Clínica MédicaMedicina Intensiva e Emergências

Aminas vasoativas no choque: escolha da droga e alvo de pressão

Reconhecer o fenótipo do choque, testar responsividade a volume, escolher vasopressor ou inotrópico pelo mecanismo e reavaliar perfusão sem perseguir apenas um número de pressão.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de sessenta e seis anos chega com dor torácica há cinco horas, torporoso, com extremidades frias, enchimento capilar de cinco segundos, pressão arterial de setenta e seis por cinquenta e saturação de oitenta e oito por cento em ar ambiente. Ao exame, turgência jugular e estertores crepitantes até os terços médios. O eletrocardiograma mostra supradesnivelamento do segmento em parede anterior extensa. Qual é o suporte hemodinâmico mais adequado enquanto se organiza a reperfusão?

02

Como esse tema cai

Entra o adulto em choque de qualquer origem que já recebeu volume e continua hipoperfundindo: escolher a amina pelo tipo de choque, saber a ordem entre volume e droga, conhecer a janela de dose que a diretriz nacional escreve, reconhecer a droga que saiu das recomendações, e ler a unidade sem errar por um fator de mil. Entra também a leitura crítica da tabela federal de sinais, porque é dela que sai o vocabulário dos enunciados de cenário brasileiro.

Fica de fora o pacote inicial da sepse, com o tempo de antibiótico e a coleta de culturas, que tem capítulo próprio nesta apostila. Fica de fora a escolha e o volume do cristaloide, que pertencem ao capítulo de reposição volêmica. Fica de fora a taxonomia dos quatro tipos de choque, com a grade hemodinâmica, que a coleção já serve em outra área. E fica de fora a parada cardiorrespiratória, onde a adrenalina obedece a outra régua.

Um aviso de calibração. Um capítulo montado sobre o exame físico da perfusão não se sustentaria: medido no acervo, o eixo das extremidades frias, da turgência jugular e da pressão venosa central aparece em cento e quarenta e quatro questões de prova de Clínica Médica e está na alternativa correta zero vez. O nome da droga aparece em cento e uma e está na correta trinta e duas. É por ela que este capítulo está organizado.

03

O que muda decisão

Por que a amina vem depois do volume, e o que ela não conserta

Choque é falta de perfusão, não número baixo de pressão. A amina age sobre o tônus do vaso e sobre a força do músculo cardíaco, e nenhuma dessas duas coisas repõe líquido que não está no leito. Num doente vazio, a droga aperta um sistema que não tem o que circular: a pressão sobe no monitor e o fluxo cai no tecido. Daí a ordem que organiza o capítulo inteiro, e que a banca cobra mais do que qualquer dose.

A ordem tem uma exceção e ela é a que mais rende questão. No choque cardiogênico, o coração já está cheio e o volume adicional agrava a congestão. Ali a amina não espera o cristaloide terminar: entra junto, às vezes antes. É o único dos tipos em que a frase que serve para todos os outros se inverte, e por isso é a coluna que a vinheta escolhe quando quer separar quem decorou de quem entendeu.

A segunda coisa que a amina não conserta é a causa. Ela compra tempo para que a fonte seja controlada: o foco drenado, a artéria reaberta, o pneumotórax puncionado, o alérgeno afastado. Um doente que precisa de dose crescente sem que nada tenha sido feito na origem está sendo mantido, não tratado. A diretriz brasileira vigente escreve isso com precisão ao chamar o escalonamento rápido e sem resposta de ciclo vicioso de toxicidade e resistência.

A terceira é o acesso. A amina em infusão contínua exige bomba, e a diretriz de dois mil e nove ainda escreve que ela deve correr por via venosa central. O protocolo federal, que não nomeia a droga, também não trata da via — e o acervo quase não cobra isso: o eixo do acesso central aparece em cinco questões e está na correta uma vez. É assunto de enfermaria e de bula, não de gabarito.

Os cinco nomes, e o receptor que separa cada um

São cinco drogas na prática brasileira, e a diferença entre elas cabe em duas perguntas: aperta o vaso ou aumenta a força do coração? A noradrenalina aperta muito e aumenta pouco. A dobutamina aumenta muito e aperta nada — ao contrário, pode até derrubar a pressão. A adrenalina faz as duas coisas com força. A vasopressina aperta por um caminho diferente do adrenérgico. E a dopamina faz um pouco de tudo, mal, o que é exatamente o seu problema.

A separação clínica que a prova usa é mais simples do que a farmacológica. Se o problema é vaso aberto — sepse, anafilaxia, lesão medular — a droga aperta o vaso. Se o problema é bomba fraca — infarto extenso, miocardite, descompensação grave — a droga ajuda a bomba. Vaso aberto pede vasoconstritor; bomba fraca, inotrópico. Quando os dois problemas convivem, e convivem com frequência, as duas drogas convivem também.

A diretriz brasileira de dois mil e dezoito organiza os inotrópicos em três grupos: os que agem no receptor adrenérgico, os que inibem a fosfodiesterase e os que sensibilizam o cálcio. Só o primeiro grupo tem representante barato e disponível em qualquer pronto-socorro do país. Os outros dois aparecem em enunciado como alternativa cara e, no choque cardiogênico da edição de dois mil e nove, estão listados juntos na classe que desaconselha.

