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Esquistossomose e geo-helmintíases
A prova cobra a forma hepatoesplênica com fígado funcionante, o praziquantel de 50 mg/kg e o Kato-Katz — e arma as pegadinhas no corticoide da estrongiloidíase e no albendazol que não serve para tudo.
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Homem, 34 anos, agricultor, natural e residente de zona rural do norte de Minas Gerais, procura a UBS por dor abdominal difusa e diarreia intermitente com muco há cerca de 2 meses. Refere banhos frequentes em lagoa próxima à sua residência. Ao exame: bom estado geral, abdome levemente doloroso à palpação, sem visceromegalias. Hemograma revela eosinofilia (eosinófilos 1.200/mm³). O exame parasitológico de fezes (método de Kato-Katz) evidencia ovos com formato ovalado e espículo lateral proeminente. Qual é o agente etiológico responsável pelo quadro?
Como esse tema cai
O pacote "parasitoses intestinais do adulto" tem um protagonista absoluto — a esquistossomose mansoni, quase sempre na forma hepatoesplênica — e um elenco de coadjuvantes que existem para armar pegadinha: a estrongiloidíase à espreita do corticoide, o ancilostomídeo por trás da anemia ferropriva do trabalhador rural, o áscaris que vira urgência mecânica. Quatro cenários resolvem a maior parte das questões: o jovem de área endêmica com esplenomegalia, varizes e fígado funcionante; o imunossuprimido que vai receber corticoide; o lavrador anêmico com eosinofilia; e a tabela de doses únicas do arsenal antiparasitário.
A régua brasileira da esquistossomose mora em dois documentos do Ministério da Saúde: o capítulo do Guia de Vigilância em Saúde (6ª edição, 2023) e as Diretrizes Técnicas de vigilância, atualizadas em 2024 — que aposentaram a 4ª edição, de 2014. Não há PCDT publicado: o protocolo está em elaboração, e foi desse processo que saiu a recomendação da Conitec (2026) ampliando o praziquantel para crianças de 2 a 4 anos. O número nacional do adulto é 50 mg/kg em dose única; a OMS trabalha com 40 mg/kg — e há questão que cobra exatamente essa diferença.
As geo-helmintíases oficiais são quatro espécies em três doenças — ascaridíase (Ascaris lumbricoides), tricuríase (Trichuris trichiura) e ancilostomíase (Ancylostoma duodenale e Necator americanus) — todas tratáveis com albendazol 400 mg, inclusive em campanha escolar de dose única. A estrongiloidíase fica fora desse guarda-chuva farmacológico: é a exceção que exige ivermectina e a que mata quando ignorada. A eosinofilia é o fio condutor do capítulo: helminto em fase tissular eleva eosinófilos; protozoário intestinal (giárdia, ameba), não.
O que muda decisão
Esquistossomose: ciclo, fases e formas clínicas
O Schistosoma mansoni depende de dois hospedeiros: o ser humano (definitivo) e os caramujos aquáticos do gênero Biomphalaria (B. glabrata, B. straminea e B. tenagophila), registrados em 24 estados, sobretudo Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. A cercária liberada pelo caramujo — com pico ao meio-dia, sob luz e calor — penetra ativamente a pele de quem entra na água; o esquistossômulo migra por circulação até os pulmões e o fígado, onde amadurece. O casal adulto se instala nas veias mesentéricas (a fêmea no canal ginecóforo do macho) e inicia a oviposição: parte dos ovos, de espícula lateral característica, ganha a luz intestinal e volta à água pelas fezes, onde eclode o miracídio que infecta o caramujo. A incubação é de 2 a 6 semanas; a eliminação de ovos começa por volta da 5ª semana e dura em geral 6 a 10 anos — podendo passar de 20.
Na fase inicial, a maioria dos infectados é assintomática — muitos casos são achados de eosinofilia com ovos no exame de fezes. A dermatite cercariana é a lesão pruriginosa da penetração, semelhante a picadas de inseto, que dura até 5 dias. A forma aguda sintomática — febre de Katayama — surge 3 a 7 semanas após a exposição: febre, linfadenopatia, cefaleia, anorexia, dor abdominal e, menos frequentemente, diarreia, vômitos e tosse seca, com hepatoesplenomegalia dolorosa ao exame. Eosinofilia elevada com epidemiologia de banho em coleção de água doce é a assinatura do quadro — e a pegadinha é que o exame de fezes ainda pode ser negativo, porque a oviposição pode não ter começado.
A fase tardia começa a partir de 6 meses da infecção. O Guia de Vigilância lista as formas crônicas: hepatointestinal (a mais comum — sintomas digestivos inespecíficos), hepática, hepatoesplênica compensada e descompensada, vasculopulmonar (hipertensão pulmonar), pseudoneoplásica e localizações ectópicas. O dano não vem do verme, e sim do granuloma em torno dos ovos retidos nos espaços porta: a fibrose periportal de Symmers ("em haste de cachimbo") obstrui os ramos portais intra-hepáticos e produz hipertensão porta pré-sinusoidal — esplenomegalia volumosa, varizes esofágicas, plaquetopenia por hiperesplenismo — com função hepatocelular preservada. Esse é o contraste que a prova adora: albumina, INR e bilirrubina normais num paciente com varizes sangrantes não é cirrose, é esquistossomose. Na forma descompensada aparecem ascite, desnutrição e insuficiência hepática, frequentemente com cofatores (álcool, hepatites virais).
A neuroesquistossomose — tipicamente mielorradiculopatia — é a forma ectópica grave: paraparesia de instalação subaguda, dor lombar, nível sensitivo e disfunção esfincteriana, podendo ocorrer ainda na fase inicial e com carga parasitária pequena. Em jovem de área endêmica com mielopatia não compressiva, ela entra no topo do diferencial, porque tem tratamento e o atraso custa sequela.

Esquistossomose: diagnóstico, tratamento e vigilância
O diagnóstico de certeza é o ovo. O método Kato-Katz é o recomendado para inquéritos e rotina de área endêmica: quantifica ovos por grama de fezes, mede a intensidade da infecção e serve ao controle de cura; a sedimentação espontânea (Lutz ou Hoffman-Pons-Janer) é a alternativa. Em área não endêmica ou de baixa prevalência, quando a clínica sugere e as fezes vêm negativas, entram as sorologias da rede Lacen — IgM por imunofluorescência indireta ou IgG por ELISA com antígeno de ovo (SEA). O Guia é explícito: sorologia (e também PCR ou detecção de antígeno) é elemento de suspeição, não confirma o caso — sorologia positiva pede fezes seriadas, e a biópsia retal pode flagrar o ovo quando as fezes teimam em negativar. Ultrassonografia mostra a fibrose periportal; a endoscopia, as varizes.
O tratamento é praziquantel — único fármaco do programa desde 1996, quando a oxamniquina saiu de cena. Comprimidos de 600 mg, via oral após uma refeição, em dose única: 50 mg/kg no adulto e 60 mg/kg na criança de 4 a 15 anos (a OMS usa 40 mg/kg para todos — ver divergências). O Guia recomenda repouso de pelo menos 3 horas após a ingestão para reduzir náuseas e tontura. O índice de cura aproxima-se de 80% no adulto e 70% na criança, com efeitos adversos leves e transitórios. Não se usa na gestação; na lactação, só a forma grave sob supervisão. Em menores de 2 anos fica a critério médico — e a faixa de 2 a 4 anos, antes fora da rotina, teve ampliação de uso aprovada pela Conitec em 2026, a ser formalizada no PCDT em elaboração. Insuficiência hepática grave (a própria hepatoesplênica descompensada) e insuficiência renal descompensada também contraindicam.
Na forma aguda o praziquantel não anda sozinho: as Diretrizes de 2024 mandam associar corticoide, porque a destruição maciça de vermes num paciente hiperreativo exacerba a doença por hipersensibilidade. No quadro agudo menos grave, prednisona 0,5 mg/kg/dia começa junto com o praziquantel; no agudo grave, prednisona 1 mg/kg/dia primeiro e praziquantel 24 a 48 horas depois, com desmame semanal. Na mielorradiculopatia, o esquema é corticoide em dose alta e prolongada — 1 mg/kg/dia por 60 dias com redução lenta, ou pulsoterapia com metilprednisolona 1 g/dia por 3 dias seguida de prednisona 40 mg/dia por até 6 meses — associado ao esquistossomicida. Na hepatoesplênica, tratar o parasito não desfaz a fibrose instalada: o manejo das varizes e do sangramento segue o padrão de qualquer hipertensão porta (ligadura, betabloqueador, terlipressina na urgência), com a vantagem prognóstica de um fígado que funciona.
A vigilância tem regra dupla. Em área endêmica, os casos de rotina entram no sistema do programa (SISPCE) e apenas formas graves e hospitalizados vão ao Sinan; em área não endêmica ou focal, todo caso confirmado é de notificação compulsória no Sinan — e formas graves e surtos são notificáveis em qualquer área. O programa opera por inquéritos coproscópicos bianuais, e a positividade da localidade dita a conduta coletiva: abaixo de 15%, tratam-se só os positivos; de 15% a 25%, positivos e conviventes; acima de 25%, a localidade inteira. O controle de cura é parasitológico, com 3 amostras — o prazo diverge entre os dois documentos vigentes do MS (ver divergências).
Geo-helmintíases: ascaridíase, ancilostomíase e tricuríase
Geo-helmintos são os vermes cujo ovo ou larva amadurece no solo antes de infectar: Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura e os ancilostomídeos Ancylostoma duodenale e Necator americanus. A OMS estima 1,5 bilhão de infectados — 24% da humanidade. No Brasil, o inquérito nacional em escolares (2010-2015, quase 200 mil crianças) mostrou positividade em torno de 6% para ascaridíase, 5% para tricuríase e 3% para ancilostomíase, concentradas no Norte e no Nordeste, em zonas rurais e periferias sem saneamento. O diagnóstico é o exame parasitológico de fezes; o tratamento programático é albendazol 400 mg em dose única, distribuído pelo SUS inclusive em campanha escolar.
Ascaridíase: o maior nematódeo intestinal (até 30 cm) vive no delgado, e a maioria dos portadores nada sente. A fase larvária passa pelo pulmão e pode dar a síndrome de Löffler — infiltrado pulmonar migratório com tosse e eosinofilia, comum aos helmintos de ciclo pulmonar (áscaris, ancilostomídeos, estrongiloide). As complicações são mecânicas e caem em prova: o bolo de áscaris que obstrui o íleo (mais em criança, mas descrito no adulto) e o verme errante que entra no colédoco — cólica biliar, colangite, pancreatite. Na suboclusão, a conduta clássica é clínica: jejum, sonda nasogástrica, hidratação e óleo mineral, deixando o anti-helmíntico para depois da resolução — matar o verme dentro do bolo ou do ducto piora a obstrução. Na via biliar, trata-se a colangite e recorre-se à CPRE se o verme não migra; cirurgia fica para o refratário e o complicado.
Ancilostomíase: as larvas filarioides penetram a pele (o clássico trabalhador rural descalço — N. americanus predomina no Brasil), passam pelo pulmão e o verme adulto se fixa no duodeno, onde suga sangue. O resultado é a anemia ferropriva de instalação lenta, com hipocromia, microcitose, ferritina baixa e hipoalbuminemia — o "amarelão" da história brasileira. Anemia ferropriva mais eosinofilia em quem anda descalço é ancilostomíase até prova em contrário. O tratamento soma albendazol 400 mg em dose única e reposição de ferro. Não confundir com Ancylostoma braziliense, o parasito de cão e gato que não completa o ciclo no humano e causa a larva migrans cutânea (bicho-geográfico).
Tricuríase: o Trichuris vive no ceco e no cólon, sem ciclo pulmonar (a infecção é fecal-oral direta, por ovos). Carga baixa é assintomática; carga alta produz colite crônica com diarreia mucossanguinolenta, tenesmo, anemia e — a imagem de prova — prolapso retal na infestação maciça. Aqui a dose única cura mal: o esquema é albendazol 400 mg/dia por 3 dias (mebendazol 100 mg de 12/12 h por 3 dias é alternativa consagrada nas três geo-helmintíases).
Estrongiloidíase: a exceção que mata o imunossuprimido
O Strongyloides stercoralis é transmitido pelo solo como os ancilostomídeos — larva penetrando pele, ciclo pulmonar —, mas guarda duas diferenças que definem tudo: elimina larvas (não ovos) nas fezes e faz autoinfecção, com larvas que se tornam infectantes ainda no intestino e reinvadem a mucosa ou a pele perianal. Por isso a infecção se perpetua por décadas depois que a pessoa deixou a área endêmica. A crônica costuma ser oligossintomática: epigastralgia, diarreia intermitente, eosinofilia flutuante e a larva currens — lesão urticariforme serpiginosa e migratória, tipicamente em nádegas e tronco, que anda centímetros por hora e some em horas ou dias.
O diagnóstico não sai do parasitológico comum, que é pouco sensível para larvas: pede-se o método de Baermann-Moraes (ou cultura em ágar) em amostras seriadas, com sorologia como apoio. E aqui entra a regra de ouro: corticoide e estrongiloidíase não se cruzam sem tratamento. A imunossupressão — corticoterapia sistêmica à frente, mas também HTLV-1, transplante e quimioterapia — converte a autoinfecção controlada em síndrome de hiperinfecção e doença disseminada: larvas em pulmão, fígado e sistema nervoso central, arrastando bactérias entéricas e produzindo sepse e meningite por Gram-negativos, com mortalidade altíssima. O corticoide ainda apaga a eosinofilia, o único sinal que denunciaria o verme.
O tratamento é ivermectina 200 µg/kg/dia por 2 dias, repetida em 2 semanas para alcançar o ciclo de autoinfecção; na hiperinfecção, ivermectina diária até negativação das larvas por pelo menos 2 semanas, reduzindo a imunossupressão ao mínimo. A OMS é explícita: o S. stercoralis não responde aos esquemas de dose única de albendazol ou mebendazol usados nas campanhas — albendazol é alternativa inferior, não equivalente. Na prática de prova: paciente com epidemiologia compatível que vai iniciar corticoide prolongado recebe investigação dirigida ou ivermectina empírica antes — nunca o corticoide primeiro.
As outras parasitoses do adulto que a prova cobra
Teníase e o complexo teníase-cisticercose: a Taenia solium (porco) e a T. saginata (boi) causam parasitismo intestinal em geral silencioso — proglotes nas fezes, vago desconforto. O tratamento é praziquantel 10 mg/kg em dose única. O que reprova é confundir as vias: comer carne malcozida com cisticercos dá teníase; ingerir ovos de T. solium (água, alimentos, mãos contaminadas pelas fezes de um portador de teníase — inclusive autoinfecção) dá cisticercose. A neurocisticercose — causa clássica de epilepsia de início tardio em área endêmica — é doença de outro capítulo, mas nasce desse ciclo invertido.
Enterobíase (oxiuríase): o Enterobius vermicularis põe ovos na região perianal à noite — prurido anal noturno, insônia, escoriações, frequentemente com vários casos na mesma casa. O parasitológico de fezes costuma ser negativo: o diagnóstico é a fita adesiva (método de Graham) aplicada de manhã ao ânus. Trata-se com albendazol 400 mg em dose única repetida em 2 semanas — e a prescrição vai para todos os conviventes, com higiene de unhas, roupas de cama e banho, senão a reinfestação é regra.
Giardíase: a Giardia intestinalis coloniza o duodeno e produz diarreia alta e disabsortiva — fezes volumosas, claras, fétidas, com esteatorreia, distensão e flatulência, sem sangue, sem febre alta e sem eosinofilia. História típica: água de riacho, poço ou viagem. Diagnóstico por cistos no parasitológico seriado (a eliminação é intermitente) ou pesquisa de antígeno fecal. Tratamento: metronidazol 250 mg de 8/8 h por 5 dias ou tinidazol 2 g em dose única.
Amebíase: a Entamoeba histolytica invade o cólon — colite disentérica com sangue e muco, cólica e tenesmo — e pode migrar ao fígado como abscesso único de lobo direito (febre, dor no hipocôndrio direito, imagem em USG), também sem eosinofilia. A colite invasiva e o abscesso tratam-se com metronidazol 750 mg de 8/8 h por 10 dias, seguido de um amebicida intraluminal (teclozana) para erradicar os cistos e evitar recaída e transmissão — o metronidazol sozinho limpa o tecido, não a luz intestinal.
Da suspeita ao controle de cura — e a escada da forma hepatoesplênica
O raciocínio da esquistossomose segue um funil único — suspeitar pela epidemiologia, confirmar pelo ovo, tratar com dose única e vigiar a cura — enquanto a doença crônica sobe uma escada anatômica que vai do granuloma isolado à hipertensão porta descompensada. Os cards mostram essa progressão; as tabelas concentram o arsenal terapêutico e as regras de programa.
- 1Suspeita clínico-epidemiológica: área endêmica, contato com coleção de água doce, eosinofilia, esplenomegalia ou varizes com função hepática preservada
- 2Parasitológico de fezes: Kato-Katz na rotina de área endêmica (quantifica ovos/grama); Lutz/HPJ como alternativa — ovo encontrado confirma o caso
- 3Fezes negativas com suspeita mantida (área não endêmica/baixa prevalência): sorologia IgM (IFI) ou IgG (ELISA) — se positiva, novas fezes seriadas; biópsia retal em caso selecionado
- 4Caso confirmado: praziquantel em dose única (50 mg/kg adulto; 60 mg/kg criança de 4 a 15 anos) + corticoide se forma aguda ou neurológica
- 5Notificar conforme a área (Sinan/SISPCE) e fazer controle de cura parasitológico com 3 amostras — o prazo diverge entre os documentos do MS (ver divergências)
Hepatointestinal
Granulomas esparsos; sintomas digestivos vagos; fígado de tamanho e função normais. É a forma crônica mais comum — e a mais subdiagnosticada.
Hepática (fibrose periportal)
Fibrose de Symmers em formação nos espaços porta — o ultrassom já mostra o espessamento periportal; o baço ainda não cresceu.
Hepatoesplênica compensada
Hipertensão porta pré-sinusoidal instalada: esplenomegalia, varizes, plaquetopenia — com albumina, INR e bilirrubina preservados.
Hepatoesplênica descompensada
Ascite, desnutrição e falência hepática — muitas vezes com cofator (álcool, hepatite viral). É contraindicação ao praziquantel até compensar.
| Parasitose | 1ª escolha | Esquema no adulto | Observação-chave |
|---|---|---|---|
| Esquistossomose | Praziquantel | 50 mg/kg VO em dose única (criança de 4 a 15 anos: 60 mg/kg) | Após refeição; repouso de 3 h; cura ~80%; OMS usa 40 mg/kg |
| Ascaridíase | Albendazol | 400 mg VO em dose única | Suboclusão: conduta clínica primeiro; anti-helmíntico após resolver |
| Ancilostomíase | Albendazol | 400 mg VO em dose única + sulfato ferroso | Anemia ferropriva de instalação lenta; trabalhador descalço |
| Tricuríase | Albendazol | 400 mg/dia por 3 dias | Dose única cura mal; carga alta faz prolapso retal |
| Estrongiloidíase | Ivermectina | 200 µg/kg/dia por 2 dias; repetir em 2 semanas | Hiperinfecção: diária até negativar; albendazol é inferior |
| Enterobíase | Albendazol | 400 mg em dose única, repetida em 2 semanas | Tratar todos os conviventes; diagnóstico pela fita gomada |
| Teníase | Praziquantel | 10 mg/kg VO em dose única | Carne com cisticerco dá teníase; ovos ingeridos dão cisticercose |
| Giardíase | Metronidazol | 250 mg de 8/8 h por 5 dias (ou tinidazol 2 g dose única) | Diarreia alta disabsortiva; sem sangue e sem eosinofilia |
| Amebíase invasiva | Metronidazol | 750 mg de 8/8 h por 10 dias + teclozana (intraluminal) | Sem o luminal, o cisto persiste e o quadro recai |
Esquistossomose: conduta de programa e notificação por cenário
| Cenário | Conduta | Registro |
|---|---|---|
| Área endêmica, positividade < 15% no inquérito | Tratar somente os positivos | SISPCE |
| Área endêmica, positividade de 15% a 25% | Tratar positivos + conviventes | SISPCE |
| Área endêmica, positividade > 25% | Tratamento coletivo da localidade | SISPCE |
| Área não endêmica ou focal | Todo caso confirmado é notificado e investigado | Sinan |
| Forma grave, hospitalização ou surto | Notificação obrigatória em qualquer área | Sinan |
Praziquantel: comprimidos de 600 mg; o índice de cura aproxima-se de 80% no adulto e 70% na criança (Diretrizes 2024).
A esquistossomose ainda não tem PCDT publicado — o protocolo está em elaboração, e a ampliação do praziquantel para 2 a 4 anos (Conitec, jun/2026) será formalizada nele.
Ivermectina e albendazol não se equivalem: a estrongiloidíase não responde aos esquemas de dose única usados nas campanhas de geo-helmintíases (OMS).
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Ministério da Saúde (GVS 2023; Diretrizes 2024): 50 mg/kg no adulto, 60 mg/kg na criança
É o esquema do programa brasileiro desde a padronização do PCE, com tabelas de comprimidos por faixa de peso e cura em torno de 80% no adulto.
Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed., 2023; Vigilância da Esquistossomose Mansoni: diretrizes técnicas, 2024
OMS: 40 mg/kg em dose única para crianças e adultos
É a dose global da quimioterapia preventiva. O relatório da Conitec de 2026 registra que os ensaios não mostram diferença relevante de eficácia entre 40 e 60 mg/kg — a diferença brasileira é padronização programática histórica, não superioridade demonstrada.
OMS (guideline 2022), citada e comparada no Relatório Conitec nº 1.123/2026
Na prova
O enunciado denuncia o recorte: programa brasileiro, PCE, GVS ou unidade do SUS pedem 50 mg/kg no adulto e 60 mg/kg na criança; quimioterapia preventiva, campanha global ou citação nominal da OMS pedem 40 mg/kg. Alternativas trazendo 40 e 50 lado a lado indicam que a banca quer exatamente essa distinção — e prova oficial do MEC tende à conduta do documento do SUS.
Diretrizes Técnicas 2024 (rotina do PCE): a partir de 40 dias
O programa estabelece verificação de cura parasitológica com Kato-Katz em 3 amostras de dias alternados, com a primeira amostra coletada 40 dias após o tratamento; positivos são retratados.
Vigilância da Esquistossomose Mansoni: diretrizes técnicas, MS, 2024
Guia de Vigilância em Saúde (6ª ed., 2023): no 4º mês
O capítulo de esquistossomose orienta controle de cura no quarto mês após o tratamento, com detecção de ovos em 3 amostras de fezes de dias diferentes, admitindo que o melhor método permanece em avaliação.
Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed., vol. 3, MS, 2023
Na prova
É divergência entre dois documentos vigentes do próprio Ministério da Saúde, de gerações editoriais diferentes — o guia geral não incorporou o prazo operacional do programa. Questões que descrevem a rotina do PCE ou citam as Diretrizes Técnicas trabalham com 40 dias; questões montadas sobre o texto do GVS trabalham com 4º mês. O número que aparece nas alternativas revela qual documento a banca leu.
Brasil (PCE): diagnóstico primeiro, tratamento conforme a positividade
Inquéritos coproscópicos bianuais definem a conduta: abaixo de 15% tratam-se os positivos; de 15% a 25%, positivos e conviventes; acima de 25%, a localidade inteira. Mesmo o tratamento coletivo nasce ancorado em inquérito diagnóstico.
Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed., 2023
OMS: quimioterapia preventiva em larga escala, sem diagnóstico individual prévio
Em áreas endêmicas, a OMS preconiza tratamento periódico em massa com praziquantel de grupos-alvo — escolares à frente, além de ocupações de risco e comunidades inteiras em alta transmissão — como ferramenta de eliminação da doença como problema de saúde pública. Restrição de recursos diagnósticos nos países de alta carga é parte da lógica.
OMS, Schistosomiasis fact sheet, 2025
Na prova
Vocabulário resolve: inquérito, positividade da localidade, conviventes e SISPCE são o mundo do programa brasileiro; campanha em escolares sem exame prévio, quimioterapia preventiva e metas de eliminação são o mundo OMS. No Brasil a prevalência nacional em escolares caiu a cerca de 1%, o que sustenta a lógica diagnóstico-guiada do PCE.
Caso resolvido
- achado
- Hipertensão porta inequívoca (varizes + esplenomegalia volumosa + plaquetopenia por hiperesplenismo) com função hepatocelular preservada — albumina, INR e bilirrubinas normais — em jovem com décadas de exposição a água doce no Nordeste.
- interpretação
- O padrão é de bloqueio pré-sinusoidal: esquistossomose hepatoesplênica (fibrose de Symmers), não cirrose — o hepatócito está poupado. Ultrassom com espessamento periportal e Kato-Katz confirmam; se as fezes negativarem, biópsia retal é o recurso para flagrar o ovo.
- conduta
- Na urgência, o sangramento varicoso se trata como em qualquer hipertensão porta: reposição, terlipressina ou octreotida, antibiótico e ligadura endoscópica. Resolvida a urgência, praziquantel 50 mg/kg em dose única e profilaxia secundária com betabloqueador e ligadura seriada.
- vigilância
- Forma grave: notificação no Sinan independentemente de a área ser endêmica, com investigação do local provável de infecção — e controle de cura parasitológico com 3 amostras após o tratamento.
Agora feche você
- achado
- Epidemiologia de solo contaminado + larva currens (lesão serpiginosa migratória fugaz) + eosinofilia persistente = estrongiloidíase crônica provável, mantida por autoinfecção décadas após a exposição.
- risco
- Corticoide sistêmico é o gatilho clássico da síndrome de hiperinfecção e da doença disseminada: larvas invadem pulmão e SNC arrastando bactérias entéricas — sepse e meningite por Gram-negativos, com mortalidade altíssima. E o próprio corticoide apaga a eosinofilia que denunciaria o parasito.
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Corticoide primeiro, ivermectina depois A questão distrai com o reumatismo ou a asma em atividade e induz a começar logo o corticoide "e investigar depois". Na epidemiologia positiva, a ordem é inversa: ivermectina empírica antes da imunossupressão — depois da hiperinfecção instalada, a mortalidade é altíssima e a eosinofilia já terá sumido.
