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Clínica MédicaInfectologia

Sífilis e outras IST

Sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis

Três decisões concentram quase toda a cobrança: estadiar a sífilis (o corte de um ano define uma dose ou três), ler a queda de titulação do teste não treponêmico, e tratar a síndrome — úlcera, corrimento — sem esperar o agente etiológico.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 30 anos apresenta úlcera genital única, indolor, de bordas endurecidas e fundo limpo, com aproximadamente 1 cm, surgida há 10 dias no sulco balanoprepucial. Há linfonodomegalia inguinal bilateral não dolorosa. Nega uso de preservativo. Qual é a etiologia mais provável dessa lesão?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da pessoa adulta fora da gestação. Sífilis na gestante e sífilis congênita têm régua própria — outro esquema de intervalo entre doses, outra definição de tratamento adequado, outra ficha de notificação — e estão no capítulo de pré-natal. Aqui entram sífilis adquirida, as infecções que causam úlcera genital, o corrimento uretral e o que mudou na prevenção em 2026.

O documento que governa tudo isso no Brasil é o PCDT de IST do Ministério da Saúde. Ele organiza o atendimento por síndrome, não por agente: quem chega com úlcera anogenital ou com corrimento uretral sai da primeira consulta tratado, mesmo sem exame. A justificativa é numérica e está no próprio protocolo — no estudo de validação da abordagem sindrômica no Brasil, o valor preditivo positivo da impressão clínica foi de 30,9% para sífilis e 32,7% para cancroide. Diagnosticar a olho erra em dois terços das vezes; esperar o laboratório perde o paciente.

A prova cobra três coisas com regularidade. Primeira: estadiar a sífilis, porque o corte de um ano separa uma dose de penicilina de três. Segunda: interpretar titulação — o que significa cair duas diluições, o que é cicatriz sorológica, quando retratar. Terceira: o esquema sindrômico do corrimento uretral, que no Brasil continua sendo duplo enquanto o americano virou monoterapia. Cada uma dessas tem um número exato, e é o número que decide a alternativa.

03

O que muda decisão

A régua brasileira: tratar na primeira consulta

O PCDT parte de uma premissa operacional: as amostras para exame são colhidas na primeira consulta, mas a conduta terapêutica não espera o resultado. Se o laboratório não devolve o exame no mesmo atendimento, trata-se assim mesmo. E onde não há rede laboratorial, o protocolo é explícito ao recomendar tratamento baseado na clínica em todo caso de suspeita de IST — assumindo, e dizendo com todas as letras, que isso produz alguma quantidade de tratamento desnecessário. O cálculo é epidemiológico: o custo de tratar a mais é menor que o custo de perder quem não volta.

Três síndromes organizam o atendimento sintomático. Úlcera anogenital: Treponema pallidum, HSV-2, Haemophilus ducreyi, Chlamydia trachomatis dos sorotipos L1 a L3 e Klebsiella granulomatis. Corrimento uretral ou vaginal: Neisseria gonorrhoeae, C. trachomatis dos sorotipos D a K, Trichomonas vaginalis, Mycoplasma genitalium — e, no caso vaginal, candidíase e vaginose bacteriana, que o próprio protocolo classifica como infecções endógenas e não como IST. Verruga anogenital: HPV.

Duas dessas infecções o protocolo marca como não curáveis, porém tratáveis: herpes genital e condiloma acuminado. É uma distinção que muda a conversa com o paciente e aparece em questão de comunicação: o antiviral do herpes reduz intensidade e duração do surto, não erradica o vírus do gânglio sensitivo — nenhuma medida terapêutica impede a latência ganglionar.

Na sífilis, o protocolo vai além e autoriza tratar com um único teste reagente — treponêmico ou não treponêmico, independentemente de sinais e sintomas — em cinco situações: gestantes, vítimas de violência sexual, pessoas com chance de perda de seguimento, pessoas com sinais ou sintomas de sífilis primária ou secundária, e pessoas sem diagnóstico prévio de sífilis. Tratar com um teste não dispensa nada do resto: o segundo teste continua sendo feito, o monitoramento laboratorial continua, e a parceria continua sendo tratada.

Sífilis: os estágios e o relógio de um ano

A sífilis primária aparece de 10 a 90 dias após o contato, com média de três semanas. A lesão é o cancro duro: úlcera geralmente única, no ponto de entrada da bactéria — pênis, vulva, vagina, colo, ânus, boca ou qualquer outro ponto do tegumento —, indolor, de base endurecida e fundo limpo, rica em treponemas. Ela dura de duas a seis semanas e desaparece sozinha, com ou sem tratamento. Esse desaparecimento espontâneo é a razão de tanta sífilis chegar ao serviço já em outro estágio: o paciente entendeu que sarou.

O secundarismo traz as lesões cutâneo-mucosas que a prova adora nomear: roséola, placas mucosas, sifílides papulosas, sifílides palmoplantares, condiloma plano, alopecia em clareira, madarose e rouquidão. Vêm acompanhadas de micropoliadenopatia, linfadenopatia generalizada, sinais constitucionais e, em parte dos casos, de quadros neurológicos, oculares e hepáticos. Note que quadro neurológico e ocular podem existir no secundarismo — a neurossífilis não é privilégio da fase terciária.

Depois vem a latência, que é assintomática por definição e onde mora a decisão terapêutica. Latente recente é a de até um ano de evolução; latente tardia, a de mais de um ano. E a categoria que mais aparece em prova é a terceira: latente com duração ignorada. Quando não se sabe quando a infecção começou, o protocolo trata como tardia. Há inclusive uma regra explícita sobre isso: pessoas com títulos baixos em testes não treponêmicos, sem registro de tratamento e sem data de infecção conhecida, são consideradas portadoras de sífilis latente tardia e devem ser tratadas.

A sífilis terciária, hoje incomum, tem quatro territórios. Cutâneo: lesões gomosas e nodulares, de caráter destrutivo. Ósseo: periostite, osteíte gomosa ou esclerosante, artrites, sinovites e nódulos justa-articulares. Cardiovascular: aortite, aneurisma de aorta — especialmente da porção torácica — e estenose de coronárias. Neurológico: meningite, gomas cerebrais ou medulares, atrofia do nervo óptico, lesão do sétimo par, tabes dorsalis e a paralisia geral, com seu quadro demencial.