Vale registrar o que a densidade dos documentos mostra. Na diretriz de dois mil e dezoito, a palavra inotrópico aparece setenta e oito vezes e a palavra vasopressor treze. Na de dois mil e nove, cinquenta e uma e dez. O vocabulário brasileiro de insuficiência cardíaca é, por construção, um vocabulário de bomba fraca — e é por isso que o candidato que estuda choque só por diretriz de cardiologia chega à prova com metade do assunto.

Dois painéis esquemáticos lado a lado: um vaso em corte com parede frouxa e luz alargada, com setas externas apertando o contorno, e um coração em corte com câmara dilatada e duas setas de saída, uma curta e fraca e outra mais longa e forte.
Duas perguntas separam as cinco drogas: o vaso está aberto ou a bomba está fraca? Vaso aberto pede o agente que aperta o contorno; bomba fraca pede o que aumenta a força de ejeção — e, quando os dois problemas convivem, as duas drogas convivem também.

Noradrenalina: a primeira escolha, e a janela que a diretriz escreve

É a droga que a prova espera quando o vaso está aberto e o volume já correu. A diretriz brasileira vigente a indica em hipotensão importante, em choque cardiogênico e na vasoplegia associada à inflamação sistêmica, e resume o mecanismo em duas frentes: sustenta a pressão por vasoconstrição e ainda contribui para o débito. É a droga com que se começa quando o vaso está aberto, em quase toda vinheta.

A janela de dose está escrita e é fácil de decorar porque tem três números. A diretriz de dois mil e dezoito manda começar entre um e dois décimos de micrograma por quilo por minuto, reavaliar a cada quinze minutos, e trata um micrograma por quilo por minuto como o teto de referência. Entre o piso e o teto há um fator de cinco a dez, e é dentro dele que quase toda a titulação acontece.

O mesmo texto dá um critério de alarme que raramente é ensinado e vale ponto. Aumento de noradrenalina superior a dois décimos de micrograma por quilo por minuto em duas horas, sem melhora da hipotensão, sugere que a droga deixou de funcionar e que a causa não foi tratada. Não é indicação de subir mais: é indicação de procurar o que ficou para trás, e de considerar suporte mecânico onde ele existir.

No acervo, o eixo da noradrenalina aparece em sessenta e sete questões de prova de Clínica Médica e está na alternativa correta em vinte e três, o que dá pouco mais de um terço. Aparece só entre as opções, sem estar no enunciado, em outras trinta e duas — ou seja, ela é ao mesmo tempo a resposta mais frequente e um distrator frequente, o que só se resolve lendo o tipo de choque antes de escolher.

Dobutamina: o inotrópico, e o único choque em que ela lidera

É a droga da bomba fraca. A diretriz brasileira a descreve como o agente inotrópico mais usado, com melhora hemodinâmica proporcional à dose e ajuste cômodo, e registra com honestidade que essa melhora não se traduziu em ganho de sobrevida em desfechos sólidos. Serve para tirar o doente do baixo débito enquanto a causa é resolvida, e não para mantê-lo indefinidamente.

Seu efeito colateral mais cobrado é a queda de pressão. Ao aumentar a força e abrir o vaso periférico, a dobutamina pode derrubar a pressão de um doente que já estava no limite — e é por isso que, no choque cardiogênico com hipotensão franca, ela raramente vai sozinha. A edição de dois mil e dezoito escreve exatamente isso ao recomendar o vasopressor, preferencialmente a noradrenalina, a despeito do uso concomitante do inotrópico.

Há uma armadilha de teto de dose. A faixa habitual vai até dez a vinte microgramas por quilo por minuto, e acima disso o ganho hemodinâmico é pequeno diante do custo em arritmia e em consumo de oxigênio pelo miocárdio. A própria diretriz observa que infusões intermitentes ambulatoriais, usadas em quem descompensa muito, mostraram-se deletérias, com aumento de mortalidade provavelmente por arritmia.

Medido no acervo, o eixo da dobutamina tem um comportamento curioso e útil. Aparece em cinquenta e uma questões de prova de Clínica Médica, está na correta em nove, e aparece só entre as opções em quarenta e duas delas. É, de longe, o distrator mais reaproveitado do tema: a banca oferece o inotrópico ao doente séptico e vazio para ver quem confunde bomba fraca com vaso aberto.

Dopamina: a droga que saiu do texto e ficou nas alternativas

Nenhuma droga do tema tem trajetória tão clara nos documentos brasileiros. Na diretriz de dois mil e nove, a dopamina isolada está na classe que desaconselha para o choque cardiogênico. Na mesma diretriz, na tabela do choque séptico, ela reaparece empatada com a noradrenalina pela conjunção ou, na classe que recomenda, com nível de evidência intermediário. Mesmo documento, mesma droga, duas leituras opostas — e o que muda é apenas qual choque a tabela está tratando.

Na edição de dois mil e dezoito a palavra dopamina aparece uma única vez em cento e quatro páginas, e não é uma recomendação: é um termo dentro de uma fórmula de escore, somado à dobutamina e a cem vezes a adrenalina. A droga que dividia a classe de recomendação com a noradrenalina sobreviveu à edição seguinte como variável de uma conta aritmética, sem indicação, sem dose e sem contraindicação escritas.

