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Clínica MédicaInfectologia

Malária: diagnóstico e tratamento

O que mudou não foi o parasita: foi a pergunta que vem antes da receita. A 3ª edição do Guia de tratamento (2026) substituiu o velho par 'cloroquina mais primaquina' por uma bifurcação em três faixas de atividade de G6PD medidas em UI/gHb, e a prova cobra três coisas — qual exame confirma e qual exame atrasa o diagnóstico, qual faixa de G6PD abre a porta da tafenoquina em dose única e quais a fecham, e quem fica fora de toda 8-aminoquinolina: gestante, lactante do primeiro mês, criança abaixo de 5 kg ou de 6 meses.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 26 anos retorna de viagem à região amazônica há 12 dias e apresenta febre alta intermitente com calafrios e sudorese, cefaleia e mialgia. Ao exame: PA 110x70 mmHg, FC 98 bpm, T 39°C, palidez cutânea e esplenomegalia leve. A gota espessa confirma malária por Plasmodium falciparum, com parasitemia de 1% e sem sinais de gravidade. Qual é a conduta terapêutica de primeira linha no Brasil?

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Como esse tema cai

Malária não se trata sem laboratório e não se trata sem saber a espécie. Essas duas frases resolvem boa parte das questões, mas escondem a decisão que a banca realmente quer ver: no Plasmodium vivax, a escolha do medicamento que impede a recaída depende de um número que não é a parasitemia nem a hemoglobina — é a atividade da glicose-6-fosfato desidrogenase. O tratamento tem duas partes, e só a segunda alcança o hipnozoíto, a forma que dorme no fígado. Sem ela, cerca de 70% das pessoas recaem.

A 3ª edição do Guia de tratamento da malária no Brasil, de 2026, é o que torna este capítulo diferente do que se estudava até pouco tempo atrás. Ela deixou de tratar a G6PD como um sim-ou-não e passou a organizar o tratamento do vivax em três faixas quantitativas: atividade alta (maior ou igual a 6.1 UI/gHb) leva à tafenoquina em dose única; atividade intermediária (entre 4.1 e 6.0) leva à primaquina por sete dias; atividade baixa (menor ou igual a 4.0) leva à primaquina semanal por oito semanas, sob supervisão. O eixo do capítulo é esse: qual faixa, qual droga, quem fica de fora das três.

Três assuntos vizinhos ficam de fora, porque têm capítulo próprio. As regras de notificação da malária — o Sivep-Malária na região amazônica, o Sinan e a notificação imediata fora dela — estão no capítulo de vigilância das arboviroses e notificação compulsória, desta mesma apostila. A classificação da criança febril em área de risco pertence ao capítulo da estratégia AIDPI, na apostila de Emergências Pediátricas. E a cloroquina que aparece na reumatologia não é esta: aquela é a hidroxicloroquina, e a diferença entre as duas tem consequência de retina e de estoque, como se verá adiante.

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O que muda decisão

O diagnóstico é laboratorial — e há um exame que só atrasa

Caso suspeito é toda pessoa que resida em área com possibilidade de transmissão, ou que tenha se deslocado para uma, no período de 8 a 30 dias anteriores aos primeiros sintomas, e que apresente febre acompanhada ou não de cefaleia, calafrios, sudorese, cansaço e mialgia. Também é suspeito quem foi submetido ao exame durante investigação epidemiológica. Caso confirmado exige parasito no sangue com espécie identificada, por lâmina, teste rápido ou PCR. Caso descartado é o suspeito com exame negativo — e, havendo forte evidência epidemiológica, o exame se repete em 24 ou 48 horas.

A microscopia da gota espessa, colhida por punção digital e corada por Giemsa ou azul de metileno, é o padrão-ouro. Nas mãos de um profissional experiente detecta de 5 a 10 parasitos por microlitro; em condições de campo, a capacidade cai para 100 por microlitro. O esfregaço tem menos sensibilidade que a gota espessa e serve apenas para dúvida de morfologia ou de espécie — trocar um pelo outro como se fossem equivalentes é erro clássico de alternativa. O teste rápido entrega resultado em 15 minutos e, acima de 100 parasitos por microlitro, alcança sensibilidade de 95% ou mais contra a gota espessa; em compensação, não mede parasitemia.

Dois exames aparecem em prova pelo motivo errado. A PCR não é método de rotina, por custo e por tempo de resultado, mas tem uma consequência administrativa que se cobra: quando realizada, a testagem gera notificação compulsória independentemente do resultado. E a sorologia para anticorpos antiplasmódio não deve ser solicitada na suspeita de malária: ela mede exposição prévia, não distingue infecção atual de pregressa e, pedida no contexto clínico, retarda o diagnóstico e aumenta o risco de complicação. A única indicação de IgM anti-Plasmodium é a suspeita de esplenomegalia hiper-reativa da malária — baço volumoso, anemia, sem febre e com gota espessa negativa —, condição rara cujo tratamento é cloroquina semanal, 5 mg/kg por semana durante seis meses.

Duas perguntas frequentes do Guia viram alternativa com facilidade. Antitérmico e anti-inflamatório — dipirona, paracetamol, ibuprofeno, aspirina — não interferem na positividade da gota espessa, e não se deve adiar a coleta esperando o pico febril. Já antibióticos com atividade antiplasmódica — doxiciclina, tetraciclina, clindamicina, ciprofloxacino, sulfonamidas — podem baixar ou negativar a parasitemia; nesses pacientes, persistindo a febre, repete-se a gota espessa a cada 48 horas. Caldo de cana, suco adoçado e glicemia alta não aumentam parasitemia, e coleta venosa não rende mais que a punção digital bem feita, com desprezo da primeira gota.

A febre terçã é a exceção, não a regra

O período de incubação separa as espécies: 8 a 12 dias para Plasmodium falciparum, 13 a 17 para Plasmodium vivax, 18 a 30 para Plasmodium malariae. O ciclo eritrocitário se repete a cada 48 horas em vivax e falciparum e a cada 72 horas em malariae, e é esse relógio que produz a febre periódica quando as gerações de parasitos se sincronizam. A crise aguda dura de 6 a 12 horas, com calafrio, febre que pode passar de 40 °C e sudorese.

O ponto que a banca explora é o inverso: nem sempre se observa o padrão clássico de febre a cada dois dias, e não se deve aguardar esse padrão para pensar no diagnóstico. Depois dos primeiros paroxismos a febre costuma virar intermitente, e há pacientes que chegam sem febre alguma — só com cefaleia, mialgia, artralgia, mal-estar, fadiga ou falta de apetite. Qualquer sintoma em quem esteve em área de transmissão indica gota espessa.

