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Pneumonia hospitalar e associada à ventilação

Três relógios contam o mesmo caso, e duas réguas respondem a perguntas diferentes — a da vigilância, que notifica, e a da beira do leito, que prescreve.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 62 anos, internado em UTI há 9 dias por trauma cranioencefálico, em ventilação mecânica. No 8º dia evoluiu com febre 38,8 °C, secreção traqueal purulenta, novo infiltrado em lobo inferior direito, leucócitos 19.000/mm³ e PaO2/FiO2 200. Foram colhidas hemoculturas e aspirado traqueal quantitativo, e iniciado piperacilina-tazobactam associado a vancomicina. Após 48 h, o paciente está afebril, com melhora da secreção e da oxigenação. O aspirado traqueal revelou Staphylococcus aureus 10^6 UFC/mL, sensível à oxacilina; hemoculturas negativas. Assinale o próximo passo adequado.

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da pneumonia que nasce dentro do hospital: a que aparece na enfermaria depois de 48 horas de internação e a que aparece no paciente intubado. O que se decide aqui é quando o relógio começa a contar, qual das duas réguas o enunciado está usando, quando ampliar espectro, quando estreitar e em que dia parar.

A aposentadoria da categoria de pneumonia associada a cuidados de saúde já é ensinada no capítulo de pneumonia adquirida na comunidade da apostila de Pneumologia, com o texto da diretriz de 2019, os dois fatores de risco que sobraram e o vocabulário que denuncia a data do enunciado. Não se repete nada disso aqui. Aqui o assunto é o outro lado da fronteira: o que a pneumonia hospitalar é depois que aquela categoria intermediária deixou de existir.

Também ficam fora a antibioticoterapia racional e a leitura de laudo de sensibilidade, que têm capítulo próprio na apostila de Infectologia, e a sepse com seus pacotes iniciais, que abre esta apostila. Quando o paciente de pneumonia hospitalar chega em choque, o pacote de sepse vale sem modificação — o que este capítulo acrescenta é qual espectro escolher e por quanto tempo mantê-lo.

03

O que muda decisão

Três relógios contam o mesmo paciente, e a prova escolhe um sem avisar

O primeiro relógio é o da definição clínica internacional. Pneumonia adquirida no hospital é a que não estava incubando no momento da admissão e ocorre 48 horas ou mais depois dela; pneumonia associada a ventilação é a que ocorre mais de 48 horas depois da intubação endotraqueal. A diretriz da Infectious Diseases Society of America e da American Thoracic Society mantém essas duas definições de 2005 sem alterá-las, e acrescenta uma decisão de vocabulário que muda a leitura de qualquer questão: nesse documento, pneumonia adquirida no hospital passa a designar apenas os episódios não associados a ventilação mecânica, de modo que os dois grupos são mutuamente excludentes. Não existe, ali, pneumonia associada a ventilação que seja também pneumonia adquirida no hospital.

O segundo relógio é o do documento brasileiro de tratamento. A diretriz da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia define pneumonia adquirida no hospital como a que ocorre após 48 horas da admissão hospitalar, geralmente tratada na unidade de internação e não relacionada à intubação; e define pneumonia associada a ventilação como a que surge entre 48 e 72 horas após a intubação endotraqueal e a instituição da ventilação invasiva. A faixa de 48 a 72 horas não é a mesma coisa que o corte único de 48 horas, e enunciados brasileiros costumam reproduzir a faixa.

O terceiro relógio é o da vigilância. Para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a infecção só é associada ao dispositivo se o paciente estiver em uso dele por período maior que dois dias de calendário, sendo o primeiro dia o da instalação — ou seja, a partir do terceiro dia — e se o dispositivo estava presente no dia da infecção ou no dia anterior. Repare que a contagem é de dias de calendário, não de horas. Um paciente intubado às 23h de segunda-feira está no seu primeiro dia; terça é o segundo; quarta de manhã já é o terceiro, e a infecção diagnosticada ali é notificável, embora tenham decorrido pouco mais de trinta horas de ventilação. O inverso também acontece: intubado às 2h da manhã, o paciente completa quase 48 horas ainda dentro do segundo dia de calendário.

Linha do tempo de 0 a 72 horas desde a intubação. O corte clínico aparece em mais de 48 horas e a referência brasileira em 48 a 72 horas. Abaixo, dois exemplos mostram que o paciente intubado às 23 horas pode chegar ao terceiro dia após cerca de 31 horas, enquanto o intubado às 2 horas ainda está no segundo dia após cerca de 45 horas.
As definições clínicas contam horas desde a intubação e a vigilância conta dias de calendário: por isso, cerca de 31 horas podem corresponder ao terceiro dia, enquanto cerca de 45 horas ainda podem estar no segundo, conforme o horário de intubação.

A cauda da regra é igualmente contada. O quadro de exemplo do próprio documento mostra que, retirado o dispositivo no oitavo dia, a infecção do nono dia ainda é associada, e só a do décimo dia deixa de ser. A extubação não fecha a janela no mesmo instante: ela fecha um dia depois.

Vigilância não é diagnóstico, e as duas fontes dizem isso com todas as letras

A confusão mais cara do tema não é decorar critério errado — é aplicar o critério certo à pergunta errada. O texto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária abre com o alerta explícito de que os critérios diagnósticos devem ser utilizados para a definição das infecções relacionadas à assistência à saúde sob o ponto de vista epidemiológico e não devem ser confundidos com os critérios clínicos, que servem para definir casos clínicos de infecção e o tratamento que o médico do paciente vai instituir.

A diretriz internacional diz o mesmo sobre o instrumento equivalente do outro lado do continente. Ao comentar as entidades de evento associado a ventilação criadas pelos centros de controle de doenças americanos, o painel registra que essas definições foram desenhadas para vigilância e melhoria de qualidade em nível populacional, e não para auxiliar decisões de diagnóstico e tratamento à beira do leito — e por isso o painel não as considerou para fins da diretriz.

Duas fontes independentes, de países e finalidades diferentes, chegam à mesma frase — e essa coincidência é a chave de leitura do capítulo. Enunciado que cite a agência nacional, notificação, comissão de controle de infecção, taxa por mil dias de ventilador ou indicador está pedindo a régua da vigilância, e ali a resposta é a contagem de itens do critério. Enunciado que descreva um paciente febril com secreção purulenta e pergunte a conduta está pedindo a régua clínica, e ali a resposta é o antimicrobiano, a cultura e a data de parar.

O erro de troca de régua tem duas direções, e as duas aparecem. Uma é negar o diagnóstico clínico porque o paciente não fecha o critério de vigilância — o candidato deixa de tratar quem precisa. A outra é notificar como pneumonia associada a ventilação um caso que o médico tratou como tal mas que não preenche a definição epidemiológica, o que distorce o indicador da unidade. Nenhuma das duas é erro de conhecimento clínico; ambas são erro de saber para que serve cada documento.

