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Clínica MédicaInfectologia

Esquistossomose e geo-helmintíases

A prova cobra a forma hepatoesplênica com fígado funcionante, o praziquantel de 50 mg/kg e o Kato-Katz — e arma as pegadinhas no corticoide da estrongiloidíase e no albendazol que não serve para tudo.

01

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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 34 anos, agricultor, natural e residente de zona rural do norte de Minas Gerais, procura a UBS por dor abdominal difusa e diarreia intermitente com muco há cerca de 2 meses. Refere banhos frequentes em lagoa próxima à sua residência. Ao exame: bom estado geral, abdome levemente doloroso à palpação, sem visceromegalias. Hemograma revela eosinofilia (eosinófilos 1.200/mm³). O exame parasitológico de fezes (método de Kato-Katz) evidencia ovos com formato ovalado e espículo lateral proeminente. Qual é o agente etiológico responsável pelo quadro?

02

Como esse tema cai

O pacote "parasitoses intestinais do adulto" tem um protagonista absoluto — a esquistossomose mansoni, quase sempre na forma hepatoesplênica — e um elenco de coadjuvantes que existem para armar pegadinha: a estrongiloidíase à espreita do corticoide, o ancilostomídeo por trás da anemia ferropriva do trabalhador rural, o áscaris que vira urgência mecânica. Quatro cenários resolvem a maior parte das questões: o jovem de área endêmica com esplenomegalia, varizes e fígado funcionante; o imunossuprimido que vai receber corticoide; o lavrador anêmico com eosinofilia; e a tabela de doses únicas do arsenal antiparasitário.

A régua brasileira da esquistossomose mora em dois documentos do Ministério da Saúde: o capítulo do Guia de Vigilância em Saúde (6ª edição, 2023) e as Diretrizes Técnicas de vigilância, atualizadas em 2024 — que aposentaram a 4ª edição, de 2014. Não há PCDT publicado: o protocolo está em elaboração, e foi desse processo que saiu a recomendação da Conitec (2026) ampliando o praziquantel para crianças de 2 a 4 anos. O número nacional do adulto é 50 mg/kg em dose única; a OMS trabalha com 40 mg/kg — e há questão que cobra exatamente essa diferença.

As geo-helmintíases oficiais são quatro espécies em três doenças — ascaridíase (Ascaris lumbricoides), tricuríase (Trichuris trichiura) e ancilostomíase (Ancylostoma duodenale e Necator americanus) — todas tratáveis com albendazol 400 mg, inclusive em campanha escolar de dose única. A estrongiloidíase fica fora desse guarda-chuva farmacológico: é a exceção que exige ivermectina e a que mata quando ignorada. A eosinofilia é o fio condutor do capítulo: helminto em fase tissular eleva eosinófilos; protozoário intestinal (giárdia, ameba), não.

03

O que muda decisão

Esquistossomose: ciclo, fases e formas clínicas

O Schistosoma mansoni depende de dois hospedeiros: o ser humano (definitivo) e os caramujos aquáticos do gênero Biomphalaria (B. glabrata, B. straminea e B. tenagophila), registrados em 24 estados, sobretudo Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. A cercária liberada pelo caramujo — com pico ao meio-dia, sob luz e calor — penetra ativamente a pele de quem entra na água; o esquistossômulo migra por circulação até os pulmões e o fígado, onde amadurece. O casal adulto se instala nas veias mesentéricas (a fêmea no canal ginecóforo do macho) e inicia a oviposição: parte dos ovos, de espícula lateral característica, ganha a luz intestinal e volta à água pelas fezes, onde eclode o miracídio que infecta o caramujo. A incubação é de 2 a 6 semanas; a eliminação de ovos começa por volta da 5ª semana e dura em geral 6 a 10 anos — podendo passar de 20.