Duas famílias de teste, e o número que importa é a diluição

Os testes treponêmicos detectam anticorpos específicos contra o T. pallidum: teste rápido, FTA-Abs, TPHA, TPPA, ELISA e quimiluminescência. São os primeiros a positivar e, em regra, permanecem reagentes pelo resto da vida — por isso não servem para controle de cura. Os testes não treponêmicos (VDRL, RPR, USR) detectam anticorpos anticardiolipina, não são específicos, e permitem quantificação. São eles que dizem se o tratamento funcionou.

O não treponêmico torna-se reagente cerca de uma a três semanas depois do aparecimento do cancro duro. Isso significa que existe uma janela real em que o paciente tem cancro duro e VDRL não reagente — e é exatamente esse o cenário que o protocolo cobre ao autorizar tratamento imediato de quem tem sinais de sífilis primária com um único teste reagente.

Há um segundo modo de o VDRL vir falsamente não reagente: o fenômeno de prozona. Quando há excesso de anticorpos em relação ao antígeno, formam-se imunocomplexos solúveis e a amostra pura não reage. Por isso a rotina laboratorial já inicia o teste qualitativo com a amostra pura e diluída a 1:8 ou 1:16. É um erro de laboratório, não de clínica — mas é o motivo pelo qual um secundarismo florido pode voltar com VDRL não reagente se a amostra não for diluída.

Titulação é a parte que confunde. A amostra é diluída em fator dois — 1:2, 1:4, 1:8, 1:16, 1:32, 1:64 — e o título é a última diluição ainda reagente. Uma diluição equivale a dois títulos; portanto, cair duas diluições (de 1:64 para 1:16) é cair quatro vezes o título. Como o teste não é automatizado e depende de leitura visual, variação de uma única diluição deve ser lida com cautela: pode ser observador diferente, não doença diferente. O seguimento deve ser feito, sempre que possível, com o mesmo método e no mesmo laboratório.

A combinação dos dois testes define a conduta. Treponêmico reagente com não treponêmico reagente é diagnóstico de sífilis — resta estadiar pelo tempo de infecção e pelo histórico de tratamento — ou é cicatriz sorológica, quando há tratamento anterior documentado com queda prévia de pelo menos duas diluições. Quando os dois discordam, faz-se um terceiro teste treponêmico com metodologia diferente do primeiro, e é ele que fecha o fluxograma: reagente, há sífilis ou cicatriz sorológica; não reagente, o primeiro foi falso-reagente e a sífilis está excluída. Sem terceiro teste disponível, decide-se por exposição de risco, sinais e sintomas e histórico de tratamento.

Fileira de seis tubos de ensaio com a cor da amostra clareando progressivamente da esquerda para a direita, até o último tubo ficar transparente.
Cada tubo é uma diluição em fator dois. O título é a última diluição que ainda reage — e cair duas diluições significa cair quatro vezes o título.

Tratar: uma dose ou três, e o que muda quando não pode ser penicilina

Benzilpenicilina benzatina é o medicamento de escolha, e o protocolo registra que não há evidência de resistência do T. pallidum à penicilina no Brasil nem no mundo. Aplicação exclusivamente intramuscular. A região preferencial é a ventroglútea, por ser livre de vasos e nervos importantes e ter tecido subcutâneo mais fino; vasto lateral da coxa e dorso glúteo são alternativas. Prótese ou silicone líquido industrial nos locais recomendados pode inviabilizar a aplicação — nesse caso, vai-se para a medicação alternativa.

Sífilis recente — primária, secundária e latente recente, com até um ano de evolução — recebe 2,4 milhões de UI em dose única, 1,2 milhão em cada glúteo. Sífilis tardia — latente tardia, latente de duração ignorada e terciária — recebe 2,4 milhões de UI por semana durante três semanas, totalizando 7,2 milhões de UI. Em pessoa não gestante, o intervalo entre as doses não pode ultrapassar 14 dias; se ultrapassar, o esquema é reiniciado do zero. (Na gestante o intervalo é de 7 dias, e essa diferença é assunto do capítulo de pré-natal.)

Fora da gestação, a alternativa para alergia à penicilina é doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por via oral: 15 dias na sífilis recente, 30 dias na sífilis tardia. O protocolo condiciona o uso dessas alternativas a acompanhamento clínico e laboratorial rigoroso. Na gestante não existe alternativa: qualquer tratamento que não seja benzilpenicilina benzatina é considerado tratamento não adequado da mãe para fins de definição de caso de sífilis congênita.

O medo da anafilaxia é o principal obstáculo prático, e o protocolo o enfrenta com número: a probabilidade de reação anafilática à benzilpenicilina benzatina é de 0,002%. A administração pode ser feita com segurança na Atenção Básica, tanto para a pessoa com sífilis quanto para suas parcerias, e não exige teste de sensibilidade prévio.

A reação de Jarisch-Herxheimer é outra coisa e não deve ser confundida com alergia. Ocorre nas 24 horas seguintes à primeira dose, sobretudo nas fases primária e secundária, e se manifesta como exacerbação das lesões cutâneas, mal-estar, febre, cefaleia e artralgia, com regressão espontânea em 12 a 24 horas. Trata-se com analgésico simples e não se interrompe o esquema. Alergia à penicilina, ao contrário, é rara com a benzatina e costuma se apresentar como urticária e exantema pruriginoso.

Neurossífilis tem esquema próprio: benzilpenicilina potássica/cristalina 18 a 24 milhões de UI por dia, por via endovenosa, administradas em doses de 3 a 4 milhões de UI a cada 4 horas ou em infusão contínua, por 14 dias. A alternativa é ceftriaxona 2 g EV uma vez ao dia, por 10 a 14 dias. O seguimento aqui não é sorológico e sim liquórico: exame de LCR a cada 6 meses até a normalização. A punção lombar está indicada diante de sintomas neurológicos ou oftalmológicos, de evidência de sífilis terciária ativa e após falha ao tratamento sem reexposição sexual; em pessoa vivendo com HIV, está indicada em todos os casos de retratamento, tenha havido nova exposição ou não.