A régua da vigilância por dentro: o um mais dois, o um mais um que engana, e a janela de sete dias

A definição clínica de pneumonia associada a ventilação da agência nacional se monta em quatro andares: o requisito de tempo e dispositivo já descrito; a imagem, com dois ou mais exames seriados mostrando infiltrado, opacificação ou cavitação, achados que precisam ser novos e persistentes, ou progressivos e persistentes; pelo menos um sinal sistêmico, entre febre, alteração de leucócitos e alteração de consciência em quem tem 70 anos ou mais; e pelo menos dois sinais respiratórios, entre secreção, piora da troca gasosa, roncos ou estertores, e tosse, dispneia ou taquipneia. Os cortes de cada item estão na segunda tabela do bloco de critérios.

A definição microbiológica repete os três primeiros andares e muda o quarto: ali basta um sinal respiratório, não dois — e acrescenta um quinto andar, o resultado laboratorial. É uma assimetria contraintuitiva, e ela é a armadilha mais elegante do documento. O raciocínio automático diz que a versão microbiológica é a versão clínica mais a cultura, isto é, mais exigente. É o contrário: a cultura positiva compra a dispensa de um sinal respiratório. Quem decorou a versão clínica e somou a cultura por cima vai exigir do caso microbiologicamente definido um requisito que o texto não faz.

Vale olhar a lista de resultados que fecham o andar microbiológico, porque ela é mais larga do que a memória sugere: além da cultura quantitativa de secreção pulmonar obtida por procedimento de mínimo potencial de contaminação, entram hemocultura positiva sem outro foco, cultura de líquido pleural, cultura de tecido pulmonar, histopatológico com abscesso ou com invasão por hifas, achado de pelo menos 5% de leucócitos e macrófagos com bactérias intracelulares na bacterioscopia do lavado broncoalveolar, identificação de agentes atípicos e antígeno urinário de Legionella pneumophila do sorogrupo I.

O período de janela é o intervalo de sete dias dentro do qual todos os elementos do critério precisam caber. Ele se constrói olhando três dias antes e três dias depois da coleta do primeiro exame laboratorial positivo ou da realização do primeiro exame de imagem positivo. Três mais um mais três dá exatamente os sete dias declarados, e a conta fecha.

Quando exames de imagem ou laboratoriais não fazem parte do critério, o ponto de ancoragem passa a ser o primeiro sinal ou sintoma específico daquela infecção. E aqui vem a frase curta que decide questões: a febre é um sinal inespecífico. Ela conta como item do critério, mas não serve para ancorar a janela nem para datar a infecção.

A data da infecção é a data em que o primeiro elemento utilizado para a definição ocorreu dentro da janela. Isso significa que a infecção pode ser datada em dia anterior ao do exame que a confirmou — o exemplo do próprio documento mostra a data caindo no dia do primeiro achado, com sinais que aparecem depois ainda dentro do intervalo. Para a contagem de dias de dispositivo, é essa data que vale, não a data do laudo. Um enunciado que ofereça uma radiografia do quinto dia e sintomas do terceiro está pedindo que você date a infecção no terceiro dia, com a consequência que isso tem para a associação ao ventilador.

Precoce e tardia: o quinto dia que o texto brasileiro deixa num vão

A separação entre formas precoce e tardia existe por causa da etiologia: quanto mais tempo de hospital, maior a chance de agente resistente, e é isso que a classificação tenta antecipar. A diretriz brasileira classifica a pneumonia adquirida no hospital pelo tempo decorrido entre a admissão e o aparecimento, e faz o mesmo com a associada a ventilação, contando a partir da intubação.

O texto merece leitura literal. Para a pneumonia adquirida no hospital, o documento diz que a forma precoce é a que ocorre até o quarto dia de internação, sendo considerada tardia a que se inicia após cinco dias da hospitalização. Para a associada a ventilação, diz que a precoce é a que ocorre até o quarto dia de intubação e início da ventilação, sendo tardia a que se inicia após o quinto dia. Nas duas frases, a forma precoce termina no quarto dia e a tardia começa depois do quinto: lido ao pé da letra, o quinto dia não pertence a nenhuma das duas. É um vão de redação, não uma terceira categoria, e a convenção operante — a que as bancas usam — é a de que a partir do quinto dia o caso é tardio. Quem escreve questão sobre esse limiar costuma oferecer o quarto e o sexto dia justamente para não pisar no vão.

O que o documento acrescenta logo depois vale mais que o limiar. Ele registra que, em muitos centros, germes resistentes comumente associados ao início tardio têm sido relatados com frequência em pacientes com forma precoce — e conclui que o conhecimento da microbiota local e do respectivo perfil de sensibilidade é o que deve orientar protocolos institucionais. Traduzindo para a prova: o calendário sugere, o antibiograma da unidade decide. A diretriz internacional chega ao mesmo lugar por outro caminho, recomendando que todo hospital gere e divulgue regularmente o próprio perfil de sensibilidade e que os esquemas empíricos sejam baseados nele.

Há um efeito colateral prático dessa convergência. Quando o enunciado informa a prevalência local de resistência, ele não está sendo generoso: está entregando o dado que substitui a contagem de dias.

Traqueobronquite: a pneumonia que não tem infiltrado, e o antibiótico que não se dá

A diretriz brasileira define traqueobronquite hospitalar pela presença dos sinais de pneumonia sem a identificação de opacidade radiológica nova ou progressiva, descartadas outras possibilidades que justifiquem os sintomas, sobretudo a febre. E acrescenta a parte que a prova cobra: o isolamento de germes em culturas, dissociado dos sinais, não permite o diagnóstico, e não deve servir de estímulo à introdução de antibióticos nem à modificação da terapêutica em curso.

A diretriz internacional trata a mesma entidade sob o nome de traqueobronquite associada a ventilação e sugere não fornecer antibioticoterapia a esses pacientes, com recomendação fraca e evidência de baixa qualidade. As duas fontes, portanto, apontam para o mesmo lado, com pesos diferentes: a brasileira proíbe que a cultura sozinha justifique a droga, a internacional desaconselha tratar a entidade.

A cena que a banca monta é sempre parecida. Paciente intubado no quarto ou quinto dia, com aumento e mudança de aspecto da secreção traqueal, febre baixa, aspirado traqueal com crescimento de bacilo gram-negativo — e radiografia sem infiltrado novo. O distrator que atrai é iniciar cobertura ampla porque a cultura veio positiva. A resposta é reconhecer que, sem opacidade nova ou progressiva, não há pneumonia; que a cultura isolada não fecha traqueobronquite; e que o crescimento no aspirado de um tubo é compatível com colonização, que é a regra em via aérea artificial.