Há uma assimetria entre as espécies que explica por que o tratamento do falciparum tem urgência epidemiológica maior: no vivax os gametócitos circulam desde o primeiro dia de sintomas, enquanto no falciparum eles costumam aparecer na periferia só depois de sete dias de infecção. Diagnosticar e tratar cedo um falciparum ainda alcança a janela em que ele não infecta o mosquito; no vivax essa janela já passou quando o paciente chega.

Gestantes, crianças e primoinfectados evoluem mal com mais frequência, sobretudo no falciparum, que responde pela maioria dos casos letais. Mas o vivax também mata — por ruptura espontânea ou traumática do baço, por complicação respiratória e por anemia grave, em especial em pacientes com comorbidades ou debilitados. E não é raro que a forma complicada de vivax, com icterícia ou sangramento, esconda uma coinfecção, sendo a dengue a mais citada.

Antes da receita, o número da G6PD

Só o vivax e o ovale têm hipnozoítos, e só as 8-aminoquinolinas — primaquina e tafenoquina — alcançam essa forma. Uma única picada pode gerar vários episódios subsequentes, e sem o uso correto dessas drogas as recaídas acometem cerca de 70% das pessoas. Daí o nome do objetivo: cura radical, que soma a eliminação das formas sanguíneas à das formas hepáticas.

O preço dessa segunda parte é a hemólise. A G6PD protege a hemácia do estresse oxidativo, e quem tem atividade baixa e recebe primaquina ou tafenoquina pode desenvolver anemia hemolítica aguda — anemia, fadiga, icterícia e, o primeiro sinal, urina escura cor de café ou de refrigerante de cola. Num estudo conduzido na Amazônia brasileira, em média 5% da população local tem baixa atividade da enzima: cinco em cada cem pessoas. A herança é ligada ao cromossomo X, atinge ambos os sexos, e as manifestações clínicas mais relevantes ocorrem principalmente em homens.

Por isso a 3ª edição tornou obrigatória a testagem quantitativa da G6PD antes de definir o esquema do vivax, para todo paciente com 10 kg ou mais e mais de 2 anos. O resultado, em unidades internacionais por grama de hemoglobina, cai numa de três faixas. Maior ou igual a 6.1 UI/gHb é atividade alta: cloroquina por três dias mais tafenoquina em dose única. Entre 4.1 e 6.0 é atividade intermediária: cloroquina por três dias mais primaquina 0,5 mg/kg/dia por sete dias. Menor ou igual a 4.0 é atividade baixa: cloroquina por três dias mais primaquina 0,75 mg/kg por semana, durante oito semanas, com a primeira dose já no dia 1, junto da cloroquina, e de preferência sob supervisão.

Repare no que a faixa baixa faz, porque é contraintuitivo e por isso cobrável: ela não reduz a dose total de primaquina, ela a espalha. Sete dias a 0,5 mg/kg somam 3,5 mg/kg; oito semanas a 0,75 mg/kg somam 6 mg/kg. O paciente com G6PD baixa recebe mais primaquina ao longo do tratamento, não menos — o espaçamento é que dá à medula tempo de repor as hemácias entre uma dose e outra. É também por isso que esse esquema exige acompanhamento pela equipe até a oitava dose.

As contas que resolvem a questão de dose

A cloroquina é fixa e não se ajusta ao peso real: 10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3, somando 25 mg/kg de dose total. O motivo é farmacocinético e o Guia o explica numa das perguntas frequentes — a cloroquina não se distribui no tecido gorduroso, então sua dose se calcula pelo peso ideal. A primaquina faz o contrário: distribui-se por todos os tecidos, inclusive o gorduroso, e por isso se calcula pelo peso real, sem limite máximo. Pacientes acima do peso que recebem primaquina em dose habitual recaem mais; acima de 120 kg, calcula-se 0,5 mg/kg/dia.

O curso brasileiro de primaquina é de sete dias, e a conta explica por quê. Sete dias a 0,5 mg/kg/dia entregam 3,5 mg/kg — exatamente o mesmo total dos catorze dias a 0,25 mg/kg/dia do esquema clássico. Não é uma dose menor comprimida: é a mesma dose total num intervalo mais curto, escolhida no Brasil para melhorar a adesão, e o esquema de 0,25 mg/kg por 14 dias não se mostrou superior ao de 7 dias.

O tratamento da recorrência é o único que dobra a conta. Quando o vivax reaparece em até 60 dias, o esquema passa a ser ASMQ ou arteméter com lumefantrina por três dias, mais primaquina 0,5 mg/kg/dia por catorze dias: 7 mg/kg de dose total, o dobro do curso inicial, porque é o regime com maior eficácia contra o hipnozoíto. E há uma trava: não se usa tafenoquina no tratamento de recorrência.

A tafenoquina é dose única, e a quantidade acompanha o peso: 300 mg no adulto, com dois comprimidos de 150 mg. Nas faixas menores, o comprimido é o de 50 mg — dois deles, 100 mg, na faixa de 10 a 20 kg; quatro deles, 200 mg, na faixa de 21 a 34 kg. Ela fica proibida em sete situações que vale decorar como bloco: peso abaixo de 10 kg, idade abaixo de 2 anos, gestação, amamentação em qualquer tempo, atividade de G6PD baixa ou intermediária, tratamento de recorrência e infecção por falciparum ou mista. Some-se a oitava, que vem do hemograma: hemoglobina menor ou igual a 7 g/dL também contraindica.

Fluxograma do tratamento da malária por Plasmodium vivax com as três faixas de atividade de G6PD e o esquema correspondente a cada uma.
As três faixas de G6PD da 3ª edição do Guia de tratamento. O que muda entre elas é apenas a segunda parte — a que alcança o hipnozoíto. A cloroquina por três dias é comum às três.

Quem fica fora das três faixas

Gestante não recebe primaquina nem tafenoquina, e a razão não é teratogenicidade: nenhuma das duas causa malformação ou aborto. O risco é hemólise grave no feto, cuja atividade de G6PD é desconhecida. O esquema da gestante com vivax é cloroquina por três dias seguida de cloroquina profilática semanal, 5 mg/kg por dose até o máximo de dois comprimidos, mantida até completar um mês de amamentação. Como dois comprimidos somam 300 mg, o teto só passa a valer acima de 60 kg — abaixo disso vale a conta por peso.

