60 kg existe uma alternativa que limita a dose diária a 300 mg e estende o tempo: 300 mg por dia durante o número de dias equivalente ao peso, limitado a 80 dias — uma pessoa de 70 kg toma 300 mg/dia por 70 dias. Vale conferir a aritmética, porque ela explica a regra: 5 mg/kg/dia por 60 dias entrega 300 vezes o peso em miligramas, e 300 mg/dia pelo número de dias igual ao peso entrega exatamente a mesma coisa. Nos 70 kg, os dois caminhos somam 21.000 mg de benznidazol; o segundo apenas os distribui em mais dias, com pico diário menor, para reduzir eventos adversos. A equivalência só se rompe acima de 80 kg, onde o teto de 80 dias corta o total: uma pessoa de 90 kg receberia 24.000 mg pelo esquema estendido contra 27.000 mg pelo cálculo por peso, isto é, 88,9% da dose-alvo. Em crianças, que toleram melhor, a dose é 5 a 10 mg/kg/dia divididos em duas tomadas, por 60 dias; a apresentação pediátrica é de comprimidos solúveis de 12,5 mg, que podem ser diluídos em água, suco de laranja ou leite, e a apresentação adulta é de 100 mg. O nifurtimox vem em comprimidos de 120 mg, na dose de 10 mg/kg/dia em adultos e 15 mg/kg/dia em crianças, em três tomadas, por 60 dias, e seu tratamento deve ser feito em serviço especializado, fora da atenção primária.

O que o tratamento etiológico não faz é tão cobrado quanto o que ele faz. O Guia é categórico: as lesões tardias já instaladas, em geral com fibrose, não serão revertidas com o tratamento, a despeito da interrupção da evolução da infecção. Tratar o megaesôfago instalado não devolve peristalse, e tratar a cardiopatia avançada não recupera miócito substituído por fibrose. Daí a lógica das faixas etárias: quanto mais cedo e mais precoce a forma, maior o benefício esperado.

Situações especiais. Gestante com quadro agudo grave — miocardite ou meningoencefalite — trata independentemente da idade gestacional, pela alta morbimortalidade materna. Gestante com fase aguda não grave diagnosticada no primeiro trimestre idealmente aguarda o segundo, quando o risco de malformação parece menor. Gestante na fase crônica não trata. Mulheres em idade fértil na fase crônica podem se beneficiar pela redução do risco de transmissão congênita, e devem usar método anticoncepcional durante o tratamento. Na coinfecção com HIV, está indicado tratar quem tem doença de Chagas crônica sem reativação e sem tratamento etiológico prévio, preferencialmente com benznidazol, atentando para o status imunológico pelo risco de síndrome inflamatória de reconstituição imune. Em transplantados com reativação, trata-se com a mesma posologia dos demais casos. Durante todo o tratamento, bebida alcoólica é proibida, pelo efeito antabuse da interação com o benznidazol.

Cura, por fim, é sorologia. O Guia registra que não existem critérios clínicos que definam com exatidão a cura; pelo critério sorológico, cura é negativação. Em casos agudos, recomenda-se sorologia convencional IgG anual por cinco anos, encerrando a pesquisa quando dois exames sucessivos forem não reagentes. Na fase crônica, sorologia de rotina para monitoramento de cura não é recomendada.

Parar ou seguir: as reações adversas do benznidazol

Metade das pessoas terá alguma reação. O Protocolo cifra a frequência de eventos adversos com benznidazol em cerca de 53% e detalha: parestesias em 10,3%, artralgias em 8,1%, intolerância gastrointestinal em 13,3%, alopecia em 0,9% e dermatite ou rash cutâneo em 30 a 44%, este último geralmente sem necessidade de interromper o tratamento. O nifurtimox é bem pior nesse quesito, com eventos adversos gerais na ordem de 85%, sendo os mais comuns intolerância gastrointestinal em 61%, artralgias em 33% e acometimento dermatológico em 15%.

A pergunta de prova não é qual reação existe, é qual reação faz parar. O Protocolo organiza isso em quatro linhas, e cada uma tem um tempo característico. A dermopatia por hipersensibilidade é a mais frequente, aparece por volta do 10º dia de tratamento, não é dose-dependente, não se relaciona com o parasito e recupera sem sequela: eritema polimorfo, não bolhoso, pruriginoso, seguido de descamação, focal ou generalizado. Quando leve, continua-se o tratamento. Quando moderada, continua-se com associação de baixa dose de corticosteroide — 5 mg de prednisona ou equivalente —, interrompendo se houver piora. Quando grave, geralmente acompanhada de febre e linfoadenomegalia, interrompe-se o tratamento e usa-se corticosteroide.

As outras três não admitem meio-termo. A polineuropatia periférica aparece no final do tratamento, é dose-dependente e de regressão lenta, ao longo de meses; manifesta-se por dor e parestesia em regiões plantares, as mais frequentes, e palmares; mesmo em intensidade leve a moderada, a conduta é interromper o tratamento. A ageusia — perda total ou parcial do paladar — é rara, também aparece no final do tratamento, recupera sem sequela e igualmente manda interromper. A depressão da medula óssea aparece entre o 20º e o 30º dia, com leucopenia e neutropenia de graus variados, podendo chegar a agranulocitose, e manda interromper, com acompanhamento hematológico.

É a linha da medula que justifica a farmacovigilância laboratorial. No início do tratamento com benznidazol devem ser realizados exame clínico, hemograma completo, testes de função renal e avaliação de enzimas hepáticas, com repetição no 30º e no 60º dia. Casos clinicamente estáveis em uso de benznidazol podem ser acompanhados na atenção primária; complicações — cardiopatia aguda grave, sangramento digestivo, intolerância ou reação adversa importante como dermopatia grave, neuropatia, lesão em mucosa ou hipoplasia medular — mandam referenciar. Intolerância digestiva é rara e se controla com a medicação habitual de gastrite e úlcera péptica; acometimento hepático grave é raramente descrito, e acometimento renal não tem sido observado.

Leishmaniose tegumentar: a úlcera descrita com precisão

A leishmaniose tegumentar é doença infecciosa, não contagiosa, de transmissão vetorial, que acomete pele e mucosas. No Brasil foram identificadas sete espécies de Leishmania, seis do subgênero Viannia e uma do subgênero Leishmania; as três principais são L. (L.) amazonensis, L. (V.) guyanensis e L. (V.) braziliensis. Os vetores são flebotomíneos do gênero Lutzomyia — mosquito-palha, tatuquira, birigui —, e não há transmissão de pessoa a pessoa. O período de incubação no ser humano é de dois a três meses em média, podendo ser tão curto quanto duas semanas e tão longo quanto dois anos, o que explica a vinheta do paciente que já saiu da área endêmica há muito tempo.

A úlcera típica da forma cutânea tem cinco atributos, e a banca costuma trocar exatamente um deles. É geralmente indolor. Localiza-se em áreas expostas da pele. Tem formato arredondado ou ovalado, medindo de alguns milímetros a alguns centímetros. Tem base eritematosa, infiltrada e de consistência firme. E apresenta bordas bem delimitadas e elevadas, com fundo avermelhado e granulações grosseiras. A evolução parte de uma mácula que dura um a dois dias após a picada, passa a pápula e progride até a úlcera; a linfoadenomegalia satélite pode aparecer antes, durante ou depois da lesão.

A dor é o desvio mais informativo. O Manual registra que a infecção bacteriana associada pode causar dor local e produzir exsudato seropurulento que, ao dessecar em crostas, recobre total ou parcialmente o fundo da úlcera — e o Guia acrescenta que a infecção secundária das úlceras é relativamente comum e é a responsável pelas queixas de dor. Portanto, úlcera de leishmaniose que dói não desmente o diagnóstico; sugere infecção secundária. Cuidados locais fazem parte do tratamento: limpeza com água e sabão e, se possível, compressa com permanganato de potássio na diluição de 1 para 5.000, que produz solução rosa clara — a diluição existe para evitar queimadura química.

As formas clínicas se separam pelo comportamento. A cutânea localizada é o acometimento primário da pele, geralmente do tipo úlcera, com tendência à cura espontânea e boa resposta ao tratamento, podendo ser única ou múltipla, aqui definida como até 20 lesões em um mesmo segmento corporal. A cutânea disseminada tem primeira escolha no antimoniato de meglumina, com resposta que varia conforme a região. A cutânea difusa é rara e grave, de difícil resposta terapêutica, deve ser tratada em centro de referência e tem o isetionato de pentamidina como primeira escolha; seu diagnóstico diferencial é a hanseníase virchowiana. A mucosa caracteriza-se por lesões destrutivas em mucosa, em geral das vias aéreas superiores, e é a que produz sequela desfigurante. Há ainda a recidiva cútis, com ativação da lesão nas bordas de uma cicatriz central.

As complicações da forma mucosa explicam por que ela é tratada em centro de referência com avaliação otorrinolaringológica. A lesão em mucosa nasal pode levar a rinite purulenta, sinusite e até broncopneumonia por aspiração da secreção faríngea, e a broncopneumonia é a principal responsável por óbitos na forma mucosa. Lesão extensa no centro da face pode levar a trombose de seio cavernoso. Lesões nasais, orais e faríngeas causam sialorreia e dificuldade de deglutição, levando à desnutrição. Lesão avançada de laringe pode causar perda da voz e obstrução da passagem de ar, por edema ou cicatriz retrátil, obrigando traqueostomia de urgência. Meningite pode complicar a disseminação de uma úlcera da face para a base do crânio. E há uma complicação que não é da doença, é do remédio: perda auditiva sensorioneural bilateral de início precoce, causada pelo antimoniato de meglumina, na maioria das vezes irreversível e, a princípio, não dose-dependente, principalmente em mulheres, idosos e em pessoas com perda auditiva prévia.

