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Distúrbios do equilíbrio ácido-base

O gasômetro não se lê de olho. São cinco passos na mesma ordem, seis fórmulas de compensação e duas contas — o ânion-gap corrigido pela albumina e o delta-delta — que existem para achar o distúrbio que o pH normal esconde.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 58 anos, tabagista, com DPOC, chega ao pronto-socorro sonolento. Gasometria arterial em ar ambiente: pH 7,30, PaCO2 60 mmHg, HCO3 29 mEq/L, PaO2 58 mmHg. Qual é a interpretação do distúrbio ácido-básico?

02

Como esse tema cai

Cento e noventa e quatro questões do acervo colocam um número de gasometria dentro do enunciado — pH de 7,2 e tanto, bicarbonato de 8, PaCO2 de 52. Em cinquenta e duas delas a doença que produziu o número é cetoacidose diabética, e essa tem capítulo próprio. O que sobra, e o que este capítulo cobre, é a rotina que transforma três números em um nome: qual é o distúrbio primário, se a compensação está onde deveria estar, e se há um segundo distúrbio escondido atrás do primeiro.

A parte que separa aprovado de reprovado não é reconhecer a acidose metabólica óbvia. São duas contas que quase ninguém faz até errar uma questão por causa delas: o ânion-gap corrigido pela albumina, porque o paciente internado é hipoalbuminêmico e a albumina baixa apaga o gap; e o delta-delta, porque é ele que denuncia a alcalose metabólica ou a segunda acidose que convivem com a primeira. O caso preferido do avaliador é aquele em que o pH está normal e há dois distúrbios ativos — e nenhum passo antes do quarto consegue vê-los.

Fica de fora, por ter dono em outro capítulo: o manejo da cetoacidose e do estado hiperosmolar, a escolha da bolsa na reposição volêmica, o potássio, o sódio, a meta de saturação e a ventilação do retentor de CO2. Aqui o potássio entra só como pista diagnóstica — é ele que separa os três tipos de acidose tubular renal —, e o bicarbonato entra só na pergunta de quando ele é remédio e quando é dano.

03

O que muda decisão

Cinco passos, sempre na mesma ordem

A gasometria não se interpreta por reconhecimento de padrão. Ela se interpreta por um roteiro fixo, e a razão de o roteiro ser fixo é que cada passo só faz sentido depois do anterior. Quem pula do pH direto para o diagnóstico acerta o caso simples e erra exatamente o caso que a prova escolheu.

Passo 1: há acidemia ou alcalemia? Olha-se só o pH, e a faixa de normalidade é de 7,35 a 7,45. Passo 2: quem é o primário? O distúrbio primário é aquele cujo parâmetro anda para o mesmo lado do pH — pH baixo com bicarbonato baixo é acidose metabólica, pH baixo com PaCO2 alta é acidose respiratória, e o espelho vale para a alcalemia. Passo 3: a compensação está dentro da faixa esperada? Calcula-se o valor previsto pela fórmula do distúrbio identificado; se o valor medido está fora da faixa, existe um segundo distúrbio, e ele é do outro compartimento.

Passo 4, obrigatório em toda acidose metabólica: o ânion-gap, corrigido pela albumina. Passo 5, que se bifurca conforme o resultado do quarto: se o gap está alto, calcula-se o delta-delta, que procura um segundo distúrbio metabólico; se o gap está normal, calcula-se o ânion-gap urinário, que separa perda intestinal de perda renal de bicarbonato.

Duas frases fecham o roteiro e valem por uma tabela inteira. A primeira: compensação nunca normaliza o pH. Se o pH voltou ao normal e o bicarbonato ou a PaCO2 estão alterados, não há um distúrbio compensado — há dois distúrbios que se anulam no pH. A segunda, de nomenclatura: só o processo primário se chama acidose ou alcalose; a resposta do outro compartimento chama-se compensação. A expressão alcalose respiratória secundária não existe, e num enunciado ela costuma ser a alternativa errada.

Escada de cinco degraus: pH, distúrbio primário, faixa de compensação, coluna do ânion-gap e, no último degrau, uma bifurcação entre delta-delta e ânion-gap urinário.
O roteiro em imagem. Os quatro primeiros degraus são obrigatórios e na ordem; o quinto se bifurca conforme o ânion-gap tenha vindo alto ou normal.

Passo 3: a compensação esperada, e o relógio de cada uma

A compensação respiratória de um distúrbio metabólico começa em minutos e está completa em horas. Por isso ela não tem fase aguda e fase crônica: existe uma fórmula só para a acidose metabólica e uma só para a alcalose metabólica. Já a compensação renal de um distúrbio respiratório tem duas fases — uma aguda, pequena, que depende apenas dos tampões, e uma crônica, que depende da mudança na excreção renal de ácido e leva de três a cinco dias. É por isso que a acidose respiratória e a alcalose respiratória têm duas fórmulas cada uma.

Na acidose metabólica, a PaCO2 esperada é 1,5 × HCO3 + 8, com variação de mais ou menos 2 — a regra do 1,5 mais 8, conhecida como fórmula de Winter. Bicarbonato de 14 prevê PaCO2 entre 27 e 31. Se a PaCO2 medida está acima da faixa, o paciente também tem acidose respiratória; se está abaixo, também tem alcalose respiratória. Há um piso fisiológico: por mais grave que seja a acidose, a PaCO2 não desce muito abaixo de 10 mmHg.

Um atalho útil vale só aqui, na acidose metabólica com compensação adequada: a PaCO2 esperada é aproximadamente igual aos dois últimos dígitos do pH. pH de 7,31 prevê PaCO2 em torno de 31, e a fórmula de Winter, com bicarbonato de 14, prevê de 27 a 31. Os dois métodos concordando é sinal de que a conta foi feita certo. Fora da acidose metabólica o atalho não vale.

Na alcalose metabólica, a PaCO2 esperada é 0,7 × HCO3 + 20, com variação de mais ou menos 5. A faixa é larga de propósito, porque a hipoventilação compensatória é limitada pela hipoxemia que ela mesma produz; a consequência prática é que essa fórmula detecta mal um segundo distúrbio, e num enunciado de alcalose metabólica a pista costuma vir da história, não da conta.

Nos distúrbios respiratórios, as quatro fórmulas se resumem a quanto o bicarbonato muda para cada 10 mmHg de desvio da PaCO2 em relação a 40. Na acidose respiratória, sobe 1 na aguda e 4 na crônica; na alcalose respiratória, cai 2 na aguda e 5 na crônica. PaCO2 de 60 prevê bicarbonato de 26 se a retenção é aguda e de 32 se é crônica — o mesmo gás, dois valores normais diferentes, e é a história que decide qual usar. Há ainda um piso conhecido: na alcalose respiratória aguda o bicarbonato raramente cai abaixo de 18, de modo que bicarbonato menor que 18 com PaCO2 baixa significa acidose metabólica concomitante.

Ânion-gap: a conta que a albumina baixa falsifica

O ânion-gap é o sódio menos a soma de cloro e bicarbonato. Ele mede os ânions que o laboratório não dosa, e serve para responder a uma única pergunta: a acidose metabólica é por acúmulo de ácido fixo, que consome bicarbonato e deixa uma sobra aniônica, ou é por perda direta de bicarbonato, que o cloro substitui um a um e não deixa sobra? Gap alto significa ácido acrescentado; gap normal significa bicarbonato perdido, e por isso a acidose de gap normal é sinônimo de acidose hiperclorêmica.