Seguir: a queda de duas diluições é o desfecho

O monitoramento é feito com teste não treponêmico, a cada três meses até o 12º mês — ou seja, aos 3, 6, 9 e 12 meses — na população geral, incluindo pessoas vivendo com HIV. Na gestante, mensal. Sempre que possível, com o mesmo método usado no diagnóstico: quem fechou com VDRL segue com VDRL; quem fechou com RPR segue com RPR. Idealmente colhe-se um não treponêmico no primeiro dia de tratamento, porque o título pode subir bastante em poucos dias e é dele que sai a linha de base de toda a comparação futura.

Resposta imunológica adequada, na definição vigente, é teste não treponêmico não reagente ou queda de duas diluições em até seis meses na sífilis recente e em até doze meses na sífilis tardia. O protocolo registra que a definição tradicional era mais exigente — duas diluições em até três meses e quatro diluições em até seis — e que essa resposta rápida é mais comum em pessoas mais jovens, com títulos iniciais altos e em estágios mais recentes. Quem responde bem pode ser liberado de novas coletas após um ano de seguimento.

Cicatriz sorológica, ou serofast, é a persistência de teste não treponêmico reagente depois de tratamento adequado, com queda prévia documentada de pelo menos duas diluições e sem nova exposição de risco no período. Não é falha terapêutica, não se retrata e não se notifica.

Retratamento tem três gatilhos, e basta um. Ausência de redução de duas diluições em seis meses na sífilis recente ou em doze meses na sífilis tardia. Aumento de duas diluições ou mais — de 1:16 para 1:64, por exemplo. Ou persistência e recorrência de sinais e sintomas clínicos. Quando o critério é preenchido e não houve exposição sexual que justifique reinfecção, investiga-se neurossífilis com punção lombar antes de repetir a penicilina.

Há uma sutileza sobre a razão de existirem coletas aos 3 e aos 9 meses, já que os prazos de decisão são 6 e 12: o protocolo diz que esses pontos intermediários não têm o objetivo de avaliar a queda, e sim de descartar aumento de duas diluições — isto é, flagrar reinfecção cedo, do paciente e da parceria.

Úlcera genital: cinco causas e um fluxograma

As cinco IST ulcerativas são sífilis primária, herpes genital, cancroide, linfogranuloma venéreo e donovanose. Podem coexistir na mesma lesão, e o aspecto clínico tem baixo poder preditivo — daí o fluxograma. Fora das IST, a úlcera genital ainda pode ser dermatose bolhosa, líquen plano erosivo, afta, lesão traumática, erupção fixa por droga ou carcinoma espinocelular.

O herpes genital é o mais comum. A primoinfecção tem incubação média de seis dias e é a apresentação mais severa: vesículas de um a três milímetros sobre base eritematosa, muito dolorosas, acompanhadas de febre, mal-estar, mialgia e disúria — em mulheres, pode simular infecção urinária baixa. Linfadenomegalia inguinal dolorosa e bilateral está presente em metade dos casos, e o quadro dura de duas a três semanas. Depois o vírus ascende pelos nervos sensitivos e entra em latência ganglionar. Após a primoinfecção, 90% dos pacientes com HSV-2 e 60% com HSV-1 têm novo episódio nos primeiros 12 meses. As recorrências são mais brandas, precedidas de pródromo de prurido, queimação e fisgadas, e regridem em sete a dez dias.

O tratamento do herpes é aciclovir. Primeiro episódio: 400 mg três vezes ao dia por 7 a 10 dias, ou 200 mg cinco vezes ao dia pelo mesmo período, podendo prolongar se a cicatrização estiver incompleta. Recidiva: 400 mg três vezes ao dia por 5 dias, ou 800 mg duas vezes ao dia por 5 dias, iniciando de preferência ainda no pródromo. Supressão, para quem tem seis ou mais episódios por ano: 400 mg duas vezes ao dia por até seis meses, podendo estender a dois anos, com avaliação periódica de função renal e hepática. Em imunossuprimido com lesões extensas, aciclovir endovenoso 5 a 10 mg/kg de 8 em 8 horas por 5 a 7 dias.

O cancroide é o oposto clínico do cancro duro. Incubação de três a cinco dias, podendo chegar a duas semanas. Lesões dolorosas, geralmente múltiplas por autoinoculação, de borda irregular, contornos eritemato-edematosos e fundo recoberto por exsudato necrótico amarelado e fétido que, removido, revela granulação sangrante. Em 30% a 50% dos casos surge o bubão inguinal — unilateral em dois terços, quase exclusivo de homens pela anatomia da drenagem linfática — que fistuliza em metade dos casos, tipicamente por orifício único. O manejo do bubão cai em prova: aspira-se com agulha de grosso calibre para aliviar linfonodo tenso e flutuante; incisão com drenagem e excisão são contraindicadas.

O linfogranuloma venéreo evolui em três fases. Inoculação: pápula, pústula ou exulceração indolor que some sem sequela e quase nunca é notada. Disseminação linfática regional: no homem, linfadenopatia inguinal de uma a seis semanas depois, unilateral em 70% dos casos, e é ela que traz o paciente à consulta. Sequelas: supuração e fistulização por orifícios múltiplos, correspondentes a linfonodos individualizados parcialmente fundidos em uma massa. Guarde o contraste que a prova explora — o bubão do cancroide fistuliza por orifício único, o do LGV por orifícios múltiplos —, e note que nos dois a conduta é aspirar com agulha calibrosa, nunca incisar. Lesão anal pode evoluir para proctite e proctocolite hemorrágica.

A donovanose é a mais lenta das cinco. Começa como ulceração de borda plana ou hipertrófica, bem delimitada, com fundo granuloso vermelho-vivo e sangramento fácil, que evolui progressivamente e pode se tornar vegetante; as lesões costumam ser múltiplas, com a configuração em espelho nas bordas cutâneas ou mucosas, e há predileção por dobras e região perianal. O detalhe que a distingue: não ocorre adenite — quando muito, pseudobubões, que são granulações subcutâneas, quase sempre unilaterais. A forma elefantiásica na mulher é sequela tardia de obstrução linfática.

O tratamento do cancroide é azitromicina 1 g por via oral em dose única, com ceftriaxona 250 mg IM dose única ou ciprofloxacino 500 mg duas vezes ao dia por três dias como alternativas — e as parcerias são tratadas mesmo assintomáticas. O LGV recebe doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 21 dias, com azitromicina 1 g por semana durante 21 dias como alternativa e opção preferencial na gestante; antibiótico não reverte estenose retal nem elefantíase genital já instaladas. A donovanose recebe azitromicina 1 g por semana por pelo menos três semanas ou até a cicatrização das lesões, e é a única das três em que não se trata a parceria, por baixa infectividade — o critério de cura é o desaparecimento da lesão.