Na fase inicial, a maioria dos infectados é assintomática — muitos casos são achados de eosinofilia com ovos no exame de fezes. A dermatite cercariana é a lesão pruriginosa da penetração, semelhante a picadas de inseto, que dura até 5 dias. A forma aguda sintomática — febre de Katayama — surge 3 a 7 semanas após a exposição: febre, linfadenopatia, cefaleia, anorexia, dor abdominal e, menos frequentemente, diarreia, vômitos e tosse seca, com hepatoesplenomegalia dolorosa ao exame. Eosinofilia elevada com epidemiologia de banho em coleção de água doce é a assinatura do quadro — e a pegadinha é que o exame de fezes ainda pode ser negativo, porque a oviposição pode não ter começado.

A fase tardia começa a partir de 6 meses da infecção. O Guia de Vigilância lista as formas crônicas: hepatointestinal (a mais comum — sintomas digestivos inespecíficos), hepática, hepatoesplênica compensada e descompensada, vasculopulmonar (hipertensão pulmonar), pseudoneoplásica e localizações ectópicas. O dano não vem do verme, e sim do granuloma em torno dos ovos retidos nos espaços porta: a fibrose periportal de Symmers ("em haste de cachimbo") obstrui os ramos portais intra-hepáticos e produz hipertensão porta pré-sinusoidal — esplenomegalia volumosa, varizes esofágicas, plaquetopenia por hiperesplenismo — com função hepatocelular preservada. Esse é o contraste que a prova adora: albumina, INR e bilirrubina normais num paciente com varizes sangrantes não é cirrose, é esquistossomose. Na forma descompensada aparecem ascite, desnutrição e insuficiência hepática, frequentemente com cofatores (álcool, hepatites virais).

A neuroesquistossomose — tipicamente mielorradiculopatia — é a forma ectópica grave: paraparesia de instalação subaguda, dor lombar, nível sensitivo e disfunção esfincteriana, podendo ocorrer ainda na fase inicial e com carga parasitária pequena. Em jovem de área endêmica com mielopatia não compressiva, ela entra no topo do diferencial, porque tem tratamento e o atraso custa sequela.

Ciclo de vida do Schistosoma mansoni entre o caramujo Biomphalaria, a água doce e o sistema porta humano
O ciclo do S. mansoni: a cercária liberada pelo Biomphalaria penetra a pele na água doce; o casal de vermes vive nas veias mesentéricas e os ovos de espícula lateral voltam à água pelas fezes, fechando o ciclo no caramujo.

Esquistossomose: diagnóstico, tratamento e vigilância

O diagnóstico de certeza é o ovo. O método Kato-Katz é o recomendado para inquéritos e rotina de área endêmica: quantifica ovos por grama de fezes, mede a intensidade da infecção e serve ao controle de cura; a sedimentação espontânea (Lutz ou Hoffman-Pons-Janer) é a alternativa. Em área não endêmica ou de baixa prevalência, quando a clínica sugere e as fezes vêm negativas, entram as sorologias da rede Lacen — IgM por imunofluorescência indireta ou IgG por ELISA com antígeno de ovo (SEA). O Guia é explícito: sorologia (e também PCR ou detecção de antígeno) é elemento de suspeição, não confirma o caso — sorologia positiva pede fezes seriadas, e a biópsia retal pode flagrar o ovo quando as fezes teimam em negativar. Ultrassonografia mostra a fibrose periportal; a endoscopia, as varizes.

O tratamento é praziquantel — único fármaco do programa desde 1996, quando a oxamniquina saiu de cena. Comprimidos de 600 mg, via oral após uma refeição, em dose única: 50 mg/kg no adulto e 60 mg/kg na criança de 4 a 15 anos (a OMS usa 40 mg/kg para todos — ver divergências). O Guia recomenda repouso de pelo menos 3 horas após a ingestão para reduzir náuseas e tontura. O índice de cura aproxima-se de 80% no adulto e 70% na criança, com efeitos adversos leves e transitórios. Não se usa na gestação; na lactação, só a forma grave sob supervisão. Em menores de 2 anos fica a critério médico — e a faixa de 2 a 4 anos, antes fora da rotina, teve ampliação de uso aprovada pela Conitec em 2026, a ser formalizada no PCDT em elaboração. Insuficiência hepática grave (a própria hepatoesplênica descompensada) e insuficiência renal descompensada também contraindicam.