- 2Tratar a hepatoesplênica como cirrose Varizes sangrando puxam o rótulo automático de cirrótico Child alguma-coisa. O contraste que a banca planta é a função preservada (albumina, INR, bilirrubina normais) no jovem de área endêmica: hipertensão porta pré-sinusoidal por fibrose de Symmers, com prognóstico e conduta próprios — e praziquantel, que na cirrose não teria lugar.
- 3Eosinofilia creditada a protozoário Giárdia e ameba não elevam eosinófilos — eosinofilia é assinatura de helminto em fase tissular (áscaris, ancilostomídeo, estrongiloide, esquistossomose aguda). Alternativa que junta diarreia alta + eosinofilia + "giardíase" está se autodenunciando como distrator.
- 4Praziquantel sozinho na forma aguda ou neurológica Parece lógico atacar logo o verme, mas a lise maciça num hospedeiro hiperreativo exacerba a doença por hipersensibilidade. As Diretrizes de 2024 associam prednisona na forma aguda (0,5 a 1 mg/kg/dia, antes ou junto do praziquantel) e corticoide prolongado ou pulsoterapia na mielorradiculopatia.
- 5Albendazol 400 mg resolve qualquer verme A dose única de campanha atrai pela simplicidade, mas falha três vezes: estrongiloidíase pede ivermectina; tricuríase pede 3 dias de albendazol; enterobíase pede repetição em 2 semanas e tratamento de todos os conviventes. Dose única só fecha para áscaris e ancilostomídeo.
- 6Cisticercose "por comer carne de porco" A associação popular inverte o ciclo e a banca cobra a inversão: carne com cisticerco dá teníase (verme adulto no intestino); cisticercose vem da ingestão de OVOS eliminados nas fezes de um portador de teníase — transmissão fecal-oral, inclusive autoinfecção de quem alberga o verme.
Correta: o ovo com espículo (esporão) LATERAL é o achado patognomônico do Schistosoma mansoni — única espécie de esquistossomo endêmica no Brasil, transmitida pelo contato com água doce contendo caramujos Biomphalaria. O contexto (zona rural endêmica de MG, banho em lagoa, eosinofilia, ovo com espículo lateral no Kato-Katz) fecha o diagnóstico em um passo. Ascaris tem ovos ovais com casca mamilonada, sem espículo. Ancylostoma (ancilostomíase) tem ovos de casca fina com blastômeros, cursa com anemia ferropriva, não com espículo. Taenia elimina proglotes/ovos esféricos com embrióforo estriado radialmente. Strongyloides é diagnosticado por larvas rabditoides (não ovos) nas fezes.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem, 34 anos, lavrador natural de zona rural do norte de Minas Gerais, procura o pronto-socorro após episódio de hematêmese volumosa. Refere banhos frequentes em lagoas durante a infância. Ao exame: consciente, corado, sem estigmas de hepatopatia crônica (ausência de aranhas vasculares, eritema palmar ou ginecomastia). Fígado não palpável; baço palpável a 6 cm do rebordo costal esquerdo. Exames: Hb 9,8 g/dL (VR 13–17), plaquetas 78.000/mm³ (VR 150.000–450.000), INR 1,0, albumina 4,1 g/dL (VR 3,5–5,0), bilirrubina total 0,8 mg/dL (VR até 1,2), AST 28 U/L e ALT 30 U/L (VR até 40). Endoscopia digestiva alta: varizes esofágicas de grosso calibre com sinal de sangramento recente. Qual é o diagnóstico mais provável para a hipertensão portal deste paciente?
O quadro reúne hipertensão portal com hemorragia varicosa e esplenomegalia, MAS com função hepatocelular preservada (albumina, INR, bilirrubina e transaminases normais) e sem estigmas de hepatopatia crônica — o padrão clássico da hipertensão portal PRÉ-SINUSOIDAL da esquistossomose mansônica hepatoesplênica, onde a fibrose periportal (de Symmers) obstrui os ramos portais poupando o parênquima. A epidemiologia (área endêmica de MG, contato com coleções de água doce) reforça (opção correta). Cirrose por HCV cursaria com disfunção sintética (albumina baixa, INR alargado) e sinais de hepatopatia, ausentes aqui. Hepatite autoimune com cirrose também comprometeria a função hepática e traria autoanticorpos/hipergamaglobulinemia. Budd-Chiari cursa tipicamente com hepatomegalia dolorosa, ascite e disfunção hepática, não com fígado impalpável e provas normais. DHGNA/NASH avançada geraria alterações de transaminases e estigmas de doença metabólica, sem o vínculo epidemiológico descrito.
Mulher, 42 anos, trabalhadora rural, tem o hábito de andar descalça na lavoura. Queixa-se de cansaço progressivo e palidez há cerca de 3 meses. Ao exame: mucosas hipocoradas (3+/4+), sem visceromegalias. Hemograma: Hb 7,2 g/dL (VR 12–16), VCM 68 fL (VR 80–100), HCM 21 pg (VR 27–33), eosinófilos 1.200/mm³ (VR até 500). Ferritina 6 ng/mL (VR 15–150). Exame parasitológico de fezes: ovos de casca fina, ovalados, contendo blastômeros em segmentação. Qual é o agente etiológico mais provável?
A tríade epidemiológica e laboratorial é típica: exposição de pele descalça ao solo (penetração da larva filarioide), anemia FERROPRIVA (microcítica/hipocrômica, VCM e HCM baixos, ferritina baixa) por espoliação sanguínea crônica na mucosa intestinal, eosinofilia e ovos de casca fina e ovalados no PPF — quadro clássico de ancilostomíase (opção correta). Ascaris lumbricoides causa ovos de casca espessa e mamilonada e não provoca anemia ferropriva significativa. Enterobius manifesta-se por prurido anal, com diagnóstico pela fita adesiva perianal, não por anemia. Schistosoma mansoni tem ovo com espícula lateral e cursa com forma intestinal/hepatoesplênica, não com ferropenia por sucção. Taenia solium apresenta proglotes/ovos com casca radiada e não causa anemia ferropriva.
Homem, 58 anos, com diagnóstico recente de linfoma, iniciou quimioterapia contendo corticoide em altas doses há 2 semanas. É natural de área rural do interior do Maranhão. Evolui com dor abdominal difusa, distensão, vômitos, febre (T 38,7 °C) e dispneia. PA 88/54 mmHg, FC 118 bpm, FR 28 ipm, SatO2 90% em ar ambiente. Radiografia de tórax: infiltrado pulmonar bilateral. Hemocultura: crescimento de Escherichia coli. Chama atenção a AUSÊNCIA de eosinofilia no hemograma. Levanta-se a hipótese de forma disseminada de uma helmintíase. Qual é o agente responsável e o tratamento de escolha?
O cenário é a síndrome de hiperinfecção/disseminação por Strongyloides stercoralis: paciente de área endêmica submetido a IMUNOSSUPRESSÃO (corticoide em alta dose), evoluindo com quadro gastrointestinal e pulmonar, choque e SEPSE por bactéria entérica gram-negativa (E. coli), que as larvas invasoras carreiam da mucosa intestinal. A ausência de eosinofilia é sinal de mau prognóstico e reforça a disseminação. O tratamento de escolha é a ivermectina (opção correta). O ciclo de autoinfecção do S. stercoralis explica por que a infecção persiste e explode sob imunossupressão. Ascaris não causa síndrome de hiperinfecção com sepse gram-negativa; albendazol trata ascaridíase comum. Praziquantel é para esquistossomose, cujo quadro grave é hepatoesplênico/portal, não hiperinfecção pulmonar-séptica. Ancilostomíase cursa com anemia ferropriva, e mebendazol não é a droga para estrongiloidíase disseminada. Enterobíase causa prurido anal e não tem forma disseminada; pirantel não cobre Strongyloides.
Homem, 34 anos, agricultor, natural de zona rural do norte de Minas Gerais, procura o pronto-socorro após episódio de hematêmese volumosa. Nega etilismo ou uso de drogas. Ao exame: PA 110/70 mmHg, FC 96 bpm, mucosas descoradas (2+/4+), anictérico, sem aranhas vasculares ou eritema palmar. Abdome com esplenomegalia volumosa (baço a 8 cm do rebordo costal) e lobo hepático esquerdo endurecido. Exames: Hb 7,8 g/dL (VR 13-17), plaquetas 88.000/mm³ (VR 150.000-400.000), albumina 4,0 g/dL (VR 3,5-5,0), INR 1,0, bilirrubinas normais. EDA: varizes esofágicas de grosso calibre com sinais de sangramento recente. USG de abdome: fibrose periportal em 'haste de cachimbo' (padrão de Symmers), veia porta calibrosa, sem nódulos hepáticos. Assinale o diagnóstico mais provável.
Correta: o quadro é de hipertensão portal PRESSINUSOIDAL com FUNÇÃO HEPÁTICA PRESERVADA (albumina, INR e bilirrubinas normais, sem estigmas de hepatopatia crônica) em paciente jovem de área endêmica, com fibrose periportal de Symmers ('haste de cachimbo') ao USG e esplenomegalia volumosa — apresentação clássica da esquistossomose mansônica hepatoesplênica. A obstrução pré-sinusoidal pelos ovos nos ramos portais explica varizes e hiperesplenismo (plaquetopenia) sem insuficiência hepatocelular. Cirrose alcoólica cursa com disfunção hepática (albumina baixa, INR alargado) e estigmas, além de o paciente negar etilismo. Cirrose por HCV também comprometeria a síntese hepática e daria fibrose difusa, não periportal segmentar. Trombose portal não gera o padrão de Symmers e o USG mostrou porta calibrosa, sem cavernoma. Hepatocarcinoma exigiria nódulo/massa e trombo tumoral, ausentes na imagem.
Homem, 58 anos, natural do interior do Maranhão, com diagnóstico recente de linfoma não-Hodgkin, será submetido a quimioterapia associada a corticoterapia em altas doses. Refere epigastralgia intermitente e surtos de lesão cutânea serpiginosa migratória e pruriginosa no tronco (larva currens). Hemograma com eosinofilia de 1.200/mm³ (VR até 500). O parasitológico de fezes pelo método de Baermann-Moraes evidenciou larvas rabditoides de Strongyloides stercoralis. Antes de iniciar a imunossupressão, a conduta anti-helmíntica de escolha é:
Correta: a ivermectina (200 mcg/kg/dia por 1-2 dias) é o tratamento de primeira escolha da estrongiloidíase, e o rastreio/tratamento é MANDATÓRIO antes de imunossupressão: o corticoide acelera o ciclo de autoinfestação e precipita a síndrome de hiperinfecção/estrongiloidíase disseminada, de alta letalidade. A eosinofilia + larva currens + Baermann positivo confirmam a infecção. Albendazol tem eficácia inferior à ivermectina no Strongyloides e não é a droga de escolha. Praziquantel age em trematódeos/cestódeos, não em nematódeo intestinal. Postergar em paciente que receberá corticoide em altas doses é justamente o erro que desencadeia a hiperinfecção fatal. Tiabendazol é de uso sistêmico (VO) e em desuso pela toxicidade; a via tópica não trata a infecção intestinal.
Mulher, 28 anos, trabalhadora rural que habitualmente anda descalça, queixa-se de fadiga progressiva e dispneia aos esforços há 3 meses. Ao exame: palidez cutâneo-mucosa (3+/4+), FC 104 bpm, sopro sistólico ejetivo em foco pulmonar. Hemograma: Hb 6,5 g/dL (VR 12-16), VCM 68 fL (VR 80-100), HCM 21 pg (VR 27-32), RDW 18%. Ferritina 4 ng/mL (VR 15-150). Parasitológico de fezes: ovos de ancilostomídeo. Nega hipermenorreia ou sangramento digestivo evidente. Além da reposição de ferro, o tratamento anti-helmíntico de escolha é:
Correta: o quadro é de anemia ferropriva grave (microcítica/hipocrômica, ferritina muito baixa) por ancilostomíase (Necator americanus/Ancylostoma duodenale), adquirida por penetração larvária na pele dos pés descalços; os vermes espoliam sangue na mucosa intestinal. O tratamento de escolha é albendazol 400 mg VO em dose única (alternativa: mebendazol), associado à reposição de ferro. Praziquantel trata trematódeos e cestódeos, não ancilostomídeos. Metronidazol cobre protozoários (amebíase, giardíase), não helmintos. Ivermectina é ineficaz contra ancilostomídeos (útil em Strongyloides). Nitazoxanida atua sobretudo em protozoários e alguns helmintos, mas não é fármaco de primeira linha para ancilostomíase.
Homem, 26 anos, lavrador, natural e procedente de zona rural do norte de Minas Gerais, com história de banho frequente em lagoa desde a infância. Procura o pronto-socorro após episódio de hematêmese de grande volume. Ao exame: consciente, corado, hidratado, sem icterícia, sem aranhas vasculares, sem ascite e sem circulação colateral evidente; esplenomegalia volumosa (baço palpável a 6 cm do rebordo costal esquerdo) e fígado com lobo esquerdo aumentado e endurecido. Exames: Hb 9,0 g/dL (VR 13–17), plaquetas 92.000/mm³, albumina 4,1 g/dL (VR 3,5–5,0), bilirrubina total 0,8 mg/dL (VR até 1,2), INR 1,1, TGO/TGP normais; eosinófilos 900/mm³ (VR até 500). Endoscopia digestiva alta com varizes esofágicas de grosso calibre com sinais da cor vermelha. Qual o diagnóstico mais provável?
Correta: o quadro mostra hipertensão portal (varizes de grosso calibre com hemorragia, esplenomegalia, plaquetopenia por hiperesplenismo) com FUNÇÃO HEPATOCELULAR PRESERVADA — albumina, bilirrubina, INR e transaminases normais, sem estigmas de hepatopatia crônica. Isso caracteriza hipertensão portal PRÉ-SINUSOIDAL, cujo padrão clássico em paciente jovem de área endêmica com contato de água doce é a fibrose periportal de Symmers da esquistossomose mansônica hepatoesplênica; o lobo esquerdo aumentado/endurecido e a eosinofilia reforçam. Errada: na cirrose a hipertensão é sinusoidal e há disfunção de síntese (albumina baixa, INR alargado, bilirrubina elevada), ausentes aqui. Errada: hepatocarcinoma é excepcional aos 26 anos sem cirrose de base e cursaria com massa/AFP, não com fígado fibrótico difuso e função normal. Errada: doença alcoólica exige história de etilismo e também cursa com disfunção sinusoidal e estigmas. Errada: não há insuficiência hepática — coagulação e bilirrubina normais —, portanto o sangramento decorre da hipertensão portal, não de falência hepática.
Mulher, 54 anos, agricultora, procedente do interior do Maranhão, onde sempre morou em área rural andando descalça. Recebeu diagnóstico recente de artrite reumatoide e o reumatologista planeja iniciar prednisona 40 mg/dia (dose imunossupressora). A paciente está assintomática do ponto de vista digestivo. Hemograma pré-tratamento: leucócitos 8.400/mm³ com eosinófilos 1.300/mm³ (VR até 500); demais exames normais. Antes de iniciar a corticoterapia, qual a conduta mais adequada para prevenir a complicação parasitária mais temida nesse cenário?
Correta: Eosinofilia, exposição rural com marcha descalça e iminência de imunossupressão configuram o cenário clássico de risco para síndrome de hiperinfecção/estrongiloidíase disseminada — complicação de alta letalidade desencadeada por corticoide em portadores crônicos de Strongyloides stercoralis. A conduta correta é rastrear e tratar (empiricamente, se rastreio indisponível) ANTES de imunossuprimir, sendo a ivermectina 200 mcg/kg/dia por 1–2 dias o fármaco de escolha. Errada: praziquantel trata esquistossomose/teníase, sem ação sobre Strongyloides. Errada: albendazol em dose única é insuficiente e menos eficaz que a ivermectina para estrongiloidíase (exigiria ao menos 3 dias e ainda assim é inferior). Errada: aguardar sintomas é perigoso — a hiperinfecção costuma se manifestar já como quadro disseminado grave/fatal, e o portador pode estar assintomático. Errada: nesse contexto (imunossupressão iminente + eosinofilia + epidemiologia) a eosinofilia não pode ser ignorada, pois sinaliza o parasita cujo tratamento prévio previne a hiperinfecção.
Um homem de 43 anos, natural e procedente da zona rural do interior da Bahia, procura a unidade de pronto atendimento após episódio de vômitos com sangue vivo em grande quantidade. Relata que trabalha em lavoura e tem contato frequente com água de riacho onde toma banho e pesca. Nega etilismo significativo e uso de drogas. Ao exame, encontra-se corado, sem icterícia, sem ascite ou sinais de encefalopatia; o abdome revela esplenomegalia volumosa e fígado de bordas endurecidas. Exames laboratoriais mostram albumina, bilirrubinas e tempo de protrombina normais, com plaquetopenia. A endoscopia digestiva alta evidencia varizes esofágicas de grosso calibre com sinais de sangramento recente. Qual é o diagnóstico mais provável e o mecanismo da hipertensão portal?
O quadro é típico da forma hepatoesplênica da esquistossomose mansônica: procedência de área endêmica, contato com água doce (cercárias), esplenomegalia e varizes com hemorragia digestiva, PORÉM com função hepatocelular preservada (albumina, bilirrubinas e coagulação normais). A hipertensão portal é pré-sinusoidal, causada pela fibrose periportal de Symmers, sem insuficiência hepática — o que a distingue da cirrose. Errada: haveria sinais de insuficiência hepatocelular e o paciente nega etilismo. A hepatite crônica B com carcinoma hepatocelular não se sustenta sem marcadores e com função hepática normal. A trombose idiopática da veia porta é improvável diante do fígado endurecido e do contexto epidemiológico clássico de esquistossomose.
Um lavrador de 36 anos comparece à unidade básica de saúde com queixa de cansaço progressivo, falta de ar aos esforços e palidez há alguns meses. Trabalha descalço na roça e não usa calçados fechados. Ao exame, apresenta palidez cutâneo-mucosa acentuada (++++/4+), sem hepatoesplenomegalia. O hemograma revela hemoglobina de 7,8 g/dL com VCM e HCM reduzidos (anemia microcítica e hipocrômica); a ferritina está baixa. O exame parasitológico de fezes (método de sedimentação) identifica ovos de ancilostomídeos. Com base no diagnóstico, qual é a conduta terapêutica mais adequada?
A ancilostomíase (Ancylostoma/Necator) é adquirida pela penetração das larvas na pele (andar descalço) e causa anemia ferropriva por espoliação sanguínea crônica na mucosa intestinal — explicando a anemia microcítica/hipocrômica com ferritina baixa e a confirmação por ovos de ancilostomídeos no EPF. O tratamento preconizado é anti-helmíntico (albendazol/mebendazol) associado à reposição de ferro para corrigir a anemia. Errada: praziquantel é para esquistossomose/teníases, não para ascaridíase, e os ovos não são de Ascaris. Erra: o parasita e a droga (estrongiloidíase trata-se com ivermectina/tiabendazol). Inadequada: pois há anemia grave sintomática que exige tratamento, e os ovos são de ancilostomídeo, não de Trichuris.
Uma mulher de 28 anos, residente em área periférica com saneamento básico precário, procura a unidade básica de saúde relatando desconforto abdominal leve e a eliminação de um verme cilíndrico, branco-rosado e de vários centímetros nas fezes. Encontra-se em bom estado geral, sem febre, sem sinais de obstrução intestinal e com exame abdominal normal. O exame parasitológico de fezes evidencia ovos de Ascaris lumbricoides. Qual é o anti-helmíntico de escolha para o tratamento dessa parasitose?
O quadro (eliminação de verme cilíndrico grande e ovos de Ascaris lumbricoides no EPF) confirma ascaridíase, cujo tratamento de escolha, segundo o Ministério da Saúde, são os benzimidazólicos — albendazol (dose única) ou mebendazol. Praziquantel é indicado para esquistossomose e cestódeos (teníases), não para ascaridíase. Metronidazol trata protozoários (amebíase, giardíase), não helmintos. Ivermectina é a droga de escolha para estrongiloidíase e escabiose, com eficácia limitada contra Ascaris, não sendo a primeira opção.
Homem de 34 anos, trabalhador rural procedente do Vale do Jequitinhonha (MG), é atendido no pronto-socorro após episódio de hematêmese de grande volume. Refere banhos frequentes em lagoa próxima à residência desde a infância. Nega etilismo, uso de medicamentos, hepatites prévias ou transfusões. Ao exame: corado (+/4+), anictérico, sem estigmas de hepatopatia crônica, sem ascite ou encefalopatia; baço palpável a 6 cm do rebordo costal esquerdo, endurecido; lobo hepático esquerdo endurecido e palpável no epigástrio. Exames: hemoglobina 8,9 g/dL, leucócitos 3.200/mm³, plaquetas 78.000/mm³, albumina 4,1 g/dL, bilirrubina total 0,8 mg/dL, INR 1,1, sorologias virais negativas. Ultrassonografia: espessamento periportal difuso, veia porta dilatada, esplenomegalia, fígado de contornos regulares. Endoscopia: varizes de esôfago de grosso calibre com sinais vermelhos. Quais são, respectivamente, o diagnóstico e a conduta mais adequados?
Correta: procedência de área endêmica com contato hídrico, esplenomegalia volumosa e endurecida, hipertrofia do lobo hepático esquerdo, hiperesplenismo (pancitopenia) e — o dado que fecha o raciocínio — FUNÇÃO HEPÁTICA PRESERVADA (albumina, bilirrubina e INR normais) com espessamento periportal à USG (fibrose de Symmers). Isso caracteriza hipertensão porta PRÉ-SINUSOIDAL da forma hepatoesplênica da esquistossomose mansônica, e não hepatopatia crônica. O manejo do sangramento segue o padrão: ligadura elástica na endoscopia + betabloqueador não seletivo para profilaxia secundária, associados ao tratamento específico com praziquantel em dose única, conforme o Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Incorreta: sorologias negativas e função hepática/síntese normais afastam cirrose; fígado de contornos regulares. Incorreta: nega etilismo e não há estigmas de hepatopatia; a hipertensão porta alcoólica é sinusoidal e cursa com disfunção de síntese. Incorreta: trombose esplênica isolada causa varizes de fundo gástrico (hipertensão porta segmentar), sem espessamento periportal, e esplenectomia de urgência não é conduta indicada neste cenário.
Mulher de 58 anos, procedente da zona rural do interior da Bahia, é avaliada na unidade de saúde da família. Tem diagnóstico recente de artrite reumatoide e o reumatologista prescreveu prednisona 40 mg/dia, com início programado para a próxima semana. Relata, há meses, epigastralgia intermitente, diarreia ocasional e lesões cutâneas pruriginosas, lineares e serpiginosas, migratórias, em nádegas e coxas. Andou descalça em terra batida a vida toda. Ao exame: bom estado geral, abdome flácido e indolor, lesões eritematosas serpiginosas em região glútea. Hemograma: hemoglobina 12,4 g/dL, leucócitos 9.100/mm³ com 14% de eosinófilos. Parasitológico de fezes simples, com uma amostra, resultou negativo. Qual é a conduta mais adequada antes do início da corticoterapia?
Correta: o quadro de larva currens (lesão serpiginosa migratória e pruriginosa), eosinofilia e exposição a solo contaminado aponta estrongiloidíase crônica. O parasitológico simples negativo NÃO afasta o diagnóstico — a eliminação larvária é intermitente e de baixa carga; o método de escolha é o de Baermann-Moraes (ou Rugai), em amostras seriadas. O segundo passo é o mais importante: corticoterapia em dose imunossupressora é o principal fator de risco para síndrome de hiperinfecção/estrongiloidíase disseminada, de alta letalidade. Por isso, rastrear e tratar com ivermectina ANTES de imunossuprimir. Incorreta: um parasitológico simples negativo tem baixa sensibilidade para Strongyloides e não autoriza imunossuprimir com segurança. Incorreta: praziquantel trata esquistossomose, não Strongyloides; a larva currens não é achado de esquistossomose. Incorreta: mebendazol/albendazol têm eficácia baixa e insuficiente contra Strongyloides stercoralis; o fármaco de escolha é a ivermectina.
Homem de 27 anos comparece à unidade básica de saúde de município do interior de Minas Gerais, em área endêmica, para mostrar exames solicitados em consulta anterior. Refere desconforto abdominal leve e episódios esporádicos de diarreia há alguns meses; relata banhos frequentes em córrego próximo à lavoura onde trabalha. Ao exame físico: bom estado geral, corado, anictérico, afebril; abdome flácido, indolor, sem visceromegalias palpáveis. Exame parasitológico de fezes pelo método de Kato-Katz evidencia ovos com espículo lateral, com contagem de 90 ovos por grama de fezes. Hemograma e provas de função hepática sem alterações. Qual é o tratamento específico indicado?
Correta: ovo com espículo LATERAL no Kato-Katz é o achado patognomônico de Schistosoma mansoni. O paciente tem forma intestinal (baixa carga parasitária, sem hepatoesplenomegalia ou alteração de função hepática). O tratamento preconizado pelo Ministério da Saúde é praziquantel via oral em dose única (50 mg/kg em adultos; 60 mg/kg em crianças), após as refeições, com controle de cura por parasitológico seriado. Trata-se ainda de doença de notificação compulsória em áreas não endêmicas. Incorreta: albendazol cobre geo-helmintíases (ascaridíase, ancilostomíase, tricuríase), não esquistossomose. Incorreta: ivermectina é indicada para estrongiloidíase e escabiose, sem eficácia contra S. mansoni. Incorreta: metronidazol trata protozooses (amebíase, giardíase), não helmintíases.