O protocolo federal segue um caminho terceiro. Ali a dopamina aparece duas vezes em seiscentas e trinta e oito páginas, e nenhuma delas no protocolo de choque: as duas estão na bradicardia, ao lado da adrenalina, como alternativa ao marca-passo transcutâneo. O documento acrescenta a observação prática de que o uso das duas exige bomba de infusão para controle da dosagem — o único cuidado de amina que ele escreve.

O acervo já resolveu a questão sozinho, e a medida é a mais limpa deste capítulo. A dopamina aparece em vinte questões de prova de Clínica Médica. Em dezenove delas está apenas entre as alternativas, sem constar do enunciado. E está na alternativa correta em nenhuma. É um distrator puro: existe para ser eliminado, e quem a escolhe erra por estudar em material anterior à virada.

Vasopressina, adrenalina e as demais: o lugar estreito de cada uma

A vasopressina aperta o vaso por caminho não adrenérgico, o que a torna útil quando a noradrenalina já está alta e a pressão não sobe. É droga de associação, não de abertura: a diretriz de dois mil e nove chega a listar o seu uso como vasopressor isolado na classe que desaconselha. No acervo ela aparece em sete questões de prova de Clínica Médica e está na correta em três — número pequeno, e por isso mesmo previsível quando aparece.

Aqui é preciso desfazer uma coincidência que quase entrou como achado. Um marcador que reunisse vasopressina e terlipressina devolveria dezesseis questões e nove acertos, número muito mais atraente — só que a terlipressina, medida sozinha, pertence a outro assunto inteiro: o sangramento por varizes e a síndrome hepatorrenal, cujo dono no acervo é o capítulo de hemorragia digestiva alta. São dois protocolos de doenças diferentes, ditos com nomes parecidos, e juntá-los inflaria o capítulo com questões que ele não serve.

A adrenalina tem lugar próprio e bem delimitado. No choque anafilático ela é a primeira conduta, por via intramuscular na face lateral da coxa, e não por infusão. O protocolo federal a menciona cinquenta vezes ao longo do documento, e o algoritmo pediátrico de choque distributivo escreve a sequência com clareza: adrenalina intramuscular, depois volume, depois broncodilatador e corticoide, e infusão contínua apenas se houver bomba disponível.

As demais — inibidor de fosfodiesterase e sensibilizador de cálcio — aparecem em prova como alternativa cara e quase sempre errada no cenário de emergência. A diretriz de dois mil e nove as coloca juntas na classe que desaconselha para o choque cardiogênico, e a de dois mil e dezoito registra que a comparação direta com a dobutamina não mostrou diferença de mortalidade em cento e oitenta dias.

Fenotipar o choque além da pressão: jugular, pulmão, perfusão e ultrassom

O protocolo AC16 abre com uma tabela de reconhecimento. As colunas são quatro: hipovolêmico, neurogênico, cardiogênico e séptico. As linhas são seis: temperatura da pele, coloração da pele, pressão arterial, nível de consciência, enchimento capilar e frequência cardíaca. São vinte e quatro células, e é fácil supor que uma grade desse tamanho separe os quatro. Convém contar antes de supor.

Uma linha não separa ninguém. Na linha da pressão arterial, as quatro células trazem a mesma frase: normal ou diminuída. Quatro colunas, um único valor, zero poder de separação — e é justamente a variável que o enunciado sempre entrega. Outras quatro linhas separam exatamente uma coluna, a do neurogênico: pele quente e seca, consciência preservada, enchimento capilar normal e frequência cardíaca baixa. Só a linha da coloração distingue três valores distintos.

O achado que importa está no que sobra. Comparando célula a célula as colunas do hipovolêmico e do cardiogênico, as seis linhas trazem exatamente o mesmo conteúdo: fria, úmida e pegajosa; pálida com cianose; normal ou diminuída; alterado; maior que dois segundos; aumentada. Seis de seis idênticas. A tabela oficial não distingue os dois choques cujo tratamento é oposto — um começa com volume, o outro piora com ele.

Antes de acusar a tabela, é justo mostrar o que ela fecha. Ela isola bem o neurogênico, que é o choque que engana mais no trauma, e o isola por quatro caminhos independentes, o que é robusto. E ela dá ao séptico um sinal próprio na coloração, a pele rendilhada. O problema não é a tabela inteira: é a metade dela que o candidato mais precisa, e que continua indistinta.

Primeiras medidas: oxigênio, acesso, fluido quando responsivo e vasopressor precoce

A segunda página do AC16 traz a conduta em cinco passos numerados. O quarto se chama, literalmente, realizar abordagem medicamentosa. Sob esse título há dois itens. O primeiro é oferecer oxigênio suplementar sob máscara não reinalante se a saturação estiver abaixo de noventa e quatro por cento. O segundo é repor volemia com solução cristaloide isotônica. Nenhum dos dois é um medicamento no sentido que o título anuncia.

O objetivo escrito para essa reposição também merece leitura. O texto manda manter pressão sistólica acima de oitenta, e acima de noventa no traumatismo craniano. É um alvo baixo, pensado para o controle de danos do trauma, e aplicado de forma indiferenciada às quatro colunas da tabela da página anterior — inclusive à coluna do cardiogênico, na qual repor volume até atingir um número de pressão é exatamente o que se deve evitar.