Corrimento uretral: por que o Brasil ainda dá dois antibióticos

Diante de corrimento uretral sem identificação do agente, o esquema é ceftriaxona 500 mg IM em dose única mais azitromicina 1 g por via oral em dose única. Como segunda opção, ceftriaxona 500 mg IM mais doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 7 dias. O mesmo esquema duplo cobre a uretrite gonocócica e as demais infecções gonocócicas não complicadas — uretra, colo do útero, reto e faringe.

Quando o agente é conhecido e não é o gonococo, o esquema encolhe. Uretrite não gonocócica e uretrite por clamídia: azitromicina 1 g em dose única, com doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 7 dias como segunda opção. Uretrite por Mycoplasma genitalium: azitromicina 1 g em dose única, sem segunda opção listada no protocolo. Uretrite por Trichomonas vaginalis: metronidazol 500 mg duas vezes ao dia por 7 dias. Nas uretrites tratadas com azitromicina ou doxiciclina, a resolução dos sintomas pode levar até sete dias após o fim da terapia — sintoma residual nesse intervalo não é falha.

Falha comprovada de tratamento gonocócico tem esquema de resgate próprio: ceftriaxona 500 mg IM em dose única mais azitromicina 2 g por via oral em dose única, ou gentamicina 240 mg IM mais azitromicina 2 g. Reinfecção, que é coisa diferente de falha, volta às doses habituais. Infecção gonocócica disseminada, fora meningite e endocardite, recebe ceftriaxona 1 g IM ou EV ao dia por pelo menos 7 dias mais azitromicina 1 g em dose única. Conjuntivite gonocócica no adulto: ceftriaxona 1 g IM em dose única. Alergia grave a cefalosporinas: azitromicina 2 g por via oral em dose única.

A razão de o Brasil manter terapia dupla está escrita no protocolo e tem nome: o Projeto SenGono, rede nacional de vigilância da resistência da N. gonorrhoeae. Ele constatou alta resistência à penicilina, à tetraciclina e ao ciprofloxacino, emergência de resistência à azitromicina e sensibilidade total às cefalosporinas de terceira geração. Diante desse quadro, e da baixa disponibilidade de teste etiológico na rede, a azitromicina permanece associada — ela cobre a clamídia que não foi testada e agrega uma segunda droga contra o gonococo.

O paciente e as parcerias devem se abster de relação sexual desprotegida até que o tratamento de ambos esteja completo — o que, na terapia de dose única, significa sete dias depois da tomada. É a frase que transforma a prescrição em interrupção de cadeia de transmissão, e é o que a questão de conduta costuma cobrar como alternativa complementar.

Rastrear, notificar, tratar a parceria — e o que entrou em 2026

Toda pessoa com diagnóstico de uma IST deve ser testada, no momento do diagnóstico, para HIV, sífilis e clamídia/gonococo — e retestada para HIV e sífilis de 4 a 6 semanas depois, para cobrir a janela das duas. Pessoa vivendo com HIV faz rastreio semestral de sífilis. Quem está em uso de PrEP tem calendário próprio: HIV a cada visita ao serviço, sífilis trimestral, clamídia e gonococo semestral, hepatites trimestral. Na gestante, o rastreio de sífilis e HIV é feito na primeira consulta do pré-natal, no início do terceiro trimestre (28ª semana) e no momento do parto, e em caso de aborto ou natimorto testa-se para sífilis independentemente de exames anteriores. O sítio de coleta para clamídia e gonococo segue a prática sexual: swab anal no sexo anal receptivo, orofaringe no sexo oral, material uretral no sexo insertivo — testagem só genital subestima a prevalência.

A parceria sexual tem conduta própria e específica. Um terço das parcerias de pessoas com sífilis recente desenvolve sífilis em até 30 dias da exposição. Por isso, havendo exposição nos últimos 90 dias, oferece-se tratamento presuntivo com dose única de benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões de UI, independentemente do estágio clínico do caso-índice e de a parceria ter ou não sinais e sintomas. Todas as parcerias devem ser testadas; se o teste vier reagente, trata-se como sífilis adquirida conforme o estágio, e não mais presuntivamente.

Sífilis adquirida é de notificação compulsória desde 2010, pela Portaria nº 2.472, de 31 de agosto de 2010. A definição de caso tem duas situações. Situação 1: indivíduo assintomático com teste não treponêmico reagente em qualquer titulação e teste treponêmico reagente, sem registro de tratamento prévio. Situação 2: indivíduo sintomático com pelo menos um teste reagente — treponêmico ou não treponêmico — em qualquer titulação. Repare na assimetria: no assintomático exigem-se os dois testes; no sintomático, um basta. E cicatriz sorológica confirmada não se notifica.

Em 2026 entrou uma peça nova na prevenção. A Conitec recomendou por unanimidade, na 148ª Reunião Ordinária de 12 de fevereiro de 2026, a ampliação de uso da doxiciclina 100 mg como profilaxia pós-exposição às IST bacterianas clamídia e sífilis, e a decisão foi publicada pela Portaria SCTIE/MS nº 16, de 10 de março de 2026. O esquema é doxiciclina 200 mg — dois comprimidos de 100 mg — em dose única, em até 72 horas após a exposição, idealmente nas primeiras 24 horas, respeitado o máximo de 200 mg a cada 24 horas.

A população alvo da recomendação brasileira é adulta e delimitada: homens cisgênero gays e bissexuais, outros homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero, vivendo ou não com HIV. O gonococo ficou de fora do alvo declarado — a indicação incorporada é para clamídia e sífilis. E o plenário condicionou a estratégia a uso conforme protocolo, com monitoramento sistemático e vigilância contínua de resistência antimicrobiana, exatamente porque a droga é a mesma que trata clamídia, LGV e donovanose. Vale saber que a oferta é recente e ainda está sendo estruturada na rede: a questão de prova tende a cobrar dose, janela de 72 horas e alvo, não fluxo de dispensação.