Homem de 34 anos, lavrador, procura a unidade de saúde da família de município do Vale do Jequitinhonha (MG) com queixa de desconforto abdominal e episódios de diarreia intermitente há cerca de um ano. Refere banho diário em lagoa próxima à lavoura desde a infância. Nega febre, etilismo, uso de drogas injetáveis ou transfusões. Ao exame físico: bom estado geral, corado, anictérico, afebril; fígado palpável a 3 cm do rebordo costal direito, de borda endurecida e superfície irregular à custa do lobo esquerdo; baço palpável a 5 cm do rebordo costal esquerdo, indolor; ausência de ascite, aranhas vasculares ou eritema palmar. Exames: hemoglobina 11,2 g/dL, leucócitos 3.200/mm³ (eosinófilos 8%), plaquetas 96.000/mm³, AST 28 U/L, ALT 24 U/L, bilirrubinas, albumina e INR normais; parasitológico de fezes pelo método de Kato-Katz com ovos de Schistosoma mansoni. Nessa situação, o diagnóstico e a conduta são, respectivamente,
A associação de exposição prolongada a coleção hídrica em área endêmica, ovos de S. mansoni no Kato-Katz, hepatomegalia à custa do lobo esquerdo com borda endurecida, esplenomegalia e pancitopenia (hiperesplenismo) com função hepática preservada (albumina, INR e bilirrubinas normais) caracteriza a forma hepatoesplênica, cuja hipertensão porta é pré-sinusoidal — por isso a função hepatocelular é poupada. O Ministério da Saúde preconiza praziquantel 50 mg/kg por via oral em dose única no adulto, e todo paciente com hipertensão porta deve ser rastreado com endoscopia digestiva alta, pois a hemorragia por varizes é a principal causa de óbito nessa forma. Cirrose por hepatite viral é improvável: não há estigmas de hepatopatia crônica nem disfunção sintética, e já há agente etiológico documentado. A forma intestinal não cursa com esplenomegalia nem plaquetopenia, e o albendazol não tem ação sobre o S. mansoni (é fármaco das geo-helmintíases). Leishmaniose visceral exigiria febre prolongada e comprometimento do estado geral, ausentes no caso.
Homem de 42 anos, pescador, natural de município endêmico do norte de Minas Gerais, procura a UBS por aumento progressivo do volume abdominal. Ao exame, está em bom estado geral, sem icterícia, ascite ou sinais de encefalopatia; nota-se hepatoesplenomegalia firme. Provas de função hepática (albumina, TAP, bilirrubinas) estão normais. O parasitológico de fezes pela técnica de Kato-Katz revela ovos de Schistosomma mansoni. Além de tratar a infecção com praziquantel, qual é a conduta prioritária diante desse quadro?
O quadro é a forma hepatoesplênica da esquistossomose mansônica: fibrose periportal (de Symmers) que gera hipertensão portal pré-sinusoidal com função hepática preservada. A principal complicação é a hemorragia por varizes esofagogástricas, o que torna prioritário o rastreamento por endoscopia digestiva alta. Sorologias virais com tratamento antiviral investigam causa não sugerida e há função hepática normal. Biópsia para cirrose Incorreta: pois não há cirrose e sim fibrose presinusoidal, dispensando biópsia. Paracentese não se aplica, já que o paciente não tem ascite.
Mulher de 55 anos, moradora de zona rural endêmica, recebe diagnóstico de doença autoimune em centro de referência e tem indicação de iniciar corticoterapia em dose imunossupressora por tempo prolongado. Está assintomática do ponto de vista digestivo, mas o hemograma mostra eosinofilia. O médico assistente lembra do risco de complicação grave associada a uma parasitose intestinal quando se instala imunossupressão. Qual é a conduta mais adequada antes de iniciar o corticoide?
O Strongyloides stercoralis mantém ciclo de autoinfecção e, sob imunossupressão (sobretudo corticoides), pode evoluir para hiperinfecção/disseminação, quadro de alta letalidade. A eosinofilia reforça a suspeita. A conduta correta é rastrear e tratar a estrongiloidíase antes da corticoterapia, sendo a ivermectina a droga de escolha. Iniciar o corticoide sem rastreio expõe a paciente à hiperinfecção. O albendazol tem eficácia inferior à ivermectina no Strongyloides e não deve ser usado às cegas. O praziquantel trata esquistossomose e teníase, não estrongiloidíase.
Homem de 30 anos, trabalhador rural que costuma andar descalço na lavoura, procura a UBS com queixa de cansaço aos esforços e palidez há alguns meses. Ao exame, apresenta mucosas descoradas, sem hepatoesplenomegalia. O hemograma revela anemia microcítica e hipocrômica compatível com ferropenia. O parasitológico de fezes evidencia ovos de ancilostomídeo. Considerando o diagnóstico de ancilostomíase, qual é a conduta terapêutica adequada?
A ancilostomíase (Ancylostoma/Necator) causa perda sanguínea intestinal crônica pela adesão dos vermes à mucosa, levando à anemia ferropriva, cenário típico do trabalhador rural que anda descalço. O tratamento anti-helmíntico de escolha é o albendazol 400 mg em dose única, associado à reposição de ferro para corrigir a anemia. O praziquantel trata esquistossomose e teníase. A ivermectina é indicada para estrongiloidíase. O metronidazol atua sobre protozoários (giardíase, amebíase), não sobre geo-helmintos.
Homem de 34 anos, lavrador, natural e residente em zona rural de Januária (MG), com história de banhos frequentes em córrego desde a infância, chega ao pronto-socorro após dois episódios de hematêmese de grande volume, sem dor abdominal. Nega etilismo, transfusões, uso de drogas injetáveis ou icterícia prévia. Exame físico: descorado (+++/4+), anictérico, sem aranhas vasculares, eritema palmar, ginecomastia ou ascite; fígado a 2 cm do rebordo costal direito, com lobo esquerdo endurecido, e baço a 8 cm do rebordo costal esquerdo, de consistência aumentada. Exames: Hb 7,9 g/dL, leucócitos 3.100/mm³, plaquetas 76.000/mm³, INR 1,0 (VR < 1,2), albumina 4,2 g/dL (VR 3,5–5,0), AST 27 e ALT 22 U/L (VR < 40), bilirrubina total 0,8 mg/dL. Sorologias para hepatites B e C negativas. Endoscopia digestiva alta: varizes esofágicas de grosso calibre com sinais vermelhos. Assinale o diagnóstico mais provável.
Correta: a tríade epidemiologia de área endêmica de Schistosoma mansoni com contato hídrico + hipertensão portal grave (varizes calibrosas, esplenomegalia volumosa com hiperesplenismo: pancitopenia) + função hepatocelular PRESERVADA (albumina e INR normais, bilirrubina e transaminases normais, sem estigmas de insuficiência hepática) define a forma hepatoesplênica. O bloqueio é pré-sinusoidal, pela fibrose periportal de Symmers, com hepatócito íntegro — por isso o paciente sangra, mas não descompensa. A hipertrofia do lobo esquerdo é típica. A cirrose cursaria com estigmas de hepatopatia crônica e, em geral, alteração de albumina/INR/bilirrubina; além disso, não há etilismo relatado. Causaria hipertensão portal pré-hepática com função preservada, mas cursa tipicamente sem hepatomegalia com lobo esquerdo endurecido e sem o contexto epidemiológico tão sugestivo — é o diferencial de exclusão, afastado por US Doppler. Cursa classicamente com ascite volumosa, dor abdominal e hepatomegalia dolorosa, ausentes aqui.
Estudante de 22 anos, previamente hígido, procura atendimento cinco semanas após acampamento no norte de Minas Gerais, onde tomou banho em lagoa junto com outros colegas. Há oito dias apresenta febre de até 38,8 °C, calafrios, mialgia, tosse seca, dor abdominal e lesões urticariformes migratórias. Ao exame: temperatura 38,5 °C, hepatomegalia discretamente dolorosa, placas urticariformes no tronco. Hemograma: leucócitos 14.200/mm³ com 24% de eosinófilos (3.400/mm³). AST 78 e ALT 84 U/L (VR < 40). Radiografia de tórax com infiltrado intersticial fugaz. Três amostras de exame parasitológico de fezes pelo método de Kato-Katz resultaram negativas. Assinale a conduta mais adequada.
Correta: o quadro é esquistossomose aguda (febre de Katayama) — 3 a 8 semanas após contato hídrico em área endêmica, com febre, urticária, tosse, hepatomegalia dolorosa, infiltrado pulmonar fugaz e eosinofilia acentuada. Dois pontos são cobrados: (1) o Kato-Katz negativo NÃO exclui, pois o paciente está no período pré-patente, já que a oviposição começa por volta de 5 a 7 semanas; (2) o praziquantel age sobre vermes adultos e tem baixa atividade contra esquistossômulos, além de poder agravar o quadro pela liberação antigênica — o manejo é corticosteroide para a hipersensibilidade, com praziquantel postergado e repetido após 6 a 8 semanas da exposição. Dar praziquantel em dose única agora trata cedo demais, com risco de exacerbação e de falha. A síndrome de Löffler por Ascaris ocorre 1 a 2 semanas após a ingestão de ovos e não explica urticária, hepatomegalia e a epidemiologia de contato com coleção hídrica. E excluir esquistossomose por três Kato-Katz negativos inverte o valor do exame: parasitológico negativo na fase pré-patente é o esperado.
Mulher de 56 anos, natural do interior do Maranhão e residente em São Luís, com diagnóstico recente de polimialgia reumática, será submetida a corticoterapia com prednisona 20 mg/dia por tempo prolongado. Refere, há meses, epigastralgia intermitente, diarreia ocasional e lesões cutâneas lineares, serpiginosas, pruriginosas e migratórias na região glútea e no dorso, que surgem e desaparecem em poucos dias. Exame: bom estado geral, sem visceromegalias. Hemograma: leucócitos 8.900/mm³ com eosinófilos 900/mm³ (10%). Assinale o próximo passo mais adequado antes do início da imunossupressão.
Correta: lesões serpiginosas migratórias fugazes (larva currens) + sintomas gastrintestinais + eosinofilia em paciente de área endêmica que vai receber corticoide caracterizam estrongiloidíase com risco de hiperinfecção/disseminação — o corticoide é o principal fator precipitante (favorece a autoinfecção interna e a disseminação larvária, com sepse por enterobactérias). A conduta é rastrear e tratar ANTES da imunossupressão: o Baermann-Moraes (ou Rugai) é o método de escolha, pois Strongyloides stercoralis elimina LARVAS rabditoides, não ovos; a droga de escolha é a ivermectina 200 µg/kg/dia por dois dias. Kato-Katz é método quantitativo para ovos (padrão para S. mansoni) e não detecta larvas — negativo aqui não afasta nada. Postergar o rastreio expõe a paciente exatamente ao risco de hiperinfecção. Albendazol tem eficácia inferior à ivermectina na estrongiloidíase e, ainda assim, não se deve iniciar o corticoide no mesmo dia sem rastreio/tratamento adequado.
Homem de 41 anos, natural e procedente de zona rural do norte de Minas Gerais, com história de banhos frequentes em córrego na infância, é internado por hematêmese volumosa. Nega etilismo, hepatite prévia ou uso de drogas injetáveis. Ao exame: corado após reposição, sem icterícia, sem aranhas vasculares, sem eritema palmar, sem ascite; fígado palpável a 3 cm do rebordo costal direito, com lobo esquerdo endurecido, e baço palpável a 8 cm do rebordo costal esquerdo. Exames: hemoglobina 8,2 g/dL, plaquetas 68.000/mm³, leucócitos 2.900/mm³, ALT 28 U/L, AST 31 U/L, albumina 4,1 g/dL, INR 1,1, sorologias para hepatites B e C não reagentes. Endoscopia: varizes esofágicas de grosso calibre com sinais de sangramento recente. Assinale o diagnóstico mais provável.
O quadro reúne procedência de área endêmica com contato hídrico, hipertensão portal exuberante (varizes sangrantes, esplenomegalia volumosa, hiperesplenismo com pancitopenia) e função hepatocelular PRESERVADA — transaminases normais, albumina normal, INR normal, sem icterícia, ascite ou estigmas de hepatopatia crônica. Esse é o padrão da hipertensão portal pré-sinusoidal da forma hepatoesplênica da esquistossomose (fibrose de Symmers), com fibrose periportal e acometimento característico do lobo esquerdo. Cirrose de qualquer etiologia (criptogênica ou autoimune) cursaria com insuficiência hepatocelular: hipoalbuminemia, alargamento do INR e estigmas periféricos, ausentes aqui. Budd-Chiari (obstrução de veias hepáticas) manifesta-se tipicamente com ascite volumosa, dor abdominal e hepatomegalia dolorosa, e a esplenomegalia maciça não é a marca inicial.
Homem de 28 anos, morador de zona rural de Minas Gerais, refere banhos frequentes em córrego próximo à residência. Procura a unidade básica de saúde com dor abdominal em cólica e diarreia intermitente há quatro meses, por vezes com muco. Ao exame físico: bom estado geral, corado, fígado palpável a 2 cm do rebordo costal direito, de consistência normal; baço não palpável. Hemograma: hemoglobina 13,4 g/dL, eosinófilos 1.200/mm³ (VR: até 500/mm³). Exame parasitológico de fezes pelo método de Kato-Katz: presença de ovos com espículo lateral. Assinale a opção que indica o tratamento adequado para este paciente.
O ovo com espículo lateral no Kato-Katz é o achado patognomônico de Schistosoma mansoni; somado ao contato com coleção de água doce em área endêmica, à eosinofilia e à forma hepatointestinal (hepatomegalia sem esplenomegalia), fecha o diagnóstico de esquistossomose mansônica. O Ministério da Saúde preconiza praziquantel em dose única, 50 mg/kg para adultos (60 mg/kg em crianças). Albendazol em dose única trata geo-helmintíases (ascaridíase, ancilostomíase, tricuríase), cujos ovos são morfologicamente distintos e não têm espículo. Ivermectina por dois dias é o esquema para estrongiloidíase, cujo parasitológico mostra larvas rabditoides, não ovos. Metronidazol trata protozosses (amebíase, giardíase), que não cursam com eosinofilia nem com ovos operculados.
Homem de 33 anos procura atendimento por prurido anal de predomínio noturno há 3 semanas, com insônia. A filha de 6 anos e a esposa têm a mesma queixa. Exame físico: escoriações perianais. Qual é o método diagnóstico e o tratamento adequados?
Prurido anal noturno acometendo vários moradores da casa é enterobíase (Enterobius vermicularis). A fêmea põe ovos na margem anal à noite, por isso o parasitológico de fezes costuma ser negativo e o diagnóstico é a fita adesiva aplicada pela manhã (método de Graham). O tratamento exige albendazol em dose única repetida em 2 semanas (para alcançar os vermes que eclodem depois da primeira dose) e inclui todos os conviventes, além de higiene de unhas e roupas de cama — sem isso a reinfestação domiciliar é regra. Tratar só o paciente (alternativa anterior) é o distrator clássico de conduta incompleta; Baermann-Moraes serve para larvas de Strongyloides; Kato-Katz e praziquantel pertencem à esquistossomose; metronidazol trata protozoários.
Estudante de 24 anos fez ecoturismo em Minas Gerais há 5 semanas, com banhos em lagoa. Há 10 dias apresenta febre, urticária, dor abdominal, diarreia e tosse seca. Exame: hepatoesplenomegalia dolorosa e linfadenopatia. Laboratório: 4.200 eosinófilos/mm³ (38%). Parasitológico de fezes inicial negativo. Qual é a principal hipótese e o tratamento indicado?
Febre + urticária + hepatoesplenomegalia dolorosa + eosinofilia maciça 3 a 7 semanas após banho em coleção de água doce é a febre de Katayama (esquistossomose aguda). O parasitológico pode ser negativo porque a oviposição só começa por volta da 5ª semana — repetem-se as fezes e usa-se sorologia. Pelas Diretrizes de 2024, o praziquantel é associado à prednisona (0,5 mg/kg/dia no quadro menos grave, iniciada junto; 1 mg/kg/dia começando 24-48 h antes no grave), porque a lise maciça dos vermes exacerba a hipersensibilidade — o que derruba a alternativa do praziquantel isolado. Febre tifoide cursa classicamente sem eosinofilia; toxocaríase não vem de banho de lagoa e poupa as fezes de ovos; leptospirose não produz eosinofilia dessa magnitude.
Homem de 29 anos retorna de trilha em que bebeu água de riacho. Há 3 semanas apresenta diarreia com fezes volumosas, claras, fétidas e sem sangue, além de distensão abdominal, flatulência e perda de 4 kg. Sem febre. Hemograma sem eosinofilia. Parasitológico de fezes: cistos. Qual é o agente e o tratamento?
Diarreia alta e disabsortiva (fezes volumosas, claras, fétidas, esteatorreia), sem sangue, sem febre e SEM eosinofilia, após ingestão de água não tratada, com cistos no parasitológico, é giardíase — tratada com metronidazol 250 mg de 8/8 h por 5 dias (ou tinidazol 2 g em dose única). A ausência de eosinofilia afasta os helmintos das alternativas (ancilostomíase cursa com anemia ferropriva e eosinofilia; estrongiloidíase, com larvas — não cistos — e eosinofilia). Amebíase invasiva daria disenteria com sangue e muco, não diarreia alta gordurosa. Cryptosporidium causa diarreia aquosa autolimitada no imunocompetente e o diagnóstico não é por cistos ao parasitológico comum, e sim por coloração álcool-ácido resistente.
Mulher de 62 anos com nefrite lúpica vai iniciar pulsoterapia com metilprednisolona seguida de prednisona em dose alta por meses. Nasceu e viveu até os 30 anos em zona rural de Pernambuco, onde trabalhava descalça na lavoura. Está assintomática do ponto de vista digestivo; hemograma mostra 900 eosinófilos/mm³. Qual conduta previne a complicação parasitária mais temida nesse cenário?
Epidemiologia de solo + eosinofilia + corticoide iminente = risco de hiperinfecção por Strongyloides stercoralis, que a autoinfecção mantém por décadas. A conduta é ivermectina empírica (200 µg/kg/dia por 2 dias, repetida em 2 semanas) antes de imunossuprimir. Albendazol em dose única não cobre adequadamente o estrongiloide (a própria OMS ressalva que ele não responde aos fármacos de campanha); esperar parasitológicos atrasa a profilaxia e o método comum é pouco sensível para larvas; praziquantel trata esquistossomose; monitorar eosinofilia falha porque o corticoide a suprime — justamente o sinal desapareceria enquanto a doença dissemina.
Homem de 26 anos, natural de Água Preta (PE), pescou em açudes durante toda a adolescência. Procura a UBS por aumento de volume abdominal. Exame: baço palpável a 6 cm do rebordo costal esquerdo, lobo hepático esquerdo proeminente e endurecido, sem telangiectasias ou flapping. Laboratório: Hb 10,8 g/dL, plaquetas 92.000/mm³, albumina 4,0 g/dL, INR 1,0. Parasitológico de fezes: ovos com espícula lateral. Qual é a conduta farmacológica indicada pelo programa brasileiro?
Ovo com espícula lateral é S. mansoni, e o quadro (esplenomegalia + plaquetopenia + função hepática preservada) é a forma hepatoesplênica compensada. Para adultos, o Ministério da Saúde preconiza praziquantel 50 mg/kg em dose única (GVS 2023/Diretrizes 2024). Os 40 mg/kg são a dose da OMS, não a do programa brasileiro que a questão pede; 60 mg/kg é a dose pediátrica (4 a 15 anos); a oxamniquina saiu da rotina do PCE em 1996, quando o praziquantel virou o único fármaco do programa; ivermectina trata estrongiloidíase, não esquistossomose.
Em localidade endêmica de esquistossomose no interior de Pernambuco, inquérito coproscópico examina 480 moradores pelo método Kato-Katz: 132 são positivos (positividade de 27,5%). Segundo o Ministério da Saúde, qual é a conduta de programa indicada?
A régua do programa brasileiro usa a positividade do inquérito da localidade: abaixo de 15%, tratam-se somente os positivos; entre 15% e 25%, positivos e conviventes; acima de 25% — caso desta questão, com 27,5% — a localidade inteira recebe tratamento coletivo com praziquantel. As atividades de rotina em área endêmica são registradas no SISPCE (formas graves e hospitalizados vão ao Sinan). Repetir o inquérito adia tratamento indicado, e a sorologia não tem papel de triagem em área endêmica com fezes disponíveis — ela é elemento de suspeição para área não endêmica com parasitológico negativo.
Homem de 45 anos, cortador de cana em Alagoas, trabalha descalço. Queixa-se de cansaço progressivo há meses. Exame: mucosas descoradas. Laboratório: Hb 7,2 g/dL com microcitose e hipocromia, ferritina 6 ng/mL, eosinófilos 1.800/mm³. Parasitológico de fezes: ovos de casca fina com blastômeros. Qual é o agente mais provável e o tratamento adequado?
Trabalhador rural descalço + anemia ferropriva de instalação lenta + eosinofilia + ovo de casca fina com blastômeros é a assinatura da ancilostomíase — no Brasil, predomina o Necator americanus, cuja larva penetra a pele. Trata-se com albendazol 400 mg em dose única e reposição de ferro. Strongyloides elimina larvas, não ovos, nas fezes; Trichuris tem ovo em barril e causa colite/prolapso, não anemia ferropriva clássica; S. mansoni tem ovo com espícula lateral e quadro hepatoesplênico; A. braziliense é o agente da larva migrans cutânea (bicho-geográfico) e não parasita o intestino humano.
Homem de 38 anos, morador de zona rural do Maranhão, chega com dor em cólica no epigástrio e hipocôndrio direito, febre de 38,5 °C e icterícia leve. Ultrassonografia: via biliar dilatada com estrutura tubular alongada e móvel no interior do colédoco. Hemograma com eosinofilia. Qual é a conduta mais adequada?
Estrutura tubular móvel no colédoco com colangite e eosinofilia é ascaridíase biliar — o áscaris errante que migrou pela papila. O princípio da conduta é resolver a obstrução e a infecção primeiro: suporte, antibiótico e CPRE para extração quando o verme não retorna espontaneamente ao duodeno; o anti-helmíntico entra depois da resolução, porque matar o verme dentro do ducto (ou de um bolo obstrutivo intestinal) o transforma em corpo estranho fixo e agrava a obstrução. Colecistectomia não trata verme em colédoco; albendazol imediato com alta ignora a colangite em curso; praziquantel e a dupla corticoide-ivermectina pertencem a outras parasitoses.
Homem de 39 anos apresenta febre há duas semanas, dor no hipocôndrio direito e hepatomegalia dolorosa. A ultrassonografia mostra lesão única de 7 cm no lobo hepático direito, com conteúdo espesso. Hemograma sem eosinofilia. A sorologia para Entamoeba histolytica é reagente. Qual é o tratamento correto?
O abscesso hepático amebiano costuma ser único, ocupa o lobo direito e cursa sem eosinofilia — a Entamoeba histolytica invade o cólon e pode migrar ao fígado. O tratamento é metronidazol 750 mg de 8 em 8 horas por dez dias, seguido de um amebicida intraluminal, como a teclozana, para erradicar os cistos e evitar recaída e transmissão: o metronidazol limpa o tecido, não a luz intestinal, e por isso não pode ir sozinho. O amebicida intraluminal isolado faz o inverso e deixa o abscesso sem tratamento. O albendazol é anti-helmíntico e não age sobre protozoário. E a drenagem é conduta de exceção, para abscesso volumoso, com risco de ruptura ou sem resposta clínica, nunca substituta do antiparasitário.
Menino de 8 anos, morador de área rural sem saneamento, é levado por diarreia crônica com muco e sangue, tenesmo e episódios de prolapso retal ao evacuar. Está desnutrido e anêmico. O parasitológico de fezes mostra grande quantidade de ovos em forma de barril, com tampões nos polos. Qual é o tratamento adequado?
O ovo em forma de barril com tampões nos polos identifica o Trichuris trichiura, que vive no ceco e no cólon e, em carga alta, produz colite crônica com diarreia mucossanguinolenta, tenesmo, anemia e prolapso retal. Nessa geo-helmintíase a dose única cura mal: o esquema é albendazol 400 mg por dia durante três dias, tendo o mebendazol de 12 em 12 horas pelo mesmo período como alternativa consagrada. A dose única de albendazol resolve a ascaridíase e a ancilostomíase, e é o que o programa distribui em campanha escolar. A ivermectina é a droga da estrongiloidíase, o praziquantel trata esquistossomose e teníase, e o metronidazol cobre protozoários como giárdia e ameba — nenhum deles alcança o Trichuris.
Homem de 23 anos, morador de área endêmica de esquistossomose, apresenta lombalgia intensa há dez dias, paraparesia de instalação subaguda, nível sensitivo em T10 e retenção urinária. A ressonância mostra mielite sem compressão. Hemograma com 1.900 eosinófilos por milímetro cúbico e sorologia reagente. Qual é o tratamento?
A mielorradiculopatia é a forma ectópica grave da esquistossomose e entra no topo do diferencial de mielopatia não compressiva em jovem de área endêmica, porque tem tratamento e o atraso custa sequela. O esquema é corticoide em dose alta e prolongada — 1 mg/kg/dia por 60 dias com redução lenta, ou pulsoterapia com metilprednisolona por três dias seguida de prednisona por até seis meses — associado ao esquistossomicida. O praziquantel isolado deixa sem controle a reação granulomatosa que produz o dano neurológico, e um curso curto de corticoide depois da droga não cobre a janela inflamatória. O corticoide sozinho não elimina o parasito que alimenta a resposta. E não há compressão a descomprimir: a ressonância já afastou essa hipótese.
Qual manifestação intestinal pode preceder ou acompanhar a amebíase invasiva com abscesso hepático?
A amebíase invasiva pode manifestar-se no cólon como colite com diarreia mucossanguinolenta, e formas graves incluem colite fulminante com megacólon e perfuração, além do ameboma, massa inflamatória que pode simular neoplasia colônica e levar a cirurgias desnecessárias. Vale notar que muitos pacientes com abscesso hepático não relatam diarreia no momento do diagnóstico, o que engana quem espera o sintoma intestinal como condição para pensar na etiologia amebiana.
Após o tratamento do abscesso hepático amebiano com metronidazol, por que se indica um agente luminal como paromomicina ou teclozana?
O metronidazol atua bem sobre os trofozoítos invasivos nos tecidos, mas alcança mal a forma cística na luz intestinal, e por isso se completa o tratamento com um agente luminal para erradicar o parasito e evitar recidiva e transmissão. Omitir essa etapa é falha frequente, porque o paciente melhora clinicamente e o tratamento parece concluído. Nenhum dos outros objetivos listados corresponde à função desses fármacos.
Paciente em uso de corticoide em dose alta há 3 semanas, procedente de área rural, apresenta dor abdominal, diarreia, dispneia, infiltrados pulmonares, sepse por bacilo gram-negativo e larvas filarioides no escarro. Qual o diagnóstico?