Na forma aguda o praziquantel não anda sozinho: as Diretrizes de 2024 mandam associar corticoide, porque a destruição maciça de vermes num paciente hiperreativo exacerba a doença por hipersensibilidade. No quadro agudo menos grave, prednisona 0,5 mg/kg/dia começa junto com o praziquantel; no agudo grave, prednisona 1 mg/kg/dia primeiro e praziquantel 24 a 48 horas depois, com desmame semanal. Na mielorradiculopatia, o esquema é corticoide em dose alta e prolongada — 1 mg/kg/dia por 60 dias com redução lenta, ou pulsoterapia com metilprednisolona 1 g/dia por 3 dias seguida de prednisona 40 mg/dia por até 6 meses — associado ao esquistossomicida. Na hepatoesplênica, tratar o parasito não desfaz a fibrose instalada: o manejo das varizes e do sangramento segue o padrão de qualquer hipertensão porta (ligadura, betabloqueador, terlipressina na urgência), com a vantagem prognóstica de um fígado que funciona.

A vigilância tem regra dupla. Em área endêmica, os casos de rotina entram no sistema do programa (SISPCE) e apenas formas graves e hospitalizados vão ao Sinan; em área não endêmica ou focal, todo caso confirmado é de notificação compulsória no Sinan — e formas graves e surtos são notificáveis em qualquer área. O programa opera por inquéritos coproscópicos bianuais, e a positividade da localidade dita a conduta coletiva: abaixo de 15%, tratam-se só os positivos; de 15% a 25%, positivos e conviventes; acima de 25%, a localidade inteira. O controle de cura é parasitológico, com 3 amostras — o prazo diverge entre os dois documentos vigentes do MS (ver divergências).

Geo-helmintíases: ascaridíase, ancilostomíase e tricuríase

Geo-helmintos são os vermes cujo ovo ou larva amadurece no solo antes de infectar: Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura e os ancilostomídeos Ancylostoma duodenale e Necator americanus. A OMS estima 1,5 bilhão de infectados — 24% da humanidade. No Brasil, o inquérito nacional em escolares (2010-2015, quase 200 mil crianças) mostrou positividade em torno de 6% para ascaridíase, 5% para tricuríase e 3% para ancilostomíase, concentradas no Norte e no Nordeste, em zonas rurais e periferias sem saneamento. O diagnóstico é o exame parasitológico de fezes; o tratamento programático é albendazol 400 mg em dose única, distribuído pelo SUS inclusive em campanha escolar.

Ascaridíase: o maior nematódeo intestinal (até 30 cm) vive no delgado, e a maioria dos portadores nada sente. A fase larvária passa pelo pulmão e pode dar a síndrome de Löffler — infiltrado pulmonar migratório com tosse e eosinofilia, comum aos helmintos de ciclo pulmonar (áscaris, ancilostomídeos, estrongiloide). As complicações são mecânicas e caem em prova: o bolo de áscaris que obstrui o íleo (mais em criança, mas descrito no adulto) e o verme errante que entra no colédoco — cólica biliar, colangite, pancreatite. Na suboclusão, a conduta clássica é clínica: jejum, sonda nasogástrica, hidratação e óleo mineral, deixando o anti-helmíntico para depois da resolução — matar o verme dentro do bolo ou do ducto piora a obstrução. Na via biliar, trata-se a colangite e recorre-se à CPRE se o verme não migra; cirurgia fica para o refratário e o complicado.

Ancilostomíase: as larvas filarioides penetram a pele (o clássico trabalhador rural descalço — N. americanus predomina no Brasil), passam pelo pulmão e o verme adulto se fixa no duodeno, onde suga sangue. O resultado é a anemia ferropriva de instalação lenta, com hipocromia, microcitose, ferritina baixa e hipoalbuminemia — o "amarelão" da história brasileira. Anemia ferropriva mais eosinofilia em quem anda descalço é ancilostomíase até prova em contrário. O tratamento soma albendazol 400 mg em dose única e reposição de ferro. Não confundir com Ancylostoma braziliense, o parasito de cão e gato que não completa o ciclo no humano e causa a larva migrans cutânea (bicho-geográfico).

