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Lesão renal aguda na UTI e terapia renal substitutiva

Lesão renal aguda no paciente crítico: diagnóstico dinâmico, suporte, indicações e prescrição inicial de terapia renal substitutiva

Creatinina elevada define gravidade, mas não indica diálise sozinha: tendência, diurese, complicações e contexto hemodinâmico orientam cada decisão.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Qual afirmação sobre a terapia de substituição renal no paciente com choque séptico e lesão renal aguda está correta?

02

Como esse tema cai

O capítulo parte da LRA já abordada em Nefrologia e avança para o que decide conduta na UTI: reconhecer precocemente pela creatinina e diurese, separar hipoperfusão de congestão, impedir agressões adicionais, identificar indicações urgentes de terapia renal substitutiva e escolher modalidade, acesso, anticoagulação e dose.

Não se pretende reproduzir toda a fisiopatologia glomerular ou tubular. O foco é o paciente séptico, em choque, ventilado ou exposto a nefrotóxicos, no qual creatinina atrasa, balanço hídrico interfere na medida e causas se sobrepõem. O termo LRA substitui a falsa dicotomia entre 'pré-renal reversível' e 'necrose tubular estabelecida'.

A diretriz KDIGO definitiva disponível permanece a de 2012. A atualização de 2026 citada neste capítulo estava, em setembro de 2026, em revisão pública; ela é usada apenas para sinalizar tendências compatíveis com evidência contemporânea, sempre identificada como minuta e sem substituir o documento vigente.

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O que muda decisão

Defina e estagie antes que a creatinina conte toda a história

LRA existe quando a creatinina sobe 0,3 mg/dL ou mais em 48 horas, alcança pelo menos 1,5 vez o basal em até sete dias, ou a diurese fica abaixo de 0,5 mL/kg/h por seis horas. Estágio 1: creatinina 1,5–1,9 vez o basal ou aumento de 0,3 mg/dL, ou oligúria por 6–12 horas; estágio 2: 2,0–2,9 vezes ou oligúria por 12 horas ou mais; estágio 3: três vezes, creatinina de 4,0 mg/dL ou mais, início de terapia renal substitutiva, diurese abaixo de 0,3 mL/kg/h por 24 horas ou anúria por 12 horas.

Creatinina é marcador tardio e dependente de produção e distribuição. Sarcopenia, hepatopatia e gestação ocultam perda funcional; grande balanço positivo dilui a concentração. A diurese horária pode revelar deterioração antes, mas obstrução da sonda, uso de diurético e erro de registro precisam ser excluídos. Estagie pelos dois critérios e adote o pior estágio.

Quando o basal é desconhecido, procure resultados prévios e reconstrua a trajetória clínica. Retrocalcular creatinina a partir de uma TFG presumida pode ajudar estudos epidemiológicos, mas cria falsa precisão à beira-leito. Uma única creatinina alta não diferencia doença renal crônica de LRA; tamanho renal, anemia, distúrbio mineral, sedimento e evolução ajudam.

Investigue perfusão, congestão, parênquima e obstrução em paralelo

Revise cronologia de choque, cirurgia, contraste, aminoglicosídeo, vancomicina, anti-inflamatório, bloqueio do sistema renina-angiotensina, rabdomiólise e síndrome compartimental. Examine perfusão e também congestão: turgência jugular, edema, hepatomegalia, pressão venosa elevada e disfunção ventricular direita podem reduzir a filtração apesar de pressão arterial aceitável. Administrar volume a toda oligúria congesta pulmões e piora a pressão renal venosa.

Urina tipo 1 e sedimento têm alto rendimento: cilindros granulosos e células tubulares apoiam lesão tubular; hemácias dismórficas e cilindros hemáticos sugerem glomerulonefrite; leucócitos e cilindros leucocitários apontam nefrite intersticial ou pielonefrite; pigmento com poucas hemácias lembra mioglobina. Fração de excreção de sódio abaixo de 1% não prova hipovolemia e perde acurácia com diuréticos, sepse, DRC ou pigmento; a fração de ureia também não encerra o diagnóstico.