A imunossupressão - sobretudo por corticoide - permite que o ciclo de autoinfecção do Strongyloides se acelere, disseminando larvas por pulmão, intestino e outros órgãos, e carregando bactérias entéricas para a corrente sanguínea, o que explica a sepse por gram-negativos e a meningite polimicrobiana descritas nessa síndrome, de altíssima letalidade. É por isso que se recomenda rastrear e tratar estrongiloidíase ANTES de imunossuprimir pacientes de áreas endêmicas. Ascaridíase e ancilostomíase não produzem autoinfecção nem disseminação sistêmica dessa forma.
Qual método é habitualmente utilizado para o diagnóstico parasitológico da esquistossomose mansônica crônica em inquéritos e na prática clínica?
O Kato-Katz é o método padrão por ser quantitativo e permitir estimar a carga parasitária, mas perde sensibilidade em infecções leves e em pacientes já tratados - por isso se colhem múltiplas amostras e, quando a suspeita persiste com fezes negativas, recorre-se à biópsia retal, de rendimento superior nessa situação. Sorologia auxilia sobretudo em viajantes e em áreas de baixa endemicidade, mas não distingue infecção ativa de passada. Os demais exames listados não têm qualquer papel no diagnóstico dessa parasitose.
Criança apresenta lesão cutânea serpiginosa, pruriginosa, migratória, em região plantar, após brincar em areia de praia. Qual o diagnóstico e o tratamento?
O trajeto serpiginoso, migratório e muito pruriginoso, tipicamente em pés e nádegas após contato com areia contaminada por fezes de cães e gatos, é a assinatura da larva migrans cutânea - o parasito não completa o ciclo no humano e a lesão é autolimitada, mas o tratamento com ivermectina ou albendazol acelera a resolução e alivia o prurido intenso. A escabiose produz lesões em pregas e espaços interdigitais com prurido noturno, sem trajeto migratório visível, e a miíase forma nódulo com orifício central, apresentação bem distinta.
Criança de 6 anos, de área rural, apresenta palidez, fadiga, anemia microcítica hipocrômica com ferritina baixa e eosinofilia. Qual parasitose deve ser considerada?
Os ancilostomídeos fixam-se à mucosa do delgado e provocam perda sanguínea crônica, produzindo anemia ferropriva com eosinofilia em criança de área rural - a associação de anemia carencial com eosinofilia é a pista que separa esse quadro de uma deficiência de ferro puramente dietética. Oxiuríase causa prurido anal noturno sem anemia, giardíase produz diarreia e má absorção sem eosinofilia importante, e teníase costuma ser oligossintomática. O tratamento é com albendazol ou mebendazol, associado à reposição de ferro e a medidas de saneamento.
Qual achado clínico-laboratorial é característico da esquistossomose e deve motivar investigação em paciente de área endêmica?
Eosinofilia é o marcador que deve disparar a investigação de helmintíases, e no contexto de contato com água doce em área endêmica aponta esquistossomose, especialmente quando somada a sintomas digestivos ou hepatoesplenomegalia. Vale lembrar que na forma crônica avançada a eosinofilia pode ser discreta ou ausente, de modo que sua ausência não exclui o diagnóstico. Neutropenia, linfocitose atípica e alterações plaquetárias isoladas apontam outras condições, e usar o hemograma sem o contexto epidemiológico desperdiça a informação mais valiosa.
Qual estratégia é recomendada antes de iniciar imunossupressão significativa (corticoide em dose alta, transplante ou quimioterapia) em paciente procedente de área endêmica de estrongiloidíase?
A hiperinfecção por Strongyloides desencadeada por imunossupressão tem letalidade elevada, e a prevenção é simples e barata: rastreio com exames de fezes seriados e sorologia, ou tratamento empírico com ivermectina em pacientes de área endêmica, ANTES de imunossuprimir. É a mesma lógica do rastreio de tuberculose latente antes de biológicos. Confiar apenas no hemograma é insuficiente, porque a eosinofilia pode estar ausente - inclusive suprimida pelo próprio corticoide -, e antibiótico profilático não previne uma parasitose.
Qual medida de controle é a mais eficaz para reduzir a transmissão da esquistossomose em uma comunidade?
O ciclo depende do contato do ovo eliminado nas fezes com a água habitada pelo caramujo hospedeiro intermediário, e de volta ao homem pela penetração cutânea da cercária - romper esse ciclo exige saneamento, tratamento em massa em áreas de alta prevalência, controle de moluscos, provisão de água segura e educação em saúde. Não há vacina disponível. Repelentes, inseticida intradomiciliar e mosquiteiros são medidas para doenças transmitidas por VETORES ALADOS, e propô-las aqui revela que o mecanismo de transmissão não foi compreendido.
Turista retorna de área endêmica e, 5 semanas após banho em rio, apresenta febre alta, urticária, mialgia, tosse, diarreia e eosinofilia acentuada. Qual o diagnóstico?
A febre de Katayama é uma reação de hipersensibilidade à migração das formas jovens do parasito, surgindo semanas após exposição em pessoa NÃO imune - daí a apresentação típica em viajantes -, com febre, urticária, sintomas respiratórios e eosinofilia marcante, que é a pista laboratorial mais valiosa. Malária, dengue e leptospirose não cursam com eosinofilia acentuada. Nessa fase os ovos ainda podem não ser encontrados nas fezes, o que exige repetir o exame semanas depois; o tratamento associa corticoide em casos graves e praziquantel no momento adequado.
Qual complicação pode ocorrer em criança com carga elevada de Ascaris lumbricoides?
Cargas parasitárias elevadas podem formar novelos que obstruem a luz intestinal, sobretudo em crianças, e os vermes adultos podem migrar para o colédoco e o ducto pancreático, causando colangite e pancreatite. Também existe a síndrome de Löffler, com infiltrados pulmonares e eosinofilia durante a migração larvária. Um detalhe prático relevante: o tratamento pode desencadear migração errática, o que exige atenção em pacientes com carga elevada. As demais complicações listadas não têm relação com essa parasitose.
Homem de 32 anos, morador de área endêmica com contato frequente com água de córrego, apresenta hepatoesplenomegalia, varizes esofágicas com sangramento prévio, mas com albumina, bilirrubinas e tempo de protrombina normais. Qual a forma clínica e o mecanismo?
A fibrose periportal de Symmers obstrui os ramos portais intra-hepáticos ANTES do sinusoide, gerando hipertensão portal com preservação da função hepatocelular - por isso o paciente sangra por varizes e tem esplenomegalia volumosa, mas mantém albumina, bilirrubina e coagulação normais. Esse é o dado que separa a doença da cirrose, na qual a hipertensão portal é sinusoidal e vem acompanhada de disfunção hepática. Confundir as duas leva a prognóstico e conduta equivocados, já que a esquistossomose tem evolução muito mais favorável.
Paciente com esquistossomose apresenta quadro agudo de dor lombar, paraparesia, alteração sensitiva e retenção urinária. Qual a complicação e a conduta?
A forma medular é uma complicação grave e potencialmente incapacitante, decorrente da deposição ectópica de ovos com reação granulomatosa na medula lombossacra - o tratamento combina corticoide em dose alta, para conter a inflamação, e praziquantel, e o prognóstico funcional depende diretamente da precocidade da intervenção. Tratar como hérnia discal é o erro que custa a deambulação e o controle esfincteriano. A suspeita deve surgir sempre que houver síndrome medular aguda em paciente de área endêmica, sobretudo com eosinofilia.
Qual é o tratamento de escolha para a estrongiloidíase, incluindo a forma disseminada?
A ivermectina é o fármaco de escolha, em curso curto na forma crônica e prolongado - até negativação parasitológica - na hiperinfecção e na doença disseminada, situação em que a absorção oral pode estar comprometida pelo íleo e vias alternativas são consideradas, sempre acompanhadas de tratamento da sepse bacteriana concomitante. Praziquantel trata trematódeos e cestódeos, e metronidazol atua sobre protozoários e anaeróbios. Também é essencial reduzir ou suspender a imunossupressão sempre que possível, porque ela é o motor da autoinfecção.
Qual é o tratamento medicamentoso da esquistossomose mansônica?
O praziquantel é o fármaco de escolha, em dose única ajustada ao peso, com o detalhe importante de agir sobre vermes adultos e ter atividade limitada sobre formas imaturas - por isso, em infecção recente ou exposição intensa, pode ser necessário repetir o tratamento algumas semanas depois. Albendazol e ivermectina tratam geo-helmintos e estrongiloidíase, e usá-los aqui não erradica o Schistosoma. O tratamento reduz a carga parasitária e a progressão da fibrose, mas não reverte a hipertensão portal já estabelecida.
Sobre a síndrome de Löffler, assinale a alternativa correta.
A síndrome de Löffler corresponde a infiltrados fugazes e migratórios com eosinofilia, decorrentes da migração larvária pelo pulmão — Ascaris, ancilostomídeos e Strongyloides —, com resolução espontânea e tratamento dirigido ao parasita. Esperar infiltrados fixos engana quem não valoriza o caráter migratório, que é justamente a pista semiológica que separa essa entidade das pneumonias eosinofílicas idiopáticas.
Homem de 29 anos, lavrador que trabalha descalço, apresenta fadiga progressiva, palidez e dispneia aos esforços. Hemograma: hemoglobina 7,2 g/dL, VCM 68 fL, HCM 21 pg, RDW 18%. Ferritina 6 ng/mL. Há eosinofilia de 1.400/mm³. Qual a principal hipótese para a causa da anemia?
Anemia microcítica e hipocrômica com RDW alargado e ferritina muito baixa é ferropenia, e o contexto de lavrador descalço com eosinofilia aponta a ancilostomíase, em que os vermes se fixam à mucosa duodenal e espoliam sangue continuamente. A talassemia menor engana porque também dá microcitose acentuada, mas cursa com RDW normal, ferritina normal ou alta e contagem de hemácias relativamente elevada para o grau de anemia. Anemia de doença crônica tem ferritina normal ou alta, e a deficiência de B12 produz macrocitose, o oposto do quadro.
Sobre a fase de migração larvária dos ancilostomídeos, qual manifestação clínica pode ocorrer?
As larvas penetram pela pele, alcançam a circulação e atravessam os pulmões antes de serem deglutidas e se fixarem ao duodeno; essa passagem produz a síndrome de Löffler, com tosse, sibilância, infiltrados pulmonares migratórios e eosinofilia, também descrita em ascaridíase e estrongiloidíase. Meningite eosinofílica engana quem procura outra manifestação parasitária com eosinófilos, mas ela remete a Angiostrongylus. Hematúria aponta esquistossomose por Schistosoma haematobium, ausente no Brasil, e a colestase não faz parte do ciclo desses helmintos.
Sobre o tratamento farmacológico da ascaridíase não complicada, qual afirmativa está correta?
Albendazol e mebendazol são opções eficazes na ascaridíase não complicada, com escolha e dose adequadas à idade e às condições clínicas. Ivermectina também tem atividade contra Ascaris e não é a única opção. Higiene e saneamento reduzem exposição aos ovos que amadurecem no ambiente. A presença de um caso não deve ser transformada em obrigação universal de tratar toda a família: contatos e tratamento coletivo são avaliados conforme exposição, diagnóstico e programas locais. Metronidazol não é tratamento de ascaridíase e praziquantel não é a escolha para esse nematódeo.
Paciente com ancilostomíase e anemia ferropriva grave (hemoglobina 6,8 g/dL), estável hemodinamicamente. Qual a conduta terapêutica correta?
É preciso fechar a torneira e encher o tanque: o anti-helmíntico interrompe a perda sanguínea e a reposição de ferro corrige a anemia, mantida por cerca de três meses após a hemoglobina normalizar para repor os depósitos, com controle de ferritina. Repor ferro isoladamente engana quem foca só no laboratório, mas mantém a espoliação e leva a recidiva. Tratar só o verme deixa o paciente anêmico por meses, já que os estoques não se recompõem sozinhos rapidamente; transfusão fica para instabilidade ou anemia sintomática grave, e eritropoetina não tem papel.
Sobre as estratégias de controle das geo-helmintíases em áreas endêmicas, qual medida é a mais estruturante a longo prazo?
As geo-helmintíases dependem da contaminação do solo por fezes humanas, e por isso o controle sustentável passa por saneamento, água tratada, educação em saúde e uso de calçados; a quimioterapia em massa reduz carga parasitária e morbidade, mas sem saneamento a reinfecção reinstala o problema em poucos meses. Confiar apenas no tratamento em massa engana porque é a intervenção mais visível e mensurável no curto prazo. Não existe vacina contra helmintos no calendário, e repelente e antibiótico não interferem no ciclo de transmissão pelo solo.
Sobre a epidemiologia da ascaridíase, qual afirmativa está correta?
O Ascaris lumbricoides é transmitido pela via fecal-oral, com ingestão de ovos embrionados do solo contaminado, água ou alimentos mal higienizados, e as maiores cargas parasitárias, responsáveis pelas complicações obstrutivas, concentram-se em escolares de áreas sem saneamento. A penetração cutânea ativa engana porque é o mecanismo dos ancilostomídeos e do Strongyloides, parasitos estudados na mesma aula — trocar a porta de entrada é o erro mais comum. Não há transmissão respiratória nem interpessoal direta, e o homem é o reservatório.
Qual exame confirma a ancilostomíase e qual é sua limitação diagnóstica na fase inicial?
O diagnóstico é parasitológico de fezes, com métodos de sedimentação ou de contagem de ovos, o que também estima a carga parasitária; a limitação é o período pré-patente de algumas semanas entre a penetração das larvas pela pele e a postura de ovos, intervalo em que o exame é negativo apesar da infecção. Confiar em sorologia engana porque parece cobrir essa janela, mas não é o método disponível e usado na rotina. Hemocultura não detecta helmintos, e biópsia duodenal é invasiva e desnecessária diante de um exame de fezes barato.
Qual complicação da ascaridíase decorre da migração do verme adulto para a via biliar?
O Ascaris adulto pode migrar pelo ducto de Wirsung ou pela via biliar, provocando cólica biliar, colangite, colecistite e pancreatite aguda, quadro em que a ultrassonografia pode mostrar a imagem linear móvel dentro do ducto. A anemia por competição de vitamina B12 engana porque é fenômeno real em helmintíase, mas pertence ao Diphyllobothrium latum, e não ao áscaris; a espoliação de ferro pertence aos ancilostomídeos. Meningite eosinofílica remete a outros parasitos, e nem endocardite nem glomerulonefrite fazem parte do espectro da ascaridíase.
Criança de 9 anos de área endêmica apresenta anemia ferropriva, baixo ganho estatural e déficit de desempenho escolar, com parasitológico positivo para ancilostomídeos e Ascaris. Além do tratamento individual, qual medida de saúde pública se aplica?
Em áreas de alta prevalência, a estratégia recomendada é a quimioterapia preventiva periódica de grupos-alvo, sobretudo escolares, integrada a saneamento, água segura e educação em saúde, para reduzir a carga parasitária e seus efeitos sobre crescimento, cognição e anemia. As demais opções transportam medidas de doenças transmissíveis de pessoa a pessoa, o que não se aplica a helmintos de transmissão pelo solo — o isolamento escolar é a que mais engana, por reflexo de controle de surto, mas não existe transmissão direta entre crianças que justifique afastá-la.
Homem de 35 anos, assintomático, faz exame parasitológico de rotina que mostra larvas de Strongyloides stercoralis. Não tem imunossupressão. Qual a conduta?
Toda infecção por Strongyloides deve ser tratada, ainda que assintomática, porque o parasito persiste indefinidamente por autoinfecção e qualquer imunossupressão futura — corticoide, quimioterapia, transplante — pode desencadear hiperinfecção com letalidade altíssima. Condicionar o tratamento à eosinofilia é o erro que deixa sem cobertura justamente uma parte dos infectados, já que ela pode estar ausente. O tratamento é simples, seguro e barato, o que torna a espera injustificável.
Homem de 45 anos, procedente de área rural, será submetido a transplante renal e receberá esquema imunossupressor com corticoide. Qual conduta preventiva relativa ao Strongyloides é recomendada?
Antes de imunossuprimir alguém com exposição epidemiológica compatível, é preciso procurar e tratar a estrongiloidíase, porque a autoinfecção contida pela imunidade se descontrola sob corticoide e inibidores de calcineurina. O rastreio usa sorologia e parasitológicos com métodos específicos, e o tratamento empírico é aceitável em cenários de alto risco. Confiar na ausência de eosinofilia é o erro que dá falsa segurança, já que a eosinofilia falta em boa parte dos infectados, sobretudo os já em uso de corticoide.
Sobre o ciclo do Strongyloides stercoralis, qual característica o torna singular entre os helmintos intestinais?
O Strongyloides é o único helminto intestinal humano capaz de completar o ciclo dentro do hospedeiro: larvas rabditoides transformam-se em filarioides ainda no intestino, penetram a mucosa ou a pele perianal e reiniciam a migração, o que sustenta infecções que duram décadas — há relatos em veteranos de guerra diagnosticados quarenta anos após a exposição. Essa característica é justamente o que explica a hiperinfecção quando a imunidade cai, e diferencia o parasito dos geo-helmintos clássicos.
Mulher de 50 anos, com asma, iniciou corticoide sistêmico e evoluiu, em duas semanas, com lesões cutâneas serpiginosas de progressão rápida em abdome e nádegas, mudando de posição em horas. Qual o achado e seu significado?
A larva currens é a lesão serpiginosa que avança vários centímetros por hora, característica do Strongyloides, e seu surgimento em paciente sob corticoide sinaliza aceleração do ciclo de autoinfecção, exigindo tratamento imediato. A larva migrans cutânea por ancilostomídeo de cães e gatos progride bem mais devagar, poucos milímetros por dia, e permanece restrita à pele — é o distrator que confunde exatamente pela morfologia semelhante.
Homem de 58 anos em uso de prednisona 60 mg/dia há três semanas por polimialgia reumática, procedente de zona rural do Maranhão. Apresenta dor abdominal, vômitos, diarreia, dispneia e febre. Radiografia de tórax com infiltrado alveolar bilateral. Hemocultura isola Escherichia coli. Eosinófilos 60/mm³. Qual a hipótese que unifica o quadro?
A tríade corticoide em dose alta, sintomas gastrintestinais e respiratórios simultâneos e bacteriemia por enterobactéria é o retrato da hiperinfecção estrongiloídica: as larvas filarioides carregam bactérias intestinais durante a migração e semeiam a corrente sanguínea. Chamar de pneumonia comunitária é o desvio mais frequente e ignora o eixo abdominal do quadro. Chama atenção que a eosinofilia esteja ausente — o corticoide a suprime, e sua falta jamais afasta o diagnóstico nesse contexto.
Mulher de 41 anos com esquistossomose hepatoesplênica pergunta se pode transmitir a doença aos filhos que moram com ela na cidade. Qual orientação é correta?
O ciclo do Schistosoma mansoni exige que os ovos eliminados nas fezes alcancem água doce, eclodam, infectem o caramujo do gênero Biomphalaria e liberem cercárias que penetram a pele — não há qualquer transmissão de pessoa a pessoa. Tratar contactantes domiciliares por analogia com doenças de transmissão direta é o distrator que mais aparece na prática, e o rastreamento correto se dirige a quem compartilhou a mesma exposição hídrica, e não o mesmo teto.
Paciente com esquistossomose hepatoesplênica evolui com dispneia progressiva, dessaturação e sinais de sobrecarga de câmaras direitas. Ecocardiograma estima pressão sistólica de artéria pulmonar de 62 mmHg. Qual a complicação?
Com a hipertensão portal estabelecida, ovos escapam pelas colaterais e alcançam a circulação pulmonar, desencadeando arteriopatia obstrutiva e hipertensão pulmonar — a esquistossomose é uma das causas mais frequentes dessa condição em escala global. A síndrome hepatopulmonar é o distrator sofisticado, mas ela cursa com vasodilatação intrapulmonar, platipneia e ortodeóxia, sem sobrecarga de câmaras direitas por pressão elevada.
Paciente com hiperinfecção por Strongyloides evolui com quadro compatível com sepse e choque. As hemoculturas crescem Klebsiella pneumoniae. Além do antiparasitário, qual conduta antimicrobiana é adequada?
As larvas filarioides atravessam a parede intestinal transportando a flora entérica, o que explica a bacteriemia e a meningite por gram-negativos nesses pacientes — a cobertura antimicrobiana precisa contemplar esses agentes, em paralelo à ivermectina. Restringir o espectro a gram-positivos de pele é o erro que deixa o paciente descoberto justamente contra o agente que está na hemocultura. A mortalidade da síndrome ultrapassa 50%, e o atraso na antibioticoterapia é um dos motivos.
Qual é o achado laboratorial mais característico e precoce da fase aguda da esquistossomose?
A eosinofilia intensa é a marca laboratorial da fase aguda e reflete a resposta imune do tipo 2 à migração larvária, frequentemente com valores acima de 3.000 células por milímetro cúbico. Leucopenia com linfócitos atípicos aponta para infecções virais como a mononucleose, que também cursa com febre prolongada e é o distrator mais comum. Na fase crônica avançada, ao contrário, a eosinofilia pode ser discreta ou ausente, o que exige atenção para não descartar a doença por sua falta.
Mulher de 21 anos com quadro sugestivo de esquistossomose aguda evolui, na quarta semana de sintomas, com paraparesia progressiva, retenção urinária e nível sensitivo em região torácica. Qual é a complicação e a conduta?
A forma neurológica mais temida da esquistossomose é a mielorradiculopatia, geralmente de medula baixa, produzida por ovos que embolizam para o sistema nervoso e desencadeiam reação granulomatosa — o tratamento combina corticoide em dose alta, para conter a inflamação, com praziquantel. Pensar em Guillain-Barré é o desvio natural diante da paraparesia ascendente, mas o nível sensitivo e a retenção urinária apontam para lesão medular, e não para polirradiculoneuropatia. O reconhecimento precoce é o que evita sequela definitiva.
Homem de 23 anos com esquistossomose aguda apresenta tosse seca persistente e radiografia de tórax com infiltrado intersticial migratório bilateral. Qual a explicação?
Na migração do ciclo, os esquistossômulos atravessam a circulação pulmonar antes de alcançar o sistema porta, e essa passagem produz infiltrado migratório com eosinofilia, quadro análogo à síndrome de Löeffler descrita em outras helmintíases. Rotular como pneumonia bacteriana é o desvio esperado diante de tosse e infiltrado, mas a natureza migratória do infiltrado, a eosinofilia e a ausência de consolidação com expectoração purulenta orientam contra o antibiótico.
Grupo de cinco jovens de 20 a 24 anos, moradores de capital, banhou-se em riacho durante viagem ao interior de Minas Gerais. Quatro semanas depois, três deles apresentam febre, tosse seca, diarreia, urticária e dor abdominal. Hemograma: eosinófilos 3.800/mm³. Qual o diagnóstico mais provável?
Febre, tosse, urticária e diarreia com eosinofilia intensa em pessoa não imune que teve contato com água doce em área endêmica, três a oito semanas antes, compõem a síndrome de Katayama — uma reação de hipersensibilidade à migração dos esquistossômulos e à oviposição inicial. A leptospirose entra como diferencial pelo contato com água, mas cursa com mialgia intensa em panturrilhas, sufusão conjuntival e não produz eosinofilia marcante, que é a pista discriminante aqui.
Homem de 44 anos, natural de Alagoas, com aumento do volume abdominal e episódio prévio de hematêmese. Exame: esplenomegalia volumosa, hepatomegalia de lobo esquerdo, circulação colateral. Laboratório: albumina 4,0 g/dL, INR 1,1, bilirrubinas normais, plaquetas 82.000/mm³. Endoscopia com varizes esofágicas de médio calibre. Qual a característica fisiopatológica da hipertensão portal nesse paciente?
Na esquistossomose hepatoesplênica os granulomas periportais obstruem os ramos intra-hepáticos da veia porta antes do sinusoide, produzindo hipertensão pré-sinusoidal — daí a combinação, quase assinatura, de esplenomegalia volumosa e varizes com albumina, bilirrubina e coagulação normais. Chamar de cirrose é o erro mais comum e tem consequência prática: mudaria o prognóstico, a indicação de transplante e a expectativa após o sangramento, que aqui é bem melhor porque o fígado funciona.
Um grupo de estudantes procura orientação antes de viagem para região endêmica de esquistossomose. Qual medida preventiva é a mais eficaz?
A prevenção individual da esquistossomose é a evitação do contato com coleções de água doce em área de transmissão, porque a cercária penetra ativamente a pele íntegra em poucos minutos. Repelente e quimioprofilaxia não têm eficácia comprovada nesse contexto e são os distratores que transportam lógicas de outras doenças. Não existe vacina disponível, e a água para consumo, quando é o caso, deve ser fervida ou filtrada — o que não protege quem entra no rio.
Homem de 28 anos, morador de área endêmica de Pernambuco, assintomático, com exame parasitológico de fezes positivo para ovos de Schistosoma mansoni, sem hepatoesplenomegalia e com ultrassonografia hepática normal. Qual a conduta?
Todo indivíduo com ovos viáveis de Schistosoma mansoni deve ser tratado, mesmo assintomático, porque a terapia interrompe a postura de ovos e previne a fibrose periportal que leva às formas graves — o praziquantel em dose única é o esquema padrão, com controle de cura por exames parasitológicos seriados meses depois. Reservar o tratamento a quem tem eosinofilia é o erro que ignora que a eosinofilia pode ser discreta ou ausente na forma crônica.
Qual método parasitológico é o mais indicado para a pesquisa de larvas de Strongyloides stercoralis nas fezes?
O Strongyloides elimina larvas, e não ovos, e o método de Baermann-Moraes explora justamente a migração ativa dessas larvas em direção ao calor e à água, aumentando muito o rendimento em relação aos métodos convencionais. Kato-Katz é o distrator recorrente porque é o exame consagrado para helmintos, mas foi desenhado para quantificar ovos, sobretudo de Schistosoma, e não recupera larvas. Amostras seriadas aumentam a sensibilidade, que permanece limitada em infecção crônica de baixa carga.
Após tratamento com praziquantel de um caso de esquistossomose aguda, qual é a conduta de controle parasitológico de cura descrita na seção 5.1.2 das diretrizes técnicas do Ministério da Saúde de 2024?
