202 min de leitura

Clínica MédicaInfectologia

Hepatite B

A prova vive de uma coisa só: dado um painel de marcadores, dizer em que situação o paciente está. Em volta disso orbitam a vacina, a imunoglobulina, a profilaxia do recém-nascido e a decisão de tratar.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 40 anos, assintomático, comparece à UBS para avaliação de rotina. Nega uso de álcool ou drogas, transfusões ou tatuagens; sem queixas. Exame físico normal. Exames de triagem: HBsAg reagente. A investigação complementar mostra: anti-HBc IgG reagente, anti-HBc IgM não reagente, HBeAg não reagente, anti-HBe reagente, ALT/AST normais e carga viral (HBV-DNA) baixa. Assinale a interpretação correta desse perfil sorológico da hepatite B.

02

Como esse tema cai

Hepatite B é um tema em que o Brasil tem programa, protocolo, vacina universal e medicamento distribuído de graça — e, ainda assim, a prova quase nunca começa perguntando o que fazer. Ela começa entregando uma tabela de marcadores e esperando que você diga em que situação o paciente está. Suscetível, vacinado, agudo, na janela, crônico, curado ou naquele padrão incômodo em que só o anti-HBc apareceu. Errar a leitura do painel derruba a questão inteira, porque toda a conduta pendura nela: quem se vacina, quem recebe imunoglobulina, quem trata, quem precisa de profilaxia antes da quimioterapia.

Em volta da sorologia, quatro blocos concentram o resto do peso. A vacina, com um corte único de resposta e um punhado de grupos que levam dose dobrada. A profilaxia pós-exposição, que é onde a imunoglobulina entra e onde os prazos em horas e dias são cobrados de cor. A gestante e o recém-nascido, em que três medidas se somam e uma delas — a cesárea — não faz parte do pacote. E a decisão de tratar, que no Brasil é uma regra de duas variáveis com uma lista de exceções que tratam sozinhas.

O que fica de fora, de propósito. HIV tem capítulo próprio nesta apostila: aqui a coinfecção aparece apenas como critério de tratamento e como cuidado na escolha do antiviral. Hepatite C aparece só onde muda a conduta da hepatite B, que é no risco de reativação durante o tratamento com antivirais de ação direta. Cirrose, carcinoma hepatocelular e transplante entram no tamanho exato em que mudam a indicação de tratar. Hepatite D fecha o capítulo, porque no Brasil ela tem endereço: a Amazônia.

Um aviso de validade, porque neste tema ele muda o gabarito. O protocolo brasileiro em vigor é de 2023; as diretrizes internacionais que servem de contraste são de 2024 e 2025, e nesse intervalo o mundo ampliou bastante quem deve receber antiviral. Onde o Brasil se afasta, a causa é econômica e operacional — o volume de gente que passaria a tratar e a capacidade de monitorar carga viral e elastografia na rede —, não discordância sobre a evidência. Vale saber qual é a causa: ela costuma estar embutida no distrator.

03

O que muda decisão

Os marcadores, um a um: o que cada um prova

O painel da hepatite B tem sete peças, e cada uma responde a uma pergunta diferente. O HBsAg é o antígeno de superfície: sua presença significa infecção pelo vírus acontecendo agora, aguda ou crônica, e ele sozinho já basta para notificar o caso. É o primeiro a aparecer no sangue depois da exposição — o período médio de incubação é de 75 dias, variando de 30 a 180 — e some quando o organismo controla a infecção.

O anti-HBc é o anticorpo contra o antígeno do core, e ele tem duas leituras. Na fração IgM, indica infecção aguda, com uma ressalva que a prova gosta: também pode aparecer em agudização de infecção crônica e persistir em níveis baixos em algumas pessoas com infecção crônica sem exacerbação. Na fração total, que soma IgM e IgG, indica contato prévio com o vírus e permanece pela vida toda. Guarde isto, porque é a chave de metade das questões: o anti-HBc total só existe em quem encontrou o vírus. Vacina nenhuma produz anti-HBc — a vacina é feita com o antígeno de superfície, não com o core.

O anti-HBs é o anticorpo protetor. Ele aparece por dois caminhos: pela vacina, isolado, sem companhia de nenhum outro marcador; ou pela resolução da infecção, ao lado do anti-HBc total. O corte que define proteção é 10 mUI/mL, e ele vale tanto para dizer que alguém respondeu à vacina quanto para dizer que alguém está imune diante de uma exposição de risco.

O HBeAg é um marcador de replicação intensa e, portanto, de infectividade alta. O anti-HBe surge depois da soroconversão e costuma acompanhar queda da replicação — costuma, não sempre: existe uma fase de infecção crônica com HBeAg não reagente, anti-HBe reagente e carga viral alta, produzida por mutação no pré-core ou no promotor basal do core. Confundir anti-HBe reagente com doença inativa é um erro clássico.

Por fim, o HBV-DNA quantifica o que os outros apenas sugerem. É o principal parâmetro para indicar tratamento, é o exame que confirma o diagnóstico junto com o HBsAg, e é ele que define reativação em quem vai receber imunossupressor. Um detalhe operacional cobrado com frequência: não se testa HBsAg dentro de quatro semanas após uma dose da vacina — o antígeno vacinal circulante produz falso-positivo. Em paciente dialítico, esse intervalo sobe para oito semanas.

Quatro curvas de marcadores sanguíneos ao longo do tempo sobre uma linha de base: uma sobe e cai na primeira metade, uma tracejada a acompanha e cai um pouco depois, outra sobe cedo e permanece alta até o fim, e a última só sobe na segunda metade; uma faixa sombreada preenche o intervalo entre a queda da primeira e a subida da última.
A curva que sobe primeiro e desaparece no meio do gráfico é o HBsAg. A tracejada que a acompanha e cai um pouco depois dela é o anti-HBc IgM. A que sobe cedo e nunca mais volta à linha de base é o anti-HBc total, marcador de contato que fica para a vida inteira. A que só aparece no fim é o anti-HBs. A faixa sombreada entre o desaparecimento do HBsAg e o surgimento do anti-HBs é a janela imunológica — o intervalo em que o anti-HBc é a única prova de que houve infecção.

Ler o painel em três perguntas

Diante de qualquer combinação de marcadores, faça três perguntas na ordem. Primeira: o HBsAg está reagente? Se sim, há infecção ativa e a discussão passa a ser aguda contra crônica. Segunda: o anti-HBc total está reagente? Se sim, houve contato com o vírus em algum momento — e isso descarta vacina como explicação. Terceira: o anti-HBs está reagente? Se sim, existe proteção, e a origem dela é a resposta à primeira e à segunda pergunta.

As duas combinações que aparecem mais são espelhos. Anti-HBs reagente sozinho, com HBsAg e anti-HBc não reagentes, é pessoa imunizada por vacinação. Anti-HBs reagente ao lado de anti-HBc total reagente, com HBsAg não reagente, é infecção prévia resolvida — o protocolo brasileiro chama essa fase de cura funcional. A diferença entre as duas é uma coluna só, e essa coluna é o anti-HBc.

Separar aguda de crônica tem número: infecção crônica é HBsAg reagente por período igual ou superior a seis meses. Antes disso, o que dá a pista é o anti-HBc IgM, reagente na aguda. Vale também o caminho inverso, que a prova usa: anti-HBc IgM não reagente em alguém com HBsAg reagente sugere infecção crônica.

Para fechar o diagnóstico laboratorial, o Ministério da Saúde pede pelo menos dois testes. O par preferencial é HBsAg reagente com HBV-DNA detectável. O par alternativo é HBsAg reagente com anti-HBc total reagente ou com HBeAg reagente. Repare que o HBsAg isolado já basta para notificar, mas não basta para conduzir.

O rastreamento tem duas camadas. A geral é HBsAg, ao menos uma vez na vida, em toda pessoa acima de 20 anos e suscetível, com periodicidade maior em populações mais vulneráveis — semestral em usuários de drogas, pessoas privadas de liberdade, trabalhadores do sexo, pessoas em situação de rua, gays e outros homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, pessoas com múltiplas parcerias e pessoas vivendo com HIV; trimestral em quem usa profilaxia pré-exposição ao HIV. A comprovação de esquema vacinal adequado suspende a necessidade de testagem periódica.

A segunda camada é o rastreamento com dois marcadores, HBsAg e anti-HBc total, obrigatório em sete grupos: pessoas vivendo com HIV; pessoas com hepatite C que vão receber antivirais de ação direta; pessoas com doença renal crônica dialítica; pessoas com hepatopatia crônica ou carcinoma hepatocelular sem diagnóstico etiológico; usuários de drogas injetáveis; pessoas imunossuprimidas ou candidatas a terapia imunossupressora ou quimioterapia; e doadores de sangue, tecidos, órgãos ou sêmen. O motivo é sempre o mesmo — infecção oculta e risco de reativação —, e é por isso que nesses grupos não basta perguntar se há vírus circulando agora: é preciso saber se houve contato algum dia.

Hepatite B é agravo de notificação compulsória. Todos os casos confirmados são registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação em até sete dias, e a definição de caso confirmado é ampla: HBsAg reagente, ou anti-HBc IgM reagente, ou HBV-DNA detectável — qualquer um dos três, isoladamente.

Anti-HBc isolado: quatro explicações e uma conduta

Anti-HBc total reagente com HBsAg e anti-HBs não reagentes é o padrão que mais gera dúvida, e ele responde por 10% a 15% das sorologias positivas. Quatro explicações concorrem. A primeira é a janela imunológica de uma infecção aguda em resolução, o intervalo entre o desaparecimento do HBsAg e o surgimento do anti-HBs — nesse caso o anti-HBc IgM também está reagente, porque é a classe predominante ali. A segunda, e mais comum, é exposição prévia: a pessoa curou e o título de anti-HBs caiu com o tempo. A terceira é resultado falso-positivo, infrequente pela alta especificidade dos testes atuais e mais plausível em pessoa sem vulnerabilidades vinda de região de baixa prevalência. A quarta é infecção oculta, em que o HBsAg é produzido abaixo do limite de detecção ou existe mutação que o torna indetectável — e aí o HBV-DNA está detectável mesmo com HBsAg não reagente.

A conduta brasileira não escolhe entre as quatro por adivinhação: pede dois exames e deixa o resultado decidir. Diante de anti-HBc reagente com HBsAg não reagente, solicitam-se anti-HBs e ALT.

Se o anti-HBs vier igual ou acima de 10 UI/L, considera-se a pessoa protegida — mantém-se acompanhamento e avalia-se a indicação de profilaxia de reativação, quando ela for candidata a imunossupressão. Se o anti-HBs vier abaixo de 10 UI/L com ALT normal, aplica-se uma dose de vacina e repete-se o anti-HBs em um a dois meses: título que sobe revela resposta anamnéstica, isto é, memória imunológica de infecção prévia, e o esquema vacinal é completado. Se mesmo assim o anti-HBs continuar abaixo de 10, pede-se HBV-DNA.