Tricuríase: o Trichuris vive no ceco e no cólon, sem ciclo pulmonar (a infecção é fecal-oral direta, por ovos). Carga baixa é assintomática; carga alta produz colite crônica com diarreia mucossanguinolenta, tenesmo, anemia e — a imagem de prova — prolapso retal na infestação maciça. Aqui a dose única cura mal: o esquema é albendazol 400 mg/dia por 3 dias (mebendazol 100 mg de 12/12 h por 3 dias é alternativa consagrada nas três geo-helmintíases).

Estrongiloidíase: a exceção que mata o imunossuprimido

O Strongyloides stercoralis é transmitido pelo solo como os ancilostomídeos — larva penetrando pele, ciclo pulmonar —, mas guarda duas diferenças que definem tudo: elimina larvas (não ovos) nas fezes e faz autoinfecção, com larvas que se tornam infectantes ainda no intestino e reinvadem a mucosa ou a pele perianal. Por isso a infecção se perpetua por décadas depois que a pessoa deixou a área endêmica. A crônica costuma ser oligossintomática: epigastralgia, diarreia intermitente, eosinofilia flutuante e a larva currens — lesão urticariforme serpiginosa e migratória, tipicamente em nádegas e tronco, que anda centímetros por hora e some em horas ou dias.

O diagnóstico não sai do parasitológico comum, que é pouco sensível para larvas: pede-se o método de Baermann-Moraes (ou cultura em ágar) em amostras seriadas, com sorologia como apoio. E aqui entra a regra de ouro: corticoide e estrongiloidíase não se cruzam sem tratamento. A imunossupressão — corticoterapia sistêmica à frente, mas também HTLV-1, transplante e quimioterapia — converte a autoinfecção controlada em síndrome de hiperinfecção e doença disseminada: larvas em pulmão, fígado e sistema nervoso central, arrastando bactérias entéricas e produzindo sepse e meningite por Gram-negativos, com mortalidade altíssima. O corticoide ainda apaga a eosinofilia, o único sinal que denunciaria o verme.

O tratamento é ivermectina 200 µg/kg/dia por 2 dias, repetida em 2 semanas para alcançar o ciclo de autoinfecção; na hiperinfecção, ivermectina diária até negativação das larvas por pelo menos 2 semanas, reduzindo a imunossupressão ao mínimo. A OMS é explícita: o S. stercoralis não responde aos esquemas de dose única de albendazol ou mebendazol usados nas campanhas — albendazol é alternativa inferior, não equivalente. Na prática de prova: paciente com epidemiologia compatível que vai iniciar corticoide prolongado recebe investigação dirigida ou ivermectina empírica antes — nunca o corticoide primeiro.

As outras parasitoses do adulto que a prova cobra

Teníase e o complexo teníase-cisticercose: a Taenia solium (porco) e a T. saginata (boi) causam parasitismo intestinal em geral silencioso — proglotes nas fezes, vago desconforto. O tratamento é praziquantel 10 mg/kg em dose única. O que reprova é confundir as vias: comer carne malcozida com cisticercos dá teníase; ingerir ovos de T. solium (água, alimentos, mãos contaminadas pelas fezes de um portador de teníase — inclusive autoinfecção) dá cisticercose. A neurocisticercose — causa clássica de epilepsia de início tardio em área endêmica — é doença de outro capítulo, mas nasce desse ciclo invertido.

Enterobíase (oxiuríase): o Enterobius vermicularis põe ovos na região perianal à noite — prurido anal noturno, insônia, escoriações, frequentemente com vários casos na mesma casa. O parasitológico de fezes costuma ser negativo: o diagnóstico é a fita adesiva (método de Graham) aplicada de manhã ao ânus. Trata-se com albendazol 400 mg em dose única repetida em 2 semanas — e a prescrição vai para todos os conviventes, com higiene de unhas, roupas de cama e banho, senão a reinfestação é regra.