A palavra que falta reaparece de forma vaga em outros pontos do mesmo documento. A expressão droga vasoativa aparece três vezes, e vasopressor duas, sempre sem nome próprio e sempre sob condição: avaliar necessidade de reposição volêmica ou uso de drogas vasoativas; administrar drogas vasoativas, se indicado; administrar vasopressor, se disponível. Um protocolo nacional que condiciona a droga à sua disponibilidade está descrevendo o país, não a farmacologia.

Há ainda um detalhe de datação dentro do próprio arquivo. Cada protocolo carrega sua própria linha de elaboração e revisão, e elas não coincidem: o de choque foi elaborado em agosto de dois mil e catorze e revisado em abril de dois mil e quinze, enquanto o de bradicardia, no mesmo volume, traz revisão de fevereiro de dois mil e dezesseis. E o sumário anuncia o algoritmo de reanimação por uma diretriz internacional de dois mil e quinze.

Choque cardiogênico: inotrópico, vasopressor e reperfusão

Vale reconstruir a contradição com as palavras do texto, porque ela é a divergência mais rentável do tema. Na seção do choque cardiogênico, a diretriz de dois mil e nove lista, na classe que recomenda, a dobutamina sem associação à noradrenalina; na classe intermediária, a dobutamina com associação; e mais abaixo, isoladamente, a noradrenalina. Na classe que desaconselha estão, nesta ordem, os dois agentes caros, a dopamina isolada e a adrenalina isolada.

Na seção da sepse, no mesmo documento, a ordem se desfaz. Ali a classe que recomenda traz norepinefrina ou dopamina administradas por via venosa central, com nível de evidência intermediário, e traz também a dobutamina na disfunção miocárdica da sepse. A dopamina, desaconselhada uma seção antes, volta empatada com a primeira escolha pela conjunção ou — e o que separa as duas leituras é somente qual choque a tabela está tratando.

A edição de dois mil e dezoito desfaz o empate de outra maneira: rebaixa as duas condutas do cardiogênico ao mesmo degrau. O inotrópico, com a dobutamina nomeada como agente de escolha, e o vasopressor, com a noradrenalina nomeada como preferência, aparecem ambos na classe intermediária — um com evidência fraca, outro com evidência um pouco melhor. A hierarquia entre inotrópico e vasopressor, que existia em dois mil e nove, deixou de existir.

O alvo de pressão segue a mesma trajetória de imprecisão. A diretriz de dois mil e nove escreve manter pressão arterial média maior ou igual a sessenta e cinco, com o nível de evidência mais fraco da escala. O protocolo federal, oito anos depois, escreve pressão sistólica acima de oitenta. São duas variáveis diferentes e dois números diferentes, e o enunciado brasileiro usa ora um, ora outro.

Doses e unidades: prescrever sem erro

A dose da amina se escreve em micrograma por quilo por minuto, e é aí que mora um erro fácil de cometer e caro de corrigir. Nos documentos medidos, a mesma unidade aparece de várias formas. Na diretriz de dois mil e nove há doze ocorrências com o sinal de micro, treze com a letra grega mi e duas escritas como mcg — três grafias no mesmo arquivo. A inicial do quilograma também oscila: treze maiúsculas contra vinte e uma minúsculas.

Na edição de dois mil e dezoito a mistura persiste, com seis ocorrências do sinal de micro e treze da letra grega, e aparece um caso novo. Dentro da fórmula do escore de inotrópicos, o termo do inibidor de fosfodiesterase está escrito com a unidade sem a letra do grama — micro por quilo por minuto, e não micrograma por quilo por minuto. É a única ocorrência assim no documento inteiro, e está exatamente na conta que multiplica as doses por fatores de dez e de dez mil.

No protocolo federal a grafia dominante é outra: sete ocorrências escritas como mcg por quilo, e apenas uma com a letra grega. Não é erro, é convenção de serviço — mas confirma que três documentos brasileiros do mesmo assunto escrevem a mesma unidade de três maneiras. Quem lê rápido e vê micro onde estava mili erra por um fator de mil, e não há alternativa de prova que perdoe isso.

A regra prática que sobrevive a todas as grafias é a de sempre confirmar três coisas antes de programar a bomba: qual é a droga, quantos microgramas por quilo por minuto foram prescritos, e qual é o peso usado na conta. Enunciado que traga dose sem peso, ou peso sem dose, está pedindo que se identifique a informação que falta — e essa costuma ser a alternativa correta, não um número calculado.

Aplicação em prova: identificar o fenótipo antes de escolher a droga

Vale fechar com o que o próprio acervo de provas mostra, porque ele corrige algumas impressões. O eixo das cinco drogas aparece em duzentas e noventa questões vivas, das quais duzentas e treze são de prova, e cento e uma são de prova na grande área de Clínica Médica. Dessas cento e uma, trinta e duas trazem o nome da droga na alternativa correta — quase um terço. É um dos eixos de maior massa de decisão de toda a área.

O negativo é mais instrutivo que o positivo, e vale registrá-lo com o número. O eixo do exame físico da perfusão — extremidades quentes ou frias, turgência jugular, pressão venosa central — aparece em quatrocentas e quarenta e nove questões vivas e em cento e quarenta e quatro de prova na área, e está na alternativa correta zero vez. Não aparece sequer como distrator isolado. É mobília: entrega o cenário e nunca decide.