Se o anti-HBs vier abaixo de 10 UI/L com ALT alterada, o HBV-DNA é pedido de saída. HBV-DNA detectável em qualquer desses caminhos muda tudo: a pessoa passa a ser avaliada para tratamento, e nas situações de imunossupressão é conduzida exatamente como se tivesse HBsAg reagente. HBV-DNA não detectável com ALT alterada manda investigar outras causas de lesão hepática, revacinar e avaliar profilaxia de reativação.

Duas notas práticas. Pessoas com anti-HBc total isolado não devem doar sangue, porque a infecção oculta as torna potencialmente transmissoras. E pessoa vivendo com HIV com anti-HBc isolado tem indicação de vacinação contra hepatite B, idealmente com CD4 acima de 200 células/mm³, quando a resposta vacinal é melhor.

História natural: cinco fases e a idade que decide o desfecho

O número que explica toda a política brasileira de profilaxia é este: o risco de cronificação é inversamente proporcional à idade em que se adquire o vírus. Cerca de 90% dos recém-nascidos infectados cronificam, contra menos de 5% dos adultos imunocompetentes — e a cronificação é mais frequente em quem está imunocomprometido. É por isso que a dose de vacina ao nascer existe, é por isso que a imunoglobulina entra no berçário e é por isso que se trata uma gestante que não tem doença hepática nenhuma: o alvo não é ela, é o desfecho do recém-nascido.

Uma vez crônica, a infecção percorre cinco fases, definidas pela combinação de HBeAg, HBV-DNA, ALT e presença de doença hepática. Atenção a um detalhe que a nomenclatura esconde: são fases de um processo dinâmico, de duração variável e não necessariamente sequenciais — não é uma escala de gravidade crescente em que se sobe degrau por degrau.

Na fase HBeAg reagente com padrão de infecção, antes chamada de imunotolerante, o HBeAg é reagente, a ALT é persistentemente normal e o HBV-DNA é altíssimo, acima de 10 milhões de UI/mL. O fígado tem fibrose e necroinflamação mínimas ou ausentes, mas o risco de transmissão é enorme. É a fase típica de quem se infectou nos primeiros anos de vida, e pode durar de dez a quarenta anos.

Na fase HBeAg reagente com padrão de hepatite, antes chamada de imunorreativa, o HBeAg segue reagente, a ALT sobe e a carga viral cai para a faixa de 10 mil a 10 milhões de UI/mL. Aqui há necroinflamação moderada ou grave e progressão acelerada para fibrose.

Na fase HBeAg não reagente com padrão de infecção, a antiga fase de portador inativo, a ALT é normal, o HBV-DNA é indetectável ou está abaixo de 2.000 UI/mL e o anti-HBe é reagente. O prognóstico é bom em quem não é cirrótico, mas o acompanhamento continua obrigatório, porque escape viral acontece. É nessa fase que 1% a 3% das pessoas por ano perdem o HBsAg espontaneamente.

Na fase HBeAg não reagente com padrão de hepatite, a antiga fase de reativação, o HBeAg é não reagente, geralmente com anti-HBe reagente, e ALT e HBV-DNA flutuam alterados, com carga viral acima de 2.000 UI/mL. A maioria tem mutação no pré-core ou no promotor basal do core, a remissão espontânea é rara e o risco de cirrose descompensada e carcinoma hepatocelular é elevado. É a fase que desmente a leitura ingênua do anti-HBe.

A quinta fase é a negativação do HBsAg, chamada de cura funcional. ALT normal, HBV-DNA indetectável ou muito baixo, com ou sem anti-HBs. Não é cura virológica: o cccDNA permanece no núcleo do hepatócito, e é exatamente por isso que a imunossupressão intensa pode reativar a infecção em quem já tinha negativado. Perder o HBsAg antes de instalada a cirrose está associado a risco mínimo de complicações.

Os desfechos, para dimensionar o problema: cerca de 20% a 25% das pessoas com hepatite B crônica progridem para cirrose e outras complicações terminais. A incidência anual de carcinoma hepatocelular é estimada em menos de 0,6% em não cirróticos e de 2% a 3% em cirróticos, e a taxa anual de descompensação hepática em cirróticos gira em torno de 3%.

Vacina: o esquema, a dose dobrada e o não respondedor

A vacina contra hepatite B é universal no SUS desde 2016, para toda a população, em qualquer faixa etária. Em criança até 6 anos, 11 meses e 29 dias, o esquema tem quatro doses: a primeira é a monovalente, chamada dose ao nascer, e as outras três vêm na pentavalente aos 2, 4 e 6 meses. Não há esquema diferente para prematuros. O calendário completo é assunto do capítulo de vacinação da criança nesta coleção; aqui interessa o que é específico da hepatite B.

A dose ao nascer é a peça crítica. Deve ser aplicada o mais precocemente possível, dentro das primeiras 24 horas e preferencialmente nas primeiras 12 horas, ainda na maternidade, e pode ser aplicada até os 30 dias de vida. Passados os 30 dias, a monovalente não deve mais ser administrada: o esquema passa a ser de três doses de pentavalente, iniciadas aos 2 meses. A terceira dose nunca é aplicada antes dos 6 meses de vida.

A partir dos 7 anos, quem não tem comprovação vacinal recebe três doses da vacina recombinante, no esquema 0, 1 e 6 meses. Esquema incompleto não se reinicia — completa-se de onde parou. Os intervalos mínimos que validam o esquema são quatro semanas entre a primeira e a segunda dose, oito semanas entre a segunda e a terceira, e dezesseis semanas entre a primeira e a terceira. Em gestante, se não der para completar durante a gravidez, conclui-se depois do parto.

Cinco grupos recebem esquema reforçado: quatro aplicações com o dobro do volume indicado para a idade. São eles nefropatas crônicos pré-dialíticos ou em diálise; transplantados de órgãos sólidos; pacientes com neoplasias ou que necessitem de quimioterapia, radioterapia ou corticoterapia; pessoas com outras imunodeficiências; e cirróticos. Pessoas vivendo com HIV seguem a mesma regra. O esquema pode ser feito em 0, 1, 2 e 6 meses quando há pressa — diante de transplante iminente ou de início de imunossupressão.

Testar anti-HBs depois de vacinar não é rotina, e há um motivo: a eficácia da vacina é alta e os valores de soroproteção não foram validados para quem não tem esquema completo documentado. A dosagem fica reservada a sete situações de risco muito elevado de exposição ou de perda da memória imunológica: crianças nascidas de mãe com HBsAg reagente ou com HBsAg desconhecido; trabalhadores da saúde e da segurança pública; pacientes com doença renal crônica em diálise; pessoas vivendo com HIV; pessoas imunossuprimidas; pessoas em lista de transplante de órgãos sólidos; e parcerias sexuais de pessoas com HBsAg reagente.

O corte é único e vale decorar: considera-se imune quem apresenta anti-HBs igual ou superior a 10 mUI/mL, colhido preferencialmente entre um e dois meses após a última dose, aceitando-se até seis meses. Quem não atinge esse valor no tempo certo é revacinado com esquema completo — e em imunocompetente admitem-se no máximo dois esquemas completos. Se depois de dois esquemas o anti-HBs continuar abaixo de 10, testam-se HBsAg, pelo menos quatro semanas após a última dose, e anti-HBc, para excluir infecção prévia ou oculta. Ambos não reagentes definem a pessoa como não respondedora à vacinação e suscetível à infecção.

O que se faz com o não respondedor tem duas partes. Enquanto mantiver os fatores de vulnerabilidade, faz testagem anual de HBsAg. E diante de qualquer exposição de risco, tem indicação de imunoglobulina humana anti-hepatite B — é essa a saída para quem a vacina não protege.

Duas armadilhas fecham o assunto. A primeira: anti-HBs colhido fora do período preconizado, mais de seis meses após a última dose, com resultado abaixo de 10, não define não respondedor — nesse caso aplica-se uma dose de reforço e repete-se o exame em um a dois meses. A segunda: título que caiu não é o mesmo que suscetibilidade. Mais de um terço das crianças vacinadas no primeiro ano de vida terá anti-HBs abaixo de 10 mUI/mL dez anos depois, e isso não se traduz em risco — pessoas imunocompetentes mantêm resposta anamnéstica por décadas. É por isso que a imunossuprimida é a exceção que exige testagem seriada anual, com reforço quando o título cai abaixo de 10: nela a resposta de memória não pode ser presumida.

Profilaxia pós-exposição: onde a imunoglobulina entra

A profilaxia pós-exposição da hepatite B tem quatro componentes e nenhum deles é antiviral: testar HBsAg, preferencialmente com teste rápido; vacinar quem é suscetível; administrar imunoglobulina quando indicada; e acompanhar com HBsAg e anti-HBs depois. A relação sexual desprotegida é a principal via de transmissão da hepatite B no Brasil.

Tudo depende de classificar o exposto em uma de duas caixas. É imune quem comprova esquema vacinal completo e/ou apresenta anti-HBs igual ou superior a 10 UI/mL no primeiro atendimento — e para ele não há nada a fazer além do seguimento. É suscetível quem tem HBsAg não reagente e não tem registro de esquema vacinal completo com três doses aplicadas adequadamente, ou quem, tendo avaliação de soroconversão, não respondeu a dois esquemas completos.

A imunoglobulina humana anti-hepatite B é aplicada em dose única, junto com a vacina e em grupo muscular diferente, para pessoa suscetível exposta a fonte com HBsAg reagente ou com sorologia desconhecida de alto risco. São quatro os cenários: exposição perinatal, isto é, recém-nascido de mãe com HBsAg reagente; acidente perfurocortante, incluindo mordedura e exposição ocupacional a material biológico; contato sexual consentido sem preservativo com pessoa HBsAg reagente ou de status desconhecido com alto risco; e violência sexual.

Os prazos são a parte mais cobrada e têm três números. A imunoglobulina deve ser administrada preferencialmente nas primeiras 24 horas após a exposição. O limite máximo é de sete dias para exposições por mucosa — o que inclui a perinatal — ou percutâneas, e de quatorze dias para as sexuais. Fora desses prazos, o benefício não se sustenta.

Há uma exceção com posologia própria e ela cai em prova. Em exposição a instrumento perfurocortante, tipicamente acidente ocupacional, envolvendo profissional que já completou duas séries de três doses da vacina sem obter resposta, ou que tem alergia grave à vacina, a indicação é de duas doses de imunoglobulina, com intervalo de um mês entre elas. A lógica é direta: como não há como induzir anticorpo, a proteção precisa ser inteiramente passiva.