Giardíase: a Giardia intestinalis coloniza o duodeno e produz diarreia alta e disabsortiva — fezes volumosas, claras, fétidas, com esteatorreia, distensão e flatulência, sem sangue, sem febre alta e sem eosinofilia. História típica: água de riacho, poço ou viagem. Diagnóstico por cistos no parasitológico seriado (a eliminação é intermitente) ou pesquisa de antígeno fecal. Tratamento: metronidazol 250 mg de 8/8 h por 5 dias ou tinidazol 2 g em dose única.

Amebíase: a Entamoeba histolytica invade o cólon — colite disentérica com sangue e muco, cólica e tenesmo — e pode migrar ao fígado como abscesso único de lobo direito (febre, dor no hipocôndrio direito, imagem em USG), também sem eosinofilia. A colite invasiva e o abscesso tratam-se com metronidazol 750 mg de 8/8 h por 10 dias, seguido de um amebicida intraluminal (teclozana) para erradicar os cistos e evitar recaída e transmissão — o metronidazol sozinho limpa o tecido, não a luz intestinal.

04

Da suspeita ao controle de cura — e a escada da forma hepatoesplênica

O raciocínio da esquistossomose segue um funil único — suspeitar pela epidemiologia, confirmar pelo ovo, tratar com dose única e vigiar a cura — enquanto a doença crônica sobe uma escada anatômica que vai do granuloma isolado à hipertensão porta descompensada. Os cards mostram essa progressão; as tabelas concentram o arsenal terapêutico e as regras de programa.

  1. 1Suspeita clínico-epidemiológica: área endêmica, contato com coleção de água doce, eosinofilia, esplenomegalia ou varizes com função hepática preservada
  2. 2Parasitológico de fezes: Kato-Katz na rotina de área endêmica (quantifica ovos/grama); Lutz/HPJ como alternativa — ovo encontrado confirma o caso
  3. 3Fezes negativas com suspeita mantida (área não endêmica/baixa prevalência): sorologia IgM (IFI) ou IgG (ELISA) — se positiva, novas fezes seriadas; biópsia retal em caso selecionado
  4. 4Caso confirmado: praziquantel em dose única (50 mg/kg adulto; 60 mg/kg criança de 4 a 15 anos) + corticoide se forma aguda ou neurológica
  5. 5Notificar conforme a área (Sinan/SISPCE) e fazer controle de cura parasitológico com 3 amostras — o prazo diverge entre os documentos do MS (ver divergências)

Hepatointestinal

Granulomas esparsos; sintomas digestivos vagos; fígado de tamanho e função normais. É a forma crônica mais comum — e a mais subdiagnosticada.

Hepática (fibrose periportal)

Fibrose de Symmers em formação nos espaços porta — o ultrassom já mostra o espessamento periportal; o baço ainda não cresceu.

Hepatoesplênica compensada

Hipertensão porta pré-sinusoidal instalada: esplenomegalia, varizes, plaquetopenia — com albumina, INR e bilirrubina preservados.

Hepatoesplênica descompensada

Ascite, desnutrição e falência hepática — muitas vezes com cofator (álcool, hepatite viral). É contraindicação ao praziquantel até compensar.

