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Clínica MédicaInfectologia

Tétano: profilaxia no ferimento

A prova quase nunca pergunta o que é tétano. Ela entrega um ferimento, uma história vacinal e cobra duas decisões independentes: vacina, sim ou não; imunização passiva, sim ou não.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Uma criança de 5 anos apresentou ferimento cutâneo profundo e contaminado com terra. A mãe apresenta a caderneta demonstrando esquema vacinal COMPLETO para a idade, com a última dose de vacina contendo o componente tetânico (DTP/pentavalente) administrada há menos de 5 anos. Qual é a conduta correta quanto à profilaxia do tétano?

02

Como esse tema cai

Tétano é um tema operacional. Não se discute diagnóstico diferencial fino nem escolha entre estratégias: existe um quadro de duas entradas no Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, e a questão de prova é quase sempre uma célula desse quadro. As duas entradas são o tipo de ferimento e a história vacinal. As duas saídas são a vacina e a imunização passiva — decididas separadamente, o que é justamente o ponto que a maioria dos erros ignora.

Este capítulo cobre a profilaxia do tétano acidental no adulto: como classificar o ferimento, como contar a história vacinal, quando entra vacina, quando entra soro antitetânico ou imunoglobulina, e o que fazer com o ferimento em si. Cobre também o esquema vacinal completo — dT, dTpa, gestante, profissional de saúde — porque a mesma questão que dá um ferimento costuma cobrar de quebra a dose que faltava no cartão. E fecha com o tétano já instalado, que cai menos, mas cai com pegadinhas fixas: o diagnóstico é clínico, o paciente permanece lúcido e a doença não deixa imunidade.

O tema continua caindo porque a doença continua acontecendo. Entre 2021 e 2023 o Brasil confirmou 173, 200 e 135 casos por ano, com letalidade de 27%, 26% e 26% — o dobro da faixa de 10% a 17% observada em países desenvolvidos. Oito em cada dez casos ocorrem entre 30 e 79 anos, concentrados em aposentados, trabalhadores da agropecuária e da construção civil: adultos que perderam o reforço decenal e que se ferem com o que há de mais tetanogênico no ambiente de trabalho. É doença de adulto mal vacinado, não de criança.

03

O que muda decisão

A primeira variável: que ferimento é esse

O Guia de Vigilância em Saúde só reconhece duas categorias, e as define por escrito. Ferimento com risco mínimo de tétano é o ferimento superficial, limpo, sem corpos estranhos e sem tecidos desvitalizados. Ferimento com alto risco de tétano é o ferimento profundo ou o superficial sujo; o que tem corpo estranho ou tecido desvitalizado; queimaduras; feridas puntiformes ou por armas brancas e de fogo; mordeduras; politraumatismos e fraturas expostas.

Repare que a lista de alto risco é definida por mecanismo, não por aparência. Uma ferida puntiforme por prego ou agulha é de alto risco mesmo quando quase não sangra e mesmo quando o objeto parecia limpo: o que a qualifica é ser puntiforme, porque a anaerobiose se estabelece no fundo do trajeto. Mordedura é de alto risco mesmo quando pequena. Queimadura é de alto risco mesmo sem sujidade visível. A vinheta que descreve 'pequeno ferimento perfurante no pé ao pisar em prego' está descrevendo alto risco, por mais discreta que seja a lesão.

Não existe categoria intermediária. Todo ferimento que não preenche integralmente a definição de risco mínimo — superficial, limpo, sem corpo estranho e sem tecido desvitalizado, tudo ao mesmo tempo — é tratado como de alto risco. Quando a vinheta descreve escoriação superficial de queda em calçada, sem terra e sem tecido morto, é risco mínimo; quando descreve corte com faca de cozinha limpa, superficial, também. Basta acrescentar terra, profundidade ou um pedaço de vidro dentro para mudar de coluna.

Essa é a variável que a questão manipula com mais frequência, porque é a única que depende de interpretação. A história vacinal vem escrita em número de doses e anos; o ferimento vem descrito em prosa, e é na prosa que mora a decisão.

A segunda variável: quantas doses e há quanto tempo

A história vacinal entra no quadro em quatro faixas, mais uma quinta que é uma exceção qualificada. Primeira faixa: história incerta ou menos de três doses. Segunda: três doses ou mais, com a última há menos de cinco anos. Terceira: três doses ou mais, com a última entre cinco e dez anos. Quarta: três doses ou mais, com a última há dez anos ou mais. A quinta faixa é a quarta acrescida de 'situações especiais'.

Contam as doses de qualquer vacina que contenha o toxoide tetânico — penta, DTP, dT, dT ou dTpa. Três doses documentadas fecham o esquema básico; abaixo disso, ou sem documentação que comprove, o paciente entra na primeira faixa. Relato verbal sem cartão é história incerta: 'acho que tomei todas quando servi ao Exército' conta como incerta, e essa é uma das trocas de coluna mais cobradas.

O cruzamento tem uma simetria que vale decorar. Quem tem esquema completo e última dose há menos de cinco anos não recebe nada — nem vacina, nem soro —, seja qual for o ferimento. Quem tem história incerta ou menos de três doses recebe vacina em qualquer ferimento, e recebe também imunização passiva se o ferimento for de alto risco. No meio, só a vacina se move: com ferimento de risco mínimo, o reforço entra a partir dos dez anos; com ferimento de alto risco, entra já a partir dos cinco.

