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Clínica MédicaInfectologia

Meningites bacteriana e viral

A prova não pede o diagnóstico: pede a ordem. Hemocultura, antibiótico e punção — e a lista fechada de quando a tomografia entra antes da agulha.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 19 anos, universitário, previamente hígido, é levado ao pronto-socorro com quadro de febre alta (39,2 °C), cefaleia holocraniana intensa e vômitos há cerca de 18 horas. Ao exame: PA 118/74 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 ipm, SatO2 98% em ar ambiente, Glasgow 15. Apresenta rigidez de nuca, sinal de Kernig positivo e não há déficit focal nem papiledema. Não relata imunossupressão, uso recente de antibióticos, convulsões ou trauma. É colhida punção lombar de imediato. O líquor mostra: aspecto turvo, 1.850 leucócitos/mm³ com 92% de neutrófilos, glicorraquia 22 mg/dL (glicemia sérica simultânea 98 mg/dL), proteínas 210 mg/dL (VR 15–45). Considerando o perfil liquórico e o quadro clínico, qual é a conduta imediata mais apropriada?

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Como esse tema cai

A vinheta de meningite no adulto raramente esconde o diagnóstico. Ela entrega febre, cefaleia e rigidez de nuca e cobra a sequência: colher hemocultura, iniciar antibiótico, puncionar — e saber em que casos a tomografia de crânio se intromete entre a suspeita e a agulha. A lista de indicações de tomografia antes da punção é fechada e memorizável, e a regra que a acompanha é a que mais derruba candidato: a tomografia atrasa a punção, nunca o antibiótico.

A régua brasileira deste tema é de vigilância, não de terapêutica. O Guia de Vigilância em Saúde organiza notificação, investigação e bloqueio, e traz as tabelas de antibiótico dentro desse enquadramento — para o adulto, apenas terapia dirigida por agente, sem esquema empírico. Corticoide adjuvante e tempo de imagem antes da punção passam de raspão ou não aparecem, e quem responde por eles são as diretrizes internacionais e os dois ensaios que as sustentam. Em 1º de outubro de 2024, a Nota Técnica Conjunta nº 154 refez as definições de caso suspeito, de contato próximo e de surto e revogou expressamente as que estavam na 6ª edição revisada do Guia.

O recorte é o adulto. As doses por quilo do lactente, a quimioprofilaxia do contato de Haemophilus com suas quatro faixas etárias e a conduta vacinal depois da doença invasiva estão no capítulo de meningites na infância; febre sem sinais localizatórios e crise febril, nos capítulos de pediatria. Sepse e choque séptico têm capítulo próprio, e é para lá que vai o pacote da primeira hora do paciente que chega em choque. Meningite tuberculosa tem escore, esquema e duração no capítulo de tuberculose; meningite criptocócica, no de HIV/aids. A mecânica geral da notificação compulsória — quem notifica, para quantas esferas, o que a Lista Nacional determina — está no capítulo de vigilância e notificação; aqui entra apenas a linha das meningites.

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O que muda decisão

Quem adoece no Brasil — e por que o adulto muda a lista de agentes

O Guia de Vigilância em Saúde afirma que a Neisseria meningitidis é a principal causa de meningite bacteriana no Brasil, considerando todas as idades. A frase é brasileira e vale conhecer, porque o reflexo treinado em literatura estrangeira é responder pneumococo — e, lá fora, o reflexo está certo: na coorte nacional holandesa de 696 episódios de meningite bacteriana adquirida na comunidade em adultos, publicada por van de Beek e colaboradores no New England Journal of Medicine em 2004, os agentes mais comuns foram Streptococcus pneumoniae, com 51% dos episódios, e Neisseria meningitidis, com 37%. A mesma coorte dá a letalidade por agente: 21% no conjunto, 30% na meningite pneumocócica e 7% na meningocócica, com desfecho desfavorável em 34% dos episódios.

Nas faixas de maior risco o documento brasileiro é explícito: crianças menores de 5 anos, sobretudo as menores de 1 ano, e pessoas com mais de 60 anos. Para o pneumococo especificamente, ele lista quem adoece mais — idosos e portadores de quadros crônicos ou de doenças imunossupressoras, como síndrome nefrótica, asplenia anatômica ou funcional, insuficiência renal crônica, diabetes mellitus e infecção pelo HIV.

A doença meningocócica tem números que explicam a pressa da vigilância. O período de incubação é de dois a dez dias, em média três a quatro. A transmissibilidade persiste até o meningococo desaparecer da nasofaringe, o que ocorre em até 24 horas de antibioticoterapia adequada. O risco de doença invasiva entre contatos domiciliares de um doente é cerca de 500 a 800 vezes maior que na população geral. E a meningococcemia tem letalidade geralmente acima de 40%, com a maioria dos óbitos nas primeiras 48 horas do início dos sintomas.

Um perfil de risco que o adulto acrescenta e a criança quase não tem: asplenia anatômica ou funcional, deficiência de properdina, de C3 e dos componentes terminais do complemento — de C5 a C9. Quem tem essas condições não consegue promover a morte intracelular da bactéria, apresenta maior risco de episódios recorrentes de doença meningocócica e, por isso, é grupo prioritário para profilaxia vacinal. Doença meningocócica de repetição em adulto jovem é pedido de dosagem de complemento, não coincidência. Somam-se, como fatores de risco descritos no Guia, infecção respiratória viral recente — especialmente influenza —, aglomeração no domicílio, residir em quartel, dormir em acampamento militar ou em alojamento de estudantes, e tabagismo ativo ou passivo.

A escala do dano dá o tamanho da urgência. As Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030 registram a estimativa de que uma em cada seis pessoas afetadas pela meningite bacteriana morre e uma em cada cinco sobrevive com sequelas que comprometem a qualidade de vida. Feita a conta sobre quem sai vivo — 20 sequelados entre os cerca de 83 sobreviventes de cada 100 afetados —, isso é aproximadamente um sequelado a cada quatro sobreviventes. O mesmo documento aponta, entre os fatores assistenciais associados a sequela, o atendimento tardio, mais de 48 horas após o início dos sintomas, e o atraso no início do antibiótico, superior ao intervalo de 24 a 72 horas.

Quando suspeitar: a definição de 2024 e o que a tríade clássica realmente entrega

A definição de caso suspeito em vigor não é a do Guia — é a da Nota Técnica Conjunta nº 154/2024, que a substituiu em 1º de outubro de 2024. Ela tem três portas de entrada, e basta uma. Primeira: febre acompanhada de dois ou mais entre cefaleia intensa, vômito, confusão ou alteração mental, fotofobia, torpor e convulsão. Segunda: febre acompanhada de pelo menos um sinal de irritação meníngea — rigidez de nuca, Kernig ou Brudzinski. Terceira: febre de início súbito com erupções cutâneas petequiais ou sufusões hemorrágicas. A nota acrescenta que os sinais e sintomas podem aparecer em qualquer ordem, que manifestações gastrointestinais como distensão abdominal e diarreia podem estar presentes, e que a infecção de corrente sanguínea produz mãos e pés frios, mialgia, artralgia, taquipneia e taquicardia — sintomas que costumam preceder as erupções cutâneas, que aparecem mais tardiamente.

Em situação de surto a definição afrouxa de propósito, para capturar mais gente e mais cedo: passa a bastar febre com um único item entre confusão ou alteração mental, convulsão, torpor, sinal de irritação meníngea e petéquias ou sufusões hemorrágicas; ou febre com dois entre cefaleia intensa, vômito e fotofobia. Trocar especificidade por sensibilidade quando há surto é decisão de vigilância, e o enunciado que avisa que já existem outros casos no mesmo alojamento está pedindo exatamente essa troca.

O que a tríade clássica entrega é menos do que o nome promete. Na mesma coorte holandesa de 696 episódios, a tríade de febre, rigidez de nuca e alteração do estado mental esteve presente em apenas 44% deles. O número que salva o raciocínio é o outro do mesmo artigo: 95% dos pacientes tinham pelo menos dois dos quatro sintomas — cefaleia, febre, rigidez de nuca e alteração do nível de consciência. Exigir a tríade completa perde mais da metade dos casos; exigir dois de quatro perde um em vinte.

Kernig e Brudzinski merecem a mesma desconfiança. No estudo prospectivo de Thomas e colaboradores, publicado em Clinical Infectious Diseases em 2002 com 297 adultos submetidos a punção lombar por suspeita de meningite, a sensibilidade do sinal de Kernig foi de 5%, a do sinal de Brudzinski foi de 5% e a da rigidez de nuca foi de 30%, com razões de verossimilhança positivas em torno de 1 — isto é, praticamente sem efeito sobre a probabilidade. Sinal com 5% de sensibilidade não afasta nada: quando está presente, soma; quando está ausente, não informa. É por isso que a definição brasileira de caso suspeito aceita febre com dois sintomas inespecíficos, sem exigir sinal meníngeo nenhum.

A ordem das ações — e por que o antibiótico não espera

O Guia de Vigilância em Saúde, no capítulo de doença meningocócica, escreve a ordem preferencial em uma frase: a antibioticoterapia deve ser instituída o mais precocemente possível, de preferência logo após a punção lombar e a coleta de sangue para hemocultura. A Nota Técnica nº 154/2024 escreve a exceção na frase seguinte: não se deve atrasar o início do tratamento do paciente suspeito de meningite em virtude da coleta de material para diagnóstico; quando não for possível a coleta antes ou concomitante ao início do tratamento, recomenda-se que ela seja feita o mais próximo possível do momento em que o tratamento começou. As duas frases juntas dão a regra inteira: a punção vem antes quando dá; o antibiótico não espera quando não dá.

Na prática do plantão os tempos são muito diferentes. A hemocultura leva segundos e não depende de nada — é o passo que nunca se perde, e é ele que salva o diagnóstico etiológico quando a punção atrasa. A punção lombar leva minutos e depende de posicionamento, de consentimento e de coagulação. A tomografia leva a hora que o serviço levar, e é a única etapa cujo custo de espera se mede em vidas. Por isso a ordem operacional é: hemocultura agora, punção se nada a impedir, antibiótico imediatamente depois — e, havendo indicação de imagem antes da punção, o antibiótico entra antes da imagem, não depois dela.