Parasitose1ª escolhaEsquema no adultoObservação-chave
EsquistossomosePraziquantel50 mg/kg VO em dose única (criança de 4 a 15 anos: 60 mg/kg)Após refeição; repouso de 3 h; cura ~80%; OMS usa 40 mg/kg
AscaridíaseAlbendazol400 mg VO em dose únicaSuboclusão: conduta clínica primeiro; anti-helmíntico após resolver
AncilostomíaseAlbendazol400 mg VO em dose única + sulfato ferrosoAnemia ferropriva de instalação lenta; trabalhador descalço
TricuríaseAlbendazol400 mg/dia por 3 diasDose única cura mal; carga alta faz prolapso retal
EstrongiloidíaseIvermectina200 µg/kg/dia por 2 dias; repetir em 2 semanasHiperinfecção: diária até negativar; albendazol é inferior
EnterobíaseAlbendazol400 mg em dose única, repetida em 2 semanasTratar todos os conviventes; diagnóstico pela fita gomada
TeníasePraziquantel10 mg/kg VO em dose únicaCarne com cisticerco dá teníase; ovos ingeridos dão cisticercose
GiardíaseMetronidazol250 mg de 8/8 h por 5 dias (ou tinidazol 2 g dose única)Diarreia alta disabsortiva; sem sangue e sem eosinofilia
Amebíase invasivaMetronidazol750 mg de 8/8 h por 10 dias + teclozana (intraluminal)Sem o luminal, o cisto persiste e o quadro recai

Esquistossomose: conduta de programa e notificação por cenário

CenárioCondutaRegistro
Área endêmica, positividade < 15% no inquéritoTratar somente os positivosSISPCE
Área endêmica, positividade de 15% a 25%Tratar positivos + conviventesSISPCE
Área endêmica, positividade > 25%Tratamento coletivo da localidadeSISPCE
Área não endêmica ou focalTodo caso confirmado é notificado e investigadoSinan
Forma grave, hospitalização ou surtoNotificação obrigatória em qualquer áreaSinan

Praziquantel: comprimidos de 600 mg; o índice de cura aproxima-se de 80% no adulto e 70% na criança (Diretrizes 2024).

A esquistossomose ainda não tem PCDT publicado — o protocolo está em elaboração, e a ampliação do praziquantel para 2 a 4 anos (Conitec, jun/2026) será formalizada nele.

Ivermectina e albendazol não se equivalem: a estrongiloidíase não responde aos esquemas de dose única usados nas campanhas de geo-helmintíases (OMS).

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Dose do praziquantel no adulto: 50 ou 40 mg/kg?

Ministério da Saúde (GVS 2023; Diretrizes 2024): 50 mg/kg no adulto, 60 mg/kg na criança

É o esquema do programa brasileiro desde a padronização do PCE, com tabelas de comprimidos por faixa de peso e cura em torno de 80% no adulto.

Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed., 2023; Vigilância da Esquistossomose Mansoni: diretrizes técnicas, 2024

OMS: 40 mg/kg em dose única para crianças e adultos

É a dose global da quimioterapia preventiva. O relatório da Conitec de 2026 registra que os ensaios não mostram diferença relevante de eficácia entre 40 e 60 mg/kg — a diferença brasileira é padronização programática histórica, não superioridade demonstrada.

OMS (guideline 2022), citada e comparada no Relatório Conitec nº 1.123/2026

Na prova

O enunciado denuncia o recorte: programa brasileiro, PCE, GVS ou unidade do SUS pedem 50 mg/kg no adulto e 60 mg/kg na criança; quimioterapia preventiva, campanha global ou citação nominal da OMS pedem 40 mg/kg. Alternativas trazendo 40 e 50 lado a lado indicam que a banca quer exatamente essa distinção — e prova oficial do MEC tende à conduta do documento do SUS.

Controle de cura: 40 dias ou 4 meses após o tratamento?

Diretrizes Técnicas 2024 (rotina do PCE): a partir de 40 dias

O programa estabelece verificação de cura parasitológica com Kato-Katz em 3 amostras de dias alternados, com a primeira amostra coletada 40 dias após o tratamento; positivos são retratados.

Vigilância da Esquistossomose Mansoni: diretrizes técnicas, MS, 2024

Guia de Vigilância em Saúde (6ª ed., 2023): no 4º mês

O capítulo de esquistossomose orienta controle de cura no quarto mês após o tratamento, com detecção de ovos em 3 amostras de fezes de dias diferentes, admitindo que o melhor método permanece em avaliação.

Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed., vol. 3, MS, 2023

Na prova

É divergência entre dois documentos vigentes do próprio Ministério da Saúde, de gerações editoriais diferentes — o guia geral não incorporou o prazo operacional do programa. Questões que descrevem a rotina do PCE ou citam as Diretrizes Técnicas trabalham com 40 dias; questões montadas sobre o texto do GVS trabalham com 4º mês. O número que aparece nas alternativas revela qual documento a banca leu.

Estratégia populacional: tratamento guiado por inquérito ou quimioterapia preventiva em massa?

Brasil (PCE): diagnóstico primeiro, tratamento conforme a positividade

Inquéritos coproscópicos bianuais definem a conduta: abaixo de 15% tratam-se os positivos; de 15% a 25%, positivos e conviventes; acima de 25%, a localidade inteira. Mesmo o tratamento coletivo nasce ancorado em inquérito diagnóstico.

Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed., 2023

OMS: quimioterapia preventiva em larga escala, sem diagnóstico individual prévio

Em áreas endêmicas, a OMS preconiza tratamento periódico em massa com praziquantel de grupos-alvo — escolares à frente, além de ocupações de risco e comunidades inteiras em alta transmissão — como ferramenta de eliminação da doença como problema de saúde pública. Restrição de recursos diagnósticos nos países de alta carga é parte da lógica.

OMS, Schistosomiasis fact sheet, 2025

Na prova

Vocabulário resolve: inquérito, positividade da localidade, conviventes e SISPCE são o mundo do programa brasileiro; campanha em escolares sem exame prévio, quimioterapia preventiva e metas de eliminação são o mundo OMS. No Brasil a prevalência nacional em escolares caiu a cerca de 1%, o que sustenta a lógica diagnóstico-guiada do PCE.

06

Caso resolvido

Homem de 31 anos, ajudante de pedreiro, natural de União dos Palmares (AL), onde morou até os 20 anos pescando em rio. Chega com hematêmese volumosa há 2 horas. Exame: descorado, PA 100×60 mmHg, FC 108 bpm, baço palpável a 8 cm do rebordo costal, lobo esquerdo do fígado endurecido; sem telangiectasias, ginecomastia ou flapping. Laboratório: Hb 8,9 g/dL, plaquetas 78.000/mm³, albumina 3,8 g/dL, INR 1,1, bilirrubinas normais. Endoscopia: varizes esofágicas de médio calibre com sinais de sangramento recente.
achado
Hipertensão porta inequívoca (varizes + esplenomegalia volumosa + plaquetopenia por hiperesplenismo) com função hepatocelular preservada — albumina, INR e bilirrubinas normais — em jovem com décadas de exposição a água doce no Nordeste.
interpretação
O padrão é de bloqueio pré-sinusoidal: esquistossomose hepatoesplênica (fibrose de Symmers), não cirrose — o hepatócito está poupado. Ultrassom com espessamento periportal e Kato-Katz confirmam; se as fezes negativarem, biópsia retal é o recurso para flagrar o ovo.
conduta
Na urgência, o sangramento varicoso se trata como em qualquer hipertensão porta: reposição, terlipressina ou octreotida, antibiótico e ligadura endoscópica. Resolvida a urgência, praziquantel 50 mg/kg em dose única e profilaxia secundária com betabloqueador e ligadura seriada.
vigilância
Forma grave: notificação no Sinan independentemente de a área ser endêmica, com investigação do local provável de infecção — e controle de cura parasitológico com 3 amostras após o tratamento.
07

