Clínica MédicaMedicina Intensiva e Emergências

Sedoanalgesia e delirium na UTI

Dor vem antes do sedativo; sedação tem alvo mensurável; delirium é disfunção orgânica aguda e raramente se resolve com uma prescrição automática de antipsicótico.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Antes de iniciar bloqueio neuromuscular contínuo em paciente ventilado, qual cuidado é imprescindível?

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Como esse tema cai

O recorte é o adulto internado em UTI, sobretudo em ventilação mecânica. O capítulo integra dor, ansiedade, sedação, despertar, delirium, mobilidade, sono e participação da família no bundle ABCDEF. A meta é ensinar a escolher e revisar, não decorar uma infusão isolada.

Ficam fora sedação para procedimento curto, anestesia geral, abstinência grave como tema autônomo e cuidados paliativos exclusivos. Delirium por abstinência, status epiléptico, hipertensão intracraniana e bloqueio neuromuscular aparecem como exceções que justificam metas ou fármacos diferentes.

A atualização PADIS de 2025 é uma atualização focal: não substitui todo o documento de 2018. Ela acrescenta recomendações condicionais, inclusive preferência por dexmedetomidina sobre propofol quando sedação leve e redução de delirium são prioridades máximas; não autoriza concluir que dexmedetomidina é melhor para todos.

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O que muda decisão

Analgesia primeiro: agitação pode ser dor não tratada

Quem comunica usa escala numérica de dor. Quem não comunica deve ser avaliado com instrumento comportamental validado, como BPS ou CPOT; taquicardia, hipertensão e expressão facial isoladas são pistas, não escalas. Tubo, dreno, aspiração, imobilidade e procedimentos produzem dor mesmo em paciente que não consegue pedir ajuda.

A estratégia analgosedativa trata dor antes de aumentar hipnótico. Fentanil tem início rápido e estabilidade hemodinâmica relativa, mas acumula com infusão prolongada e produz rigidez em bolus alto; remifentanil é ultracurto onde disponível; morfina libera histamina e seus metabólitos acumulam na insuficiência renal. Paracetamol e medidas regionais ou não farmacológicas poupam opioide quando apropriados.

Escalonar propofol para um paciente que luta contra o ventilador por dor pode apagar o comportamento sem tratar o problema. Antes de qualquer bolus, cheque dor, tubo dobrado, retenção urinária, distensão, hipoxemia, febre, abstinência e configuração do ventilador.

Sedação é uma prescrição com alvo e prazo

A RASS vai de +4, combativo, a -5, sem resposta. Na maioria dos ventilados, sedação leve — frequentemente RASS 0 a -2 — permite interação, exame neurológico, mobilização e desmame. O alvo deve constar na prescrição e ser reavaliado; escrever apenas 'propofol contínuo' é uma prescrição incompleta.

Sedação profunda é justificável em situações selecionadas: bloqueio neuromuscular, prona com risco de perda de dispositivo, hipertensão intracraniana não controlada, status epiléptico, hipoxemia ou assincronia grave apesar de otimização. Ela deve durar o mínimo necessário e retornar ao alvo leve quando a indicação desaparecer.

Interrupção diária da sedação e protocolo de sedação guiado por alvo são caminhos para evitar acúmulo. O teste de despertar espontâneo não é aplicado mecanicamente quando há convulsão ativa, bloqueio, isquemia instável ou outra contraindicação; quando seguro, ele se conecta ao teste de respiração espontânea.

Escolher o sedativo pela fisiologia e pelo objetivo

Propofol permite titulação rápida e despertar previsível, mas causa hipotensão, hipertrigliceridemia e, em dose alta prolongada, síndrome de infusão com acidose, rabdomiólise e colapso cardiovascular. Calorias do veículo lipídico contam na nutrição. É útil quando se deseja controle profundo ou neurológico, desde que a pressão tolere.

Dexmedetomidina produz sedação cooperativa e pouca depressão respiratória, favorecendo fase de desmame e avaliação. Bradicardia e hipotensão limitam; não é fármaco para sedação profunda intensa. A PADIS 2025 sugere dexmedetomidina em vez de propofol quando sedação leve e/ou redução de delirium são prioridades máximas — recomendação condicional, não hierarquia universal.

Benzodiazepínicos aumentam risco de delirium e acumulam, sobretudo midazolam em disfunção renal/hepática. Ainda são corretos em abstinência alcoólica ou benzodiazepínica, status epiléptico e indicações específicas. Transformar 'evitar rotina' em 'nunca usar' é erro tão grande quanto escolhê-los por hábito.

Delirium é flutuação de atenção e consciência

Delirium surge em horas ou dias, flutua e combina desatenção com alteração do nível de consciência ou pensamento desorganizado. A forma hipoativa — quietude, lentidão, pouca interação — é mais fácil de perder e não é benigna. Demência é declínio crônico; ambas podem coexistir, e mudança aguda sobre demência é delirium até prova em contrário.