Um alvo numérico de porta-antibiótico não é consenso, e a própria diretriz da Infectious Diseases Society of America diz isso com todas as letras: considera que os dados disponíveis são inadequados para delinear diretrizes específicas sobre o intervalo entre o primeiro encontro médico e a administração da primeira dose, atribuindo a essa afirmação o grau C-III — e conclui que a meningite bacteriana é uma emergência neurológica e que a terapia apropriada deve ser iniciada assim que o diagnóstico for considerado provável. Do lado brasileiro, as Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030 tratam do mesmo problema pelo avesso, listando entre os fatores assistenciais associados a sequela o atraso do antibiótico além do intervalo de 24 a 72 horas. Nenhum dos dois entrega um relógio; ambos entregam a direção.

Tomografia antes da punção: a lista é fechada

A pergunta que a prova faz não é se a tomografia é útil — é em quem ela é obrigatória antes da agulha. A base é o estudo prospectivo de Hasbun e colaboradores, publicado no New England Journal of Medicine em 2001, que acompanhou 301 adultos com suspeita de meningite; 235 deles fizeram tomografia de crânio antes da punção, e o exame veio alterado em 24%. Os achados clínicos presentes na avaliação inicial associados a tomografia alterada foram: idade de 60 anos ou mais, história de doença do sistema nervoso central — lesão expansiva, acidente vascular cerebral ou infecção focal —, estado de imunocomprometimento, convulsão na semana anterior à apresentação, e certos achados neurológicos específicos: nível de consciência anormal, incapacidade de responder corretamente a duas perguntas consecutivas ou de obedecer a dois comandos consecutivos, paresia do olhar conjugado, campos visuais anormais, paralisia facial, desvio de braço, desvio de perna e linguagem anormal.

O que faz essa lista valer a pena é o desempenho da ausência dela. Nenhum desses achados estava presente na avaliação inicial em 96 dos 235 pacientes que fizeram tomografia — 41% do total. A tomografia foi normal em 93 desses 96, o que dá um valor preditivo negativo de 97%. Dos 3 restantes, apenas 1 tinha discreto efeito de massa, e os 3 foram puncionados sem qualquer evidência de herniação cerebral. Traduzindo para o plantão: adulto lúcido, sem déficit focal, sem convulsão recente, sem imunossupressão e sem doença prévia do sistema nervoso central pode ser puncionado direto, e a imagem só faria perder tempo.

A diretriz da Infectious Diseases Society of America de 2004 transformou esse achado em critério — e aqui mora uma distinção que a banca adora. A tabela da diretriz que lista quem deve fazer tomografia antes da punção tem seis critérios: estado de imunocomprometimento; história de doença do sistema nervoso central; convulsão de início recente, dentro de 1 semana da apresentação; papiledema; nível de consciência anormal; e déficit neurológico focal, incluindo pupila dilatada não reativa, anormalidades da motricidade ocular, campos visuais anormais, paresia do olhar conjugado e desvio de braço ou perna. Idade não é um deles. A idade de 60 anos ou mais aparece como achado associado no estudo original, mas não foi incorporada à lista de critérios da diretriz — de modo que a alternativa que manda tomografar todo paciente acima de 60 anos apenas por ser idoso está citando o estudo, não a régua.

O passo que decide a questão vem junto: nos pacientes com indicação de imagem, colhem-se as hemoculturas e iniciam-se o antibiótico empírico e a dexametasona antes de o paciente ir para o tomógrafo. A punção acontece depois. Sobre a convulsão, a diretriz registra ainda que algumas autoridades adiariam a punção por 30 minutos em pacientes com crises convulsivas curtas, ou não a realizariam em quem teve crise prolongada, porque a crise pode se associar a aumento transitório da pressão intracraniana. E sobre o papiledema, a própria tabela observa que a presença de pulsações venosas sugere ausência de hipertensão intracraniana.

Duas consequências práticas fecham o assunto. O líquor colhido depois do antibiótico perde a cultura, mas mantém celularidade, bioquímica e, sobretudo, a reação em cadeia da polimerase, que detecta DNA e continua positiva depois do início do tratamento. E a hemocultura colhida antes da primeira dose é o que preserva o diagnóstico etiológico nesse cenário — motivo pelo qual ela é o primeiro item da sequência, e não uma formalidade.

Caminho da esquerda para a direita: paciente febril, hemocultura, e então duas vias — uma direta para a punção lombar e outra passando antes pela tomografia — com a faixa do antibiótico atravessando as duas sem interrupção.
A tomografia desloca a punção para depois. A faixa do antibiótico não se interrompe em nenhuma das duas vias: quando a imagem entra na frente, a primeira dose já foi dada, depois da hemocultura.

O líquor: quatro padrões e a glicose lida contra a glicemia

O líquor normal é límpido e incolor, descrito como água de rocha, com 0 a 5 células por mm³, glicose de 45 a 100 mg/dL e proteínas totais de 15 a 50 mg/dL. Os quadros do Guia de Vigilância em Saúde descrevem quatro padrões alterados. Na meningite bacteriana o aspecto é turvo, a cor branco-leitosa ou ligeiramente xantocrômica, a celularidade vai de 200 a milhares com neutrófilos, glicose e cloretos caem, as proteínas sobem e as globulinas ficam positivas à custa de gamaglobulina. Na tuberculosa o aspecto é límpido ou ligeiramente turvo, opalescente, a cor incolor ou xantocrômica, a celularidade fica entre 25 e 500 linfócitos, glicose e cloretos caem e as globulinas ficam positivas à custa de alfa e gamaglobulinas. Na viral o líquor permanece límpido, incolor ou opalescente, com 5 a 500 linfócitos, cloretos normais e proteínas levemente aumentadas. Na fúngica o líquor é límpido e incolor, os cloretos são normais, a glicose está diminuída, as proteínas aumentadas e a celularidade fica acima de 10 células por mm³, de linfócitos e monócitos.

É a combinação que separa, não o número isolado. Líquor claro com glicose baixa e linfócitos aponta tuberculose ou fungo, não vírus. Líquor claro com glicose normal e linfócitos aponta vírus. Líquor turvo com neutrófilos e glicose baixa é bacteriano até prova em contrário. E há uma lacuna estrutural no próprio quadro nacional: no quadro das meningites virais, a linha da glicose traz somente o valor de referência, com as células da meningite viral e da encefalite em branco — de modo que o dado mais discriminante do padrão viral tem de ser lido nas outras tabelas, por contraste.

A glicose liquórica isolada engana, porque é derivada da glicemia. O artigo de Spanos, Harrell e Durack, publicado no JAMA em 1989 com 422 pacientes de meningite bacteriana ou viral aguda, fixou os cinco pontos que, isoladamente, previam infecção bacteriana com 99% de certeza ou mais: glicose liquórica abaixo de 1,9 mmol/L, razão entre glicose do líquor e glicose do sangue abaixo de 0,23, proteína liquórica acima de 2,2 g/L, mais de 2000 x 10⁶/L leucócitos e mais de 1180 x 10⁶/L neutrófilos no líquor. Convertidos para as unidades das tabelas brasileiras, esses cortes são: glicose liquórica abaixo de 34 mg/dL, proteína acima de 220 mg/dL, mais de 2.000 leucócitos por mm³ e mais de 1.180 neutrófilos por mm³.

A frase mais importante do mesmo artigo é a que descreve o limite desses cortes: embora qualquer um deles possa confirmar meningite bacteriana com alta probabilidade, nenhum é capaz de afastá-la. Traduzindo para a beira do leito, cortes altos servem para fechar, não para abrir mão. E é por isso que a razão liquor-sangue existe: o diabético descompensado com glicemia de 300 mg/dL pode ter glicose liquórica de 60 mg/dL — dentro da faixa de referência impressa — e ainda assim razão de 0,20, abaixo do corte de Spanos. Colher a glicemia no mesmo momento da punção é o que torna essa conta possível; sem ela, o valor liquórico fica sem denominador. A diretriz da Infectious Diseases Society of America usa a mesma lógica com um corte mais frouxo: razão liquor-soro de 0,4, que descreve como 80% sensível e 98% específica para meningite bacteriana em crianças acima de 2 meses, com corte de 0,6 no recém-nascido a termo, em quem a razão é fisiologicamente mais alta.

Um cuidado de unidade na leitura do quadro nacional: a linha dos cloretos traz a faixa de referência escrita como 680 a 750 mEq/L, e essa grandeza, em miliequivalentes por litro, não corresponde a nenhum líquido do corpo — a concentração de cloreto no líquor fica em torno de 120 mEq/L, discretamente acima da plasmática. Lidos como miligramas por decilitro expressos em cloreto de sódio, os mesmos números fecham: 680 mg/dL divididos pela massa molar do cloreto de sódio dão 116 mEq/L, e 750 mg/dL dão 128 mEq/L. O intervalo, portanto, está certo; a unidade impressa é que não é a dele. Como cloreto liquórico praticamente não muda conduta, o custo é pequeno — mas o número aparece em prova exatamente como está impresso.

Bacterioscopia, látex e PCR: o que cada um acrescenta

A cultura é o padrão-ouro e pode ser feita em líquor, sangue e raspado de lesão petequial. É a única que entrega o antibiograma e, por isso, a que direciona o tratamento — mas leva dias e é a primeira coisa que o antibiótico prévio destrói. A diretriz da Infectious Diseases Society of America dá o tamanho dessa perda pelo lado positivo: a cultura de líquor é positiva em 70% a 85% dos pacientes que não receberam antimicrobiano antes, e pode levar até 48 horas para identificar o organismo. A Nota Técnica nº 154/2024 reforça que a realização de cultura, de sangue e de líquor, é de extrema relevância na era pós-vacinação, porque é dela que sai a caracterização completa do agente que orienta a política de vacina.