Ultrassom exclui hidronefrose e avalia bexiga; deve ser precoce quando há próstata, cálculo, massa pélvica, anúria ou causa incerta. POCUS hemodinâmico integra coração, pulmão e veias, mas diâmetro isolado da cava não mede responsividade a fluidos. Exames imunológicos, eletroforese ou biópsia entram quando a clínica sugere doença parenquimatosa tratável.

Suporte renal é retirar agressões e restaurar fisiologia, não perseguir diurese

Trate imediatamente sepse, hemorragia, baixo débito, obstrução ou hipertensão intra-abdominal. Faça fluidos apenas se houver probabilidade de responsividade e ausência de sinais de intolerância; prefira cristaloide balanceado na maioria das reposições e reavalie após pequenos volumes. Em congestão, a estratégia é descongestiva, mesmo que a creatinina suba discretamente durante tratamento eficaz de insuficiência cardíaca.

Suspenda nefrotóxicos dispensáveis, ajuste doses à função instável e à modalidade de diálise, monitore níveis quando indicado e evite combinações desnecessárias. Controle glicemia sem hipoglicemia, garanta nutrição e não restrinja proteína a ponto de induzir catabolismo. Dopamina em baixa dose e fenoldopam não previnem nem tratam LRA.

Diurético de alça é útil para edema pulmonar e balanço hídrico, não para converter LRA oligúrica em forma benigna nem acelerar recuperação. Uma resposta diurética pode ajudar na avaliação funcional, mas não substitui tendência de clearance. Dose repetida sem resposta atrasa terapia necessária e expõe a ototoxicidade e distúrbios eletrolíticos.

A indicação de terapia renal substitutiva é uma síndrome, não um número

Inicie urgentemente diante de hipercalemia grave refratária, acidemia metabólica ameaçadora apesar do tratamento da causa, edema pulmonar ou sobrecarga hídrica que compromete oxigenação e não responde a diurético, complicações urêmicas como pericardite, encefalopatia ou sangramento, e intoxicações dializáveis selecionadas. A sigla AEIOU ajuda a lembrar, mas cada item exige gravidade, refratariedade e trajetória.

Ureia ou creatinina isoladas não fornecem limiar universal. Considere velocidade de ascensão, catabolismo, balanço acumulado, possibilidade de nutrição e infusões, reserva pulmonar e previsão de recuperação. Ensaios de início acelerado em pacientes sem indicação urgente não demonstraram benefício consistente de mortalidade e expuseram pessoas que poderiam recuperar sem diálise; vigilância ativa não significa esperar uma emergência.

Antes de conectar, defina objetivo: controlar potássio em horas, retirar volume ao longo do dia, corrigir acidose, tratar intoxicação ou substituir função por tempo prolongado. Objetivo explícito determina modalidade, dose, fluxo e ultrafiltração e permite saber se o tratamento funcionou.

A modalidade deve caber na fisiologia e nos recursos

Hemodiálise intermitente oferece depuração rápida e é eficiente na hipercalemia extrema, algumas intoxicações e situações com janela curta, mas mudanças bruscas de osmolaridade e volume podem causar hipotensão. SLED/PIRRT prolonga a sessão, suaviza a retirada e é alternativa em instabilidade moderada. Terapia contínua facilita controle gradual de soluto e balanço em choque e é preferida quando há edema cerebral ou grande risco de variação intracraniana.

Nenhuma modalidade provou superioridade universal em sobrevida. KDIGO sugere terapia contínua em instabilidade hemodinâmica; a minuta 2026 acrescenta diálise peritoneal aguda como opção conforme experiência e contexto. Trocas entre métodos são esperadas conforme o paciente melhora ou piora — modalidade é prescrição dinâmica, não identidade permanente.

Na terapia contínua, CVVHD remove soluto principalmente por difusão, CVVH por convecção e CVVHDF combina mecanismos. A dose entregue é o efluente efetivo; a referência é 20–25 mL/kg/h. Como pausas por filtro, procedimentos e transporte reduzem entrega, costuma-se prescrever cerca de 25–30 mL/kg/h. Doses rotineiramente maiores não melhoram desfechos e aumentam perdas de eletrólitos, nutrientes e fármacos.