A faixa de referência é um dos pontos em que os documentos não falam a mesma língua. O material da Sociedade Brasileira de Nefrologia dá 3 a 12; a revisão brasileira clássica dá em torno de 10; e a própria fórmula do delta-delta usa 10 como valor normal. A saída prática é usar 10 como referência quando a conta seguinte for o delta-delta, e tratar valores entre 12 e 16 como zona cinzenta que exige olhar a albumina antes de concluir qualquer coisa.

A albumina é o principal ânion não dosado do plasma. Cada 1 g/dL a menos de albumina apaga cerca de 2,5 pontos de ânion-gap, e a correção é direta: ânion-gap corrigido igual a ânion-gap medido mais 2,5 vezes a diferença entre 4 e a albumina em g/dL. Num paciente com albumina de 2,0 g/dL, um gap medido de 12 — que o candidato apressado lê como normal — é na verdade 17. O paciente internado, séptico, cirrótico ou desnutrido é justamente o que tem albumina baixa e o que a prova escolhe.

Duas outras contas entram por perto, e cada uma tem uma pegadinha de unidade. A primeira é a correção do sódio pela glicemia: sódio corrigido igual a sódio medido mais 1,6 vezes a diferença entre a glicemia e 100, dividida por 100. A segunda é o gap osmolar, que é a osmolaridade medida menos a estimada por 2 vezes a soma de sódio e potássio, mais ureia dividida por 6, mais glicose dividida por 18. O divisor da ureia é 6 porque os laboratórios brasileiros dosam ureia; a fórmula internacional usa 2,8 porque lá se dosa o nitrogênio ureico, e ureia é cerca de 2,14 vezes o nitrogênio ureico. Aplicar o 2,8 a um valor de ureia infla a osmolaridade estimada — com ureia de 84 mg/dL, 30 mOsm/L em vez de 14 — e infla justamente o lado que se subtrai, escondendo o gap. Gap osmolar acima de 10 mOsm/L aponta intoxicação por substância osmoticamente ativa, e as três que não podem ser perdidas são metanol, etilenoglicol e — por um mecanismo diferente — salicilato.

Delta-delta: o passo que enxerga o distúrbio escondido

Quando um ácido fixo é acrescentado, cada íon de hidrogênio tamponado consome um bicarbonato e deixa um ânion no lugar. Se nada mais estivesse acontecendo, o quanto o gap subiu seria igual ao quanto o bicarbonato caiu. O delta-delta mede essa proporção: o ânion-gap menos 10, dividido por 24 menos o bicarbonato. É a única conta capaz de dizer que existe um segundo distúrbio metabólico, porque o passo da compensação só enxerga distúrbios do outro compartimento.

A leitura publicada pela Sociedade Brasileira de Nefrologia tem três faixas. De 1,0 a 1,6, a queda do bicarbonato é a esperada pelo gap, e o distúrbio metabólico é único. Abaixo de 1,0, o bicarbonato caiu mais do que o gap explicaria: há uma acidose metabólica de gap normal somada à de gap alto — o cenário clássico do paciente com cetoacidose que recebeu muito soro fisiológico e virou uma acidose hiperclorêmica no meio do tratamento. Acima de 2,0, o bicarbonato caiu menos do que o gap explicaria: há uma alcalose metabólica escondida, e o vômito prolongado é a causa que o enunciado costuma guardar na história.

A proporção de 1 para 1 é uma aproximação, e o próprio material brasileiro registra que ela varia com o ácido: na acidose lática a relação fica em torno de 1 para 0,6, e nas cetoacidoses perto de 1 para 1. Na prática, valores muito acima de 2 ou muito abaixo de 1 são os que mudam conduta; o que fica encostado nas bordas pede a história clínica como desempate.

Há um limite honesto do método que vale mais que a conta. O delta-delta não sabe distinguir uma alcalose metabólica verdadeira de uma retenção crônica de bicarbonato feita pelo rim para compensar hipercapnia de longa data. No retentor de CO2, o bicarbonato já estava alto antes de qualquer acidose começar, e a razão sobe pelo mesmo motivo aritmético. Quem decide é a história: sonda gástrica e vômito de seis dias apontam alcalose metabólica; DPOC com gasometria antiga mostrando bicarbonato de 32 aponta compensação.

Gap normal: o intestino ou o rim? A resposta está na urina

Acidose metabólica de ânion-gap normal significa bicarbonato perdido. Há três lugares de onde ele sai: o trato gastrointestinal, em diarreia de alto volume e ostomias de alto débito; o rim, quando o túbulo proximal não reabsorve o bicarbonato filtrado; e o rim de novo, quando o néfron distal não excreta o hidrogênio. Separar o intestino do rim é a pergunta que a prova faz, e ela se responde com uma conta de urina, não de sangue.

O ânion-gap urinário é o sódio urinário mais o potássio urinário menos o cloro urinário. Ele é um estimador indireto da amônia urinária: o amônio é um cátion que o laboratório não dosa, e quando ele aparece em quantidade, o cloro que o acompanha empurra o resultado para baixo. Diante de acidose sistêmica, o rim saudável despeja amônio, e o ânion-gap urinário fica negativo — o material brasileiro usa −20 ou mais negativo como marca. Isso aponta perda extrarrenal, tipicamente a diarreia.

Se, diante da mesma acidose, o ânion-gap urinário não é negativo, o rim não está excretando amônio como deveria, e o diagnóstico é acidose tubular renal. Esse é o enunciado do material da Sociedade Brasileira de Nefrologia, e é a regra que a maioria das provas cobra.

A conta tem duas armadilhas conhecidas. A primeira: ela só vale na acidose de gap normal — se houver cetoácidos, hipurato de tolueno ou grandes doses de penicilinas na urina, esses ânions não dosados falsificam o resultado para o lado negativo e simulam perda intestinal. A segunda: ela precisa de sódio urinário suficiente para o rim ter o que trocar; em depleção volêmica extrema, com sódio urinário muito baixo, o resultado perde sentido.

Acidose tubular renal: três potássios, três tipos

Todas as formas de acidose tubular renal produzem acidose metabólica hiperclorêmica com ânion-gap plasmático normal, e em todas a função glomerular está pouco ou nada afetada — creatinina normal com bicarbonato de 14 é a assinatura. O que separa os tipos é o potássio, e é por ele que se começa.

Tipo 1, distal: o néfron distal não consegue acidificar a urina. O potássio é baixo em 30% a 50% dos casos, o bicarbonato pode cair abaixo de 10 mEq/L, e o pH urinário permanece alto mesmo com o sangue ácido. A hipercalciúria somada à hipocitratúria e ao pH urinário alcalino é a razão de esse tipo dar nefrocalcinose e litíase — em criança, também déficit de crescimento e raquitismo. As causas secundárias que a prova usa são síndrome de Sjögren, anfotericina B, sulfametoxazol-trimetoprima, lítio e inalação de tolueno.

Tipo 2, proximal: o túbulo proximal não reabsorve o bicarbonato filtrado. Como 85% a 90% da carga filtrada é reabsorvida ali, a perda inicial é enorme, mas ela se autolimita — quando o bicarbonato sérico cai o suficiente, o distal dá conta da carga que chega e a urina volta a acidificar. Por isso o bicarbonato estabiliza numa faixa de 15 a 18 mEq/L e a acidificação distal está preservada. Quando o defeito não é isolado e sim de todo o transporte proximal, tem-se a síndrome de Fanconi: glicosúria com glicemia normal, aminoacidúria, hipofosfatemia, hipouricemia, e raquitismo resistente à vitamina D na criança ou osteomalácia no adulto. Ifosfamida e tetraciclina são as drogas citadas.

