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Clínica MédicaInfectologia

Raiva: profilaxia pós-exposição

Raiva humana e profilaxia pós-exposição antirrábica (esquema de vacina e soro conforme animal e ferimento)

A prova entrega um animal e um ferimento e cobra a decisão: observar, vacinar ou soro mais vacina — no esquema de 4 doses (0, 3, 7 e 14) que a Nota Técnica nº 8/2022 fixou.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Criança de 3 anos vem à consulta após ser mordida por um cão de rua, com ferimento em antebraço, sangramento leve. O animal fugiu e não pôde ser observado. A criança tem esquema vacinal infantil completo, mas nunca recebeu vacina antirrábica. De acordo com a profilaxia de raiva, qual é a conduta correta?

02

Como esse tema cai

Raiva é o tema em que errar a questão dói mais: uma vez iniciados os sintomas, a doença mata praticamente 100% das vezes, e toda a medicina útil acontece antes — na sala de curativo de uma UBS ou de um pronto-socorro, com um paciente mordido na frente do médico. Por isso a banca não pede fisiopatologia: ela entrega um animal e um ferimento e pergunta o que fazer. A resposta sai de um quadro de condutas do Ministério da Saúde que qualquer plantonista deveria saber de cor, e é exatamente esse quadro que este capítulo destrincha.

Há um agravante que derruba quem estudou por material antigo: a Nota Técnica nº 8/2022 reescreveu os números. O esquema pós-exposição encolheu de 5 para 4 doses (dias 0, 3, 7 e 14), a pré-exposição caiu de 3 para 2 doses (dias 0 e 7), a via intradérmica entrou como estratégia poupadora de dose e a conduta diante do cão observável mudou de figura. Questão de prova recente cobra o protocolo novo — e costuma plantar o esquema velho entre os distratores.

O capítulo cobre a decisão profilática completa: classificar o ferimento, classificar o animal, decidir entre observar, vacinar e sorovacinar, aplicar certo o soro e resolver as situações especiais (reexposição, faltoso, gestante, imunossuprimido, escassez de soro). A doença clínica aparece no tamanho que a prova usa: o suficiente para reconhecer o quadro e entender por que a profilaxia não admite meio-termo.

03

O que muda decisão

Por que não se negocia com a raiva

A raiva é uma encefalite viral aguda causada por um Lyssavirus de RNA, transmitido pela saliva de mamíferos infectados — por mordedura, arranhadura ou lambedura de mucosa e pele lesada. O vírus não cai na corrente sanguínea: caminha pelos nervos periféricos até o sistema nervoso central, e é essa rota lenta que abre a janela da profilaxia. A incubação típica no ser humano é de 2 a 3 meses, com extremos de uma semana a mais de um ano; quanto mais inervado e mais próximo da cabeça o ferimento, mais curta tende a ser. No mundo, a doença mata cerca de 59 mil pessoas por ano, até 99% delas a partir de cães — quase metade crianças. No Brasil, o controle da raiva canina inverteu o perfil: na última década os casos humanos passaram a vir principalmente de animais silvestres, com o morcego à frente.

O quadro clínico começa com pródromos inespecíficos — febre, mal-estar e, tipicamente, parestesia ou dor no local da mordedura já cicatrizada. Evolui para uma de duas formas: a furiosa, com agitação, espasmos faríngeos dolorosos à deglutição (hidrofobia), aerofobia e hipersalivação; ou a paralítica, com paralisia flácida ascendente que lembra Guillain-Barré — forma associada à variante do morcego e responsável por diagnósticos perdidos. Em dias, qualquer das formas termina em coma e morte. Sobrevida é excepcional, descrita em pouquíssimos casos no mundo sob protocolos intensivos experimentais — nada que mude a régua: raiva se previne, não se trata.

O diagnóstico clínico se apoia na história de exposição; a confirmação laboratorial usa imunofluorescência direta e biologia molecular em saliva, folículo piloso e tecido neural, e no animal agressor o exame do encéfalo. Para a prova, guarde o par de vigilância: raiva humana é notificação compulsória imediata, e todo atendimento antirrábico — mesmo o que termina sem vacina — gera notificação em ficha própria.