Isso não significa cruzar os braços. Significa buscar outra causa da febre, revisar dispositivos, repetir a imagem se a clínica piorar e reavaliar — sem gastar espectro num diagnóstico que ainda não existe.

Fatores de risco para multirresistência: cinco numa linha, um nas outras três

A tabela de fatores de risco da diretriz internacional é lida errado com uma frequência que a torna fonte confiável de questão. Ela tem quatro linhas, e só a primeira é longa. Para pneumonia associada a ventilação por agente multirresistente, os fatores são cinco: uso prévio de antibiótico endovenoso nos últimos 90 dias, choque séptico no momento do episódio, síndrome do desconforto respiratório agudo precedendo o episódio, cinco ou mais dias de hospitalização antes da ocorrência, e terapia renal substitutiva aguda antes do início do quadro.

As outras três linhas têm um item cada, e é sempre o mesmo. Para pneumonia adquirida no hospital por agente multirresistente: uso prévio de antibiótico endovenoso nos últimos 90 dias. Para estafilococo resistente à oxacilina, em qualquer das duas formas: o mesmo item. Para pseudomonas multirresistente, em qualquer das duas formas: o mesmo item. Quem memoriza os cinco fatores e os aplica ao paciente de enfermaria não intubado está ampliando espectro por critério que a tabela não oferece ali.

Os limiares de prevalência completam a decisão e têm números próprios. A cobertura empírica contra estafilococo resistente à oxacilina é sugerida quando há fator de risco, quando a unidade tem mais de 10% a 20% dos isolados de estafilococo aureus resistentes à oxacilina, ou quando a prevalência local é desconhecida. A segunda droga antipseudomonas é sugerida quando há fator de risco, quando mais de 10% dos isolados gram-negativos da unidade são resistentes ao agente cogitado para monoterapia, ou quando as taxas locais não estão disponíveis. O painel declara o objetivo desses cortes: assegurar que pelo menos 95% dos pacientes recebam terapia empírica ativa contra o provável agente.

Há uma exceção que não depende de percentual nenhum. Se o paciente tem doença pulmonar estrutural que aumenta o risco de infecção por gram-negativo — bronquiectasia ou fibrose cística —, recomendam-se dois agentes antipseudomonas.

Montar o esquema empírico: uma coluna de cada, e as duas proibições

Quando a epidemiologia local e os fatores de risco exigem cobertura para MRSA, escolhe-se vancomicina ou linezolida. A vancomicina não deve ser ensinada como dose fixa acompanhada apenas por nível de vale: em infecção grave por MRSA, a dose de ataque pode ser baseada no peso real e a manutenção deve ser individualizada para atingir AUC24/MIC entre 400 e 600, idealmente nas primeiras 24 a 48 horas, com ajuste pela função renal. Linezolida permanece 600 mg por via endovenosa a cada 12 horas. A cobertura antipseudomonas e a necessidade de dupla classe devem seguir o antibiograma da unidade, a gravidade e os fatores de resistência, evitando duplicação automática.

As duas notas de rodapé que mais mudam conduta estão fora da lista de doses. A primeira: sugere-se evitar aminoglicosídeo quando houver alternativa com atividade adequada contra gram-negativos, e a diretriz registra que, em metanálise, esquemas com aminoglicosídeo se associaram a taxas menores de resposta clínica sem diferença de mortalidade. A segunda: sugere-se evitar colistina quando houver alternativa, reservando as polimixinas a cenários de alta prevalência de multirresistência e com experiência local no uso.

Para a pneumonia adquirida no hospital sem ventilação, a tabela é outra e tem três colunas de gravidade. Quem não tem alto risco de morte nem fator para estafilococo resistente recebe uma droga. Quem não tem alto risco de morte mas tem fator para estafilococo resistente recebe uma droga da lista mais o agente antiestafilocócico. Quem tem alto risco de morte, ou recebeu antibiótico endovenoso nos 90 dias anteriores, recebe duas drogas com atividade contra gram-negativos — e aqui está a instrução que a questão explora: evitar dois betalactâmicos. Combinar piperacilina-tazobactam com meropenem não é terapia dupla no sentido pretendido; é redundância de classe.

Uma regra atravessa as duas tabelas: no esquema empírico da pneumonia associada a ventilação, recomenda-se cobrir estafilococo aureus, pseudomonas aeruginosa e outros bacilos gram-negativos em todos os regimes. Quando não há fator de risco e a unidade tem baixa prevalência de resistência à oxacilina, essa cobertura pode ser feita por agente ativo contra o estafilococo sensível — piperacilina-tazobactam, cefepima, levofloxacino, imipenem ou meropenem já bastam, sem acrescentar vancomicina.

Sete dias como padrão atual; prolongar exige resposta clínica, não apenas o nome do agente

A diretriz internacional recomenda curso de 7 dias para pneumonia associada a ventilação, com recomendação forte e evidência de qualidade moderada, e curso de 7 dias para pneumonia adquirida no hospital, com recomendação forte e evidência de qualidade muito baixa. Na abertura do documento, o painel resume a própria posição afirmando que recomenda terapia de curso curto para a maioria dos pacientes com pneumonia adquirida no hospital ou associada a ventilação independentemente da etiologia microbiana. Em ambas as recomendações há a ressalva de que existem situações em que duração menor ou maior pode ser indicada, conforme a velocidade de melhora dos parâmetros clínicos, radiológicos e laboratoriais.

A diretriz brasileira de 2007 recomendava oito dias nos pacientes com boa resposta e pelo menos 15 dias para Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter e Stenotrophomonas. Essa regra deve ser lida como posição histórica do documento, não como padrão clínico contemporâneo. A recomendação internacional vigente não cria duração obrigatoriamente maior apenas por se tratar de bacilo não fermentador.

Na prática atual, comece com sete dias e individualize. Curso maior pode ser necessário quando persistem instabilidade, febre, secreção purulenta, piora da oxigenação, bacteremia não controlada, abscesso, empiema, imunossupressão relevante ou resposta clínica inadequada. Infiltrado radiológico residual isolado não justifica prolongamento. A cultura deve orientar descalonamento e o antibiograma local deve orientar a cobertura empírica.

Duas recomendações vizinhas completam o fim do tratamento. A terapia deve ser descalonada em vez de mantida fixa, com recomendação fraca e evidência de qualidade muito baixa — descalonar significa trocar o esquema empírico amplo por outro mais estreito, seja mudando o agente, seja passando de combinação para monoterapia. E sugere-se usar procalcitonina somada aos critérios clínicos para guiar a suspensão, com recomendação fraca e evidência de baixa qualidade, com a ressalva de que não se sabe se o benefício persiste onde a duração padrão já é de sete dias ou menos.