O diagnóstico laboratorial é parasitológico, molecular, imunológico e histopatológico. O parasitológico demonstra o parasito por escarificação da borda da lesão, biópsia com impressão do fragmento em lâmina por aposição e punção aspirativa; o isolamento em cultivo, feito geralmente de biópsia da borda da úlcera, permite identificar depois a espécie. A reação em cadeia da polimerase tem alta sensibilidade e especificidade. O imunológico é a intradermorreação de Montenegro. O quadro histopatológico típico é dermatite granulomatosa difusa ulcerada. Recomenda-se confirmar por método parasitológico antes de iniciar o tratamento, especialmente em casos com evolução fora do habitual ou má resposta a tratamento anterior — mas o critério clínico-epidemiológico confirma quando não há acesso a laboratório, desde que haja residência, procedência ou deslocamento em área com transmissão confirmada; nas formas mucosas, a presença de cicatrizes cutâneas serve como critério complementar.

Cura, na tegumentar, é critério clínico com prazos. Na forma cutânea, cura é epitelização completa de todas as lesões com desaparecimento de crosta, descamação, infiltração e eritema; espera-se epitelização completa em até 90 dias após a conclusão do primeiro esquema e desaparecimento dos demais sinais até o 180º dia. Lesão completamente epitelizada no 90º dia que ainda tenha crosta, descamação, infiltração ou eritema é observada sem nova intervenção até o 180º dia, desde que a evolução seja progressiva para a cura. Falta de epitelização completa até o 90º dia, piora das lesões ou aparecimento de lesões novas a qualquer momento indicam o segundo esquema. Na forma mucosa, cura é regressão de todos os sinais comprovada por exame otorrinolaringológico até seis meses após o fim do esquema. O acompanhamento é mensal por três meses consecutivos — seis meses nos coinfectados pelo HIV — e depois de dois em dois meses até completar 12 meses.

Uma conduta se aplica a todo paciente com leishmaniose tegumentar, independentemente da idade: oferecer sorologia para HIV, e obter o resultado o mais rapidamente possível, porque ele orienta a conduta específica.

Ilustração em dois painéis de uma úlcera cutânea: em vista superior, lesão arredondada de bordas bem delimitadas e elevadas com fundo de granulações grosseiras; em corte, a mesma lesão com bordas evertidas e base infiltrada e firme abaixo do fundo.
A úlcera típica da leishmaniose cutânea reúne cinco atributos que aparecem juntos: indolor, em área exposta, arredondada ou ovalada, com base eritematosa infiltrada e de consistência firme, e com bordas bem delimitadas e elevadas sobre fundo avermelhado de granulações grosseiras. Dor no local não afasta o diagnóstico — sugere infecção bacteriana secundária, que é relativamente comum.

Tegumentar: o antimonial se dosa pelo antimônio, não pelo volume da ampola

Aqui está a armadilha aritmética do capítulo. O antimoniato de meglumina apresenta-se em ampola de 5 mL contendo 1.500 mg do sal bruto, o que dá concentração de 300 mg/mL do sal. Só que a dose não se prescreve em sal: a Organização Mundial da Saúde padronizou o cálculo em miligramas de antimônio pentavalente por quilograma de peso por dia, e cada ampola de 5 mL corresponde a 405 mg de Sb⁵⁺, ou 81 mg de Sb⁵⁺ por mililitro. Quem calcula pelos 300 mg/mL do sal erra a dose por um fator de aproximadamente 3,7 — o antimônio pentavalente é cerca de 27% da massa do sal.

O teto diário decorre disso. A dose máxima é de três ampolas por dia, o que equivale a 1.215 mg de Sb⁵⁺ e a 15 mL — e o Manual escreve os três números, de modo que a conferência é imediata: 405 vezes 3 dá 1.215, e 5 vezes 3 dá 15. O próprio Manual traz o cálculo trabalhado para um paciente de 60 kg: a 10 mg Sb⁵⁺/kg/dia são 600 mg, que divididos por 81 mg/mL dão 7,4 mL; a 15 mg/kg/dia são 900 mg, ou 11,1 mL; a 20 mg/kg/dia são 1.200 mg, ou 14,8 mL, praticamente as três ampolas.

Vale calcular onde o teto começa a morder, porque é o que a vinheta esconde. A 20 mg Sb⁵⁺/kg/dia, o teto de 1.215 mg é atingido em 60,75 kg — acima disso o paciente recebe menos que a dose-alvo por quilo. A 15 mg/kg/dia, o teto só aparece acima de 81 kg. Num homem de 70 kg com leishmaniose mucosa, a dose-alvo de 20 mg/kg/dia seria 1.400 mg de Sb⁵⁺; como o teto é 1.215 mg, ele recebe três ampolas, o que corresponde a 17,4 mg Sb⁵⁺/kg/dia efetivos. A alternativa que oferece quatro ampolas para chegar aos 1.400 mg está errada pelo teto, e a que oferece 14 mL confunde volume com dose.

Os esquemas, por forma clínica. Na cutânea localizada, a primeira escolha sistêmica é o antimoniato de meglumina por via endovenosa ou intramuscular, na dose de 15 mg Sb⁵⁺/kg/dia — a faixa aceita é 10 a 20 mg Sb⁵⁺/kg/dia —, em dose única diária, durante 20 dias, com teto de 1.215 mg. Se não houver cicatrização completa em até três meses, ou seja, 12 semanas, após o término do tratamento, o paciente é reavaliado e o esquema pode ser repetido, agora prolongado para 30 dias. Na forma mucosa, a primeira escolha é o antimoniato de meglumina na dose de 20 mg Sb⁵⁺/kg/dia, com o mesmo teto, durante 30 dias consecutivos, preferencialmente associado à pentoxifilina 400 mg três vezes ao dia por 30 dias; a bula contraindica a pentoxifilina abaixo de 12 anos, e nessa faixa o antimoniato vai sozinho.

As trocas de fármaco seguem duas lógicas — a espécie e o hospedeiro. Pela espécie: em áreas com predomínio de Leishmania guyanensis, a primeira escolha é o isetionato de pentamidina, por via endovenosa lenta ou intramuscular profunda, em três doses de 4 mg/kg/dia, com intervalo de 72 horas quando intramuscular ou 48 horas quando endovenosa, e dose máxima diária de 300 mg — teto que passa a valer acima de 75 kg. Pelo hospedeiro: pacientes com idade a partir de 50 anos, com insuficiência renal, cardíaca ou hepática de qualquer idade, transplantados renais, cardíacos ou hepáticos, e gestantes de qualquer idade têm como primeira escolha a anfotericina B lipossomal, na cutânea localizada em 2 a 3 mg/kg/dia sem limite de dose máxima diária até atingir a dose total de 20 a 40 mg/kg. A segunda escolha na cutânea localizada é o desoxicolato de anfotericina B, 0,7 a 1 mg/kg/dia, diariamente ou em dias alternados, com dose total de 25 a 40 mg/kg e teto diário de 50 mg, ou o isetionato de pentamidina, exceto em gestantes e lactantes.

Há uma via que existe só para a lesão pequena e bem localizada: o antimoniato de meglumina intralesional, por via subcutânea, em uma a três aplicações de aproximadamente 5 mL por sessão, com intervalo de 15 dias, restrito a lesão única de até 3 cm no maior diâmetro, em qualquer localização exceto cabeça e regiões periarticulares, sem imunossupressão — e realizado exclusivamente por profissionais capacitados. Fora desses limites, a via intralesional não é opção.

A miltefosina foi incorporada ao SUS em 2020 e é o primeiro tratamento oral da leishmaniose tegumentar no país. O esquema é 2,5 mg/kg/dia por via oral, dividido em duas a três doses diárias, até o limite de 150 mg/dia, ou três cápsulas — teto que morde acima de 60 kg —, preferencialmente após as refeições. O tratamento dura 28 dias, em duas etapas de 14 dias, com retorno ao serviço entre elas para avaliação médica; recomenda-se investigar a sobra do medicamento, que deve ser recolhida, registrada e descartada pelo serviço. A indicação principal são as formas cutâneas, sobretudo por L. braziliensis; na forma mucosa, a evidência é restrita e a indicação deve ser avaliada por especialista. Na coinfecção Leishmania-HIV, a miltefosina só entra quando houver falha terapêutica caracterizada do tratamento-padrão. As contraindicações absolutas são hipersensibilidade, dano grave e preexistente da função hepática ou renal, síndrome de Sjögren-Larsson, problemas hereditários raros de intolerância à galactose, deficiência de lactase ou má absorção de glicose-galactose, e gravidez.

A teratogenicidade da miltefosina gera uma exigência que a prova cobra como detalhe: o uso é proibido por gestantes, e pacientes em idade fértil com possibilidade de gravidez só a usam após exclusão de gravidez por dosagem sensível de beta-hCG e com comprovação de uso de no mínimo dois métodos contraceptivos altamente eficazes, sendo um de barreira, por 30 dias antes do início do tratamento; a contracepção se mantém durante todo o tratamento e por até quatro meses após a conclusão ou a interrupção.