A rotina de avaliação pós-tratamento prevê três amostras alternadas, iniciadas aos 40 dias. A persistência de positividade exige retratamento conforme avaliação e protocolo. Na forma aguda, a evolução clínica também deve ser acompanhada; a diretriz discute repetição do tratamento em caso de falha. Não se deve adiar toda avaliação por meses nem condicionar a cura à negativação da sorologia. Fonte: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/e/esquistossomose/publicacoes/vigilancia-da-esquistossomose-mansoni-2024.pdf
Qual é o tratamento de escolha da estrongiloidíase disseminada em paciente imunossuprimido grave?
A ivermectina é o antiparasitário mais eficaz contra o Strongyloides, e na forma disseminada é usada de forma prolongada, até a negativação das pesquisas larvárias e cobrindo pelo menos um ciclo de autoinfecção, associada à redução da imunossupressão quando viável. Albendazol tem eficácia inferior e serve como alternativa. Aumentar o corticoide é o erro que perpetua o ciclo de autoinfecção e transforma um quadro grave em fatal.
Homem de 24 anos, morador de área endêmica, tem exame parasitológico de fezes negativo em três amostras, mas apresenta hepatomegalia de lobo esquerdo, esplenomegalia e ultrassonografia com padrão de fibrose periportal em pés de galinha. Qual a interpretação?
Na forma hepatoesplênica avançada a postura de ovos cai e o parasitológico de fezes perde sensibilidade, de modo que exames negativos não afastam a doença — a fibrose periportal em pés de galinha à ultrassonografia é altamente sugestiva e, quando necessário, a biópsia retal ou a sorologia complementam. Descartar pelo parasitológico negativo é o erro clássico e o distrator mais escolhido. A hipertensão portal aqui é pré-sinusoidal, com função hepatocelular preservada, diferente da cirrose.
Homem de 25 anos com esquistossomose aguda grave, com febre alta persistente, hepatomegalia dolorosa e importante comprometimento do estado geral. Qual a conduta terapêutica correta?
A febre de Katayama é fenômeno imunomediado, e o corticoide controla a reação inflamatória exuberante, sendo recomendado nas formas graves, associado ao praziquantel — a lise dos vermes pelo antiparasitário pode inclusive intensificar a resposta imune, o que reforça o uso do corticoide. Prescrever praziquantel isolado é o distrator mais escolhido, porém arrisca piora clínica na forma grave. Albendazol e ivermectina não têm ação sobre o Schistosoma.
Sobre o ciclo do Schistosoma mansoni, qual medida de controle atua no elo do hospedeiro intermediário?
O hospedeiro intermediário do Schistosoma mansoni é o caramujo do gênero Biomphalaria, e agir sobre ele — por controle químico, manejo ambiental ou saneamento que impeça a contaminação das coleções hídricas por fezes humanas — quebra o ciclo antes da liberação das cercárias. Albendazol é o distrator de quem generaliza o antiparasitário: ele trata geo-helmintíases, mas não o Schistosoma, cujo fármaco é o praziquantel. Não há vacina disponível, e o flebotomíneo pertence ao ciclo das leishmanioses.
Sobre o tratamento antiparasitário na forma hepatoesplênica já estabelecida, qual afirmação é correta?
Mesmo com a forma avançada, o tratamento antiparasitário é indicado: eliminar os vermes cessa a postura de ovos e freia a progressão da fibrose, com regressão parcial descrita em pacientes mais jovens. Achar que ele reverte tudo é otimismo que gera falsa expectativa; achar que é contraindicado é o extremo oposto, igualmente errado. O parasitológico negativo não afasta a doença nessa fase e não deve ser usado para negar o tratamento.
Qual afirmação sobre a dose e a administração do praziquantel na esquistossomose mansônica está correta?
O praziquantel é usado por via oral em dose única, com posologia por quilo de peso maior em crianças do que em adultos, e a administração após alimentação melhora a tolerância e a absorção. Supor que seja necessário jejum é o erro que aumenta os efeitos adversos gastrintestinais sem qualquer ganho. O fármaco é seguro em crianças a partir das faixas etárias previstas nos programas de controle, e a dose única facilita as campanhas em massa.
Qual dado da anamnese é o mais relevante para levantar a suspeita de esquistossomose hepatoesplênica em paciente com esplenomegalia e varizes?
A exposição repetida a coleções hídricas em área endêmica, sobretudo desde a infância, é o dado que ancora a hipótese e explica a evolução para a forma hepatoesplênica após anos de infecção. Antecedente transfusional e consumo alcoólico são os distratores fortes porque apontam para hepatites virais e doença hepática alcoólica, causas de cirrose com laboratório de disfunção hepatocelular — que aqui está normal, e é exatamente esse contraste que reorienta o raciocínio.
Em paciente com hiperinfecção por Strongyloides que não tolera via oral por íleo paralítico, qual alternativa pode ser considerada para a administração da ivermectina?
Não existe formulação endovenosa de ivermectina aprovada para uso humano, e diante de íleo com absorção enteral comprometida a literatura descreve o uso subcutâneo ou retal, fora de bula, em situações de risco de morte. Suspender o tratamento até o trânsito voltar é o erro fatal, porque o ciclo de autoinfecção segue enquanto o paciente permanece imunossuprimido. Reduzir a imunossupressão continua sendo parte essencial do manejo.
Qual é o achado ultrassonográfico característico da esquistossomose hepatoesplênica que permite o diagnóstico não invasivo?
A fibrose de Symmers, com espessamento periportal em imagem descrita como pés de galinha, é o marcador ultrassonográfico da forma hepatoesplênica e tem boa acurácia, sendo adotada inclusive em inquéritos populacionais. Nódulos de regeneração com contorno irregular pertencem à cirrose, e escolhê-los revela justamente a confusão entre as duas entidades. Como o parasitológico de fezes perde sensibilidade nas formas avançadas, a imagem ganha peso diagnóstico.
Sobre a esquistossomose aguda, qual afirmação sobre a epidemiologia está correta?
A síndrome de Katayama é doença de quem nunca teve contato prévio com o parasito — daí sua caracterização como doença do viajante ou do migrante recente, com surtos coletivos após banho em riacho. Moradores antigos de área endêmica desenvolvem tolerância imunológica e costumam evoluir direto para a forma crônica, muitas vezes assintomática, o que faz da forma aguda um evento incomum nessas populações. A transmissão exige o caramujo e a água, nunca contato interpessoal.
Paciente de 22 anos com quadro clínico compatível com esquistossomose aguda há 30 dias do contato. Exame parasitológico de fezes negativo. Qual a interpretação?
Entre a penetração das cercárias e o início da postura de ovos passam cerca de cinco semanas, de modo que o parasitológico negativo na fase aguda é a regra e não afasta a doença — a sorologia e o quadro clínico-epidemiológico sustentam o diagnóstico nesse momento, e o parasitológico se repete depois. Concluir por outro diagnóstico diante do exame negativo é justamente o erro que faz o paciente circular por semanas com hipóteses alternativas, submetido a antibióticos inúteis.
Paciente de 38 anos com esquistossomose hepatoesplênica apresenta hemograma com hemoglobina 9,8 g/dL, leucócitos 2.800/mm³ e plaquetas 62.000/mm³. Não há sangramento ativo. Qual a causa mais provável das citopenias?
O baço congesto e aumentado sequestra e destrói elementos figurados, e o hiperesplenismo explica a pancitopenia periférica com medula normal ou hipercelular — é achado esperado e, por si só, não indica transfusão nem esplenectomia. Pensar em aplasia medular é o distrator que leva a investigação para o caminho errado e a procedimentos invasivos desnecessários. A esplenectomia, quando cogitada, entra em contextos selecionados de tratamento cirúrgico da hipertensão portal, e não pelo número isolado das citopenias.
Qual condição está associada a risco particularmente elevado de estrongiloidíase disseminada, mesmo sem uso de corticoide?
A coinfecção pelo HTLV-1 desvia a resposta imune para o padrão do tipo 1, reduz a produção de interleucina 5 e imunoglobulina E e compromete o controle da autoinfecção, resultando em maior carga parasitária, menor eosinofilia e resposta pior à ivermectina — é um dos fatores de risco mais importantes. Curiosamente, a infecção pelo HIV não tem o mesmo peso, o que costuma surpreender quem associa automaticamente imunossupressão a esse vírus.
Homem de 41 anos, morador de area rural com historia de banho em rio no Nordeste do Brasil, apresenta lombalgia intensa seguida, em dias, de paraparesia, retencao urinaria e nivel sensitivo. Ressonancia mostra mielite do cone medular com realce. Eosinofilia no hemograma. Qual etiologia deve ser considerada?
Mielite do cone medular com lombalgia intensa, evolucao em dias e eosinofilia em paciente com exposicao a agua doce em area endemica aponta para a mielorradiculopatia esquistossomotica, causa relevante de mielite nao traumatica no Brasil, tratada com corticoide e praziquantel, com diagnostico apoiado em sorologia, exame parasitologico e liquor. A mielopatia pelo HTLV-1 engana porque tambem e uma causa infecciosa importante no pais, mas seu curso e cronico e progressivo ao longo de anos, com paraparesia espastica, e nao agudo em dias. Hernia discal nao causa realce medular e a poliomielite acomete o corno anterior sem nivel sensitivo.
Homem de 40 anos elimina proglotes nas fezes e refere consumo frequente de carne suína malpassada. Qual o tratamento da teníase e o cuidado adicional?
A teníase intestinal é tratada com dose única de praziquantel ou niclosamida, mas o cuidado que realmente importa é epidemiológico: o portador do verme adulto é a fonte de ovos que pode causar cisticercose nele mesmo e nos conviventes, o que exige higiene rigorosa e investigação dos contatos domiciliares. Deixar a teníase sem tratamento é o erro que mantém uma fonte ativa de doença neurológica grave dentro de casa.
Sobre a transmissão da esquistossomose mansônica, qual afirmação está correta?
O ciclo depende do caramujo de água doce como hospedeiro intermediário, e a forma infectante para o homem é a cercária, que penetra ativamente na pele íntegra durante banho, pesca ou lavagem de roupa em coleções de água contaminadas. Confundir com a via alimentar é o erro que aparece quando se transporta o ciclo das teníases, cuja transmissão realmente depende da ingestão de carne com cisticercos ou de ovos.
Adolescente de 14 anos, morador de área endêmica, apresenta hepatoesplenomegalia, hematêmese e plaquetopenia, com fígado de superfície irregular à ultrassonografia e fibrose periportal em padrão de Symmers. Qual o diagnóstico e o tratamento antiparasitário?
Hipertensão porta com fibrose periportal em cachimbo de barro, hepatoesplenomegalia e sangramento por varizes em morador de área endêmica caracterizam a forma hepatoesplênica da esquistossomose, cuja peculiaridade é a função hepatocelular relativamente preservada, ao contrário da cirrose. O praziquantel elimina o verme e evita a progressão, ainda que não desfaça a fibrose já estabelecida. A leishmaniose visceral é o distrator mais forte porque também dá hepatoesplenomegalia e citopenias, mas cursa com febre prolongada, emagrecimento e pancitopenia com hipergamaglobulinemia, sem fibrose periportal.
Em um inquérito escolar, deseja-se quantificar a carga parasitária de Schistosoma mansoni e avaliar a resposta ao tratamento coletivo. Qual método parasitológico é o indicado?
O Kato-Katz é o método quantitativo de referência para esquistossomose e para as geo-helmintíases, porque permite contar ovos por grama de fezes e assim classificar a intensidade da infecção e medir o impacto de intervenções coletivas. O Baermann-Moraes é o distrator mais próximo entre os parasitológicos especiais, mas ele se destina a recuperar LARVAS, sobretudo de Strongyloides, aproveitando o hidrotermotropismo, e não ovos.
Adolescente que teve contato com água de lagoa em área endêmica apresenta, cerca de 40 dias depois, febre alta, calafrios, tosse, diarreia, hepatoesplenomegalia dolorosa e eosinofilia de 40%. Qual a hipótese?
A síndrome febril que surge semanas após o contato com água doce contaminada, com eosinofilia intensa, hepatoesplenomegalia e sintomas sistêmicos, corresponde à reação de hipersensibilidade à postura inicial de ovos, e é frequentemente confundida com febre tifoide ou hepatite viral. A pista que separa é a eosinofilia acentuada, ausente nessas duas, somada ao antecedente epidemiológico de banho em lagoa ou riacho em área endêmica.
Um paciente com estrongiloidíase apresenta lesão cutânea linear, urticariforme, muito pruriginosa, que migra rapidamente na região perianal e nas nádegas, com deslocamento de vários centímetros por hora. Como se denomina esse achado e o que ele indica?
A larva currens se distingue da larva migrans cutânea pela velocidade: enquanto o bicho geográfico avança milímetros por dia, aqui a lesão percorre centímetros por hora, refletindo a migração de larvas filarioides já infectantes, produzidas no próprio hospedeiro. Reconhecer esse sinal importa porque ele denuncia a autoinfestação, que explica a persistência da infecção por décadas e o risco de hiperinfecção sob imunossupressão.
Turista de 20 anos, sem exposição prévia, apresenta 30 dias após banho em lagoa de área endêmica quadro de febre alta, tosse, urticária, dor abdominal e eosinofilia de 35%. Qual a hipótese?
A forma aguda toxêmica ocorre em quem nunca teve contato prévio com o parasita e reflete a resposta de hipersensibilidade à oviposição, produzindo febre, urticária, tosse, dor abdominal e eosinofilia acentuada semanas após o banho em água doce contaminada. A dengue é o distrator mais tentador diante de febre com exantema, mas não cursa com eosinofilia marcante nem tem esse nexo de exposição. Pneumonia por Mycoplasma não produz urticária nem eosinofilia dessa magnitude, alergia isolada não dá febre prolongada, e a leptospirose cursa com mialgia intensa, sufusão conjuntival e alterações renais e hepáticas.
Paciente pediátrico de 9 anos, em uso de corticosteroide em dose alta por síndrome nefrótica, evolui com dor abdominal, vômitos, febre e sepse por bacilo gram-negativo, com achado de larvas rabditoides no escarro. Qual a hipótese?
O corticoide em dose alta acelera o ciclo de autoinfestação do Strongyloides, e a migração maciça de larvas leva bactérias entéricas para a corrente sanguínea, o que explica a sepse por gram-negativo associada ao achado de larvas no escarro. Essa é a razão pela qual se pesquisa e trata a estrongiloidíase antes de imunossuprimir pacientes de área endêmica. A síndrome de Löffler é o distrator mais próximo, mas é autolimitada, cursa com infiltrados migratórios e eosinofilia sem sepse. Toxocaríase não invade o pulmão dessa forma, e nem aspiração nem tuberculose explicam larvas no escarro.
Sobre as medidas de controle das geo-helmintíases em comunidades de alta prevalência, qual estratégia é reconhecida como fundamental para resultados sustentados?
O tratamento em massa reduz rapidamente a carga parasitária, mas a reinfecção ocorre em poucos meses quando o solo e a água permanecem contaminados, de modo que sem saneamento o ganho se perde. Por isso as estratégias eficazes combinam quimioterapia periódica em escolares com infraestrutura e educação. Tratar apenas sintomáticos é ineficaz em alta prevalência porque a maioria dos infectados é oligossintomática, e não existe vacina disponível para uso populacional.
Adolescente de 13 anos, procedente de Minas Gerais, com hepatoesplenomegalia volumosa e episódio de hematêmese. Endoscopia mostra varizes esofágicas de grosso calibre. Exames hepáticos com albumina e coagulograma normais. Qual a hipótese principal?
O achado que orienta é a dissociação entre hipertensão portal exuberante e função hepatocelular preservada: na forma hepatoesplênica da esquistossomose a lesão é uma fibrose periportal, chamada fibrose de Symmers, que obstrui o fluxo pré-sinusoidal sem destruir os hepatócitos. Na cirrose, ao contrário, haveria hipoalbuminemia e coagulopatia acompanhando as varizes, e é essa diferença que a questão testa.
Sobre a prevenção das geo-helmintíases e da larva migrans cutânea em comunidades, qual medida é a mais efetiva?
O ciclo dessas parasitoses depende do contato da pele ou da boca com solo contaminado por fezes humanas ou de animais, e por isso a intervenção estruturante é o saneamento, somado ao uso de calçados e ao controle de cães e gatos em praias e praças. O tratamento em massa tem lugar como estratégia programática periódica em áreas de alta prevalência, mas repeti-lo mensalmente e sem critério pressiona resistência e não substitui o saneamento. Fervura da água atua sobre protozoários, repelente não impede a penetração de larvas pelo pé descalço, e não existe vacina disponível contra helmintos.
Adolescente de 15 anos com diagnóstico de doença autoimune vai iniciar corticoterapia em dose imunossupressora. É procedente de zona rural e apresenta eosinofilia de 12%. Qual conduta é obrigatória antes do início do corticoide?
O Strongyloides mantém ciclo de autoinfestação e permanece no hospedeiro por décadas; sob imunossupressão, sobretudo por corticoide, esse ciclo se acelera e produz hiperinfecção com disseminação larvária e sepse por germes entéricos, com mortalidade elevada. Por isso a triagem, idealmente com método de Baermann ou sorologia, e o tratamento com ivermectina antecedem a imunossupressão. Esperar sintomas é justamente a conduta que permite a forma disseminada.
Criança de 9 anos, moradora de área endêmica, apresenta hepatoesplenomegalia, hipertensão portal com varizes esofágicas e história de contato com água de riacho. Eosinofilia presente. Qual a hipótese?
A forma hepatoesplênica da esquistossomose resulta da fibrose periportal desencadeada pelos ovos, com hipertensão portal e varizes esofágicas, tipicamente preservando por muito tempo a função hepatocelular, o que a distingue das cirroses. O contato com coleções de água doce em área endêmica e a eosinofilia orientam a hipótese, confirmada pela pesquisa de ovos nas fezes ou por biópsia retal, com ultrassonografia demonstrando o padrão de fibrose.
Qual é o tratamento de escolha para a esquistossomose mansônica?
O praziquantel em dose única é o tratamento de escolha, com controle de cura por parasitológico após alguns meses. Um ponto que a prova cobra é o alcance da droga: ela é eficaz contra vermes adultos e pouco ativa contra formas imaturas, o que explica falhas quando o tratamento é feito muito cedo após a exposição e justifica a repetição em situações selecionadas. O tratamento reduz a carga parasitária e a progressão da fibrose, mas não reverte a fibrose já estabelecida.
Qual medida tem maior impacto no controle das geo-helmintíases em uma comunidade?
As geo-helmintíases dependem do ciclo solo-fezes-humano, e por isso o controle sustentado exige saneamento, água tratada, uso de calçados e educação em saúde; o tratamento periódico em áreas de alta prevalência reduz a carga parasitária e a morbidade, mas sem as medidas ambientais a reinfestação ocorre em poucos meses. Não existe vacina disponível para esses helmintos, e antibióticos não têm ação sobre eles.
Menina de 7 anos apresenta há 4 dias febre, dor abdominal e edema de face. Reside em área rural com contato frequente com córrego. Ao exame, encontra-se com hepatomegalia dolorosa e lesões urticariformes. Hemograma revela eosinofilia de 28 por cento. O exame parasitológico de fezes evidencia ovos com espículo lateral. Qual é o tratamento indicado?
Ovos com espículo lateral identificam Schistosoma mansoni, e o tratamento de escolha é o praziquantel em dose única, com investigação do território por se tratar de agravo de notificação em áreas de vigilância. O albendazol atua sobre geo-helmintos como ascaris e ancilóstomo. A ivermectina é indicada para estrongiloidíase e escabiose. O metronidazol trata protozoários intestinais como giardia e ameba, não trematódeos.
Homem de 33 anos, morador de área rural com contato frequente com córrego, procura a Unidade Básica de Saúde com queixa de diarreia intermitente e dor abdominal há meses. Exame físico: fígado palpável a 3 cm do rebordo costal, baço palpável, sem icterícia ou ascite. Exame parasitológico de fezes com ovos de Schistosoma mansoni. Hemograma com eosinofilia. Sem varizes esofágicas conhecidas. Qual é a conduta adequada?
A esquistossomose mansônica confirmada é tratada com praziquantel em dose única, e a hepatoesplenomegalia impõe avaliação complementar com ultrassonografia para caracterizar fibrose periportal e risco de hipertensão porta. Albendazol não tem ação sobre o Schistosoma. Esplenectomia é conduta de exceção em complicações da forma hepatoesplênica, jamais como passo inicial. A presença de ovos viáveis nas fezes indica infecção ativa e obriga o tratamento, além da notificação em áreas de vigilância.
Homem de 37 anos procura a Unidade Básica de Saúde referindo eliminação de estruturas brancas achatadas nas fezes e desconforto abdominal ocasional. Relata consumo habitual de carne bovina malpassada. Exame físico normal, sem sinais neurológicos, sem cefaleia ou crise convulsiva. Parasitológico revela proglótides de Taenia. Ele mora com esposa e dois filhos e trabalha manipulando alimentos. Qual é a conduta correta?
A teníase intestinal confirmada é tratada com praziquantel ou niclosamida, e a orientação de higiene é essencial porque a ingestão de ovos, inclusive por autoinfecção, causa cisticercose; a ocupação com manipulação de alimentos reforça a medida. Neuroimagem se indica diante de manifestações neurológicas, ausentes. Eosinofilia não é critério para tratar parasitose já documentada. Tratamento em massa do domicílio sem diagnóstico não é a recomendação e usa fármaco de menor eficácia para o agente identificado.
Homem de 34 anos procura a Unidade Básica de Saúde com diarreia crônica, distensão abdominal e flatulência há 3 meses, com fezes claras e gordurosas que boiam. Perdeu 5 kg. Relata piora após viagem a área rural com consumo de água de poço. Sem febre. Exame parasitológico de fezes com cistos de Giardia lamblia. Qual é o tratamento indicado?
A giardíase, causa clássica de diarreia com esteatorreia e distensão após ingestão de água contaminada, é tratada com metronidazol ou tinidazol, este último com vantagem da dose única. O albendazol tem papel principal nas helmintíases intestinais, ainda que possa ser alternativa, não sendo o esquema de escolha padronizado. A ivermectina é indicada para estrongiloidíase e escabiose, não para protozoose com esse perfil. O sulfametoxazol-trimetoprima é o tratamento da isosporíase e da ciclosporíase, e não da giardíase.
Homem de 41 anos, morador de área rural, apresenta há 2 meses dor abdominal difusa, urticária recorrente e diarreia intermitente. Ele recebeu prednisona por 3 semanas para crise asmática e evoluiu com piora da dor, vômitos e febre. Hemograma inicial com eosinofilia de 12%, que desapareceu na internação. Foi identificada larva de Strongyloides stercoralis em aspirado duodenal. Qual é a conduta adequada?
Estrongiloidíase em uso de corticoide pode evoluir para hiperinfecção e disseminação, com alta letalidade, e o manejo é iniciar ivermectina e suspender ou reduzir o imunossupressor sempre que possível. Manter o corticoide perpetua o principal fator de risco para a autoinfecção acelerada. O praziquantel trata esquistossomose e teníases, sem ação sobre Strongyloides. Considerar o quadro autolimitado ignora a gravidade potencial da hiperinfecção, sinalizada aqui pelo desaparecimento da eosinofilia e pela piora clínica sob corticoide.
Homem de 48 anos, natural de área endêmica de Minas Gerais, é atendido em ambulatório com aumento do volume abdominal e episódio prévio de hematêmese. Ao exame: fígado com lobo esquerdo aumentado e endurecido, esplenomegalia volumosa; ausência de icterícia, aranhas vasculares ou ascite. Endoscopia com varizes esofágicas de médio calibre. Albumina e bilirrubinas normais; plaquetas 78.000/mm³. Sorologia e parasitológico positivos para Schistosoma mansoni. Qual é o diagnóstico mais provável?
Hipertensão portal com esplenomegalia, varizes e plaquetopenia, mas com função hepatocelular preservada e sem estigmas de insuficiência hepática, em paciente de área endêmica com parasitológico positivo, caracteriza a forma hepatoesplênica da esquistossomose, cuja fibrose é periportal e pré-sinusoidal. A cirrose descompensada cursaria com hipoalbuminemia, icterícia e estigmas cutâneos. A síndrome de Budd-Chiari apresenta ascite de instalação rápida com dor e hepatomegalia congestiva. A hepatite autoimune cursa com elevação importante de transaminases e autoanticorpos, achados não descritos.
Homem de 38 anos procura o pronto-atendimento com diarreia com muco e sangue há 10 dias, cólicas abdominais e tenesmo, sem febre alta. Retornou recentemente de viagem a região com precariedade sanitária. O exame parasitológico revela trofozoítos com hemácias fagocitadas, compatíveis com Entamoeba histolytica. Qual é o tratamento indicado?
A amebíase intestinal invasiva é tratada com metronidazol seguido de amebicida luminal para eliminar os cistos remanescentes e evitar recidiva e transmissão. O ciprofloxacino cobre bactérias enteroinvasivas, mas não trata a ameba. O albendazol atua sobre helmintos e não sobre protozoários dessa natureza. A sulfassalazina é usada em doença inflamatória intestinal, e prescrevê-la aqui deixaria a infecção sem tratamento, com risco de perfuração e abscesso hepático.
Homem de 26 anos, morador de área endêmica, apresenta diarreia intermitente e dor abdominal. O exame parasitológico de fezes revela ovos de Schistosoma mansoni. Ao exame físico, não há hepatoesplenomegalia; a ultrassonografia de abdome não mostra fibrose periportal. Qual é a conduta adequada?
A forma intestinal da esquistossomose deve ser tratada com praziquantel em dose única, independentemente da presença de hepatoesplenomegalia, com notificação e ações de vigilância sobre coleções hídricas e contatos no território. Reservar o tratamento para formas graves permite a progressão para fibrose periportal e hipertensão portal. O albendazol não tem ação sobre o Schistosoma. A esplenectomia é procedimento eventualmente considerado na forma hepatoesplênica avançada, jamais de forma profilática na forma intestinal.
Homem de 58 anos, com diagnóstico recente de doença autoimune, iniciará corticoterapia em dose imunossupressora. Procede de área rural do Norte do país, tem eosinofilia de 12% no hemograma e refere epigastralgia e episódios de urticária migratória há anos. Sem diarreia no momento. A equipe da Unidade Básica de Saúde é consultada antes do início do tratamento. Qual é a conduta mais adequada?