Tipo 4, hipercalêmica: o defeito é de aldosterona — falta dela ou resistência a ela — e o potássio, ao contrário dos outros dois, está alto. A acidificação distal está intacta, de modo que o pH urinário fica abaixo de 5,5; o que falha é a amoniogênese, e a acidose é leve. O cenário brasileiro é o diabético com doença renal crônica e hipoaldosteronismo hiporreninêmico, frequentemente em uso de inibidor da ECA, bloqueador do receptor de angiotensina, espironolactona ou sulfametoxazol-trimetoprima. O tipo 3 é a forma mista, por deficiência de anidrase carbônica II, e vem acompanhada de osteopetrose e calcificações cerebrais.

O pH urinário é a variável que mais gera confusão, porque o número depende de qual urina se colheu. A Diretriz Brasileira de Nefrolitíase de 2025 é explícita: para investigar acidose tubular renal distal colhe-se amostra isolada após jejum de 12 horas, na segunda micção, no mesmo dia da dosagem do bicarbonato plasmático — e o valor de referência dessa amostra é pH abaixo de 5,8, com pH acima de 5,8 na amostra isolada, ou acima de 6,2 na urina de 24 horas, como nível de ação. Já o pH do sedimento urinário de rotina, segundo o texto da mesma diretriz, só tem valor quando está abaixo de 5,5, porque valores alcalinos podem vir de contaminação bacteriana. Quando o bicarbonato plasmático está normal e a suspeita é da forma incompleta, a diretriz indica a prova de sobrecarga com cloreto de amônio.

O tratamento é álcali contínuo, e aqui há uma armadilha de população que vale mais que a dose. As doses por quilo que circulam nos textos brasileiros — 4 a 14 mEq/kg/dia no tipo 1 e 10 a 20 mEq/kg/dia no tipo 2 — são de criança, e a própria revisão que as publica registra que crianças maiores e adultos precisam de doses menores. Transportá-las para um adulto de 70 kg produziria mais de mil miliequivalentes por dia, isto é, mais de cem gramas de bicarbonato. No adulto o alvo é o bicarbonato sérico, não um número por quilo.

Alcalose metabólica: gerar é fácil, manter exige a cumplicidade do rim

O rim normal excreta uma carga de bicarbonato excedente com facilidade. Por isso toda alcalose metabólica tem duas histórias: uma que a gerou e outra que a mantém. A que gera é perda de hidrogênio — vômito, drenagem por sonda gástrica, diurético de alça ou tiazídico, excesso de mineralocorticoide — ou ganho de álcali, por infusão de bicarbonato, antiácido em excesso ou citrato de hemocomponentes. A que mantém é sempre uma destas quatro: contração de volume, depleção de cloro, hipocalemia e excesso de mineralocorticoide.

O cloro urinário é o exame que separa os dois grandes grupos, e é a pergunta que a prova faz. Cloro urinário baixo, abaixo de 20 mEq/L, define a alcalose cloro-responsiva: vômito, sonda gástrica, diurético já suspenso, pós-hipercapnia. O tratamento é soro fisiológico a 0,9% com cloreto de potássio, e a alcalose se corrige sozinha quando volume, cloro e potássio voltam. Cloro urinário alto, acima de 20 mEq/L, define a cloro-resistente: hiperaldosteronismo primário, síndrome de Cushing, estenose de artéria renal, Bartter e Gitelman, ou diurético ainda em uso. Nessas, soro não corrige — corrige-se a causa.

A hipocalemia é ao mesmo tempo passageira e motorista. Na depleção de potássio, o hidrogênio entra na célula para manter a eletroneutralidade, a célula tubular fica acidificada por dentro e aumenta a secreção de hidrogênio e a reabsorção de bicarbonato. É o mecanismo da acidúria paradoxal: urina ácida num paciente alcalótico. Quem lê pH urinário de 5,0 e conclui acidose num vômito de semanas está caindo exatamente aí.

A gasometria da alcalose metabólica quase nunca é o problema. O problema é a hipocalemia que a acompanha, com risco de arritmia e fraqueza, e a hipoventilação compensatória, que num paciente à beira da insuficiência respiratória piora a hipoxemia. É por isso que corrigir a alcalose antes de anestesiar tem consequência clínica, não estética.

Quando o bicarbonato entra — e o que mudou entre 2021 e 2026

O princípio que organiza toda a decisão é a diferença entre bicarbonato perdido e bicarbonato consumido. Na acidose de gap normal existe déficit real de bicarbonato — ele saiu pelo intestino ou pela urina — e repor faz sentido fisiológico. Na acidose de gap alto não há perda: o bicarbonato foi consumido tamponando um ácido, e tratar a doença de base devolve a base. Nas cetoacidoses, a insulina converte os cetoácidos de volta em bicarbonato; nas lactacidemias, restaurar perfusão faz o mesmo com o lactato.

As indicações restritas que o material brasileiro publica são três. Na acidose lática, acidemia grave com pH abaixo de 7,10, ou pH abaixo de 7,20 quando há lesão renal aguda KDIGO 2 ou 3. Na cetoacidose diabética, apenas pH igual ou menor que 6,90. E na intoxicação por salicilato, o bicarbonato entra mesmo sem acidemia, porque alcalinizar o plasma reduz a entrada do salicilato no sistema nervoso central e acelera sua eliminação renal — é a única situação em que se alcaliniza um paciente que não está ácido.

A Rename 2024 traz um único alcalinizante: bicarbonato de sódio 84 mg/mL, isto é, 8,4%, equivalente a 1 mEq/mL, solução injetável, Componente Básico. A forma de uso publicada pela Sociedade Brasileira de Nefrologia é diluir 150 mL da solução a 8,4% em 1000 mL, o que produz uma solução isotônica de 150 mEq/L, evitando infusão em menos de 30 minutos. A dose é de 1 a 2 mEq/kg, ou calcula-se o déficit por 0,3 vezes o peso vezes o excesso de base, administrando-se de metade a dois terços do déficit calculado. Os danos são conhecidos e cobrados: hipernatremia, sobrecarga de volume, hipocalemia, hipocalcemia — porque o pH em alta aumenta a ligação do cálcio à albumina —, acidose intracelular paradoxal e desvio da curva de dissociação da hemoglobina para a esquerda, que segura o oxigênio justamente onde ele falta.

O que mudou depois é o que o enunciado atual pode cobrar. O ensaio bicaricu-2, publicado em dezembro de 2025 com 640 randomizados e 627 analisados em 43 unidades de terapia intensiva francesas, testou bicarbonato em pacientes com pH igual ou menor que 7,20 e lesão renal aguda moderada a grave, com alvo de pH arterial de 7,30 ou mais. A mortalidade em 90 dias foi de 62,1% no grupo bicarbonato contra 61,7% no controle, diferença de 0,4 ponto percentual com intervalo de confiança de 95% de −7,2 a 8,0. Já a terapia renal substitutiva foi usada em 35% contra 50%, diferença de −15,5 pontos com intervalo de −23,1 a −7,8. Traduzindo: não muda quem morre, adia quem dialisa.

A diretriz de sepse de 2026 incorporou isso em duas frases de direções opostas. Ela sugere contra usar bicarbonato na acidemia lática por hipoperfusão com a finalidade de melhorar hemodinâmica ou reduzir vasopressor, com certeza baixa. E sugere A favor quando coexistem pH igual ou menor que 7,20 e lesão renal aguda AKIN 2 ou 3, com certeza muito baixa. Note que o limiar mudou de lugar: onde o texto brasileiro de 2021 põe 7,10 para a acidose lática pura, a norma de 2026 põe 7,20 e exige a companhia do rim.