Marcador e escore: recusados nas duas pontas, e a aritmética que ainda cai na prova

Para decidir iniciar antimicrobiano na suspeita de pneumonia hospitalar ou associada a ventilação, a diretriz internacional recomenda usar critérios clínicos isoladamente em vez de procalcitonina somada a eles — e essa é uma recomendação forte, com evidência de qualidade moderada. Para decidir suspender, como já visto, ela sugere o contrário: procalcitonina somada aos critérios clínicos, com recomendação fraca e evidência de baixa qualidade.

É o mesmo exame, com respostas opostas e forças de recomendação diferentes, conforme a ponta do tratamento. A afirmação de que a procalcitonina não tem papel na pneumonia associada a ventilação é falsa; a de que ela ajuda a decidir quando começar também é. O que decide qual das duas é verdadeira é o verbo da pergunta.

O mesmo desenho se repete com os outros marcadores e com o escore. Para iniciar antibiótico, a diretriz recomenda critérios clínicos isolados em vez do receptor solúvel expresso em células mieloides no lavado broncoalveolar, com recomendação forte e evidência moderada; e recomenda critérios clínicos isolados em vez de proteína C reativa somada a eles, aqui com recomendação classificada como fraca e evidência de baixa qualidade. Quanto ao escore clínico de infecção pulmonar, a diretriz sugere critérios clínicos isolados em vez do escore modificado para decidir o início, e sugere não usar o escore para guiar a suspensão — desaconselhado, portanto, nas duas pontas. Isso não o dispensa do estudo, porque o documento brasileiro de 2007 o apresenta com a tabela completa, e é dessa tabela que saem as questões de cálculo.

A tabela do escore clínico de infecção pulmonar, como publicada na diretriz brasileira, tem seis itens: temperatura, leucometria, secreção traqueal, índice de oxigenação, radiografia de tórax e cultura semiquantitativa do aspirado traqueal. Três deles pontuam de 0 a 2 diretamente; os outros três pontuam 1 e ganham 1 ponto adicional por um agravante nomeado — bastões em número igual ou maior que 500, secreção purulenta, e a mesma bactéria identificada na bacterioscopia acima de uma cruz. A tabela completa, com os cortes de cada faixa, está no bloco de critérios.

Somando o máximo de cada item, tem-se 2 mais 2 mais 2 mais 2 mais 2 mais 2, isto é, 12. O texto declara escore total de no máximo 12 pontos, e a conta fecha com o declarado. Nenhum item vale mais que 2 e nenhum vale menos que 0.

Daí sai o achado que rende questão difícil. O corte publicado é escore superior a 6, e o documento registra que valor acima de 6 se associou a alta probabilidade de pneumonia associada a ventilação, com sensibilidade de 93% e especificidade de 100% no estudo original — enquanto outros estudos encontraram sensibilidade de 72% a 77% e especificidade de 42% a 85%. Como o teto de cada item é 2, para passar de 6 é preciso pontuar em pelo menos quatro dos seis itens. A tríade clássica que todo mundo recita — febre alta, secreção purulenta abundante e infiltrado localizado — vale 2 mais 2 mais 2, exatamente 6. E 6 não é maior que 6. A tríade clássica, sozinha, jamais cruza o corte do escore que ela supostamente representa: é preciso um quarto item, tipicamente a oxigenação abaixo do limiar, a alteração de leucócitos ou a cultura.

Há um segundo efeito aritmético na versão modificada. O documento registra que se propôs retirar o critério microbiológico para transformar o escore em teste de triagem aplicável no momento de iniciar e de reavaliar o tratamento. Retirado esse item, o teto cai de 12 para 10, enquanto o corte usualmente permanece em 6 — um corte que passa a exigir mais da escala restante. E o próprio documento situa a reavaliação do tratamento por volta do terceiro dia, que é quando as culturas costumam voltar e o descalonamento se decide.

Prevenção: o pacote nacional e a faixa de pressão que a auditoria confere

O protocolo nacional de prevenção organiza as medidas específicas em torno do manejo do paciente ventilado. Manter o decúbito entre 30 e 45 graus, com conferência do ângulo a cada turno e registro em folha de controle. Realizar teste de despertar diário, usando a menor dose possível de sedação, avaliando diariamente a redução do nível de sedação com registro em prontuário, avaliando a retirada do suporte invasivo e a prontidão para a desintubação. Aspirar secreção subglótica, com preferência por sistema fechado e por tubo com porta de aspiração subglótica desde o início da ventilação nos pacientes de risco. Realizar higiene oral pelo menos duas vezes ao dia, com cabeceira elevada durante o procedimento.

Os cuidados com o circuito têm uma regra que contraria o hábito antigo de troca programada: o circuito respiratório é trocado apenas em caso de sujidade visível, mau funcionamento técnico ou contaminação documentada. O condensado nunca é drenado em direção ao paciente. O umidificador passivo do tipo trocador de calor e umidade é o preferido, trocado a partir de 48 horas de uso e no máximo até 7 dias, ou antes se houver alteração de integridade. O sistema fechado de aspiração é trocado a cada 72 horas ou conforme o fabricante.

A folha de auditoria do protocolo traz o número que fecha a seção e que costuma ser cobrado fora de contexto: a avaliação da pressão do balonete é considerada conforme quando o valor está entre 18 e 22 mmHg, ou entre 25 e 30 cmH2O. As duas faixas são a mesma faixa em unidades diferentes, e a conversão fecha — 18 mmHg equivalem a cerca de 24,5 cmH2O e 22 mmHg a cerca de 29,9 cmH2O, o que arredonda para os extremos declarados. Quem guardou apenas uma das unidades vai errar a questão que oferece a outra.

A folha também define como se pontua adesão: cada item é registrado como conforme, não conforme ou não se aplica em cada turno, e a coluna de adesão diária ao pacote recebe zero se houver qualquer item não conforme, e um apenas se todos os itens forem conformes ou se houver somente itens conformes e não aplicáveis. É pacote no sentido estrito — meia adesão conta como zero.

04

As réguas do capítulo, lado a lado

Três documentos, três contagens de tempo e duas finalidades. A tabela dos relógios diz quando o caso entra em cada definição; a das duas definições da vigilância mostra a assimetria do quarto andar; a do escore permite refazer a conta.