Rastreie ao menos uma vez por turno com CAM-ICU ou ICDSC, depois de medir nível de sedação. Um paciente em RASS -4 ou -5 não pode ser avaliado adequadamente: registra-se incapacidade temporária, reduz-se sedação quando possível e testa-se depois. O diagnóstico é clínico; tomografia não é exame de rotina sem foco neurológico.

Procure causas em paralelo: hipóxia, infecção, choque, distúrbio metabólico, dor, abstinência, retenção urinária, constipação, privação de sono e medicamentos anticolinérgicos, benzodiazepínicos ou opioides. Delirium é frequentemente multifatorial; encontrar infecção não autoriza parar a busca.

Prevenir e tratar delirium é reorganizar a UTI

O bundle ABCDEF integra: avaliar/prevenir/tratar dor; testes de despertar e respiração espontânea; escolha de analgesia e sedação; rastreio e manejo de delirium; mobilidade precoce; engajamento da família. Luz diurna, redução de ruído noturno, relógio e calendário, reorientação, óculos, aparelho auditivo, mobilização e evitar restrições desnecessárias atuam no mecanismo.

A atualização PADIS 2025 sugere mobilização/reabilitação intensificada e melatonina de forma condicional. Isso não significa mobilizar um paciente instável nem prescrever melatonina como substituto do bundle. Segurança hemodinâmica, respiratória e de dispositivos é checada antes, mas a presença de tubo não proíbe mobilização.

Antipsicóticos não demonstraram encurtar delirium de forma consistente; a PADIS 2025 não pôde recomendar a favor ou contra seu uso terapêutico de rotina. Podem ser considerados por curto prazo quando agitação perigosa ameaça o paciente ou impede cuidado essencial, após tratar causas, checando QT, parkinsonismo e efeitos extrapiramidais. Não se trata delirium hipoativo com haloperidol automático.

Desmame começa quando o sedativo entra

Toda infusão deve responder: por que, para qual RASS, como medir dor, quando reduzir e qual sinal impede o despertar. A dose necessária muda com choque, idade, obesidade, disfunção renal/hepática e interação. Bolus repetidos sem registrar alvo produzem oscilação entre agitação e coma.

Acordar e respirar são testes coordenados. Se o paciente tolera despertar, avalie prontidão para respiração espontânea; se falha, trate a causa e retorne ao menor suporte necessário. A extubação depende de proteção de via aérea, secreção e força, não apenas de uma gasometria bonita.

Paciente ventilado comparado em sedação leve diurna com mobilização e participação familiar versus sedação profunda e desorganização do ciclo sono-vigília.
Sedação leve não é ausência de cuidado: é analgesia adequada, alvo mensurado, comunicação, mobilidade, sono protegido e família. A sedação profunda só permanece enquanto houver uma indicação explícita.

Agitação perigosa: controlar sem abandonar o diagnóstico

Na agitação que ameaça extubação ou equipe, segurança vem primeiro: chamar ajuda, corrigir oxigenação, avaliar glicose, dor e dispositivos, conter pelo menor tempo e administrar fármaco titulado. Depois do controle inicial, a investigação precisa continuar; sedação não é diagnóstico.

Dexmedetomidina pode ajudar quando agitação impede desmame/extubação e se deseja preservar ventilação. Propofol é mais apropriado para controle rápido e profundo em ventilado, com vigilância da pressão. Benzodiazepínico é prioridade na abstinência; antipsicótico é opção sintomática selecionada, não tratamento etiológico universal.

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Do comportamento ao plano diário de liberação

A ordem correta evita que todo desconforto vire mais sedativo: medir dor, medir consciência, buscar causa, definir alvo e conectar despertar à respiração e mobilidade.

  1. 1MEÇA DOR: escala numérica se comunica; BPS/CPOT se não comunica. Trate dor e causas mecânicas.
  2. 2MEÇA SEDAÇÃO: registre RASS e compare com o alvo prescrito, geralmente 0 a -2.
  3. 3AGITAÇÃO OU COMA FORA DO ALVO: procure hipóxia, choque, glicose, abstinência, retenção, constipação, fármacos e ventilador.
  4. 4RASTREIE DELIRIUM: CAM-ICU ou ICDSC quando o nível de sedação permite.
  5. 5ESCOLHA FÁRMACO: propofol para titulação rápida; dexmedetomidina para sedação cooperativa; benzodiazepínico para indicações específicas.
  6. 6EXECUTE ABCDEF: despertar, respiração espontânea, mobilidade, sono e família, com critérios de segurança.
  7. 7REAVALIE DIARIAMENTE: ainda existe indicação de sedação profunda, cateter, restrição ou ventilação?

Dor

Trate antes de aumentar hipnótico; comportamento pode ser a única linguagem.

RASS

Sedação sem alvo é prescrição incompleta; a maioria fica em 0 a -2.

Delirium

Rastreio estruturado e busca multifatorial; antipsicótico não é rotina.