Na acidose metabólica crônica da doença renal, o alvo também se moveu. O texto brasileiro persegue normalizar o bicarbonato sérico acima de 22 mEq/L. O KDIGO de 2024 retirou a recomendação graduada que existia desde 2012 e passou a orientar tratar para evitar bicarbonato abaixo de 18 mmol/L no adulto, com o aviso explícito de não ultrapassar o limite superior da normalidade nem estragar controle pressórico, potássio ou volemia. São quatro pontos de bicarbonato de distância entre dois documentos vigentes, e o enunciado normalmente diz qual dos dois está usando.

04

As contas, na ordem — e os números que competem entre documentos

O fluxo abaixo é o roteiro dos cinco passos; a primeira tabela guarda as seis fórmulas de compensação com os apelidos que a prova usa e um exemplo já conferido em cada linha. As tabelas seguintes são as três listas que o enunciado costuma cobrar de memória: as causas separadas pelo ânion-gap, os três tipos de acidose tubular renal e a bifurcação do cloro urinário na alcalose metabólica. As notas no fim reúnem os números que mudam de documento para documento — e as faixas que nenhum deles cobre.

  1. 11. pH: acidemia abaixo de 7,35, alcalemia acima de 7,45. pH normal NÃO encerra a análise — ele é o achado que mais esconde distúrbio duplo.
  2. 22. Quem anda para o mesmo lado do pH? Bicarbonato baixo com pH baixo é acidose metabólica; PaCO2 alta com pH baixo é acidose respiratória. Esse é o primário; o outro parâmetro é a compensação.
  3. 33. Fórmula da compensação esperada para o primário identificado. Valor medido fora da faixa significa um segundo distúrbio, e ele é sempre do outro compartimento.
  4. 44. Se é acidose metabólica, calcule o ânion-gap: sódio menos a soma de cloro e bicarbonato. Corrija o sódio pela glicemia, se ela estiver alta, e corrija o gap pela albumina — some 2,5 para cada g/dL abaixo de 4.
  5. 55a. Gap ALTO: delta-delta, que é o gap menos 10 dividido por 24 menos o bicarbonato. Abaixo de 1,0 há acidose de gap normal junto; acima de 2,0 há alcalose metabólica junto. Gap alto sem causa evidente pede gap osmolar.
  6. 65b. Gap NORMAL: ânion-gap urinário, que é sódio urinário mais potássio urinário menos cloro urinário. Negativo aponta perda intestinal; não negativo aponta acidose tubular renal — e aí o potássio separa os tipos.

Gap ALTO — ácido acrescentado

O ácido fixo entrou, consumiu bicarbonato e deixou o próprio ânion no lugar — cloro e bicarbonato somados já não igualam o sódio, e a diferença é o gap. Cetoacidose, lactato, uremia, metanol, etilenoglicol, salicilato. Aqui NÃO há déficit real de bicarbonato: o tratamento é a doença de base.

Gap NORMAL — bicarbonato perdido

O bicarbonato saiu pelo intestino ou pela urina e o cloro ocupou o lugar dele, um a um. Por isso gap normal e hipercloremia são a mesma coisa dita de dois jeitos. Aqui existe déficit REAL de bicarbonato, e repor álcali faz sentido fisiológico.

Delta-delta acima de 2

O ânion-gap subiu muito mais do que o bicarbonato caiu. Alguma coisa estava segurando o bicarbonato para cima enquanto o ácido o consumia: uma alcalose metabólica concomitante — vômito, sonda gástrica, diurético — ou, no retentor crônico de CO2, a própria compensação renal. A história desempata.

Ânion-gap urinário

Sódio mais potássio urinários menos cloro urinário. Negativo (barra à esquerda, −20 ou mais negativo) significa amônio sendo excretado: o rim está trabalhando, e a perda de bicarbonato é do intestino. Não negativo (barra à direita) significa amônio de menos: acidose tubular renal.

Distúrbio primárioApelidoResposta esperadaExemplo conferido
Acidose metabólica1,5 mais 8 (Winter)PaCO2 = 1,5 × HCO3 + 8 (± 2)HCO3 de 14 prevê PaCO2 de 27 a 31
Alcalose metabólica0,7 mais 20PaCO2 = 0,7 × HCO3 + 20 (± 5)HCO3 de 33 prevê PaCO2 de 38 a 48
Acidose respiratória AGUDA1 para 10HCO3 = 24 + (PaCO2 − 40) ÷ 10PaCO2 de 60 prevê HCO3 de 26
Acidose respiratória CRÔNICA4 para 10HCO3 = 24 + 4 × (PaCO2 − 40) ÷ 10PaCO2 de 60 prevê HCO3 de 32
Alcalose respiratória AGUDA2 para 10HCO3 = 24 − 2 × (40 − PaCO2) ÷ 10PaCO2 de 25 prevê HCO3 de 21; piso prático em 18
Alcalose respiratória CRÔNICA5 para 10HCO3 = 24 − 5 × (40 − PaCO2) ÷ 10 (± 2)PaCO2 de 25 prevê HCO3 de 16,5; limite entre 12 e 15

As duas listas de causas, separadas pelo ânion-gap

GrupoCausasO que o enunciado mostra
Gap ALTO — ácido endógenoCetoacidose diabética, alcoólica ou de jejum; acidose lática por hipoperfusão, sepse, isquemia mesentérica ou metformina; uremia da doença renal avançadaRespiração de Kussmaul, lactato elevado, creatinina elevada, glicemia alta, história de jejum ou etilismo
Gap ALTO — ácido exógenoMetanol, etilenoglicol, salicilato, propilenoglicolGap osmolar acima de 10 mOsm/L. No salicilato, acidose metabólica de gap alto E alcalose respiratória no mesmo paciente — a dupla é praticamente patognomônica
Gap NORMAL — perda intestinalDiarreia de alto volume, ostomia de alto débito, fístula pancreática ou biliarÂnion-gap urinário NEGATIVO, de −20 ou mais negativo
Gap NORMAL — perda renalAcidose tubular renal dos tipos 1, 2 e 4; acetazolamidaÂnion-gap urinário NÃO negativo; creatinina normal com bicarbonato baixo
Gap NORMAL — iatrogênicaInfusão de grandes volumes de solução fisiológica a 0,9%Cloro acima de 110 em quem recebeu litros de soro. Na cetoacidose em resolução, é ela que mantém o pH baixo depois que o gap já normalizou — e o delta-delta cai abaixo de 1,0

Acidose tubular renal: comece pelo potássio

Tipo 1 (distal)Tipo 2 (proximal)Tipo 4 (hipercalêmica)
PotássioBaixo em 30% a 50% dos casosNormal ou baixoALTO — é a assinatura do tipo
DefeitoNéfron distal não secreta H+ e não acidifica a urinaTúbulo proximal não reabsorve o HCO3 filtrado (85% a 90% da carga passa por ali)Falta de aldosterona ou resistência a ela; a amoniogênese cai
pH urinário na acidosePermanece altoAlcalino no início; volta a acidificar quando o HCO3 sérico cai o bastanteAbaixo de 5,5 — a acidificação distal está intacta
Bicarbonato séricoPode cair abaixo de 10 mEq/LEstabiliza entre 15 e 18 mEq/LAcidose leve
Companhia clínicaNefrocalcinose, litíase, hipercalciúria, hipocitratúria; na criança, déficit de crescimento e raquitismo; surdez neurossensorial nas formas recessivasSíndrome de Fanconi quando o defeito é de todo o transporte proximal: glicosúria com glicemia normal, aminoacidúria, hipofosfatemia, hipouricemia, raquitismo resistente à vitamina D ou osteomaláciaDoença renal crônica com hipoaldosteronismo hiporreninêmico; pseudo-hipoaldosteronismo
Causas de provaSíndrome de Sjögren, anfotericina B, sulfametoxazol-trimetoprima, lítio, inalação de toluenoIfosfamida, tetraciclina; no Fanconi, cistinose, doença de Wilson, tirosinemia, metais pesados, gentamicina, ácido valproico, cisplatinaDiuréticos poupadores de potássio; uropatia obstrutiva; hipoaldosteronismo primário