O primeiro gesto: água, sabão e nenhuma pressa de suturar

Antes de qualquer imunobiológico vem o gesto mais custo-efetivo da profilaxia: lavar o ferimento com água corrente abundante e sabão ou detergente, o quanto antes — a OMS recomenda uns 15 minutos de lavagem, seguida de antisséptico com ação virucida, como os iodados. A limpeza mecânica remove partículas virais da porta de entrada e comprovadamente reduz o risco de infecção; vale ser feita na consulta mesmo que o acidente tenha ocorrido há horas ou dias.

Ferida de mordedura, em regra, não se sutura. Quando o fechamento for inevitável — sangramento, estética facial —, aproximam-se as bordas com pontos isolados e frouxos, e sempre depois de infiltrar o soro no ferimento quando ele estiver indicado; suturar antes do soro enterra vírus em tecido fechado. Complete o atendimento com o que a ferida pede de resto: avaliação da profilaxia do tétano conforme o capítulo próprio e vigilância de infecção secundária.

Só então começa a decisão antirrábica propriamente dita, que cruza duas classificações: a do ferimento e a do animal. As duas seções seguintes montam cada eixo; o bloco de decisão junta tudo no quadro que a prova cobra.

Eixo 1 — o ferimento: contato indireto, acidente leve, acidente grave

Contato indireto não é exposição: tocar ou alimentar o animal, lambedura em pele íntegra, contato com utensílios. A conduta é lavar e liberar, sem profilaxia. O raciocínio vale também para a manipulação de carne ou leite de animal raivoso — não há caso humano descrito por essa via; cabe lavar, tranquilizar e, no máximo, discutir situações excepcionais individualmente.

Acidente leve é o ferimento superficial, pouco extenso, geralmente único, em tronco ou membros — excluídas mãos, polpas digitais e plantas dos pés. Arranhaduras e lambeduras sobre lesões superficiais entram aqui.

Acidente grave é definido pelo lugar e pela profundidade: qualquer ferimento em cabeça, face, pescoço, mãos, polpas digitais ou plantas dos pés; ferimentos profundos, múltiplos ou extensos em qualquer região; e lambedura de mucosa ou de pele já lesada. O racional é anatômico: essas áreas concentram terminações nervosas, encurtando o caminho do vírus ao sistema nervoso, e a mucosa é permeável ao vírus mesmo intacta. Guarde ainda duas regras que atravessam esse eixo: todo acidente com morcego ou outro mamífero silvestre é grave por definição, seja qual for o arranhão; e a gravidade aqui é da exposição ao vírus, não do trauma — um ferimento cirurgicamente banal na polpa digital é grave para a raiva.

Eixo 2 — o animal: observável, suspeito, silvestre, de produção ou de baixo risco

Cão e gato têm um privilégio biológico que sustenta metade do quadro de condutas: o vírus só aparece na saliva 2 a 5 dias antes dos primeiros sinais clínicos, e o animal doente morre em poucos dias — em geral até o quinto dia de sintomas. Logo, se o animal está vivo e saudável 10 dias depois da agressão, ele não estava excretando vírus quando mordeu. Animal observável é o cão ou gato sem sinais sugestivos de raiva — domiciliado ou não — que se consegue acompanhar por 10 dias, comendo e bebendo normalmente. Sinais de alerta durante a observação: recusa de água, engasgos, salivação excessiva, paralisias, mudança de comportamento. Se o animal adoecer, morrer ou desaparecer, a profilaxia começa imediatamente; se completar os 10 dias saudável, encerra-se o caso sem vacina.