O lactato tem comportamento intermediário e útil de conhecer: oitenta e cinco questões de prova na área, dezoito com o marcador na correta, pouco mais de um quinto. Já o nome do tipo de choque, quando é ele que a alternativa afirma, aparece em quarenta e sete e acerta em vinte e duas — quase metade. Nomear o tipo decide mais do que qualquer número do monitor, e é por isso que o segundo degrau do critério vem antes do terceiro.

A consequência prática para a leitura da vinheta é direta. Os sinais de perfusão servem para confirmar que há choque, e param aí. O que separa as colunas é a história que veio antes, a jugular, a ausculta e a resposta ao volume já infundido. Quem lê o enunciado procurando primeiro esses quatro itens, e só depois a pressão, chega à alternativa com o tipo já nomeado — e a escolha da droga passa a ser consequência, não aposta.

04

Do doente hipotenso à droga certa: cinco degraus, na ordem em que a vinheta os embaralha

A vinheta de choque costuma entregar pressão, frequência, temperatura de extremidade e enchimento capilar, e oferecer cinco condutas plausíveis, quase sempre com uma amina em cada uma. O caminho que fecha com os documentos brasileiros começa confirmando que há hipoperfusão, passa obrigatoriamente pelo tipo de choque, resolve o volume antes da droga, e só então escolhe entre apertar o vaso e ajudar a bomba.

  1. 1Confirme que é choque antes de olhar a pressão. Perfusão ruim é enchimento capilar lento, pele fria e pegajosa, consciência alterada e diurese baixa, e existe com pressão ainda normal. A tabela do protocolo federal, aliás, escreve normal ou diminuída para a pressão nas quatro colunas: a pressão não separa nenhum tipo de choque, e quem começa por ela começa pela variável que menos decide.
  2. 2Nomeie o tipo antes de escolher a droga. Vaso aberto com extremidade quente sugere distributivo; extremidade fria com jugular vazia sugere hipovolêmico; extremidade fria com jugular cheia e crepitação sugere cardiogênico; hipotensão sem taquicardia sugere neurogênico. Esse é o único degrau em que a tabela federal ajuda de verdade, e ela ajuda em uma coluna só, a do neurogênico.
  3. 3Resolva o volume antes de programar a bomba, com uma exceção. Cristaloide isotônico primeiro em hipovolêmico, distributivo e obstrutivo. No cardiogênico a lógica se inverte, porque o coração já está cheio, e repor volume até atingir um número de pressão é o erro clássico — inclusive o que o alvo de sistólica acima de oitenta do protocolo federal induz, se aplicado sem olhar a coluna.
  4. 4Escolha pela pergunta de duas vias. Vaso aberto pede vasoconstritor, e a primeira escolha é a noradrenalina, começando entre um e dois décimos de micrograma por quilo por minuto e reavaliando a cada quinze minutos. Bomba fraca pede inotrópico, e a escolha é a dobutamina, sabendo que ela pode derrubar a pressão e que, no choque cardiogênico com hipotensão, quase nunca vai sozinha.
  5. 5Datar a alternativa é o degrau mais rentável. Dopamina isolada é texto de dois mil e nove e classe que desaconselha; na edição vigente ela sobreviveu apenas como termo de fórmula. Vasopressina como droga inicial e sozinha também está na classe que desaconselha. E alvo escrito em pressão sistólica é vocabulário do protocolo pré-hospitalar; alvo em pressão arterial média é vocabulário de diretriz.

Primeiro degrau: perfusão, e não pressão

Enchimento lento, pele fria e consciência alterada definem choque com pressão ainda normal. A linha da pressão na tabela federal traz o mesmo valor nas quatro colunas e não separa nada.

Segundo degrau: o tipo, antes da droga

Vaso aberto e bomba fraca pedem drogas opostas, e a vinheta entrega os dois com a mesma pressão baixa. Jugular e ausculta separam o que a tabela oficial deixa idêntico.

Terceiro degrau: volume primeiro, salvo no cardiogênico

Três dos quatro tipos começam com cristaloide. No cardiogênico o coração já está cheio, e insistir no volume para atingir um número de pressão piora a congestão.

Quarto degrau: datar a alternativa oferecida

Dopamina isolada e vasopressina inicial pertencem à classe que desaconselha. Alvo em sistólica é vocabulário do pré-hospitalar; alvo em pressão arterial média é vocabulário de diretriz.

Qual amina em qual choque, e o que a banca oferece no lugar

Tipo de choqueDroga que a prova esperaDistrator mais frequente
Séptico, após o volume inicialNoradrenalina, titulada por perfusãoDobutamina, ofertada ao doente ainda vazio
Cardiogênico com hipotensãoDobutamina, com noradrenalina associadaVolume em bolus até subir a pressão
Hipovolêmico e hemorrágicoVolume e controle da fonte, antes da drogaAmina iniciada antes de repor o que falta
AnafiláticoAdrenalina intramuscular na coxaInfusão contínua de amina como primeira medida
NeurogênicoVolume e depois vasoconstritorAmina isolada sem excluir sangramento

A dopamina nos três documentos brasileiros medidos

DocumentoComo a droga apareceQuantas vezes
Diretriz de dois mil e nove, choque cardiogênicoIsolada, na classe que desaconselhaOito menções no documento
Diretriz de dois mil e nove, choque sépticoNa classe que recomenda, empatada por ouMesmo documento, seção diferente
Diretriz de dois mil e dezoitoTermo dentro de uma fórmula de escoreUma menção em cento e quatro páginas
Protocolo federal de suporte avançadoNa bradicardia, nunca no choqueDuas em seiscentas e trinta e oito páginas
Acervo de questões de provaApenas entre as alternativas erradasVinte questões, zero acertos

A ordem entre volume e droga é o item mais cobrado do tema, e a exceção do cardiogênico é a única que a banca precisa que se saiba de cor.