  1. 1Leia o verbo da pergunta. Notificar, calcular taxa, preencher critério — régua da vigilância. Prescrever, ampliar, descalonar, suspender — régua clínica.
  2. 2Conte o tempo na unidade que o documento usa. Dias de calendário com primeiro dia na intubação, para a vigilância. Horas desde a admissão ou desde a intubação, para as definições clínicas.
  3. 3Confira a imagem antes de qualquer outra coisa: sem opacidade nova ou progressiva não há pneumonia, e o quadro passa a ser traqueobronquite, que não recebe antibiótico por cultura positiva.
  4. 4Procure no enunciado os fatores de risco para multirresistência, lembrando que só um deles vale fora da pneumonia associada a ventilação, e procure a prevalência local, que substitui a contagem de dias.
  5. 5Monte o esquema por colunas, sem repetir classe: no paciente de alto risco da pneumonia adquirida no hospital, dois agentes contra gram-negativos e nunca dois betalactâmicos.
  6. 6Reavalie por volta do terceiro dia, descalone com o resultado da cultura e programe a data de parar segundo o documento que o enunciado está usando.

O que a vigilância quer saber

Se o episódio conta como infecção relacionada à assistência para fins de notificação e de indicador. A resposta se dá por contagem de itens dentro de uma janela de sete dias, com dias de calendário e primeiro dia no dia da intubação. O próprio documento adverte que esses critérios não se confundem com os clínicos.

O que a beira do leito quer saber

Se este paciente precisa de antimicrobiano agora, de qual espectro e por quantos dias. A resposta se dá por critérios clínicos, sem marcador para decidir o início, com cobertura orientada pelo perfil de sensibilidade da unidade e com descalonamento assim que a cultura voltar.

O item que vale em qualquer linha da tabela de risco

Uso prévio de antibiótico endovenoso nos últimos 90 dias. É o único fator listado para pneumonia adquirida no hospital multirresistente, para estafilococo resistente à oxacilina e para pseudomonas multirresistente. Os outros quatro fatores valem apenas para a pneumonia associada a ventilação.

A conta que desmonta a tríade clássica

Febre alta vale 2, secreção purulenta abundante vale 2, infiltrado localizado vale 2. Total 6, e o corte é acima de 6. Sem um quarto item pontuando, o escore não cruza o próprio limiar.

Três relógios para o mesmo paciente

DocumentoPneumonia adquirida no hospitalPneumonia associada a ventilaçãoPara que serve
Diretriz da IDSA e da ATS, 2016Não incubando na admissão e ocorrendo 48 horas ou mais após ela; designa apenas episódios sem ventilaçãoOcorrendo mais de 48 horas após a intubação endotraquealDecidir diagnóstico e tratamento à beira do leito
Diretriz da SBPT, 2007Após 48 horas da admissão hospitalar, sem relação com intubação e ventilaçãoSurgindo entre 48 e 72 horas após a intubação e a instituição da ventilação invasivaOrientar o tratamento no contexto brasileiro
Nota Técnica 02/2021 da AnvisaNão é a infecção associada a dispositivo tratada nesta regraVentilação por período maior que dois dias de calendário, primeiro dia no início da ventilação, e ventilador presente no dia da infecção ou no dia anteriorDefinir o caso para notificação e indicador epidemiológico

As duas definições de pneumonia associada a ventilação da Anvisa, andar por andar

Andar do critérioDefinida clinicamenteDefinida microbiologicamente
Tempo e dispositivoVentilação por mais de dois dias de calendário, ventilador presente no dia da infecção ou no anteriorIgual
ImagemCom doença cardíaca ou pulmonar de base, dois ou mais exames seriados com infiltrado, opacificação ou cavitação, novos e persistentes ou progressivos e persistentes; sem doença de base, uma radiografia bastaIgual
Sinal sistêmicoPelo menos um entre febre acima de 38 graus, leucopenia abaixo de 4.000 ou leucocitose acima de 12.000, e alteração de consciência sem outra causa em quem tem 70 anos ou maisIgual
Sinal respiratórioPelo menos dois entre secreção, piora da troca gasosa, roncos ou estertores, e tosse, dispneia ou taquipneiaPelo menos um da mesma lista de quatro
Resultado laboratorialNão exigidoPelo menos um entre hemocultura sem outro foco, cultura de líquido pleural, cultura quantitativa de secreção por método de mínima contaminação, bactérias intracelulares em pelo menos 5% das células do lavado, cultura de tecido, histopatológico, agentes atípicos, sorologia com aumento de quatro vezes e antígeno urinário de Legionella do sorogrupo I
JanelaSinais, sintomas e imagens dentro do período de janela de sete diasSinais, sintomas, imagens e laboratório dentro do mesmo período

Escore clínico de infecção pulmonar, item a item, como publicado na diretriz brasileira

Item0 ponto1 ponto2 pontos
TemperaturaDe 36,5 a 38,4 grausDe 38,5 a 38,9 grausIgual ou maior que 39, ou igual ou menor que 36
Leucometria por milímetro cúbicoDe 4.000 a 11.000Abaixo de 4.000 ou acima de 11.000O mesmo, com 500 ou mais bastões (1 ponto adicional)
Secreção traqueal, total diário de cruzesMenos de 14 cruzes14 cruzes ou maisO mesmo, com secreção purulenta (1 ponto adicional)
Relação entre pressão de oxigênio e fração inspiradaAcima de 240, ou com síndrome do desconforto respiratório agudoIgual ou menor que 240 sem a síndrome
Radiografia de tóraxSem infiltradoInfiltrado difusoInfiltrado localizado
Cultura semiquantitativa do aspirado traquealBactéria patogênica em uma cruz ou menos, ou sem crescimentoBactéria patogênica acima de uma cruzO mesmo, com a mesma bactéria na bacterioscopia acima de uma cruz (1 ponto adicional)
Máximo do escoreSeis itens, teto de 2 por itemSoma dos tetos igual a 12Corte publicado: acima de 6

A extubação não encerra a janela de associação ao dispositivo no mesmo dia: pelo exemplo do documento, a infecção do dia seguinte à retirada ainda é associada.

Febre conta como item do critério, mas é sinal inespecífico e não serve para ancorar a janela nem para datar a infecção.

Na diretriz internacional, pneumonia adquirida no hospital e pneumonia associada a ventilação são grupos mutuamente excludentes — o primeiro termo designa ali apenas o episódio sem ventilação mecânica.

Doença pulmonar estrutural, como bronquiectasia ou fibrose cística, indica dois agentes antipseudomonas independentemente de percentual de resistência local.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Duração da terapia na pneumonia hospitalar e associada à ventilação

Padrão atual: sete dias

Recomenda sete dias para PAV e pneumonia hospitalar, com duração menor ou maior conforme melhora clínica, radiológica e laboratorial; favorece descalonamento e antibiograma local.