A bacterioscopia pelo Gram responde em minutos e é o exame que muda a conduta na hora: diplococo gram-negativo aponta meningococo, diplococo gram-positivo aponta pneumococo, cocobacilo gram-negativo aponta Haemophilus. O Guia registra que ela caracteriza morfologia e afinidade tintorial com baixo grau de especificidade; a diretriz americana mede: identificação rápida e acurada do agente em 60% a 90% dos pacientes com meningite bacteriana adquirida na comunidade, com especificidade de 97%. A probabilidade de enxergar a bactéria depende da carga — concentrações liquóricas acima de 10⁵ unidades formadoras de colônia por mL dão Gram positivo em 97% dos casos, e abaixo de 10³ em apenas 25%.

A aglutinação pelo látex detecta antígeno bacteriano no líquor e vem perdendo espaço. Pode dar falso-positivo em portador de fator reumatoide ou por reação cruzada com outros agentes, e resultado negativo não afasta o patógeno. O que sustenta a desconfiança é a medida do impacto: num estudo de 901 testes de antígeno liquórico ao longo de 37 meses, não houve modificação de terapia em 22 dos 26 pacientes com resultado positivo; em outro, com 344 amostras, 10 representavam infecção verdadeira pelo critério de cultura, com sensibilidade de 70% e especificidade de 99,4%. Látex positivo isolado, sem clínica compatível, não fecha nada.

A reação em cadeia da polimerase detecta o DNA da bactéria em líquor, soro, sangue total e fragmentos de tecido, e permite a genogrupagem dos sorogrupos do meningococo. A versão em tempo real identifica o alvo com maior sensibilidade e especificidade e em menor tempo de reação. É a única que sobrevive ao antibiótico prévio, e é ela que salva o diagnóstico etiológico do paciente que chegou já tratado ou que só pôde ser puncionado depois da primeira dose.

O fluxo laboratorial brasileiro tem duas etapas com finalidades diferentes, e confundi-las custa questão. O material colhido em meio estéril é processado inicialmente no laboratório local, para apoio e orientação à conduta médica: bacterioscopia, citoquímica, látex e cultura. Depois, esse material ou a cepa já isolada de N. meningitidis, H. influenzae ou S. pneumoniae segue para o Laboratório Central de Saúde Pública, onde se faz o diagnóstico mais específico — sorogrupo, sorotipo, qPCR. A segunda etapa não muda o tratamento do paciente à sua frente; muda a vigilância, a caracterização de surto e a política vacinal.

Antibiótico empírico do adulto: a idade e o contexto escolhem o esquema

O Guia de Vigilância em Saúde traz esquema empírico apenas para as faixas pediátricas — lactente com menos de 2 meses e criança com mais de 2 meses. Para o adulto, o quadro brasileiro é de terapia dirigida por agente, e não há linha empírica nele. Quem escreve o esquema empírico do adulto é a diretriz da Infectious Diseases Society of America, que organiza a escolha por idade e por condição predisponente.

Adulto de 2 a 50 anos, meningite purulenta adquirida na comunidade: os patógenos esperados são N. meningitidis e S. pneumoniae, e o esquema é vancomicina associada a uma cefalosporina de terceira geração, ceftriaxona ou cefotaxima. Acima de 50 anos, entram na lista de esperados também Listeria monocytogenes e bacilos gram-negativos aeróbios, e o esquema ganha um terceiro componente: vancomicina mais ampicilina mais cefalosporina de terceira geração. A vancomicina está ali pela possibilidade de pneumococo resistente e nunca é usada sozinha, porque penetra mal no líquor.

O idoso e o alcoolista são a mesma pergunta com dois enunciados, e a resposta é a ampicilina. Listeria monocytogenes não é coberta por cefalosporina nenhuma — nem de terceira, nem de quarta geração —, e é justamente o agente dos extremos de idade, da gestante, do etilista crônico, do cirrótico e do imunossuprimido. A pegadinha clássica é o senhor de 68 anos tratado apenas com ceftriaxona e vancomicina: falta a ampicilina. Na terapia dirigida por Gram, a mesma diretriz indica para Listeria ampicilina ou penicilina G, com a adição de um aminoglicosídeo a considerar, e deixa sulfametoxazol-trimetoprima e meropenem como alternativas — que é a saída de quem tem anafilaxia a betalactâmico.

O contexto muda a ecologia inteira. Meningite após neurocirurgia, após trauma cranioencefálico penetrante ou associada a derivação liquórica tem como patógenos esperados bacilos gram-negativos aeróbios, incluindo Pseudomonas aeruginosa, Staphylococcus aureus e estafilococos coagulase-negativos, especialmente S. epidermidis — e o esquema empírico recomendado é vancomicina associada a cefepima, ou a ceftazidima, ou a meropenem. Ceftriaxona não cobre Pseudomonas: trocar o esquema pós-neurocirúrgico por ceftriaxona é exatamente o erro que a alternativa errada oferece. A fratura de base de crânio é a exceção dentro da exceção — ali os esperados voltam a ser S. pneumoniae, H. influenzae e estreptococo beta-hemolítico do grupo A, e o esquema é o comunitário, vancomicina com cefalosporina de terceira geração.

Vale saber o que a rede tem. O Guia afirma que os medicamentos das suas tabelas de tratamento constam no Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, e remete por hiperlink à Rename de 2022. Na Rename 2024, que é a vigente, ceftriaxona — nas apresentações de 250 mg, 500 mg e 1 g de pó para solução injetável — e cefotaxima sódica 500 mg estão no Componente Básico, não no Estratégico; benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI e rifampicina 300 mg cápsula estão em Básico e Estratégico; ciprofloxacino 500 mg comprimido, dexametasona 4 mg/mL solução injetável e aciclovir 250 mg pó para solução injetável estão no Básico. Ampicilina, vancomicina, meropenem e ceftazidima não aparecem em nenhum dos anexos da Rename 2024 — o que significa que o esquema empírico do adulto de mais de 50 anos e o esquema pós-neurocirúrgico são montados com medicamentos que estão fora dessa lista, e que a alternativa que justifica uma escolha dizendo que ela está na Rename precisa ser lida com cuidado.

Terapia dirigida e duração: o quadro do adulto tem cinco linhas

Com a cultura na mão, o esquema é ajustado. O quadro brasileiro de terapia antibiótica para adultos com meningite bacteriana é enxuto e tem quatro linhas de agente: Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae e enterobactérias recebem ceftriaxona 4 g por dia, endovenosa, de 12 em 12 horas; Pseudomonas recebe meropenem 6 g por dia, endovenoso, de 8 em 8 horas. As durações impressas são 7 dias para o Haemophilus e 10 a 14 dias para os outros três. A doença meningocócica sai em outro quadro, no capítulo próprio: no adulto, ceftriaxona 2 g de 12 em 12 horas por 7 dias — a mesma dose diária de 4 g, escrita por dose em vez de por dia, e essa troca de unidade dentro do mesmo documento é fonte de erro de leitura.

Duas observações sobre esse quadro valem mais que decorá-lo. A primeira é que ele não tem linha de Listeria nem de estafilococo e não tem esquema empírico — de modo que a resposta de uma questão sobre o adulto imunossuprimido ou pós-neurocirúrgico não está nele. A segunda é que a duração de 10 a 14 dias atribuída às enterobactérias contraria o quadro pediátrico do mesmo capítulo, que fixa 21 dias para outros bacilos gram-negativos, como Escherichia coli e Klebsiella, e 21 dias para Pseudomonas aeruginosa. Dentro do mesmo documento, portanto, a mesma bactéria é tratada por três semanas na criança e por duas, no máximo, no adulto.

A resistência tem dois números que a prova usa. Cerca de 30% dos isolados de Haemophilus influenzae sorotipo b produzem betalactamase e são, portanto, resistentes à ampicilina, permanecendo sensíveis às cefalosporinas de terceira geração. No pneumococo, estudos nacionais mostram isolados de líquor não suscetíveis à penicilina acima de 30%, com resistência às cefalosporinas de terceira geração ainda baixa no país. É essa última frase que explica por que o texto brasileiro não coloca vancomicina no esquema inicial, ao contrário do americano.

As regras da vancomicina e da rifampicina são fechadas e caem literalmente. Nos casos de pneumococo resistente à penicilina e às cefalosporinas, usa-se vancomicina associada a cefalosporina de terceira geração. A rifampicina é acrescentada em três situações: piora clínica após 24 a 48 horas de terapia com vancomicina e cefalosporina de terceira geração; falha na esterilização liquórica; ou identificação de pneumococo com concentração inibitória mínima igual ou maior que 4 µg/mL para cefotaxima ou ceftriaxona. E a vancomicina, por sua baixa penetração liquórica, não deve ser utilizada como agente isolado no tratamento de meningite bacteriana. A diretriz americana registra ainda que alguns especialistas acrescentariam rifampicina quando a dexametasona também é dada — porque o corticoide reduz a inflamação meníngea e, com ela, a penetração da vancomicina.

Dexametasona: quem recebe, quando exatamente, e em que agente o benefício aparece

O documento brasileiro não incorpora corticoide adjuvante. A única menção do Guia está no capítulo de doença meningocócica, e é para dizer que o uso de corticoide nas situações de choque é discutível, pois há controvérsias a respeito da influência favorável ao prognóstico. Quem sustenta a dexametasona é o ensaio europeu de de Gans e van de Beek, publicado no New England Journal of Medicine em 2002, e a diretriz americana que o incorporou dois anos depois.

O ensaio randomizou 301 adultos com meningite bacteriana aguda — 157 para dexametasona e 144 para placebo. A dexametasona foi administrada na dose de 10 mg, 15 a 20 minutos antes da primeira dose de antibiótico ou junto com ela, e repetida a cada 6 horas por quatro dias. O desfecho primário foi a escala de resultados de Glasgow em oito semanas. O tratamento reduziu o risco de desfecho desfavorável, com risco relativo de 0,59 e intervalo de confiança de 95% de 0,37 a 0,94, e reduziu a mortalidade, com risco relativo de 0,48 e intervalo de 0,24 a 0,96. No subgrupo de meningite pneumocócica, o desfecho desfavorável ocorreu em 26% do grupo dexametasona contra 52% do grupo placebo, com risco relativo de 0,50. A diretriz americana, ao reproduzir o ensaio, registra os percentuais do conjunto: desfecho desfavorável em 15% contra 25% e óbito em 7% contra 15%, além das mortes no subgrupo pneumocócico, 14% contra 34%.