Daí vem a regra de bolso mais útil do tema: em todo o quadro, a imunização passiva aparece em apenas duas células. Ferimento de alto risco em quem tem história incerta ou menos de três doses; e ferimento de alto risco em quem tem esquema completo com dez anos ou mais de intervalo, mas em situações especiais. Todas as demais combinações se resolvem com vacina ou com nada. Quem sai indicando soro para todo cartão vencido está errando por excesso — e a prova cobra exatamente esse excesso.

As três notas de rodapé, que é onde a prova mora

O quadro tem três notas, e elas valem tanto quanto as células. A primeira diz que vacinar alguém com esquema incompleto no pronto-socorro não é dose avulsa: é preciso aprazar as próximas doses para completar o esquema básico, porque essa vacinação protege contra os ferimentos futuros, não só contra o de hoje. Um atendimento que aplica a dose e libera o paciente sem agendamento deixou a tarefa pela metade.

A segunda nota é a mais cobrada. Para o paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso, além do reforço com a vacina está também indicada IGHAT ou SAT. Ela se aplica às faixas de esquema completo com cinco anos ou mais de intervalo e ferimento de alto risco — justamente as células em que a coluna diz 'não' para a imunização passiva. Ou seja: a mesma vinheta muda de conduta se o paciente for idoso, estiver desnutrido ou usar imunossupressor. É a nota que transforma uma questão fácil em difícil.

A terceira nota autoriza a imunização passiva quando o profissional que atende suspeita de que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados — paciente que não vai retornar, ferimento em que o debridamento não pôde ser completo, condições de moradia que inviabilizam curativo. É a definição operacional de 'situações especiais' na última linha do quadro, e vale também na primeira faixa. Sempre que vacina e soro forem indicados juntos, aplicam-se em locais diferentes.

Somando as duas últimas notas, 'situações especiais' significa, na prática: imunodepressão, desnutrição grave, idade avançada ou dúvida fundamentada sobre o cuidado posterior do ferimento. Não é um campo aberto para o julgamento livre — é essa lista.

Vacina: qual, quantas, de quanto em quanto tempo

A partir dos 7 anos de idade, a vacina do calendário público contra tétano é a dupla adulto (dT), 0,5 mL por via intramuscular, preferencialmente no deltoide. Quem nunca se vacinou ou não tem comprovação recebe três doses, com intervalo recomendado de 60 dias entre elas e mínimo de 30 dias em situações excepcionais. Quem tem esquema incompleto completa até três doses, aproveitando as anteriores — nunca se recomeça o esquema. Depois disso, um reforço a cada dez anos, antecipado para cinco anos em caso de exposição a risco de difteria ou tétano.

Essa antecipação para cinco anos não é uma regra separada: é a mesma que aparece no quadro do ferimento. O ferimento de alto risco é a exposição a risco, e por isso quem tem esquema completo com intervalo entre cinco e dez anos leva um reforço quando chega com ferimento sujo, e não leva nada quando chega com escoriação limpa.

Abaixo dos 7 anos não se usa dT. A criança segue o calendário infantil: penta aos 2, 4 e 6 meses, reforço com DTP aos 15 meses e segundo reforço aos 4 anos. A vinheta pediátrica que oferece 'dupla adulto' como alternativa está oferecendo a vacina errada para a idade.

A gestante tem regra própria e independente do ferimento: uma dose de dTpa a partir da 20ª semana, em cada gravidez, mesmo que o esquema básico esteja completo e mesmo que a última dose seja recente. O objetivo é a passagem de anticorpos para o recém-nascido, protegendo contra tétano neonatal e coqueluche até que o bebê comece o próprio esquema aos 2 meses. Se o esquema básico estiver incompleto, a atualização combina dT e dTpa até totalizar três doses: sem nenhuma dose prévia, duas de dT mais uma de dTpa; com uma dose prévia, uma de dT mais uma de dTpa; com duas doses prévias, apenas a dTpa a partir da 20ª semana. Quando a gestante chega ao serviço já depois da 20ª semana, aplica-se a dTpa primeiro e completa-se o esquema com dT ainda na gestação; não sendo possível, agenda-se para o puerpério em até 45 dias.

Profissionais de saúde, parteiras tradicionais e estagiários que assistem recém-nascidos recebem uma dose de dTpa mesmo que tenham tomado uma vacina com toxoide diftérico e tetânico há menos de dez anos, e daí em diante fazem os reforços decenais com dTpa no lugar da dT — também antecipados para cinco anos em exposição a risco.

Imunização passiva: SAT e IGHAT

Existem dois produtos para neutralizar a toxina já circulante, e eles não são intercambiáveis por preferência do prescritor. O soro antitetânico (SAT) é heterólogo: imunoglobulinas purificadas obtidas de plasma de equinos hiperimunizados. A imunoglobulina humana antitetânica (IGHAT) é homóloga, obtida de plasma de doadores humanos com altos títulos de antitoxina. No calendário público brasileiro, o SAT é o produto de rotina e a IGHAT tem indicações fechadas.