O monitoramento do antimonial é o preço da toxicidade. O efeito adverso mais grave é cardiovascular, dose e tempo-dependente, e traduz-se por distúrbio de repolarização — inversão e achatamento da onda T e aumento do intervalo QTc. Recomenda-se eletrocardiograma semanal e ausculta cardíaca diária cuidadosa para detectar arritmia; se ela ocorrer, o medicamento deve ser suspenso e indicado um de segunda escolha. Hemograma e bioquímica para função renal, pancreática e hepática são semanais. Em pacientes acima de 50 anos, cardiopatas, nefropatas, hepatopatas ou em uso de fármacos que prolongam o QTc — quando ainda assim o antimonial for usado — o eletrocardiograma passa a ser duas vezes por semana. A contraindicação absoluta é gravidez e hipersensibilidade; as relativas são uso concomitante de fármacos que prolongam o QTc e disfunção renal, cardíaca ou hepática. Repouso físico relativo e abstinência de bebidas alcoólicas durante o tratamento, pelas alterações hepáticas.

Há ainda um fenômeno de início de tratamento que não deve ser lido como falha: exacerbação do quadro com aumento de infiltração e eritema e, no acometimento mucoso, das secreções nasal e faríngea, presumivelmente por resposta aos antígenos liberados com a morte do parasito. Em lesão de laringe e adjacências, o Manual sugere manter o paciente internado nos primeiros três dias de tratamento — e, quando há lesão de laringe e faringe, administrar a medicação em regime de internação em hospital com disponibilidade de traqueostomia de urgência, podendo-se usar corticoide sistêmico para evitar o edema, por exemplo hidrocortisona 100 mg por via endovenosa de 6 em 6 horas, iniciada antes da primeira dose e mantida por 48 a 72 horas.

Leishmaniose visceral: a tríade e os critérios que internam

O calazar é doença crônica e sistêmica, e a vinheta se monta em quatro palavras: febre de longa duração, perda de peso, hepatoesplenomegalia e anemia — com astenia e adinamia completando o quadro. A definição clínica de suspeita que o Guia usa é mais operacional: febre por mais de sete dias associada a palidez, esplenomegalia, hepatomegalia ou emagrecimento. E a definição de caso suspeito para vigilância é mais enxuta ainda: todo indivíduo proveniente de área com ocorrência de transmissão, com febre e esplenomegalia; ou todo indivíduo de área sem transmissão, com febre e esplenomegalia, desde que descartados os diagnósticos diferenciais mais frequentes da região. Crianças e idosos são mais suscetíveis.

O diagnóstico tem um atalho que a prova cobra. O teste rápido imunocromatográfico é considerado positivo quando aparecem a linha controle e a linha teste — e, se o paciente for diagnosticado reagente, não há necessidade de realizar outro teste, imunológico ou parasitológico, para a confirmação. A imunofluorescência indireta é positiva a partir da diluição 1:80; em título 1:40 com clínica sugestiva, solicita-se nova amostra em 30 dias. O ensaio imunoenzimático não está disponível na rede pública. O parasitológico é a técnica padrão-ouro para identificar as formas amastigotas, em material obtido preferencialmente da medula óssea, por ser o procedimento mais seguro, ou de linfonodo, ou do baço — este último em ambiente hospitalar e em condições cirúrgicas.

Duas armadilhas sorológicas. A primeira: títulos variáveis podem persistir positivos por longo período mesmo após o tratamento, de modo que um teste positivo na ausência de manifestações clínicas não autoriza tratamento. A segunda decorre dela e é da vigilância: o indivíduo com exame sorológico reagente ou parasitológico positivo sem manifestações clínicas é classificado como infecção, e esses casos não devem ser notificados nem tratados. Já a distinção entre caso novo e recidiva é temporal: recrudescimento da sintomatologia em até 12 meses após a cura clínica é recidiva; depois de 12 meses, e desde que não haja evidência de imunodeficiência, é caso novo.

O diagnóstico diferencial reúne o que também dá febre com visceromegalia: enterobacteriose de curso prolongado — a associação de esquistossomose com salmonela ou outra enterobactéria —, malária, brucelose, febre tifoide, esquistossomose hepatoesplênica, forma aguda da doença de Chagas, linfoma, mieloma múltiplo, anemia falciforme e leucemia. Repare que a fase aguda da doença de Chagas está na lista, e que o inverso também vale: o Guia coloca a leishmaniose visceral entre os diferenciais da doença de Chagas aguda. As duas dividem a vinheta da febre prolongada com hepatoesplenomegalia.

A gravidade tem nome e número. O manual de recomendações clínicas para redução da letalidade parte de uma lista de fatores associados ao óbito — idade inferior a 1 ano, idade superior a 40 anos, infecção bacteriana, recidiva ou reativação, diarreia ou vômitos, edema, febre por mais de 60 dias, icterícia, fenômenos hemorrágicos, sinais de toxemia, desnutrição grau III, comorbidades, alterações de leucócitos, neutrófilos menores ou iguais a 500/mm³, plaquetas abaixo de 50.000/mm³, hemoglobina menor ou igual a 7,0 g/dL, creatinina acima do valor de referência para a idade, atividade de protrombina abaixo de 70% ou INR acima de 1,14, bilirrubina acima do valor de referência, enzimas hepáticas acima de cinco vezes o maior valor de referência e albumina abaixo de 2,5 g/dL. Mas o próprio manual adverte que um fator isolado não define gravidade, e por isso propõe escores.

São dois escores, e a idade escolhe qual. Para pacientes com mais de 2 anos, o modelo clínico pontua idade — nada entre 2 e 20 anos, 1 ponto entre 20 e 40 anos, 2 pontos acima de 40 anos —, sangramento por número de sítios — 1 ponto para 1 a 2 sítios, 2 pontos para 3 a 4, 3 pontos para 5 a 6 —, aids com 2 pontos, e edema, icterícia, dispneia e infecção bacteriana com 1 ponto cada, somando no máximo 11. O modelo clínico-laboratorial repete tudo, dá 3 pontos à aids e acrescenta leucócitos abaixo de 1.500/mm³ com 2 pontos, plaquetas abaixo de 50.000/mm³ com 3 pontos e insuficiência renal com 3 pontos, somando no máximo 20. Para pacientes com menos de 2 anos, o modelo clínico pontua idade abaixo de 12 meses com 1 ponto, sangramento com 1, 2 ou 4 pontos conforme o número de sítios, e edema, icterícia e dispneia com 1 ponto cada, somando no máximo 8; o clínico-laboratorial dá 2 pontos ao edema, retira a icterícia e acrescenta aspartato ou alanina aminotransferase acima de 100 unidades por litro com 3 pontos, somando no máximo 11.

O corte é o que decide o lugar do tratamento. O estudo de validação identificou que os pacientes com pontuação maior ou igual a quatro pelos critérios apenas clínicos, ou maior ou igual a seis pelos critérios clínicos e laboratoriais, são os que apresentam risco aumentado de evoluir para óbito — e o manual conclui que, nesse caso, o tratamento deve ser realizado em regime hospitalar, e não ambulatorial. Vale somar o escore de um paciente típico para ver como o corte é fácil de atingir: um homem de 47 anos com icterícia e uma epistaxe já soma 2 pontos pela idade acima de 40 anos, 1 pela icterícia e 1 pelo sangramento em 1 sítio — quatro pontos, sem nenhum exame de laboratório, e portanto internação. Acrescente aids ao mesmo paciente e o escore clínico vai a 6.

Complicações e sinais de alerta acompanham a mesma lógica. As complicações comuns são otite média aguda, piodermites e infecções dos tratos urinário e respiratório; sem antimicrobiano, o paciente pode evoluir para quadro séptico fatal. As hemorragias são geralmente secundárias à plaquetopenia, sendo epistaxe e gengivorragia as mais encontradas — e o Guia registra que hemorragia digestiva e icterícia, quando presentes, indicam gravidade do caso.

Visceral: a lista que troca o antimonial pela anfotericina lipossomal

No Brasil, os medicamentos para leishmaniose visceral são o antimoniato de meglumina e a anfotericina B, e a escolha considera faixa etária, gravidez e comorbidades. O antimoniato de meglumina é o fármaco de primeira escolha, exceto em situações específicas, e tem a vantagem de poder ser administrado em nível ambulatorial, evitando os riscos da hospitalização. A anfotericina B lipossomal é a única opção para gestantes e para quem tem contraindicação, toxicidade ou refratariedade aos antimoniais pentavalentes.

A dose na visceral é maior e mais longa que na cutânea, e esse contraste cai em prova. São 20 mg Sb⁵⁺/kg/dia, por via endovenosa ou intramuscular, uma vez ao dia, por no mínimo 20 e no máximo 40 dias, com dose máxima de três ampolas ao dia — e o Guia repete a advertência que organiza o cálculo: a dose prescrita refere-se ao antimônio pentavalente. A administração é preferencialmente endovenosa lenta, e a dose pode ser diluída em 100 mL de soro glicosado a 5%. Compare com a cutânea localizada, que usa 15 mg Sb⁵⁺/kg/dia por 20 dias, e com a mucosa, que usa 20 mg Sb⁵⁺/kg/dia por 30 dias: a visceral é a única em que a duração é uma faixa, de 20 a 40 dias, e não um número fixo.

A lista de indicações da anfotericina B lipossomal é longa e vale ser lida como um filtro. Basta um critério: idade menor que 1 ano; idade maior que 50 anos; insuficiência renal; insuficiência hepática; insuficiência cardíaca; intervalo QT corrigido maior que 450 ms; uso concomitante de medicamentos que alteram o intervalo QT; hipersensibilidade ao antimoniato de meglumina ou a outros medicamentos usados na leishmaniose visceral; infecção pelo HIV; comorbidades que comprometam a imunidade; uso de medicamento imunossupressor; falha terapêutica; gestação; escore de gravidade clínico maior ou igual a 4; escore de gravidade clínico-laboratorial maior ou igual a 6. É essa lista que transforma o escore em conduta: atingir o corte não só interna o paciente, como troca o fármaco.