Convém fazer as contas que os artigos não trazem prontas. No conjunto, a diferença absoluta de 10 pontos percentuais no desfecho desfavorável corresponde a um número necessário para tratar de 10 pacientes, e a de 8 pontos na mortalidade, a 13. No subgrupo pneumocócico o efeito é de outra ordem: 26 pontos de diferença absoluta no desfecho desfavorável dão um número necessário para tratar de aproximadamente 4 pacientes, e 20 pontos na mortalidade dão 5. É por isso que a recomendação nasceu amarrada ao pneumococo, e não à meningite bacteriana em geral.

A recomendação da diretriz americana tem quatro travas, e é nelas que a alternativa erra. Primeira, a indicação: dexametasona em adultos com meningite pneumocócica suspeita ou comprovada, com grau A-I. Segunda, a dose e o momento: 0,15 mg/kg de 6 em 6 horas por 2 a 4 dias, com a primeira dose administrada 10 a 20 minutos antes da primeira dose de antimicrobiano, ou pelo menos junto com ela — em um adulto de 70 kg, 0,15 mg/kg dão 10,5 mg, praticamente a dose fixa de 10 mg usada no ensaio. Terceira, a continuação: a dexametasona só deve ser mantida se o Gram do líquor mostrar diplococos gram-positivos ou se hemocultura ou cultura de líquor forem positivas para S. pneumoniae. Quarta, a exclusão: não deve ser dada a adulto que já recebeu antimicrobiano, porque nessa circunstância é improvável que melhore o desfecho — também grau A-I. Para os demais agentes, a diretriz considera os dados inadequados, mas registra que algumas autoridades iniciariam dexametasona em todos os adultos, porque a etiologia nem sempre está definida na avaliação inicial.

A revisão sistemática Cochrane de Brouwer, McIntyre, Prasad e van de Beek, atualizada em 2015 com 25 ensaios e 4.121 participantes — 2.511 crianças, 1.517 adultos e 93 de população mista —, dá o quadro geral e a ressalva. A mortalidade global foi de 17,8% com corticoide contra 19,9% sem, com risco relativo de 0,90 e intervalo de 0,80 a 1,01, sem significância; entre os adultos, o risco relativo foi de 0,74, com intervalo de 0,53 a 1,05. Houve redução de perda auditiva grave, com risco relativo de 0,67, de qualquer perda auditiva, 0,74, e de sequelas neurológicas, 0,83. A mortalidade caiu no subgrupo de meningite por S. pneumoniae, com risco relativo de 0,84. O benefício sobre perda auditiva grave se concentrou nas crianças com meningite por Haemophilus influenzae, com risco relativo de 0,34. Os autores concluem que os dados apoiam o uso de corticoide em países de alta renda e que não encontraram efeito benéfico em países de baixa renda — e registram, do lado do dano, aumento de febre recorrente, com risco relativo de 1,27.

Meningococo: notificar em 24 horas, isolar, e bloquear os contatos

Meningite é doença de notificação compulsória imediata, em até 24 horas. Na Lista Nacional de Notificação Compulsória republicada pela Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, as meningites ocupam o item 16, dividido em duas linhas: doença invasiva por Haemophilus influenzae e doença meningocócica e outras meningites. As duas trazem a marca na coluna de notificação imediata, em até 24 horas, para a Secretaria Estadual de Saúde e para a Secretaria Municipal de Saúde — a coluna do Ministério da Saúde fica em branco. Repare no desenho da linha: viral, bacteriana, tuberculosa e fúngica cabem todas em outras meningites, e por isso compartilham o mesmo prazo. A mecânica geral da Lista — quem notifica, o que muda quando a periodicidade é semanal — está no capítulo de vigilância e notificação compulsória.

O Guia detalha o resto do ato. Notificam profissionais da assistência, da vigilância e os laboratórios públicos e privados, por telefone, e-mail ou outra forma de comunicação, e o registro é feito no Sistema de Informação de Agravos de Notificação por meio da Ficha de Investigação de Meningite. Surtos, aglomerados de casos e óbitos são de notificação imediata. Caso confirmado de meningite tuberculosa preenche, além dessa, a ficha de notificação da tuberculose. A notificação não é papelada: é ela que dispara a identificação dos contatos, a quimioprofilaxia e a avaliação de surto.

O isolamento é curto e tem base biológica declarada: a transmissibilidade persiste até que o meningococo desapareça da nasofaringe, e a bactéria é eliminada em até 24 horas de antibioticoterapia adequada. O Protocolo de Precauções e Isolamento em Serviços de Saúde da Anvisa fixa a duração — até 24 horas após o início de terapia eficaz — tanto para doença meningocócica quanto para meningite por Haemophilus influenzae tipo b. Duas linhas do mesmo protocolo, porém, descrevem o conjunto de precauções de modo diferente para a doença meningocócica: em uma delas, contato e gotículas; em outra, padrão e gotículas. Na prática, o que decide é a precaução para gotículas nas primeiras 24 horas de tratamento eficaz. O mesmo protocolo classifica a meningite pneumocócica como precaução padrão — sem gotículas —, e a meningite asséptica, não bacteriana ou viral, também como padrão, acrescentando precaução de contato para bebês e crianças pequenas. Meningite fúngica e meningite tuberculosa isolada também são precaução padrão.

Contato próximo tem definição escrita e numérica, e é ela que decide quem toma antibiótico. É o indivíduo que teve contato direto e prolongado com o caso suspeito ou confirmado, com exposição direta a gotículas de secreção respiratória, em duas janelas: retrospectiva, do início dos sinais e sintomas até 10 dias antes; e prospectiva, do início dos sintomas até 24 horas após o início do tratamento com cefalosporina de terceira geração — ceftriaxona ou cefotaxima — ou com rifampicina. As situações listadas são cinco: compartilhar ambiente doméstico, como o mesmo domicílio ou dormitório; exposição direta a secreção nasofaríngea, como beijo ou compartilhamento de objetos que viabilizem troca salivar; exposição próxima e contínua de pelo menos 4 horas e a até 1 metro de distância, em ambiente fechado; exposição próxima por pelo menos cinco dias, contínuos ou não, como o ambiente de trabalho; e exposição direta a gotículas na realização de procedimento invasivo potencialmente gerador de aerossol — intubação orotraqueal, passagem de cateter nasogástrico, aspiração de vias aéreas, respiração boca a boca — sem equipamento de proteção individual adequado, antes de o paciente completar 24 horas de tratamento.

Contato transitório, fora desses períodos, não é considerado contato próximo e prolongado, e não recebe quimioprofilaxia. Isso vale inclusive para a equipe: o Guia registra que não há recomendação para os profissionais de saúde que atenderam o caso, exceto para aqueles que realizaram procedimentos invasivos sem equipamento de proteção individual adequado. E há um contato que quase sempre esquecem — o próprio paciente. Ele recebe quimioprofilaxia se o tratamento da doença não estiver sendo realizado com cefalosporina de terceira geração: quem foi tratado com penicilina ou ampicilina cura a doença invasiva e continua carregando o meningococo na nasofaringe.

Quimioprofilaxia: droga, dose, prazo — e a conta em comprimidos

A droga de primeira escolha é a rifampicina, administrada em dose adequada e simultaneamente a todos os contatos próximos. Para doença meningocócica, o esquema é de 12 em 12 horas por 2 dias: 5 mg/kg por dose em menores de 1 mês e 10 mg/kg por dose, no máximo 600 mg, a partir de 1 mês — faixa que inclui o adulto. As alternativas em dose única: ceftriaxona 125 mg por via intramuscular abaixo de 12 anos e 250 mg por via intramuscular a partir dos 12 anos; ciprofloxacino 500 mg por via oral a partir dos 18 anos. Rifampicina e ciprofloxacino não são recomendados para gestantes; a ceftriaxona é a droga de primeira escolha nesse grupo. A azitromicina em dose única de 500 mg fica para resistência ao ciprofloxacino ou ausência das demais opções.

A conta que a prescrição exige, e que quase nenhum material faz: o adulto contato de doença meningocócica toma 600 mg de rifampicina de 12 em 12 horas por 2 dias, isto é, quatro tomadas e 2.400 mg no total. Como a apresentação disponível é a cápsula de 300 mg, são duas cápsulas por tomada e oito cápsulas no total. Guardar o total em cápsulas evita o erro de dispensação mais comum do tema — e evita também confundir com a linha do Haemophilus, em que o adulto toma 600 mg uma vez ao dia por 4 dias: outro ritmo, mesma soma de oito cápsulas.

O prazo é parte da prescrição. A quimioprofilaxia deve ser realizada o mais breve possível, idealmente nas primeiras 24 horas após o início dos sintomas do caso. Administrada mais de 10 dias após a exposição ao caso-índice, é de valor bastante limitado ou nulo, porque a maioria dos casos secundários ocorre na primeira semana. Depois de feita, os contatos são monitorados quanto a sinais e sintomas por 10 dias contados da última exposição, que é o teto do período de incubação. Se novos casos surgirem no mesmo grupo de contatos em até 30 dias da profilaxia, um antibiótico alternativo deve ser considerado para a repetição.

Surto muda a régua de quem recebe. Surto comunitário de doença meningocócica é a ocorrência de pelo menos três casos primários, sem vínculo entre si, do mesmo sorogrupo, confirmados por cultura ou PCR, em período igual ou inferior a três meses numa mesma localidade geográfica, com incidência atual acima da média esperada. Surto institucional é a ocorrência de pelo menos dois casos primários, sem vínculo entre si, do mesmo sorogrupo, confirmados laboratorialmente, em até três meses entre indivíduos que frequentam a mesma instituição — universidades, escolas, creches, indústrias, instituições de longa permanência e instalações correcionais. Em surto, recomenda-se a quimioprofilaxia ampliada: recebem todos os que tiveram contato direto com o caso nos 10 dias anteriores ao início dos sintomas e durante a manifestação deles. O encerramento do cenário de surto é decidido em conjunto pelas três esferas de gestão, com regresso sustentado ao canal endêmico por pelo menos três meses.