Eosinofilia com sintomas sugestivos em pessoa procedente de área endêmica exige pesquisa e tratamento de estrongiloidíase antes da imunossupressão, pois o corticoide pode desencadear hiperinfecção e forma disseminada, de alta letalidade. Iniciar o corticoide e observar expõe justamente a esse risco. Albendazol não é o fármaco de escolha para Strongyloides, cujo tratamento preferencial é a ivermectina. Ignorar a eosinofilia pela ausência de diarreia desconsidera que a infecção crônica costuma ser oligossintomática.
Criança de 8 anos é atendida com febre e dor abdominal. Reside em área endêmica de esquistossomose e apresenta hepatoesplenomegalia com fígado de superfície irregular ao exame. A ultrassonografia mostra fibrose periportal. O parasitológico é negativo em três amostras. Qual é a conduta?
Na forma crônica da esquistossomose a carga parasitária é baixa e o parasitológico pode ser negativo, de modo que a suspeita clínica e ultrassonográfica exige métodos complementares e avaliação de hipertensão portal. Descartar pelo exame negativo perde o diagnóstico em fase avançada. Tratar sem investigação não avalia as complicações que determinam o prognóstico. O transplante hepático não é conduta inicial e a função hepatocelular costuma ser preservada nessa forma.
Gestante de 29 anos, com 18 semanas, comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta e traz resultado de exame parasitológico de fezes com ovos de Schistosoma mansoni. Ela mora em área endêmica e tem contato com córrego. Está assintomática, sem hepatoesplenomegalia, sem diarreia e sem sangramento digestivo, com pressão arterial de 110x68 mmHg e hemoglobina de 11,5 g/dL. Ela pergunta se pode tomar o remédio agora. Considerando o tratamento da esquistossomose na gestação, a conduta correta é
O praziquantel é considerado seguro e a Organização Mundial da Saúde recomenda o tratamento de gestantes e lactantes infectadas em áreas endêmicas, evitando a progressão para formas hepatoesplênicas e reduzindo a anemia. Adiar até o fim da lactação prolonga desnecessariamente a exposição à morbidade. A oxamniquine tem restrições de uso na gestação e não é a escolha preferencial. A esquistossomose não é autolimitada e pode evoluir para hipertensão portal e hemorragia digestiva se não tratada.
Homem de 52 anos, morador de área rural, comparece à Unidade Básica de Saúde referindo, há seis meses, aumento progressivo do volume abdominal e episódios de sangramento digestivo alto de pequeno volume. Cresceu banhando-se em riacho próximo à residência. Nega etilismo. Ao exame: bom estado geral, sem icterícia, abdome com hepatoesplenomegalia importante, sem sinais de descompensação, circulação colateral discreta. Exames: plaquetas 92.000/mm3, albumina 4,0 g/dL, transaminases normais, ultrassonografia com fibrose periportal característica. A principal hipótese e a conduta corretas são:
Hepatoesplenomegalia com hipertensão portal, plaquetopenia, função hepática preservada e fibrose periportal ao ultrassom, em pessoa com exposição a coleções de água doce em área endêmica, caracteriza a forma hepatoesplênica da esquistossomose mansônica, que exige tratamento específico, avaliação endoscópica de varizes e notificação. Cirrose alcoólica é improvável sem etilismo e cursa com alteração da função hepatocelular, ausente. Hepatite autoimune produziria elevação de transaminases e outros marcadores. Neoplasia hepática primária não explica o padrão de fibrose periportal com função preservada, e conduzir a quimioembolização sem diagnóstico seria inaceitável.
Homem de 61 anos, em uso crônico de prednisona por doença autoimune, é internado com dor abdominal, diarreia, náuseas e dispneia. Ao exame: emagrecido, taquipneico, com estertores difusos e abdome distendido, doloroso, com ruídos diminuídos. Exames: eosinofilia ausente, hemocultura positiva para Escherichia coli e radiografia de tórax com infiltrados bilaterais. A pesquisa de larvas em escarro e em fezes mostra Strongyloides stercoralis em grande quantidade. Ele é natural de área rural do Norte do país. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
A corticoterapia favorece a autoinfestação maciça do estrongiloides, com migração larvária pulmonar e translocação de bactérias entéricas, produzindo quadro grave com dispneia, sintomas gastrointestinais e bacteremia por germes entéricos, frequentemente sem eosinofilia. A ascaridíase pode obstruir o intestino, mas não gera disseminação larvária com bacteremia e infiltrados pulmonares. A amebíase invasiva produz colite e abscesso hepático, sem larvas em escarro. A tuberculose intestinal tem curso arrastado e não explica o achado parasitológico maciço descrito.
Homem de 51 anos, morador de área endêmica no Nordeste, com história de banhos em riachos na juventude, procura a Unidade Básica de Saúde com aumento do volume abdominal e episódio de vômito com sangue vivo há dois dias. Ao exame: emagrecido, sem icterícia, abdome globoso com circulação colateral, fígado com lobo esquerdo aumentado e endurecido, baço palpável a 8 cm do rebordo costal. Exames: plaquetopenia, leucopenia, albumina e transaminases normais, e ultrassonografia com fibrose periportal em padrão característico. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
Hipertensão portal com esplenomegalia volumosa, hipertensão portal com sangramento varicoso e fibrose periportal característica à ultrassonografia, em paciente de área endêmica e com função hepatocelular preservada, definem a forma hepatoesplênica da esquistossomose, na qual a hipertensão portal é pré-sinusoidal. A cirrose alcoólica cursa com insuficiência hepatocelular, hipoalbuminemia e icterícia. A hepatite aguda apresenta transaminases muito elevadas e evolução curta. A neoplasia hepática produziria lesão focal, com alteração de marcadores e quadro consumptivo distinto.
Homem de 34 anos procura a Unidade Básica de Saúde relatando eliminação de estruturas esbranquiçadas e móveis nas fezes e na roupa íntima, além de desconforto abdominal e aumento do apetite. Refere consumo frequente de carne bovina malpassada em churrascos. Ao exame: bom estado geral, abdome flácido, indolor, sem massas palpáveis. O exame parasitológico identifica proglotes. A equipe discute o tratamento e as orientações preventivas, considerando o risco para o próprio paciente e para os contatos domiciliares. Qual é a orientação correta?
O portador de teníase elimina ovos que podem infectar outras pessoas e ele próprio, gerando cisticercose, inclusive neurocisticercose, razão pela qual o tratamento do portador é medida de saúde coletiva, acompanhada de orientação sobre cozimento da carne, higiene das mãos e saneamento. Considerar a teníase inócua ignora essa cadeia de transmissão. Tratar apenas contatos e deixar o portador eliminando ovos mantém a fonte de infecção. Internação e tratamento parenteral não são necessários para a teníase intestinal não complicada.
Menino de 8 anos, em uso de corticoide sistêmico por síndrome nefrótica, é levado ao pronto-atendimento com dor abdominal, vômitos, diarreia e febre, evoluindo com dispneia e infiltrado pulmonar difuso. Ele mora em área rural e anda descalço com frequência. Ao exame, está prostrado, com dor abdominal difusa, distensão, sibilos e crepitações difusas, e petéquias periumbilicais. Os exames mostram eosinofilia que se reduziu no curso do quadro, e a pesquisa de larvas no escarro e nas fezes é positiva. A hipótese diagnóstica mais provável é
Paciente imunossuprimido por corticoide, com quadro gastrointestinal e pulmonar grave, larvas no escarro e nas fezes e petéquias periumbilicais, apresenta estrongiloidíase disseminada, condição de alta letalidade que exige tratamento imediato com ivermectina e suporte, e que justifica o rastreio antes de imunossupressão. A ascaridíase com síndrome de Löffler é autolimitada e cursa com eosinofilia e infiltrado transitório. A toxocaríase cursa com eosinofilia acentuada persistente, sem larvas no escarro. A esquistossomose aguda cursa com febre, urticária e eosinofilia após contato com água doce.
Menina de 9 anos, moradora de área endêmica, é levada ao ambulatório para avaliação por hepatoesplenomegalia detectada em consulta de rotina. Ela é assintomática, com bom estado geral e crescimento adequado, e brinca com frequência em um córrego próximo à casa. Ao exame, o fígado é palpável a 3 cm do rebordo costal com predomínio do lobo esquerdo e o baço a 5 cm, de consistência firme, sem icterícia e sem ascite. O exame parasitológico de fezes mostra ovos com espícula lateral e o hemograma revela plaquetopenia discreta. A conduta correta é
Ovos com espícula lateral definem infecção por Schistosoma mansoni, e a hepatoesplenomegalia com plaquetopenia sugere evolução para forma hepatoesplênica com hipertensão portal, indicando tratamento com praziquantel e seguimento em serviço de referência com avaliação de varizes. Anti-helmíntico inespecífico não trata a esquistossomose. Aguardar hemorragia digestiva é conduta inaceitável em doença tratável. Esplenectomia não é tratamento inicial e é reservada a situações selecionadas de hiperesplenismo grave.
Homem de 38 anos, trabalhador rural que anda descalço na lavoura, procura a Unidade Básica de Saúde com cansaço progressivo, palidez e falta de ar aos esforços há alguns meses, além de desejo de comer terra. Ao exame: mucosas hipocoradas, taquicárdico, sopro sistólico suave, sem visceromegalias e sem sangramentos visíveis. Exames: hemoglobina 7,8 g/dL, microcitose e hipocromia, ferritina muito baixa, com pesquisa de sangue oculto positiva e parasitológico de fezes mostrando ovos de ancilostomídeo. Qual é a conduta correta?
A ancilostomíase provoca perda sanguínea intestinal crônica e anemia ferropriva, de modo que o tratamento associa anti-helmíntico específico, reposição de ferro até restaurar os estoques e medidas preventivas como uso de calçados, saneamento e destino adequado de dejetos. Repor ferro sem tratar o parasito mantém a perda contínua. Tratar apenas a parasitose deixa o paciente anêmico e com estoques depletados. Transfusão isolada não corrige a causa e se reserva a anemia sintomática grave com instabilidade.
Homem de 35 anos procura a Unidade Básica de Saúde com diarreia com sangue e muco, de evolução arrastada há três semanas, com períodos de melhora parcial, associada a dor abdominal em cólica e tenesmo, sem febre alta. Reside em área com saneamento inadequado. Ao exame, bom estado geral, mucosas úmidas, abdome doloroso à palpação do quadrante inferior esquerdo e do direito, sem defesa, sem massas e sem hepatomegalia dolorosa. O parasitológico de fezes mostra trofozoítos com hemácias fagocitadas. A conduta correta é:
A presença de trofozoítos com hemácias fagocitadas confirma amebíase invasiva, cujo tratamento combina amebicida tecidual, para a forma invasiva, seguido de amebicida luminal, para erradicar os cistos e evitar recidiva e transmissão, além de medidas de saneamento e higiene. Antibiótico de amplo espectro sem amebicida específico não trata o protozoário. Trofozoítos com hemácias fagocitadas nunca são achado normal, pois indicam invasão tecidual. Corticoide sem excluir infecção pode desencadear colite amebiana fulminante e megacólon.
Homem de 43 anos, natural de área endêmica de esquistossomose, chega ao pronto-socorro com hematêmese volumosa e melena iniciadas há três horas. Nega etilismo importante e uso de anti-inflamatórios. Ao exame, palidez, pressão arterial de 92 x 58 mmHg, frequência cardíaca de 118 bpm, abdome com esplenomegalia volumosa e fígado de bordo endurecido, sem ascite e sem icterícia. Os exames mostram plaquetopenia, leucopenia e função hepática relativamente preservada, com albumina normal. A hipótese diagnóstica mais provável é:
Hemorragia digestiva alta por varizes, esplenomegalia volumosa com hiperesplenismo e função hepatocelular preservada, em paciente de área endêmica, caracterizam a forma hepatoesplênica da esquistossomose, em que a hipertensão portal é pré-sinusoidal e a função do hepatócito é relativamente poupada. Na cirrose alcoólica haveria estigmas de hepatopatia, hipoalbuminemia e alteração da coagulação. A úlcera perfurada cursa com peritonite e pneumoperitônio. A síndrome de Mallory-Weiss segue vômitos repetidos e não explica esplenomegalia e citopenias.
Uma equipe de Saúde da Família atua em município de área endêmica de esquistossomose, com córrego contaminado atravessando a comunidade e prática frequente de banho e lavagem de roupas no local. Vários moradores apresentam exames parasitológicos positivos, a maioria assintomática ou com sintomas intestinais leves. A equipe deseja estruturar uma resposta que vá além do tratamento individual, articulando ações com a gestão municipal e com a vigilância ambiental. A conduta mais adequada é:
O controle da esquistossomose combina tratamento dos casos identificados, inclusive assintomáticos, notificação, busca ativa na comunidade, ações de saneamento básico, controle dos hospedeiros intermediários e educação em saúde, articulando saúde e demais setores. Tratar apenas sintomáticos mantém a cadeia de transmissão, pois a maioria dos infectados tem poucos sintomas. Orientação isolada sobre contato com a água é insuficiente sem saneamento e tratamento. Aguardar formas graves significa deixar a doença evoluir para complicações irreversíveis.
Grupo de estudantes procura a Unidade Básica de Saúde cerca de quatro semanas após acampamento com banhos de rio em área endêmica de esquistossomose no interior de Minas Gerais. Vários apresentam febre, tosse seca, dor abdominal, diarreia e urticária. Ao exame de um deles: febril, com hepatoesplenomegalia discreta, lesões urticariformes no tronco, ausculta com estertores esparsos. Exames: eosinofilia acentuada e transaminases discretamente elevadas, com parasitológico de fezes inicialmente negativo. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
Febre, urticária, sintomas respiratórios e gastrointestinais com eosinofilia acentuada, poucas semanas após exposição a água doce em área endêmica, caracterizam a forma aguda da esquistossomose, na qual o parasitológico pode ser inicialmente negativo por ainda não haver oviposição. A febre tifoide cursa com leucopenia e aneosinofilia, padrão oposto. A leptospirose apresenta mialgia intensa e sufusão conjuntival, sem eosinofilia marcante. A hepatite A cursa com icterícia e transaminases muito elevadas, sem urticária e eosinofilia.
Homem de 47 anos, morador de comunidade com saneamento precário, procura a Unidade Básica de Saúde com queixa de cansaço e desconforto abdominal. Trabalha na lavoura e anda descalço com frequência. Ao exame: mucosas hipocoradas, abdome flácido e indolor, sem visceromegalias. Exames: hemoglobina 9,6 g/dL com microcitose, eosinofilia, e o parasitológico de fezes identifica ovos de Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura e ancilostomídeos. A equipe discute a conduta individual e as ações no território. Qual é a abordagem mais adequada?
O manejo das geo-helmintíases combina tratamento anti-helmíntico eficaz contra os agentes identificados, correção da anemia ferropriva, orientação sobre uso de calçados e higiene, e ações coletivas de saneamento, destino adequado de dejetos e educação em saúde, pois a reinfecção é a regra em ambientes sem essas medidas. Tratar apenas um agente deixa os demais ativos. Repor ferro sem tratar o parasito mantém a perda contínua. Internação não é necessária em quadro ambulatorial sem complicações.
Homem de 52 anos, natural de área rural, procura ambulatório com diarreia crônica intermitente, dor abdominal e episódios de urticária, além de eosinofilia persistente em exames de rotina. Está prestes a iniciar corticoide sistêmico em dose alta por doença autoimune recém-diagnosticada. Ao exame apresenta índice de massa corporal de 23 kg/m², abdome flácido e discretamente doloroso, sem massas palpáveis, com lesões cutâneas serpiginosas migratórias em região glútea. A conduta correta antes de iniciar a imunossupressão é:
Eosinofilia persistente com lesões cutâneas serpiginosas migratórias em paciente de área rural sugere estrongiloidíase, que deve ser pesquisada e tratada antes da imunossupressão, pois o corticoide pode desencadear hiperinfecção e disseminação com alta letalidade. Iniciar o corticoide antes de investigar expõe o paciente justamente a essa complicação. Anti-histamínico trata sintoma sem eliminar o parasita. Considerar a eosinofilia irrelevante ignora um alerta clínico com implicação terapêutica imediata.
Uma equipe de saúde da família planeja ações de controle da esquistossomose em comunidade rural com transmissão ativa, onde os moradores usam água de córrego para lavar roupa e banhar-se, e não há rede de esgoto. A equipe discute intervenções em diferentes elos da cadeia de transmissão, incluindo tratamento dos casos, controle do hospedeiro intermediário e melhorias sanitárias. Um profissional pergunta qual ação atua diretamente sobre a interrupção do ciclo no ambiente. Qual é a resposta correta?
A interrupção do ciclo da esquistossomose no ambiente depende do destino adequado dos dejetos humanos, que impede a chegada dos ovos às coleções hídricas e a infecção dos caramujos hospedeiros intermediários, associada ao tratamento dos infectados, ao controle malacológico e à educação em saúde. Tratar somente sintomáticos deixa portadores oligossintomáticos eliminando ovos. Medicação isolada sem saneamento leva a reinfecção. O uso de calçados protege contra geo-helmintíases transmitidas pela pele dos pés, mas não contra a penetração das cercárias durante o contato com a água.
Homem de 34 anos procura a Unidade Básica de Saúde com diarreia com muco e sangue há duas semanas, associada a cólicas e tenesmo, com febre baixa intermitente. Nega uso recente de antibióticos e viagens ao exterior, mas mora em área com saneamento precário. Ao exame: bom estado geral, hidratado, com dor à palpação em quadrante inferior esquerdo, sem massas e sem sinais de irritação peritoneal. O exame parasitológico identifica trofozoítos com hemácias fagocitadas. Qual é a conduta correta?
A identificação de trofozoítos com hemácias fagocitadas confirma amebíase invasiva, cujo tratamento associa um nitroimidazólico para a forma tecidual seguido de amebicida de ação luminal para eliminar cistos e evitar recidiva e transmissão. Amebicida luminal isolado não trata a invasão tecidual. Antibiótico de amplo espectro não é o tratamento do protozoário. Antidiarreicos inibidores da motilidade são contraindicados na disenteria invasiva pelo risco de complicações como megacólon tóxico.
Homem de 41 anos é internado com dor abdominal em cólica, distensão, vômitos e parada de eliminação de gases e fezes há dois dias. Mora em área rural com saneamento precário e relata eliminação de vermes pelas fezes no passado. Ao exame: abdome distendido, timpânico, com ruídos hidroaéreos de luta, dor difusa sem irritação peritoneal e massa palpável em fossa ilíaca direita. A radiografia mostra níveis hidroaéreos e imagem tubular com aspecto em miolo de pão em alça de delgado. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
Obstrução intestinal em pessoa de área endêmica, com antecedente de eliminação de vermes e imagem tubular com aspecto característico em alça de delgado, sugere obstrução por novelo de áscaris, cuja conduta inicial costuma ser conservadora, com descompressão, hidratação e anti-helmíntico após a desobstrução, reservando cirurgia para complicações. O volvo de sigmoide acomete o cólon, com imagem em grão de café. A doença de Crohn tem evolução crônica com sintomas prévios. A neoplasia de cólon é incomum nessa idade e teria história de alteração do hábito intestinal e anemia.
Uma equipe de saúde da família de município ribeirinho identifica alta prevalência de hepatoesplenomegalia, hipertensão portal e sangramento digestivo entre moradores que mantêm contato frequente com águas de coleções naturais utilizadas para banho, pesca e lazer, onde há presença documentada de caramujos. Muitos moradores relatam prurido cutâneo após o contato com a água e ausência de saneamento básico nas comunidades ribeirinhas do território adscrito à unidade. A doença mais provável e a medida de controle são:
A esquistossomose é adquirida pelo contato com água doce contendo cercárias liberadas por caramujos, e o controle combina diagnóstico e tratamento dos casos, saneamento básico, controle dos hospedeiros intermediários, educação em saúde e oferta de alternativas seguras de acesso à água. A leptospirose relaciona-se a contato com água contaminada por urina de roedores, sem caramujos e sem essa evolução hepatoesplênica crônica. A malária é transmitida por mosquitos anofelinos. A doença de Chagas tem transmissão vetorial por triatomíneos.
Menino de 8 anos, morador de área endêmica no Nordeste, é levado à Unidade Básica de Saúde para avaliação após inquérito coproscópico escolar que identificou ovos de Schistosoma mansoni nas fezes. Ele é assintomático, com bom desempenho escolar e crescimento adequado. Ao exame: bom estado geral, abdome flácido, fígado e baço não palpáveis, sem circulação colateral e sem edema. A mãe pergunta se é necessário tratar, já que a criança não tem sintomas e nunca teve queixas. Qual é a conduta correta?
O tratamento da esquistossomose é indicado a todos os infectados, inclusive assintomáticos, pois interrompe a postura de ovos, previne a evolução para formas graves e reduz a contaminação ambiental, sendo associado a ações de saneamento, controle de hospedeiros intermediários e educação em saúde. Tratar apenas sintomáticos mantém o reservatório humano. Esperar hepatoesplenomegalia significa intervir quando já há dano hepático. Biópsia hepática é procedimento invasivo sem indicação nesse cenário.
Menina de 9 anos, moradora de área endêmica, é levada ao ambulatório com aumento do volume abdominal percebido pela mãe há meses, sem dor e sem febre. Refere banhos frequentes em lagoa próxima. Ao exame: bom estado geral, sem icterícia, com fígado de consistência endurecida palpável a 4 cm do rebordo costal, sobretudo à custa do lobo esquerdo, e baço palpável a 6 cm do rebordo costal esquerdo, sem ascite e sem circulação colateral evidente. As transaminases e a albumina são normais. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
Hepatoesplenomegalia com predomínio do lobo hepático esquerdo, função hepatocelular preservada e antecedente de contato com coleções hídricas em área endêmica caracteriza a forma hepatoesplênica da esquistossomose, na qual a hipertensão portal é pré-sinusoidal, exigindo tratamento específico e vigilância de varizes. A cirrose cursa com insuficiência hepatocelular, com hipoalbuminemia e alteração de coagulação. A leucemia cursaria com citopenias, dor óssea e adenomegalias. Doenças de depósito têm manifestações sistêmicas e alterações metabólicas próprias.
Homem de 47 anos é atendido em ambulatório com fadiga e achado de eosinofilia persistente em hemogramas seriados há seis meses. Ele mora em área rural, anda descalço e tem contato com solo e animais. Ao exame: sem palidez importante, sem visceromegalias, sem adenomegalias, lesões cutâneas serpiginosas discretas em nádegas. Exames: hemoglobina 12,8 g/dL, leucócitos 12.400/mm3 com eosinófilos de 3.200/mm3, plaquetas normais, imunoglobulina E elevada, parasitológico de fezes com larvas de Strongyloides stercoralis. A conduta correta é:
Eosinofilia persistente com larvas de Strongyloides stercoralis nas fezes exige tratamento anti-helmíntico específico, medidas preventivas como uso de calçados e saneamento e alerta formal sobre o risco de hiperinfecção e disseminação em caso de futura imunossupressão, sobretudo com corticoide. Corticoide isolado é particularmente perigoso, pois pode precipitar hiperinfecção fatal. Encerrar a investigação após identificar o agente é contraditório. Antibiótico não trata helmintíase.
Menino de 7 anos, com asma em uso de corticoide sistêmico em curso prolongado por exacerbações repetidas, é internado com dor abdominal, distensão, vômitos e dispneia. Ele mora em área rural do Norte do país e anda descalço. Ao exame: emagrecido, taquipneico, com estertores difusos, abdome distendido e doloroso, com ruídos diminuídos. Exames: ausência de eosinofilia, hemocultura positiva para bacilo entérico, radiografia com infiltrados bilaterais e pesquisa de larvas positiva em escarro e fezes. Qual é a hipótese diagnóstica?
O corticoide sistêmico favorece a autoinfestação maciça do estrongiloides, com migração larvária pulmonar e translocação de bactérias entéricas, produzindo quadro grave com sintomas respiratórios e gastrointestinais e bacteremia por germes entéricos, frequentemente sem eosinofilia. A ascaridíase pode obstruir o intestino, mas não gera disseminação larvária com bacteremia. A amebíase invasiva produz colite e abscesso hepático, sem larvas em escarro. A tuberculose intestinal tem curso arrastado e não explica o achado parasitológico maciço.
Menino de 11 anos, morador de comunidade ribeirinha, é levado à Unidade Básica de Saúde com aumento do volume abdominal e episódio de vômito com sangue, sem dor abdominal importante. Ele nadava frequentemente em igarapé próximo. Ao exame: emagrecido, sem icterícia, com fígado endurecido palpável à custa do lobo esquerdo, esplenomegalia volumosa e circulação colateral abdominal, sem ascite. Exames: plaquetopenia, leucopenia, albumina e transaminases normais, com ultrassonografia mostrando fibrose periportal. Qual é a hipótese diagnóstica?
Hipertensão portal com esplenomegalia volumosa, sangramento varicoso, fibrose periportal característica e função hepatocelular preservada em criança de área endêmica caracteriza a forma hepatoesplênica da esquistossomose, na qual a hipertensão portal é pré-sinusoidal, exigindo tratamento específico, vigilância de varizes e acompanhamento. A cirrose cursa com insuficiência hepatocelular, com hipoalbuminemia. A insuficiência cardíaca produziria congestão sistêmica com turgência jugular. A leucemia cursaria com citopenias associadas a blastos e sintomas sistêmicos.
Uma equipe de saúde da família realiza inquérito coproscópico em escola de área endêmica e identifica alta prevalência de esquistossomose entre os alunos, a maioria assintomática. Os moradores utilizam um riacho próximo para banho e lazer, e não há rede de esgoto na comunidade. A equipe planeja as ações a serem implementadas no território, considerando o tratamento dos casos e a interrupção da transmissão a médio e longo prazo. Qual é o conjunto de medidas mais adequado?
O controle da esquistossomose combina tratamento de todos os infectados, incluindo assintomáticos, que mantêm a eliminação de ovos, com ações de saneamento e destino adequado de dejetos, controle dos hospedeiros intermediários, oferta de alternativas seguras de lazer e água e educação em saúde. Tratar apenas sintomáticos mantém o reservatório humano. Proibir o uso do riacho isoladamente é medida pouco efetiva sem alternativas e saneamento. Aguardar formas graves significa intervir após dano hepático instalado.