Uma regra operacional que também vira alternativa: a indisponibilidade de acesso oportuno à imunoglobulina não deve impedir a aplicação da vacina em pessoa suscetível. A vacina não espera.

O seguimento tem um detalhe fácil de errar. Toda pessoa exposta dosa anti-HBs preferencialmente entre um e dois meses após a última dose da vacina, aceitando-se até seis meses. Mas quem recebeu imunoglobulina só dosa anti-HBs pelo menos seis meses depois da última dose dela — antes disso o que se mede é o anticorpo emprestado, não o produzido.

Gestante e recém-nascido: três medidas que se somam, e uma que não entra

Toda gestante é rastreada para HBsAg, preferencialmente no primeiro trimestre ou na primeira consulta de pré-natal. Se não houve testagem durante a gravidez, o rastreamento é feito na admissão para o trabalho de parto; e, nos casos excepcionais em que nem isso ocorreu, no puerpério. As mesmas orientações valem para abortamento. Se o HBsAg for não reagente e não houver esquema vacinal completo, inicia-se ou completa-se a vacinação durante a gestação — a vacina é segura na gravidez e na amamentação.

HBsAg reagente dispara um pacote: notificar, acolher, conferir a documentação vacinal de parcerias sexuais, contatos domiciliares e parentes de primeiro grau, encaminhar ao pré-natal de alto risco, e solicitar HBV-DNA, HBeAg, anti-HBc, anti-HAV, ALT, AST, gama-GT, bilirrubinas, albumina, INR, hemograma e creatinina, além de testes rápidos para HIV, sífilis e hepatite C. O anti-HDV entra quando há origem ou vínculo epidemiológico com a Região Amazônica.

A partir daí, duas perguntas diferentes correm em paralelo, e confundi-las é o erro mais comum do tema. A primeira é se a gestante tem indicação de tratamento da hepatite B — e os critérios são os mesmos da população geral, com a diferença de que a droga tem de ser o tenofovir desoproxila. Quem engravida em uso de outro análogo troca para tenofovir. A segunda pergunta é se ela tem indicação de profilaxia da transmissão vertical, que é outra coisa: trata-se de uma mulher que pode não ter doença hepática alguma e ainda assim receber antiviral, porque o alvo é o bebê.

O gatilho da profilaxia é o principal fator de risco de falha da imunoprofilaxia do recém-nascido: carga viral materna elevada. Gestante com HBV-DNA igual ou acima de 200.000 UI/mL e/ou HBeAg reagente recebe tenofovir desoproxila 300 mg por via oral, um comprimido ao dia, a partir da 24ª semana de gestação — a janela recomendada é entre a 24ª e a 28ª semana, preferencialmente a 24ª. O HBeAg entra como alternativa de decisão justamente para quando a carga viral entre 24 e 28 semanas não estiver disponível. Se a janela for perdida, ainda se introduz o tenofovir até o fim da gestação, com prejuízo dos desfechos. Antecipa-se para o segundo trimestre diante de risco de trabalho de parto prematuro, gestação gemelar, necessidade de procedimento invasivo como amniocentese, ou HBV-DNA igual ou acima de 10⁹ UI/mL na primeira dosagem.

Quando o tenofovir foi usado exclusivamente para prevenir transmissão, não há consenso sobre o momento exato de parar; a orientação brasileira é suspender entre um e três meses após o término da gestação. Independentemente de ter usado antiviral ou não, toda mulher com HBsAg reagente faz dosagem mensal de ALT nos três primeiros meses e aos seis meses após o parto, porque o flare pós-parto existe.

O recém-nascido de mãe com HBsAg reagente recebe duas coisas ao nascer, em sítios de aplicação diferentes. A vacina monovalente, preferencialmente nas primeiras 12 horas — e o esquema é o de quatro doses. E a imunoglobulina, na sala de parto ou nas primeiras 12 horas; se não for possível, em até 24 horas após o parto, podendo ser administrada no máximo até os 7 dias de vida. A combinação de vacina e imunoglobulina aplicadas nas primeiras 12 a 24 horas eleva a eficácia da imunização para 90% a 95%.

Duas condutas que não fazem parte do pacote, e que respondem por boa parte dos distratores. A cesárea não deve ser indicada com a intenção de reduzir a transmissão vertical do HBV — não há evidência de redução adicional de risco por essa via de parto. E a amamentação não é contraindicada em mãe com HBsAg reagente, independentemente do uso de antiviral, desde que não haja lesão da mama nem coinfecção pelo HIV, garantida a imunoprofilaxia do recém-nascido. Quem transporta a regra do HIV para a hepatite B erra as duas.

Do lado do lactente, o controle: HBsAg e anti-HBs entre um e dois meses, aceitando-se até seis meses, após a última dose da vacina; e, se recebeu imunoglobulina no pós-parto imediato, a partir dos 9 meses de idade.

Quem tratar, e com o quê

A carga viral é o principal parâmetro para indicar tratamento, porque o risco de cirrose, carcinoma e morte se associa diretamente a HBV-DNA igual ou acima de 2.000 UI/mL e à persistência desse valor. A ALT é a segunda variável, e o protocolo brasileiro precisou fixar um limite superior de normalidade próprio, já que os guias internacionais não convergem: 35 U/L para homens e 25 U/L para mulheres.

A regra central cabe em uma frase. Trata-se quem tem HBV-DNA igual ou acima de 2.000 UI/mL, independentemente do status do HBeAg, E níveis de ALT iguais ou acima de 1,5 vez o limite superior — ou seja, 52 U/L para homens e 37 U/L para mulheres — em duas dosagens consecutivas com intervalo mínimo de três meses entre elas. As duas dosagens não são formalidade: a infecção crônica é dinâmica e elevações isoladas ou limítrofes precisam de confirmação, além da exclusão de outras causas de lesão hepática, como doença hepática esteatótica, álcool e medicamento.

Quando a carga viral está acima de 2.000 UI/mL mas a ALT é persistentemente normal, o desempate é o grau de fibrose, avaliado preferencialmente por método não invasivo. Na elastografia hepática transitória, abaixo de 6 kPa não há fibrose significativa e mantém-se seguimento; entre 6 e 9 kPa está a zona cinzenta; acima de 9 kPa há fibrose avançada ou cirrose, e trata-se, com rastreio associado de varizes esofágicas e carcinoma hepatocelular. Se a ALT estiver elevada mas abaixo de cinco vezes o limite superior, os cortes sobem: zona cinzenta entre 6 e 12 kPa e doença avançada acima de 12 kPa. Com ALT igual ou acima de cinco vezes o limite superior a elastografia não deve ser usada. O exame pede jejum de pelo menos duas horas e repouso mínimo de dez minutos.

Na zona cinzenta, quatro critérios clínicos empurram para tratar: sexo masculino; idade acima de 40 anos em quem tem HBeAg não reagente; história familiar de cirrose por HBV ou de causa desconhecida; e presença de outra causa de hepatopatia, como etilismo pesado, diabetes, síndrome metabólica, esteatose ou coinfecção pelo vírus da hepatite C. A biópsia hepática fica para quando, mesmo depois disso, a dúvida persistir — e fibrose F2 ou maior, ou atividade A2 ou maior na classificação Metavir, indicam tratamento.

Existe ainda uma lista de situações que indicam tratamento sozinhas, sem passar pela regra de duas variáveis, e ela é o que a prova mais explora. HBeAg reagente em pessoa acima de 30 anos, independentemente da ALT e da gravidade da lesão histológica. História familiar de carcinoma hepatocelular. Coinfecção com HIV, com hepatite C ou com hepatite D. Manifestações extra-hepáticas — artrite, vasculite, nefropatia, poliarterite nodosa, neuropatia periférica. Hepatite B aguda grave. Prevenção da transmissão por profissional de saúde que realiza procedimentos de alto risco de exposição. Prevenção da transmissão vertical em gestante com carga viral elevada. E profilaxia ou terapia preemptiva em quem vai receber imunossupressor, quimioterapia ou transplante.

O tenofovir desoproxila é o tratamento preferencial, na dose de 300 mg — um comprimido — ao dia, com ou sem alimentos, e é o único antiviral para hepatite B que pode ser usado na gestação e na amamentação. Não há casos confirmados de resistência do HBV ao tenofovir, e os riscos de nefrotoxicidade e hipofosfatemia com uso prolongado são baixos, de 2,2% e 1,7%.

O entecavir é a alternativa quando se deve evitar o tenofovir, na dose de 0,5 mg ao dia, preferencialmente em jejum — duas horas depois e duas horas antes das refeições. É a primeira escolha na cirrose, com 0,5 mg nos casos compensados e 1 mg na cirrose descompensada. Duas contraindicações são cobradas de cor: não se usa entecavir na gestação nem na amamentação, e não se usa em quem teve exposição prévia à lamivudina, porque a resistência cruzada compromete a eficácia. Como o uso prévio de lamivudina é praticamente universal em pessoas vivendo com HIV, o entecavir é evitado na coinfecção HBV-HIV.

O tenofovir alafenamida, na dose de 25 mg ao dia com alimentos, é a segunda alternativa, reservada a quando tenofovir desoproxila e entecavir não servem — situação típica de quem tem contraindicação ao tenofovir e já usou lamivudina. Foi incorporado ao SUS a partir do Relatório de Recomendação n.º 616/2021 da Conitec e figura no protocolo de 2023. Não é recomendado na gestação e na amamentação, em cirrose descompensada Child-Pugh B ou C, com depuração de creatinina abaixo de 15 mL/min fora de hemodiálise, e em menores de 18 anos.

O que empurra para a alternativa ao tenofovir desoproxila é sempre uma destas quatro famílias: cirrose; alteração renal — depuração de creatinina abaixo de 60 mL/min, microalbuminúria ou proteinúria persistente, fosfato sérico abaixo de 2,5 mg/dL, queda da filtração glomerular igual ou acima de 25% após o início, ou uso de imunossupressor ou quimioterápico nefrotóxico; alteração óssea — osteoporose, fratura patológica, uso crônico de corticoide por três meses ou mais, escore FRAX para fraturas osteoporóticas igual ou acima de 10%; e a condição de estar sob imunossupressão, quimioterapia ou transplante.

A alfapeginterferona 2a, 180 mcg por semana por via subcutânea, tem a vantagem da duração limitada de 48 semanas e da ausência de resistência, mas paga com toxicidade alta. É contraindicada de forma absoluta na gestação, na hepatite aguda, na hepatite autoimune, na insuficiência hepática grave, na cirrose descompensada e na hipersensibilidade ao fármaco.