Sedativos: perfil que decide a escolha

FármacoVantagemLimitaçãoCenário típico
PropofolInício e despertar rápidosHipotensão, triglicerídeos, síndrome de infusãoControle titulável, inclusive sedação profunda
DexmedetomidinaSedação cooperativa e pouca depressão respiratóriaBradicardia, hipotensão, profundidade limitadaSedação leve e fase de desmame
MidazolamAnticonvulsivante e útil na abstinênciaAcúmulo e deliriumIndicação específica, não rotina
FentanilAnalgesia rápida e estabilidade relativaAcúmulo, íleo e depressão respiratóriaDor e analgosedação

RASS -4/-5 impede CAM-ICU confiável naquele momento.

Paralisia exige analgesia e sedação contínuas, mesmo sem movimento.

A atualização PADIS 2025 é focal e suas recomendações são condicionais.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Dexmedetomidina versus propofol

PADIS 2025

Preferência condicional por dexmedetomidina no contexto específico de sedação leve/redução de delirium.

SCCM Focused Update PADIS, 2025.

PADIS 2018

Propofol ou dexmedetomidina são preferidos a benzodiazepínicos para muitos ventilados.

SCCM PADIS, 2018.

Na prova

A PADIS 2025 sugere dexmedetomidina sobre propofol apenas quando sedação leve e/ou redução de delirium são prioridades máximas. Para sedação profunda, controle neurológico ou necessidade de titulação muito rápida, propofol continua apropriado. A palavra 'sempre' torna a alternativa errada.

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Caso resolvido

Homem de 74 anos, ventilado por pneumonia, recebe midazolam e fentanil há quatro dias. Está em RASS -4, sem vasopressor e com FiO2 30%. À noite alterna sonolência e agitação. Não usa óculos nem aparelho auditivo na UTI; está constipado e com retenção urinária.
problema
Sedação excessiva e múltiplos precipitantes de delirium; CAM-ICU não é interpretável em RASS -4.
primeiro
Tratar retenção, constipação e dor; devolver óculos/aparelho, reorientar e reorganizar sono.
sedação
Suspender/reduzir benzodiazepínico, definir alvo 0 a -2 e realizar despertar quando seguro; trocar para agente titulável apenas se ainda necessário.
liberação
Conectar despertar a teste de respiração espontânea e mobilização. Antipsicótico não é rotina para a flutuação sem agitação perigosa.
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Agora feche você

Mulher de 52 anos, ventilada por SDRA, já sem bloqueio neuromuscular e fora da prona, mantém propofol alto com RASS -5. Pressão estável, oxigenação em melhora e nenhuma convulsão ou hipertensão intracraniana.
achado
A indicação inicial de sedação profunda desapareceu; RASS -5 agora é excesso, não meta.
conduta
Reduzir sedação para alvo leve, avaliar dor, realizar teste de despertar e, se tolerado, teste de respiração espontânea e mobilização.
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar agitação com sedativo antes de procurar dor A droga pode apagar o comportamento e manter tubo, retenção ou isquemia sem tratamento.
  2. 2Prescrever infusão sem RASS-alvo Sem alvo, ninguém sabe se o paciente está controlado ou excessivamente sedado.
  3. 3Diagnosticar delirium em RASS -5 Coma impede teste válido. Primeiro documente o nível e reduza sedação quando seguro.
  4. 4Usar benzodiazepínico como sedativo padrão Acúmulo e delirium tornam propofol ou dexmedetomidina preferíveis na maioria, salvo indicação específica.
  5. 5Prescrever haloperidol para todo CAM-ICU positivo Não há benefício consistente em duração; trate causas e bundle, reservando antipsicótico a agitação perigosa selecionada.
  6. 6Achar que tubo impede mobilização Com critérios de segurança e equipe, ventilados podem sentar, ortostatizar e caminhar.
  7. 7Manter sedação profunda porque ontem havia prona A indicação precisa ser reavaliada; quando desaparece, o alvo volta a ser leve.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O bloqueador paralisa sem alterar a consciência, e usá-lo com sedação insuficiente significa manter o paciente acordado e imóvel, com dor e sofrimento, além de resposta adrenérgica intensa. Reduzir a sedação para avaliar o exame neurológico engana quem valoriza a monitorização clínica, mas com o paciente paralisado esse exame é impossível e o resultado é apenas sofrimento silencioso. Ventilação espontânea é incompatível com bloqueio pleno.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Explique por que dor vem antes do sedativo, quando a RASS impede CAM-ICU e em quais exceções benzodiazepínico é correto.

em 30 dias

Reconstrua o ABCDEF e compare propofol, dexmedetomidina e midazolam por alvo, hemodinâmica, delirium e desmame.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Paciente ventilado fica agitado e tenta retirar o tubo. Conduza os primeiros cinco minutos separando segurança imediata, dor/causa reversível, meta de RASS e escolha farmacológica. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Sedoanalgesia e delirium na UTI — Preparatório para provas | OsceLabs