Mulher de 25 anos, moradora de área endêmica de esquistossomose no interior de Pernambuco, procura a Unidade Básica de Saúde por sangramento após a relação sexual e corrimento persistente há um ano, sem resposta a tratamentos para cervicite. Refere banhos frequentes em riacho da região. Ao exame especular, o colo apresenta lesões granulares amareladas em cacho e áreas friáveis que sangram ao toque. O teste molecular para papilomavírus é negativo e a colposcopia com biópsia mostra granulomas com ovos calcificados de Schistosoma mansoni. Qual é a conduta adequada?
Lesões cervicais granulares em cacho, sangramento pós-coital e corrimento refratário em moradora de área endêmica com contato hídrico, confirmados por granulomas com ovos de Schistosoma na biópsia, definem esquistossomose genital feminina, cujo tratamento é o praziquantel com seguimento das lesões, que também aumentam a suscetibilidade ao HIV. A conização é procedimento excisional indicado em lesão intraepitelial de alto grau, ausente aqui. O tratamento sindrômico de cervicite já foi tentado e não trata a parasitose. Radioterapia trata câncer invasor, diagnóstico afastado pela histologia.
Homem, 57 anos, com diagnóstico de esquistossomose mansônica confirmado por parasitológico de fezes pelo método de Kato-Katz, com 480 ovos por grama de fezes. Reside em área endêmica de Minas Gerais e tem contato frequente com córrego. Exame: fígado com lobo esquerdo aumentado, superfície regular; baço palpável a 4 cm do rebordo costal esquerdo. Plaquetas 105.000/mm³ (VR 150.000–450.000); albumina 4,0 g/dL (VR 3,5–5,0); INR 1,0. Nega hematêmese prévia. Qual a conduta terapêutica correta?
O praziquantel em dose única de 40 a 60 mg/kg é o tratamento de escolha da esquistossomose mansônica, e a esplenomegalia com plaquetopenia sugere forma hepatoesplênica, o que exige avaliação complementar de hipertensão porta por ultrassonografia com pesquisa de fibrose periportal. A oxamniquina é alternativa, mas em dose única e não em curso prolongado de três semanas, e o controle de cura se faz meses depois, não semanalmente. Albendazol e ivermectina não têm atividade sobre Schistosoma mansoni, cobrindo helmintos intestinais e estrongiloidíase. Contraindicar o tratamento é erro: o praziquantel é seguro e indicado justamente para reduzir a carga parasitária e frear a progressão da fibrose. Esplenectomia é conduta de exceção em hiperesplenismo grave ou sangramento refratário, jamais anterior ao tratamento específico.
Menino, 11 anos, retorna de viagem à zona rural onde tomou banho em lagoa. Apresenta há 3 semanas febre, urticária, tosse seca e dor abdominal, evoluindo com diarreia. Ao exame, há hepatomegalia discreta e dor à palpação do hipocôndrio direito. Hemograma: eosinófilos 3.600/mm³ (VR < 500). O exame parasitológico de fezes revela ovos com espículo lateral. As transaminases estão discretamente elevadas e não há icterícia ou sinais de hipertensão portal. Qual o diagnóstico e o tratamento indicado?
Ovos com espículo lateral identificam Schistosoma mansoni, e o quadro febril agudo com urticária, tosse, diarreia e eosinofilia intensa após contato com água doce contaminada corresponde à fase aguda, ou febre de Katayama, tratada com praziquantel, geralmente após controle da resposta inflamatória com corticoide nas formas mais intensas. A ancilostomíase produz ovos de casca fina sem espículo e cursa com anemia ferropriva. O Ascaris apresenta ovos característicos e a síndrome de Löffler é transitória, sem esse quadro sistêmico prolongado. A toxocaríase não elimina ovos nas fezes humanas. A estrongiloidíase é diagnosticada por larvas rabditoides, e não por ovos com espículo lateral.
Menina, 13 anos, apresenta há 2 semanas febre baixa, fadiga e artralgias, com surgimento de lesões cutâneas em membros inferiores. Refere ter tomado banho em rio durante viagem há 6 semanas. Ao exame, apresenta hepatomegalia discreta e urticária. Eosinófilos 2.800/mm³ (VR < 500). O exame parasitológico de fezes é negativo em duas amostras, e a sorologia para esquistossomose resulta reagente com títulos elevados. Qual a explicação para o parasitológico negativo?
Na esquistossomose aguda, o período pré-patente pode ultrapassar seis semanas, de modo que a oviposição ainda não iniciou ou é escassa, tornando o exame parasitológico de fezes frequentemente negativo, enquanto a sorologia e o quadro clínico com eosinofilia sustentam o diagnóstico. Interpretar a sorologia reagente como falso-positivo contraria a coerência clínico-epidemiológica do caso. Afirmar que o parasitológico negativo exclui o diagnóstico é erro clássico nessa fase. A eosinofilia não invalida o exame parasitológico. A negatividade não indica cura espontânea, que não ocorre nessa parasitose sem tratamento específico.
Homem, 40 anos, apresenta eosinofilia persistente de 3.200/mm³ (VR até 500) em exames repetidos, com prurido e tosse ocasional. PA 122/76 mmHg, FC 78 bpm, sem febre ou perda ponderal. Reside em área rural com contato frequente com solo, sem calçados, e não usa medicamentos regularmente. Exame parasitológico de fezes solicitado, ainda sem resultado, e radiografia de tórax normal. Qual a investigação inicial mais adequada?
Em nosso meio, as parasitoses são a causa mais frequente de eosinofilia, e a investigação inicial deve incluir pesquisa parasitológica com atenção à estrongiloidíase, sobretudo antes de qualquer imunossupressão, pelo risco de disseminação. A biópsia de medula é etapa posterior, quando há suspeita de neoplasia hematológica. A tomografia de corpo inteiro não é primeira linha. O corticoide empírico pode precipitar hiperinfecção por Strongyloides. A IgE total isolada é inespecífica e não define a causa da eosinofilia.
Homem, 52 anos, residente em área endêmica no Nordeste, é atendido com hematúria terminal recorrente há 2 anos e sintomas irritativos vesicais. Exame: sem massas palpáveis, hepatoesplenomegalia discreta. Urina I com hematúria e ovos com espículo terminal identificados no sedimento. Cistoscopia mostra mucosa vesical com granulomas e áreas de fibrose, com calcificações na parede vesical na tomografia, sem lesão vegetante evidente no momento do exame. Qual a conduta correta?
Ovos com espículo terminal caracterizam Schistosoma haematobium, cuja infecção crônica causa granulomas, fibrose e calcificação vesical e associa-se ao carcinoma escamoso de bexiga, de modo que a conduta é tratar a parasitose e manter vigilância urológica. Cistectomia radical imediata sem lesão neoplásica identificada é desproporcional. BCG intravesical trata carcinoma urotelial não músculo-invasivo, não lesões granulomatosas parasitárias. Antibiótico prolongado não trata a esquistossomose. Observar sem tratamento e sem seguimento ignora tanto a infecção ativa quanto o risco oncológico associado.
Homem, 36 anos, natural do norte de Minas Gerais, com contato prévio com água de córrego, apresenta episódio de hematêmese volumosa. PA 96x58 mmHg, FC 118 bpm. Baço palpável a 8 cm do rebordo costal. Albumina 4,0 g/dL (VR 3,5–5,0); bilirrubina total 0,9 mg/dL (VR até 1,2); INR 1,1; plaquetas 78.000/mm³ (VR 150.000–400.000). Ultrassonografia mostra fibrose periportal em anéis, com fígado de tamanho normal. Qual a característica hemodinâmica esperada nesse paciente?
A hipertensão portal pré-sinusoidal com função hepatocelular preservada é a característica esperada: na forma hepatoesplênica da esquistossomose, os ovos obstruem ramos portais intra-hepáticos antes do sinusoide, gerando fibrose de Symmers com albumina, bilirrubina e coagulograma normais, exatamente como neste caso. A hipertensão sinusoidal com insuficiência hepática corresponde à cirrose, incompatível com esses exames. A forma pós-sinusoidal ocorre na síndrome de Budd-Chiari. A fístula arteriovenosa esplênica é causa rara e não produz fibrose periportal em anéis. A trombose de veia esplênica gera hipertensão segmentar com varizes gástricas isoladas.
Homem, 52 anos, com diarreia mucossanguinolenta há 6 semanas e perda de 5 kg, apresenta massa palpável no quadrante inferior direito. PA 118x72 mmHg, FC 88 bpm, T 37,6 °C. Colonoscopia mostra lesão vegetante estenosante no ceco, e a biópsia revela processo inflamatório intenso com trofozoítos contendo hemácias fagocitadas, sem células neoplásicas. Sorologia para Entamoeba histolytica reagente. Qual a conduta indicada?
Metronidazol seguido de amebicida luminal, com reavaliação endoscópica, é a conduta indicada: a lesão pseudotumoral do ceco com trofozoítos hematófagos na histologia caracteriza ameboma, que regride com tratamento antiparasitário, e a endoscopia de controle confirma a resolução. A hemicolectomia imediata operaria uma lesão inflamatória reversível. A corticoterapia agrava a amebíase e pode precipitar megacólon. O esquema antituberculose trata outra doença granulomatosa, não sustentada pelos achados. O antibiótico de amplo espectro sem amebicida luminal deixa a forma cística intestinal e favorece recidiva.
Menina, 9 anos, com síndrome nefrótica em uso de prednisona há 8 semanas, apresenta dor abdominal, vômitos, distensão e febre há 4 dias. FC 132 bpm, FR 30 ipm, T 38,8 °C, PA 88x50 mmHg. Ao exame, abdome distendido e doloroso, além de lesões purpúricas serpiginosas periumbilicais. Hemocultura isola Escherichia coli. O aspirado traqueal identifica larvas rabditoides. Eosinófilos de 120/mm³ (VR até 500). Qual o diagnóstico?
A síndrome de hiperinfecção por Strongyloides stercoralis é o diagnóstico: a corticoterapia amplifica o ciclo de autoinfecção, as larvas carreiam bactérias entéricas para a corrente sanguínea, explicando a bacteremia por Escherichia coli, e as lesões purpúricas periumbilicais correspondem à migração larvária. A eosinofilia costuma estar ausente sob corticoide, o que reforça o diagnóstico. A ascaridíase não produz larvas em aspirado traqueal com esse contexto nem lesões purpúricas. A amebíase invasiva não gera larvas. A esquistossomose aguda cursa com eosinofilia elevada. A larva migrans cutânea permanece restrita à pele.
Equipe de saúde da família avalia comunidade rural com alta prevalência de parasitoses intestinais e de anemia em escolares. Levantamento mostrou 38% das crianças de 5 a 12 anos com hemoglobina abaixo do ponto de corte para idade, e o exame parasitológico revelou predomínio de geo-helmintos. As condições de saneamento são precárias, com esgoto a céu aberto e uso de água não tratada em parte dos domicílios. Qual a medida de maior impacto sobre a anemia nessa população?
Em áreas endêmicas, a estratégia de maior impacto combina tratamento anti-helmíntico periódico, melhoria do saneamento e suplementação de ferro, atuando ao mesmo tempo sobre a perda sanguínea e sobre a reposição dos estoques. Distribuir ferro isoladamente mantém a perda intestinal e reduz a eficácia da suplementação. A transfusão programada é inaceitável como estratégia populacional para anemia moderada. O rastreio universal com eletroforese não corresponde ao problema predominante, que é carencial e parasitário. A reposição de vitamina B12 e folato não trata a causa principal da anemia nessa população.
Menino, 11 anos, apresenta febre, tosse seca, urticária e diarreia há 3 semanas, iniciadas cerca de 30 dias após banho em lagoa de água doce durante viagem a região endêmica. Exame: hepatomegalia dolorosa a 3 cm do rebordo costal, T 38,2 °C, FC 108 bpm, sibilos esparsos. Leucócitos 19.000/mm³ com 38% de eosinófilos; hemoglobina 12,0 g/dL; parasitológico de fezes inicialmente negativo; sorologia para esquistossomose reagente. Qual o diagnóstico?
Febre, urticária, sintomas respiratórios e eosinofilia intensa cerca de um mês após contato com água doce em área endêmica caracterizam a esquistossomose aguda, ou febre de Katayama, na qual o parasitológico pode ser inicialmente negativo por ainda não haver oviposição, sendo a sorologia útil no diagnóstico. A ascaridíase em migração pulmonar produz sintomas mais fugazes e não guarda relação com banho em lagoa. A toxocaríase decorre de contato com filhotes de cães e evolui de forma mais arrastada. A estrongiloidíase disseminada ocorre em imunossuprimidos, com quadro sistêmico grave. A reação medicamentosa exigiria exposição a fármaco, não relatada.
Gestante de 21 anos, com 24 semanas, residente em zona rural sem saneamento e que anda descalça, apresenta palidez, fadiga intensa e desejo de comer terra. Hb 7,8 g/dL (VR 12 a 16), VCM 68 fL (VR 80 a 100), ferritina de 4 ng/mL (VR 15 a 150) e eosinofilia de 12%. O exame parasitológico de fezes mostra ovos de ancilostomídeos. PA 104x62 mmHg, FC 102 bpm, sem sangramentos evidentes. Qual a conduta correta?
A ancilostomíase causa perda sanguínea intestinal crônica e é causa importante de anemia ferropriva na gestação, sendo o tratamento com albendazol seguro após o primeiro trimestre, associado à reposição de ferro e a orientações de saneamento e uso de calçados. Repor apenas ferro mantém a perda contínua pelo parasita. Indicar transfusão como primeira medida em anemia crônica sem instabilidade hemodinâmica é conduta desproporcional. Tratar apenas o parasita sem repor ferro deixa a paciente sem correção das reservas depletadas. Aguardar o puerpério prolonga a anemia em fase de maior demanda e aumenta o risco de baixo peso ao nascer.
Homem, 62 anos, em uso de prednisona 40 mg ao dia há 6 semanas por polimialgia reumática, evolui com dor abdominal, vômitos, diarreia e dispneia há 5 dias. PA 90x54 mmHg, FC 122 bpm, FR 30 ipm, T 38,6 °C, SatO2 88% em ar ambiente. Hemocultura com Escherichia coli; radiografia de tórax com infiltrado alveolar bilateral. Eosinófilos 60/mm³ (VR 50–500). Lavado brônquico revela larvas rabditoides. Qual o tratamento indicado?
Corticoterapia prolongada, quadro gastrointestinal e pulmonar com larvas no lavado brônquico e bacteriemia por enterobactéria caracterizam síndrome de hiperinfecção por Strongyloides stercoralis; o tratamento é ivermectina diária mantida até a negativação parasitológica por duas semanas, somada a antibiótico para a translocação bacteriana. O albendazol tem eficácia inferior e não é o esquema padrão na forma disseminada. O praziquantel atua sobre trematódeos e cestódeos, sem ação sobre nematódeos. A anfotericina trata fungos e agravaria a situação ao retardar a terapia específica. Suspender o corticoide é medida necessária, porém insuficiente isoladamente diante de parasitismo disseminado.
Homem, 41 anos, natural do interior de Pernambuco, com história de banho em riachos na infância, apresenta hematêmese volumosa há 6 horas. PA 96x58 mmHg, FC 118 bpm; esplenomegalia de 8 cm abaixo do rebordo costal, sem ascite ou icterícia. Hb 7,8 g/dL (VR 13–17); plaquetas 62.000/mm³ (VR 150.000–400.000); albumina 4,0 g/dL (VR 3,5–5,0); INR 1,1; bilirrubina total 0,9 mg/dL (VR até 1,2). Qual o mecanismo da hipertensão portal neste paciente?
Esquistossomose mansônica produz fibrose periportal de Symmers, obstáculo pré-sinusoidal que gera hipertensão portal com esplenomegalia volumosa e varizes, preservando a função hepatocelular, o que explica albumina, INR e bilirrubina normais apesar do sangramento. O bloqueio pós-sinusoidal por trombose das veias hepáticas é a síndrome de Budd-Chiari, que cursa com ascite precoce e hepatomegalia dolorosa. O bloqueio sinusoidal com nódulos regenerativos é a cirrose, incompatível com função de síntese preservada. A trombose de porta extra-hepática é pré-hepática, sem a história epidemiológica e sem a fibrose característica. Hiperfluxo esplênico isolado não sustenta pressão portal desse grau.
Homem, 31 anos, morador de zona rural sem saneamento, apresenta tosse seca, sibilos e febre baixa há 10 dias, precedidos de lesões cutâneas pruriginosas serpiginosas nos pés. Exame: T 37,6 °C, FR 20 ipm, SatO2 96% em ar ambiente, sibilos difusos. Hemograma: eosinófilos 3.200/mm³ (VR 50–500). Radiografia de tórax mostra infiltrados migratórios bilaterais de contornos mal definidos. Ele será submetido a corticoterapia por doença inflamatória intestinal recém-diagnosticada. Qual a conduta mais importante antes de iniciar o corticoide?
O quadro de infiltrados pulmonares migratórios com eosinofilia marcante e larva currens cutânea caracteriza síndrome de Löffler por Strongyloides stercoralis; antes de qualquer imunossupressão é obrigatório pesquisar e tratar a parasitose com ivermectina, pois o corticoide favorece o ciclo de autoinfestação e pode desencadear síndrome de hiperinfecção com sepse por gram-negativos e mortalidade elevada. A investigação de tuberculose latente é conduta pertinente antes de imunobiológicos, mas não é a prioridade diante de eosinofilia com larva currens. A sorologia para hepatite B também compõe a avaliação pré-imunossupressão, sem a urgência do risco de hiperinfecção. A tomografia de tórax não muda a conduta imediata em quadro típico de Löffler. A profilaxia com sulfametoxazol-trimetoprima previne pneumocistose, mas não protege contra disseminação do helminto.
Homem, 55 anos, em uso de prednisona 40 mg por dia há 6 semanas para vasculite, evolui com dor abdominal difusa, vômitos, diarreia e dispneia. T 38,5 graus Celsius, PA 94x58 mmHg, FC 122 bpm, FR 30 ipm, SatO2 89%. Radiografia com infiltrado intersticial bilateral. Hemocultura com crescimento de Escherichia coli. Eosinófilos 40/mm3 (VR 50-500). O lavado broncoalveolar evidencia larvas rabditoides. Qual o diagnóstico e o tratamento indicado?
A síndrome de hiperinfecção por Strongyloides stercoralis é o diagnóstico, sugerido pela corticoterapia prolongada, larvas rabditoides no lavado broncoalveolar, bacteremia por enterobactéria decorrente de translocação e eosinopenia, sendo a ivermectina o tratamento. A ascaridíase com síndrome de Löffler cursa com eosinofilia acentuada e evolução autolimitada, sem sepse por gram-negativo. A esquistossomose aguda produz febre, urticária e eosinofilia intensa após contato com água doce contaminada. A toxocaríase visceral acomete principalmente crianças e cursa com hepatomegalia e eosinofilia importante. A ancilostomíase manifesta-se por anemia ferropriva crônica, e não por insuficiência respiratória aguda.
Homem, 34 anos, morador de zona rural, com prurido cutâneo e tosse seca intermitente há 2 meses. Nega febre, perda ponderal ou uso de medicamentos. PA 118x74 mmHg, FC 76 bpm, sem visceromegalias. Exames: leucócitos 12.800 por milímetro cúbico, com 22% de eosinófilos, totalizando 2.816 eosinófilos absolutos; hemoglobina 13,8 g/dL; imunoglobulina E total elevada; radiografia de tórax com infiltrados migratórios. Qual a investigação inicial mais adequada?
A eosinofilia com imunoglobulina E elevada e infiltrados pulmonares migratórios em morador de zona rural sugere ciclo pulmonar de helmintos, e a investigação inicial é a pesquisa de parasitos em amostras seriadas de fezes, método simples, barato e de alto rendimento. A biópsia de medula com pesquisa de clonalidade cabe na suspeita de neoplasia mieloide com eosinofilia, após afastar causas secundárias. A tomografia detalha os infiltrados, mas não estabelece etiologia. O anticorpo anticitoplasma de neutrófilo investiga vasculite, hipótese sem outros elementos aqui. A imunofenotipagem é etapa posterior, para eosinofilia clonal ou linfocítica.
Homem, 33 anos, morador de área com saneamento precário, apresenta diarreia com sangue e muco, tenesmo e dor abdominal há 12 dias, com febre baixa. PA 114x70 mmHg, FC 92 bpm, T 37,8 °C. Leucócitos 11.400/mm³ (VR 4.000–11.000) sem eosinofilia; PCR 42 mg/L (VR até 5). A colonoscopia mostra úlceras em botão de camisa no cólon direito; a biópsia revela trofozoítos com hemácias fagocitadas. Qual o tratamento indicado?
Úlceras em botão de camisa com trofozoítos hematófagos confirmam colite amebiana invasiva por Entamoeba histolytica, tratada com metronidazol e, em seguida, amebicida de ação luminal para erradicar os cistos e evitar recidiva e transmissão. O ciprofloxacino cobre bactérias enteroinvasivas, mas não protozoários. O albendazol atua sobre helmintos. O corticoide é contraindicado, pois agrava a invasão tecidual e pode precipitar colite fulminante e megacólon. A vancomicina oral trata infecção por Clostridioides difficile, cujo achado endoscópico seriam pseudomembranas amareladas, e não úlceras com trofozoítos.
Mulher, 30 anos, procedente do norte de Minas Gerais, com contato frequente com água de córrego, refere dor abdominal em cólica e episódios de diarreia com muco há 8 meses. PA 112x70 mmHg, FC 76 bpm, T 36,6 °C; fígado e baço não palpáveis. Eosinófilos 1.800/mm³ (VR até 500); Hb 12,2 g/dL (VR 12–16). O exame parasitológico de fezes por Kato-Katz revela ovos com espícula lateral. Qual o tratamento indicado?
Ovos com espícula lateral no Kato-Katz identificam Schistosoma mansoni, e o tratamento da forma intestinal é praziquantel em dose única ajustada ao peso, com controle parasitológico posterior. A oxamniquina é alternativa, mas não em esquema de cinco dias e hoje tem uso restrito. O metronidazol trata protozooses como amebíase e giardíase, sem ação sobre trematódeos. A ivermectina atua sobre nematódeos e ectoparasitos. O albendazol trata helmintos intestinais como ascaridíase e ancilostomíase, e a suplementação de ferro pode ser coadjuvante em outras parasitoses, mas nenhum dos dois erradica o Schistosoma.
Menino, 11 anos, morador de área endêmica com contato frequente com água de lagoa, apresenta dor abdominal e episódios de diarreia mucossanguinolenta há 6 meses, com distensão abdominal. FC 92 bpm, T 36,7 °C; fígado a 3 cm do rebordo costal, de borda romba, e baço a 4 cm. Hb 10,6 g/dL (VR 11,5–15,5); eosinófilos 2.100/mm³ (VR até 500). Kato-Katz com ovos de espícula lateral. Qual o tratamento indicado?
Ovos com espícula lateral identificam Schistosoma mansoni, e o tratamento na infância é praziquantel em dose única ajustada ao peso, com controle parasitológico posterior e avaliação da forma hepatoesplênica. O albendazol trata helmintos intestinais como Ascaris e ancilostomídeos, sem ação sobre trematódeos. O metronidazol com amebicida luminal é o esquema da amebíase. A ivermectina atua sobre nematódeos. O corticoide é adjuvante apenas na forma aguda toxêmica grave ou na neuroesquistossomose, jamais isolado como tratamento da forma intestinal ou hepatoesplênica.
Menino, 10 anos, em uso de corticoide por síndrome nefrótica há 2 meses, apresenta dor abdominal, vômitos, diarreia e distensão há 8 dias, com piora progressiva. FC 128 bpm, FR 30 ipm, T 38,2 °C; abdome distendido e doloroso. Eosinófilos 80/mm³ (VR até 500); hemocultura com Escherichia coli. O exame parasitológico com método de Baermann revela larvas rabditoides em grande quantidade. Qual o tratamento indicado?
Criança sob corticoterapia com larvas de Strongyloides em grande quantidade, eosinopenia e bacteriemia por enterobactéria apresenta síndrome de hiperinfecção, tratada com ivermectina diária mantida até a negativação parasitológica, associada a antibiótico para a translocação bacteriana e à redução da imunossupressão. O albendazol tem eficácia inferior e não é o esquema da forma disseminada. O praziquantel trata trematódeos e cestódeos. O metronidazol atua sobre protozoários e anaeróbios. A nitazoxanida não é a escolha, e manter o corticoide sem ajuste perpetua a autoinfestação acelerada.
Homem, 24 anos, morador de área urbana, banhou-se em lagoa durante viagem há 5 semanas. Apresenta há 10 dias febre, cefaleia, mialgia, tosse seca e urticária, com dor abdominal e diarreia. T 38,6 graus Celsius, FC 102 bpm. Há hepatoesplenomegalia discreta. Eosinófilos 4.200/mm3 (VR até 500). Vários companheiros de viagem apresentaram sintomas semelhantes no mesmo período. Qual o diagnóstico e a conduta?
A esquistossomose aguda, ou febre de Katayama, é o diagnóstico, sugerida por contato com água doce em área endêmica, quadro febril com urticária, sintomas respiratórios e digestivos, eosinofilia acentuada e acometimento coletivo, sendo o tratamento o praziquantel associado a corticoide na fase sintomática. A dengue não cursa com eosinofilia dessa magnitude. A leptospirose cursa com mialgia intensa em panturrilhas e sufusão conjuntival, sem eosinofilia. A malária cursa com paroxismos febris e anemia hemolítica. A mononucleose apresenta linfocitose atípica e faringite, sem eosinofilia marcante.
Homem, 38 anos, trabalhador rural que anda descalço, apresenta há 6 meses fadiga progressiva, palidez e dispneia aos esforços. PA 108x64 mmHg, FC 108 bpm, sem visceromegalias. Hemoglobina 7,4 g/dL (VR 13-17); volume corpuscular médio 68 fL (VR 80-100); ferritina 5 ng/mL (VR 30-400); eosinófilos 1.400/mm3 (VR até 500). O exame parasitológico de fezes mostra ovos de ancilostomídeos. Qual a conduta indicada?
O anti-helmíntico associado à reposição de ferro e à orientação sobre uso de calçados é a conduta na ancilostomíase com anemia ferropriva, pois é necessário eliminar o parasita, repor os estoques de ferro e evitar a reinfecção pela penetração cutânea das larvas. A reposição isolada de ferro mantém a perda sanguínea intestinal. O anti-helmíntico isolado não corrige rapidamente estoques tão depletados. A transfusão é reservada a anemia com repercussão hemodinâmica ou sintomas graves. O corticoide não tem indicação e pode favorecer disseminação de outras helmintíases.