Agora feche você

Mulher de 54 anos com artrite reumatoide vai iniciar prednisona 40 mg/dia por tempo prolongado. Cresceu em zona rural de Minas Gerais, onde andava descalça. Sem queixas digestivas; refere, há anos, lesões lineares pruriginosas fugazes nas nádegas, que "andam" e somem em poucos dias. Hemograma: eosinófilos 1.100/mm³.
achado
Epidemiologia de solo contaminado + larva currens (lesão serpiginosa migratória fugaz) + eosinofilia persistente = estrongiloidíase crônica provável, mantida por autoinfecção décadas após a exposição.
risco
Corticoide sistêmico é o gatilho clássico da síndrome de hiperinfecção e da doença disseminada: larvas invadem pulmão e SNC arrastando bactérias entéricas — sepse e meningite por Gram-negativos, com mortalidade altíssima. E o próprio corticoide apaga a eosinofilia que denunciaria o parasito.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Corticoide primeiro, ivermectina depois A questão distrai com o reumatismo ou a asma em atividade e induz a começar logo o corticoide "e investigar depois". Na epidemiologia positiva, a ordem é inversa: ivermectina empírica antes da imunossupressão — depois da hiperinfecção instalada, a mortalidade é altíssima e a eosinofilia já terá sumido.
  2. 2Tratar a hepatoesplênica como cirrose Varizes sangrando puxam o rótulo automático de cirrótico Child alguma-coisa. O contraste que a banca planta é a função preservada (albumina, INR, bilirrubina normais) no jovem de área endêmica: hipertensão porta pré-sinusoidal por fibrose de Symmers, com prognóstico e conduta próprios — e praziquantel, que na cirrose não teria lugar.
  3. 3Eosinofilia creditada a protozoário Giárdia e ameba não elevam eosinófilos — eosinofilia é assinatura de helminto em fase tissular (áscaris, ancilostomídeo, estrongiloide, esquistossomose aguda). Alternativa que junta diarreia alta + eosinofilia + "giardíase" está se autodenunciando como distrator.
  4. 4Praziquantel sozinho na forma aguda ou neurológica Parece lógico atacar logo o verme, mas a lise maciça num hospedeiro hiperreativo exacerba a doença por hipersensibilidade. As Diretrizes de 2024 associam prednisona na forma aguda (0,5 a 1 mg/kg/dia, antes ou junto do praziquantel) e corticoide prolongado ou pulsoterapia na mielorradiculopatia.
  5. 5Albendazol 400 mg resolve qualquer verme A dose única de campanha atrai pela simplicidade, mas falha três vezes: estrongiloidíase pede ivermectina; tricuríase pede 3 dias de albendazol; enterobíase pede repetição em 2 semanas e tratamento de todos os conviventes. Dose única só fecha para áscaris e ancilostomídeo.
  6. 6Cisticercose "por comer carne de porco" A associação popular inverte o ciclo e a banca cobra a inversão: carne com cisticerco dá teníase (verme adulto no intestino); cisticercose vem da ingestão de OVOS eliminados nas fezes de um portador de teníase — transmissão fecal-oral, inclusive autoinfecção de quem alberga o verme.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o ovo com espículo (esporão) LATERAL é o achado patognomônico do Schistosoma mansoni — única espécie de esquistossomo endêmica no Brasil, transmitida pelo contato com água doce contendo caramujos Biomphalaria. O contexto (zona rural endêmica de MG, banho em lagoa, eosinofilia, ovo com espículo lateral no Kato-Katz) fecha o diagnóstico em um passo. Ascaris tem ovos ovais com casca mamilonada, sem espículo. Ancylostoma (ancilostomíase) tem ovos de casca fina com blastômeros, cursa com anemia ferropriva, não com espículo. Taenia elimina proglotes/ovos esféricos com embrióforo estriado radialmente. Strongyloides é diagnosticado por larvas rabditoides (não ovos) nas fezes.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória: as doses de praziquantel do adulto e da criança pelo MS e a dose única da OMS; as três faixas de positividade que definem tratamento seletivo ou coletivo; e o esquema de prednisona da forma aguda menos grave e da grave. Depois confira no capítulo — os três são número seco de prova.

em 30 dias

Monte a tabela do arsenal em dose única (albendazol, mebendazol, ivermectina, praziquantel nas suas três indicações) e explique em voz alta: por que a estrongiloidíase fica fora da campanha de albendazol, por que a hepatoesplênica não é cirrose e quem é notificado no Sinan versus SISPCE.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Jovem do interior de Alagoas chega ao pronto-socorro com vômito com sangue e baço muito aumentado; os exames de função hepática vêm normais. Conduza o caso da suspeita à prescrição — e decida quem você notifica. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.