Duas notas de escopo. Quimioprofilaxia existe para contato de doença meningocócica e de doença invasiva por Haemophilus influenzae — não existe para pneumococo nem para meningite viral. E as doses, os intervalos e as durações das duas linhas são diferentes entre si: no meningococo, 12 em 12 horas por 2 dias; no Haemophilus, uma vez ao dia por 4 dias, com dose por quilo maior. As quatro faixas etárias da linha do Haemophilus e as regras de creche estão no capítulo de meningites na infância, que é onde elas decidem conduta.

Vacinas: o que mudou a epidemiologia que você vai encontrar

A vacinação reescreveu duas vezes a lista de agentes em trinta anos, e é isso que explica por que o esquema empírico brasileiro é diferente do americano. A vacina contra o Haemophilus influenzae tipo b entrou no Calendário Nacional nos anos 1990, e desde então houve redução progressiva dos casos de doença invasiva por Hib. A meningocócica C conjugada entrou em 2010 e reduziu consideravelmente a incidência da doença meningocócica: na última década o país manteve média de menos de um caso por 100 mil habitantes na população geral, com 0,35 caso por 100 mil em 2023.

A consequência que interessa a quem atende adulto é dupla. Primeiro, o Haemophilus deixou de ser diagnóstico provável — a meningite por Haemophilus registrou média anual de 137 casos no país inteiro entre 2010 e 2023, e a maior parte dos isolados recentes é de cepas não tipáveis e do sorotipo a, não mais do b. Segundo, os sorogrupos de meningococo que importam no Brasil são o B, o C e o W, com o Y em menor escala — e o B não é coberto pela vacina de rotina da rede pública.

O esquema do calendário e as indicações por faixa etária e por condição clínica estão nos capítulos de calendário vacinal — o da criança e o do adolescente ao idoso e da gestante. O que cabe registrar aqui é o gancho clínico: adulto com asplenia anatômica ou funcional, com deficiência de complemento ou com fístula liquórica é grupo prioritário para profilaxia vacinal, e o Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais é onde essas indicações moram. E a BCG, aplicada ao nascer, protege contra as formas graves de tuberculose, incluindo a meníngea.

Meningite viral: quando é seguro tratar como viral — e o herpes, que não se pode perder

A meningite viral é mais comum que a bacteriana e tem outro prognóstico. Os principais agentes são os enterovírus — os três tipos de poliovírus, 28 tipos antigênicos de echovírus, 23 tipos de Coxsackie A, seis de Coxsackie B e cinco outros enterovírus. A transmissão predominante é fecal-oral, podendo ocorrer também por via respiratória; o período de incubação situa-se comumente entre 7 e 14 dias, variando de 2 a 35. Outros vírus entram na lista: arbovírus, vírus da caxumba, arenavírus da coriomeningite linfocitária, HIV-1, vírus do sarampo, adenovírus e o grupo herpes — varicela-zóster, Epstein-Barr e citomegalovírus.

O quadro dos enterovírus começa com febre, mal-estar geral, náusea e dor abdominal, e um a dois dias depois aparecem os sinais de irritação meníngea, com rigidez de nuca geralmente acompanhada de vômitos. Manifestações gastrointestinais, respiratórias, mialgia e erupção cutânea acompanham com frequência. A duração é em geral inferior a uma semana, o restabelecimento costuma ser completo e as complicações são raras fora do imunodeficiente. O tratamento antiviral específico não tem sido amplamente utilizado: em geral emprega-se tratamento de suporte, com avaliação criteriosa e acompanhamento clínico.

É seguro tratar como viral quando o conjunto fecha: paciente em bom estado geral, sem déficit focal e sem alteração persistente do nível de consciência; líquor límpido, com predomínio linfocitário, glicose normal e razão liquor-sangue acima de 0,4, proteína pouco elevada e bacterioscopia negativa; e nenhum antibiótico antes da coleta. Cada um desses itens tem um contra-exemplo que obriga a tratar como bacteriana. Nas primeiras horas de uma meningite bacteriana a resposta celular ainda não se organizou e o líquor engana — a própria diretriz americana registra que cerca de 10% dos pacientes com meningite bacteriana aguda se apresentam com predomínio de linfócitos ou monócitos no líquor. E no paciente que tomou antibiótico antes de chegar, a celularidade se desloca para linfócitos, a bacterioscopia negativa e a cultura fica estéril: é a meningite parcialmente tratada, que continua bacteriana e cujo indício que sobra é a glicose.

A exceção que não se pode perder é o herpes. Tratamento específico está preconizado para a meningite herpética, por HSV 1 e 2 e por varicela-zóster, com aciclovir endovenoso — e o aciclovir 250 mg em pó para solução injetável está no Componente Básico da Rename 2024. O gatilho não é o líquor, que é linfocitário e pode ter glicose normal como qualquer virose: é o quadro encefalítico — alteração do comportamento ou da personalidade, crise convulsiva, afasia, déficit focal, febre com confusão persistente. Diante dele, o aciclovir entra empiricamente junto com o antibiótico, antes de a reação em cadeia da polimerase para herpes voltar, porque o custo de esperar é irreversível. Na caxumba, a gamaglobulina específica hiperimune pode diminuir a incidência de orquite, mas não melhora a síndrome neurológica.

E o passo que a questão esconde: meningite viral notifica igual à bacteriana. Ela está dentro de outras meningites, no item 16 da Lista Nacional, e por isso tem o mesmo prazo imediato de 24 horas, a mesma Ficha de Investigação de Meningite e o mesmo destino no Sinan. Aglomerado de casos numa mesma instituição dispara investigação de surto, com coleta de líquor e fezes para isolamento viral ou reação em cadeia da polimerase. O que ela não tem é quimioprofilaxia — rifampicina existe para contato de meningococo e de Haemophilus influenzae tipo b, e para mais ninguém.

04

Da suspeita ao bloqueio: a sequência que a questão cobra

O fluxo abaixo é a ordem em que as decisões acontecem no plantão do adulto. Os cinco cartões trazem os padrões liquóricos e a única bifurcação que muda a ordem — a tomografia. As três tabelas concentram o que se decora: o esquema empírico por contexto, a terapia dirigida com dose e duração, e a quimioprofilaxia do contato.

  1. 1Suspeitou: febre com dois ou mais sintomas, ou febre com um sinal de irritação meníngea, ou febre de início súbito com petéquias. Não exija a tríade — ela aparece em 44% dos casos.
  2. 2Colheu hemocultura: primeiro passo, sempre, em segundos. É ela que preserva o diagnóstico etiológico se a punção atrasar.
  3. 3Checou os seis critérios de imagem: imunocomprometimento, doença prévia do sistema nervoso central, convulsão na última semana, papiledema, nível de consciência anormal, déficit neurológico focal. Nenhum deles, punção direta.
  4. 4Havendo critério: dexametasona e antibiótico empírico ANTES do tomógrafo; punção depois da imagem. A tomografia adia a agulha, nunca a primeira dose.
  5. 5Tratou empiricamente pela idade e pelo contexto: até 50 anos, vancomicina com cefalosporina de terceira geração; acima de 50, some ampicilina pela Listeria; pós-neurocirurgia ou trauma penetrante, vancomicina com cefepima, ceftazidima ou meropenem.
  6. 6Leu o líquor com a glicemia do mesmo momento: razão liquor-sangue abaixo de 0,23 fecha bacteriana; glicose baixa com líquor claro levanta tuberculose ou fungo; quadro encefalítico pede aciclovir empírico.
  7. 7Notificou em até 24 horas às secretarias estadual e municipal, pela Ficha de Investigação de Meningite, no Sinan.
  8. 8Isolou por gotículas nas primeiras 24 horas de terapia eficaz, se meningococo ou Haemophilus. Pneumococo é precaução padrão.
  9. 9Bloqueou: identificou os contatos próximos pelas janelas de 10 dias para trás e 24 horas de tratamento para frente, e prescreveu a quimioprofilaxia — idealmente nas primeiras 24 horas.
  10. 10Ajustou pela cultura e fixou a duração: meningococo 7 dias, Haemophilus 7, pneumococo 10 a 14. Manteve a dexametasona só se o agente for pneumococo.

Bacteriana

Aspecto turvo, cor branco-leitosa ou ligeiramente xantocrômica. Leucócitos de 200 a milhares, com neutrófilos. Glicose e cloretos diminuídos, proteínas totais aumentadas, globulinas positivas à custa de gamaglobulina. Os cortes que, isoladamente, confirmam origem bacteriana com 99% de certeza ou mais: glicose liquórica abaixo de 34 mg/dL, razão liquor-sangue abaixo de 0,23, proteína acima de 220 mg/dL, mais de 2.000 leucócitos por mm³ ou mais de 1.180 neutrófilos por mm³. Nenhum deles, porém, serve para afastar.

Viral

Aspecto límpido, cor incolor ou opalescente. De 5 a 500 linfócitos, cloretos normais, proteínas levemente aumentadas. A glicose é o dado que separa da tuberculosa e da fúngica — e é justamente a célula que o quadro nacional das meningites virais deixa em branco, trazendo ali apenas o valor de referência de 45 a 100 mg/dL. Razão liquor-sangue acima de 0,4 acompanha o padrão viral.

Tuberculosa

Aspecto límpido ou ligeiramente turvo (opalescente), cor incolor ou xantocrômica. De 25 a 500 linfócitos, glicose e cloretos diminuídos, proteínas aumentadas, globulinas positivas à custa de alfa e gamaglobulinas. É a combinação que denuncia: líquor claro com glicose baixa não é virose. Escore, esquema e duração estão no capítulo de tuberculose.

Fúngica

Aspecto límpido, cor incolor, cloretos normais, glicose diminuída, proteínas aumentadas, globulinas com aumento de gamaglobulina e celularidade acima de 10 células por mm³, de linfócitos e monócitos. Na tinta da China e no antígeno criptocócico está o diagnóstico; o tratamento em três fases pertence ao capítulo de HIV/aids.