Rim sob agressão, sinais de oligúria, hipercalemia e edema pulmonar, conectados a circuito de terapia renal substitutiva contínua.
A indicação nasce das complicações e da trajetória. Na instabilidade, a terapia contínua permite depuração e ultrafiltração graduais; sua dose é medida pelo efluente efetivamente entregue.

Acesso, anticoagulação e ultrafiltração também são tratamento

Use cateter não tunelizado de duplo lúmen. A jugular interna direita costuma oferecer trajeto mais retilíneo e bom fluxo; femoral é opção rápida e aceitável, sobretudo sem obesidade importante. Evite subclávia quando possível pelo risco de estenose que prejudica acesso futuro. Confirme ponta e complicações conforme o sítio antes de uso não emergencial.

Anticoagulação regional com citrato prolonga a vida do filtro e reduz sangramento quando há protocolo e capacidade de monitorar cálcio ionizado sistêmico e pós-filtro. Acúmulo de citrato deve ser suspeitado com aumento da relação cálcio total/ionizado, maior necessidade de cálcio e acidose; alcalose pode ocorrer por metabolismo excessivo. Heparina sistêmica é alternativa quando citrato é contraindicado ou não disponível.

A taxa líquida de ultrafiltração deve ser individualizada. Retirar rapidamente em paciente vasoplégico reduz enchimento e perfusão; retirar pouco em edema pulmonar perpetua ventilação e congestão. Some todas as entradas, estabeleça meta diária e reavalie pressão, perfusão, lactato, refill capilar e congestão. O aparelho pode funcionar perfeitamente enquanto a prescrição prejudica o paciente.

Recuperação e transição precisam de critérios explícitos

Avalie diariamente necessidade de continuar: diurese espontânea, queda da creatinina entre sessões, estabilidade do potássio, bicarbonato e volume indicam recuperação. Interromper é razoável quando o rim mantém homeostase sem suporte; não há um corte único de diurese ou clearance aplicável a todos. Diurético pode mascarar o valor prognóstico da diurese.

Após LRA, reconcilie medicamentos e documente creatinina basal presumida, pico, estágio, etiologia e necessidade de terapia. Reavalie função renal e albuminúria em até três meses — antes nos casos graves — porque mesmo recuperação aparente aumenta risco de DRC, eventos cardiovasculares e nova LRA. Evite que a alta transforme um evento maior em uma linha perdida no prontuário.

04

Da oligúria à prescrição de terapia renal substitutiva

Estagie com creatinina e diurese, procure causas simultâneas e só então decida suporte extracorpóreo pelo conjunto de complicações, tendência e reserva fisiológica.

  1. 1Confirmar diurese e excluir sonda obstruída; comparar creatinina com valores prévios.
  2. 2Estagiar KDIGO e pesquisar perfusão, congestão, sedimento, nefrotóxicos e obstrução.
  3. 3Tratar causa, ajustar fluidos e drogas, controlar potássio, acidose e balanço.
  4. 4Se complicação ameaçadora ou refratária, iniciar terapia; se ausente, vigiar ativamente.
  5. 5Escolher IHD, SLED/PIRRT, CRRT ou PD pela estabilidade, urgência, cérebro, objetivo e recursos.
  6. 6Definir acesso, anticoagulação, dose e ultrafiltração; medir entrega e reavaliar suspensão diariamente.

Diagnóstico

Creatinina +0,3/48 h, ≥1,5 vez/7 d ou diurese <0,5 mL/kg/h/6 h.

Diálise

Complicação, refratariedade e trajetória; nunca creatinina isolada.

CRRT

Efluente entregue 20–25 mL/kg/h e ultrafiltração guiada pela tolerância.

Modalidades no paciente crítico

ModalidadeForçaLimitaçãoMelhor encaixe
IHDDepuração rápidaHipotensão e oscilação osmóticaHipercalemia/intoxicação e estabilidade
SLED/PIRRTSessão prolongada e flexívelDemanda máquina/equipe por horasInstabilidade moderada
CRRTControle contínuo e gradualCusto, anticoagulação e imobilidadeChoque ou risco neurológico
PD agudaSem acesso vascular e recursos simplesMenor controle em certos catabolismosContextos selecionados e equipe experiente

Oligúria pode anteceder a creatinina, mas confirme sonda, peso e registro.