Depois de completado esse primeiro mês de amamentação, repete-se o exame. Espera-se que esteja negativo em quem usou a cloroquina semanal corretamente: nesse caso basta completar o esquema com primaquina por sete dias. Se vier positivo, prescreve-se o tratamento completo — cloroquina por três dias mais primaquina por sete dias. A lactante pode receber primaquina a partir do segundo mês de amamentação, porque a concentração excretada no leite é mínima; a tafenoquina, essa permanece vetada durante toda a amamentação, independentemente do tempo.

Há ainda os limites pediátricos, e eles não coincidem. Primaquina é vetada abaixo de 5 kg ou de 6 meses. Tafenoquina é vetada abaixo de 10 kg ou de 2 anos. Cloroquina não deve ser dada em comprimido fracionado abaixo de 10 kg ou de 1 ano. E a criança de até 6 meses, ainda que pese mais de 5 kg, deve ser tratada apenas com terapia combinada baseada em artemisinina — ASMQ ou arteméter com lumefantrina. Três cortes diferentes para três drogas: é aí que a alternativa erra de propósito.

Também merece registro a razão pela qual a gestante recebe cloroquina semanal em vez de simplesmente esperar. A primaquina tem ação sinérgica com a cloroquina contra as formas assexuadas; quando ela não entra, o clareamento da parasitemia é mais lento e cresce a chance de recrudescência dentro dos primeiros 42 dias. A cloroquina semanal bloqueia essa recrudescência enquanto está em uso — mas não impede a recaída depois que se interrompe, e é por isso que a primaquina entra assim que pode.

Falciparum: uma droga para curar, outra para não transmitir

No falciparum o tratamento é uma terapia combinada baseada em artemisinina. O Guia recomenda ASMQ — artesunato com mefloquina — como primeira opção, ou arteméter com lumefantrina, conforme a disponibilidade local; eficácia e segurança são bastante semelhantes. A vantagem do ASMQ é ter administração diária única, o que ajuda a adesão, e uma apresentação pediátrica em comprimido que se degrada em água. A meia-vida longa da mefloquina ainda oferece profilaxia pós-tratamento, e o fracionamento da dose em três dias torna os eventos neuropsiquiátricos mais raros e mais brandos.

Sobre esse ACT entra a primaquina em dose única de 0,5 mg/kg no primeiro dia — e aqui está o detalhe que a prova adora: independentemente da atividade da G6PD, por se tratar de dose baixa. Ela não está ali para curar o paciente, está para eliminar os gametócitos maduros circulantes e bloquear a transmissão ao mosquito. Administra-se de forma sistemática ainda que nenhum gametócito apareça na gota espessa, porque os derivados de artemisinina agem sobretudo sobre gametócitos imaturos, e os maduros podem circular por semanas ou meses. As exceções são as de sempre: menores de 6 meses e gestantes.

Quem vive fora da Amazônia e tem falciparum também faz a dose única de primaquina, e o motivo é territorial: gametócito circulante em área não endêmica pode infectar vetores locais e dar origem a um surto onde não havia transmissão. As falhas têm janelas próprias — falha após ASMQ em até 28 dias troca-se para arteméter com lumefantrina; falha após arteméter com lumefantrina em até 42 dias troca-se para ASMQ. Gota espessa positiva mais de 42 dias depois do tratamento trata-se como caso novo, mesmo em paciente assintomático.

Uma situação tem conduta administrativa, não farmacológica: gota espessa ainda positiva no dia 5 com formas assexuadas — não apenas gametócito — em paciente com adesão garantida deve ser comunicada imediatamente ao gestor municipal, ao estadual e à Coordenação-Geral de Eliminação da Malária, pela possibilidade de resistência à artemisinina, que até aqui não foi detectada no País. Quanto à gestação, os ACT podem ser usados ao longo de toda ela, inclusive no primeiro trimestre, com morbimortalidade menor que a do tratamento com quinina.

Malária grave é emergência, e a dose muda com o peso

Qualquer paciente com exame positivo que apresente um dos sinais do quadro de gravidade é doente grave. Do lado clínico: dor abdominal intensa, que no vivax levanta a hipótese de ruptura de baço; icterícia; mucosas muito hipocoradas; diurese abaixo de 400 mL em 24 horas; vômitos persistentes que impeçam a via oral; qualquer sangramento; falta de ar; cianose; taquicardia; convulsão ou desorientação; prostração na criança; comorbidade descompensada. Três desses — mucosas hipocoradas, falta de ar e taquicardia — só valem se avaliados fora do acesso febril, e convulsão ou desorientação não devem ser confundidas com o próprio paroxismo.

Do lado laboratorial: hemoglobina menor ou igual a 7 g/dL no adulto, hipoglicemia, acidose metabólica, insuficiência renal, hiperlactatemia e hiperparasitemia acima de 250.000 por mm³ para falciparum. A avaliação inicial pede glicemia, hemograma, quantificação da parasitemia no falciparum, gasometria arterial e função renal e hepática, com registro do escore de coma — Glasgow no adulto, Blantyre na criança. O caso se conduz como sepse, e antibiótico de amplo espectro deve ser reavaliado a todo momento pela possibilidade de coinfecção bacteriana.

O antimalárico da forma grave é o artesunato injetável, intravenoso ou intramuscular, por no mínimo 24 horas, até que a via oral seja possível — e vale para adultos, crianças, lactentes e gestantes em qualquer trimestre e na amamentação. A dose inverte a intuição: criança com menos de 20 kg recebe dose maior por quilo, 3,0 mg/kg, enquanto crianças acima de 20 kg e adultos recebem 2,4 mg/kg, e a razão é garantir exposição equivalente ao medicamento.

Se o artesunato injetável não estiver disponível para uso imediato, usa-se algum ACT acessível até que ele chegue; a clindamicina intravenosa, 20 mg/kg/dia divididos em três doses por sete dias, é alternativa, com a ressalva de ação esquizonticida lenta. Não conseguindo o paciente tomar medicação oral, mantém-se o parenteral a cada 24 horas por no máximo sete dias. Assim que a via oral voltar, prescreve-se o esquema da espécie; se houver diagnóstico anterior em até 60 dias, o oral é ACT por três dias — ASMQ de preferência — com primaquina por catorze.

Depois da receita: verificação de cura e o efeito que imita hepatite

O controle de cura se faz com a Lâmina de Verificação de Cura, e a periodicidade depende do cenário de transmissão. Em área de baixa transmissão, definida como menos de 100 casos autóctones por ano, o falciparum é reavaliado nos dias 5, 8, 15, 22, 28 e 43, e o vivax ou a infecção mista nos dias 5, 8, 15, 22, 28, 43 e 64, contando o dia 1 como o primeiro dia de tratamento. Em áreas de moderada e de alta transmissão o esquema é otimizado para apenas dois pontos, dia 5 e dia 28, para todas as espécies.