A tabela do protocolo federal separa bem o neurogênico e não separa o hipovolêmico do cardiogênico: seis linhas, seis células idênticas entre essas duas colunas.

Alternativa que ofereça dopamina isolada em choque de qualquer tipo pode ser eliminada sem datar o enunciado: nos vinte casos medidos no acervo ela nunca foi a correta.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A dopamina é ou não é opção de primeira linha no choque

Desaconselhada, na seção do choque cardiogênico

Na lista de condutas do choque cardiogênico, a classe que desaconselha reúne três itens, e o segundo deles é a dopamina isolada, com o nível de evidência mais fraco da escala. Ao lado dela estão o inibidor de fosfodiesterase com o sensibilizador de cálcio e a adrenalina isolada.

II Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Aguda, seção do choque cardiogênico, tabela de classes de recomendação.

Recomendada e empatada com a primeira escolha, na seção da sepse

Na tabela de condutas do choque séptico do mesmo documento, a classe que recomenda traz norepinefrina ou dopamina administradas por via venosa central, com nível de evidência intermediário, e traz também a dobutamina na disfunção miocárdica da sepse.

II Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Aguda, seção da sepse, tabela de classes de recomendação.

Reduzida a termo de fórmula, na edição vigente

Na edição de dois mil e dezoito a palavra aparece uma única vez em cento e quatro páginas, dentro do quadro que define o escore de inotrópicos, somada à dobutamina e a cem vezes a adrenalina. Não há indicação, dose, contraindicação nem classe de recomendação associadas a ela em todo o documento.

Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, quadro de escores para orientação das doses de inotrópicos e vasopressores.

Na prova

Alternativa que ofereça dopamina isolada como primeira escolha em qualquer choque está errada em prova brasileira contemporânea, e essa é a eliminação mais segura do tema. Medido no acervo, o marcador aparece em vinte questões de prova de Clínica Médica, em dezenove delas somente entre as alternativas, e em nenhuma como resposta certa. Se o enunciado se declarar baseado em material antigo e oferecer norepinefrina ou dopamina como par, reconheça a citação da tabela da sepse de dois mil e nove — mas não a escolha, porque a edição seguinte apagou a recomendação.

Quem lidera o choque cardiogênico, o inotrópico ou o vasopressor

Hierarquia explícita, na edição de dois mil e nove

A dobutamina sem associação à noradrenalina está na classe que recomenda; a dobutamina com associação, na classe intermediária; e a noradrenalina isolada, um degrau abaixo desta. O inotrópico lidera e o vasopressor entra como associação ou como último recurso.

II Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Aguda, condutas no choque cardiogênico.

Empate no mesmo degrau, na edição de dois mil e dezoito

A recomendação de agentes inotrópicos para estabilização hemodinâmica, com a dobutamina nomeada como agente de escolha, e a de vasopressor, preferencialmente noradrenalina, para manter perfusão de órgão-alvo a despeito de inotrópico concomitante, aparecem ambas na classe intermediária.

Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, quadro de recomendações do choque cardiogênico.

Na prova

Se a alternativa disser que a dobutamina é a primeira escolha do choque cardiogênico, ela está correta pelo texto de dois mil e nove e ainda defensável pelo de dois mil e dezoito, que a nomeia como agente de escolha do inotrópico. Se disser que a noradrenalina deve ser associada quando há hipotensão significativa, também está correta, e pela edição vigente. O que não sobrevive a nenhuma das duas é a alternativa que ofereça a dobutamina isolada a um doente francamente hipotenso, porque a droga pode reduzir ainda mais a pressão.

Qual é o alvo de pressão que se persegue no choque

Pressão arterial média, na diretriz

Entre as condutas da classe que recomenda no choque séptico está manter uma pressão arterial média maior ou igual a sessenta e cinco, com o nível de evidência mais fraco da escala. É alvo de média, não de sistólica, e vem acompanhado de metas de saturação venosa central.

II Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Aguda, condutas no choque séptico.

Pressão sistólica, no protocolo federal

No passo de abordagem medicamentosa do protocolo de choque, a instrução é repor volemia com solução cristaloide isotônica com o objetivo de manter pressão sistólica acima de oitenta, subindo para acima de noventa no traumatismo cranioencefálico. O alvo é único para as quatro colunas da tabela.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolo de choque, passo de abordagem medicamentosa.

Na prova

Enunciado de cenário pré-hospitalar tende a escrever o alvo em pressão sistólica; enunciado de terapia intensiva escreve em pressão arterial média. Reconhecer qual vocabulário está em uso já elimina alternativas. E há uma leitura clínica que vale mais do que o número: o alvo de sistólica do protocolo federal foi escrito com o controle de danos do trauma em mente e vale igualmente para as quatro colunas, inclusive a do cardiogênico, na qual perseguir pressão com volume é justamente o que agrava a congestão.