As doses caem direto. Na profilaxia: SAT 5.000 UI, IGHAT 250 UI. No tratamento do tétano já instalado: SAT 20.000 UI, IGHAT 500 UI — podendo chegar a 6.000 UI a critério médico. A IGHAT é sempre intramuscular e deve ser aplicada em grupo muscular diferente daquele em que se aplicou a vacina. O SAT pode ser intramuscular ou endovenoso; se intramuscular, divide-se em duas massas musculares diferentes, e a diluição é feita em soro fisiológico ou glicosado a 5%.

A IGHAT está indicada, no lugar do SAT, em quatro situações: pessoas que apresentaram qualquer tipo de hipersensibilidade ao uso de qualquer soro heterólogo — antitetânico, antirrábico, antidiftérico, antiofídico; pessoas imunodeprimidas, sempre que houver indicação de imunoprofilaxia contra o tétano, mesmo vacinadas, porque a meia-vida dos anticorpos é maior; recém-nascidos em situação de risco cuja mãe seja desconhecida ou não tenha sido adequadamente vacinada; e recém-nascidos prematuros com lesões potencialmente tetanogênicas, independentemente da história vacinal materna.

A proteção passiva é curta: a conferida pelo SAT dura em torno de duas semanas, a da IGHAT, aproximadamente três. É por isso que soro nunca substitui vacina — ele cobre a janela do ferimento atual, e quem recebeu soro por ter esquema incompleto continua precisando das doses que faltam.

Dois detalhes de segurança são cobráveis. O teste de sensibilidade cutânea foi excluído da rotina de administração de soros, porque seu valor preditivo é discutível e imprevisível — quem ainda descreve 'fazer o teste antes' está descrevendo prática abandonada. E a administração de doses subsequentes de soro é contraindicada: repetiu, não repete. O soro heterólogo só deve ser aplicado em serviço preparado para tratar anafilaxia, com acesso venoso instalado, material de emergência à mão e supervisão médica permanente, mantendo o paciente em observação hospitalar por pelo menos 24 horas.

O ferimento em si: limpeza, debridamento e o antibiótico que não entra

A conduta local integra a profilaxia e aparece na coluna 'outras condutas' do quadro. Limpa-se o ferimento com soro fisiológico ou água e sabão; faz-se o debridamento, retirando todo o tecido desvitalizado e os corpos estranhos; depois disso, limpeza com água oxigenada ou solução antisséptica — álcool a 70%, clorexidina, permanganato de potássio a 1:5.000. Ferimentos puntiformes e profundos devem ser abertos em cruz e lavados generosamente, porque o que impede o esporo de germinar é a entrada de oxigênio no fundo do trajeto.

O antibiótico sistêmico não faz parte da profilaxia do tétano. O Guia é explícito: não há comprovação de eficácia do uso de penicilina benzatina nas infecções cutâneas para profilaxia do tétano acidental. A dose de benzilpenicilina benzatina aplicada 'para prevenir tétano' é conduta sem respaldo, e o distrator existe em prova justamente porque a prática persiste em serviço. Antibiótico pode ser indicado para tratar infecção da ferida — isso é outra decisão, com outra justificativa.

Vale registrar o que a limpeza não resolve: nenhuma técnica de cuidado local dispensa a decisão imunológica. Ferida bem lavada em paciente com história vacinal incerta continua pedindo vacina, e continua pedindo soro se o ferimento for de alto risco.

Quando o tétano já está instalado

O período de incubação vai de 3 a 21 dias, em média de 5 a 15 — e quanto mais curto, pior o prognóstico. O período de progressão, contado do primeiro sintoma até o primeiro espasmo espontâneo, segue a mesma lógica: quanto mais curto, pior. A doença não é contagiosa e exige apenas precaução padrão.

O quadro é de hipertonia muscular mantida, com febre ausente ou baixa, hiperreflexia profunda e contraturas paroxísticas desencadeadas por estímulo tátil, sonoro, luminoso ou por temperatura ambiente alta. Começa pela dificuldade de abrir a boca — trismo e riso sardônico — e pela dificuldade de deambular. Progride para disfagia, rigidez de nuca, rigidez paravertebral com opistótono, hipertonia torácica e abdominal (abdome em tábua). A hipertonia torácica, a contração da glote e as crises espásticas causam insuficiência respiratória, que é causa frequente de morte. Nas formas graves surge disautonomia, com taquicardia, sudorese profusa, hipertensão e febre, e a presença dela agrava o prognóstico.

O paciente se mantém consciente e lúcido — e esse é o detalhe que a definição de caso confirmado transforma em critério: a lucidez reforça o diagnóstico. O diagnóstico é essencialmente clínico e não depende de confirmação laboratorial; os exames servem para manejar complicações. Culturas de sangue, secreção e urina só são indicadas quando há infecção secundária. Caso suspeito é todo paciente acima de 28 dias de vida com um ou mais de disfagia, trismo, riso sardônico, opistótono ou contraturas musculares localizadas ou generalizadas, com ou sem espasmos — independentemente da situação vacinal, de história prévia de tétano e de se encontrar ou não a porta de entrada. Não achar o ferimento não afasta o diagnóstico.