A verificação de cura é por lâmina, e há uma razão para isso: o teste rápido não serve para acompanhamento de cura, porque pode permanecer positivo mesmo sem parasitas viáveis, gerando falso diagnóstico de resistência. Recomenda-se inclusive cautela com o uso do teste rápido até um mês depois de um diagnóstico prévio confirmado. Trocar lâmina por teste rápido no seguimento é uma das trocas mais fáceis de esconder numa alternativa.

As recorrências têm nomes com janelas fixas, e a prova cobra o nome. Recrudescência é a recorrência a partir de formas sanguíneas, geralmente entre o dia 5 e o dia 28 — sugere abandono, esquema inadequado, vômito ou resistência. Recaída é a recorrência a partir de formas hepáticas, do dia 29 ao dia 60, e é o hipnozoíto de vivax ou ovale cobrando a segunda parte que não foi feita. Reinfecção é o que acontece após o dia 60, por nova picada. Diante de qualquer uma, investigam-se antes a adequação do esquema ao peso, a adesão e os deslocamentos dos últimos dois meses.

Entre os eventos adversos, dois se confundem com a própria doença. A hemólise por primaquina ou tafenoquina em quem tem G6PD baixa costuma aparecer depois de dois dias de uso, e o primeiro sinal é o escurecimento da urina — mal-estar, fadiga, icterícia, redução da diurese e até febre podem seguir, e o quadro é frequentemente lido como anemia da malária ou hepatite pós-malária. O segundo é a anemia tardia pós-artemisinina: hemólise súbita 10 a 21 dias após o tratamento, com desidrogenase láctica elevada e sem parasitemia, mais comum em primoinfectados com parasitemia alta. Ambos se notificam à Anvisa pelo VigiMED, sistema em que qualquer pessoa pode notificar. E o prurido da cloroquina, que atinge cerca de 20% dos pacientes, raramente exige suspensão: é transitório, costuma repetir-se em administrações futuras e pode ser contornado fracionando a dose diária.

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Da gota espessa à receita: espécie primeiro, G6PD depois

A sequência abaixo é a ordem em que a decisão precisa ser tomada, e não a ordem em que os dados chegam. Confirmar que existe parasito e qual é a espécie; procurar sinal de gravidade, porque ele muda a via antes de mudar a droga; e só então, no vivax, perguntar pelo número da G6PD, que é o que escolhe a segunda parte do tratamento.

  1. 1PASSO 0 — HÁ EXPOSIÇÃO? Residência em área com possibilidade de transmissão, ou deslocamento para uma, de 8 a 30 dias antes dos primeiros sintomas. Sem esse dado, o diagnóstico não é lembrado — e é o atraso, não o parasito, que produz a maioria das formas graves fora da Amazônia.
  2. 2PASSO 1 — CONFIRMAR NO LABORATÓRIO, SEM ESPERAR A FEBRE. Gota espessa é o padrão-ouro (5 a 10 parasitos/µL com microscopista experiente; 100/µL em campo). Teste rápido em 15 minutos, com sensibilidade de 95% ou mais acima de 100 parasitos/µL. Antitérmico não atrapalha a coleta; não adie por causa dele.
  3. 3NÃO PEÇA SOROLOGIA. Ela mede exposição prévia, não separa infecção atual de pregressa e atrasa o tratamento. IgM anti-Plasmodium tem uma indicação só: suspeita de esplenomegalia hiper-reativa — baço volumoso, anemia, sem febre, gota espessa negativa.
  4. 4PASSO 2 — QUAL ESPÉCIE? É a espécie que decide se existirá uma segunda parte do tratamento. Vivax e ovale têm hipnozoíto e exigem cura radical; falciparum e malariae, não. No falciparum, quantifique a parasitemia.
  5. 5PASSO 3 — HÁ SINAL DE GRAVIDADE? Percorra o quadro clínico e o laboratorial antes de escolher o comprimido. Avalie mucosas, dispneia e frequência cardíaca FORA do acesso febril, sob pena de chamar de grave o paroxismo.
  6. 6SE GRAVE — ARTESUNATO INJETÁVEL, IV ou IM, por no mínimo 24 horas: 3,0 mg/kg/dose abaixo de 20 kg; 2,4 mg/kg/dose de 20 kg para cima e no adulto. Vale em qualquer trimestre de gestação. Sem artesunato à mão, use um ACT acessível; a clindamicina IV 20 mg/kg/dia em três doses por sete dias é alternativa de ação lenta.
  7. 7PASSO 4A — FALCIPARUM (ou mista): ACT por três dias, ASMQ como primeira opção ou arteméter com lumefantrina, MAIS primaquina em dose única de 0,5 mg/kg no dia 1 — independentemente da G6PD, porque a dose é baixa e o alvo é o gametócito. Exceções: menores de 6 meses e gestantes.
  8. 8PASSO 4B — VIVAX (ou ovale): TESTE A G6PD antes de escolher, obrigatoriamente, em quem tem 10 kg ou mais e mais de 2 anos. Cloroquina por três dias é comum às três faixas: 10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3.
  9. 9PASSO 5 — A SEGUNDA PARTE, PELA FAIXA. 6.1 UI/gHb ou mais: tafenoquina dose única. Entre 4.1 e 6.0: primaquina 0,5 mg/kg/dia por 7 dias. 4.0 ou menos: primaquina 0,75 mg/kg/semana por 8 semanas, supervisionada.
  10. 10PASSO 6 — QUEM NÃO ENTRA EM NENHUMA FAIXA. Gestante: cloroquina 3 dias mais cloroquina semanal 5 mg/kg (máximo 2 comprimidos) até um mês de amamentação. Abaixo de 5 kg ou 6 meses: sem primaquina. Abaixo de 10 kg ou 1 ano: sem cloroquina fracionada. Até 6 meses, mesmo acima de 5 kg: somente ACT.
  11. 11PASSO 7 — MARQUE O SEGUIMENTO NA SAÍDA. Lâmina de Verificação de Cura, nunca teste rápido. Em área de alta ou moderada transmissão, dias 5 e 28. Em área de baixa transmissão, dias 5, 8, 15, 22, 28 e 43 no falciparum, acrescentando o dia 64 no vivax e na mista.
  12. 12PASSO 8 — AVISE SOBRE A URINA ESCURA. É o primeiro sinal de hemólise por primaquina ou tafenoquina, costuma surgir depois de dois dias de uso e é regularmente confundido com hepatite. Orientado, o paciente volta; não orientado, ele espera.
G6PD alta (UI/gHb)04.06.08Tafenoquina, dose única

Atividade alta: 6.1 UI/gHb ou mais

Cloroquina por três dias mais TAFENOQUINA em dose única — 300 mg no adulto. É a única faixa em que a dose única entra, e ela só vale para quem tem 10 kg ou mais e 2 anos ou mais, fora de gestação e de amamentação, em primeiro episódio e com hemoglobina acima de 7 g/dL. Faltando cloroquina, não se usa tafenoquina isolada.