Sobre a infecção aguda, a regra é não tratar. Cerca de 70% dos adultos têm apresentação subclínica e apenas 30% cursam com icterícia; menos de 1% evolui para hepatite fulminante. Mais de 95% dos adultos imunocompetentes resolvem espontaneamente, e o manejo é monitoramento clínico e laboratorial a cada duas a quatro semanas, com repetição do HBsAg seis meses depois do primeiro exame reagente para saber se cronificou. A exceção é a hepatite B aguda grave, que se trata imediatamente com análogo nucleos(t)ídeo e se define por qualquer um destes quatro achados: INR acima de 1,5; sintomas com icterícia caracterizada por bilirrubina total acima de 3 mg/dL ou bilirrubina direta acima de 1,5 mg/dL por mais de quatro semanas; encefalopatia; ou ascite.

A coinfecção HBV-HIV cabe aqui em uma linha, porque o resto é assunto do capítulo de HIV/aids desta apostila: ela é, por si só, critério de tratamento da hepatite B, o entecavir deve ser evitado pelo histórico quase universal de lamivudina, e o esquema antirretroviral precisa conter droga com atividade contra o HBV sob pena de reativação ao ser trocado.

Reativação: o rastreio antes de imunossuprimir

Esta é a seção que mais cai fora do bloco de sorologia, e ela começa com uma frase que resolve boa parte das questões: todo indivíduo candidato a terapia imunossupressora, quimioterapia ou transplante de órgãos sólidos deve ser rastreado com anti-HBs, HBsAg e anti-HBc total. Os três. Rastrear só o HBsAg deixa passar exatamente a população de maior risco — quem tem anti-HBc reagente com HBsAg não reagente.

Reativação é elevação do HBV-DNA e tem quatro definições alternativas: aumento de pelo menos 2 log₁₀ sobre o valor basal em quem tinha viremia detectável; HBV-DNA igual ou acima de 3 log₁₀, isto é, 1.000 UI/mL, em quem tinha HBsAg reagente e carga viral inicialmente indetectável; HBV-DNA igual ou acima de 4 log₁₀, ou seja, 10.000 UI/mL, quando a viremia basal era desconhecida em quem tem HBsAg reagente; e detectabilidade do HBV-DNA ou sororreversão do HBsAg em quem tinha HBsAg não reagente com anti-HBc reagente. Depois da reativação pode vir o dano hepático, chamado flare, definido por aumento rápido da ALT em três vezes ou mais sobre o basal e pelo menos acima de 100 U/L.

O risco se estratifica em três faixas conforme o fármaco e a situação: alto, igual ou acima de 10%; moderado, entre 1% e 10%; baixo, abaixo de 1%. E ele muda conforme o perfil sorológico — o mesmo medicamento pode ser de alto risco em quem tem HBsAg reagente e de risco moderado em quem tem apenas anti-HBc.

Em quem tem HBsAg reagente, são de alto risco os agentes depletores de linfócitos B, como rituximabe, ofatumumabe, alentuzumabe, ibritumomabe e obinutuzumabe; as antraciclinas, como doxorrubicina e epirrubicina; prednisona em dose igual ou acima de 20 mg por dia por quatro semanas ou mais; os anti-TNF-alfa potentes, como infliximabe e adalimumabe; os inibidores de ponto de controle imune; a quimioembolização transarterial; o transplante de células-tronco hematopoiéticas e a neoplasia hematológica; e o tratamento da hepatite C com antivirais de ação direta em coinfectado cirrótico.

Em quem tem apenas anti-HBc reagente, com HBsAg não reagente, a lista de alto risco é curta e por isso mesmo memorizável: agentes depletores de linfócitos B — rituximabe e companhia — e transplante de células-tronco hematopoiéticas ou neoplasia hematológica. Só isso. Todo o resto cai em risco moderado ou baixo.

A conduta segue de forma direta. Em quem tem HBsAg reagente, avalia-se primeiro se há indicação de tratamento por critério próprio; se não houver, risco baixo vai para monitoramento e risco moderado ou alto vai para profilaxia com análogo. Em quem tem anti-HBc reagente com HBsAg não reagente, avaliam-se HBV-DNA e ALT — e, atenção, HBV-DNA detectável faz o caso ser conduzido como se fosse HBsAg reagente. Com carga viral indetectável e sem indicação de tratamento: risco baixo vai para monitoramento, risco moderado admite profilaxia ou monitoramento com terapia preemptiva, e risco alto vai para profilaxia. Anti-HBs entre 10 e 100 UI/mL antes do início da imunossupressão reduz a probabilidade de reativação e favorece a estratégia de monitoramento no risco moderado.

Os prazos da profilaxia são três. Início entre duas e quatro semanas antes ou, no máximo, de forma concomitante ao início da imunossupressão ou à cirurgia. Manutenção por 12 meses após o término do imunossupressor — estendida para 18 a 24 meses quando se usou terapia depletora de linfócitos B, como rituximabe e ofatumumabe, ou de linfócitos B e T, como alentuzumabe e ibritumomabe. E, quando a imunossupressão é permanente, o antiviral pode ser mantido por tempo indeterminado. Durante a profilaxia, ALT e HBV-DNA a cada três a seis meses, e o monitoramento continua por pelo menos 12 meses depois de suspender o análogo.

Quando a estratégia é monitorar em vez de profilaxar, o desenho muda conforme o risco: no risco baixo, ALT a cada três a quatro meses por até 12 meses após o fim da terapia, solicitando HBV-DNA e HBsAg se a ALT subir; no risco moderado com anti-HBc isolado, ALT, HBV-DNA e HBsAg a cada três meses. Preenchido um critério de reativação ou de exacerbação, inicia-se o antiviral rapidamente, amplia-se o monitoramento com bilirrubinas, INR e glicemia, e avalia-se internação e redução da intensidade da imunossupressão.

Duas notas de escolha de droga. Quem vai usar inibidor de calcineurina — ciclosporina, tacrolimo — ou micofenolato tem indicação preferencial de entecavir; e o entecavir também é primeira escolha em quem usa outros imunossupressores ou quimioterápicos nefrotóxicos, como platinas, gencitabina, ifosfamida, metotrexato e anti-TNF-alfa. Em contextos de uso prolongado de imunossupressor por seis meses ou mais, baixa adesão, ou inviabilidade local de monitoramento laboratorial, escolhe-se profilaxia em vez de terapia preemptiva — porque a estratégia de monitorar só funciona onde o monitoramento acontece de fato.

Hepatite D: quando o anti-HDV entra na conta

O vírus da hepatite D depende do HBV para infectar — sem antígeno de superfície do HBV, ele não se monta. As vias de transmissão são as mesmas, parenteral e sexual, com a diferença de que a transmissão vertical do HDV é rara. E a associação dos dois é considerada a forma mais grave de hepatite viral em humanos.

Duas apresentações, com prognósticos opostos. Na coinfecção aguda simultânea, os dois vírus chegam juntos: o quadro é mais grave que o da monoinfecção, as transaminases costumam seguir um curso bifásico característico e a proporção que evolui para insuficiência hepática aguda é maior — mas a resolução espontânea de ambas as infecções ocorre em cerca de 98% dos adultos imunocompetentes. Na superinfecção, o vírus Delta chega em quem já é portador crônico do HBV: o quadro parece uma exacerbação da hepatite B e pode ser confundido com ela, o risco de insuficiência hepática é particularmente elevado, e mais de 80% cronificam.

Os números da progressão explicam a preocupação: estima-se que 10% a 15% das pessoas com infecção crônica pelo HDV desenvolvam cirrose nos primeiros cinco anos, 55% em vinte anos e cerca de 80% ao longo de trinta anos. Em quem já tem cirrose compensada, a coinfecção multiplica por 3,2 o risco de carcinoma hepatocelular, por 2,2 o de descompensação e por 2 o de morte, em comparação com a monoinfecção pelo HBV.

O rastreamento é o que a prova cobra, e ele é geográfico. O teste de escolha é o anti-HDV total, detectável em geral a partir da 4ª semana de infecção, e está indicado em pessoa com HBsAg reagente em duas situações. A primeira: indivíduo — ou filho de indivíduo — proveniente de estado da Região Amazônica ou com vínculo epidemiológico com pessoas desses estados, entendidos como Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Amapá, Pará, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso. Amazonas e Acre concentram as áreas de maior endemicidade, e na América do Sul predomina o genótipo 3, associado a curso agudo mais grave. A segunda: exacerbação de hepatite B crônica em paciente com HBV-DNA suprimido, sem outra etiologia identificada. Anti-HDV não reagente em residente da Amazônia é repetido anualmente enquanto o HBsAg permanecer reagente.

Anti-HDV reagente leva ao HDV-RNA, que confirma infecção ativa. Reagente com HDV-RNA não detectável repete o exame molecular a cada seis meses no primeiro ano e anualmente depois, até detectar o RNA — o que indica tratamento — ou até negativar o HBsAg, o que significa cura funcional do HBV e eliminação do HDV. Onde o exame molecular não está disponível, o critério passa a ser anti-HDV reagente com elevação de ALT.

O tratamento é o único ponto do capítulo em que a alfapeginterferona é protagonista: alfapeginterferona 2a 180 mcg por semana associada a um análogo nucleos(t)ídeo, indicada para todo indivíduo com HDV-RNA detectável sem contraindicação absoluta ao fármaco. A duração habitual é de 48 a 96 semanas. A escolha do análogo segue os mesmos critérios da monoinfecção, e quem tem cirrose descompensada usa entecavir 1 mg ao dia em monoterapia — porque a alfapeginterferona está absolutamente contraindicada ali — e é listado para transplante hepático.

04

O painel, a profilaxia, o tratamento e a reativação

Quatro tabelas cobrem os quatro blocos de decisão do tema. A primeira é a que o capítulo inteiro serve: dado um conjunto de marcadores, qual é a situação e o que se faz. A segunda resolve a profilaxia pós-exposição pelo status do exposto, que é onde os prazos em horas e dias vivem. A terceira reúne a regra de tratamento e a lista de situações que tratam sozinhas. A quarta fecha a reativação antes de imunossupressão, cruzando perfil sorológico com faixa de risco. O fluxo acima delas percorre o caminho do primeiro teste rápido até a decisão de tratar.