Na outra ponta estão os animais em que não existe margem de observação. Morcegos e demais mamíferos silvestres — micos, macacos, raposas, guaxinins, quatis, gambás, capivaras, cachorros-do-mato, felídeos selvagens, javalis — são sempre tratados como de risco, mesmo quando criados dentro de casa, porque a patogenia da raiva nessas espécies não é bem conhecida: não vale a lógica dos 10 dias. Animais de produção — bovinos, equídeos, caprinos, ovinos, suínos — também são animais de risco; a avaliação pesa o tipo de contato e a epidemiologia local, e o cenário clássico de prova é o trabalhador rural que desengasgou um boi que depois morreu raivoso: contato de pele lesada e mucosa com saliva, exposição grave.

No extremo oposto, ratos, camundongos, cobaias, hamsters e coelhos — roedores urbanos e lagomorfos — são de baixo risco: mordedura desses animais praticamente nunca indica profilaxia, salvo circunstâncias excepcionais como animal de laboratório inoculado com o vírus ou ataque bizarro em área com epizootia. É a pegadinha de prova mais barata do tema: rato de residência urbana morde, a resposta é lavar e não vacinar.

Ilustração de uma mão ferida sendo lavada sob água corrente, cercada por quatro animais: cão em observação, morcego, raposa e boi.
A decisão profilática cruza o ferimento com o animal: o cão saudável pode ser observado por 10 dias; morcego e silvestres são sempre exposição grave; animais de produção são animais de risco. Antes de tudo, água e sabão.

Vacina, soro e os números que valem desde 2022

A vacina antirrábica humana é de vírus inativado produzida em cultivo celular, segura em qualquer idade, na gestação e na lactação — diante de uma doença 100% letal, profilaxia pós-exposição não tem contraindicação. O esquema pós-exposição vigente são 4 doses, nos dias 0, 3, 7 e 14, por uma de duas vias: intramuscular (frasco inteiro, 0,5 ou 1,0 mL conforme o fabricante, no deltoide — ou vasto lateral da coxa em menores de 2 anos; nunca no glúteo) ou intradérmica (0,2 mL divididos em duas aplicações de 0,1 mL em sítios distintos, no antebraço ou na delimitação do deltoide, conferindo a pápula que atesta a técnica). A via intradérmica é a aposta poupadora de dose — rende mais pacientes por frasco — e o Ministério recomenda priorizá-la onde há profissional treinado. Paciente que falta a uma dose não reinicia nada: aplica no dia em que comparecer e mantém os intervalos seguintes.

A imunização passiva entra apenas nos acidentes graves. São duas opções com a mesma função: o soro antirrábico heterólogo (SAR), de origem equina, na dose de 40 UI/kg, e a imunoglobulina humana antirrábica (IGHAR), 20 UI/kg — reservada, nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, a quem já apresentou hipersensibilidade ou usou soro heterólogo antes. A técnica importa mais que a marca: infiltrar todo o volume, ou o máximo possível, dentro e ao redor das lesões; o excedente vai por via intramuscular em grupo muscular distinto do da vacina. O teste cutâneo prévio foi abandonado — falso-negativo não afasta reação, e a OMS o considera desnecessário —, mas o soro heterólogo exige estrutura para atender anafilaxia e observação após a aplicação. Duas travas temporais caem em prova: o soro é dose única, o mais cedo possível, e só até o 7º dia após a primeira dose de vacina — depois disso está contraindicado, porque a imunidade ativa já responde; e vacina nunca se atrasa esperando soro indisponível. Em escassez, a Nota Técnica nº 134/2022 manda concentrar o que houver na infiltração do ferimento.

A pré-exposição (PrEP) vale para quem convive com o risco antes do acidente: veterinários e estudantes da área, biólogos, espeleólogos, profissionais de laboratório que manipulam o vírus e trabalhadores de campo em áreas endêmicas. São 2 doses, nos dias 0 e 7, IM ou ID, com controle sorológico periódico para quem segue exposto. Em 2024, a Nota Técnica nº 160 levou a PrEP ao calendário de comunidades amazônicas de difícil acesso — a mesma lógica da OMS para áreas remotas com raiva de morcego hematófago e pouco acesso à profilaxia pós-exposição. Quem tem histórico vacinal muda de esquema na reexposição: após PrEP completa ou pós-exposição prévia com pelo menos 2 doses há mais de 90 dias, bastam 2 doses (dias 0 e 3), sem soro; reexposição até 90 dias de um esquema completo não exige nada além do cuidado com a ferida; esquema anterior de dose única é desconsiderado e recomeça-se do zero. Imunossuprimidos fogem da régua: avaliação individual, esquema completo e soro indicado mesmo na reexposição.