G6PD intermediária (UI/gHb)04.06.08Primaquina, 7 dias

Atividade intermediária: 4.1 a 6.0 UI/gHb

Cloroquina por três dias mais PRIMAQUINA 0,5 mg/kg/dia por sete dias — 3,5 mg/kg de dose total. É o esquema mais frequente na prática e o que a maioria das questões descreve sem dizer o nome. A adesão é o ponto frágil: como o paciente melhora no terceiro dia, é preciso avisar que a primaquina continua depois que os sintomas somem.

G6PD baixa (UI/gHb)04.06.08Primaquina semanal, 8 semanas

Atividade baixa: 4.0 UI/gHb ou menos

Cloroquina por três dias mais PRIMAQUINA SEMANAL 0,75 mg/kg durante oito semanas, começando no dia 1 junto da cloroquina, sob supervisão da equipe até a oitava dose. Não é uma dose menor: são 6 mg/kg no total, contra 3,5 mg/kg do curso de sete dias. O que muda é o espaçamento, que dá à medula tempo entre uma dose e outra.

Malária não complicada: qual droga faz o quê, e o que trava cada uma

SituaçãoEsquizonticida sanguíneoSegunda parte (hipnozoíto ou gametócito)A trava que a prova cobra
Vivax, G6PD ≥ 6.1 UI/gHbCloroquina 3 dias (10 mg/kg no dia 1; 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3)Tafenoquina em dose única — 300 mg no adultoSó com 10 kg ou mais E 2 anos ou mais; nunca em gestante, lactante, recorrência, falciparum, mista ou hemoglobina ≤ 7 g/dL
Vivax, G6PD 4.1 a 6.0 UI/gHbCloroquina 3 diasPrimaquina 0,5 mg/kg/dia por 7 dias (total 3,5 mg/kg)Mesmo total do esquema clássico de 0,25 mg/kg por 14 dias — o que muda é o tempo, escolhido por adesão
Vivax, G6PD ≤ 4.0 UI/gHbCloroquina 3 diasPrimaquina 0,75 mg/kg por SEMANA, 8 semanas (total 6 mg/kg)Primeira dose no dia 1, junto da cloroquina; supervisão da equipe até a oitava dose
Vivax em gestanteCloroquina 3 diasCloroquina profilática semanal 5 mg/kg (máx. 2 comprimidos) até 1 mês de amamentaçãoNem primaquina nem tafenoquina — o risco é hemólise no feto, de G6PD desconhecida, não malformação
Vivax abaixo de 10 kg ou de 1 anoASMQ ou arteméter com lumefantrinaPrimaquina só a partir de 5 kg E 6 mesesCloroquina fracionada está fora; criança até 6 meses, mesmo acima de 5 kg, recebe apenas ACT
FalciparumACT 3 dias — ASMQ como primeira opção, ou arteméter com lumefantrinaPrimaquina em DOSE ÚNICA de 0,5 mg/kg no dia 1Independe da G6PD (dose baixa); é gametocitocida, não cura radical; exceto menores de 6 meses e gestantes
Recorrência de vivax em até 60 diasASMQ ou arteméter com lumefantrina por 3 diasPrimaquina 0,5 mg/kg/dia por 14 dias (total 7 mg/kg)O dobro da dose total do curso inicial; tafenoquina está proibida em recorrência

Recorrência: o nome depende do dia, e o nome muda a investigação

NomeJanelaDe onde vem o parasitoO que investigar
RecrudescênciaGeralmente do dia 5 ao dia 28Formas sanguíneas que não foram eliminadasAdesão, dose ajustada ao peso, vômito nas primeiras horas, armazenamento do medicamento, resistência
RecaídaDo dia 29 ao dia 60Formas hepáticas — hipnozoítos de vivax ou ovaleSe a segunda parte do tratamento foi feita e completada; é a cobrança do que faltou
ReinfecçãoApós o dia 60Nova picada infectante do vetorDeslocamentos dos últimos dois meses, criadouros e horário de exposição

Onde cada antimalárico é financiado — e por que a cloroquina é a exceção

MedicamentoApresentaçãoComponente da assistência farmacêuticaO que isso explica
Difosfato de cloroquina150 mg comprimidoEstratégico E EspecializadoÚnico antimalárico em dois componentes: também é item do Componente Especializado, com PCDT de Artrite Reumatoide e de Lúpus Eritematoso Sistêmico como documentos norteadores
Sulfato de hidroxicloroquina400 mg comprimidoEspecializadoNão é a droga da malária. É a escolhida na reumatologia porque o difosfato de cloroquina causa mais lesão de retina em uso prolongado
Difosfato de primaquina15 mg e 5 mg comprimidosEstratégicoComprimido de 5 mg existe justamente para a dose pediátrica ajustada ao peso
Succinato de tafenoquina150 mg comprimido (e 50 mg pediátrico)EstratégicoIncorporado pela Portaria SECTICS/MS nº 27/2023; a apresentação de 50 mg entrou pela Portaria SECTICS/MS nº 50/2025
Artesunato60 mg/mL pó para solução injetávelEstratégicoÉ o antimalárico da forma grave; não se compra em farmácia
Artesunato + mefloquina (ASMQ)25 mg + 50 mg e 100 mg + 220 mg comprimidosEstratégicoA apresentação adulta aparece como 220 mg na Rename e como 200 mg no Guia — sal e base do mesmo comprimido

Nenhum antimalárico é vendido em farmácia privada no Brasil. Eles pertencem ao Componente ESTRATÉGICO da assistência farmacêutica: são adquiridos pelo Ministério da Saúde e distribuídos aos estados, que os repassam às regionais e aos municípios. A restrição é deliberada — reduz automedicação e, com ela, a pressão de seleção que geraria resistência.

A conta das doses totais de primaquina organiza três esquemas que parecem arbitrários. Sete dias a 0,5 mg/kg/dia somam 3,5 mg/kg; catorze dias a 0,25 mg/kg/dia somam os mesmos 3,5 mg/kg; catorze dias a 0,5 mg/kg/dia, na recorrência, somam 7 mg/kg; oito semanas a 0,75 mg/kg somam 6 mg/kg. Em resumo: o curso inicial e o clássico entregam a mesma coisa, a recorrência dobra, e a faixa de G6PD baixa fica no meio — mais que o curso inicial, espalhado no tempo.