04

Estadiar a sífilis: o corte de um ano decide o número de doses

Estadiar não é exercício acadêmico — é o que separa uma injeção de três, e o que define se o prazo para julgar a resposta é de seis ou de doze meses. O estágio sai de duas informações: tempo desde a infecção e presença de lesão. Quando o tempo é desconhecido, a regra é tratar como tardia.

  1. 1Testar: teste rápido treponêmico no primeiro atendimento, ou fluxo laboratorial completo onde houver rede.
  2. 2Confirmar: o segundo teste é da outra família; se os dois discordarem, um terceiro teste treponêmico com metodologia diferente da do primeiro fecha o fluxograma.
  3. 3Estadiar: lesão presente define primária ou secundária; sem lesão, o corte é o tempo de infecção — até um ano, latente recente; acima de um ano ou tempo ignorado, latente tardia.
  4. 4Tratar: dose única na sífilis recente, três doses semanais na tardia; não atrasar por espera de resultado quando o paciente se enquadra nas situações de tratamento imediato.
  5. 5Notificar sífilis adquirida no Sinan e oferecer tratamento presuntivo às parcerias com exposição nos últimos 90 dias.
  6. 6Monitorar com teste não treponêmico aos 3, 6, 9 e 12 meses, pelo mesmo método e, de preferência, no mesmo laboratório.

Primária — cancro duro

Úlcera única, indolor, base endurecida, fundo limpo, com linfonodo regional. Surge de 10 a 90 dias após o contato e some sozinha em 2 a 6 semanas. Tratamento de sífilis recente.

Secundária — disseminação

Roséola, sifílides papulosas e palmoplantares, condiloma plano, alopecia em clareira, madarose, rouquidão, micropoliadenopatia. Pode já ter acometimento neurológico e ocular. Tratamento de sífilis recente.

Latente recente — até 1 ano

Assintomática, com infecção documentadamente iniciada há menos de um ano. Ainda é sífilis recente: 2,4 milhões de UI em dose única.

Latente tardia ou de duração ignorada

Assintomática, com mais de um ano de evolução — ou sem data conhecida de infecção, que é o cenário mais comum. Título baixo sem registro de tratamento entra aqui. Três doses semanais.

Terciária — lesão destrutiva

Gomas cutâneas e ósseas, aortite e aneurisma de aorta torácica, tabes dorsalis, paralisia geral. Tratamento de sífilis tardia; se houver acometimento do sistema nervoso, o esquema passa a ser o de neurossífilis.

EstágioBenzilpenicilina benzatinaAlternativa (exceto gestantes)Seguimento
Sífilis recente: primária, secundária e latente recente (até 1 ano)2,4 milhões UI, IM, dose única (1,2 milhão em cada glúteo)Doxiciclina 100 mg, VO, 12/12h, por 15 diasTeste não treponêmico trimestral
Sífilis tardia: latente tardia (mais de 1 ano), latente de duração ignorada e terciária2,4 milhões UI, IM, 1x/semana por 3 semanas — total 7,2 milhões UIDoxiciclina 100 mg, VO, 12/12h, por 30 diasTeste não treponêmico trimestral
NeurossífilisBenzilpenicilina potássica/cristalina 18-24 milhões UI/dia, EV, em doses de 3-4 milhões UI a cada 4h ou infusão contínua, por 14 diasCeftriaxona 2 g, EV, 1x/dia, por 10 a 14 diasLCR a cada 6 meses até normalização
Parceria sexual com exposição nos últimos 90 dias, sem diagnóstico próprio2,4 milhões UI, IM, dose única (tratamento presuntivo)Testar; se reagente, tratar conforme o estágio

Resposta ao tratamento e critérios de retratamento da sífilis

SituaçãoDefiniçãoConduta
Resposta imunológica adequadaTeste não treponêmico não reagente OU queda de duas diluições em até 6 meses (sífilis recente) ou até 12 meses (sífilis tardia)Manter seguimento; liberar de novas coletas após 1 ano
Cicatriz sorológica (serofast)Teste não treponêmico persistentemente reagente após tratamento adequado, com queda prévia documentada de pelo menos duas diluições e sem nova exposiçãoApenas orientar. Não retratar e não notificar
Critério de retratamento — sem quedaAusência de redução de duas diluições em 6 meses (recente) ou 12 meses (tardia)Retratar conforme o estágio; investigar neurossífilis com punção lombar se não houve reexposição
Critério de retratamento — aumentoAumento de duas diluições ou mais (ex.: 1:16 para 1:64)Retratar a pessoa e as parcerias sexuais
Critério de retratamento — clínicoPersistência ou recorrência de sinais e sintomasRetratar; punção lombar conforme a mesma regra

Corrimento uretral e infecções gonocócicas

CondiçãoPrimeira opçãoSegunda opção
Uretrite sem identificação do agenteCeftriaxona 500 mg, IM, dose única + azitromicina 1 g, VO, dose únicaCeftriaxona 500 mg, IM, dose única + doxiciclina 100 mg, VO, 12/12h, por 7 dias
Uretrite gonocócica e infecções gonocócicas não complicadas (uretra, colo, reto, faringe)Ceftriaxona 500 mg, IM, dose única + azitromicina 1 g, VO, dose única
Uretrite não gonocócica e uretrite por clamídiaAzitromicina 1 g, VO, dose únicaDoxiciclina 100 mg, VO, 12/12h, por 7 dias
Uretrite por Mycoplasma genitaliumAzitromicina 1 g, VO, dose única
Uretrite por Trichomonas vaginalisMetronidazol 500 mg, VO, 12/12h, por 7 dias
Retratamento de infecção gonocócica (falha)Ceftriaxona 500 mg, IM, dose única + azitromicina 2 g, VO, dose únicaGentamicina 240 mg, IM + azitromicina 2 g, VO, dose única
Infecção gonocócica disseminada (exceto meningite e endocardite)Ceftriaxona 1 g, IM ou EV, ao dia, por ao menos 7 dias + azitromicina 1 g, VO, dose única
Conjuntivite gonocócica no adultoCeftriaxona 1 g, IM, dose única
Alergia grave a cefalosporinasAzitromicina 2 g, VO, dose única