04

A decisão: ferimento × animal

O fluxo resolve o atendimento na ordem em que ele acontece; os cards graduam o eixo do ferimento, que é o degrau ordinal do tema; as tabelas fecham com o quadro de condutas do protocolo federal e os esquemas em números.

  1. 1Lave o ferimento com água corrente e sabão, abundantemente, e aplique antisséptico virucida. Não suture de imediato; se inevitável, pontos isolados e frouxos, depois do soro quando este estiver indicado.
  2. 2Classifique o ferimento: contato indireto (sem exposição), acidente leve (superficial, único, em tronco ou membros, poupando mãos, polpas e plantas) ou grave (cabeça, face, pescoço, mãos, polpas digitais, plantas dos pés; profundo, múltiplo ou extenso; lambedura de mucosa ou pele lesada).
  3. 3Classifique o animal: cão ou gato sem sinais e observável por 10 dias; cão ou gato suspeito, raivoso, morto ou desaparecido; animal de produção; morcego ou outro silvestre (sempre grave); roedor urbano ou coelho (baixo risco).
  4. 4Cruze os dois eixos no quadro de condutas e decida: só observar, vacinar 4 doses (0, 3, 7 e 14) ou soro infiltrado no ferimento mais as 4 doses. Cheque histórico vacinal prévio — reexposição tem esquema próprio e dispensa soro.
  5. 5Notifique o atendimento antirrábico em ficha própria, agende as doses com busca ativa de faltosos e complete a profilaxia do tétano conforme a ferida.

Contato indireto

Tocar ou alimentar o animal, lambedura em pele íntegra, contato com utensílios ou com carne e leite. Não há exposição: lavar, orientar e encerrar, sem vacina e sem soro.

Acidente leve

Ferimento superficial, pouco extenso, geralmente único, em tronco ou membros — fora de mãos, polpas digitais e plantas dos pés. Com cão ou gato observável, autoriza a conduta mais econômica do quadro: observar sem vacinar.

Acidente grave

Cabeça, face, pescoço, mãos, polpas digitais ou plantas dos pés; ferimento profundo, múltiplo ou extenso; lambedura de mucosa ou de pele lesada; qualquer acidente com morcego ou silvestre. É o território do soro: imunização passiva mais 4 doses de vacina.

Animal envolvidoAcidente leveAcidente grave
Cão ou gato sem sinais de raiva, observável por 10 diasLavar. Não iniciar profilaxia; observar o animal por 10 dias. Se adoecer, morrer ou desaparecer: 4 doses (0, 3, 7 e 14). Se seguir saudável: encerrar.Lavar. Não iniciar profilaxia; observar por 10 dias. Se adoecer, morrer ou desaparecer: soro + 4 doses (0, 3, 7 e 14). Se seguir saudável: encerrar.
Cão ou gato suspeito, raivoso, morto, desaparecido ou não observávelLavar e vacinar: 4 doses (0, 3, 7 e 14), sem soro.Lavar, infiltrar soro (SAR 40 UI/kg ou IGHAR 20 UI/kg) e vacinar: 4 doses (0, 3, 7 e 14).
Animal de produção (bovino, equídeo, caprino, ovino, suíno)Lavar e vacinar: 4 doses (0, 3, 7 e 14), sem soro.Lavar, infiltrar soro e vacinar: 4 doses (0, 3, 7 e 14).
Morcego ou outro mamífero silvestre, mesmo domiciliadoNão existe leve: todo acidente é grave.Lavar, infiltrar soro e vacinar: 4 doses (0, 3, 7 e 14), qualquer que seja a lesão.
Roedor urbano ou coelho (rato, camundongo, hamster, cobaia)Lavar. Profilaxia não indicada, salvo circunstância excepcional (animal de laboratório inoculado, epizootia).Lavar. Profilaxia não indicada, salvo circunstância excepcional.