A anfotericina B lipossomal vem em frasco-ampola com 50 mg liofilizados e admite dois esquemas: 3 mg/kg/dia durante 7 dias ou 4 mg/kg/dia durante 5 dias, em infusão venosa, em dose diária única, com tempo de infusão de 30 a 60 minutos. Os dois entregam praticamente a mesma dose acumulada — 21 mg/kg no primeiro e 20 mg/kg no segundo, diferença de 5% —, o que explica por que a escolha entre eles é logística e não farmacológica. O monitoramento é de função renal, potássio e magnésio, com reposição de potássio quando indicado; na disfunção renal com creatinina duas vezes acima do maior valor de referência, o tratamento deve ser suspenso por 2 a 5 dias e reiniciado em dias alternados quando os níveis diminuírem. Os eventos adversos mais frequentes são febre, cefaleia, náusea, vômitos, tremores, calafrios e dor lombar; se ocorrerem durante a infusão, administram-se antitérmicos ou anti-histamínicos meia hora antes das infusões seguintes, evitando o ácido acetilsalicílico.

O antimonial na visceral tem seus próprios eventos adversos e sua própria vigilância: artralgias, mialgias, inapetência, náuseas, vômitos, plenitude gástrica, epigastralgia, pirose, dor abdominal, dor no local da aplicação, febre, cardiotoxicidade, hepatotoxicidade, nefrotoxicidade e pancreatite. Monitoram-se enzimas hepáticas, função renal, amilase e lipase séricas. E há um gatilho etário próprio da visceral, diferente do da tegumentar: em pacientes com idade maior que 40 anos, ou com antecedentes familiares de cardiopatia, deve-se realizar eletrocardiograma no início, semanalmente durante e ao final do tratamento, para monitorar o QT corrigido, as arritmias e o achatamento da onda T. O tratamento engloba ainda medidas de suporte — hidratação, antitérmicos, antibióticos, hemoterapia e suporte nutricional.

O abandono tem definição operacional e uma regra de retorno que cai em prova de vigilância. Abandono é o caso que não completou 20 doses de antimoniato de meglumina no tempo preestabelecido, ou o paciente que, sem ter recebido alta, não compareceu até 30 dias após o agendamento para avaliação clínica. Quando há interrupção, contam-se as doses, o estado clínico e o tempo desde a última dose: se o paciente retorna antes de sete dias de interrupção, completa-se o tratamento; depois de sete dias, quem recebeu menos de 10 doses reinicia o tratamento, esteja clinicamente curado ou doente, e quem recebeu 10 ou mais doses é apenas observado se estiver clinicamente curado, mas reinicia se estiver doente.

Coinfecção com HIV e notificação: o que muda e o que se comunica

A coinfecção muda coisas diferentes em cada uma das três doenças, e é isso que a prova testa. Na doença de Chagas, a imunodepressão abre a porta da reativação: aumento da parasitemia com quadro clínico semelhante ao da fase aguda, identificação do parasito em sangue periférico, líquor ou outros líquidos corporais, e alta morbimortalidade por acometimento do sistema nervoso central e miocardite. Métodos parasitológicos diretos servem para o diagnóstico, mas a negatividade não exclui reativação, e as reações sorológicas podem não ser reprodutíveis, justamente pela resposta imune comprometida. Desde janeiro de 2004, com a revisão da definição de caso de aids no Brasil, a reativação da doença de Chagas — miocardite e/ou meningoencefalite — passou a ser reconhecida oficialmente na lista de doenças indicativas de aids para o SUS. A confirmação de reativação exige diagnóstico prévio de fase crônica, presença do parasito em exame direto de sangue ou secreções e associação a meningoencefalite e/ou miocardite aguda.

Duas consequências operacionais na doença de Chagas. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos recomenda sorologia para doença de Chagas em toda pessoa infectada pelo HIV com história epidemiológica compatível com infecção por T. cruzi. E está indicado tratar quem tem doença de Chagas crônica sem reativação e sem tratamento etiológico prévio, preferencialmente com benznidazol, considerando o status imunológico pelo risco aumentado de síndrome inflamatória de reconstituição imunológica.

Na leishmaniose tegumentar, o espectro de lesão é mais variado — de pápulas a úlceras, únicas ou múltiplas, com lesões atípicas em máculas ou pápulas disseminadas, embora as úlceras continuem mais comuns. A coinfecção tem implicações na indicação terapêutica, no monitoramento de efeitos adversos, na resposta e na ocorrência de recidivas; por isso a sorologia para HIV deve ser oferecida a todos os pacientes com leishmaniose tegumentar, independentemente da idade, e o resultado obtido o mais rápido possível. O acompanhamento pós-tratamento passa de três para seis meses de consultas mensais, e a miltefosina fica reservada aos casos com falha terapêutica caracterizada do tratamento-padrão.

Na leishmaniose visceral, a coinfecção pesa duas vezes. Primeiro como indicação: infecção pelo HIV está na lista que faz da anfotericina B lipossomal a primeira escolha, e o Guia registra que há preferência pelo uso da lipossomal em pacientes com coinfecção Leishmania-HIV. Segundo como prognóstico: aids é variável pontuada nos escores de gravidade, valendo 2 pontos no modelo clínico e 3 pontos no clínico-laboratorial de pacientes com mais de 2 anos — o segundo maior peso da tabela, ao lado do sangramento em 5 a 6 sítios, das plaquetas abaixo de 50.000/mm³ e da insuficiência renal. O manual de redução da letalidade recomenda oferecer o teste de HIV a todo paciente com diagnóstico de leishmaniose visceral, considerando que ela pode se manifestar como doença oportunista em imunodeprimidos.

A notificação das três está na Lista Nacional de Notificação Compulsória, no anexo da Portaria GM/MS nº 1.061, de 18 de maio de 2020 — a mesma portaria que incluiu a doença de Chagas crônica na lista. São quatro linhas e dois relógios. A doença de Chagas aguda é de notificação imediata, em até 24 horas, para a Secretaria Estadual de Saúde e para a Secretaria Municipal de Saúde, e não para o Ministério da Saúde; a doença de Chagas crônica, a leishmaniose tegumentar americana e a leishmaniose visceral são de notificação semanal.

Os detalhes de sistema completam a resposta. A doença de Chagas aguda é notificada pela Ficha de Investigação de Doença de Chagas Aguda no Sinan, e os casos suspeitos entram — não se espera a confirmação. Os surtos por transmissão oral, além da notificação individual, são notificados pela Ficha de Investigação de Surto de doenças transmitidas por alimentos, também no Sinan. A doença de Chagas crônica é notificada em formulário disponível na plataforma e-SUS Notifica, e apenas após confirmação do diagnóstico; identificado o caso, está indicada investigação sorológica nos demais membros da família — pais, irmãos e filhos — e em outras pessoas que convivem ou conviveram no mesmo contexto epidemiológico. As duas leishmanioses são notificadas por fichas próprias no Sinan; na tegumentar, o Guia registra que todo caso confirmado deve ser notificado e investigado, e que caso importado, depois de investigado, é notificado ao serviço de saúde estadual ou municipal do local provável de infecção. Na visceral, todo caso suspeito deve ser notificado.

Fechando o circuito da vigilância: confirmado um caso agudo de doença de Chagas, solicita-se à vigilância epidemiológica municipal que realize as medidas de controle no local provável de infecção, conforme a via. Na vetorial, investigação entomológica e de reservatórios, mais sorologia dos habitantes das residências onde forem encontrados triatomíneos positivos. Na oral, além da vigilância ambiental, inspeção sanitária para avaliar o alimento provavelmente contaminado. Na vertical, quando a criança é o primeiro caso identificado, exames laboratoriais na mãe e nos familiares.

04

Da vinheta ao esquema: fase, forma e o teto de cada frasco

Toda vinheta destas três doenças se resolve na mesma ordem, e mudar a ordem é o que produz erro. Primeiro a via de transmissão, que na doença de Chagas define a incubação e a gravidade e nas leishmanioses é sempre a picada do flebotomíneo. Depois a fase ou a forma clínica, que é o que escolhe o exame. Só então o esquema, que já vem escrito no documento do Ministério da Saúde e traz teto diário. Percorrer o caminho de trás para a frente — escolher o fármaco antes de ter a fase — é o que faz o candidato marcar sorologia em fase aguda e antimonial em quem tem 60 anos.