06

Caso resolvido

Homem de sessenta e oito anos, internado há dois dias por pielonefrite, evolui com piora súbita. Está torporoso, com frequência cardíaca de cento e trinta, pressão de setenta por quarenta, frequência respiratória de trinta, extremidades frias e pegajosas, enchimento capilar de quatro segundos e diurese reduzida. Recebeu dois litros de cristaloide isotônico em bolus na última hora e permanece com a mesma pressão. Ausculta pulmonar sem crepitação, jugulares vazias em quarenta e cinco graus. Lactato elevado. Não usa medicação de uso contínuo relevante e não tem cardiopatia conhecida.
passo 1
Passo 1. Confirme que há hipoperfusão antes de olhar o número da pressão. Enchimento capilar de quatro segundos, extremidades frias, consciência alterada e diurese baixa fecham o quadro. A pressão apenas confirma o que a perfusão já disse — e é bom lembrar que a tabela oficial escreve normal ou diminuída para a pressão nas quatro colunas, portanto ela nunca fecha o tipo sozinha.
passo 2
Passo 2. Nomeie o tipo antes de escolher a droga. Há foco infeccioso identificado, taquicardia, taquipneia e lactato elevado. As jugulares estão vazias e não há crepitação, o que afasta a coluna do cardiogênico. É choque distributivo de origem séptica, com componente hipovolêmico pela vasodilatação e pela perda insensível — e essa combinação é a mais comum das vinhetas do tema.
passo 3
Passo 3. Verifique se o volume já foi resolvido. Dois litros de cristaloide isotônico correram e a pressão não respondeu. Isso caracteriza a hipotensão que persiste apesar da reposição, que é exatamente o gatilho para a droga. Continuar repondo volume indefinidamente em quem não responde só adia a conduta e adiciona congestão a um pulmão que ainda está limpo.
passo 4
Passo 4. Escolha pela pergunta de duas vias. O problema aqui é vaso aberto, não bomba fraca: a resposta é vasoconstritor, e a primeira escolha é a noradrenalina. Começa-se entre um e dois décimos de micrograma por quilo por minuto, com reavaliação a cada quinze minutos, titulando por perfusão. Oferecer dobutamina neste doente é o distrator do capítulo; oferecer dopamina é a alternativa que nunca é correta.
passo 5
Passo 5. Escreva o alvo e o que fazer se a droga não bastar. O alvo escrito na diretriz brasileira é pressão arterial média maior ou igual a sessenta e cinco, e o alvo real é perfusão: enchimento capilar, consciência e diurese. Se for preciso subir mais de dois décimos de micrograma por quilo por minuto em duas horas sem melhora, a pergunta deixa de ser a dose e passa a ser o foco — que precisa ser controlado.
07

Agora feche você

Homem de sessenta e seis anos, hipertenso e tabagista, chega ao pronto-socorro com dor torácica opressiva iniciada há cinco horas. Está torporoso e sudoreico, com extremidades frias e cianóticas, enchimento capilar de cinco segundos, pressão de setenta e seis por cinquenta, frequência cardíaca de cento e dezesseis, frequência respiratória de trinta e dois e saturação de oitenta e oito por cento em ar ambiente. Ao exame, turgência jugular a quarenta e cinco graus e estertores crepitantes até os terços médios. Eletrocardiograma com supradesnivelamento do segmento em parede anterior extensa. Já recebeu quinhentos mililitros de cristaloide antes da avaliação.
passo 1
Passo 1. Comece pelo que está presente e pelo que está ausente. Há hipoperfusão evidente, e há dois achados que não apareciam no caso anterior: jugular cheia e crepitação até os terços médios. Não há febre, não há foco infeccioso e não há sinal de perda de volume. Esses dois achados são justamente os que a tabela oficial não consegue usar, porque ela não os traz.
passo 2
Passo 2. Note a coluna antes de ler o número. A pressão de setenta e seis por cinquenta é a mesma faixa do caso anterior, e as extremidades estão igualmente frias — pela tabela federal, as seis linhas seriam idênticas às do hipovolêmico. O que muda o caso é a origem: infarto anterior extenso com congestão pulmonar. É choque cardiogênico, a única coluna em que a ordem entre volume e droga se inverte.
passo 3
Passo 3. Resista ao reflexo do volume. O impulso de repor mais cristaloide para levar a sistólica acima de oitenta é exatamente o que o alvo indiferenciado do protocolo pré-hospitalar induz, e é o que agrava a congestão de um doente que já tem crepitação até os terços médios. Os quinhentos mililitros já infundidos não devem ser continuados; a conduta agora é droga, não líquido.
passo 4
Passo 4. Escolha as duas drogas, não uma. Há bomba fraca, o que pede inotrópico, e há hipotensão franca, que a dobutamina isolada pode piorar. A edição vigente da diretriz brasileira nomeia a dobutamina como agente de escolha do inotrópico e recomenda o vasopressor, preferencialmente a noradrenalina, para manter a perfusão de órgão-alvo mesmo com o inotrópico em curso. As duas convivem, e é isso que a alternativa correta costuma dizer.
passo 5
Passo 5. Antecipe o que nenhuma amina resolve. A droga aqui compra tempo para a reperfusão, que é o tratamento. Angioplastia primária de preferência, ou fibrinólise onde a primeira não estiver disponível, e no tempo que o capítulo de síndrome coronariana estabelece. Um doente mantido em dose crescente de amina sem que a artéria seja aberta está sendo sustentado, e o escalonamento sem resposta é o sinal de que isso está acontecendo.
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Onde a banca derruba