Úlcera genital não sifilítica: quadro e tratamento

ISTMarca clínicaPrimeira opçãoParceria
Herpes genital (HSV-1/HSV-2)Vesículas agrupadas, muito dolorosas; adenopatia inguinal dolorosa bilateral em 50% na primoinfecção; recorrências com pródromo1º episódio: aciclovir 400 mg, VO, 3x/dia, 7-10 dias. Recidiva: 400 mg, 3x/dia, 5 dias. Supressão (≥6 surtos/ano): 400 mg, 2x/dia, até 6 mesesOrientar; infecção não curável, porém tratável
Cancroide (H. ducreyi)Úlceras múltiplas e dolorosas, borda irregular, fundo com exsudato necrótico fétido; bubão unilateral que fistuliza por orifício únicoAzitromicina 1 g, VO, dose única (alternativas: ceftriaxona 250 mg IM dose única ou ciprofloxacino 500 mg 12/12h por 3 dias)Tratar mesmo se assintomática
Linfogranuloma venéreo (C. trachomatis L1-L3)Lesão de inoculação indolor e fugaz, seguida de linfadenopatia inguinal em 1 a 6 semanas, unilateral em 70%; fistuliza por orifícios múltiplos; sequelas de estenose retal e elefantíase genitalDoxiciclina 100 mg, VO, 12/12h, por 21 dias (alternativa: azitromicina 1 g, VO, 1x/semana, por 21 dias — preferencial na gestante)Tratar: sintomática, mesmo esquema do caso-índice; assintomática, azitromicina 1 g dose única ou doxiciclina 7 dias
Donovanose (K. granulomatis)Ulceração de borda bem delimitada, fundo granuloso vermelho-vivo e sangramento fácil, de evolução lenta e progressiva, podendo tornar-se vegetante; não ocorre adenite (no máximo pseudobubões)Azitromicina 1 g, VO, 1x/semana, por pelo menos 3 semanas ou até a cicatrizaçãoNão é necessário tratar, por baixa infectividade

Neurossífilis não é sinônimo de sífilis terciária: acometimento neurológico e ocular pode ocorrer já no secundarismo, e é por isso que sintoma neurológico ou oftalmológico indica punção lombar em qualquer estágio.

Em pessoa não gestante, intervalo maior que 14 dias entre as doses da sífilis tardia obriga a reiniciar o esquema — não se completa de onde parou.

Doxiciclina e ciprofloxacino estão contraindicados na gestação e na lactação; o ciprofloxacino também em crianças.

Doxi-PEP (Portaria SCTIE/MS nº 16, de 10/3/2026): doxiciclina 200 mg, VO, dose única, em até 72 horas após a exposição — idealmente nas primeiras 24 horas —, no máximo 200 mg a cada 24 horas, para adultos HSH e mulheres transgênero, com alvo declarado em clamídia e sífilis.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Gonorreia não complicada: terapia dupla ou ceftriaxona isolada?

Ceftriaxona 500 mg IM + azitromicina 1 g VO (PCDT-IST, Ministério da Saúde, 2022)

O Brasil mantém a associação. A justificativa está escrita no protocolo: a rede nacional de vigilância SenGono encontrou alta resistência do gonococo à penicilina, à tetraciclina e ao ciprofloxacino, emergência de resistência à azitromicina e sensibilidade total às cefalosporinas de terceira geração. Somando-se a isso a baixa disponibilidade de teste etiológico na rede, a azitromicina cumpre duas funções: cobrir empiricamente a clamídia não testada e agregar uma segunda droga contra o gonococo.

PCDT-IST 2022, Quadro 37 e seção 4 (manejo integral das pessoas com IST sintomáticas)

Ceftriaxona 500 mg IM isolada, com doxiciclina apenas se a clamídia não foi excluída (CDC, Estados Unidos, 2021)

A diretriz americana retirou a azitromicina do esquema padrão e passou a tratar gonorreia com ceftriaxona em monoterapia, acrescentando doxiciclina só quando a coinfecção por clamídia não pôde ser afastada. O raciocínio é de stewardship: a exposição populacional repetida à azitromicina pressiona resistência, e nos Estados Unidos o teste de amplificação de ácido nucleico está disponível o bastante para dispensar cobertura empírica.

CDC. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021 (MMWR Recomm Rep 70;4)

Na prova

A diferença é de disponibilidade diagnóstica, não de microbiologia. Enunciado ambientado em UBS ou pronto-atendimento do SUS, sem exame etiológico, com paciente que veio por corrimento — o vocabulário é o do manejo sindrômico e as alternativas trarão associações. Enunciado que informa NAAT positivo isolado para gonococo, ou que cita nominalmente o CDC, está pedindo o recorte americano. Um distrator com azitromicina sozinha denuncia que a questão quer testar se você sabe que o gonococo não é tratado com macrolídeo isolado em nenhuma das duas réguas.

Clamídia e uretrite não gonocócica: azitromicina em dose única ou doxiciclina por sete dias?

Azitromicina 1 g VO em dose única como primeira opção (PCDT-IST, Ministério da Saúde, 2022)

O protocolo brasileiro coloca a doxiciclina de 7 dias como segunda opção. A vantagem da dose única é operacional e vale mais em um sistema de manejo sindrômico: pode ser tomada na frente do profissional, elimina o problema de adesão e resolve o caso na consulta em que ele apareceu — coerente com a premissa do documento de que o paciente pode não retornar.

PCDT-IST 2022, Quadro 37

Doxiciclina 100 mg VO 12/12h por 7 dias como primeira escolha (CDC, 2021)

A diretriz americana inverteu a ordem em 2021, com base em desempenho superior da doxiciclina na infecção retal por clamídia — sítio frequentemente não testado e não sintomático — e no cenário de resistência do Mycoplasma genitalium aos macrolídeos. É a mesma ordem que o relatório da Conitec de 2026, ao descrever o tratamento vigente da clamídia, registra como primeira escolha: um documento brasileiro de 2026 já descreve a régua no arranjo internacional, enquanto a tabela do PCDT de 2022 mantém o arranjo inverso.

CDC. STI Treatment Guidelines, 2021; e CONITEC, Relatório de Recomendação nº 1.089, 2026, seção 4.3

Na prova

O sinal está no cenário e na data do documento citado. Questão que descreve corrimento uretral tratado empiricamente na atenção básica trabalha no arranjo do PCDT; questão que fornece resultado de biologia molecular, que menciona sítio retal ou que nomeia o CDC trabalha no outro. Quando o enunciado cita a fonte pelo nome, a fonte manda — e vale reparar no ano do documento citado, porque essa divergência é recente e brasileira também.