  1. 1Rastreie com HBsAg — ao menos uma vez na vida em toda pessoa acima de 20 anos e suscetível, com periodicidade maior nas populações mais vulneráveis. Em sete grupos o rastreamento é com dois marcadores, HBsAg e anti-HBc total: pessoas vivendo com HIV, hepatite C que vai receber antiviral de ação direta, doença renal crônica dialítica, hepatopatia crônica ou carcinoma sem etiologia, usuários de drogas injetáveis, imunossuprimidos ou candidatos a imunossupressão, e doadores de sangue, tecidos, órgãos ou sêmen.
  2. 2HBsAg não reagente sem comprovação vacinal: inicie ou complete a vacinação. Não colha HBsAg dentro de 4 semanas de uma dose da vacina — 8 semanas em paciente dialítico — pelo risco de falso-positivo com o antígeno vacinal.
  3. 3HBsAg reagente: notifique no Sinan em até 7 dias e confirme o diagnóstico com um segundo teste — preferencialmente HBV-DNA detectável; alternativamente anti-HBc total ou HBeAg reagentes. HBsAg reagente por 6 meses ou mais define infecção crônica.
  4. 4Anti-HBc reagente com HBsAg não reagente: solicite anti-HBs e ALT. Anti-HBs igual ou acima de 10 UI/L mantém acompanhamento; abaixo de 10 com ALT normal pede uma dose de vacina e repetição em 1 a 2 meses; abaixo de 10 com ALT alterada pede HBV-DNA. HBV-DNA detectável conduz o caso como HBsAg reagente.
  5. 5Estadie e classifique: HBeAg, anti-HBe, HBV-DNA, ALT em duas dosagens com intervalo mínimo de 3 meses, e fibrose por elastografia. Investigue coinfecções — HIV, HCV, sífilis, anti-HAV — e anti-HDV quando houver origem ou vínculo com a Região Amazônica.
  6. 6Aplique a regra de tratamento: HBV-DNA igual ou acima de 2.000 UI/mL E ALT igual ou acima de 52 U/L em homens ou 37 U/L em mulheres, nas duas dosagens. Se a ALT for persistentemente normal, decida pela fibrose. E confira a lista de situações que tratam sozinhas antes de dispensar alguém.
  7. 7Prescreva tenofovir desoproxila 300 mg ao dia como preferencial. Troque para entecavir diante de cirrose, alteração renal, alteração óssea ou imunossupressão — e para tenofovir alafenamida quando houver, além disso, uso prévio de lamivudina.
  8. 8Na gestante, separe as duas perguntas: indicação de tratamento segue os critérios gerais com tenofovir; indicação de profilaxia da transmissão vertical é HBV-DNA igual ou acima de 200.000 UI/mL e/ou HBeAg reagente, com tenofovir a partir da 24ª semana. O recém-nascido recebe vacina e imunoglobulina em sítios diferentes nas primeiras 12 horas.
  9. 9Antes de qualquer imunossupressor, quimioterapia ou transplante, rastreie os três: HBsAg, anti-HBc total e anti-HBs. Estratifique o risco e decida entre monitorar, profilaxar ou tratar preemptivamente.

Interpretação sorológica: o painel, situação por situação

SituaçãoHBsAgAnti-HBc totalAnti-HBc IgMHBeAg / anti-HBeAnti-HBsLeitura e conduta
Suscetível — sem contato prévio e sem vacinaNão reagenteNão reagenteNão reagenteNão reagente / não reagenteNão reagenteNunca encontrou o vírus e não está protegido. Conduta: iniciar ou completar o esquema vacinal. É o painel inteiramente negativo.
Imunizado por vacinaçãoNão reagenteNão reagenteNão reagenteNão reagente / não reagenteReagente (igual ou acima de 10 mUI/mL)Anti-HBs isolado, sem nenhum outro marcador. Vacina não produz anti-HBc — é essa ausência que identifica o vacinado. Conduta: nada; documentar o esquema.
Hepatite B agudaReagenteReagenteReagenteReagente ou não reagente / reagente ou não reagenteNão reagenteInfecção recente. Mais de 95% dos adultos imunocompetentes resolvem sozinhos: monitorar a cada 2 a 4 semanas e repetir HBsAg em 6 meses. Tratar apenas na forma aguda grave — INR acima de 1,5, ou icterícia por mais de 4 semanas com BT acima de 3 mg/dL ou BD acima de 1,5 mg/dL, ou encefalopatia, ou ascite.
Janela imunológica — aguda em resoluçãoNão reagenteReagenteReagenteNão reagente / reagente ou não reagenteNão reagenteIntervalo entre a soroconversão do HBsAg e o surgimento do anti-HBs. O anti-HBc IgM reagente é o que denuncia que a infecção é recente. Conduta: acompanhar até o anti-HBs aparecer.
Infecção crônica, HBeAg reagenteReagenteReagenteNão reagenteReagente / não reagenteNão reagenteHBsAg reagente por 6 meses ou mais com alta replicação. Duas fases se escondem aqui: ALT normal com HBV-DNA acima de 10⁷ UI/mL (antiga imunotolerante) e ALT elevada com HBV-DNA entre 10⁴ e 10⁷ UI/mL (antiga imunorreativa). HBeAg reagente acima de 30 anos indica tratamento por si só.
Infecção crônica, HBeAg não reagenteReagenteReagenteNão reagenteNão reagente / reagenteNão reagenteAnti-HBe reagente não significa doença inativa. Com ALT normal e HBV-DNA abaixo de 2.000 UI/mL, é a antiga fase de portador inativo; com ALT e HBV-DNA flutuantes e alterados acima de 2.000 UI/mL, é a antiga fase de reativação, de alto risco de cirrose e carcinoma, geralmente por mutação pré-core.
Infecção prévia resolvida — cura funcionalNão reagenteReagenteNão reagenteNão reagente / reagente ou não reagenteReagente (pode ser não reagente em títulos baixos)Encontrou o vírus e controlou. Não é cura virológica: o cccDNA permanece e a imunossupressão intensa pode reativar. Conduta: não vacinar; rastrear reativação antes de imunossupressor.
Anti-HBc isoladoNão reagenteReagenteNão reagenteNão reagente / reagente ou não reagenteNão reagenteQuatro explicações: exposição prévia com queda do anti-HBs, infecção oculta, falso-positivo, ou janela (nesta o IgM é reagente). Conduta: anti-HBs e ALT, e HBV-DNA conforme o resultado. Não pode doar sangue. Diante de imunossupressão de alto risco, profilaxia com análogo.

Profilaxia pós-exposição ao HBV: o que fazer por status do exposto

Situação do expostoConduta diante de fonte HBsAg reagente ou de status desconhecido com alto riscoPrazo
Esquema vacinal completo comprovado e/ou anti-HBs igual ou superior a 10 UI/mLConsiderado imune. Nada a fazer além do seguimento — nem vacina, nem imunoglobulina.Não se aplica.
Suscetível: sem esquema completo de três doses ou sem comprovaçãoIniciar ou completar o esquema vacinal E administrar imunoglobulina em dose única, em grupo muscular diferente da vacina.Imunoglobulina preferencialmente nas primeiras 24 horas. Limite de 7 dias na exposição percutânea ou de mucosa, incluindo a perinatal, e de 14 dias na exposição sexual.
Não respondedor: sem anti-HBs após dois esquemas vacinais completos, em acidente perfurocortanteDuas doses de imunoglobulina, com intervalo de um mês entre elas. A mesma conduta vale para quem tem alergia grave à vacina.Primeira dose preferencialmente nas primeiras 24 horas, respeitado o limite de 7 dias; a segunda um mês depois.
Recém-nascido de mãe com HBsAg reagenteVacina monovalente ao nascer, em esquema de quatro doses, MAIS imunoglobulina em sítio de aplicação diferente. A associação eleva a eficácia da imunização para 90% a 95%.Vacina preferencialmente nas primeiras 12 horas, dentro de 24 horas. Imunoglobulina na sala de parto ou nas primeiras 12 horas; se não for possível, até 24 horas; no máximo até os 7 dias de vida.
Qualquer exposto, quando a imunoglobulina não está disponível no serviçoA indisponibilidade de imunoglobulina não impede a aplicação da vacina em pessoa suscetível. A vacina não espera.Vacina imediatamente; providenciar a imunoglobulina dentro do prazo máximo da via de exposição.
Seguimento de qualquer expostoDosar anti-HBs para verificar resposta. Quem recebeu imunoglobulina precisa esperar mais, porque antes disso o que se mede é o anticorpo passivo.Entre 1 e 2 meses (até 6 meses) após a última dose da vacina. Se houve imunoglobulina, pelo menos 6 meses após a última dose dela.

Quem trata pelo protocolo brasileiro

Via de indicaçãoCritério exato
Regra geral — as duas variáveisHBV-DNA igual ou acima de 2.000 UI/mL, independentemente do status do HBeAg, E ALT igual ou acima de 1,5 vez o limite superior de normalidade — 52 U/L para homens e 37 U/L para mulheres — em duas dosagens consecutivas com intervalo mínimo de três meses. O limite superior adotado é 35 U/L para homens e 25 U/L para mulheres.
Carga viral alta com ALT persistentemente normalEstadiar a fibrose, preferencialmente por elastografia. Abaixo de 6 kPa mantém seguimento; entre 6 e 9 kPa é zona cinzenta; acima de 9 kPa trata. Se a ALT estiver entre 1 e 5 vezes o limite superior, os cortes sobem para 6 a 12 kPa e acima de 12 kPa. Não usar elastografia com ALT igual ou acima de 5 vezes o limite superior.
Zona cinzenta da elastografiaBasta um destes quatro critérios clínicos: sexo masculino; idade acima de 40 anos com HBeAg não reagente; história familiar de cirrose por HBV ou de causa desconhecida; outra causa de hepatopatia — etilismo pesado, diabetes, síndrome metabólica, esteatose, coinfecção pelo HCV.
HistologiaBiópsia com fibrose F2 ou maior e/ou atividade A2 ou maior na classificação Metavir.
Situações que indicam tratamento sozinhasHBeAg reagente acima de 30 anos, independentemente de ALT e histologia. História familiar de carcinoma hepatocelular. Coinfecção HBV-HIV, HBV-HCV ou HBV-HDV. Manifestações extra-hepáticas — artrite, vasculite, nefropatia, poliarterite nodosa, neuropatia periférica. Hepatite B aguda grave. Sinais de doença hepática avançada à imagem ou endoscopia — circulação colateral, bordas rombas, esplenomegalia acima de 12 cm, veia porta acima de 1,2 cm, ascite, varizes esofágicas.
Profilaxia com antiviral, não tratamentoPrevenção da transmissão vertical em gestante com carga viral elevada. Prevenção da transmissão por profissional de saúde que realiza procedimentos de alto risco de exposição. Profilaxia ou terapia preemptiva em quem recebe imunossupressor, quimioterapia ou transplante.
O que prescreverTenofovir desoproxila 300 mg, um comprimido ao dia — preferencial, e o único usável na gestação e na amamentação. Entecavir 0,5 mg ao dia (1 mg na cirrose descompensada), primeira escolha na cirrose, vetado na gestação e em quem já usou lamivudina. Tenofovir alafenamida 25 mg ao dia, quando os dois anteriores não servem. Alfapeginterferona 2a 180 mcg por semana por 48 semanas, contraindicada em gestação, hepatite aguda, hepatite autoimune, insuficiência hepática grave e cirrose descompensada.