Na gestante, o teto de dois comprimidos da cloroquina semanal só passa a valer acima de 60 kg: dois comprimidos de 150 mg somam 300 mg, e 300 divididos por 5 mg/kg dão exatamente 60 kg. Abaixo disso, a conta é por peso.

A contagem de comprimidos de tafenoquina segue o peso: 100 mg na faixa de 10 a 20 kg, 200 mg na faixa de 21 a 34 kg e 300 mg de 35 kg para cima. O compêndio econômico do relatório de 2025 confirma essa escada pelo preço — R$ 19,66 são dois comprimidos de 50 mg a R$ 9,83; R$ 39,32 são quatro; e R$ 29,60 são dois de 150 mg a R$ 14,80.

A mefloquina do ASMQ adulto aparece com dois números em documentos oficiais diferentes porque um usa o sal e o outro, a base: 220 mg de cloridrato correspondem a cerca de 200 mg de base (378,3 ÷ 414,8 = 0,912; 220 × 0,912 = 200,6). O que separa alternativa certa de errada numa questão não é 200 contra 220 — é trocar a apresentação pediátrica pela adulta, que não devem ser fracionadas nem usadas fora da faixa de peso a que se destinam.

Uma faixa de transmissão fica sem definição explícita no Guia: área de moderada transmissão é a que tem de 100 a 364 casos autóctones por ano, e a de alta transmissão, mais de 365. Como as duas usam o mesmo esquema otimizado de Lâmina de Verificação de Cura — dias 5 e 28 —, a lacuna não muda conduta; ela só não deve virar pegadinha na hora de recitar os números.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quem pode receber tafenoquina: a portaria que incorporou ou o Guia que trata?

16 anos ou mais — texto da incorporação (2023)

A recomendação final, deliberada por unanimidade em 31/05/2023, é de incorporação temporária da tafenoquina para cura radical de malária por Plasmodium vivax em pacientes com 16 ANOS DE IDADE OU MAIS e atividade enzimática MAIOR QUE 70% de G6PD, confirmada por teste rápido validado. O teste quantitativo de G6PD foi incorporado sem restrição etária.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Relatório de Recomendação nº 832, maio de 2023; decisão pela Portaria SECTICS/MS nº 27, de 5 de junho de 2023.

10 kg e 2 anos — régua assistencial vigente (2025-2026)

Após atualização de bula na Anvisa e nova apresentação de 50 mg, a Conitec recomendou o uso em pacientes com peso superior a 10 kg, e a portaria incorporou a tafenoquina 50 mg para pacientes pediátricos. O Guia de tratamento opera com o par 'peso igual ou superior a 10 kg E 2 anos ou mais', e sua Tabela 1 já traz a faixa de 10 a 20 kg. Note que o Guia usa 'igual ou superior a 10 kg' onde o relatório escreve 'superior a 10 kg'.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de tratamento da malária no Brasil, 3ª edição, 2026, Figura 3 e Tabela 1; Conitec, 141ª Reunião Ordinária de 4 de junho de 2025; Portaria SECTICS/MS nº 50, de 23 de julho de 2025.

Na prova

O ano do enunciado decide, e a idade é o marcador. Questão escrita sobre a incorporação original trará '16 anos ou mais' e 'G6PD acima de 70%'. Questão escrita sobre a régua assistencial vigente trará peso e idade juntos — 10 kg e 2 anos — e faixa em UI/gHb. Se as alternativas misturarem '16 anos' com 'UI/gHb', foram montadas com as duas fontes sobrepostas. Em qualquer redação, o que nunca muda é a obrigatoriedade do teste de G6PD antes da dose.

A régua da G6PD: percentual da atividade normal ou unidades por grama de hemoglobina?

Percentual — como a incorporação descreveu

A população da incorporação é definida como indivíduos com diagnóstico confirmado de malária por P. vivax e atividade de G6PD acima de 70% do normal, confirmada por teste rápido validado; abaixo de 70% ou com status desconhecido, a tafenoquina não entra. É um corte binário, sem faixa intermediária.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Relatório de Recomendação nº 832, maio de 2023.

UI/gHb em três faixas — como o Guia trata

O algoritmo organiza a decisão em três faixas de atividade medida em unidades internacionais por grama de hemoglobina: maior ou igual a 6.1 (alta, tafenoquina em dose única); entre 4.1 e 6.0 (intermediária, primaquina 0,5 mg/kg/dia por sete dias); menor ou igual a 4.0 (baixa, primaquina 0,75 mg/kg por semana durante oito semanas). O mesmo Guia também escreve 'acima de 70%' em prosa, ao apresentar a droga.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de tratamento da malária no Brasil, 3ª edição, 2026, seção 3.3.1 e Figura 3.

Na prova

Reconheça que as duas escalas descrevem o mesmo portão e que só uma delas tem três faixas. Enunciado que fale em 'atividade acima de 70%' está decidindo apenas SE a tafenoquina entra. Enunciado que dê um número em UI/gHb está pedindo mais: além de liberar ou não a tafenoquina, ele separa a primaquina diária de sete dias da primaquina semanal de oito semanas. Diante de um valor em UI/gHb, a pergunta útil é em qual das três faixas ele cai.

ASMQ do adulto: artesunato 100 mg com mefloquina 200 mg ou 220 mg?

100 mg + 200 mg — como o Guia de tratamento grafa

As tabelas de tratamento identificam as duas apresentações como 'Artesunato 25 mg + Mefloquina 50 mg' e 'Artesunato 100 mg + Mefloquina 200 mg', com a observação de que se destinam a faixas de peso diferentes e não devem ser fracionadas.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de tratamento da malária no Brasil, 3ª edição, 2026, legendas das Tabelas 7 e 9.

100 mg + 220 mg — como a Rename lista

A Rename registra duas concentrações para artesunato + mefloquina, ambas no Componente Estratégico: '25 mg + 50 mg comprimido' e '100 mg + 220 mg comprimido'. A apresentação pediátrica é grafada em base e a adulta, em sal, dentro do mesmo grupo.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024, anexo do Componente Estratégico, grupo P (antiparasitários), código ATC P01BF02.

Na prova

Não gaste tempo escolhendo entre 200 e 220: os dois números descrevem o mesmo comprimido, um em base e outro em sal, e a conta fecha (220 × 378,3 ÷ 414,8 = 200,6). O que a questão está testando de fato é outra coisa — se você troca a apresentação pediátrica pela adulta. As duas não devem ser fracionadas nem usadas fora da faixa de peso a que se destinam, e é essa troca que produz a alternativa errada.