Os diferenciais clássicos são a intoxicação por metoclopramida e por neurolépticos, que causam trismo e hipertonia; a tetania por hipocalcemia, com sinais de Trousseau e Chvostek e relaxamento entre os paroxismos; a meningite, com febre alta desde o início, cefaleia, vômito e sem trismo; a raiva, com história de mordedura, alteração de comportamento e sem trismo; a intoxicação por estricnina, sem trismo e sem hipertonia entre os espasmos; e os processos inflamatórios de boca e faringe — abscesso dentário, abscesso amigdaliano ou retrofaríngeo — que causam trismo isolado.

O tratamento se apoia em cinco pilares: sedação do paciente, neutralização da toxina, debridamento do foco, antibioticoterapia e medidas gerais de suporte. A hospitalização é imediata, preferencialmente em UTI; não havendo, quarto individual com ruído e luminosidade reduzidos e temperatura estável. O relaxamento muscular é o principal objetivo, com benzodiazepínico endovenoso — diazepam, substituível por midazolam —, clorpromazina quando a resposta ao diazepam é insatisfatória, e bloqueador neuromuscular nos refratários. Na antibioticoterapia, penicilina G cristalina 2.000.000 UI por dose, endovenosa, de 4 em 4 horas, ou metronidazol 500 mg, endovenoso, de 8 em 8 horas, ambos por 7 a 10 dias: não há evidência suficiente de superioridade de um sobre o outro, embora alguns dados mostrem maior benefício com o metronidazol. Entre as medidas gerais, manipular o paciente o mínimo necessário, sedar antes de qualquer procedimento e usar heparina de baixo peso molecular em quem tem risco de trombose e nos idosos.

A alta hospitalar não encerra o assunto: a doença não confere imunidade. Quem teve tétano deve ser referenciado à unidade básica para iniciar ou completar o esquema de três doses, com reforço a cada dez anos, como qualquer outra pessoa.

Paciente adulto deitado em leito hospitalar com o tronco arqueado, apoiado apenas na cabeça e nos calcanhares, mandíbula travada, face contraída e membros rígidos.
Opistótono e trismo no tétano generalizado. A hipertonia é mantida e os espasmos são desencadeados por estímulos — daí o quarto escuro e silencioso e a manipulação mínima. O paciente permanece consciente e lúcido.

Notificação e vigilância

Tétano acidental e tétano neonatal são de notificação compulsória imediata, em até 24 horas, à Secretaria Municipal de Saúde — é o que consta da Lista Nacional de Notificação Compulsória em vigor, atualizada pela Portaria GM/MS nº 5.201, de 15 de agosto de 2024. A notificação parte do caso suspeito, não do confirmado, e pode ser feita por qualquer profissional de saúde ou por qualquer pessoa da comunidade.

O registro é feito no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), pela Ficha de Investigação do Tétano Acidental, e a investigação começa imediatamente após a notificação. O caso deve ser encerrado em até 60 dias contados da notificação, com atualização do Sinan e, quando couber, do Sistema de Informação sobre Mortalidade e do Sistema de Informação Hospitalar.

A vigilância não é burocracia paralela ao atendimento: cada caso investigado identifica uma população suscetível — o assentamento onde a cobertura vacinal caiu, a obra sem proteção, o serviço que deixou de aprazar as doses. É esse o motivo de a investigação ser imediata mesmo numa doença não contagiosa.

04

Do ferimento à decisão

O caminho inteiro cabe em sete passos e numa tabela de duas entradas. Os cards destrincham a única escala verdadeiramente ordinal do tema — o tempo desde a última dose, que é o que corrói a proteção e move a coluna da vacina. A tabela principal é o quadro do Ministério da Saúde, reproduzido célula a célula; as duas tabelas seguintes fecham as doses dos imunobiológicos e o antibiótico do tétano já instalado.

  1. 1Classifique o ferimento em risco mínimo ou alto risco pela definição escrita: risco mínimo exige superficial, limpo, sem corpo estranho e sem tecido desvitalizado, tudo ao mesmo tempo. Faltou um desses, é alto risco.
  2. 2Conte as doses documentadas de vacina com toxoide tetânico — penta, DTP, DT, dT ou dTpa. Menos de três, ou relato sem comprovação, entra como história incerta.
  3. 3Meça o tempo desde a última dose e enquadre em uma das três faixas: menos de cinco anos, entre cinco e dez anos, dez anos ou mais.
  4. 4Cruze as duas variáveis no quadro e decida vacina e imunização passiva como duas perguntas separadas — a maioria das células responde 'sim' a uma e 'não' à outra.
  5. 5Aplique as exceções das notas: imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso com ferimento de alto risco e esquema completo há cinco anos ou mais recebem também IGHAT ou SAT; dúvida fundamentada sobre o cuidado posterior do ferimento autoriza a imunização passiva.
  6. 6Escolha o produto passivo, quando indicado: SAT 5.000 UI é a rotina; IGHAT 250 UI substitui o SAT em hipersensibilidade prévia a soro heterólogo, imunodepressão, recém-nascido de mãe não vacinada ou desconhecida e prematuro com lesão tetanogênica. Vacina e soro vão em locais diferentes.
  7. 7Cuide do ferimento — limpeza com soro fisiológico ou água e sabão, remoção de corpo estranho e tecido desvitalizado, água oxigenada ou antisséptico, abertura em cruz das feridas puntiformes profundas — e, se vacinou alguém com esquema incompleto, apraze as doses restantes antes de o paciente sair.