Reativação antes de imunossupressão: monitorar, profilaxar ou tratar

Perfil sorológicoRisco baixo (abaixo de 1%)Risco moderado (1% a 10%)Risco alto (10% ou mais)
HBsAg reagente (anti-HBc reagente ou não)Monitorar com ALT a cada 3 a 4 meses, durante a terapia e por até 12 meses depois, com terapia preemptiva se houver critério de reativação ou flare.Profilaxia com análogo nucleos(t)ídeo.Profilaxia com análogo nucleos(t)ídeo.
HBsAg não reagente com anti-HBc reagente e HBV-DNA indetectávelMonitorar com ALT a cada 3 a 4 meses, durante a terapia e por até 12 meses depois; se a ALT subir, solicitar HBV-DNA e HBsAg.Profilaxia com análogo OU monitoramento de ALT, HBV-DNA e HBsAg a cada 3 meses com terapia preemptiva. Anti-HBs entre 10 e 100 UI/mL antes de começar favorece o monitoramento.Profilaxia com análogo nucleos(t)ídeo. Os fármacos e situações de alto risco neste perfil são apenas os depletores de linfócitos B — rituximabe, ofatumumabe, alentuzumabe, ibritumomabe, obinutuzumabe — e o transplante de células-tronco hematopoiéticas ou a neoplasia hematológica.
HBsAg não reagente com anti-HBc reagente e HBV-DNA DETECTÁVELConduzir o caso exatamente como HBsAg reagente, em qualquer faixa de risco.Conduzir o caso exatamente como HBsAg reagente, em qualquer faixa de risco.Conduzir o caso exatamente como HBsAg reagente, em qualquer faixa de risco.
Prazos da profilaxia, válidos para todas as linhas acimaInício entre 2 e 4 semanas antes ou, no máximo, concomitante ao começo da imunossupressão.Manutenção por 12 meses após o término do imunossupressor; 18 a 24 meses se houve terapia depletora de linfócitos B ou de linfócitos B e T; tempo indeterminado se a imunossupressão é permanente.Monitorar ALT e HBV-DNA a cada 3 a 6 meses durante a profilaxia e por pelo menos 12 meses após suspender o análogo.

A coluna que separa vacinado de curado é uma só: o anti-HBc total. Vacina é feita com o antígeno de superfície e nunca produz anticorpo contra o core. Anti-HBs isolado é vacina; anti-HBs ao lado de anti-HBc total é infecção resolvida.

O corte de 10 mUI/mL de anti-HBs faz dois trabalhos diferentes e é o mesmo número nos dois: define resposta vacinal adequada quando colhido de 1 a 2 meses após a última dose, e define pessoa imune diante de uma exposição de risco.

Cronicidade tem prazo, não tem marcador próprio: HBsAg reagente por 6 meses ou mais. Antes disso, quem separa aguda de crônica é o anti-HBc IgM.

Reativação e tratamento usam números diferentes de HBV-DNA e trocá-los é erro frequente. Para indicar tratamento, o corte é 2.000 UI/mL somado a ALT alterada. Para caracterizar reativação, os cortes são 1.000 UI/mL em quem tinha carga indetectável, 10.000 UI/mL em quem tinha carga desconhecida, e aumento de 2 log₁₀ em quem tinha carga detectável.

As fases da infecção crônica não formam uma escala de gravidade crescente. São estados de um processo dinâmico, de duração variável e não necessariamente sequenciais — dá para ir e voltar, e o rótulo antigo (imunotolerante, portador inativo) descreve o momento, não o prognóstico definitivo.

Nenhum dos cards de risco de reativação se decide pelo diagnóstico oncológico: decide-se pelo fármaco. O mesmo linfoma tratado com rituximabe é alto risco e tratado sem depletor de linfócito B pode não ser — e é o esquema descrito no enunciado que carrega a resposta.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quem tem indicação de iniciar antiviral na hepatite B crônica

Regra de duas variáveis, com ALT confirmada em duas dosagens — PCDT de Hepatite B e Coinfecções, Ministério da Saúde, 2023

O protocolo brasileiro trata quem tem HBV-DNA igual ou acima de 2.000 UI/mL, independentemente do HBeAg, E ALT igual ou acima de 1,5 vez o limite superior de normalidade — 52 U/L em homens e 37 U/L em mulheres — em duas dosagens consecutivas separadas por pelo menos três meses. O limite superior adotado é 35 U/L e 25 U/L. Carga viral alta com ALT persistentemente normal não trata de imediato: vai para estadiamento de fibrose, e o tratamento entra acima de 9 kPa na elastografia, ou na zona cinzenta de 6 a 9 kPa quando há critério clínico associado. Em volta disso existe uma lista fechada de situações que tratam sozinhas, entre elas HBeAg reagente acima de 30 anos e as coinfecções.

Ministério da Saúde. PCDT de Hepatite B e Coinfecções, 2023, itens 9.2 e 9.3 e Quadro 4.

Elegibilidade ampliada por quatro rotas, uma delas dispensando a carga viral — Organização Mundial da Saúde, 2024

A OMS reescreveu o critério em 2024 para adultos e adolescentes a partir de 12 anos, e basta preencher uma das quatro rotas. A primeira trata toda fibrose significativa, definida por APRI acima de 0,5 ou elastografia acima de 7 kPa, independentemente de carga viral e de ALT. A segunda trata HBV-DNA acima de 2.000 UI/mL com ALT acima do limite superior — e o limite superior da OMS é mais baixo que o brasileiro: 30 U/L em homens e 19 U/L em mulheres. A terceira trata coinfecções, comorbidades e história familiar de câncer hepático. A quarta permite decidir apenas por ALT persistentemente elevada onde não há acesso a carga viral. O efeito é dimensionado pelo próprio documento: a proporção de pessoas HBsAg reagentes elegíveis sai de cerca de 20% para pelo menos 50%.

World Health Organization. Guidelines for the prevention, diagnosis, care and treatment for people with chronic hepatitis B infection, 2024 — capítulo Who to treat among people with CHB.

Fase imunotolerante acima de 40 anos e fase indeterminada por decisão compartilhada — AASLD/IDSA, 2025

A diretriz norte-americana avança por outro caminho: em vez de baixar cortes, ela ocupa as faixas que antes ficavam em observação. Na fase imunotolerante — HBeAg reagente, HBV-DNA acima de 10⁷ UI/mL e ALT normal —, sugere tratar acima de 40 anos, ou em qualquer idade diante de inflamação grau 2 ou maior ou fibrose F2 ou maior; abaixo de 40, decisão compartilhada. E na fase indeterminada, a zona cinzenta HBeAg não reagente sem cirrose, sugere tratamento por decisão compartilhada reavaliada a cada consulta — sendo que a versão anterior da mesma diretriz não recomendava tratar esse grupo. O limite superior de ALT usado é 35 U/L e 25 U/L, o mesmo do Brasil, com pelo menos duas medidas separadas por seis meses.

Ghany MG et al. AASLD/IDSA Practice Guideline on Treatment of Chronic Hepatitis B. Hepatology, 2025 — perguntas PICO 3 e 4.

Na prova

A causa da distância é econômica e operacional, e vale nomeá-la: ampliar o critério multiplica por duas ou três vezes o número de pessoas em antiviral de uso prolongado e exige carga viral e elastografia disponíveis para monitorar todo mundo — e o documento brasileiro em vigor é de 2023, anterior às duas atualizações internacionais. Como identificar o recorte: vinheta em unidade básica, ambulatório do SUS, dispensação em farmácia de componente estratégico ou menção ao PCDT pede a régua nacional, e nela o número 52 U/L para homem, 37 U/L para mulher e as duas dosagens com três meses de intervalo só existem de um lado. Enunciado que cite nominalmente a OMS, ou que traga APRI e o corte de 7 kPa, saiu do corpo internacional; enunciado que fale em fase indeterminada, zona cinzenta ou decisão compartilhada é vocabulário da diretriz norte-americana. Nas alternativas, o distrator que denuncia o recorte é o que trata um HBeAg não reagente com HBV-DNA de 5.000 UI/mL e ALT normal sem citar fibrose: esse paciente entra em antiviral no mundo da OMS de 2024 e não entra na régua brasileira de 2023, em que ele iria antes para a elastografia.

Profilaxia antiviral na gestante: qual o gatilho e em que semana começar

Carga viral igual ou acima de 200.000 UI/mL e/ou HBeAg reagente, tenofovir a partir da 24ª semana — PCDT de Hepatite B e Coinfecções, Ministério da Saúde, 2023

O protocolo brasileiro admite dois gatilhos alternativos: HBV-DNA igual ou acima de 200.000 UI/mL e/ou HBeAg reagente. O HBeAg entra explicitamente como identificador de alto risco quando os níveis de carga viral entre 24 e 28 semanas não estiverem disponíveis — é uma concessão à realidade da rede, não uma discordância sobre qual marcador é melhor. O tenofovir desoproxila 300 mg ao dia começa entre a 24ª e a 28ª semana, preferencialmente na 24ª, e se a janela for perdida ainda se introduz até o fim da gestação, com prejuízo dos desfechos. Antecipa-se para o segundo trimestre diante de risco de parto prematuro, gemelaridade, procedimento invasivo previsto ou HBV-DNA igual ou acima de 10⁹ UI/mL na primeira dosagem. A suspensão fica entre um e três meses após o parto.

Ministério da Saúde. PCDT de Hepatite B e Coinfecções, 2023, itens 17.2 e 17.3 e Figura 7.

Carga viral acima de 200.000 UI/mL isoladamente, tenofovir na 28ª semana — AASLD/IDSA, 2025, com a mesma carga viral na EASL, 2025

A recomendação norte-americana é forte e usa um gatilho só: HBV-DNA acima de 200.000 UI/mL em qualquer momento da gestação, independentemente do status do HBeAg, com tenofovir desoproxila ou tenofovir alafenamida iniciados na 28ª semana. Quem chega ao pré-natal depois disso começa imediatamente. Há uma exceção nomeada que antecipa bastante: se a imunoglobulina não estiver disponível para o recém-nascido, a profilaxia materna começa na 16ª semana. Quando a única indicação era prevenir transmissão, o antiviral pode ser suspenso no parto, com vigilância de HBV-DNA e ALT a cada um a três meses por até seis meses e retomada se a ALT subir a cinco vezes o limite superior. A diretriz europeia de 2025 usa o mesmo corte de carga viral, igual ou acima de 200.000 UI/mL, para indicar tenofovir na gestação.

Ghany MG et al. AASLD/IDSA Practice Guideline on Treatment of Chronic Hepatitis B. Hepatology, 2025 — pergunta PICO 1; e EASL Clinical Practice Guidelines on the management of hepatitis B virus infection, 2025, nota 4 do algoritmo simplificado.