Esquemas vigentes (Nota Técnica nº 8/2022)

SituaçãoEsquemaDetalhe de via e volume
Pós-exposição (sem histórico vacinal)4 doses: dias 0, 3, 7 e 14 — mais soro apenas nos gravesIM: frasco inteiro (0,5 ou 1,0 mL) no deltoide, ou vasto lateral se < 2 anos; nunca glúteo. ID: 0,2 mL em 2 sítios de 0,1 mL, antebraço ou deltoide, conferindo a pápula
Pré-exposição (grupos de risco)2 doses: dias 0 e 7, com sorologia periódica em quem segue expostoIM ou ID, mesmos volumes; indicada a via ID em serviço com equipe treinada
Reexposição após esquema completo (PrEP, ou PEP há mais de 90 dias com ao menos 2 doses)2 doses: dias 0 e 3 — sem soroIM ou ID; imunodeprimido é exceção: avaliação individual e soro indicado
Reexposição até 90 dias de PEP completaApenas cuidado com o ferimento; sem vacina e sem soroSe o esquema anterior ficou incompleto, completam-se as doses faltantes
Paciente faltosoNão se reinicia: aplica no dia do comparecimento e mantém os intervalos seguintesBusca ativa é rotina do serviço
Soro/imunoglobulina (só em acidente grave)SAR 40 UI/kg ou IGHAR 20 UI/kg, dose única, até 7 dias após a 1ª dose de vacinaInfiltrar tudo (ou o máximo) no ferimento; excedente IM longe do sítio da vacina; IGHAR para quem já reagiu ou usou soro heterólogo

Depois do 7º dia da primeira dose de vacina, soro e imunoglobulina estão contraindicados — a resposta ativa já assumiu.

Soro heterólogo pede serviço preparado para anafilaxia e observação do paciente após a aplicação; o teste cutâneo prévio foi abandonado.

A vacina nunca espera: indisponibilidade de soro não atrasa a primeira dose.

Todo atendimento antirrábico é notificado em ficha própria, inclusive quando a conduta é só observar.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Cão ou gato saudável e observável: começar a vacina já ou só observar?

Ministério da Saúde (NT nº 8/2022 e Guia de Vigilância em Saúde)

Se o cão ou gato não tem sinais sugestivos de raiva e pode ser observado por 10 dias, não se inicia a profilaxia — nem no acidente grave. Vacina só entra se o animal adoecer, morrer ou desaparecer. A régua se apoia na biologia da excreção viral (2 a 5 dias antes dos sinais) e no contexto nacional de raiva canina controlada e oferta limitada de imunobiológicos, causas que a própria nota técnica nomeia.

Nota Técnica nº 8/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS

OMS (position paper de 2018)

Exposições das categorias II e III recebem lavagem e vacinação imediata — o documento não condiciona o início à observação do animal. A recomendação mira o mundo onde a raiva canina é endêmica e o acesso ao serviço é incerto: começar já e eventualmente interromper custa menos que perder o paciente de vista.

WHO position paper, abril de 2018 (sumário oficial)

Na prova

O cenário denuncia o recorte: UBS brasileira, animal domiciliado e vigilância acessível apontam para a conduta do Ministério; enunciado que cita categorias de exposição da OMS, viagem a área endêmica ou banca que escreve vacinação imediata nas alternativas está operando o documento internacional. Distrator com observar sem vacinar e alternativa com iniciar de imediato no mesmo enunciado é o clássico dessa fronteira — leia qual protocolo a questão nomeou.

Esquema intradérmico: 3 visitas (OMS) ou 4 (Brasil)?