História incerta ou menos de três doses

Esquema básico não fechado. Recebe vacina em qualquer ferimento, e recebe também imunização passiva quando o ferimento é de alto risco. A dose aplicada no pronto-socorro não é avulsa: as próximas doses precisam ser aprazadas para completar as três. Relato verbal sem cartão entra aqui.

Três doses ou mais, última há menos de cinco anos

Proteção cheia. Não recebe vacina nem imunização passiva, seja o ferimento de risco mínimo ou de alto risco. É a única linha do quadro em que as quatro células respondem 'não'. Gestante é exceção por outro motivo: a dTpa de cada gravidez independe do ferimento.

Três doses ou mais, última entre cinco e dez anos

Proteção parcial. Ferimento de risco mínimo não pede nada; ferimento de alto risco pede um reforço da vacina, sem soro. Aqui mora a nota mais cobrada: se o paciente for imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso, o ferimento de alto risco pede também IGHAT ou SAT.

Três doses ou mais, última há dez anos ou mais

Proteção vencida. Recebe vacina nos dois tipos de ferimento — reforço isolado, não novo esquema. Imunização passiva só nas situações especiais: imunodepressão, desnutrição grave, idade avançada ou dúvida fundamentada sobre o cuidado posterior do ferimento.

História de vacinação prévia contra tétanoRisco mínimo — vacinaRisco mínimo — SAT/IGHATAlto risco — vacinaAlto risco — SAT/IGHAT
Incerta ou menos de três dosesSim (e aprazar as demais)NãoSim (e aprazar as demais)Sim
Três doses ou mais, última há menos de cinco anosNãoNãoNãoNão
Três doses ou mais, última há mais de cinco e menos de dez anosNãoNãoSim (um reforço)Não — exceto imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso
Três doses ou mais, última há dez anos ou maisSimNãoSim (um reforço)Não — exceto imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso
Três doses ou mais, última há dez anos ou mais, em situações especiaisSimNãoSim (um reforço)Sim

Imunização passiva: dose profilática e dose terapêutica

ImunobiológicoDose profiláticaDose terapêuticaViaObservação
Imunoglobulina humana antitetânica (IGHAT)250 UI500 UI (até 6.000 UI a critério médico)IntramuscularAplicar em grupo muscular diferente do da vacina; proteção dura cerca de três semanas
Soro antitetânico (SAT), heterólogo equino5.000 UI20.000 UIIntramuscular ou endovenosaSe intramuscular, dividir em duas massas musculares; diluir em soro fisiológico ou glicosado a 5%; proteção dura cerca de duas semanas

Vacina com toxoide tetânico por idade e situação

SituaçãoVacinaEsquema
Menor de 7 anosPenta e DTPTrês doses aos 2, 4 e 6 meses; reforços aos 15 meses e aos 4 anos
A partir de 7 anos, sem esquema ou sem comprovaçãodTTrês doses com intervalo de 60 dias (mínimo de 30); reforço a cada dez anos
A partir de 7 anos, esquema completodTUm reforço a cada dez anos, antecipado para cinco anos em exposição a risco de difteria ou tétano
GestantedTpa (combinada com dT quando o esquema está incompleto)Uma dose de dTpa a partir da 20ª semana, em cada gravidez; se o esquema básico não está completo, completar até três doses; não sendo possível na gestação, puerpério em até 45 dias
Profissional de saúde, parteira tradicional e estagiáriodTpaUma dose mesmo que tenha recebido vacina com toxoide tetânico há menos de dez anos; reforços decenais com dTpa no lugar da dT

Antibiótico para eliminação do C. tetani no tétano instalado

AntibióticoAdultoCriançaVia e intervaloDuração
Penicilina G cristalina2.000.000 UI por dose50.000 a 100.000 UI/kg/diaEndovenosa, de 4 em 4 horas7 a 10 dias
Metronidazol500 mg7,5 mg/kg por doseEndovenosa, de 8 em 8 horas7 a 10 dias

Vacinar quem tem esquema incompleto exige aprazar as doses seguintes: a vacinação do atendimento protege contra ferimentos futuros, não apenas contra o de hoje.

Paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso com ferimento de alto risco recebe IGHAT ou SAT além do reforço, mesmo nas células em que a coluna diz 'não'.

Suspeita fundamentada de que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados autoriza a imunização passiva e define as 'situações especiais' da última linha.

Quando vacina e SAT ou IGHAT são indicados ao mesmo tempo, aplicam-se em locais diferentes.

Penicilina benzatina não previne tétano: não há comprovação de eficácia do seu uso em infecções cutâneas para profilaxia do tétano acidental.