HBeAg reagente trata sempre e anti-HBe reagente trata acima de 200.000 UI/mL, no terceiro trimestre — Sociedades Brasileiras de Hepatologia e de Infectologia, 2020

O documento conjunto das duas sociedades brasileiras separa as gestantes pelo HBeAg antes de olhar a carga viral: toda gestante HBsAg reagente com HBeAg reagente recebe tratamento profilático no terceiro trimestre, sem exigir dosagem de HBV-DNA; as HBsAg reagentes com anti-HBe reagente fazem carga viral no terceiro trimestre e são tratadas se o HBV-DNA estiver acima de 200.000 UI/mL. A droga é o tenofovir em doses habituais, mantido preferencialmente até o terceiro mês após o parto — prazo mais longo do que o do protocolo do Ministério. O documento é de março de 2020 e se apoia nas diretrizes internacionais de 2017 e 2018, o que explica parte da diferença.

Sociedade Brasileira de Hepatologia e Sociedade Brasileira de Infectologia. Diretrizes para Diagnóstico e Tratamento da Hepatite B, março de 2020, recomendações 5, 6 e 7 do capítulo de gestação.

Na prova

O corte de 200.000 UI/mL é ponto pacífico entre os quatro documentos e por isso raramente é o que a questão testa. O que diverge são duas coisas: a semana de início e o peso do HBeAg como gatilho isolado. Como identificar o recorte: cenário de pré-natal do SUS, pré-natal de alto risco, Figura do PCDT ou menção à Rede de Atenção puxa a 24ª semana e admite o HBeAg reagente como suficiente. Enunciado que informe a carga viral com precisão e não mencione o HBeAg, ou que cite nominalmente a AASLD ou a EASL, trabalha com a 28ª semana. Vinheta que dê a idade gestacional de 16 semanas junto com a informação de que não há imunoglobulina disponível está reproduzindo literalmente a exceção norte-americana — essa combinação de dados no enunciado não é acidente. E, nas alternativas, cuidado com o distrator que oferece início no terceiro trimestre sem semana definida: é a redação das sociedades brasileiras de 2020, mais antiga que o protocolo em vigor.

O que se faz quando falta a imunoglobulina para o recém-nascido

A vacina não espera pela imunoglobulina, e as três medidas somadas cobrem a lacuna — PCDT de Hepatite B e Coinfecções, Ministério da Saúde, 2023

O protocolo brasileiro constrói a prevenção da transmissão vertical como três estratégias que se somam: tenofovir na gestante que preenche critério, vacinação de todos os recém-nascidos independentemente do status materno, e imunoglobulina nas primeiras 12 a 24 horas nos filhos de mãe HBsAg reagente. Sobre a falta do insumo, o texto é literal e repetido duas vezes: a indisponibilidade de acesso oportuno à imunoglobulina não deve ser impeditiva para a aplicação da vacina em indivíduos suscetíveis. A imunoglobulina tem prazo de resgate razoavelmente longo — até 7 dias de vida —, e a orientação aos gestores locais é estabelecer fluxos que garantam o insumo, não substituí-lo por outra medida. A associação de vacina e imunoglobulina nas primeiras 12 a 24 horas é descrita como elevando a eficácia da imunização para 90% a 95%.

Ministério da Saúde. PCDT de Hepatite B e Coinfecções, 2023, itens 7.1.1, 7.3 e 17.3.

Sem imunoglobulina, antecipa-se o antiviral materno para a 16ª semana — AASLD/IDSA, 2025

A diretriz norte-americana parte de um dado desconfortável: mesmo com imunoglobulina e vacina administradas corretamente nas primeiras 24 horas, a transmissão perinatal ainda ocorre em 8% a 10% dos filhos de gestantes com HBV-DNA acima de 200.000 UI/mL. A conclusão prática é que a peça mais decisiva do arranjo é derrubar a carga viral materna antes do parto, e não a imunoglobulina no berçário. Por isso, quando a imunoglobulina não estiver disponível, a resposta formulada é antecipar o tenofovir materno da 28ª para a 16ª semana, combinado com a vacinação subsequente do lactente — apoiada em ensaio clínico randomizado que mostrou não inferioridade na prevenção da transmissão.

Ghany MG et al. AASLD/IDSA Practice Guideline on Treatment of Chronic Hepatitis B. Hepatology, 2025 — pergunta PICO 1, considerações de implementação.

Na prova

Os dois corpos concordam no que mais cai: a vacina ao nascer é inegociável e nunca é dispensada por falta de imunoglobulina. A diferença está no que preenche a lacuna. O documento brasileiro trata a falta como problema de logística a ser resolvido pelo gestor, com prazo de resgate de até 7 dias de vida; o documento norte-americano transfere a solução para antes do parto, antecipando o antiviral materno. Como identificar o recorte: enunciado de maternidade brasileira, com a mãe já em profilaxia e a pergunta girando em torno de horas e sítios de aplicação, está no corpo nacional. Enunciado que descreva explicitamente indisponibilidade de imunoglobulina e pergunte sobre a conduta na gestante, e não no bebê, está no corpo internacional. Nas alternativas, o distrator que denuncia o recorte é o que oferece adiar a vacina até a chegada da imunoglobulina: essa opção está fora dos dois mundos.

06

Caso resolvido

Homem de 58 anos, com diagnóstico recente de linfoma difuso de grandes células B, encaminhado para iniciar quimioterapia com o esquema R-CHOP — rituximabe, ciclofosfamida, doxorrubicina, vincristina e prednisona. Assintomático do ponto de vista hepático, sem estigmas de hepatopatia, sem etilismo. Exames pré-quimioterapia: HBsAg não reagente, anti-HBc total reagente, anti-HBs não reagente, anti-HCV não reagente, teste rápido de HIV não reagente. ALT 26 U/L. HBV-DNA não detectável. Creatinina 1,0 mg/dL, com depuração estimada de 82 mL/min. Ultrassonografia de abdome sem alterações hepáticas. Nunca recebeu vacina contra hepatite B, segundo a caderneta.
achado
Anti-HBc total reagente com HBsAg e anti-HBs não reagentes — o padrão de anti-HBc isolado. Neste contexto ele significa exposição prévia ao HBV com anti-HBs indetectável, e o HBV-DNA não detectável afasta infecção oculta ativa. O que não se afasta é o cccDNA no hepatócito: a cura funcional não é cura virológica, e é exatamente por isso que a imunossupressão pode reativar.
por que o rastreio existia
Ele estava entre os sete grupos com indicação de rastreamento com dois marcadores, HBsAg e anti-HBc total — pessoas candidatas a quimioterapia ou terapia imunossupressora. Se tivesse sido rastreado apenas com HBsAg, o resultado teria vindo negativo e o risco passaria despercebido. É esse o motivo de a regra existir: todo candidato a imunossupressor, quimioterapia ou transplante de órgão sólido é rastreado com HBsAg, anti-HBc total e anti-HBs.
estratificação
O R-CHOP contém rituximabe, agente depletor de linfócitos B. No perfil HBsAg não reagente com anti-HBc reagente, os depletores de linfócitos B são exatamente uma das duas únicas situações classificadas como de alto risco de reativação, ou seja, igual ou acima de 10% — a outra é transplante de células-tronco hematopoiéticas ou neoplasia hematológica, que também se aplica aqui. Risco alto neste perfil sorológico manda profilaxia, não monitoramento.
conduta
Profilaxia com análogo nucleos(t)ídeo, iniciada entre duas e quatro semanas antes do começo da quimioterapia ou, no máximo, de forma concomitante. Como se trata de pessoa submetida a quimioterapia, essa condição já figura entre as indicações de terapia alternativa ao tenofovir desoproxila: o entecavir é a opção, com ajuste de dose apenas se a depuração de creatinina cair abaixo de 50 mL/min — o que não é o caso, com 82 mL/min. Tenofovir alafenamida ficaria reservado a quem, além disso, tivesse uso prévio de lamivudina.
duração
Aqui está o número que a questão costuma cobrar. A profilaxia se mantém por 12 meses após o término do imunossupressor na regra geral — mas sobe para 18 a 24 meses quando se usou terapia depletora de linfócitos B, que é o caso do rituximabe. O mesmo prazo estendido vale quando houve remissão da doença de base em neoplasia hematológica.
monitoramento
ALT e HBV-DNA a cada três a seis meses durante toda a profilaxia e por pelo menos 12 meses depois de suspender o análogo. Se durante o tratamento aparecer critério de reativação — detectabilidade do HBV-DNA ou sororreversão do HBsAg, neste perfil — ou flare, com ALT em três vezes ou mais o basal e acima de 100 U/L, amplia-se o monitoramento com bilirrubinas, INR e glicemia, avalia-se internação e discute-se reduzir a intensidade da quimioterapia.
o que não fazer
Não se vacina: ele já teve contato com o vírus, e a vacina é para suscetível — HBsAg, anti-HBc e anti-HBs todos não reagentes. Não se opta por monitoramento em vez de profilaxia: o monitoramento é a estratégia do risco baixo, e do moderado em situações selecionadas. E não se dispensa a profilaxia pelo argumento de que o HBsAg é negativo e o HBV-DNA indetectável — é justamente esse perfil que a regra de alto risco com depletor de linfócito B existe para cobrir.
07