  1. 1Na doença de Chagas, datar a exposição antes de pedir exame. Alimento suspeito consumido há 3 a 22 dias, ou contato com triatomíneo há 4 a 15 dias, coloca o paciente na janela aguda; transfusão ou transplante nos 120 dias anteriores, também. Sem exposição datável e com sorologia positiva achada em rastreio, o paciente é crônico.
  2. 2Janela aguda: pedir parasitológico DIRETO no sangue periférico, e mais de um método ao mesmo tempo. Pesquisa a fresco até 30 dias de sintomas; métodos de concentração (Strout, micro-hematócrito, creme leucocitário) como primeira escolha acima de 30 dias. Negativo não encerra: repetir até confirmar, até os sintomas cederem ou até outra hipótese fechar.
  3. 3Janela crônica: duas sorologias IgG de princípios distintos. Uma reagente e outra não manda repetir as duas; persistindo a discordância, terceiro teste de princípio diferente em nova amostra. Confirmado o caso, estadiar com eletrocardiograma e radiografia de tórax — enema opaco e esofagografia contrastada só se houver suspeita digestiva.
  4. 4Eletrocardiograma alterado com bloqueio completo de ramo direito, com ou sem bloqueio divisional anterossuperior: ecocardiograma para a fração de ejeção e Holter ou teste de esforço para arritmia. O par fração de ejeção e presença de insuficiência cardíaca estadia em A, B1, B2, C ou D.
  5. 5Tratamento etiológico só depois do estadiamento. Fase aguda e reativação: sempre. Crônica indeterminada ou digestiva: sim em criança, adolescente e adulto abaixo de 50 anos; não de rotina acima de 50. Cardíaca inicial: decisão compartilhada. Cardíaca avançada: não tratar. Fibrose instalada não regride com benznidazol.
  6. 6Nas leishmanioses, descrever a lesão antes de nomear o fármaco. Úlcera indolor de bordas elevadas e fundo granuloso em área exposta é cutânea localizada; lesão destrutiva de mucosa das vias aéreas superiores é mucosa; febre prolongada com esplenomegalia e citopenias é visceral. Oferecer sorologia para HIV em todos.
  7. 7Antes de calcular a dose do antimonial, converter: uma ampola de 5 mL contém 1.500 mg do sal e 405 mg de antimônio pentavalente, isto é, 81 mg de Sb⁵⁺ por mililitro. A prescrição é em mg de Sb⁵⁺/kg/dia. Teto de três ampolas por dia — 1.215 mg de Sb⁵⁺, 15 mL — em qualquer forma clínica.
  8. 8Verificar o hospedeiro antes de assinar o antimonial. Idade a partir de 50 anos, insuficiência renal, cardíaca ou hepática, transplante, gestação, QT corrigido acima de 450 ms ou uso de fármaco que prolonga o QT trocam a primeira escolha por anfotericina B lipossomal. Na leishmaniose visceral, acrescente idade abaixo de 1 ano, infecção pelo HIV e os cortes de escore de gravidade.
  9. 9Na visceral, somar o escore antes de decidir o lugar do tratamento. Escore clínico maior ou igual a 4, ou clínico-laboratorial maior ou igual a 6, indica risco aumentado de óbito: internação e anfotericina B lipossomal.
  10. 10Fechar pela notificação. Doença de Chagas aguda: imediata, até 24 horas, para a Secretaria Estadual e para a Secretaria Municipal de Saúde, no Sinan, já como caso suspeito. Doença de Chagas crônica: semanal, no e-SUS Notifica, só após confirmação. Leishmaniose tegumentar americana e leishmaniose visceral: semanal, no Sinan.
V1DIIrSR′QRS negativo

O eletrocardiograma da forma cardíaca

Bloqueio completo de ramo direito, isolado ou com bloqueio divisional anterossuperior, é a assinatura que a prova desenha. Em V1, o complexo tem onda r pequena, S profunda e um R linha alto e alargado — o padrão rSR linha do bloqueio de ramo direito. Em DII, DIII e aVF o complexo fica predominantemente negativo, tradução do desvio do eixo para a esquerda que o bloqueio divisional anterossuperior produz. No fluxograma do Protocolo Clínico esse par não fica em observação: manda medir a fração de ejeção ao ecocardiograma e pesquisar arritmia por Holter ou teste de esforço. Bloqueio INCOMPLETO de ramo direito e bloqueio divisional anterossuperior ISOLADO ficam na faixa das alterações inespecíficas, com avaliação individualizada e reavaliação periódica.

AGUDACRÔNICAIgGparasitemiaparasitológicodiretoduas sorologias IgG,princípios distintos

A janela decide o exame

Na fase aguda o parasito circula e os anticorpos ainda estão subindo: o exame é o parasitológico direto no sangue periférico, repetido e em mais de um método. Na fase crônica a parasitemia é baixa e intermitente e o IgG está no platô: o exame são duas sorologias IgG de princípios distintos. Entre as duas janelas mora o erro clássico — pedir sorologia no surto oral, que ainda pode estar negativa, ou pedir gota espessa no paciente com sorologia positiva achada em rastreio, que há décadas não tem parasito visível no sangue. Na fase aguda a sorologia serve apenas de forma complementar: soroconversão, ou aumento de duas ou mais diluições, em duas coletas com intervalo mínimo de 15 dias.

5 mL1.500 mg do sal405 mg de Sb⁵⁺81 mg/mLteto diário1.215 mg de Sb⁵⁺ = 15 mL

A ampola não é a dose

A ampola de antimoniato de meglumina tem 5 mL e 1.500 mg do sal bruto, o que dá 300 mg/mL — e é esse o número que induz ao erro. A dose se prescreve em antimônio pentavalente: 405 mg de Sb⁵⁺ por ampola, 81 mg de Sb⁵⁺ por mililitro, cerca de 27% da massa do sal. Quem calcula pelo sal erra por um fator de aproximadamente 3,7. O teto é de três ampolas ao dia, 1.215 mg de Sb⁵⁺ e 15 mL, em qualquer forma clínica. A 20 mg de Sb⁵⁺/kg/dia esse teto passa a limitar acima de 60,75 kg; a 15 mg/kg/dia, só acima de 81 kg.

SituaçãoExame que confirmaPrimeira escolhaDuração, teto e onde
Doença de Chagas AGUDA (qualquer via)Parasitológico direto no sangue periférico: pesquisa a fresco (ideal com febre e até 30 dias) e métodos de concentração — Strout, micro-hematócrito, creme leucocitário — acima de 30 dias. Sorologia é complementarBenznidazol, com nifurtimox em segunda linha. Tratamento imediato, em todas as faixas etáriasAdulto 5 mg/kg/dia, 1 a 3 tomadas, 60 dias; ou 300 mg/dia por tantos dias quanto o peso, máximo 80 dias. Criança 5 a 10 mg/kg/dia em 2 tomadas, 60 dias. Casos leves na atenção primária
Doença de Chagas CRÔNICA — forma indeterminada ou digestivaDuas sorologias IgG de princípios distintos (ELISA, IFI, HAI, quimioluminescência). Estadiamento com eletrocardiograma e radiografia de tóraxBenznidazol em criança, adolescente e adulto abaixo de 50 anos. Acima de 50 anos, não tratar de rotina — decisão compartilhadaMesmas doses da fase aguda. Eletrocardiograma anual na forma indeterminada. Nifurtimox não recomendado no adulto
Doença de Chagas CRÔNICA — forma cardíacaSorologia como acima; ecocardiograma para a fração de ejeção e Holter ou teste de esforço quando o eletrocardiograma vier alteradoFase inicial (eletrocardiograma alterado, fração de ejeção acima de 40%, sem insuficiência cardíaca, sem arritmia grave): decisão compartilhada. Doença avançada: não tratarO tratamento etiológico não reverte fibrose instalada. Betabloqueador com cautela pela bradiarritmia; amiodarona graduada pelo risco de morte súbita
Leishmaniose CUTÂNEA LOCALIZADAParasitológico (escarificação da borda, imprint de biópsia, punção aspirativa), cultivo, PCR, intradermorreação de Montenegro, histopatológico. Critério clínico-epidemiológico quando não há laboratórioAntimoniato de meglumina 15 mg Sb⁵⁺/kg/dia (faixa 10 a 20), endovenoso ou intramuscular. Em área de predomínio de L. guyanensis, isetionato de pentamidina20 dias, dose única diária, teto 1.215 mg de Sb⁵⁺. Sem cicatrização em 12 semanas, repetir prolongando para 30 dias. Pentamidina: três doses de 4 mg/kg/dia, teto 300 mg
Leishmaniose MUCOSAMesmos métodos; nas formas mucosas a cicatriz cutânea prévia é critério complementar. Avaliação otorrinolaringológica obrigatóriaAntimoniato de meglumina 20 mg Sb⁵⁺/kg/dia associado a pentoxifilina 400 mg três vezes ao dia (pentoxifilina contraindicada abaixo de 12 anos)30 dias consecutivos, teto 1.215 mg de Sb⁵⁺. Centro de referência. Lesão de laringe e faringe: internar em hospital com traqueostomia de urgência, com corticoide sistêmico
Leishmaniose VISCERALTeste rápido imunocromatográfico reagente já confirma, sem outro exame. Imunofluorescência indireta a partir de 1:80. Parasitológico padrão-ouro em medula óssea (mais segura), linfonodo ou baçoAntimoniato de meglumina 20 mg Sb⁵⁺/kg/dia. Anfotericina B lipossomal quando houver qualquer item da lista de indicaçõesMínimo 20 e máximo 40 dias, teto de três ampolas ao dia. Lipossomal: 3 mg/kg/dia por 7 dias ou 4 mg/kg/dia por 5 dias. Escore clínico maior ou igual a 4 ou clínico-laboratorial maior ou igual a 6: internação
Qualquer das três, com HIVSorologia para HIV oferecida a todo paciente com leishmaniose tegumentar ou visceral; sorologia para doença de Chagas em toda pessoa com HIV e história epidemiológica compatívelChagas crônica sem reativação e sem tratamento prévio: tratar, preferencialmente benznidazol. Leishmaniose visceral: anfotericina B lipossomalReativação da doença de Chagas (miocardite e/ou meningoencefalite) é doença indicativa de aids desde 2004. Aids pontua no escore de gravidade da visceral