O teste de sensibilidade cutânea foi excluído da rotina de administração de soros, e doses subsequentes de soro heterólogo são contraindicadas.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Reforço decenal do adulto: dT ou dTpa

Calendário Nacional de Vacinação: dT no reforço, dTpa reservada a dois grupos

O reforço decenal da população geral é feito com dupla adulto (dT), antecipado para cinco anos em exposição a risco de difteria ou tétano. A dTpa fica reservada a duas situações: uma dose em cada gestação a partir da 20ª semana, e os reforços de profissionais de saúde, parteiras tradicionais e estagiários que assistem recém-nascidos, que substituem a dT pela dTpa.

Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª edição, ano 2026, Ministério da Saúde

SBIm: dTpa no reforço de todo adulto, a cada dez anos

Atualizar a dTpa em qualquer adulto, independentemente do intervalo prévio com dT ou toxoide tetânico isolado, e fazer o reforço com dTpa a cada dez anos. Em não vacinados, uma dose de dTpa mais duas de dT no esquema 0-2-4 a 8 meses. Em adultos que convivem com lactentes, considerar antecipar o reforço com dTpa para cinco anos. O argumento é a redução da transmissão de Bordetella pertussis para suscetíveis de alto risco.

Calendário de Vacinação SBIm Adulto, recomendações 2024/2025

Na prova

A divergência não é sobre proteção contra tétano — as duas vacinas contêm o mesmo toxoide tetânico. É sobre o componente pertussis, e a distância entre os documentos tem causa econômica: a dTpa custa muito mais e o programa público concentra o componente pertussis em quem protege o lactente. Para identificar o recorte: enunciado ambientado em unidade básica, sala de vacina do SUS ou que cite o Calendário Nacional está no corpo do programa público; enunciado que cita nominalmente a sociedade, clínica privada de vacinação ou adulto que convive com recém-nascido está no corpo da sociedade. As alternativas denunciam: quando aparecem 'dT a cada dez anos' e 'dTpa a cada dez anos' lado a lado como opções de reforço para adulto sem qualificação, a questão está pedindo o documento que ela mesma citou no enunciado.

Imunodeprimido com ferimento contaminado e esquema vacinal em dia

Guia de Vigilância em Saúde: imunização passiva a partir de cinco anos da última dose

A nota do quadro estende IGHAT ou SAT ao imunodeprimido, ao desnutrido grave e ao idoso com ferimento de alto risco, mas apenas nas faixas de esquema completo com cinco anos ou mais desde a última dose. Com esquema completo e última dose há menos de cinco anos, a linha do quadro responde 'não' às quatro células, e a imunodepressão não a altera.

Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição, Ministério da Saúde, 2023 — Quadro 4, nota d

ACIP/CDC: imunoglobulina em ferida contaminada de imunodeprimido, qualquer que seja a história vacinal

Pessoas com infecção pelo HIV ou imunodeficiência grave que tenham ferimentos contaminados recebem imunoglobulina antitetânica humana independentemente da história de imunização contra o tétano — inclusive com esquema completo e recente. A dose é de 250 unidades por via intramuscular.

Recomendação do ACIP/CDC, reproduzida no serviço de perguntas técnicas do Immunize.org

Na prova

A causa da distância é de insumo, não de fisiopatologia: a imunoglobulina humana vem de plasma de doador, tem oferta restrita e distribuição controlada no país, e o documento brasileiro a concentra onde o risco absoluto é maior. Para identificar o recorte: cenário de UPA, unidade básica ou pronto-socorro do SUS, com o enunciado descrevendo cartão vacinal e tempo desde a última dose, está pedindo o cruzamento do quadro do Ministério da Saúde. Enunciado que caracteriza imunodeficiência grave — contagem de CD4, transplantado em imunossupressão, quimioterapia em curso — e oferece imunoglobulina mesmo com vacina recente está trabalhando com o corpo internacional. A palavra 'idoso' junto de 'ferimento sujo' é marca do documento brasileiro: nenhuma diretriz internacional usa idade como critério isolado para imunização passiva.

Qual produto passivo: soro heterólogo equino ou imunoglobulina humana

Programa Nacional de Imunizações: SAT como rotina, IGHAT com indicações fechadas

O soro antitetânico equino, 5.000 UI na profilaxia, é o produto de rotina da rede pública. A imunoglobulina humana antitetânica, 250 UI, entra em quatro situações: hipersensibilidade prévia a qualquer soro heterólogo, imunodepressão, recém-nascido em risco cuja mãe seja desconhecida ou não adequadamente vacinada, e prematuro com lesão potencialmente tetanogênica.

Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição, Ministério da Saúde, 2023 — Quadro 2 e indicações de IGHAT

ACIP/CDC: imunoglobulina humana como único produto passivo de rotina

A imunoprofilaxia passiva do tétano é feita com imunoglobulina antitetânica humana, 250 unidades por via intramuscular, em qualquer paciente com indicação. A antitoxina de origem equina não integra a rotina de manejo de ferimentos.