Alcalose metabólica: o cloro urinário é que decide o tratamento

Cloro urinárioGrupoCausasO que fazer
Abaixo de 20 mEq/LCloro-responsivaVômito, drenagem por sonda gástrica, diurético já suspenso, estado pós-hipercapniaSoro fisiológico a 0,9% com cloreto de potássio. Inibidor de bomba de prótons se a perda é gástrica. A alcalose corrige junto com volume, cloro e potássio
Acima de 20 mEq/LCloro-resistenteHiperaldosteronismo primário, síndrome de Cushing, estenose de artéria renal, síndromes de Bartter e de Gitelman, diurético ainda em usoSoro não corrige. Trata-se a causa; poupadores de potássio e suspensão do diurético entram conforme o mecanismo

A faixa de 1,6 a 2,0 do delta-delta não tem regra escrita. As três faixas publicadas são de 1,0 a 1,6, abaixo de 1,0 e acima de 2,0 — um resultado de 1,7 ou 1,8 fica sem interpretação. Isso não é raro por acaso: corrigir o ânion-gap pela albumina soma pontos ao numerador sem tocar no denominador, e empurra o resultado justamente para lá. No próprio material da Sociedade Brasileira de Nefrologia, o cenário da cetoacidose recalculado com o sódio corrigido dá 1,69 pelos números que ele mesmo publica, e o texto o registra como 1,6 — dentro da primeira faixa por um arredondamento. Caindo nessa faixa, a leitura honesta é acidose de gap alto isolada, mas no limite, e quem decide é a história.

O valor normal do ânion-gap muda de documento para documento: de 3 a 12 no material da Sociedade Brasileira de Nefrologia, em torno de 10 na revisão brasileira clássica. A fórmula do delta-delta, porém, usa 10 fixo no numerador. Use 10 sempre que a conta seguinte for o delta-delta, sob pena de mudar de faixa por causa da referência escolhida.

Com glicemia muito alta há duas convenções para o ânion-gap, e elas dão números bem diferentes. O material da Sociedade Brasileira de Nefrologia manda usar o sódio CORRIGIDO pela glicemia: no cenário de cetoacidose que ele resolve, o gap sai 32 com o sódio do laudo e 37,6 depois de corrigido. Já os textos de cetoacidose costumam definir a fórmula com o sódio AFERIDO, e é com ele que fazem as contas. Em glicemia normal a diferença não existe. Em glicemia de 900 mg/dL ela chega a dezenas de pontos, e o que decide é a régua que o enunciado declarou: se ele pede o ânion-gap dentro de um caso de cetoacidose ou de estado hiperosmolar, use o sódio aferido; se ele apresenta a correção do sódio como parte do roteiro ácido-base, use o corrigido.

Gap osmolar é osmolaridade MEDIDA menos ESTIMADA, nessa ordem. O material brasileiro escreve a definição correta e, na linha da conta do caso, inverte os rótulos — parte da estimada de 290 e subtrai a medida de 350, chegando ao mesmo 60 com o sinal trocado. O sinal importa: gap osmolar negativo não é achado clínico, é conta feita ao contrário.

As doses de álcali expressas por quilo que circulam nos textos brasileiros — 4 a 14 mEq/kg/dia e 10 a 20 mEq/kg/dia nas acidoses tubulares renais dos tipos 1 e 2, e 15 a 20 mEq/kg/dia na acidose metabólica crônica — vêm da literatura pediátrica de acidose tubular renal, e a própria revisão que publica as duas primeiras registra que crianças maiores e adultos precisam de doses menores. Confira a aritmética antes de transportá-las: num adulto de 70 kg, 15 a 20 mEq/kg/dia seriam de 1.050 a 1.400 mEq por dia, isto é, de 88 a 117 gramas de bicarbonato de sódio, ou de 180 a 240 cápsulas de 500 mg por dia — usando as próprias equivalências que esses textos publicam, de 12 mEq por grama e 5,9 mEq por cápsula de 500 mg. No adulto o alvo é o bicarbonato sérico, não um número por quilo.

O corte do pH urinário muda com a urina que foi colhida, e o enunciado precisa dizer qual: 5,5 no sedimento urinário de rotina; 5,8 na amostra isolada após 12 horas de jejum, colhida na segunda micção; 6,2 na urina de 24 horas. A Diretriz Brasileira de Nefrolitíase de 2025 traz o 5,5 no texto e o 5,8 e o 6,2 na tabela de parâmetros urinários do adulto, e exige que a amostra em jejum seja lida junto com o bicarbonato plasmático do mesmo dia. Quando o enunciado não especifica a coleta, 5,5 é o corte mais cobrado.

A Rename 2024 lista bicarbonato de sódio apenas na apresentação injetável de 84 mg/mL (8,4%), 1 mEq/mL, no Componente Básico. Solução de Shohl, citrato de potássio e cápsula oral de bicarbonato — os alcalinizantes que os textos citam para a acidose metabólica crônica — não constam da lista nacional. É um dado de realidade brasileira que muda a conversa do ambulatório, não a resposta da prova.

O bicarbonato de sódio aparece em outras duas decisões desta apostila, com gatilhos próprios, e confundi-los é erro de escopo. Na hipercalemia, ele é medida de REDISTRIBUIÇÃO do potássio para dentro da célula e o gatilho é a acidose associada, não o valor do potássio — a régua está no capítulo de distúrbios do potássio. E acidose metabólica refratária é uma das portas da diálise de urgência, o A do mnemônico AEIOU — a régua está no capítulo de injúria renal aguda. Aqui a pergunta é outra: quando o álcali corrige a acidemia em si.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Ânion-gap urinário na acidose tubular renal tipo 2: não negativo ou negativo?

Não negativo aponta acidose tubular renal, sem distinguir o tipo

O material da Sociedade Brasileira de Nefrologia arrola a acidose tubular renal tipo 2 entre as causas renais de acidose de ânion-gap normal e, na sequência, conclui que a não negatividade do ânion-gap urinário diante de acidose metabólica fala a favor de defeito na excreção de amônio e, portanto, de acidose tubular renal. Lido ao pé da letra, um ânion-gap urinário negativo afastaria a acidose tubular renal — inclusive a tipo 2.

Sociedade Brasileira de Nefrologia, Discussão clínica: acidose metabólica, abril de 2021, Caso clínico 1.

No tipo 2 o ânion-gap urinário é NEGATIVO, e isso é característico

A revisão brasileira de acidose tubular renal é explícita em sentido oposto: o diagnóstico de acidose tubular renal proximal deve ser suspeitado diante de acidose metabólica hiperclorêmica acompanhada de normo ou hipopotassemia e de um ânion-gap urinário negativo, isto é, de cloro urinário superior à soma de sódio e potássio urinários. A explicação fisiológica é coerente com o resto do texto: no tipo 2 a acidificação distal está preservada, de modo que o rim continua excretando amônio.

Simões e Silva AC, Lima CJCA, Souto MFO. Acidose Tubular Renal em Pediatria. J Bras Nefrol. 2007;29(1):38-47, seção Diagnóstico da ATR tipo 2.

Na prova

Repare em qual variável o enunciado ofereceu. Quando ele dá apenas o ânion-gap urinário e pergunta intestino ou rim, a régua cobrada é a primeira: não negativo significa acidose tubular renal. Quando ele dá potássio, pH urinário e bicarbonato sérico, o tipo se decide por essas três variáveis, e não pelo ânion-gap urinário — potássio alto é tipo 4, potássio baixo com pH urinário que não desce é tipo 1, e bicarbonato estabilizado entre 15 e 18 com acidificação distal preservada é tipo 2. Quem tenta tipar pelo ânion-gap urinário sozinho está usando a ferramenta fora do alcance dela.