Benznidazol: a tabela de indicação por fase e faixa etária

Fase ou formaFaixa etáriaConduta
AgudaTodasPrimeira linha benznidazol; segunda linha nifurtimox. Tratamento imediato
Reativação (imunodepressão, transplante)TodasTratar. Mesma posologia dos casos não relacionados a transplante; benznidazol preferencial
Crônica indeterminada ou digestivaCrianças e adolescentesPrimeira linha benznidazol; segunda linha nifurtimox
Crônica indeterminada ou digestivaAdultos com menos de 50 anosPrimeira linha benznidazol. NÃO usar nifurtimox
Crônica indeterminada ou digestivaAdultos com 50 anos ou maisNão tratar de rotina. Decisão compartilhada quando não houver contraindicação
Crônica cardíaca em fase inicial: eletrocardiograma alterado, fração de ejeção acima de 40%, sem insuficiência cardíaca e sem arritmia graveTodasDecisão compartilhada — tratar com benznidazol e não tratar são alternativas válidas. NÃO usar nifurtimox
Crônica cardíaca avançadaTodasNão tratar
GestanteQualquerAguda grave (miocardite, meningoencefalite): tratar em qualquer idade gestacional. Aguda não grave no primeiro trimestre: aguardar o segundo. Crônica: não tratar

Benznidazol: qual reação faz parar

ReaçãoQuando apareceConduta
Dermopatia por hipersensibilidade LEVE — eritema polimorfo, não bolhoso, pruriginoso, focalPor volta do 10º dia; não é dose-dependente e não se relaciona com o parasitoContinuar o tratamento
Dermopatia MODERADA — focal ou generalizadaPor volta do 10º diaContinuar com baixa dose de corticosteroide (5 mg de prednisona ou equivalente). Interromper se houver piora
Dermopatia GRAVE — geralmente acompanhada de febre e linfoadenomegaliaPor volta do 10º diaINTERROMPER. Utilizar corticosteroide
Polineuropatia periférica — dor e parestesia em regiões plantares e palmares; dose-dependente, regressão lenta em mesesFinal do tratamentoINTERROMPER, mesmo em intensidade leve a moderada
Ageusia — perda total ou parcial do paladar; rara, recupera sem sequelaFinal do tratamentoINTERROMPER
Depressão da medula óssea — leucopenia com neutropenia de graus variados, podendo chegar a agranulocitoseEntre o 20º e o 30º diaINTERROMPER. Acompanhamento hematológico

A mesma ampola, três doses: antimoniato de meglumina por forma clínica

FormaDoseDuraçãoTeto diário
Cutânea localizada15 mg Sb⁵⁺/kg/dia (faixa aceita de 10 a 20)20 dias; repetir por 30 dias se não cicatrizar em 12 semanas1.215 mg de Sb⁵⁺ (três ampolas, 15 mL)
Cutânea localizada — lesão única de até 3 cm, fora da cabeça e de regiões periarticulares, sem imunossupressãoIntralesional, cerca de 5 mL por sessão, por via subcutâneaUma a três aplicações, intervalo de 15 diasNão se aplica; exclusivo de profissional capacitado
Mucosa20 mg Sb⁵⁺/kg/dia, com pentoxifilina 400 mg três vezes ao dia acima de 12 anos30 dias consecutivos1.215 mg de Sb⁵⁺ (três ampolas, 15 mL)
Visceral20 mg Sb⁵⁺/kg/dia, endovenoso ou intramuscular, uma vez ao diaMínimo 20 e máximo 40 diasTrês ampolas ao dia

Escore de gravidade da leishmaniose visceral em pacientes com mais de 2 anos

VariávelPeso no modelo clínicoPeso no modelo clínico e laboratorial
Idade de 2 a 20 anos
Idade de 20 a 40 anos11
Idade acima de 40 anos22
Sangramento em 1 a 2 sítios11
Sangramento em 3 a 4 sítios22
Sangramento em 5 a 6 sítios33
Aids23
Edema11
Icterícia11
Dispneia11
Infecção bacteriana11
Leucócitos abaixo de 1.500/mm³2
Plaquetas abaixo de 50.000/mm³3
Insuficiência renal — filtração glomerular abaixo de 60 mL/min/m² ou creatinina acima do valor superior para a idade3
PONTUAÇÃO MÁXIMA1120
CORTE que indica internação e anfotericina B lipossomalmaior ou igual a 4maior ou igual a 6

A soma das colunas do escore de gravidade fecha com a pontuação máxima declarada: 2 mais 3 mais 2 mais 1 mais 1 mais 1 mais 1 dá 11 no modelo clínico, e 2 mais 3 mais 3 mais 1 mais 1 mais 1 mais 1 mais 2 mais 3 mais 3 dá 20 no clínico-laboratorial. No modelo de menores de 2 anos, 1 mais 4 mais 1 mais 1 mais 1 dá 8 no clínico e 1 mais 4 mais 2 mais 1 mais 3 dá 11 no clínico-laboratorial, também conferindo com os totais impressos.

As faixas etárias dos escores deixam valores sem categoria ou em duas categorias ao mesmo tempo. Na tabela de menores de 2 anos, as faixas são 'menos de 12 meses' e 'mais de 12 meses', e a criança de exatamente 12 meses fica de fora. Na tabela de maiores de 2 anos, as faixas '2 a 20 anos' e '20 a 40 anos' se sobrepõem aos 20 anos. E o paciente de exatamente 2 anos não tem tabela, já que uma se destina a 'mais de 2 anos' e a outra a 'menos de 2 anos'.

Na tabela de fatores associados ao óbito por leishmaniose visceral, o fator laboratorial está escrito como 'Leucócitos < 1.000/mm³ e > 7.000/mm³'. A conjunção aditiva descreve uma condição que nenhum hemograma satisfaz; o sentido é de risco nos dois extremos, leucopenia ou leucocitose. Na tabela dos menores de 2 anos, o corte de aminotransferases aparece com a unidade 'UK/L', que não é unidade do Sistema Internacional — o valor é 100 unidades por litro.

O esquema pediátrico do benznidazol para a faixa de 10 a 15 kg é a única linha da tabela de posologia que não fecha com a regra do próprio cabeçalho. Três comprimidos de 12,5 mg três vezes ao dia entregam 112,5 mg/dia, o que numa criança de 10 kg dá 11,25 mg/kg/dia — acima do teto de 10 mg/kg/dia enunciado na mesma linha — e a frequência de três tomadas destoa do 'duas vezes ao dia' ali fixado. Com duas tomadas, os mesmos 37,5 mg por dose dariam 75 mg/dia, isto é, 7,5 mg/kg/dia aos 10 kg e 5 mg/kg/dia aos 15 kg, dentro da faixa. As faixas de peso também se sobrepõem nos extremos: uma criança de exatamente 5 kg ou de exatamente 10 kg cabe em duas linhas.

O monitoramento hematológico do benznidazol tem dois prazos no mesmo protocolo: hemograma três semanas após o início, no item sobre eventos adversos, e hemograma no 30º e no 60º dia, no item sobre farmacovigilância. A janela em que a depressão medular aparece é o intervalo do 20º ao 30º dia, de modo que o primeiro prazo a antecipa e o segundo a alcança no limite. Na prática, o exame da terceira semana é o que protege a janela.

A dose de amiodarona também aparece duas vezes com números diferentes no mesmo protocolo: 200 a 400 mg ao dia na tabela de recomendações por condição arrítmica, e 200 mg/dia na tabela de fármacos para cardiopatia chagásica.

O protocolo da doença de Chagas publica variação de 22 a 71% para o risco de transmissão congênita. O número consta do documento, sem referência na própria frase, e fica registrado aqui sem ser usado em vinheta nem em questão.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Até que idade a transmissão vertical da doença de Chagas é notificada como caso agudo

Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada: até 3 anos

Para fins de vigilância e notificação, considera-se caso de transmissão vertical em fase aguda a criança de até 3 anos de idade, descartadas as outras prováveis formas de transmissão; após essa idade, o caso deve ser notificado como crônico. A mesma regra reaparece no item de notificação, que manda notificar como doença de Chagas aguda os casos de transmissão vertical identificados até os 3 anos.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde, volume 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Doença de Chagas, seções 'Caso confirmado de DCA' e 'Notificação'

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas, 2018: até dois anos

Indivíduos suspeitos na fase aguda devem ser notificados pela esfera municipal à estadual em até 24 horas e registrados no Sinan, incluindo os casos de transmissão materno-fetal identificados até dois anos de idade.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SCTIE nº 57, de 30 de outubro de 2018 — PCDT da doença de Chagas, seção 'Vigilância em saúde'

O que este capítulo adota

Adota-se o limite de 3 anos, por ser o do documento mais recente e o que rege a definição de caso e a ficha do Sinan. O protocolo de 2018 é anterior à edição revisada do Guia e conserva o limite de dois anos.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde, volume 2, 6. ed. rev., 2024 — documento vigente e mais recente entre os dois

Na prova

Quando a banca quiser cobrar esse limite, ela vai citar a fonte no enunciado ou dar uma criança com idade bem afastada da fronteira — dois meses, ou seis anos. Se a idade cair exatamente entre 2 e 3 anos sem que o enunciado nomeie o documento, a questão está no ponto de atrito entre dois textos do Ministério da Saúde e a decisão do avaliador é imprevisível: o recorte a farejar é a palavra 'Guia' ou 'PCDT' no enunciado, ou a menção ao Sinan, que segue o Guia.