Homem, 58 anos, natural de área rural, será submetido a tratamento com corticoide em dose alta e imunobiológico por doença autoimune. Está assintomático do ponto de vista digestivo, com exame físico normal, T 36,6 graus Celsius. Eosinófilos 780/mm3 (VR até 500). A equipe discute a triagem de infecções latentes antes do início da imunossupressão programada para as próximas semanas. Qual a conduta indicada em relação à estrongiloidíase?
Rastrear e tratar a estrongiloidíase antes da imunossupressão é a conduta indicada, pois a corticoterapia em dose alta pode desencadear síndrome de hiperinfecção e disseminação, com alta mortalidade, sendo a eosinofilia um sinal de alerta. Iniciar a imunossupressão sem rastreio em paciente de área endêmica é conduta de risco. Aguardar sintomas para tratar é tardio, pois a hiperinfecção é grave e fulminante. Um único exame de fezes negativo não exclui a infecção, dada a baixa sensibilidade. Ignorar a eosinofilia despreza um dado relevante nesse contexto.
Homem, 42 anos, consumidor frequente de peixe cru em preparações orientais, apresenta há 4 meses fadiga progressiva, parestesia em extremidades e alteração do equilíbrio. Está pálido, com FC 104 bpm. Hemoglobina 8,2 g/dL (VR 13-17); volume corpuscular médio 118 fL (VR 80-100); vitamina B12 muito reduzida. O exame parasitológico de fezes evidencia ovos operculados e o paciente relata eliminação de segmentos achatados. Qual o agente e o tratamento?
O Diphyllobothrium latum é o agente, adquirido pelo consumo de peixe cru ou malcozido, causando deficiência de vitamina B12 por competição pelo nutriente, o que explica a anemia macrocítica com manifestações neurológicas, sendo o tratamento o praziquantel associado à reposição vitamínica. A Taenia solium não causa deficiência de vitamina B12. O Ascaris não produz anemia macrocítica. O Ancylostoma causa anemia ferropriva microcítica por perda sanguínea. O Trichuris cursa com disenteria crônica e anemia ferropriva, não macrocítica.
Homem, 38 anos, trabalhador rural que anda descalço, refere fadiga progressiva há 6 meses e prurido nos pés há mais tempo. Exame: palidez cutâneo-mucosa 3+/4+, sem hepatoesplenomegalia. PA 108x64 mmHg, FC 104 bpm. Hb 7,2 g/dL (VR 13 a 17); VCM 68 fL (VR 80 a 100); ferritina 5 ng/mL (VR 15 a 300); eosinófilos 1.400/mm3 (VR até 500). Parasitológico de fezes mostra ovos de ancilostomídeo. Qual o tratamento mais adequado?
O albendazol associado à reposição de ferro por via oral é o tratamento correto, pois é preciso eliminar o ancilostomídeo, responsável pela perda sanguínea intestinal crônica, e repor o estoque de ferro, esgotado com ferritina de 5 ng/mL. O praziquantel trata esquistossomose e teníase, não ancilostomíase. A ivermectina é a droga da estrongiloidíase e, mesmo se atuasse, deixar de repor ferro manteria a anemia. O metronidazol trata protozoários como giárdia e ameba. Repor ferro sem tratar o parasita perpetua a perda e leva à recidiva da anemia.
Homem, 35 anos, refere eliminação de proglotes móveis nas fezes há 3 meses, com desconforto abdominal leve e apetite aumentado. Hábito de consumir carne suína malcozida. Exame físico sem alterações. PA 120x76 mmHg, FC 74 bpm. Eosinófilos 600/mm3 (VR até 500). Parasitológico revela ovos de Taenia sp. Nega cefaleia ou crises convulsivas. Qual o tratamento e a orientação corretos?
O praziquantel em dose única é o tratamento de escolha da teníase intestinal, associado à orientação sobre cocção adequada da carne e higiene, para interromper a cadeia de transmissão e prevenir a autoinfecção que leva à cisticercose. O albendazol é alternativa terapêutica, mas o rastreio de neurocisticercose por imagem não é obrigatório em paciente assintomático do ponto de vista neurológico. A ivermectina não tem ação sobre cestódeos. O metronidazol trata protozoários e não elimina a tênia. A nitazoxanida tem eficácia inferior nesse cenário e não há indicação de afastamento laboral.
Mulher, 31 anos, procedente de área rural, com dor intensa em cólica no hipocôndrio direito há 2 dias, náuseas, febre e icterícia. PA 112x70 mmHg, FC 104 bpm, T 38,4 °C. Bilirrubina total 5,4 mg/dL (VR até 1,2), direta 4,2 mg/dL; fosfatase alcalina 380 U/L (VR até 129); leucócitos 15.000/mm3 (VR 4.000 a 11.000); eosinófilos 1.200/mm3 (VR até 500). Ultrassonografia mostra estrutura tubular linear móvel no interior do colédoco dilatado. Qual a conduta mais adequada?
A colangiopancreatografia retrógrada com extração endoscópica do verme é a conduta indicada na ascaridíase biliar com colangite, situação em que a remoção do parasita resolve a obstrução e permite a drenagem, seguida de antiparasitário e antibiótico. O albendazol isolado com observação não retira o verme já impactado nem trata a colangite instalada. A colecistectomia de urgência aborda a vesícula, e o problema está no colédoco, com solução endoscópica menos invasiva disponível. O antibiótico isolado não desobstrui a via biliar e a colangite persiste sem drenagem. A derivação biliodigestiva é procedimento de exceção, desproporcional a obstrução removível por via endoscópica.
Homem, 30 anos, relata eliminação de fragmentos brancos e móveis nas fezes há 2 meses, além de desconforto abdominal e apetite aumentado. Consome carne bovina malpassada com frequência. PA 118x74 mmHg, FC 74 bpm, T 36,6 °C. Exame abdominal sem alterações. Hemograma sem eosinofilia significativa. Exame parasitológico de fezes evidencia ovos com casca radiada, indistinguíveis entre as espécies do gênero. Qual a conduta?
A teníase intestinal é tratada com praziquantel em dose única, ou alternativamente niclosamida, associando-se orientação de cocção adequada da carne e higiene para prevenir a cisticercose. O albendazol é usado em cisticercose e em helmintíases intestinais por nematódeos, não sendo o esquema de escolha aqui. O metronidazol trata protozoários como amebas e giárdias, sem ação sobre cestódeos. A ivermectina é eficaz contra estrongiloidíase e escabiose, não contra tênias. Deixar sem tratamento mantém a eliminação de proglotes e o risco de autoinfecção e de transmissão de cisticercose a contatos.
Em município do interior de Pernambuco, inquérito coproscópico revela prevalência de 18% de Schistosoma mansoni entre escolares, com identificação de coleções hídricas com caramujos do gênero Biomphalaria próximas às moradias. A equipe de vigilância planeja as ações de controle no território. Sobre o controle da esquistossomose, assinale a alternativa correta.
Em áreas de alta prevalência, o tratamento coletivo com praziquantel integra a estratégia de controle, sempre associado a saneamento básico, abastecimento de água segura, educação em saúde e controle de hospedeiros intermediários. O uso isolado de moluscicidas tem efeito transitório e impacto ambiental, não sustentando o controle. O tratamento apenas dos casos positivos, sem intervenção ambiental e sanitária, não interrompe o ciclo de transmissão. A esquistossomose é agravo de notificação em áreas não endêmicas e os inquéritos coproscópicos são instrumento essencial de vigilância. A transmissão ocorre pela penetração ativa de cercárias na pele durante contato com água doce, e não pela ingestão.
Homem, 26 anos, residente em área rural, apresenta tosse seca e sibilância há 10 dias, com febre baixa. Exame: sibilos difusos, FR 22 ipm, SatO2 95% em ar ambiente, T 37,6 °C. Hemoglobina 13,8 g/dL (VR 13,5–17,5); leucócitos 12.400/mm³ (VR 4.000–11.000) com eosinófilos de 2.800/mm³ (VR 50–500). Radiografia de tórax com infiltrados migratórios bilaterais. Parasitológico de fezes negativo em três amostras colhidas nesta semana. Qual a hipótese mais provável?
Infiltrados pulmonares migratórios com eosinofilia periférica em residente de área rural configuram síndrome de Löffler, causada pela migração larvária de helmintos como Ascaris lumbricoides; o parasitológico é negativo nessa fase justamente porque os ovos só aparecem nas fezes semanas depois, quando o verme adulto amadurece no intestino. A asma alérgica não produz infiltrados migratórios. A aspergilose broncopulmonar alérgica ocorre em asmáticos ou fibrocísticos, com IgE muito elevada e bronquiectasias centrais. A pneumonia bacteriana não cursa com eosinofilia dessa magnitude nem com infiltrados migratórios. A granulomatose eosinofílica com poliangiite exige manifestações sistêmicas como mononeurite múltipla e asma de difícil controle.
Homem, 37 anos, retornou há 3 semanas de viagem à região Norte do país e apresenta diarreia sanguinolenta, dor abdominal e febre há 12 dias. PA 104x64 mmHg, FC 112 bpm, T 38,6 °C. Leucócitos 17.000/mm3 (VR 4.000 a 11.000). Colonoscopia mostra úlceras em botão de camisa no ceco e lesão vegetante estenosante no cólon ascendente. Biópsias revelam trofozoítos com hemácias fagocitadas e ausência de neoplasia, com inflamação granulomatosa inespecífica ao redor. Qual a conduta mais adequada?
O metronidazol seguido de amebicida luminal, como a teclozana ou o paromomicina, é o tratamento correto: a biópsia com trofozoítos contendo hemácias fagocitadas confirma amebíase invasiva, e a lesão vegetante corresponde a ameboma, massa inflamatória que regride com o tratamento clínico e não exige ressecção. A colectomia direita de urgência seria erro grave, ressecando lesão reversível. O corticosteroide para suposta doença de Crohn poderia desencadear colite fulminante e perfuração em amebíase. O esquema antituberculose trata diferencial plausível pela topografia ileocecal, mas a histologia já definiu o agente. A mesalazina não trata infecção parasitária invasiva.
Em município do interior de Pernambuco, inquérito coproscópico revela prevalência de 18% de Schistosoma mansoni entre escolares, com identificação de coleções hídricas com caramujos do gênero Biomphalaria próximas às moradias. A equipe de vigilância planeja as ações de controle no território. Sobre o controle da esquistossomose, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmativa incorreta é a que descreve transmissão por ingestão de água: a esquistossomose é adquirida pela penetração ativa de cercárias na pele durante contato com água doce, de modo que a fervura não é a medida preventiva central. O tratamento coletivo com praziquantel em áreas de alta prevalência, como os 18% encontrados entre escolares, está correto. A necessidade de saneamento, água segura e educação em saúde é parte essencial do controle. Os inquéritos coproscópicos periódicos são de fato instrumento de vigilância. O efeito transitório e o impacto ambiental do moluscicida isolado também estão corretamente enunciados.
Homem, 44 anos, procedente da região Norte, apresenta diarreia com muco e sangue há 3 semanas, com piora abrupta nas últimas 48 horas. PA 88x52 mmHg, FC 128 bpm, T 38,9 °C. Abdome distendido, doloroso, com descompressão positiva. Leucócitos 23.000/mm³ (VR 4.000-11.000); lactato 4,0 mmol/L (VR < 2). Tomografia mostra espessamento colônico difuso com pneumatose e pequeno pneumoperitônio. Pesquisa de Entamoeba histolytica positiva nas fezes.
A colite amebiana fulminante com perfuração exige metronidazol endovenoso, antibiótico de amplo espectro pela contaminação polimicrobiana e abordagem cirúrgica do foco, dada a pneumatose com pneumoperitônio e o quadro séptico. O corticoide em pulsoterapia agravaria a doença parasitária e a perfuração. O metronidazol oral ambulatorial isolado é insuficiente diante de perfuração e choque. A colonoscopia de urgência é contraindicada com perfuração, pela insuflação e risco de agravamento. O amebicida luminal isolado erradica cistos no lúmen, mas não trata a doença invasiva nem a perfuração.
Homem, 34 anos, retornou há 3 semanas de viagem de trabalho por área rural da África subsaariana, com banhos em rio de água doce. Apresenta febre baixa, urticária e tosse seca. PA 122x76 mmHg, FC 84 bpm, T 37,8 °C. Eosinófilos 2.800/mm³ (VR até 500); transaminases discretamente elevadas. Exame parasitológico de fezes negativo até o momento; radiografia com infiltrados fugazes. Qual a hipótese principal?
Contato com água doce em área endêmica, seguido de febre, urticária, tosse com infiltrados fugazes e eosinofilia acentuada, caracteriza a esquistossomose aguda, ou síndrome de Katayama, cujo parasitológico costuma ser negativo na fase precoce. A malária não cursa com eosinofilia nem com urticária e infiltrados fugazes. A dengue não produz eosinofilia dessa magnitude e não se relaciona a contato com água doce. A febre tifoide cursa com leucopenia e eosinopenia, o oposto do encontrado. A hepatite viral aguda teria transaminases muito mais elevadas e não explicaria a eosinofilia com acometimento pulmonar.
Homem, 57 anos, com lesões cutâneas serpiginosas e pruriginosas em região perianal e nádegas, que migram vários centímetros por hora e desaparecem em poucas horas, recorrendo há meses. PA 126x78 mmHg, FC 78 bpm, T 36,6 °C. Eosinófilos 1.400/mm³ (VR até 500). Iniciará corticoterapia por doença autoimune. Qual o diagnóstico e a conduta antes da imunossupressão?
Lesões serpiginosas de migração muito rápida em região perianal e nádegas, recorrentes e com eosinofilia, caracterizam a larva currens da estrongiloidíase, que deve ser tratada com ivermectina antes da corticoterapia, pelo risco de hiperinfecção e disseminação sob imunossupressão. A larva migrans cutânea por ancilostomídeo de animais migra poucos milímetros por dia, em pés e nádegas, e é autolimitada. A urticária crônica não produz trajetos lineares migratórios nem justificaria a eosinofilia nesse contexto. A escabiose cursa com túneis e prurido noturno, sem migração rápida. A dermatite de contato segue a área de exposição, sem trajetos serpiginosos móveis.
Homem, 41 anos, trabalhador rural que caminha descalço em área com saneamento precário, apresenta fadiga progressiva há 5 meses e dispneia aos esforços. Refere prurido plantar recorrente e episódios de dor epigástrica. Exame: palidez cutâneo-mucosa acentuada, PA 108/68 mmHg, FC 104 bpm, sem visceromegalias. Hemoglobina 7,4 g/dL (VR 13,5–17,5); VCM 66 fL (VR 80–100); ferritina 5 ng/mL (VR 15–300); eosinófilos 1.400/mm³ (VR 50–500). Qual a conduta?
Anemia ferropriva grave com eosinofilia em trabalhador rural que anda descalço em área de saneamento precário sugere fortemente ancilostomíase, cujo verme se fixa à mucosa intestinal e provoca perda sanguínea crônica; a conduta correta associa anti-helmíntico, reposição de ferro e orientação sobre uso de calçados e saneamento. Repor ferro isoladamente sem tratar a causa perpetua a perda e a recidiva. Investigação endoscópica prévia se justifica quando não há causa evidente, o que não é o caso diante do contexto epidemiológico e da eosinofilia. Transfundir e liberar sem tratar a causa é conduta incompleta. Corticoide não trata a helmintíase e pode agravar infecções parasitárias, sendo a eosinofilia consequência e não causa da anemia.
O gênero Schistosoma apresenta uma particularidade reprodutiva em relação à maioria dos trematódeos de interesse médico. Qual é essa característica?
Esquistossomos são dioicos, diferentemente de muitos outros trematódeos hermafroditas. Referência: CDC. DPDx: Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/schistosomiasis/index.html
Ao encaminhar fezes para um ensaio molecular validado de Strongyloides stercoralis, qual cuidado pré-analítico é apropriado, conforme o protocolo do laboratório?
Ensaios moleculares descritos para Strongyloides usam fezes frescas, congeladas ou preservadas sem formalina; coleta e conservação devem seguir o método validado. Referência: CDC. DPDx: Strongyloidiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/strongyloidiasis/index.html
A estrongiloidíase grave pode acompanhar-se de bacteremia recorrente por bacilos entéricos gram-negativos. Qual mecanismo contribui para essa complicação?
A migração larvária e a lesão da mucosa favorecem translocação de bactérias entéricas, podendo causar sepse e meningite. Referência: CDC. Clinical Overview of Strongyloides (2026). https://www.cdc.gov/strongyloides/hcp/clinical-overview/index.html
Ao planejar a pesquisa parasitológica de esquistossomose, qual associação entre espécie e amostra habitual para pesquisa de ovos está correta?
A eliminação habitual de ovos é fecal em S. mansoni e urinária em S. haematobium. Referência: CDC. Clinical Testing and Diagnosis for Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/schistosomiasis/hcp/diagnosis-testing/index.html
Na esquistossomose crônica, qual componente parasitário desencadeia principalmente a reação granulomatosa responsável por grande parte da lesão tecidual?
A resposta inflamatória aos ovos retidos gera granulomas e pode evoluir com fibrose e lesão orgânica. Referência: CDC. DPDx: Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/schistosomiasis/index.html
Na transmissão ambiental de Strongyloides stercoralis, o contato da pele com solo contaminado permite a entrada de qual forma parasitária?
A larva filarioide L3 é a forma infectante que penetra a pele a partir do solo. Referência: CDC. DPDx: Strongyloidiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/strongyloidiasis/index.html
A dermatite cercariana pode ocorrer após contato com água contendo cercárias de esquistossomos de aves. Qual distinção é correta em relação à esquistossomose humana?
Esquistossomos de aves podem provocar dermatite cercariana; essa condição é distinta da infecção humana estabelecida por espécies como S. mansoni. Referência: CDC. DPDx: Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/schistosomiasis/index.html
A mielorradiculopatia esquistossomótica representa uma manifestação ectópica da infecção. Qual processo está relacionado à formação das lesões granulomatosas no sistema nervoso?
Ovos no sistema nervoso podem provocar granulomas; na infecção por S. mansoni, esse mecanismo participa do acometimento medular. Referência: CDC. DPDx: Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/schistosomiasis/index.html
No ciclo de Schistosoma mansoni, uma etapa ocorre em caramujos do gênero Biomphalaria. Qual forma penetra esse hospedeiro intermediário após eclodir do ovo?
O miracídio penetra o molusco; nele ocorre desenvolvimento que culmina na produção de cercárias. Referência: CDC. DPDx: Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/schistosomiasis/index.html
Na esquistossomose mansônica, a presença de ovos nas fezes não significa que os vermes adultos vivam livres na luz intestinal. Onde eles se localizam habitualmente?
Adultos de S. mansoni habitam vasos do território mesentérico e portal; ovos atravessam tecidos e parte alcança a luz intestinal. Referência: CDC. DPDx: Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/schistosomiasis/index.html
Ao comparar as fases ambientais e parasitárias de Strongyloides stercoralis, qual descrição corresponde aos vermes adultos que vivem no intestino humano?
Na fase parasitária existem fêmeas partenogenéticas; machos e fêmeas reprodutores são encontrados na fase de vida livre. Referência: CDC. DPDx: Strongyloidiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/strongyloidiasis/index.html
A estrongiloidíase pode permanecer ativa décadas depois de uma pessoa deixar uma área endêmica, sem novas exposições. Qual mecanismo explica essa persistência?
Larvas podem evoluir para a forma filarioide no intestino e penetrar a mucosa ou a pele perianal, renovando a infecção. Referência: CDC. DPDx: Strongyloidiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/strongyloidiasis/index.html
A avaliação do momento de tratamento da esquistossomose considera o desenvolvimento do parasito. Contra qual estágio o praziquantel apresenta maior efetividade?
O praziquantel é mais efetivo contra vermes adultos; o estágio de desenvolvimento influencia a resposta ao tratamento. Referência: CDC. Clinical Care of Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/schistosomiasis/hcp/treatment/index.html
Em suspeita de esquistossomose de baixa intensidade, qual estratégia aumenta a sensibilidade da pesquisa de ovos em fezes ou urina, conforme a espécie investigada?
A excreção de ovos pode ser baixa e intermitente; amostras em dias diferentes aumentam a possibilidade de detecção. Referência: CDC. Clinical Testing and Diagnosis for Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/schistosomiasis/hcp/diagnosis-testing/index.html
Uma sorologia para esquistossomose permanece positiva após tratamento adequado. Considerando as características desse exame, qual interpretação é mais apropriada?
Anticorpos podem permanecer após a cura; sorologia isolada não distingue infecção resolvida de infecção ativa em pessoas previamente tratadas. Referência: CDC. Clinical Testing and Diagnosis for Schistosomiasis. https://www.cdc.gov/schistosomiasis/hcp/diagnosis-testing/index.html
Na interpretação de uma sorologia positiva para Strongyloides, qual limitação deve ser considerada antes de concluir que existe infecção ativa atual?
A sorologia deve ser integrada à história e aos demais exames, pois pode refletir infecção passada ou reação com outros helmintos. Referência: CDC. Clinical Overview of Strongyloides (2026). https://www.cdc.gov/strongyloides/hcp/clinical-overview/index.html
Um laboratório pretende ampliar a recuperação de larvas em amostras fecais de pacientes com suspeita de estrongiloidíase. Qual técnica é apropriada para esse objetivo?
O método de Baermann é empregado para recuperação e concentração de larvas em fezes. Referência: CDC. Clinical Overview of Strongyloides (2026). https://www.cdc.gov/strongyloides/hcp/clinical-overview/index.html
Na estrongiloidíase crônica de baixa carga parasitária, por que a análise de amostras fecais seriadas pode ser necessária mesmo com técnica laboratorial adequada?
A baixa eliminação larvária limita a sensibilidade de uma amostra; exames seriados e métodos apropriados aumentam a chance de detecção. Referência: CDC. Clinical Overview of Strongyloides (2026). https://www.cdc.gov/strongyloides/hcp/clinical-overview/index.html
Na investigação coprológica habitual de Strongyloides stercoralis, procura-se principalmente larvas, em contraste com vários outros helmintos. Por quê?
A eclosão intrahospedeiro explica a eliminação predominante de larvas rabditoides nas fezes. Referência: CDC. DPDx: Strongyloidiasis. https://www.cdc.gov/dpdx/strongyloidiasis/index.html
Na classificação das formas graves de estrongiloidíase, qual achado diferencia conceitualmente a disseminação da hiperinfecção restrita ao trajeto habitual?
A hiperinfecção amplia a carga no trajeto habitual; invasão de outros órgãos caracteriza disseminação. Referência: CDC. Clinical Overview of Strongyloides (2026). https://www.cdc.gov/strongyloides/hcp/clinical-overview/index.html
Um exame parasitológico fecal negativo isolado encerra a hipótese?

Excreção variável e doença crônica limitam uma amostra; evidências clínicas e testes adequados precisam ser integrados.
Qual órgão aumentado é descrito no exame?

Esplenomegalia acompanha congestão portal e pode associar-se a hiperesplenismo.
Como integrar hipertensão portal importante e função sintética relativamente preservada?

Fibrose periportal pode causar hipertensão portal sem a perda sintética típica de cirrose avançada.
Qual exposição é epidemiologicamente relevante?

Cercárias penetram a pele durante contato com água contaminada.
Se ocorrer hematêmese, qual consequência do processo deve ser priorizada?

Hipertensão portal pode produzir varizes e sangramento grave, exigindo estabilização e avaliação urgente.
Uma criança voltou da praia com intenso prurido no local fotografado. A lesão avança poucos milímetros por dia. Qual diagnóstico melhor combina a imagem e essa evolução? Imagem clínica sintética do acervo OsceLabs.

O trajeto serpiginoso com progressão lenta após exposição à areia é característico.
Qual descrição corresponde à lesão que percorre o dorso do pé? Imagem clínica sintética do acervo OsceLabs.

A lesão forma uma linha sinuosa contínua.
Considerando a lesão pruriginosa ilustrada após caminhar descalço na praia, qual via de infecção é mais provável? Imagem clínica sintética do acervo OsceLabs.

Essa exposição permite a migração superficial que produz o trajeto.
Uma comunidade interrompe o lançamento de fezes no curso de água desenhado. Qual elo do ciclo de S. mansoni é diretamente reduzido por essa intervenção? Esquema didático do acervo OsceLabs.

A eliminação fecal de ovos conecta o hospedeiro humano ao ambiente; saneamento interrompe esse aporte antes da fase no molusco.
No ciclo ilustrado, qual forma do parasita sai do molusco e alcança a pele humana? Esquema didático do acervo OsceLabs.

A forma com cauda bifurcada que deixa o molusco corresponde à cercária infectante para o ser humano.
No detalhe vascular do esquema há vermes adultos; no detalhe intestinal, ovos. Qual desses componentes explica principalmente a reação granulomatosa e a fibrose periportal da forma hepatoesplênica? Esquema didático do acervo OsceLabs.

A retenção de ovos e a resposta granulomatosa são centrais na lesão crônica; a localização dos adultos não significa que eles destruam diretamente cada área fibrótica.
A figura associa molusco de água doce, penetração cutânea e vermes adultos em vasos mesentéricos. Qual parasitose é representada? Esquema didático do acervo OsceLabs.

Esse conjunto corresponde ao ciclo de Schistosoma, com cercárias que penetram a pele e adultos intravasculares.
Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.
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em 7 dias
Refaça de memória: as doses de praziquantel do adulto e da criança pelo MS e a dose única da OMS; as três faixas de positividade que definem tratamento seletivo ou coletivo; e o esquema de prednisona da forma aguda menos grave e da grave. Depois confira no capítulo — os três são número seco de prova.
em 30 dias
Monte a tabela do arsenal em dose única (albendazol, mebendazol, ivermectina, praziquantel nas suas três indicações) e explique em voz alta: por que a estrongiloidíase fica fora da campanha de albendazol, por que a hepatoesplênica não é cirrose e quem é notificado no Sinan versus SISPCE.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Jovem do interior de Alagoas chega ao pronto-socorro com vômito com sangue e baço muito aumentado; os exames de função hepática vêm normais. Conduza o caso da suspeita à prescrição — e decida quem você notifica. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