Recomendação do ACIP/CDC, reproduzida no guia resumido de manejo de ferimentos do Departamento de Saúde de Minnesota

Na prova

Não é discordância sobre eficácia: a imunoglobulina humana é melhor tolerada e tem meia-vida maior — três semanas contra duas —, e o documento brasileiro reconhece isso ao mandar que o imunodeprimido receba sempre IGHAT em vez de SAT. A distância é de custo e de disponibilidade. Para identificar o recorte: se o enunciado planta uma das quatro indicações — reação prévia a soro heterólogo, imunossupressão, recém-nascido de mãe não vacinada, prematuro —, a própria régua brasileira já leva à IGHAT, e não há corpo internacional envolvido. Quando a imunoglobulina humana aparece como conduta de rotina para adulto hígido em unidade do SUS, a alternativa está descrevendo prática de outro sistema de saúde. Todo cuidado com anafilaxia, observação de 24 horas e diluição descrito na questão é sinal de que o produto em jogo é o soro equino.

06

Caso resolvido

Homem de 58 anos, trabalhador rural, chega à unidade de pronto atendimento duas horas depois de pisar em um prego enquanto trabalhava na horta. Refere dor local e nega outros sintomas. Ao exame: ferida puntiforme na região plantar do pé direito, com cerca de 3 mm de diâmetro, pouco sangramento, terra visível ao redor da lesão, sem sinais de infecção. Traz o cartão de vacinação, que documenta três doses de dupla adulto e um reforço registrado há sete anos. Sem comorbidades, sem uso de medicamentos, estado nutricional preservado.
achado
Ferida puntiforme com terra ao redor. Puntiforme já basta para classificar como ferimento de alto risco, e a sujidade confirma. O tamanho pequeno e o sangramento escasso não movem a classificação — nesse tipo de lesão, são justamente o que favorece a anaerobiose no fundo do trajeto.
achado
História vacinal documentada: esquema básico completo, com última dose há sete anos. Enquadra na faixa de três doses ou mais com a última entre cinco e dez anos.
achado
Nenhuma situação especial: 58 anos não caracteriza idoso, não há imunodepressão nem desnutrição grave, e o paciente tem condições de retornar e cuidar do curativo.
conduta
Vacina: sim, um reforço com dT. O cruzamento da faixa de cinco a dez anos com a coluna de alto risco pede o reforço — que é a mesma regra de antecipar para cinco anos o reforço decenal em exposição a risco de tétano. Não se reinicia esquema: é uma dose.
conduta
Imunização passiva: não. Essa célula do quadro responde 'não' para SAT e IGHAT, e nenhuma das exceções se aplica. Indicar soro aqui é o erro por excesso mais comum do tema.
conduta
Cuidado do ferimento: limpeza com soro fisiológico ou água e sabão, remoção de corpo estranho e de tecido desvitalizado, abertura em cruz da ferida puntiforme com lavagem generosa e antissepsia. Nenhuma dose de penicilina benzatina — ela não previne tétano.
conduta
Registrar a dose no cartão e orientar que o próximo reforço cai dez anos depois desta aplicação, com retorno se surgirem sinais de infecção local.
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Agora feche você