OMS (position paper de 2018)

O regime intradérmico preferido é o IPC de uma semana: 2 sítios de 0,1 mL nos dias 0, 3 e 7 — 3 visitas, curso completo em 7 dias. No intramuscular, o Essen de 4 doses fecha entre os dias 14 e 28.

WHO position paper, abril de 2018 (sumário oficial)

Ministério da Saúde (NT nº 8/2022)

A via intradérmica foi adotada como poupadora de dose com os mesmos 4 encontros do esquema intramuscular: 0,2 mL em 2 sítios nos dias 0, 3, 7 e 14. O protocolo nacional padronizou uma única grade de datas para as duas vias — simplificação operacional para a rede, não discordância imunológica.

Nota Técnica nº 8/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS

Na prova

Questão que descreve 2 sítios nos dias 0, 3 e 7 e encerra aí está citando o regime da OMS; a grade 0, 3, 7 e 14 — em qualquer via — é a do protocolo brasileiro. O número de visitas nas alternativas é a impressão digital do documento usado pela banca.

O que fazer com o volume de soro que não coube no ferimento

Ministério da Saúde (NT nº 8/2022)

Infiltra-se o máximo possível na lesão e o restante vai por via intramuscular, respeitando o volume máximo do grupo muscular mais próximo e longe do sítio da vacina. Em escassez (NT nº 134/2022), admite-se infiltrar apenas o ferimento.

Notas Técnicas nº 8/2022 e nº 134/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS

OMS (position paper de 2018)

O que importa é o ferimento: o excedente da dose calculada não precisa ser aplicado IM à distância — pode até ser fracionado assepticamente para outros pacientes. A mudança de 2018 nasceu de evidência de que a proteção vem da neutralização local e da escassez mundial de imunoglobulina.

WHO position paper, abril de 2018 (sumário oficial)

Na prova

Alternativa que manda aplicar o restante IM reflete a letra do protocolo brasileiro; a que dispensa o excedente reproduz a OMS de 2018 — e note que, na escassez, o próprio Ministério converge para a infiltração exclusiva. Os anos dos documentos (2018 e 2022) costumam aparecer no enunciado quando a banca quer essa minúcia.

06

Caso resolvido

Homem de 34 anos procura a UPA após mordedura de um gato de rua que tentou pegar no colo. Apresenta dois ferimentos puntiformes profundos na polpa do polegar direito, com sangramento discreto. O gato fugiu e não foi localizado. Nega vacinação antirrábica prévia. Cartão de vacina sem reforço de tétano há 12 anos.
achado
Ferimento profundo em polpa digital — área de alta inervação — causado por gato: acidente grave por definição, independentemente do tamanho da lesão.
achado
Animal fugiu: cão/gato não observável. A coluna do quadro que permitiria só observar 10 dias está fechada.
conduta
Lavagem imediata e abundante com água e sabão, antisséptico virucida, sem sutura.
conduta
Grave + animal não observável = imunização passiva e ativa: SAR 40 UI/kg (ou IGHAR 20 UI/kg se reação ou uso prévio de soro heterólogo) infiltrado nos ferimentos, com excedente IM longe do sítio vacinal, mais vacina antirrábica em 4 doses nos dias 0, 3, 7 e 14.
conduta
Completar a porta de entrada: reforço dT (ferimento de risco com última dose há mais de 5 anos) e vigilância de infecção secundária — mordedura de gato é a que mais infecta.
justificativa
Notificar o atendimento antirrábico e agendar as doses com busca ativa. Se o soro faltar no serviço, a primeira dose de vacina não espera: soro pode entrar até 7 dias após a dose 1 — depois disso, está contraindicado.
07