A ordem, quando a imagem entra

A hemocultura abre a sequência e não depende de nada. Daí saem duas vias: quem não tem critério de imagem vai direto à punção; quem tem passa antes pelo tomógrafo e punciona depois. A faixa de baixo é o antibiótico — com a dexametasona junto quando indicada — e ela não se interrompe em nenhuma das duas vias. O que a tomografia adia é a agulha, nunca a primeira dose.

CaracterísticaBacterianaViralTuberculosaFúngicaValores de referência
AspectoTurvoLímpidoLímpido ou ligeiramente turvo (opalescente)LímpidoLímpido
CorBranca-leitosa ou ligeiramente xantocrômicaIncolor ou opalescenteIncolor ou xantocrômicaIncolorIncolor, cristalino (água de rocha)
Leucócitos200 a milhares (neutrófilos)5 a 500 linfócitos25 a 500 linfócitosAcima de 10 céls/mm³ (linfócitos e monócitos)0 a 5/mm³
GlicoseDiminuídaCélula em branco no quadro de origemDiminuídaDiminuída45 a 100 mg/dL
Proteínas totaisAumentadasLevemente aumentadasAumentadasAumentadas15 a 50 mg/dL
GlobulinasPositiva (gamaglobulina)Negativa ou positivaPositiva (alfa e gamaglobulinas)Aumento (gamaglobulina)Negativa
CloretosDiminuídosNormaisDiminuídosNormais680 a 750 (ver nota de unidade)

Esquema empírico do adulto por contexto (diretriz da IDSA)

ContextoPatógenos esperadosEsquema empírico
2 a 50 anos, comunitárioN. meningitidis, S. pneumoniaeVancomicina + cefalosporina de 3ª geração (ceftriaxona ou cefotaxima)
Acima de 50 anosS. pneumoniae, N. meningitidis, L. monocytogenes, bacilos gram-negativos aeróbiosVancomicina + ampicilina + cefalosporina de 3ª geração
Fratura de base de crânioS. pneumoniae, H. influenzae, estreptococo beta-hemolítico do grupo AVancomicina + cefalosporina de 3ª geração
Trauma penetranteS. aureus, estafilococos coagulase-negativos (S. epidermidis), bacilos gram-negativos aeróbios, incluindo P. aeruginosaVancomicina + cefepima, ou + ceftazidima, ou + meropenem
Pós-neurocirurgiaBacilos gram-negativos aeróbios, incluindo P. aeruginosa, S. aureus, estafilococos coagulase-negativosVancomicina + cefepima, ou + ceftazidima, ou + meropenem
Derivação liquóricaEstafilococos coagulase-negativos, S. aureus, bacilos gram-negativos aeróbios, Propionibacterium acnesVancomicina + cefepima, ou + ceftazidima, ou + meropenem
Dexametasona adjuvanteIndicada no pneumococo suspeito ou comprovado0,15 mg/kg de 6 em 6 horas por 2 a 4 dias, a primeira dose 10 a 20 min antes do antibiótico ou junto com ele

Terapia dirigida no adulto e duração (Guia de Vigilância em Saúde)

AgenteAntibióticoDose (endovenosa)IntervaloDuração
Neisseria meningitidisCeftriaxona2 g por dose12 em 12 horas7 dias
Haemophilus influenzaeCeftriaxona4 g/dia12 em 12 horas7 dias
Streptococcus pneumoniaeCeftriaxona4 g/dia12 em 12 horas10 a 14 dias
EnterobactériasCeftriaxona4 g/dia12 em 12 horas10 a 14 dias (ver nota)
PseudomonasMeropenem6 g/dia8 em 8 horas10 a 14 dias (ver nota)
Pneumococo resistente à penicilina e à cefalosporinaVancomicina + cefalosporina de 3ª geração; rifampicina em 3 situações fechadasConforme peso10 a 14 dias

Quimioprofilaxia do contato de doença meningocócica (Nota Técnica Conjunta nº 154/2024)

DrogaIdadeDoseIntervaloDuração
Rifampicina (1ª escolha)Menor de 1 mês5 mg/kg/dose12 em 12 horas2 dias
Rifampicina (1ª escolha)1 mês ou mais, incluindo o adulto10 mg/kg/dose (máximo 600 mg)12 em 12 horas2 dias
Ceftriaxona (1ª escolha na gestante)Menor de 12 anos125 mg, intramuscularDose única
Ceftriaxona (1ª escolha na gestante)12 anos ou mais250 mg, intramuscularDose única
Ciprofloxacino18 anos ou mais500 mg, via oralDose única
AzitromicinaAlternativa em resistência ao ciprofloxacino ou ausência das demais opções500 mgDose única

A conta da prescrição, que nenhuma tabela traz pronta: o adulto contato de doença meningocócica recebe 600 mg de rifampicina de 12 em 12 horas por 2 dias, ou seja, quatro tomadas e 2.400 mg no total. A apresentação da Rename 2024 é a cápsula de 300 mg — duas por tomada, oito no total. O contato de doença invasiva por Haemophilus recebe 600 mg uma vez ao dia por 4 dias: ritmo diferente, mesma soma de oito cápsulas.

Unidade dos cloretos: o quadro nacional imprime a faixa de referência como 680 a 750 mEq/L. A concentração de cloreto no líquor fica em torno de 120 mEq/L, discretamente acima da plasmática; lidos como miligramas por decilitro expressos em cloreto de sódio, 680 e 750 mg/dL correspondem a 116 e 128 mEq/L. O intervalo está certo, a unidade impressa não.

No quadro nacional das meningites virais, a linha da glicose traz apenas o valor de referência: as células da meningite viral e da encefalite estão vazias. O dado que mais separa o padrão viral do tuberculoso e do fúngico é justamente esse, e precisa ser lido por contraste com os outros quadros.

Duração no bacilo gram-negativo: o quadro do adulto fixa 10 a 14 dias para enterobactérias e para Pseudomonas; o quadro pediátrico do mesmo capítulo fixa 21 dias para os dois. Diante de uma questão, vale ler qual quadro o enunciado está citando — e, na prática, meningite por gram-negativo é tratada por pelo menos três semanas.

Rename 2024: ceftriaxona (250 mg, 500 mg e 1 g), cefotaxima sódica 500 mg, ciprofloxacino 500 mg, dexametasona 4 mg/mL injetável e aciclovir 250 mg injetável constam do Componente Básico; benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI e rifampicina 300 mg constam do Básico e do Estratégico. Ampicilina, vancomicina, meropenem e ceftazidima não constam de nenhum anexo — embora o Guia afirme que os medicamentos das suas tabelas estão no Componente Estratégico e remeta à edição de 2022 da Rename.

No quadro pediátrico de terapia dirigida, a linha da Listeria traz uma única dose diária — 30 mg/kg/dia — para a associação de ampicilina com amicacina. Esse valor é o da amicacina; a ampicilina, na mesma tabela, aparece como 200 a 300 mg/kg/dia na linha do pneumococo. Ler os 30 mg/kg/dia como dose de ampicilina é subdosar cerca de dez vezes.

Dexametasona: o ensaio usou dose fixa de 10 mg de 6 em 6 horas por 4 dias; a diretriz recomenda 0,15 mg/kg de 6 em 6 horas por 2 a 4 dias. Em um adulto de 70 kg os dois esquemas praticamente coincidem — 10,5 mg por dose.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Dexametasona adjuvante na meningite bacteriana do adulto

Sem corticoide adjuvante no documento nacional — Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, 2024

As tabelas brasileiras de tratamento trazem apenas antibiótico, dose, intervalo e duração; o corticoide não integra nenhum esquema. A única menção está no capítulo de doença meningocócica, que registra que o uso de corticoide nas situações de choque é discutível, pois há controvérsias a respeito da influência favorável ao prognóstico. Trata-se de documento de vigilância epidemiológica, e não de protocolo clínico de terapia intensiva.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, 2024, volume 1, capítulos Doença meningocócica e Outras meningites. Capítulo Doença meningocócica, item Tratamento, e capítulo Outras meningites, Quadros 3 e 4.

Dexametasona no pneumococo, com grau A-I — diretriz da Infectious Diseases Society of America, 2004

A diretriz recomenda dexametasona 0,15 mg/kg de 6 em 6 horas por 2 a 4 dias, com a primeira dose 10 a 20 minutos antes da primeira dose de antimicrobiano ou pelo menos junto com ela, em adultos com meningite pneumocócica suspeita ou comprovada, grau A-I. Manda continuar apenas se o Gram do líquor mostrar diplococos gram-positivos ou se as culturas forem positivas para S. pneumoniae, e não administrar a quem já recebeu antimicrobiano. Para outros agentes considera os dados inadequados, embora registre que algumas autoridades iniciariam em todos os adultos, porque a etiologia nem sempre está definida na avaliação inicial.

Tunkel AR, Hartman BJ, Kaplan SL, Kaufman BA, Roos KL, Scheld WM, Whitley RJ. Practice Guidelines for the Management of Bacterial Meningitis. Clinical Infectious Diseases, 2004;39(9):1267-84. Seção sobre dexametasona adjuvante, recomendação para adultos.

Na prova

A diferença tem causa dupla: o documento brasileiro é de vigilância epidemiológica e não trata de terapia adjuvante, e a régua internacional amarrou a recomendação a um agente específico. Para identificar o recorte, olhe o vocabulário e as alternativas. Enunciado que cita Guia de Vigilância em Saúde, notificação, quimioprofilaxia, Sinan ou conduta na rede pública está no corpo brasileiro, e ali o esquema é antibiótico com suporte. Enunciado de emergência ou terapia intensiva que oferece alternativas com dexametasona 0,15 mg/kg de 6 em 6 horas, ou 10 mg de 6 em 6 horas, iniciada antes ou junto da primeira dose de antibiótico, está trabalhando com o corpo internacional — a própria existência do distrator com dose e momento denuncia de qual literatura a questão saiu. E, dentro do corpo internacional, a pista fina é o agente: alternativa que indica dexametasona para qualquer meningite bacteriana é mais frouxa que a diretriz, que a prende ao pneumococo e manda suspender se o Gram ou a cultura apontarem outra bactéria.