Mulher de 74 anos é levada à unidade de pronto atendimento após cair no quintal e sofrer um ferimento em face anterior da perna esquerda, com cerca de 6 cm, profundo, contaminado com terra e com bordas com tecido desvitalizado. Está em uso de prednisona 40 mg por dia há dois meses para polimialgia reumática. O cartão de vacinação documenta três doses de dupla adulto, sendo a última há oito anos. Ao exame: lúcida, afebril, sem sinais de infecção sistêmica, ferimento sem sangramento ativo.
achado
Ferimento profundo, sujo com terra e com tecido desvitalizado: alto risco de tétano pelos três critérios ao mesmo tempo.
achado
História vacinal: esquema básico completo, última dose há oito anos — faixa de cinco a dez anos.
achado
Duas condições da nota do quadro presentes na mesma paciente: idade avançada e imunossupressão por corticoide em dose alta e prolongada.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Classificar ferida puntiforme pequena e 'limpa' como ferimento de risco mínimo Atrai porque a lesão é discreta, sangra pouco e o objeto parecia limpo. Mas a definição de alto risco lista explicitamente feridas puntiformes, junto com mordeduras, queimaduras, politraumatismos e fraturas expostas: a classificação é por mecanismo, não por aparência. Risco mínimo exige superficial, limpo, sem corpo estranho e sem tecido desvitalizado, tudo simultaneamente.
  2. 2Prescrever penicilina benzatina para prevenir tétano Persiste em serviço e por isso aparece como distrator convincente. O Guia de Vigilância em Saúde afirma que não há comprovação de eficácia do uso de penicilina benzatina em infecções cutâneas para profilaxia do tétano acidental. O que previne é o conjunto vacina, imunização passiva quando indicada e cuidado local com debridamento — antibiótico entra para tratar infecção da ferida, que é outra decisão.
  3. 3Indicar soro para todo cartão vencido A lógica intuitiva diz que quem está desprotegido precisa da proteção imediata. O quadro discorda: com três doses documentadas e dez anos ou mais desde a última, ferimento de alto risco pede apenas o reforço da vacina. A imunização passiva aparece em duas células apenas — história incerta ou menos de três doses com ferimento de alto risco, e a linha de situações especiais.
  4. 4Tratar a vacina do pronto-socorro como dose avulsa Quem tem menos de três doses e recebe a vacina no atendimento sai com o esquema ainda incompleto. A nota do quadro exige aprazar as doses seguintes, com intervalo de 60 dias, para completar as três — a vacinação protege contra os ferimentos futuros, não apenas contra o de hoje. Liberar sem agendamento deixa o paciente na mesma faixa de risco no próximo acidente.
  5. 5Trocar dose profilática por dose terapêutica São quatro números que a prova gosta de embaralhar: IGHAT 250 UI na profilaxia e 500 UI no tratamento; SAT 5.000 UI na profilaxia e 20.000 UI no tratamento. Alternativa com 'imunoglobulina humana antitetânica 500 UI' para um ferimento em paciente assintomático está oferecendo dose de tratamento a quem só precisa de profilaxia.
  6. 6Achar que quem teve tétano fica imune A intuição vem de outras doenças infecciosas. A quantidade de toxina necessária para causar a doença é pequena demais para gerar resposta imune protetora: o tétano não confere imunidade. Depois da alta, o paciente deve ser referenciado à unidade básica para iniciar ou completar as três doses, com reforço a cada dez anos.
  7. 7Esperar exame para firmar o diagnóstico de tétano O diagnóstico é essencialmente clínico e não depende de confirmação laboratorial; cultura da ferida não faz parte da investigação e é negativa com frequência. Também não é preciso encontrar a porta de entrada: a definição de caso suspeito vale independentemente da detecção de solução de continuidade de pele ou mucosa. Exames servem para manejar complicações — e a lucidez preservada reforça o diagnóstico em vez de afastá-lo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Para ferimentos de qualquer tipo (limpos ou contaminados), se o esquema vacinal está completo e a última dose foi há menos de 5 anos, NÃO há indicação de reforço nem de soro/imunoglobulina antitetânica. O reforço estaria indicado em ferimento de alto risco quando a última dose foi há mais de 5 anos (ou >10 anos para ferimentos limpos). Soro/imunoglobulina são reservados a pacientes com esquema incompleto/desconhecido em ferimentos de alto risco ou imunossuprimidos. Não se reinicia esquema em quem já o completou.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a questão os usa. Ferimento de alto risco: profundo ou superficial sujo, corpo estranho, tecido desvitalizado, queimadura, ferida puntiforme ou por arma branca e de fogo, mordedura, politraumatismo, fratura exposta. Risco mínimo: superficial, limpo, sem corpo estranho, sem tecido desvitalizado. Faixas vacinais: incerta ou menos de três doses; três ou mais com última há menos de cinco anos; entre cinco e dez anos; dez anos ou mais. Imunização passiva só em duas células: alto risco com história incerta ou menos de três doses, e alto risco com dez anos ou mais em situações especiais. Doses: IGHAT 250 UI profilática e 500 UI terapêutica, intramuscular; SAT 5.000 UI profilática e 20.000 UI terapêutica, intramuscular ou endovenosa. Duração da proteção passiva: SAT cerca de duas semanas, IGHAT cerca de três. Vacina: dT a partir dos 7 anos, três doses com 60 dias de intervalo (mínimo 30), reforço a cada dez anos, antecipado para cinco em exposição a risco; dTpa a partir da 20ª semana em cada gestação; reforços com dTpa em profissional de saúde. Incubação de 3 a 21 dias, média de 5 a 15. Antibiótico do tétano instalado: penicilina G cristalina 2.000.000 UI de 4 em 4 horas ou metronidazol 500 mg de 8 em 8 horas, endovenosos, por 7 a 10 dias. Notificação imediata em até 24 horas à Secretaria Municipal de Saúde; encerramento do caso em até 60 dias.

em 30 dias

O raciocínio, sem os números. Toda questão de profilaxia do tétano é o cruzamento de duas variáveis que geram duas decisões independentes — vacina e imunização passiva. A variável que a questão manipula é o ferimento, porque vem em prosa: a lista de alto risco é por mecanismo, não por aparência, e risco mínimo exige quatro qualidades ao mesmo tempo. A variável que a questão entrega pronta é a história vacinal, e o truque ali é o relato sem cartão, que conta como incerta. Sobre esse cruzamento incidem três notas, e é nelas que a questão difícil se separa da fácil: aprazar as doses de quem tem esquema incompleto; estender a imunização passiva ao imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso com ferimento de alto risco; e a dúvida sobre o cuidado posterior, que define 'situações especiais'. Escolhido o produto passivo, quatro condições trocam SAT por IGHAT, todas ligadas a quem não tolera soro heterólogo ou a quem precisa de anticorpos que durem mais. Do lado da vacina, memorize que o calendário público separa três públicos — população geral com dT, gestante com dTpa a cada gravidez, profissional de saúde com dTpa nos reforços — e que a sociedade brasileira estende a dTpa a todo adulto, com a diferença explicada por custo e por prioridade programática, não por eficácia contra tétano. Por fim, o tétano instalado tem três marcas que resolvem qualquer questão: diagnóstico clínico, paciente lúcido e doença que não deixa imunidade.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 58 anos, trabalhador rural, com ferida puntiforme plantar contaminada com terra após pisar em prego; cartão com esquema básico completo e último reforço há sete anos — unidade de pronto atendimento — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Tétano: profilaxia no ferimento — Preparatório para provas | OsceLabs