ATS/IDSA 2016, seções XXI e XXII

Regra histórica: oito ou quinze dias

Recomendava oito dias na boa resposta e pelo menos quinze dias para alguns bacilos não fermentadores. Deve ser ensinada como recorte documental histórico, não como conduta-padrão atual.

Diretrizes brasileiras para pneumonias hospitalares e PAV, 2007

Na prova

Sem fonte histórica explicitamente citada, a resposta clínica atual é sete dias, com descalonamento e individualização pela evolução. Quinze dias para bacilo não fermentador pertence à diretriz brasileira de 2007 e não deve ser apresentado como padrão contemporâneo.

Qual amostra respiratória colher e como cultivá-la

Amostra não invasiva com cultura semiquantitativa

A diretriz sugere amostragem não invasiva com culturas semiquantitativas para diagnosticar pneumonia associada a ventilação, em vez de amostragem invasiva com culturas quantitativas e em vez de amostragem não invasiva com culturas quantitativas, com recomendação fraca e evidência de baixa qualidade. Amostragem não invasiva significa aspirado endotraqueal; invasiva inclui lavado broncoalveolar, escovado protegido e lavado às cegas. Quando culturas quantitativas invasivas são feitas e o resultado fica abaixo do limiar, sugere-se suspender o antibiótico em vez de mantê-lo.

Kalil AC, Metersky ML, Klompas M, et al. Clin Infect Dis. 2016;63(5):e61-e111, seções I e II

Culturas quantitativas como forma de separar colonização de infecção

A diretriz nacional registra que as culturas quantitativas foram consolidadas como a melhor forma de distinguir colonização de infecção, com o objetivo de promover o uso racional de antimicrobianos, e discute os pontos de corte por método. Registra também que estudos comparando estratégia invasiva e não invasiva tiveram resultados conflitantes, que o uso de culturas quantitativas proporciona maior número de ajustes terapêuticos sem influenciar diretamente mortalidade, permanência e duração da ventilação, e que precocidade e adequação do tratamento pesam mais que a forma de diagnosticar.

Diretrizes brasileiras para tratamento das pneumonias adquiridas no hospital e das associadas à ventilação mecânica — 2007. J Bras Pneumol. 2007;33(Supl 1), seção de diagnóstico etiológico

Na prova

Repare que a divergência é menor do que parece, porque o texto nacional já concede que a estratégia diagnóstica pesa menos que a precocidade e a adequação do antibiótico. Na prática das questões, o discriminador é o que o enunciado faz com um resultado abaixo do limiar: se o caminho oferecido é suspender o antimicrobiano diante de cultura quantitativa invasiva abaixo do corte, o enunciado está no documento internacional. Se o enunciado exige broncoscopia antes de tratar um paciente instável, está contrariando os dois textos, porque nenhum deles admite atrasar a primeira dose para colher amostra.

O escore clínico de infecção pulmonar serve para decidir alguma coisa

Não usar o escore em nenhuma das duas pontas

A diretriz sugere usar critérios clínicos isolados, em vez do escore modificado somado a eles, para decidir iniciar antibioticoterapia, com recomendação fraca e evidência de baixa qualidade; e sugere não usar o escore para guiar a suspensão da antibioticoterapia, também com recomendação fraca e evidência de baixa qualidade. A mesma lógica é aplicada a proteína C reativa e ao receptor solúvel expresso em células mieloides, ambos recusados para a decisão de iniciar com recomendação forte.

Kalil AC, Metersky ML, Klompas M, et al. Clin Infect Dis. 2016;63(5):e61-e111, seções VII e XXV

O escore reduz diagnóstico falso-positivo e orienta a reavaliação

A diretriz nacional apresenta o escore com a tabela completa, justificando-o pelo impacto que os diagnósticos falso-positivos exercem no uso indiscriminado de antibióticos, na pressão seletiva e nos custos. Registra que valor acima de 6 se associou a alta probabilidade de pneumonia associada a ventilação, com sensibilidade de 93% e especificidade de 100% no estudo original, e que outros estudos encontraram sensibilidade de 72% a 77% e especificidade de 42% a 85%, com acurácia semelhante à dos três critérios clínicos. Registra ainda que a retirada do critério microbiológico foi proposta para transformá-lo em teste de triagem.

Diretrizes brasileiras para tratamento das pneumonias adquiridas no hospital e das associadas à ventilação mecânica — 2007. J Bras Pneumol. 2007;33(Supl 1), seção de escores de infecção pulmonar

Na prova

Questão que peça para calcular o escore está usando a tabela nacional e quer aritmética — some os itens e compare com o corte acima de 6, lembrando que cada item tem teto de 2. Questão que peça a conduta diante de um escore calculado está pedindo julgamento, e é aí que a posição internacional aparece: o número não autoriza sozinho nem começar nem parar. O par de números do próprio documento nacional é o que permite defender as duas posições sem contradição — especificidade de 100% no estudo original e de até 42% em outros é uma diferença grande demais para o escore mandar sozinho.