Que proporção dos infectados por T. cruzi desenvolve forma cardíaca ou digestiva

Guia de Vigilância em Saúde: cerca de 30% de forma cardíaca e cerca de 10% de forma digestiva

A forma cardíaca 'ocorre em cerca de 30% dos casos crônicos e é considerada responsável pela maior frequência de óbitos na doença de Chagas crônica'. A forma digestiva, que pode evoluir para megacólon e megaesôfago, 'ocorre em cerca de 10% dos casos'. Somadas, as duas passam de 40% dos casos crônicos.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde, volume 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Doença de Chagas, seção 'Fase crônica'

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: 10 a 30% no total

De uma a três décadas após a infecção aguda, 10 a 30% das pessoas com doença de Chagas evoluem para as formas cardíacas, digestivas e cardiodigestivas, com importante impacto na morbimortalidade e na qualidade de vida.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SCTIE nº 57, de 30 de outubro de 2018 — PCDT da doença de Chagas, seção 6.2 'Tratamento das complicações clínicas da doença de Chagas'

O que este capítulo adota

Os dois números aparecem, cada um atribuído ao seu documento, e nenhum é usado como resposta única. O teto de 30% do protocolo, que engloba as três formas, é aritmeticamente incompatível com os 30% mais 10% do Guia — de modo que a divergência não se resolve por leitura, e sim por escolha de fonte.

Comparação direta entre o Guia de vigilância em saúde, volume 2, 6. ed. rev. (2024) e o PCDT da doença de Chagas (2018)

Na prova

Enunciado que peça 'a proporção de infectados que evolui para a forma cardíaca' quase sempre reproduz o número do Guia, 30%, porque é o que os manuais de vigilância repetem. Quando o enunciado disser 'do total de infectados' e a alternativa oferecer uma faixa ampla, o recorte é o do protocolo. O sinal a farejar é se a pergunta separa as formas ou as soma.

Dose acumulada de anfotericina B lipossomal na leishmaniose mucosa

Texto corrente do Manual de 2017, primeira escolha: 35 a 40 mg/kg

A anfotericina B lipossomal é indicada como primeira escolha para pacientes acima de 50 anos, com insuficiência renal, cardíaca ou hepática, transplantados renais e gestantes; o protocolo recomendado é de 2 a 3 mg/kg/dia por infusão venosa, em dose única diária, sem limite de dose máxima diária, até atingir a dose total de 35 a 40 mg/kg.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de vigilância da leishmaniose tegumentar, 2017, item 6.2.5 'Leishmaniose mucosa'

Texto corrente do mesmo manual, segunda escolha: 25 a 40 mg/kg

Entre os medicamentos de segunda escolha para a forma mucosa: anfotericina B lipossomal, de 3 a 5 mg/kg/dia por infusão venosa, em dose única diária, sem limite de dose máxima diária, até atingir a dose total de 25 a 40 mg/kg.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de vigilância da leishmaniose tegumentar, 2017, item 6.2.5, lista de medicamentos de segunda escolha

Quadro 17 do mesmo manual: 30 a 40 mg/kg

No quadro de esquemas terapêuticos da forma mucosa, a anfotericina B lipossomal aparece com 3 a 5 mg/kg/dia, sem limite de dose máxima diária, até atingir a dose total de 30 a 40 mg/kg.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de vigilância da leishmaniose tegumentar, 2017, Quadro 17 — Esquema terapêutico para a forma mucosa de leishmaniose tegumentar

Na prova

Os três números convergem no teto de 40 mg/kg e divergem apenas no piso — 25, 30 ou 35 mg/kg. Questão que cobre a dose acumulada da lipossomal na forma mucosa e ofereça essas três opções está pedindo memória de parágrafo, não conhecimento clínico. O que a prova cobra de verdade nesse trecho é outra coisa: quem troca o antimonial pela lipossomal, e por quê. O recorte a farejar é se o enunciado nomeia a faixa etária ou a comorbidade — aí a pergunta é de indicação, e a dose é distrator.

06

Caso resolvido

Homem de 34 anos, 72 kg, morador de comunidade ribeirinha no Pará, procura a unidade básica com febre de 38,9 °C há nove dias, mialgia, cefaleia, edema de face e dispneia aos médios esforços. Refere que a esposa e dois vizinhos adoeceram na mesma semana, com quadro parecido; os quatro consumiram açaí batido artesanalmente, comprado na feira, 12 dias antes. Ao exame: temperatura 38,7 °C, frequência cardíaca 112 bpm, pressão arterial 104x66 mmHg, edema bipalpebral BILATERAL, hepatomegalia a 3 cm do rebordo costal, esplenomegalia discreta, bulhas hipofonéticas. Eletrocardiograma com taquicardia sinusal e alterações difusas de repolarização. Hemograma com 9.800 leucócitos/mm³ e plaquetas de 148.000/mm³; alanina aminotransferase 96 U/L. Teste rápido para HIV não reagente.
achado
Quatro pessoas do mesmo convívio adoeceram na mesma semana, doze dias depois de compartilharem um único alimento in natura preparado artesanalmente. Esse é o desenho que o Guia descreve para a transmissão oral: infecção em espaço geográfico definido, em tempo restrito, por ingestão de fonte comum. Doze dias cai dentro da janela de incubação da via oral, que é de 3 a 22 dias.
leitura do exame físico
O edema bipalpebral é BILATERAL — não é sinal de Romaña, que é unilateral e traduz porta de entrada vetorial. Na transmissão oral não se espera porta de entrada, e o edema de face aqui pertence à síndrome específica da fase aguda, ao lado da hepatoesplenomegalia leve a moderada e dos sinais de miocardite: taquicardia, bulhas hipofonéticas, dispneia e alterações difusas de repolarização. A elevação de aminotransferase é descrita entre os achados dos surtos por via oral.
classificação
É caso suspeito de doença de Chagas aguda pela definição do Guia: febre persistente por mais de sete dias, com edema de face, hepatomegalia, esplenomegalia e cardiopatia aguda, associada ao fator epidemiológico de ingestão de alimento suspeito — fruto in natura sem manipulação e processamento adequados. Os três vizinhos assintomáticos que consumiram o mesmo açaí em surto recente também são casos suspeitos, mesmo sem febre.
exame que confirma
Parasitológico direto no sangue periférico, com mais de um método ao mesmo tempo. Com nove dias de sintomas e paciente febril, a situação é a ideal para a pesquisa a fresco de tripanossomatídeos; associa-se um método de concentração. Sorologia é colhida e enviada ao Laboratório Central de Saúde Pública, mas como complemento: ela exigiria duas amostras com intervalo mínimo de 15 dias para demonstrar soroconversão ou aumento de duas ou mais diluições, e o tratamento não pode esperar. Se a primeira coleta parasitológica vier negativa, repete-se até confirmar, até os sintomas cederem ou até outra hipótese fechar.
notificação
Imediata, em até 24 horas, para a Secretaria Estadual e para a Secretaria Municipal de Saúde, já como caso suspeito, pela Ficha de Investigação de Doença de Chagas Aguda no Sinan. Como se trata de surto por transmissão oral, além da notificação individual de cada caso, preenche-se a Ficha de Investigação de Surto de doenças transmitidas por alimentos, também no Sinan.
tratamento
Benznidazol imediato, porque fase aguda se trata em todas as faixas etárias. A 5 mg/kg/dia, os 72 kg dão 360 mg por dia durante 60 dias. Como o paciente pesa mais de 60 kg, cabe a alternativa que limita a dose diária a 300 mg e estende o tempo pelo número de dias equivalente ao peso: 300 mg/dia por 72 dias. Os dois caminhos entregam exatamente os mesmos 21.600 mg de benznidazol — 360 vezes 60 e 300 vezes 72 —, e o segundo apenas baixa o pico diário. Bebida alcoólica é proibida durante todo o tratamento, pelo efeito antabuse.
vigilância no território
Confirmado o caso agudo, solicita-se à vigilância epidemiológica municipal a medida de controle no local provável de infecção. Na transmissão oral isso significa vigilância ambiental com investigação entomológica e de potenciais reservatórios, mais inspeção sanitária para avaliar o alimento provavelmente contaminado — no caso, o ponto de despolpa e venda do açaí — e ações de educação em saúde necessariamente associadas.
seguimento
Farmacovigilância laboratorial: exame clínico, hemograma completo, função renal e enzimas hepáticas no início do tratamento, repetidos no 30º e no 60º dia — sabendo que a depressão medular pelo benznidazol aparece entre o 20º e o 30º dia. Dermopatia por volta do 10º dia continua o tratamento se leve; interrompe se grave. Cura é sorológica: sorologia convencional IgG anual por cinco anos, encerrando quando dois exames sucessivos forem não reagentes. A dispneia e as alterações de repolarização pedem reavaliação cardiológica — internação está indicada em casos de maior comprometimento geral, cardiopatia de moderada a grave, quadros hemorrágicos e meningoencefalite.
07