Alergia à penicilina fora da gestação: quantos dias de doxiciclina?

15 dias na sífilis recente e 30 dias na sífilis tardia (PCDT-IST, Ministério da Saúde, 2022)

O protocolo brasileiro fixa esses dois prazos no mesmo quadro do esquema com penicilina, e condiciona o uso da alternativa a acompanhamento clínico e laboratorial rigoroso, porque a evidência de cura sorológica com doxiciclina é menos robusta que a da penicilina.

PCDT-IST 2022, Quadro 15

14 dias na sífilis precoce e 28 dias na tardia (CDC, 2021)

A diretriz americana usa prazos de 14 e 28 dias para a mesma alternativa. A diferença de um e de dois dias não tem lastro em ensaio comparativo — é arredondamento de esquema em semanas de um lado e em quinzenas do outro.

CDC. STI Treatment Guidelines, 2021

Na prova

Divergência de baixa consequência clínica e alta capacidade de confundir. Banca brasileira que cobra número exato de dias está cobrando o PCDT; alternativa com 14 ou 28 dias em prova nacional costuma ser distrator construído a partir da diretriz americana. O que decide a questão de verdade quase nunca é o número de dias, e sim se o candidato lembrou que na gestante não existe alternativa nenhuma.

Doxi-PEP: quem é elegível?

Adultos HSH e mulheres transgênero, com ou sem HIV, sob protocolo e vigilância de resistência (CONITEC/Ministério da Saúde, 2026)

A incorporação brasileira delimita a população pelo perfil de exposição e não exige IST prévia como porta de entrada. Em compensação, o plenário condicionou a estratégia a uso conforme protocolo, com monitoramento sistemático e vigilância contínua de resistência antimicrobiana, e o alvo declarado é clamídia e sífilis — o gonococo não entrou na indicação incorporada.

CONITEC, Relatório de Recomendação nº 1.089, março de 2026; Portaria SCTIE/MS nº 16, de 10/3/2026

MSM e mulheres transgênero com pelo menos uma IST bacteriana nos últimos 12 meses (CDC, 2024)

A diretriz americana usa um gatilho de evento: ter tido sífilis, clamídia ou gonorreia nos 12 meses anteriores. A dose e a janela são as mesmas — 200 mg em até 72 horas, no máximo 200 mg a cada 24 horas —, e a recomendação vem acompanhada de retestagem para IST bacterianas nos sítios de exposição na linha de base e a cada 3 a 6 meses, com reavaliação da necessidade de manter a profilaxia no mesmo intervalo.

CDC Clinical Guidelines on the Use of Doxycycline Postexposure Prophylaxis, MMWR Recomm Rep 2024;73(2)

Na prova

Dose e janela de tempo são idênticas nos dois documentos — 200 mg em até 72 horas — e é isso que a questão de conhecimento tende a cobrar. O que diverge é o critério de elegibilidade e o alvo microbiológico. Enunciado que descreve paciente com IST bacteriana no último ano está usando o gatilho americano; enunciado ambientado em serviço do SUS, que fala em incorporação, protocolo ou vigilância de resistência, está no recorte brasileiro. Alternativa que inclua gonorreia entre as infecções prevenidas pela indicação incorporada no Brasil está descrevendo o que a portaria não cobre.

06

Caso resolvido

Homem de 26 anos procura a UBS por uma ferida no pênis, percebida há oito dias. Nega dor no local. Relata relação sexual sem preservativo há cerca de um mês, com parceria eventual. Ao exame: úlcera única de 1,2 cm no sulco bálano-prepucial, indolor à palpação, com bordas elevadas, base endurecida e fundo limpo; adenomegalia inguinal direita, móvel e indolor. Teste rápido treponêmico reagente no atendimento. VDRL colhido no mesmo dia volta reagente, título 1:32.
achado
Úlcera única, indolor, de base endurecida e fundo limpo, com adenopatia regional indolor, cerca de três semanas após a exposição. É o cancro duro — dentro da janela de incubação de 10 a 90 dias da sífilis primária.
diagnóstico
Teste treponêmico reagente somado a teste não treponêmico reagente fecha o diagnóstico de sífilis. Não há tratamento anterior documentado com queda de titulação, então não se trata de cicatriz sorológica. Com lesão primária presente, o estágio é sífilis primária — portanto, sífilis recente.
conduta
Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões de UI, IM, em dose única — 1,2 milhão em cada glúteo, preferencialmente na região ventroglútea. Nenhuma dose adicional: dose única é o esquema completo da sífilis recente fora da gestação.
orientação
Avisar sobre a reação de Jarisch-Herxheimer nas primeiras 24 horas — exacerbação das lesões, febre, cefaleia, mal-estar, com regressão espontânea em 12 a 24 horas — para que ela não seja confundida com alergia e não motive abandono do tratamento. Abstinência sexual até sete dias após a dose.
parceria
Exposição nos últimos 90 dias: oferecer tratamento presuntivo com benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões de UI, IM, em dose única, independentemente de sintomas, e testar. Se o teste da parceria vier reagente, tratar conforme o estágio dela.
notificação e seguimento
Notificar sífilis adquirida no Sinan — indivíduo sintomático com pelo menos um teste reagente já preenche a definição de caso. Testar também para HIV, hepatites B e C e clamídia/gonococo no mesmo atendimento, com retestagem de HIV em 4 a 6 semanas. VDRL de controle aos 3, 6, 9 e 12 meses, pelo mesmo método e, de preferência, no mesmo laboratório. A meta aos 6 meses é título não reagente ou queda de duas diluições — de 1:32 para 1:8 ou menos.
07