06

Caso resolvido

Homem de 34 anos, garimpeiro, procura a unidade de saúde em Boa Vista com febre alta há quatro dias, calafrios, cefaleia e mialgia. Voltou há oito dias de um garimpo onde dormia em barraca. Pesa 62 kg. Está lúcido, corado, anictérico, com frequência cardíaca de 104 bpm durante um pico febril de 39,2 °C, sem dispneia, sem sangramento e urinando normalmente. A gota espessa mostra Plasmodium vivax, parasitemia ++. A equipe colhe a atividade de G6PD: 5,2 UI/gHb. Hemoglobina de 11,4 g/dL. Nega episódio anterior de malária.
achado
Malária por vivax NÃO complicada. Vale conferir item por item antes de aceitar isso: não há dor abdominal intensa, icterícia, mucosas muito hipocoradas, oligúria abaixo de 400 mL/24 h, vômito que impeça a via oral, sangramento, dispneia, cianose, convulsão nem comorbidade descompensada. A taquicardia de 104 bpm existe, mas foi medida DURANTE o pico febril — e o quadro de gravidade manda avaliar frequência cardíaca, mucosas e dispneia fora do acesso malárico. A hemoglobina de 11,4 g/dL está longe do corte de 7 g/dL.
a decisão que vem antes da receita
Espécie definida: vivax tem hipnozoíto, logo haverá segunda parte de tratamento. Com 62 kg e 34 anos, o paciente está acima dos cortes de 10 kg e 2 anos, o que torna a testagem de G6PD OBRIGATÓRIA antes de escolher o esquema. O número já veio: 5,2 UI/gHb.
em qual faixa cai
5,2 está entre 4.1 e 6.0 — atividade INTERMEDIÁRIA. Isso fecha a porta da tafenoquina, que exige 6.1 UI/gHb ou mais, e não abre a da primaquina semanal, que é da faixa de 4.0 ou menos. Sobra o meio: primaquina diária por sete dias. É o ponto exato em que a questão separa quem decorou 'vivax = cloroquina + primaquina' de quem entendeu que existem três caminhos.
a conta da primeira parte
Cloroquina por três dias: 10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3, somando 25 mg/kg. Para 62 kg isso dá cerca de 620 mg no primeiro dia e 465 mg em cada um dos dois seguintes. Lembre que a cloroquina se calcula pelo peso IDEAL, porque não se distribui no tecido gorduroso.
a conta da segunda parte
Primaquina 0,5 mg/kg/dia por sete dias — cerca de 31 mg/dia para 62 kg, com dose total de 3,5 mg/kg. Aqui o cálculo é pelo peso REAL, sem limite máximo. Se o paciente pesasse mais de 120 kg, a conta continuaria sendo 0,5 mg/kg/dia, sem teto.
o que dizer na saída
Duas frases mudam o desfecho. A primeira: a medicação continua depois que a febre passar — no terceiro dia ele estará bem e é aí que se abandona a primaquina, que é justamente a parte que impede a recaída. A segunda: se a urina escurecer, cor de café ou de refrigerante de cola, parar e procurar o serviço no mesmo dia, porque é o primeiro sinal de hemólise e costuma ser confundido com hepatite. Tomar após uma refeição e, se vomitar em até 60 minutos, repetir a dose inteira.
seguimento
Lâmina de Verificação de Cura, não teste rápido — o teste rápido pode seguir positivo sem parasita viável. O calendário depende do cenário de transmissão do município: em área de moderada ou alta transmissão vale o esquema otimizado, gota espessa nos dias 5 e 28, contando o primeiro dia de tratamento como dia 1; em área de baixa transmissão a série é mais longa, indo até o dia 64 no vivax.
conduta
Cloroquina por três dias (10 mg/kg no dia 1; 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3) mais primaquina 0,5 mg/kg/dia por sete dias, iniciada no dia 1. Orientação sobre adesão à primaquina e sobre urina escura. Lâmina de Verificação de Cura nos dias 5 e 28. Notificação do caso pelo sistema próprio do programa.
07