06

Caso resolvido

Homem de 64 anos, com doença pulmonar obstrutiva crônica, internado na terapia intensiva por trauma cranioencefálico. Foi intubado às 21h de uma segunda-feira. Na quinta-feira pela manhã apresenta temperatura axilar de 38,6 graus, aumento importante do volume e da purulência da secreção traqueal, necessidade crescente de fração inspirada de oxigênio e estertores em base direita. Leucócitos de 18.400 por milímetro cúbico. Radiografias de quarta e de quinta mostram infiltrado novo e persistente em lobo inferior direito. Relação entre pressão de oxigênio e fração inspirada de 190. Não usou antibiótico endovenoso no último ano, não está em terapia renal substitutiva, não teve choque nem síndrome do desconforto respiratório agudo. A unidade tem 8% dos isolados de estafilococo aureus resistentes à oxacilina e 6% dos gram-negativos resistentes ao agente cogitado para monoterapia.
Conte os dias antes de qualquer outra coisa
Segunda-feira é o primeiro dia de ventilação, terça o segundo, quarta o terceiro e quinta o quarto. O requisito de período maior que dois dias de calendário está cumprido desde quarta, e o ventilador está presente no dia da infecção. Pelas definições clínicas, também: passaram-se mais de 48 horas desde a intubação, o que satisfaz tanto o corte único quanto a faixa de 48 a 72 horas do documento nacional. Como o quadro se instala no quarto dia de intubação, ele é, pela classificação brasileira, ainda forma precoce.
Confira o critério da vigilância andar por andar
Paciente com doença pulmonar de base, portanto a exigência é de dois ou mais exames de imagem seriados — e há duas radiografias com infiltrado novo e persistente. Sinal sistêmico: febre de 38,6 graus, acima de 38, e leucocitose de 18.400, acima de 12.000; bastam um, e há dois. Sinais respiratórios: aumento de secreção purulenta, piora da troca gasosa e estertores; a definição clínica pede dois, e há três. O critério fecha. A data da infecção é a do primeiro elemento dentro da janela de sete dias, e a febre, por ser inespecífica, não é o elemento que a ancora.
Some o escore e repare onde ele para
Temperatura de 38,6 graus vale 1, não 2, porque 2 exige 39 ou mais. Leucócitos de 18.400 valem 1, com adicional apenas se houvesse 500 ou mais bastões, dado que a vinheta não oferece. Secreção purulenta abundante vale 2. Relação de oxigenação de 190, abaixo de 240 e sem síndrome do desconforto respiratório agudo, vale 2. Infiltrado localizado vale 2. Sem resultado de cultura, o item microbiológico ainda vale 0. Total 8, acima do corte de 6. Repare o que fez o escore cruzar: não foi a tríade clássica, foi a oxigenação.
Escolha o espectro pelos fatores de risco e pela prevalência local
Dos cinco fatores para multirresistência, nenhum está presente: sem antibiótico endovenoso nos 90 dias, sem choque séptico, sem síndrome do desconforto respiratório agudo precedendo, sem cinco ou mais dias de hospitalização antes do episódio e sem terapia renal substitutiva. A unidade tem 8% de resistência à oxacilina, abaixo da faixa de 10% a 20%, e 6% de resistência entre gram-negativos, abaixo de 10%. Logo, não se acrescenta agente contra estafilococo resistente e não se faz cobertura antipseudomonas dupla. Um único betalactâmico com atividade antipseudomonas e atividade contra o estafilococo sensível resolve — piperacilina-tazobactam 4,5 g por via endovenosa a cada 6 horas, por exemplo.
Programe a reavaliação, o descalonamento e a data de parar
Colher aspirado traqueal e hemoculturas antes da primeira dose, sem atrasar o tratamento. Reavaliar em 48 a 72 horas e descalonar conforme cultura: se houver Staphylococcus aureus sensível à oxacilina, por exemplo, trocar para betalactâmico antiestafilocócico. A duração-padrão é de sete dias, contados do início da antibioticoterapia, ajustada pela resposta clínica e por complicações; não se prolonga automaticamente para 15 dias apenas porque o agente é Pseudomonas, Acinetobacter ou Stenotrophomonas.
07