Agora feche você

Mulher de 41 anos, sem comorbidades, tratada há seis meses por sífilis primária com benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões de UI em dose única, aplicada na própria unidade e registrada em prontuário. O VDRL colhido no dia do tratamento era 1:32. Retorna hoje para o controle de seis meses: VDRL 1:32, mesmo laboratório, mesmo método. Está assintomática, sem lesões, e refere não ter tido nenhuma relação sexual desde o tratamento — a parceria fixa foi testada e tratada na mesma ocasião.
achado
Seis meses após tratamento adequado de sífilis recente, o título do teste não treponêmico permanece 1:32, sem nenhuma queda. Paciente assintomática e sem reexposição sexual referida.
leitura do exame
Resposta imunológica adequada na sífilis recente seria teste não treponêmico não reagente ou queda de duas diluições em até seis meses — o esperado aqui seria 1:8 ou menos. Não houve queda alguma, e não se trata de cicatriz sorológica, porque cicatriz sorológica exige queda prévia documentada de pelo menos duas diluições.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar latente de duração ignorada com dose única É o erro mais cobrado. O raciocínio que atrai é o de que 'não tem lesão e o título é baixo, então é recente'. O protocolo faz o contrário: sem data conhecida de infecção, trata-se como tardia — três doses semanais, 7,2 milhões de UI no total. Título baixo sem registro de tratamento é justamente a descrição de latente tardia.
  2. 2Achar que VDRL não reagente exclui sífilis Duas rotas para o falso-negativo. A primeira é temporal: o teste não treponêmico só se torna reagente uma a três semanas após o aparecimento do cancro duro, então há uma janela real com lesão presente e VDRL negativo. A segunda é o fenômeno de prozona, em que o excesso de anticorpos impede a reação na amostra pura — motivo pelo qual a rotina laboratorial já testa a amostra diluída a 1:8 ou 1:16.
  3. 3Confundir Jarisch-Herxheimer com alergia à penicilina Febre, cefaleia, mal-estar e piora das lesões nas primeiras 24 horas depois da injeção parecem reação adversa grave, e a reação intuitiva é suspender. É o oposto: a reação regride sozinha em 12 a 24 horas, é controlada com analgésico simples e não motiva interromper o esquema. Alergia verdadeira à benzatina é rara e se apresenta como urticária e exantema pruriginoso — e a chance de anafilaxia é de 0,002%.
  4. 4Completar o esquema atrasado de onde parou Parece razoável aplicar a terceira dose com três semanas de atraso e considerar o tratamento feito. Na sífilis tardia em pessoa não gestante, intervalo maior que 14 dias entre doses obriga a reiniciar o esquema inteiro. Guardar essa regra vale mais do que decorar o total de 7,2 milhões de UI.
  5. 5Ler variação de uma diluição como resposta ou como falha Cair de 1:32 para 1:16, ou subir de 1:8 para 1:16, é uma diluição — e o protocolo manda analisar essa variação com cautela, porque o teste não é automatizado e a leitura depende do observador. Os limiares de decisão, para os dois lados, são de duas diluições.
  6. 6Notificar cicatriz sorológica ou deixar de notificar sífilis adquirida Sífilis adquirida é de notificação compulsória desde 2010 e a definição de caso é generosa: no sintomático, um único teste reagente em qualquer titulação já basta. Do outro lado, caso confirmado de cicatriz sorológica não deve ser notificado — o que atrai o erro é o VDRL persistentemente reagente parecer doença ativa.
  7. 7Achar que neurossífilis é só da fase terciária O secundarismo já pode cursar com quadros neurológicos e oculares, e o próprio protocolo lista punção lombar diante de sintoma neurológico ou oftalmológico, sem exigir estágio. Em pessoa vivendo com HIV, a investigação está indicada em todos os casos de retratamento, tenha havido ou não nova exposição sexual.
  8. 8Incisar e drenar o bubão do cancroide Linfonodo tenso e flutuante pede alívio, e o reflexo cirúrgico é drenar. O protocolo indica aspiração com agulha de grosso calibre e contraindica expressamente a incisão com drenagem e a excisão dos linfonodos acometidos — a cicatrização pode ser desfigurante.
  9. 9Tratar o paciente e esquecer a parceria Um terço das parcerias de pessoas com sífilis recente adoece em até 30 dias. Exposição nos últimos 90 dias indica tratamento presuntivo com dose única de 2,4 milhões de UI, mesmo sem sintomas e mesmo antes do resultado do teste. Nas uretrites, a abstinência sexual vai até sete dias depois da dose única — e vale para os dois.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Úlcera única, indolor, de base endurecida e fundo limpo (cancro duro) com adenopatia indolor é característica da sífilis primária (Treponema pallidum). Haemophilus ducreyi causa cancro mole: úlceras múltiplas, dolorosas, de fundo sujo e adenopatia dolorosa/supurativa. Herpes cursa com vesículas agrupadas dolorosas que ulceram. LGV (Chlamydia) causa lesão inicial fugaz e adenopatia dolorosa com fistulização. Donovanose (Klebsiella granulomatis) causa úlcera crônica, granulomatosa e progressiva, sem adenopatia típica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os dois números que estruturam a sífilis: um ano separa recente de tardia; duas diluições definem resposta e retratamento. Depois complete a régua: dose única de 2,4 milhões de UI na recente, três doses semanais na tardia (total 7,2 milhões), intervalo máximo de 14 dias entre doses na pessoa não gestante sob pena de reiniciar. Alternativa fora da gestação: doxiciclina 100 mg 12/12h, 15 dias na recente e 30 dias na tardia. Seguimento aos 3, 6, 9 e 12 meses. E o esquema sindrômico do corrimento uretral: ceftriaxona 500 mg IM + azitromicina 1 g VO.

em 30 dias

Reconstrua três decisões sem consultar. (1) Paciente assintomático, VDRL 1:4, teste treponêmico reagente, sem registro de tratamento e sem data de infecção — qual estágio, quantas doses? (2) Seis meses após tratar sífilis primária, VDRL não caiu e não houve reexposição — qual critério foi preenchido e qual exame vem antes de repetir a penicilina? (3) Úlceras múltiplas e dolorosas com bubão flutuante — qual agente, qual antibiótico, e o que não se faz com o linfonodo? Feche revisando a definição de caso de sífilis adquirida (assintomático exige dois testes; sintomático, um) e a régua de doxi-PEP de 2026: 200 mg em até 72 horas.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 33 anos chega à unidade básica queixando-se de corrimento uretral amarelado há três dias, com ardência ao urinar. Relata relação sexual sem preservativo há uma semana. Ao exame, secreção purulenta pelo meato uretral, sem úlceras nem adenomegalia. A unidade não dispõe de teste etiológico no momento. Conduza o atendimento: anamnese sexual, tratamento na própria consulta, testagem para as demais IST, orientação sobre abstinência e abordagem da parceria. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.