Agora feche você

Gestante de 24 anos, 26 semanas, moradora de município do interior do Amazonas, chega à unidade com febre há três dias e mialgia. Pesa 58 kg. Está lúcida, hemodinamicamente estável, sem sangramento vaginal, sem contrações, com altura uterina compatível e batimentos cardiofetais presentes. A gota espessa mostra Plasmodium vivax. A equipe pergunta se colhe a G6PD antes de prescrever.
o que já sei
Malária por vivax não complicada em gestante. Vivax tem hipnozoíto, e o tratamento completo teria duas partes — uma que apaga a parasitemia e outra que impede a recaída.
a pergunta da equipe, respondida
A testagem de G6PD serve para escolher ENTRE tafenoquina e os dois regimes de primaquina. Na gestante, nenhuma das três opções está disponível, então o resultado não muda a prescrição de agora. O motivo do veto não é malformação nem aborto: as 8-aminoquinolinas não causam nem uma coisa nem outra. O risco é hemólise grave NO FETO, cuja atividade de G6PD é desconhecida.
o que entra no lugar da segunda parte
Cloroquina profilática semanal, 5 mg/kg por dose até o máximo de dois comprimidos, mantida até completar um mês de amamentação. Com 58 kg, 5 mg/kg dá 290 mg — abaixo do teto de 300 mg, que só passaria a valer acima de 60 kg. Ela bloqueia a recrudescência enquanto está em uso, mas não impede a recaída depois que se interrompe.
a trava de segurança
Monitorar atividade uterina e sangramento vaginal — aparecendo qualquer um, encaminhamento urgente para atendimento especializado. E testar o recém-nascido, porque a transmissão vertical é rara mas existe, e o filho de mãe em tratamento ou sintomática às vésperas do parto entra na recomendação de exame.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Achar que a tafenoquina é a nova primeira escolha para todo vivax Ela é dose única e melhora a adesão, mas está travada por uma lista longa: peso abaixo de 10 kg, idade abaixo de 2 anos, gestação, amamentação em qualquer tempo, G6PD baixa OU intermediária, tratamento de recorrência, falciparum, malária mista e hemoglobina menor ou igual a 7 g/dL. Fora da faixa de G6PD alta, a resposta é primaquina.
  2. 2Suspender a primaquina no falciparum porque a G6PD é baixa No falciparum a primaquina entra em dose ÚNICA de 0,5 mg/kg no primeiro dia, independentemente da atividade da G6PD, justamente por ser dose baixa. Ela não está curando o paciente — está eliminando o gametócito maduro para bloquear a transmissão. As únicas exceções são menores de 6 meses e gestantes.
  3. 3Usar teste rápido para verificar a cura O teste rápido detecta antígeno e pode continuar positivo sem parasitas viáveis, o que produz falso diagnóstico de resistência. O controle de cura é por LÂMINA. O Guia pede inclusive cautela com o uso de teste rápido até um mês depois de um diagnóstico prévio confirmado.
  4. 4Pedir sorologia para malária Sorologia mede exposição prévia e não separa infecção atual de pregressa; solicitá-la no contexto clínico atrasa o diagnóstico e aumenta o risco de complicação. A pesquisa de IgM tem uma única indicação: suspeita de esplenomegalia hiper-reativa da malária — baço volumoso, anemia, sem febre e com gota espessa negativa —, tratada com cloroquina 5 mg/kg por semana durante seis meses.
  5. 5Ajustar a cloroquina pelo peso real e a primaquina pela faixa etária É o inverso. A cloroquina não se distribui no tecido gorduroso e se calcula pelo peso ideal, com dose fixa de 10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3. A primaquina se distribui por todos os tecidos, inclusive o gorduroso, e se calcula pelo peso REAL, sem limite máximo — quem está acima do peso e recebe dose habitual recai mais.
  6. 6Dar dose menor de artesunato para a criança pequena Na malária grave, criança com menos de 20 kg recebe dose MAIOR por quilo — 3,0 mg/kg/dose — do que criança acima de 20 kg e adulto, que recebem 2,4 mg/kg/dose. O objetivo é garantir exposição equivalente ao medicamento, e a alternativa errada costuma inverter os dois números.
  7. 7Confundir a cloroquina da malária com a do lúpus São drogas diferentes. A da malária é o difosfato de cloroquina, que causa mais lesão de retina em uso prolongado; a da reumatologia é o sulfato de hidroxicloroquina. A separação também é de financiamento: a hidroxicloroquina 400 mg é item do Componente Especializado, enquanto o difosfato de cloroquina figura como Estratégico E Especializado. Desviar a cloroquina do programa da malária compromete o estoque local do antimalárico.
  8. 8Prescrever quimioprofilaxia para quem vai à Amazônia A quimioprofilaxia NÃO é indicada em território nacional. Como predomina o vivax, a eficácia é baixa; no falciparum, ela pode não assegurar proteção e favorece resistência. A profilaxia brasileira é outra: proteção contra picadas, diagnóstico oportuno e tratamento adequado — com a orientação de que febre até um mês depois de deixar a área exige procurar serviço e contar onde esteve.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Para malária não complicada por P. falciparum, o tratamento de primeira linha no Brasil é a combinação terapêutica à base de artemisinina (ACT), como artemeter + lumefantrina. Cloroquina isolada é usada para P. vivax não resistente, e o falciparum é resistente à cloroquina. Cloroquina + primaquina é o esquema clássico do P. vivax (primaquina para as formas hepáticas/recaída). Quinina IV é reservada à malária grave/complicada, não a este caso sem gravidade. Doxiciclina isolada não é adequada como monoterapia curativa; é usada como adjuvante ou profilaxia.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números na ordem em que a questão os usa. Exposição: 8 a 30 dias antes dos primeiros sintomas. Incubação: falciparum 8 a 12 dias, vivax 13 a 17, malariae 18 a 30. Ciclo eritrocitário: 48 horas em vivax e falciparum, 72 em malariae. Gota espessa: 5 a 10 parasitos/µL com microscopista experiente, 100/µL em campo; teste rápido em 15 minutos, sensibilidade de 95% ou mais acima de 100 parasitos/µL. Faixas de G6PD: alta ≥ 6.1 UI/gHb, intermediária 4.1 a 6.0, baixa ≤ 4.0. Cloroquina: 10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3, total 25 mg/kg. Primaquina: 0,5 mg/kg/dia por 7 dias (3,5 mg/kg) no curso inicial; 0,75 mg/kg/semana por 8 semanas (6 mg/kg) na G6PD baixa; 0,5 mg/kg/dia por 14 dias (7 mg/kg) na recorrência; dose única de 0,5 mg/kg no falciparum. Tafenoquina: 300 mg em dose única no adulto, 200 mg de 21 a 34 kg, 100 mg de 10 a 20 kg. Artesunato na forma grave: 3,0 mg/kg/dose abaixo de 20 kg, 2,4 mg/kg/dose de 20 kg para cima. Clindamicina alternativa: 20 mg/kg/dia em três doses por 7 dias. Gravidade laboratorial: hemoglobina ≤ 7 g/dL, parasitemia > 250.000/mm³ no falciparum, diurese < 400 mL/24 h. Recorrência: recrudescência do dia 5 ao 28, recaída do 29 ao 60, reinfecção após o 60. LVC: dias 5 e 28 em área de moderada e alta transmissão. G6PD baixa em cerca de 5% da população amazônica; recaída em cerca de 70% sem 8-aminoquinolina.

em 30 dias

Reconstrua o capítulo por seis perguntas, sem consultar. Primeira: 'como eu confirmo, e qual exame eu não peço?' — nomeie o padrão-ouro, o limite de detecção em campo, o papel do teste rápido e diga por que a sorologia está fora e qual é a única indicação de IgM. Segunda: 'por que a espécie vem antes da dose?' — explique o hipnozoíto e diga quais espécies o têm. Terceira: 'qual número escolhe a segunda parte?' — recite as três faixas de G6PD em UI/gHb com o esquema de cada uma, e explique por que a faixa baixa recebe MAIS primaquina no total, não menos. Quarta: 'quem fica fora das três faixas?' — liste gestante, lactante do primeiro mês, criança abaixo de 5 kg ou 6 meses, criança abaixo de 10 kg ou 1 ano, e diga que droga cada corte veta. Quinta: 'o que muda no falciparum?' — explique por que a primaquina entra em dose única independentemente da G6PD e o que ela está tratando ali. Sexta: 'e se for grave?' — diga o antimalárico, as duas doses por peso, o que fazer se ele faltar, e como se verifica a cura depois. Feche recitando a conta que amarra tudo: 0,5 × 7 = 0,25 × 14 = 3,5 mg/kg.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 34 anos volta de um garimpo em Roraima com febre há quatro dias, calafrios e mialgia. A gota espessa fecha Plasmodium vivax e a atividade de G6PD volta em 5,2 UI/gHb. Conduza a consulta: reconheça que não há sinal de gravidade, escolha a faixa certa, calcule as duas partes do tratamento e diga na saída as duas frases que evitam a recaída e a hemólise despercebida. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.