Agora feche você

Homem de 52 anos, 58 kg, agricultor, procedente de município do norte de Minas Gerais com transmissão conhecida de leishmaniose visceral. Interna com febre há 40 dias, perda de 11 kg no período, astenia intensa e aumento progressivo do volume abdominal. Ao exame: temperatura 38,4 °C, palidez cutâneo-mucosa, icterícia leve, baço palpável a 8 cm do rebordo costal esquerdo, fígado a 4 cm, sem edema e sem dispneia. Relata epistaxe há dois dias, sem outros sítios de sangramento. Exames: hemoglobina 7,4 g/dL, leucócitos 1.900/mm³, plaquetas 62.000/mm³, creatinina 0,9 mg/dL, alanina aminotransferase 62 U/L, albumina 2,3 g/dL, INR 1,20. Teste rápido imunocromatográfico para leishmaniose visceral REAGENTE. Sorologia para HIV não reagente. Eletrocardiograma com QT corrigido de 420 ms.
confirme o diagnóstico
Verifique se o teste já disponível encerra a etapa diagnóstica ou se ainda falta um exame invasivo. Releia o que o Guia diz sobre o resultado reagente do teste rápido imunocromatográfico.
some o escore clínico
Percorra as variáveis do modelo clínico para pacientes com mais de 2 anos, uma a uma: idade, número de sítios de sangramento, aids, edema, icterícia, dispneia e infecção bacteriana. Anote o total.
some o escore clínico-laboratorial
Acrescente ao total anterior as três variáveis laboratoriais, conferindo cada corte contra o valor do paciente: leucócitos abaixo de 1.500/mm³, plaquetas abaixo de 50.000/mm³ e insuficiência renal. Repare que a aids muda de peso entre os dois modelos.
decida o lugar do tratamento
Compare cada total com o seu corte. Lembre que os dois cortes são alternativos, não cumulativos.
escolha o fármaco
Percorra a lista de indicações da anfotericina B lipossomal e veja quantos itens este paciente preenche. Depois calcule a dose diária nos dois esquemas possíveis e converta em frascos de 50 mg.
verifique o que NÃO pontua
Confira hemoglobina, INR e albumina contra os critérios: nem todos entram no escore, e um deles passa raspando pelo operador de comparação. Diga qual.
notifique
Diga a periodicidade e o sistema.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir sorologia para confirmar doença de Chagas aguda É o distrator mais frequente do tema, porque sorologia é o que o candidato associa à doença de Chagas. Mas na fase aguda o parasito está circulando e os anticorpos ainda estão subindo: o exame indicado é o parasitológico direto no sangue periférico, em mais de um método ao mesmo tempo. A sorologia entra como complemento e, mesmo assim, exige duas coletas com intervalo mínimo de 15 dias para demonstrar soroconversão ou aumento de duas ou mais diluições — o que não resolve um surto que precisa de tratamento imediato. O antídoto é datar a exposição antes de escolher o exame.
  2. 2Exigir sinal de Romaña ou chagoma para levantar a hipótese Os sinais de porta de entrada são característicos da transmissão vetorial e, nas palavras do Guia, menos frequentes. Numa vinheta de surto oral eles simplesmente não estarão lá — e é justamente a transmissão oral que domina o cenário brasileiro atual e que cursa com maior morbimortalidade. O inverso também engana: reação inflamatória no local da picada pode ser alergia ao triatomíneo, sem infecção por T. cruzi.
  3. 3Calcular o antimonial pelo volume da ampola ou pelo peso do sal A ampola de 5 mL traz 1.500 mg do sal bruto, isto é, 300 mg/mL — e esse é o número que a bula exibe. A dose, porém, é prescrita em antimônio pentavalente: 405 mg por ampola, 81 mg por mililitro. Quem usa os 300 mg/mL erra por um fator de aproximadamente 3,7. O antídoto é converter antes de multiplicar e conferir contra o teto de três ampolas ao dia, que corresponde a 1.215 mg de Sb⁵⁺ e a 15 mL.
  4. 4Passar por cima do teto diário para atingir a dose por quilo A 20 mg de Sb⁵⁺/kg/dia, um paciente de 70 kg precisaria de 1.400 mg — mas o teto é 1.215 mg, três ampolas. Alternativa que oferece quatro ampolas, ou que apresenta a conta de 1.400 mg como se fosse prescritível, está errada pelo teto e não pela aritmética. Vale saber onde ele começa a morder: 60,75 kg a 20 mg/kg/dia e 81 kg a 15 mg/kg/dia.
  5. 5Prescrever antimonial a quem a lista já excluiu Idade a partir de 50 anos, insuficiência renal, cardíaca ou hepática, transplante e gestação tiram o antimonial da primeira linha e colocam a anfotericina B lipossomal. Na leishmaniose visceral a lista é ainda maior e inclui idade abaixo de 1 ano, QT corrigido acima de 450 ms, uso de fármacos que alteram o QT, infecção pelo HIV, imunossupressão e os cortes de escore de gravidade. Ler a idade e as comorbidades da vinheta antes de escolher o fármaco resolve boa parte das questões de leishmaniose.
  6. 6Tratar leishmaniose visceral no ambulatório quando o escore já internou o paciente O antimoniato de meglumina pode ser dado em nível ambulatorial, e isso é vantagem. Mas escore clínico maior ou igual a 4, ou clínico-laboratorial maior ou igual a 6, identifica risco aumentado de óbito e manda tratar em regime hospitalar — além de entrar na lista que troca o fármaco pela anfotericina B lipossomal. Um homem acima de 40 anos com icterícia e um sítio de sangramento já soma quatro pontos sem nenhum exame de laboratório.
  7. 7Ler dor na úlcera como argumento contra leishmaniose A úlcera típica é indolor, mas a infecção bacteriana secundária é relativamente comum e é ela a responsável pelas queixas de dor, além de produzir exsudato seropurulento que, ao dessecar em crostas, recobre o fundo. Dor, portanto, não afasta o diagnóstico: pede cuidado local — limpeza com água e sabão, compressa de permanganato de potássio na diluição de 1 para 5.000 — e mantém a investigação parasitológica.
  8. 8Esperar a confirmação para notificar a doença de Chagas aguda A notificação da doença de Chagas aguda é imediata, em até 24 horas, para a Secretaria Estadual e para a Secretaria Municipal de Saúde, e alcança o caso SUSPEITO — o que faz sentido, porque é a investigação que interrompe o surto. Já a doença de Chagas crônica é de notificação semanal, no e-SUS Notifica, e só depois de confirmado o diagnóstico. As duas leishmanioses são semanais, no Sinan. Alternativa que uniformiza as quatro linhas está errada.
  9. 9Tratar sorologia positiva sem doença na leishmaniose visceral Títulos sorológicos podem persistir positivos por longo período depois do tratamento, e o Guia é explícito: teste positivo na ausência de manifestações clínicas não autoriza terapêutica. Quem tem sorologia reagente ou parasitológico positivo sem clínica é classificado como infecção — e esses casos não devem ser notificados nem tratados.
  10. 10Esperar que o benznidazol desfaça o dano já instalado O tratamento etiológico interrompe a evolução da infecção, mas as lesões tardias com fibrose instalada não se revertem. Não há evidência de benefício antiparasitário sobre a evolução da doença digestiva, e não há indicação de tratar cardiopatia chagásica avançada. Alternativa que promete regressão de megaesôfago ou recuperação de função ventricular com benznidazol contraria o texto do protocolo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Febre prolongada, emagrecimento, hepatoesplenomegalia volumosa, pancitopenia e hipergamaglobulinemia em morador de área endêmica do Nordeste é o quadro clássico de leishmaniose visceral (calazar). Esquistossomose hepatoesplênica cursa com hipertensão portal e esplenomegalia, mas sem febre prolongada e pancitopenia com hipergamaglobulinemia dessa forma. Linfoma pode dar febre e visceromegalia, mas a epidemiologia e a pancitopenia com hipergamaglobulinemia apontam calazar. Tuberculose miliar dá febre e emagrecimento, mas não a esplenomegalia volumosa nem a hipergamaglobulinemia marcante. Malária não cursa com esse quadro crônico consumptivo com pancitopenia.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: (1) as quatro vias de transmissão da doença de Chagas que ainda importam no Brasil e o período de incubação de cada uma; (2) o exame que confirma a fase aguda e o que confirma a fase crônica, e por que não se trocam; (3) o par eletrocardiográfico que é a assinatura da forma cardíaca e o que ele obriga a pedir em seguida; (4) as cinco características da úlcera típica da leishmaniose cutânea; (5) quantos miligramas de antimônio pentavalente há numa ampola de 5 mL e qual é o teto diário em miligramas, ampolas e mililitros; (6) os dois cortes do escore de gravidade da leishmaniose visceral e o que cada um decide. Depois confira e marque só o que errou.

em 30 dias

Refaça o capítulo em voz alta, em quatro blocos. Primeiro, conte a vinheta do surto oral do começo ao fim: quantas pessoas, qual alimento, qual incubação, qual exame, em quanto tempo se notifica e para quem, qual dose de benznidazol para um adulto de 72 kg pelos dois esquemas possíveis — e por que os dois entregam a mesma coisa. Segundo, percorra a régua do tratamento etiológico por fase e faixa etária, dizendo em voz alta onde ele é obrigatório, onde é decisão compartilhada e onde não se trata, e termine explicando o que o benznidazol não desfaz. Terceiro, converta um antimonial: pegue um paciente de 70 kg com leishmaniose mucosa, calcule a dose-alvo em miligramas de Sb⁵⁺, compare com o teto, diga quantas ampolas e quantos mililitros saem, por quantos dias e com qual fármaco associado — e diga em que peso o teto começaria a limitar a 20 e a 15 mg/kg/dia. Quarto, some o escore de gravidade de um homem de 47 anos com leishmaniose visceral, icterícia e uma epistaxe, diga o total, diga se interna e diga qual fármaco a lista escolhe e por quê. Feche recitando as quatro linhas da notificação: doença de Chagas aguda, doença de Chagas crônica, leishmaniose tegumentar americana e leishmaniose visceral — periodicidade, destinatário e sistema de cada uma.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 34 anos, ribeirinho, chega à unidade básica com febre há nove dias, edema de face e dispneia. Conta que a esposa e dois vizinhos adoeceram na mesma semana, e que todos tomaram o mesmo açaí de feira doze dias antes. Colha a história alimentar com data, examine procurando porta de entrada e sinais de miocardite, escolha o exame certo para a janela em que ele está — e diga, em voz alta, para quem e em quanto tempo este caso precisa ser notificado. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doença de Chagas e leishmanioses — Preparatório para provas | OsceLabs