  1. 1Iniciar a amina antes de repor o volume É o erro mais rentável da banca no choque hipovolêmico e no distributivo. A droga aperta um leito que não tem o que circular: a pressão sobe no monitor e a perfusão do tecido piora. A alternativa que inicia vasopressor num doente que ainda não recebeu cristaloide isotônico está errada por ordem, mesmo quando acerta o nome da droga e a dose.
  2. 2Aplicar a mesma ordem ao choque cardiogênico É o erro simétrico do anterior, e sai caro porque a exceção é justamente o que a vinheta escolhe. Um doente com infarto extenso, jugular cheia e crepitação em bases não precisa de mais volume: precisa de suporte inotrópico e de reperfusão. Perseguir um número de pressão sistólica com bolus repetidos nesse doente é o caminho para o edema agudo dentro do pronto-socorro.
  3. 3Escolher a dobutamina para o doente séptico e vazio É o distrator mais reaproveitado do tema, e o acervo mostra o tamanho da armadilha: em cinquenta e uma questões o inotrópico aparece, em quarenta e duas delas apenas entre as alternativas. O raciocínio errado é razoável, o que o torna perigoso: existe disfunção miocárdica na sepse. Mas ela entra depois do volume e depois do vasopressor, e não no lugar deles.
  4. 4Aceitar a dopamina porque o texto antigo a citava Quem estudou por material anterior à virada guarda a lembrança de uma tabela que escrevia norepinefrina ou dopamina como se fossem intercambiáveis. Aquela frase existe e está datada. A edição seguinte da mesma sociedade a apagou, e o protocolo federal só cita a droga na bradicardia. Nas vinte questões de prova medidas no acervo, ela nunca foi a resposta certa.
  5. 5Tratar a pressão como sinal que separa os tipos de choque A tabela oficial escreve normal ou diminuída nas quatro colunas, e o enunciado sempre entrega o número. Quem decide pela pressão decide pela variável que menos discrimina. O que separa é o conjunto: temperatura da extremidade, enchimento capilar, jugular, ausculta e frequência cardíaca — e nem esse conjunto, na tabela federal, separa o hipovolêmico do cardiogênico.
  6. 6Ler micro onde estava mili, ou grama onde faltava a letra A unidade da amina aparece escrita de três maneiras diferentes nos documentos brasileiros medidos, e a edição vigente traz uma ocorrência sem a letra do grama, dentro de uma fórmula que multiplica doses por dez e por dez mil. Um fator de mil na programação da bomba não é erro de arredondamento. Confirme sempre droga, dose por quilo por minuto e o peso usado na conta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de choque cardiogênico por infarto anterior extenso, reconhecível pela hipoperfusão somada à congestão: jugular cheia e crepitação. A diretriz brasileira vigente recomenda agentes inotrópicos para estabilização hemodinâmica, nomeando a dobutamina como agente de escolha, e recomenda o vasopressor, preferencialmente a noradrenalina, para manter a perfusão de órgão-alvo a despeito do uso concomitante do inotrópico. As duas condutas estão no mesmo degrau de recomendação. Repor volume em bolus para perseguir um alvo de pressão sistólica é o erro que o protocolo pré-hospitalar induz ao aplicar um alvo único às quatro colunas, e agrava a congestão. A dobutamina isolada pode reduzir ainda mais a pressão neste doente francamente hipotenso. A dopamina isolada está na classe que desaconselha para este cenário, e a vasopressina não é droga de abertura.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite, sem olhar, a pergunta de duas vias e as respostas dela: vaso aberto pede o quê, bomba fraca pede o quê, e qual é o único tipo de choque em que a droga não espera o volume terminar. Depois diga a janela de dose da primeira escolha — o piso, o intervalo de reavaliação e o teto de referência — e o valor de aumento em duas horas que a diretriz vigente trata como sinal de que a droga deixou de funcionar.

em 30 dias

Monte de memória a tabela de três colunas que liga cada tipo de choque à droga esperada e ao distrator que a banca oferece no lugar, com as cinco linhas: séptico, cardiogênico, hipovolêmico, anafilático e neurogênico. Em seguida reconstrua a trajetória da dopamina nos quatro documentos — desaconselhada numa seção, recomendada em outra do mesmo texto, reduzida a termo de fórmula na edição seguinte, e restrita à bradicardia no protocolo federal — e diga qual é o único alvo de pressão que cada tipo de documento escreve.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Adulto que chega ao pronto-socorro hipotenso, com extremidade fria e consciência alterada, sem causa evidente na primeira olhada. Pergunte o que veio antes: febre e sintoma urinário ou respiratório, dor torácica, vômito e diarreia, sangramento visível ou escuro, picada, medicação nova, procedimento recente. Colhida a história, procure no exame exatamente o que separa as duas colunas que a tabela oficial não separa: turgência jugular, ausculta pulmonar em busca de crepitação, e ausculta cardíaca em busca de sopro novo ou de bulha abafada. Confirme quanto volume já correu e em quanto tempo, porque a decisão sobre a droga depende disso mais do que da pressão. E antes de programar qualquer bomba, confirme em voz alta a droga, a dose por quilo por minuto e o peso usado na conta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.