Agora feche você

Mulher de 71 anos, diabética, internada em enfermaria há 6 dias por erisipela em perna direita, em tratamento com antibiótico por via oral desde a admissão e sem qualquer suporte ventilatório. Fez hemodiálise de urgência no terceiro dia por injúria renal aguda, já resolvida. Hoje apresenta febre de 38,4 graus, tosse com expectoração purulenta, frequência respiratória de 26 incursões por minuto e saturação de 91% em ar ambiente. Radiografia de tórax com consolidação nova em base esquerda. Não recebeu antibiótico endovenoso nos últimos 90 dias, nesta internação ou antes dela. Sem hipotensão e sem necessidade de vasopressor. A unidade não dispõe de perfil de sensibilidade atualizado.
Classifique o episódio e diga por que ele não é pneumonia associada a ventilação
Diga há quantas horas ela está internada, compare com o corte de 48 horas e conclua se a pneumonia é adquirida no hospital. Explique por que, na diretriz internacional, esta paciente não pode ser classificada nas duas categorias ao mesmo tempo. Diga ainda se, pela classificação brasileira, o episódio é precoce ou tardio, e mostre onde o sexto dia cai.
Use a linha certa da tabela de fatores de risco
Liste os cinco fatores da linha da pneumonia associada a ventilação e diga quais deles esta paciente tem. Depois diga quantos fatores a linha da pneumonia adquirida no hospital oferece, qual é ele, e se esta paciente o preenche. Explique por que a hemodiálise do terceiro dia e os seis dias de internação não valem aqui.
Resolva o que a falta de perfil local de sensibilidade obriga
Diga o que a diretriz determina quando a prevalência de resistência à oxacilina é desconhecida e o que ela determina quando as taxas de resistência entre gram-negativos não estão disponíveis. Some as duas consequências e diga quantos agentes o esquema empírico passa a ter, nomeando a restrição de classe que se aplica ao par escolhido.
Separe a pneumonia da traqueobronquite antes de fechar
Diga qual achado da vinheta impede que este caso seja classificado como traqueobronquite. Depois monte a variação: se a radiografia estivesse sem alteração nova e o escarro tivesse crescido bacilo gram-negativo, qual seria a conduta segundo cada um dos dois documentos, e por que a cultura sozinha não muda nada.
Feche a duração e o descalonamento
Diga o número de dias segundo o documento internacional e segundo o nacional, e explique em que circunstância os dois números deixariam de ser sete e oito. Descreva o que significa descalonar nas duas formas que a diretriz descreve e diga qual exame ela sugere somar aos critérios clínicos para decidir a suspensão — e qual exame ela recusa, com recomendação forte, para decidir o início.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Contar horas quando o documento manda contar dias de calendário Paciente intubado às 23h de segunda. Na quarta pela manhã aparecem febre, secreção purulenta e infiltrado novo. O candidato calcula pouco mais de trinta horas de ventilação, conclui que não chegou a 48 e afasta a notificação. Pela régua da vigilância, segunda é o primeiro dia, terça o segundo e quarta o terceiro — o requisito de mais de dois dias de calendário está cumprido, e o caso é notificável. A recíproca também derruba: intubado às 2h da manhã, o paciente completa quase 48 horas ainda dentro do segundo dia de calendário.
  2. 2Achar que a definição microbiológica é a clínica com cultura por cima A definição clínica exige pelo menos dois dos quatro sinais respiratórios. A microbiológica exige apenas um, mais o resultado laboratorial. O candidato que decorou o dois e somou a cultura vai recusar um caso que tem febre, uma piora de troca gasosa e cultura quantitativa positiva, por entender que falta um segundo sinal respiratório. O caso fecha o critério microbiológico exatamente como está.
  3. 3Pedir duas imagens de quem não tem doença de base, e aceitar uma de quem tem A exigência de dois ou mais exames de imagem seriados vale para o paciente com doença cardíaca ou pulmonar de base — os exemplos que o documento dá são síndrome do desconforto respiratório agudo, displasia broncopulmonar, edema pulmonar e doença pulmonar obstrutiva crônica. Para quem não tem nenhuma delas, uma radiografia com as alterações descritas já é aceitável. A intuição inverte a regra, porque parece que o doente mais grave deveria exigir menos prova.
  4. 4Aplicar os cinco fatores de risco da pneumonia associada a ventilação ao paciente de enfermaria Choque séptico no momento do episódio, síndrome do desconforto respiratório agudo precedendo, cinco ou mais dias de internação e terapia renal substitutiva aguda estão listados apenas para a pneumonia associada a ventilação por agente multirresistente. Para a pneumonia adquirida no hospital, para estafilococo resistente à oxacilina e para pseudomonas multirresistente, a tabela lista um único fator: uso prévio de antibiótico endovenoso nos últimos 90 dias. Ampliar espectro no paciente de enfermaria porque ele dialisou é usar linha errada da tabela.
  5. 5Dar antibiótico porque o aspirado traqueal veio positivo Sem opacidade radiológica nova ou progressiva não há pneumonia, e o quadro é traqueobronquite hospitalar. O documento nacional afirma que o isolamento de germes em culturas, dissociado dos sinais, não permite o diagnóstico e não deve servir de estímulo à introdução de antibióticos nem à modificação da terapêutica vigente; a diretriz internacional sugere não tratar a traqueobronquite associada a ventilação. Crescimento no aspirado de um tubo é compatível com colonização, que é a regra na via aérea artificial.
  6. 6Somar a tríade clássica e achar que cruzou o corte do escore Febre igual ou maior que 39 graus vale 2. Secreção com 14 ou mais cruzes e purulenta vale 2. Infiltrado localizado vale 2. Total 6 — e o corte é acima de 6. Como nenhum item passa de 2, é preciso pontuar em pelo menos quatro dos seis itens para ultrapassar o limiar. A tríade que a memória associa ao escore não o cruza sozinha; falta a oxigenação abaixo do limiar, a alteração de leucócitos ou a cultura.
  7. 7Inverter a direção da procalcitonina Para decidir iniciar, a diretriz recomenda critérios clínicos isolados em vez de procalcitonina somada a eles, com recomendação forte e evidência moderada. Para decidir suspender, sugere procalcitonina somada aos critérios clínicos, com recomendação fraca e evidência baixa. Afirmar que o exame não tem papel é errado, e afirmar que ele ajuda a decidir o começo também. O verbo da pergunta é o que muda a resposta, e a força da recomendação muda junto.
  8. 8Prescrever dois betalactâmicos como terapia dupla Na coluna de maior risco da pneumonia adquirida no hospital, a instrução é escolher dois agentes com atividade contra gram-negativos evitando dois betalactâmicos. Piperacilina-tazobactam com meropenem não é dupla cobertura no sentido pretendido, é repetição de classe. O segundo agente vem da lista de não betalactâmicos — fluoroquinolona ou aminoglicosídeo —, lembrando que se sugere evitar aminoglicosídeo quando houver alternativa adequada.
  9. 9Guardar a pressão do balonete numa unidade só A folha de auditoria do protocolo nacional considera conforme a pressão do balonete entre 18 e 22 mmHg, ou entre 25 e 30 cmH2O. São a mesma faixa em unidades diferentes, e a conversão fecha: 18 mmHg dão cerca de 24,5 cmH2O e 22 mmHg dão cerca de 29,9 cmH2O. Enunciado que ofereça o valor na unidade que o candidato não decorou transforma uma questão de memória em questão de conversão.
  10. 10Trocar o circuito do ventilador por rotina O protocolo nacional determina troca do circuito respiratório apenas em caso de sujidade visível, mau funcionamento técnico ou contaminação documentada. Troca programada por intervalo fixo não é medida de prevenção. O umidificador passivo tem regra própria — troca a partir de 48 horas de uso e no máximo até 7 dias — e o sistema fechado de aspiração, a cada 72 horas ou conforme o fabricante.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: identificado o agente (S. aureus sensível à oxacilina — MSSA) com boa evolução clínica, a conduta racional é o descalonamento — retirar a cobertura empírica para gram-negativos (piperacilina-tazobactam) e para MRSA (vancomicina) e usar o betalactâmico antiestafilocócico, que é superior à vancomicina em MSSA (menor falha e menor mortalidade). Para pneumonia associada à ventilação sem bacteremia, imunossupressão ou complicação, 7 dias de tratamento total é o padrão. Manter espectro amplo por 14 dias contraria a evidência de não inferioridade do curso curto e amplifica a pressão seletiva e o risco de C. difficile. A linezolida é alternativa em MRSA, não em MSSA, e mantém indevidamente o antipseudomonas. Manter vancomicina isolada corrige o espectro pela metade, mas mantém a droga inferior para MSSA.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Diga em voz alta as três contagens de tempo do capítulo e a quem cada uma serve. Reconstrua a definição clínica de PAV, os fatores de risco para resistência, a diferença entre traqueobronquite e pneumonia e a lógica da coleta antes do antibiótico. Feche com a regra atual: sete dias como padrão, descalonamento por cultura, prolongamento apenas por evolução ou complicação e vancomicina monitorada por AUC24/MIC de 400 a 600, não por vale isolado.

em 30 dias

Refaça três contas sem olhar. Primeira: monte a tabela do escore clínico de infecção pulmonar com os seis itens, some os tetos, confira contra o máximo declarado de 12 e demonstre que a tríade de febre alta, secreção purulenta e infiltrado localizado dá exatamente 6, que não é maior que 6 — depois diga quantos itens no mínimo precisam pontuar para cruzar o corte e o que acontece com o teto quando se retira o critério microbiológico. Segunda: converta os dois extremos da faixa de pressão do balonete de milímetros de mercúrio para centímetros de água e confira se batem com os valores publicados. Terceira: desenhe a linha do tempo de um paciente intubado no fim da noite de segunda-feira e extubado na quinta, e diga em que dias a infecção seria considerada associada ao dispositivo, incluindo o dia posterior à retirada. Depois reconstrua as três divergências do capítulo com a fonte de cada posição e escreva, para cada uma, a frase do enunciado que denunciaria o documento em uso.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Paciente de 64 anos, no quarto dia de ventilação mecânica na terapia intensiva, evolui com febre, secreção traqueal purulenta e piora da oxigenação. Conduza a avaliação: conte os dias de ventilação em dias de calendário e diga em voz alta se o episódio é notificável como infecção associada a dispositivo. Verifique a imagem antes de tudo e diga o que a ausência de infiltrado novo mudaria no diagnóstico e na prescrição. Procure ativamente, um a um, os cinco fatores de risco para multirresistência, e pergunte à equipe qual é a prevalência local de resistência na unidade. Escolha o esquema empírico justificando cada coluna, colha as culturas sem atrasar a primeira dose e diga em que dia você vai reavaliar, o que espera descalonar e em que data pretende parar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Pneumonia hospitalar e associada à ventilação — Preparatório para provas | OsceLabs