Diurético trata sobrecarga, não a lesão renal em si.

KDIGO 2026 é minuta em revisão pública; KDIGO 2012 permanece a diretriz definitiva.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Início acelerado versus vigilância ativa

KDIGO 2012

Iniciar emergencialmente em alterações ameaçadoras de volume, eletrólitos ou equilíbrio ácido-base; considerar contexto e tendência, não limiares isolados.

KDIGO AKI Guideline, 2012.

Evidência contemporânea

Estratégias aceleradas sem indicação urgente não mostraram benefício consistente e aumentaram exposição desnecessária.

STARRT-AKI e síntese KDIGO em atualização.

Na prova

Sem hipercalemia, acidemia, edema pulmonar, uremia ou intoxicação ameaçadores, não se inicia terapia apenas porque o paciente atingiu KDIGO 3. A alternativa correta descreve vigilância estreita e gatilhos predefinidos, não abandono.

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Caso resolvido

Homem de 67 anos com choque séptico, ventilado, recebeu 6 litros em 24 horas. Creatinina subiu de 1,0 para 3,1 mg/dL, diurese 0,15 mL/kg/h, potássio 6,7 mEq/L apesar de cálcio, insulina com glicose e beta-agonista. Apresenta edema pulmonar, noradrenalina 0,35 µg/kg/min e acidemia progressiva.
estágio
LRA KDIGO 3 pelos critérios de creatinina e diurese.
indicação
Hipercalemia refratária, sobrecarga com repercussão pulmonar e acidemia configuram indicação urgente; não é o 3,1 isolado.
modalidade
Terapia contínua favorece correção e retirada gradual diante de vasopressor elevado; IHD seria mal tolerada.
prescrição
Acesso adequado, citrato se possível, efluente entregue 20–25 mL/kg/h e ultrafiltração inicialmente conservadora, reavaliada pela perfusão e congestão.
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Agora feche você

Mulher de 58 anos, após cirurgia abdominal, creatinina de 0,8 para 2,2 mg/dL e oligúria há 14 horas. Potássio 4,8 mEq/L, bicarbonato 20 mEq/L, sem edema pulmonar ou sintomas urêmicos. Ultrassom sem obstrução; está estável após controle do foco e responde a elevação passiva das pernas apenas com 4% de aumento do volume sistólico.
classificação
LRA KDIGO 2 por creatinina e diurese, sem indicação urgente de terapia.
próximo passo
Não fazer volume cego nem diálise acelerada: revisar balanço, drogas, sedimento e congestão e monitorar gatilhos clínicos e laboratoriais.
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Onde a banca derruba

  1. 1Indicar diálise por uma creatinina alta O valor estagia gravidade, mas a indicação depende de complicações, tendência e contexto.
  2. 2Dar volume para toda oligúria Congestão venosa também causa LRA; mais volume pode piorar rim e pulmão.
  3. 3Chamar FeNa baixa de prova de pré-renal Sepse, contraste, pigmento, DRC e diuréticos quebram essa equivalência.
  4. 4Usar furosemida para recuperar rim Ela controla volume; não reduz lesão nem substitui terapia indicada.
  5. 5Prescrever CRRT em alta dose Acima de 20–25 mL/kg/h entregues não há ganho rotineiro e aumentam perdas.
  6. 6Escolher modalidade e nunca reavaliar Choque, cérebro, catabolismo e mobilidade mudam; a prescrição deve acompanhar.
  7. 7Dar alta sem plano pós-LRA O evento aumenta risco de DRC e recorrência mesmo com creatinina aparentemente normal.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A decisão de dialisar se apoia em indicações clínicas e metabólicas, e o início muito precoce baseado apenas no valor da creatinina não demonstrou benefício. Iniciar pela creatinina engana quem quer agir cedo, mas expõe o paciente a acesso vascular, anticoagulação e instabilidade hemodinâmica em muitos casos que se recuperariam sem diálise.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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