Agora feche você

Mulher de 27 anos, primigesta, 23 semanas de gestação, em pré-natal na unidade básica de saúde. Testagem do primeiro trimestre: HBsAg reagente, confirmado por imunoensaio laboratorial; testes rápidos para HIV, sífilis e hepatite C não reagentes. Assintomática, sem estigmas de hepatopatia, sem etilismo, sem uso de medicamentos. Exames complementares solicitados na sequência: HBeAg reagente, anti-HBe não reagente, anti-HBc total reagente, anti-HBc IgM não reagente, HBV-DNA de 3,2 × 10⁷ UI/mL, ALT 28 U/L, AST 24 U/L, bilirrubinas normais, albumina normal, INR 1,0, plaquetas 232.000/mm³. Ultrassonografia de abdome sem alterações hepáticas. Nasceu e sempre morou em Belo Horizonte, sem vínculo com a Região Amazônica. Ela pergunta se vai precisar de cesárea e se poderá amamentar.
achado
Infecção crônica pelo HBV com HBeAg reagente e carga viral muito alta, sem doença hepática detectável e com ALT de 28 U/L — acima do limite superior feminino de 25 U/L, mas abaixo dos 37 U/L que definem 1,5 vez o limite, e sem a segunda dosagem confirmatória. Aos 27 anos, ela também não preenche o critério isolado de HBeAg reagente acima de 30 anos. Ou seja: uma gestante que, pelos critérios da população geral, não tem indicação de tratamento da hepatite B — e que, ainda assim, precisa receber antiviral.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler anti-HBs reagente como prova de que a pessoa já teve hepatite B Atrai porque anti-HBs é anticorpo contra o vírus, e anticorpo parece sinal de doença passada. Mas anti-HBs isolado, sem anti-HBc, é a assinatura da vacina — a vacina é feita com o antígeno de superfície e nunca produz anticorpo contra o core. Quem teve a infecção carrega anti-HBc total pela vida inteira. A coluna que separa vacinado de curado é uma só, e é essa.
  2. 2Contraindicar a amamentação em mãe com HBsAg reagente Atrai porque a regra do HIV é vívida e contundente: lá a amamentação é proibida e se inibe a lactação. Na hepatite B é o contrário — a amamentação não é contraindicada, independentemente do uso de antiviral, desde que não haja lesão da mama, não haja coinfecção pelo HIV e a imunoprofilaxia do recém-nascido esteja garantida. Transportar a regra de uma infecção para a outra erra as duas.
  3. 3Indicar cesárea para reduzir a transmissão vertical do HBV Atrai pelo mesmo motivo: no HIV a carga viral acima de 1.000 cópias/mL depois da 34ª semana indica cesárea eletiva, e o raciocínio parece transferível. Não é. O protocolo é explícito ao dizer que não se deve considerar o parto cesariano apenas com a intenção de diminuir o risco de transmissão vertical do HBV, porque não há evidência concreta de redução adicional. A via de parto é decisão obstétrica; quem protege o bebê é a vacina com a imunoglobulina, somadas ao tenofovir materno.
  4. 4Dispensar a profilaxia antes do rituximabe porque o HBsAg é negativo Atrai porque HBsAg não reagente com HBV-DNA indetectável soa como ausência de vírus. Só que a cura funcional não é cura virológica — o cccDNA permanece no hepatócito — e no perfil HBsAg não reagente com anti-HBc reagente os agentes depletores de linfócitos B são justamente uma das duas únicas situações de alto risco de reativação. Alto risco nesse perfil manda profilaxia com análogo, iniciada de 2 a 4 semanas antes e mantida por 18 a 24 meses depois do fim do rituximabe. É o erro que produz insuficiência hepática em paciente oncológico.
  5. 5Chamar de não respondedor quem tem anti-HBs abaixo de 10 muitos anos depois da vacina Atrai porque o número está abaixo do corte e o corte é conhecido. Mas o corte de 10 mUI/mL só é interpretável quando colhido de 1 a 2 meses, aceitando-se até 6 meses, após a última dose de um esquema completo documentado. Mais de um terço das crianças vacinadas no primeiro ano de vida terá título abaixo de 10 dez anos depois, e isso não se traduz em suscetibilidade: pessoas imunocompetentes mantêm resposta anamnéstica por décadas. Anti-HBs colhido fora do prazo com resultado baixo pede uma dose de reforço e repetição em 1 a 2 meses, não o rótulo de não respondedor.
  6. 6Tratar toda hepatite B aguda com análogo nucleos(t)ídeo Atrai porque existe droga eficaz e o paciente está ictérico. Mas mais de 95% dos adultos imunocompetentes resolvem a infecção aguda espontaneamente, e a conduta padrão é monitoramento clínico e laboratorial a cada 2 a 4 semanas, com repetição do HBsAg em 6 meses. Só a forma aguda grave se trata de imediato, e ela tem quatro definições fechadas: INR acima de 1,5; ou icterícia com bilirrubina total acima de 3 mg/dL ou direta acima de 1,5 mg/dL por mais de 4 semanas; ou encefalopatia; ou ascite.
  7. 7Prescrever entecavir sem checar gestação e uso prévio de lamivudina Atrai porque o entecavir é o alternativo mais citado e parece intercambiável com o tenofovir. Tem dois vetos duros: está contraindicado na gestação e na amamentação — o tenofovir desoproxila é o único antiviral para hepatite B usável nesses cenários — e não deve ser usado em quem já teve exposição à lamivudina, porque a resistência cruzada compromete a eficácia. Como o uso de lamivudina é praticamente universal em pessoas vivendo com HIV, o entecavir é evitado na coinfecção HBV-HIV, e o tenofovir alafenamida é quem ocupa essa vaga.
  8. 8Pedir HBsAg logo depois de aplicar uma dose de vacina Atrai porque parece diligente confirmar a situação sorológica na mesma consulta em que se vacinou. O antígeno vacinal circulante produz falso-positivo: não se testa HBsAg dentro de 4 semanas após uma dose da vacina, e em paciente dialítico esse intervalo sobe para 8 semanas. O mesmo cuidado vale ao investigar não respondedor — o HBsAg de exclusão é colhido pelo menos 4 semanas após a última dose.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

HBsAg reagente indica infecção atual; com anti-HBc IgM não reagente e IgG reagente, trata-se de infecção crônica (não aguda). HBeAg não reagente, anti-HBe reagente, transaminases normais e carga viral baixa caracterizam o portador inativo (baixa replicação). A janela imunológica ocorre na fase aguda com HBsAg e anticorpos ainda não detectáveis, e IgM anti-HBc positivo — não é o caso. Imunidade vacinal isolada cursa com anti-HBs reagente e demais marcadores negativos, sem HBsAg. Infecção resolvida teria HBsAg negativo com anti-HBc e anti-HBs positivos, o que não corresponde a este perfil (HBsAg reagente).

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

As réguas numéricas, na ordem em que a questão as usa. Sorologia: anti-HBc total só existe em quem encontrou o vírus, nunca por vacina; anti-HBs isolado é vacina; anti-HBs com anti-HBc é infecção resolvida; cronicidade é HBsAg reagente por 6 meses ou mais; diagnóstico laboratorial pede 2 testes, preferencialmente HBsAg com HBV-DNA; não colher HBsAg dentro de 4 semanas de uma dose de vacina, 8 semanas em dialítico. Notificação: Sinan em até 7 dias; caso confirmado é HBsAg reagente OU anti-HBc IgM reagente OU HBV-DNA detectável. Cronificação: 90% em recém-nascidos contra menos de 5% em adultos imunocompetentes; 20% a 25% progridem para cirrose; carcinoma hepatocelular em menos de 0,6% ao ano em não cirróticos e 2% a 3% ao ano em cirróticos. Vacina: 4 doses na criança até 6 anos, 11 meses e 29 dias, com a monovalente nas primeiras 24 horas, preferencialmente 12, e limite de 30 dias; 3 doses em 0, 1 e 6 meses a partir dos 7 anos; intervalos mínimos de 4, 8 e 16 semanas; 4 doses com o dobro do volume em nefropata, transplantado, neoplasia ou quimioterapia, outras imunodeficiências e cirrótico; resposta vacinal é anti-HBs igual ou acima de 10 mUI/mL colhido de 1 a 2 meses (até 6) após a última dose; máximo de 2 esquemas completos em imunocompetente. Imunoglobulina: preferencialmente nas primeiras 24 horas; limite de 7 dias em exposição percutânea ou de mucosa, incluindo a perinatal, e de 14 dias na sexual; 2 doses com intervalo de 1 mês no acidente perfurocortante em não respondedor após 2 esquemas; anti-HBs só 6 meses depois da última dose de imunoglobulina. Gestante: profilaxia com tenofovir 300 mg/dia a partir da 24ª semana se HBV-DNA igual ou acima de 200.000 UI/mL e/ou HBeAg reagente; suspensão de 1 a 3 meses após o parto; ALT mensal nos 3 primeiros meses e aos 6 meses. Recém-nascido de mãe HBsAg reagente: vacina e imunoglobulina em sítios diferentes nas primeiras 12 horas, eficácia de 90% a 95%; imunoglobulina até 7 dias de vida no limite. Tratamento: HBV-DNA igual ou acima de 2.000 UI/mL E ALT igual ou acima de 52 U/L em homens ou 37 U/L em mulheres, em 2 dosagens com intervalo mínimo de 3 meses; limite superior de 35 e 25 U/L; elastografia acima de 9 kPa trata, 6 a 9 kPa é zona cinzenta; HBeAg reagente acima de 30 anos trata sozinho; tenofovir desoproxila 300 mg, entecavir 0,5 mg (1 mg na cirrose descompensada), tenofovir alafenamida 25 mg, alfapeginterferona 2a 180 mcg por semana por 48 semanas. Reativação: rastrear os 3 — HBsAg, anti-HBc total, anti-HBs; profilaxia de 2 a 4 semanas antes, mantida 12 meses e 18 a 24 meses se depletor de linfócito B; flare é ALT em 3 vezes o basal e acima de 100 U/L. Hepatite D: anti-HDV em HBsAg reagente com origem ou vínculo amazônico, ou exacerbação com HBV-DNA suprimido; alfapeginterferona 2a 180 mcg por semana com análogo, por 48 a 96 semanas.

em 30 dias

A lógica, sem os números. Primeiro: o painel se lê em três perguntas na ordem — HBsAg diz se há vírus agora, anti-HBc total diz se houve contato algum dia, anti-HBs diz se há proteção; e como a vacina não produz anti-HBc, é ele que separa quem se vacinou de quem se curou. Segundo: a idade de aquisição é o que organiza toda a política de prevenção — recém-nascido cronifica em nove de cada dez casos e adulto em menos de um em vinte, e é por isso que existe dose ao nascer, imunoglobulina no berçário e antiviral em gestante saudável. Terceiro: profilaxia pós-exposição se decide pelo status do exposto, não pela gravidade do acidente — imune não faz nada, suscetível faz vacina mais imunoglobulina, não respondedor faz imunoglobulina duas vezes; e a vacina nunca espera pela imunoglobulina. Quarto: na gestante correm duas perguntas independentes, tratar a mulher e proteger o bebê, e a segunda pode existir sem a primeira. Quinto: as regras do HIV sobre via de parto e amamentação não valem aqui — na hepatite B a cesárea não protege e a amamentação é permitida. Sexto: cura funcional não é cura virológica, e é essa frase que sustenta todo o capítulo de reativação — quem tem anti-HBc reagente carrega vírus latente e, diante de depletor de linfócito B, recebe profilaxia mesmo com HBsAg negativo e carga viral indetectável. Sétimo: quando o Brasil trata menos gente que a OMS e as sociedades internacionais, a causa é o custo e a capacidade de monitorar uma população muito maior em antiviral de uso prolongado, somados à data do documento nacional — não discordância sobre a evidência.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 27 anos, 23 semanas, com HBsAg reagente detectado no primeiro trimestre, HBeAg reagente, HBV-DNA de 3,2 × 10⁷ UI/mL e ALT normal, perguntando se vai precisar de cesárea e se poderá amamentar — decidir entre tratar e profilaxar, em que semana começar e o que o recém-nascido recebe na sala de parto — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hepatite B — Preparatório para provas | OsceLabs