Bicarbonato na acidemia grave com lesão renal aguda: qual limiar, e para quê

pH abaixo de 7,10, ou abaixo de 7,20 com lesão renal (régua brasileira de 2021)

Na acidose lática, a indicação publicada é acidemia grave com pH abaixo de 7,10; ou pH abaixo de 7,20 quando há lesão renal aguda KDIGO 2 ou 3. O alvo é declarado controverso, com pH acima de 7,20 apresentado como atenuação do efeito cardiovascular da acidemia.

Sociedade Brasileira de Nefrologia, Discussão clínica: acidose metabólica, abril de 2021, seção Terapia alcalinizante.

Sugere CONTRA no choque, e A FAVOR só com pH ≤ 7,20 mais AKIN 2 ou 3 (norma de 2026)

A diretriz internacional de sepse de 2026 separa as duas perguntas. Para adultos com choque séptico e acidemia lática por hipoperfusão, sugere contra usar bicarbonato com a finalidade de melhorar hemodinâmica ou reduzir a necessidade de vasopressor, recomendação condicional com certeza baixa. Para adultos com choque séptico, acidemia metabólica grave com pH igual ou menor que 7,20 e lesão renal aguda AKIN 2 ou 3, sugere usar bicarbonato, recomendação condicional com certeza muito baixa.

Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2026. Crit Care Med. 2026;54(4):725-812.

O ensaio que explica a hesitação: não muda mortalidade, adia diálise

O BICARICU-2 randomizou 640 pacientes e analisou 627, em 43 unidades de terapia intensiva francesas, com pH igual ou menor que 7,20 e lesão renal aguda moderada a grave, mirando pH arterial de 7,30 ou mais. A mortalidade em 90 dias foi de 62,1% contra 61,7% (diferença de 0,4 ponto; intervalo de confiança de 95% de −7,2 a 8,0; p = 0,91). A terapia renal substitutiva foi usada em 35% contra 50% (diferença de −15,5 pontos; intervalo de −23,1 a −7,8).

Jung B, Jabaudon M, De Jong A, et al. BICARICU-2. JAMA. 2025;334(22):2000-2010.

Na prova

O número que separa as duas réguas é o 7,10. Enunciado que oferece acidose lática pura, sem lesão renal, e pergunta se cabe bicarbonato, está cobrando a régua brasileira e a resposta se ancora no 7,10. Enunciado que descreve choque séptico com lesão renal aguda e menciona AKIN ou KDIGO estágio 2 ou 3 está na régua de 2026, em que o corte é 7,20 e a companhia do rim é condição, não detalhe. E enunciado que pergunta o que o bicarbonato muda no desfecho tem uma resposta só desde dezembro de 2025: não muda mortalidade; reduz o uso de terapia renal substitutiva.

Acidose metabólica crônica da doença renal: tratar a partir de 22 ou de 18 mEq/L?

Normalizar acima de 22 mEq/L

O alvo publicado para a acidose metabólica crônica é a normalização do bicarbonato sérico, definida como valor acima de 22 mEq/L, com alcalinizantes orais.

Sociedade Brasileira de Nefrologia, Discussão clínica: acidose metabólica, abril de 2021, seção Acidose metabólica crônica.

Tratar para EVITAR bicarbonato abaixo de 18 mmol/L

O KDIGO de 2024 retirou a recomendação graduada que mantinha desde 2012, sob o argumento de que os ensaios controlados por placebo publicados depois não demonstraram efeito sobre desfechos clínicos importantes, e a substituiu por um ponto de prática: considerar tratamento farmacológico, com ou sem intervenção dietética, para prevenir o desenvolvimento de acidose com potenciais implicações clínicas — por exemplo, bicarbonato sérico abaixo de 18 mmol/L no adulto. Um segundo ponto de prática manda monitorar o tratamento para que o bicarbonato não ultrapasse o limite superior da normalidade e não piore controle pressórico, potássio ou volemia.

KDIGO 2024 CKD Guideline, Practice Points 3.10.1 e 3.10.2. Kidney Int. 2024;105(4S):S222.

Na prova

São quatro pontos de bicarbonato de distância, e o enunciado quase sempre entrega qual régua está usando — se ele cita KDIGO, o número é 18 e a palavra-chave é evitar, não normalizar; se descreve conduta ambulatorial genérica em português, o número é 22 e a palavra-chave é normalizar. Repare também que a mudança de 2024 é de FORÇA, não só de número: o que era recomendação graduada virou ponto de prática, com o aviso de não ultrapassar o limite superior da normalidade — alternativa que proponha subir o bicarbonato acima da faixa normal está errada nas duas réguas.

Qual pH urinário afasta acidose tubular renal distal: 5,3, 5,5 ou 5,8?

Abaixo de 5,5 — e a função tubular normal desce a 5,0 ou 5,3

A revisão brasileira de acidose tubular renal fixa o diagnóstico do tipo 1 na incapacidade de reduzir o pH urinário abaixo de 5,5, e acrescenta que, com função tubular normal, durante acidose metabólica o pH urinário deve ser sempre inferior a 5,0 a 5,3. A prova de sobrecarga com cloreto de amônio, na dose de 0,1 g/kg, usa o mesmo 5,5 como ponto de corte na quarta hora. A Diretriz Brasileira de Nefrolitíase de 2025 repete o 5,5 no texto, ressalvando que valores do sedimento de rotina só têm valor quando reduzidos, porque valores alcalinos podem vir de contaminação bacteriana.

J Bras Nefrol. 2007;29(1):38-47, seção Diagnóstico da ATR-1; e Diretriz Brasileira de Nefrolitíase, Braz J Nephrol. 2025;47(2):e20240189, p. 11.

Abaixo de 5,8, se a amostra for a correta

A tabela de parâmetros laboratoriais urinários do adulto da mesma diretriz de 2025 fixa, para a urina pós-jejum de 12 horas colhida na segunda micção em amostra isolada, o valor de referência de pH abaixo de 5,8, e coloca como nível de ação o pH acima de 5,8 na amostra isolada ou acima de 6,2 na urina de 24 horas, a serem avaliados junto com o bicarbonato plasmático do mesmo dia.

Diretriz Brasileira de Nefrolitíase: Sociedade Brasileira de Nefrologia. Braz J Nephrol. 2025;47(2):e20240189, Tabela 4 (p. 12).

Na prova

Antes de escolher o corte, identifique a amostra que o enunciado descreve — é isso que a diretriz de 2025 organiza ao separar sedimento de rotina, amostra em jejum de 12 horas e urina de 24 horas. Enunciado que só diz pH urinário, sem qualificar a coleta, está cobrando o 5,5 clássico. Enunciado que descreve jejum de 12 horas e segunda micção está na tabela, e o número é 5,8. E qualquer que seja o corte, ele só significa alguma coisa se houver acidemia sistêmica documentada no mesmo dia: pH urinário alto em paciente com bicarbonato normal levanta a forma incompleta, que se investiga com sobrecarga de cloreto de amônio, e não fecha diagnóstico sozinho.