Idade como critério de tomografia antes da punção lombar

Idade de 60 anos ou mais entre os achados associados a tomografia alterada — Hasbun e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2001

No estudo prospectivo com 301 adultos com suspeita de meningite, dos quais 235 fizeram tomografia antes da punção, os achados clínicos basais associados a tomografia alterada foram idade de 60 anos ou mais, história de doença do sistema nervoso central, estado de imunocomprometimento, convulsão na semana anterior e achados neurológicos específicos. A ausência de todos eles teve valor preditivo negativo de 97%.

Hasbun R, Abrahams J, Jekel J, Quagliarello VJ. Computed tomography of the head before lumbar puncture in adults with suspected meningitis. N Engl J Med. 2001;345(24):1727-33.

Seis critérios, sem idade e com papiledema — diretriz da Infectious Diseases Society of America, 2004

A tabela de critérios da diretriz lista estado de imunocomprometimento, história de doença do sistema nervoso central, convulsão de início recente dentro de 1 semana da apresentação, papiledema, nível de consciência anormal e déficit neurológico focal — este último incluindo pupila dilatada não reativa, anormalidades da motricidade ocular, campos visuais anormais, paresia do olhar conjugado e desvio de braço ou perna. A idade não integra a lista.

Tunkel AR, Hartman BJ, Kaplan SL, Kaufman BA, Roos KL, Scheld WM, Whitley RJ. Practice Guidelines for the Management of Bacterial Meningitis. Clinical Infectious Diseases, 2004;39(9):1267-84. Tabela de critérios recomendados para adultos que devem realizar tomografia antes da punção lombar, grau B-II.

Na prova

Este é um caso em que o estudo e a diretriz que o cita não dizem a mesma coisa, e a banca escolhe um dos dois. Enunciado que pergunta quais achados se associam a tomografia alterada está pedindo a lista do estudo, e ali a idade de 60 anos ou mais entra. Enunciado que pergunta quem deve fazer tomografia antes de puncionar está pedindo os critérios da diretriz, e ali a idade não aparece — o que entra é papiledema, que por sua vez não estava entre os achados basais analisados no estudo. Alternativa que manda tomografar todo paciente acima de 60 anos, sem nenhum outro achado, está citando o estudo como se fosse a régua. Na dúvida, o restante da lista é idêntico nos dois: imunocomprometimento, doença prévia do sistema nervoso central, convulsão recente, nível de consciência anormal e déficit focal.

Rifampicina para gestante contato de doença meningocócica

Rifampicina utilizada na gestante, sem evidência de teratogenicidade — Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, 2024

Os dois capítulos afirmam que, em relação às gestantes, o medicamento tem sido utilizado para quimioprofilaxia, pois não há evidências de que a rifampicina possa apresentar efeitos teratogênicos, e que a relação risco-benefício do uso de antibióticos pela gestante deverá ser avaliada pelo médico assistente.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, 2024, volume 1, capítulos Doença meningocócica e Outras meningites. Capítulo Doença meningocócica, item Quimioprofilaxia, e capítulo Outras meningites, item de quimioprofilaxia para Haemophilus.

Ceftriaxona como primeira escolha na gestante — Nota Técnica Conjunta nº 154/2024

A nota registra que, apesar de não haver estudos controlados sobre efeitos teratogênicos em humanos com o uso da rifampicina, estudos de reprodução animal demonstraram efeitos adversos no feto, e orienta o uso da ceftriaxona como medicamento de primeira escolha para quimioprofilaxia nesse público. A tabela marca rifampicina e ciprofloxacino como não recomendados para gestantes e a ceftriaxona como droga de primeira escolha. O documento declara revogadas as definições da 6ª edição revisada do Guia.

Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 154/2024-DPNI/SVSA/MS, de 1º de outubro de 2024. Itens 4.5.2 e 4.6.2.

Na prova

Aqui não há dois mundos, e sim duas datas do mesmo órgão — e a nota técnica é a que vale. O recorte se identifica pelo vocabulário: questão que reproduz o Guia costuma dizer que a rifampicina tem sido utilizada em gestantes e transferir a decisão ao médico assistente; questão alinhada à nota técnica traz a ceftriaxona nomeada como primeira escolha para esse público, com a dose de 250 mg intramuscular em dose única a partir dos 12 anos. Alternativa que ofereça ciprofloxacino a gestante está errada nas duas leituras.

Existe um prazo-alvo entre a chegada do paciente e a primeira dose de antibiótico

Dados inadequados para definir o intervalo, grau C-III — diretriz da Infectious Diseases Society of America, 2004

A diretriz considera que, com base na evidência disponível, os dados são inadequados para delinear diretrizes específicas sobre o intervalo entre o encontro médico inicial e a administração da primeira dose de antimicrobiano, atribuindo grau C-III a essa posição. Acrescenta que a meningite bacteriana é uma emergência neurológica e que a terapia apropriada deve ser iniciada assim que o diagnóstico for considerado provável, incluindo a administração antes da admissão hospitalar quando o paciente se apresenta fora do hospital.

Tunkel AR, Hartman BJ, Kaplan SL, Kaufman BA, Roos KL, Scheld WM, Whitley RJ. Practice Guidelines for the Management of Bacterial Meningitis. Clinical Infectious Diseases, 2004;39(9):1267-84. Seção sobre o momento da administração do antimicrobiano.

Atraso superior a 24 a 72 horas como fator associado a sequela — Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030, Ministério da Saúde, 2024

O documento lista, entre os fatores relacionados à assistência que devem ser considerados na gênese das sequelas, o atendimento tardio, definido como mais de 48 horas após o início dos sintomas, e o atraso no início do tratamento com antibióticos, definido como superior ao intervalo de 24 a 72 horas. É um limite de tolerância epidemiológico, não uma meta de plantão.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030. Brasília, 2024. Pilar IV, seção sobre sequelas.

Na prova

Enunciado que pede um número de horas está trabalhando com material de curso ou com protocolo institucional, não com as duas réguas abertas aqui — nenhuma delas fixa um relógio. O que ambas fixam é a subordinação: a coleta não atrasa o tratamento, e a imagem não atrasa a primeira dose. Alternativa que diz para aguardar o resultado da tomografia ou do líquor antes de iniciar o antibiótico é errada em qualquer das duas leituras, e é essa a pergunta que a banca realmente está fazendo quando parece perguntar sobre tempo.

06

Caso resolvido

Homem de 66 anos, etilista crônico, é trazido ao pronto-socorro pela filha por febre há um dia, cefaleia intensa e, nas últimas 4 horas, confusão mental. Ao exame: temperatura axilar de 38,9 °C, pressão arterial de 118 por 70 mmHg, frequência cardíaca de 108 bpm, glicemia capilar de 96 mg/dL. Está sonolento, responde a chamado, mas não consegue obedecer a dois comandos consecutivos. Rigidez de nuca presente, sem déficit motor focal, pupilas isocóricas e fotorreagentes, sem lesões de pele. Não usou antibiótico antes.
achado
Febre acompanhada de cefaleia intensa e confusão mental — dois sintomas da lista — e, independentemente disso, febre com um sinal de irritação meníngea. Duas portas de entrada da definição de caso suspeito estão abertas ao mesmo tempo. A ausência de petéquias e de déficit focal não afasta nada.
classificação
Caso suspeito de meningite pela definição da Nota Técnica Conjunta nº 154/2024. O paciente tem ainda dois critérios que mandam a tomografia entrar antes da punção: nível de consciência anormal e incapacidade de obedecer a dois comandos consecutivos, que é o modo como a lista descreve o rebaixamento operacionalmente.
conduta imediata
Acesso venoso e duas hemoculturas agora. Em seguida, e antes do tomógrafo: dexametasona, e logo depois o antibiótico empírico. Como tem 66 anos, o esquema é o da faixa acima de 50 — vancomicina mais ampicilina mais ceftriaxona —, porque a Listeria entra na lista de esperados e nenhuma cefalosporina a cobre. O etilismo reforça a mesma indicação. A punção lombar fica para depois da imagem.
líquor
Tomografia sem lesão expansiva e sem desvio de linha média. Punção: líquor turvo, 3.200 leucócitos por mm³ com 92% de neutrófilos, glicose de 18 mg/dL contra glicemia simultânea de 96 mg/dL — razão de 0,19 —, proteínas de 280 mg/dL. Bacterioscopia com diplococos gram-positivos. Três dos cinco cortes que, isoladamente, preveem infecção bacteriana com 99% de certeza ou mais já estão presentes: glicose abaixo de 34 mg/dL, razão abaixo de 0,23 e proteína acima de 220 mg/dL.
conduta dirigida
Diplococo gram-positivo é pneumococo. A dexametasona, que já havia sido iniciada antes do antibiótico, agora tem indicação confirmada e é mantida — 0,15 mg/kg de 6 em 6 horas por 2 a 4 dias. O antibiótico segue como vancomicina com ceftriaxona; a ampicilina pode ser suspensa com a Listeria afastada. A duração pelo quadro nacional é de 10 a 14 dias. A vancomicina não fica sozinha em momento algum.
vigilância
Notificação em até 24 horas às secretarias estadual e municipal, pela Ficha de Investigação de Meningite, no Sinan — meningite pneumocócica notifica dentro de outras meningites, item 16 da Lista Nacional. Precaução padrão: pneumococo não pede gotículas. E não há quimioprofilaxia para contatos de meningite pneumocócica — a filha que o trouxe não recebe rifampicina. O que cabe a ela é orientação e, se houver condição clínica de risco, revisão da situação vacinal.
07