Agora feche você

Mulher de 42 anos, moradora de comunidade ribeirinha no Pará, acorda com pequena lesão puntiforme sangrante no hálux esquerdo e encontra um morcego pousado no mosquiteiro rasgado. A lesão é única, superficial e indolor. Ela lava o pé no igarapé e procura a unidade fluvial no mesmo dia. Nunca recebeu vacina antirrábica.
achado
Lesão puntiforme em pé, de aspecto banal, com morcego no ambiente: mordedura de morcego hematófago pode ser superficial e pouco dolorosa — o tamanho da ferida não mede o risco.
classificação
Acidente por morcego é sempre exposição grave, qualquer que seja a lesão — a categoria leve não existe para silvestres.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Responder com o esquema de 5 doses (0, 3, 7, 14 e 28) Atrai porque foi o esquema brasileiro por muitos anos e ainda domina apostilas antigas. Desde a Nota Técnica nº 8/2022 a pós-exposição tem 4 doses (0, 3, 7 e 14) — o dia 28 sobrevive apenas como distrator.
  2. 2Vacinar de imediato o mordido por cão saudável e observável Parece prudência, mas o protocolo vigente manda não iniciar a profilaxia — nem no acidente grave — enquanto o cão ou gato sem sinais estiver sob observação de 10 dias. E o velho reflexo de aplicar 2 doses e observar morreu em 2022: o esquema de 2 doses (0 e 3) hoje pertence à reexposição de quem já tem histórico vacinal completo.
  3. 3Subestimar o morcego porque o arranhão é minúsculo A gravidade aqui é da exposição, não do trauma: mordedura de morcego pode ser puntiforme, superficial e indolor, e mesmo assim todo acidente com morcego ou silvestre é grave — soro mais 4 doses, sem regra dos 10 dias. Classificar como leve pela aparência da lesão é o erro que a vinheta quer induzir.
  4. 4Prescrever soro fora do lugar ou fora da janela Soro não entra em acidente leve, não entra na reexposição de quem tem esquema completo (exceto imunodeprimido) e não entra depois do 7º dia da primeira dose de vacina. A banca adora oferecer soro reconfortante nessas três situações — nas três, a resposta certa o recusa.
  5. 5Vacinar mordedura de rato Roedores urbanos e coelhos são animais de baixo risco: a profilaxia praticamente nunca é indicada, salvo situações excepcionais como animal de laboratório inoculado. A alternativa lavar, orientar e não vacinar parece negligente — e é a correta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Mordedura por cão desconhecido/não observável, com ferimento (mesmo leve com solução de continuidade), configura exposição grave/de risco para raiva. Como o animal não pode ser observado, indica-se esquema completo de vacina antirrábica ASSOCIADO a soro/imunoglobulina antirrábica, além de lavagem exaustiva do ferimento. Apenas observar é inadequado, pois a raiva é praticamente 100% letal. dTpa cobre tétano, não substitui a profilaxia de raiva (embora avaliação antitetânica também deva ocorrer). Vacina sem soro é insuficiente quando há indicação de imunoglobulina. Aguardar sintomas é fatal — a profilaxia deve ser imediata.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória o quadro de condutas: as cinco linhas de animal (cão/gato observável; suspeito ou sumido; produção; morcego/silvestre; roedor) cruzadas com leve e grave. Depois confira os números: PEP 4 doses (0, 3, 7, 14), PrEP 2 doses (0, 7), reexposição 2 doses (0, 3), SAR 40 UI/kg, IGHAR 20 UI/kg, soro até 7 dias da primeira dose, observação do animal por 10 dias.

em 30 dias

Monte três vinhetas e resolva em voz alta: gato que fugiu com mordedura na mão (grave não observável: soro + 4 doses), cão do vizinho saudável com arranhão no tronco (observar 10 dias sem vacinar) e morcego no quarto com lesão mínima (sempre grave: soro + 4 doses). Feche revisando o que mudou em 2022 — de 5 para 4 doses, PrEP de 2 doses, observação sem vacina — e as três situações em que o soro é recusado.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 34 anos chega à UPA mordido na polpa do polegar por um gato de rua que fugiu em seguida; ferimentos puntiformes profundos, sem vacinação antirrábica prévia — classifique o acidente e decida entre observar, vacinar e sorovacinar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Raiva humana e profilaxia pós-exposição antirrábica – Raiva: profilaxia pós-exposição — Preparatório para provas | OsceLabs