06

Caso resolvido

Mulher de 41 anos, acompanhada por síndrome de Sjögren há oito anos, procura o pronto-socorro por fraqueza muscular progressiva nos quatro membros há três dias, com dificuldade para subir escadas e para levantar os braços. Nega diarreia, vômitos, laxantes e diuréticos. Refere cólica renal com eliminação de cálculo há dois anos. Ao exame: pressão arterial 118/76 mmHg, frequência cardíaca 88 bpm, ausculta normal, sem edemas, força grau 3 proximal nos quatro membros, reflexos hipoativos. Laboratório: sódio 140 mEq/L, potássio 2,8 mEq/L, cloro 116 mEq/L, creatinina 0,9 mg/dL, albumina 4,2 g/dL. Gasometria arterial: pH 7,31, HCO3 14 mEq/L, PaCO2 29 mmHg. Urina de amostra isolada colhida na segunda micção após 12 horas de jejum, no mesmo dia: sódio 55 mEq/L, potássio 35 mEq/L, cloro 40 mEq/L, pH 6,4. Ultrassonografia de rins e vias urinárias: nefrocalcinose bilateral.
passos 1 e 2
pH de 7,31 é acidemia. O bicarbonato, em 14 mEq/L, está baixo — anda para o mesmo lado do pH — e a PaCO2, em 29 mmHg, está baixa, ou seja, para o lado contrário. O distúrbio primário é, portanto, acidose metabólica, e a PaCO2 baixa é a compensação, não uma alcalose respiratória.
passo 3 — a compensação está onde deveria
Pela fórmula do 1,5 mais 8, a PaCO2 esperada é 1,5 vezes 14 mais 8, ou seja, 29, com faixa de 27 a 31. A PaCO2 medida é exatamente 29: compensação adequada, sem distúrbio respiratório associado. O atalho confirma: os dois últimos dígitos do pH, 7,31, dão 31 — a borda superior da mesma faixa.
passo 4 — o ânion-gap, e a albumina que não atrapalha
Ânion-gap igual a 140 menos a soma de 116 e 14, isto é, 10. A albumina de 4,2 g/dL está acima de 4, de modo que a correção subtrai meio ponto e o gap corrigido fica em 9,5 — normal nas duas referências que circulam. Gap normal com cloro de 116 é o retrato da acidose metabólica hiperclorêmica: bicarbonato perdido, não ácido acrescentado. Como o gap é normal, o próximo passo não é o delta-delta, e sim a urina.
passo 5 — o ânion-gap urinário aponta o rim
Ânion-gap urinário igual a 55 mais 35 menos 40, ou seja, mais 50. Diante de acidemia sistêmica, o rim saudável despejaria amônio e o resultado seria negativo, de −20 ou mais negativo, apontando perda intestinal. Um valor francamente positivo diz o contrário: o amônio não está sendo excretado, e o defeito é renal. A história já negava diarreia, ostomia e laxante, e o exame não tem sinal de perda gastrointestinal.
qual dos três tipos
O potássio de 2,8 mEq/L é baixo, o que retira o tipo 4 da mesa — nele o potássio é alto e o pH urinário fica abaixo de 5,5. O pH urinário de 6,4 na amostra em jejum de 12 horas está acima tanto do corte de 5,5 quanto do de 5,8, e mostra incapacidade de acidificar apesar da acidemia: é o tipo 1, distal. O bicarbonato de 14 mEq/L está abaixo do platô de 15 a 18 típico do tipo 2, e a nefrocalcinose com litíase prévia, que nasce da hipercalciúria somada à hipocitratúria e à urina alcalina, é a companhia clássica do tipo 1. A creatinina de 0,9 mg/dL afasta acidose urêmica: função glomerular preservada com bicarbonato de 14 é a assinatura da tubulopatia.
a causa e o que fazer
Síndrome de Sjögren é a causa secundária mais cobrada de acidose tubular renal distal no adulto, ao lado de anfotericina B, sulfametoxazol-trimetoprima, lítio e inalação de tolueno. A conduta é reposição de potássio junto com o álcali, e não depois: corrigir a acidose sem repor potássio o empurra para dentro da célula e aprofunda a fraqueza que trouxe a paciente. O álcali é contínuo e por toda a vida nas formas primárias, com alvo no bicarbonato sérico, e o citrato tem papel específico porque a hipocitratúria é parte do mecanismo da litíase. Não há aqui indicação de bicarbonato endovenoso em bolus: pH de 7,31 está muito acima de qualquer limiar de acidemia grave, e o que essa paciente tem é déficit crônico, não emergência.
07