Agora feche você

Mulher de 21 anos, estudante que mora em alojamento universitário, chega à emergência com febre de início súbito há 8 horas, cefaleia intensa e dois episódios de vômito. Ao exame: temperatura de 39,2 °C, pressão arterial de 104 por 62 mmHg, frequência cardíaca de 118 bpm, lúcida e orientada, obedecendo comandos, sem déficit focal, fundo de olho sem papiledema, rigidez de nuca presente e cerca de dez petéquias no tronco e nos membros inferiores, surgidas nas últimas 2 horas. Nunca teve doença neurológica, não é imunossuprimida e não teve convulsão. Nenhum antibiótico foi usado antes.
achado
Febre de início súbito com petéquias — critério isolado de caso suspeito, suficiente sozinho. Somam-se febre com dois sintomas da lista, cefaleia intensa e vômito, e febre com um sinal de irritação meníngea. Nenhum dos seis critérios de tomografia antes da punção está presente: consciência normal, sem déficit focal, sem papiledema, sem imunossupressão, sem doença prévia do sistema nervoso central e sem convulsão recente.
interpretação
Petéquias de instalação rápida em adulto jovem que vive em alojamento apontam doença meningocócica. Como não há critério de imagem, a punção é feita direto, sem tomografia — o valor preditivo negativo da ausência de todos os critérios é de 97%, e a imagem só custaria tempo. O líquor volta turvo, com 4.100 leucócitos por mm³, 90% de neutrófilos, glicose de 22 mg/dL contra glicemia de 104 mg/dL e bacterioscopia com diplococos gram-negativos.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Segurar o antibiótico até a tomografia sair É a armadilha número um do tema, e ela parece prudência. A regra escrita é a oposta: quando há critério de imagem, colhem-se as hemoculturas e administram-se a dexametasona e o antibiótico empírico antes de o paciente ir ao tomógrafo; a punção é que espera. O documento brasileiro escreve a mesma subordinação por outro caminho — não se deve atrasar o início do tratamento em virtude da coleta de material para diagnóstico. O que se perde puncionando depois é a cultura do líquor, e essa perda é coberta pela hemocultura colhida antes e pela reação em cadeia da polimerase, que continua positiva após o antibiótico.
  2. 2Exigir a tríade clássica para levantar a suspeita Febre, rigidez de nuca e alteração do estado mental juntos aparecem em 44% dos episódios de meningite bacteriana adquirida na comunidade em adultos. Exigir os três descarta mais da metade dos doentes. O limiar que funciona é o do mesmo estudo — pelo menos dois entre cefaleia, febre, rigidez de nuca e alteração do nível de consciência, presente em 95% — e é justamente esse o desenho da definição brasileira de caso suspeito, que aceita febre com dois sintomas e nem sequer exige sinal meníngeo.
  3. 3Tratar o idoso ou o etilista só com ceftriaxona e vancomicina Atrai porque é o esquema comunitário que todo mundo decorou. Só que acima de 50 anos entra Listeria monocytogenes na lista de esperados, e Listeria não é coberta por cefalosporina nenhuma — nem de terceira, nem de quarta geração. O esquema recomendado nessa faixa é vancomicina mais ampicilina mais cefalosporina de terceira geração. O mesmo raciocínio vale para a gestante, o etilista crônico, o cirrótico e o imunossuprimido, e a alternativa para quem tem anafilaxia a betalactâmico é sulfametoxazol-trimetoprima.
  4. 4Dar dexametasona depois que o antibiótico já entrou O corticoide serve para conter a resposta inflamatória disparada pela lise bacteriana — se a lise já aconteceu, ele chega atrasado. Por isso a diretriz coloca a primeira dose 10 a 20 minutos antes da primeira dose de antimicrobiano, ou pelo menos junto com ela, e afirma, com grau A-I, que a dexametasona não deve ser administrada a adulto que já recebeu antimicrobiano. A segunda metade da regra também cai em prova: mantém-se apenas se o Gram mostrar diplococos gram-positivos ou se as culturas forem positivas para pneumococo.
  5. 5Ler a glicose liquórica sem a glicemia do mesmo momento A glicose do líquor é derivada da do sangue, e o valor absoluto engana justamente em quem mais adoece. O diabético descompensado com glicemia de 300 mg/dL e glicose liquórica de 60 mg/dL tem um valor dentro da faixa de referência de 45 a 100 mg/dL e uma razão de 0,20 — abaixo do corte de 0,23 que, sozinho, prevê infecção bacteriana com 99% de certeza ou mais. Sem glicemia colhida junto, a razão não existe e o dado mais discriminante da punção se perde.
  6. 6Achar que líquor com predomínio linfocitário exclui bactéria Falha em duas situações previsíveis. Nas primeiras horas, quando a resposta celular ainda não se organizou — cerca de 10% dos adultos com meningite bacteriana aguda se apresentam com predomínio de linfócitos ou monócitos no líquor. E na meningite parcialmente tratada, em que o antibiótico prévio empurra a celularidade para linfócitos, negativa a bacterioscopia e esteriliza a cultura. Nos dois casos o dado que sustenta a suspeita é a glicose, lida contra a glicemia, e o exame que salva a etiologia é a reação em cadeia da polimerase.
  7. 7Isolar por gotículas toda meningite bacteriana — e não isolar quem precisa O protocolo nacional de precauções separa: doença meningocócica e meningite por Haemophilus influenzae tipo b pedem precaução para gotículas até 24 horas após o início de terapia eficaz; meningite pneumocócica é precaução padrão; meningite asséptica, fúngica e tuberculosa isolada também são padrão, com acréscimo de contato na asséptica de bebês e crianças pequenas. As 24 horas não são arbitrárias: é o prazo em que o meningococo desaparece da nasofaringe sob antibioticoterapia adequada, o mesmo que fecha a janela prospectiva da definição de contato.
  8. 8Estender a quimioprofilaxia — ou esquecer o próprio paciente Os critérios de contato próximo são numéricos: exposição de pelo menos 4 horas a até 1 metro em ambiente fechado, ou convívio por pelo menos cinco dias, contínuos ou não, dentro da janela de 10 dias antes do início dos sintomas até 24 horas de tratamento. Contato transitório fora disso não recebe nada, e a equipe só recebe quem fez procedimento invasivo sem equipamento de proteção adequado. Do outro lado do mesmo erro está a omissão: o paciente entra na profilaxia se a doença não foi tratada com cefalosporina de terceira geração, porque penicilina e ampicilina curam a doença invasiva sem erradicar o meningococo da nasofaringe. E quimioprofilaxia não existe para contato de pneumococo nem de meningite viral.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: relação glicorraquia/glicemia 22/98 ≈ 0,22 (< 0,4), pleocitose com predomínio neutrofílico (92% de 1.850) e hiperproteinorraquia definem padrão bacteriano — a conduta é antibiótico empírico imediato (ceftriaxona cobrindo pneumococo/meningococo, principais agentes em adulto jovem) com dexametasona iniciada antes ou junto da 1ª dose (reduz sequela, sobretudo em pneumococo), colhendo culturas. Erra: o padrão é bacteriano (neutrofílico, glicose baixa), não herpético (que cursa com predomínio linfocítico e glicose normal). Erra: meningite viral tem líquor claro, predomínio linfocitário e glicorraquia normal — o oposto do apresentado. Erra: a TC pré-punção só se indica quando há déficit focal, rebaixamento, papiledema, imunossupressão ou convulsão; aqui a punção já foi feita sem contraindicação e retardar o antibiótico piora prognóstico. Erra: corticoide isolado não trata a infecção bacteriana e nunca substitui o antibiótico.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Suspeita: febre com dois ou mais sintomas, ou febre com um sinal meníngeo, ou febre súbita com petéquias. A tríade clássica aparece em 44%; dois de quatro sintomas, em 95%. Kernig e Brudzinski têm 5% de sensibilidade, rigidez de nuca 30%. Ordem: hemocultura, punção se possível, antibiótico — que não espera. Seis critérios de tomografia antes da punção: imunocomprometimento, doença prévia do SNC, convulsão na última semana, papiledema, nível de consciência anormal, déficit focal. Havendo critério, dexametasona e antibiótico antes do tomógrafo. Empírico: 2 a 50 anos, vancomicina com cefalosporina de 3ª geração; acima de 50, some ampicilina; pós-neurocirurgia ou trauma penetrante, vancomicina com cefepima, ceftazidima ou meropenem. Líquor: bacteriano turvo com neutrófilos e glicose baixa; viral límpido com linfócitos e glicose normal; tuberculoso opalescente com linfócitos e glicose baixa; fúngico límpido com glicose baixa. Cortes de 99%: glicose abaixo de 34 mg/dL, razão liquor-sangue abaixo de 0,23, proteína acima de 220 mg/dL, mais de 2.000 leucócitos ou 1.180 neutrófilos por mm³ — todos servem para fechar, nenhum para afastar.

em 30 dias

A parte que se esquece primeiro é a do bloqueio e a das durações. Duração no adulto: meningococo 7 dias, Haemophilus 7, pneumococo 10 a 14, enterobactérias e Pseudomonas 10 a 14 no quadro do adulto e 21 no quadro pediátrico do mesmo capítulo. Ceftriaxona no adulto: 2 g de 12 em 12 horas, isto é, 4 g/dia; Pseudomonas, meropenem 6 g/dia de 8 em 8 horas. Dexametasona: 0,15 mg/kg de 6 em 6 horas por 2 a 4 dias, primeira dose 10 a 20 minutos antes do antibiótico ou junto; mantém só no pneumococo; não se dá a quem já recebeu antimicrobiano. Notificação imediata em até 24 horas para secretaria estadual e municipal, item 16 da Lista Nacional — e viral entra em outras meningites, com o mesmo prazo. Isolamento de gotículas por 24 horas de terapia eficaz no meningococo e no Hib; pneumococo é precaução padrão. Contato próximo: janela de 10 dias para trás e 24 horas de tratamento para frente; 4 horas a até 1 metro em ambiente fechado, ou cinco dias de convívio. Rifampicina 600 mg de 12 em 12 horas por 2 dias no adulto — oito cápsulas de 300 mg; gestante recebe ceftriaxona 250 mg intramuscular em dose única; ciprofloxacino 500 mg dose única a partir de 18 anos. O paciente recebe quimioprofilaxia se não foi tratado com cefalosporina de terceira geração. Surto institucional: dois casos primários do mesmo sorogrupo em até três meses; comunitário: três.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 66 anos, etilista, trazido com febre há um dia, cefaleia e confusão mental, sem déficit focal — sala de emergência de hospital geral — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.