Agora feche você

Homem de 64 anos, com úlcera duodenal conhecida, chega ao pronto-socorro após seis dias de vômitos de grande volume, sem sangue, com saciedade precoce e distensão epigástrica. Nas últimas 12 horas urinou muito pouco. Ao exame: pressão arterial 88/54 mmHg, frequência cardíaca 118 bpm, mucosas secas, tempo de enchimento capilar de 4 segundos, abdome distendido com vasculejo à sucussão. Laboratório: sódio 138 mEq/L, potássio 2,7 mEq/L, cloro 88 mEq/L, creatinina 2,1 mg/dL, albumina 3,8 g/dL, lactato arterial 8,2 mmol/L. Gasometria arterial: pH 7,36, HCO3 20 mEq/L, PaCO2 37 mmHg. Cloro urinário 8 mEq/L. Qual é o distúrbio ácido-base e qual a conduta?
passos 1 e 2
O pH de 7,36 está dentro da faixa normal, e é exatamente por isso que a análise não pode parar aqui. O bicarbonato, em 20 mEq/L, está abaixo do normal; a PaCO2, em 37 mmHg, está dentro do normal. Quem se afastou da referência foi o bicarbonato, e ele apontou para baixo: o primário é acidose metabólica, ainda que o pH esteja normal.
passo 3
PaCO2 esperada igual a 1,5 vezes 20 mais 8, isto é, 38, com faixa de 36 a 40. A PaCO2 medida é 37: compensação adequada e nenhum distúrbio respiratório associado. Tudo o que houver de mais neste paciente é metabólico — e é o passo 5 que vai enxergar.
passo 4
Ânion-gap igual a 138 menos a soma de 88 e 20, ou seja, 30. A albumina de 3,8 g/dL acrescenta meio ponto, e o gap corrigido fica em 30,5 — muito elevado, praticamente o triplo da referência. O lactato de 8,2 mmol/L, produzido pela hipoperfusão que a pressão de 88/54 e o enchimento capilar de 4 segundos denunciam, explica a maior parte desses ânions não dosados.
passo 5 — o número que muda o diagnóstico
Delta-delta igual a 30,5 menos 10, dividido por 24 menos 20: 20,5 dividido por 4, ou seja, 5,1. Muito acima de 2. A tradução é direta: o ânion-gap subiu 20 pontos, mas o bicarbonato caiu apenas 4. Alguma coisa estava segurando o bicarbonato para cima enquanto o lactato o consumia — há uma alcalose metabólica concomitante, e o bicarbonato de 20, que parece quase normal, é o saldo de dois distúrbios grandes de sinais opostos.
o que a história e o resto do laboratório confirmam
Seis dias de vômito de grande volume perdem ácido clorídrico puro e geram a alcalose; a hipovolemia resultante gera a hipoperfusão e o lactato. Cloro de 88 mEq/L e potássio de 2,7 mEq/L são a assinatura laboratorial da alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica. O cloro urinário de 8 mEq/L, abaixo de 20, classifica a alcalose como cloro-responsiva. Se a urina tivesse sido colhida para pH, ele viria ácido — a acidúria paradoxal — e não significaria acidose.
conduta
Soro fisiológico a 0,9% com cloreto de potássio, em volume que restaure a perfusão. É o mesmo tratamento para os dois distúrbios: o volume corrige a hipoperfusão e derruba o lactato, e o cloro com o potássio retira as duas pernas que mantinham a alcalose. Inibidor de bomba de prótons reduz a perda gástrica continuada, e a obstrução ao esvaziamento gástrico precisa ser investigada. Bicarbonato está contraindicado por três razões somadas: não há déficit real de bicarbonato numa acidose de gap alto, o pH de 7,36 está longe de qualquer limiar de acidemia grave, e o álcali agravaria a alcalose e a hipocalemia que já ameaçam este paciente.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler o pH e parar por aí pH de 7,38 num paciente com bicarbonato de 20 e PaCO2 de 37 não é um distúrbio compensado — compensação nunca normaliza o pH. Se o pH voltou ao normal e os outros dois números não estão, há dois distúrbios que se anulam na balança. Este é o enunciado preferido do avaliador porque ele derruba exatamente quem não passa do primeiro passo, e a única maneira de enxergar o que está acontecendo é calcular o ânion-gap corrigido e o delta-delta.
  2. 2Calcular o ânion-gap sem olhar a albumina Cada 1 g/dL de albumina a menos apaga cerca de 2,5 pontos de ânion-gap. Num paciente com albumina de 2,0 g/dL, um gap medido de 12 — que passa por normal em qualquer faixa de referência — é na verdade 17, e o raciocínio inteiro muda de ramo: em vez de procurar perda de bicarbonato na urina, é preciso procurar o ácido que entrou. O paciente que a prova escolhe para isso é sempre o mesmo: séptico, cirrótico ou desnutrido, ou seja, hipoalbuminêmico.
  3. 3Chamar de acidose o que é compensação Na acidose metabólica, a PaCO2 baixa não é alcalose respiratória: é a compensação. Na acidose respiratória crônica, o bicarbonato alto não é alcalose metabólica: é a compensação renal. Só o processo primário recebe o nome de acidose ou alcalose, e a expressão alcalose respiratória secundária não existe. Numa lista de alternativas, ela costuma ser plantada exatamente para colher quem decora padrões sem entender a nomenclatura.
  4. 4Usar a fórmula crônica num retentor agudo, ou o contrário PaCO2 de 60 prevê bicarbonato de 26 se a hipercapnia é aguda e de 32 se é crônica. Um paciente com PaCO2 de 60 e bicarbonato de 31 tem compensação praticamente completa se retém CO2 há anos, e tem alcalose metabólica associada se a retenção começou hoje. O mesmo par de números dá dois diagnósticos, e o que decide é o tempo na história — não o número. A compensação renal leva de três a cinco dias para se completar.
  5. 5Aplicar o delta-delta em quem retém CO2 há anos O delta-delta pressupõe que o bicarbonato partiu de 24. No retentor crônico de CO2 ele partiu de 32, porque o rim já o havia elevado para compensar a hipercapnia. Quando esse paciente desenvolve uma acidose de gap alto, a razão sobe acima de 2 por aritmética, e a leitura literal acusa uma alcalose metabólica que não existe. A conta não erra; a premissa é que não se aplica. Gasometria antiga, quando o enunciado a oferece, é o desempate.
  6. 6Confundir acidúria paradoxal com acidose No vômito prolongado, a depleção de potássio empurra hidrogênio para dentro da célula tubular, que passa a secretá-lo com avidez e a reabsorver bicarbonato. O resultado é urina ácida — pH urinário de 5,0 — num paciente francamente alcalótico. Ler esse pH urinário como sinal de acidose inverte todo o raciocínio e leva a prescrever bicarbonato para quem precisa de soro fisiológico e cloreto de potássio.
  7. 7Dar bicarbonato porque o pH está baixo Na acidose de gap alto não existe déficit real de bicarbonato: ele foi consumido tamponando um ácido, e volta sozinho quando a insulina converte os cetoácidos ou a perfusão consome o lactato. O material brasileiro restringe o álcali a pH abaixo de 7,10 na acidose lática, ou abaixo de 7,20 se houver lesão renal aguda KDIGO 2 ou 3, e a pH igual ou menor que 6,90 na cetoacidose. A diretriz de sepse de 2026 foi além e sugere CONTRA o bicarbonato na acidemia lática por hipoperfusão quando o objetivo é melhorar hemodinâmica ou poupar vasopressor.
  8. 8Usar o ânion-gap urinário fora do lugar dele Ele só responde à pergunta intestino ou rim, e só na acidose de ânion-gap plasmático normal. Se houver cetoácidos, hipurato da inalação de tolueno ou grandes doses de penicilinas na urina, esses ânions não dosados empurram o resultado para o campo negativo e simulam uma perda intestinal que não existe. E, em depleção volêmica extrema, com sódio urinário quase zerado, a conta perde o sentido porque falta o cátion que o rim teria de trocar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

pH baixo com PaCO2 elevada indica acidose respiratória. O bicarbonato de 29 mEq/L mostra compensação metabólica renal (retenção de HCO3), típica de processo crônico; porém o pH ainda acidótico (7,30) indica agudização sobre base crônica, coerente com DPOC descompensado. Não é acidose metabólica, pois o distúrbio primário é a hipercapnia (o HCO3 está elevado, não baixo). Não há alcalose respiratória (PaCO2 está alta, não baixa). Não é alcalose metabólica, pois o pH está ácido. Não é misto acidose metabólica+respiratória porque o HCO3 está elevado, refletindo compensação, não acidose metabólica associada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua de memória os cinco passos, na ordem, e as seis fórmulas de compensação com os apelidos: 1,5 mais 8 na acidose metabólica, 0,7 mais 20 na alcalose metabólica, 1 para 10 e 4 para 10 na acidose respiratória aguda e crônica, 2 para 10 e 5 para 10 na alcalose respiratória aguda e crônica. Depois escreva as duas frases que fecham o roteiro: compensação nunca normaliza o pH, de modo que pH normal com bicarbonato ou PaCO2 alterados significa dois distúrbios; e só o processo primário se chama acidose ou alcalose, porque a resposta do outro compartimento se chama compensação. Feche recitando as três contas com suas fórmulas: ânion-gap corrigido pela albumina, delta-delta e ânion-gap urinário.

em 30 dias

Pegue uma gasometria qualquer com sódio, cloro, bicarbonato e albumina e percorra os cinco passos sem consultar, terminando em um nome com sobrenome — por exemplo, acidose metabólica de ânion-gap elevado com alcalose metabólica associada e compensação respiratória adequada. Em seguida, monte de cabeça a tabela dos três tipos de acidose tubular renal começando pelo potássio: alto é tipo 4 com pH urinário abaixo de 5,5; baixo com pH urinário que não desce é tipo 1, com nefrocalcinose e litíase; normal ou baixo com bicarbonato estabilizado entre 15 e 18 e acidificação distal preservada é tipo 2, com Fanconi ao lado. Por último, diga em voz alta os três pares de números que competem entre documentos vigentes e qual enunciado pede qual: alvo de bicarbonato na doença renal crônica, 22 mEq/L no texto brasileiro contra evitar valores abaixo de 18 mmol/L no KDIGO de 2024; limiar de bicarbonato na acidemia grave, 7,10 na régua brasileira contra 7,20 com lesão renal aguda AKIN 2 ou 3 na diretriz de sepse de 2026; e corte do pH urinário para acidose tubular distal, 5,5 no sedimento de rotina contra 5,8 na amostra colhida após 12 horas de jejum.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 64 anos chega ao pronto-socorro depois de quase uma semana vomitando, hipotenso e quase sem urinar. A gasometria vem com pH normal. Conduza o atendimento: percorra os cinco passos em voz alta, calcule o ânion-gap corrigido pela albumina e o delta-delta, peça o cloro urinário antes de escolher a bolsa, e justifique por que bicarbonato não entra nesse paciente. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Distúrbios do equilíbrio ácido-base — Preparatório para provas | OsceLabs