Clínica MédicaMedicina Intensiva e Emergências

Reposição volêmica e fluidoterapia

Reposição volêmica, fluidoterapia e distúrbios da desidratação

Qual solução, quanto volume, por qual via — e quando parar

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 34 anos, vítima de acidente de moto, chega ao pronto-socorro com traumatismo cranioencefálico e escala de coma de Glasgow de 7, além de fratura de fêmur e pressão arterial 88/56 mmHg. Considerando a escolha do fluido de ressuscitação, qual conduta é a mais apropriada?

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Como esse tema cai

Soro é o item mais prescrito da medicina e o menos conferido. A prova sabe disso e cobra o tema por três portas. A primeira é a porta da composição: qual bolsa tem quanto de cada íon, para onde ela vai depois de infundida e por que soro glicosado não ressuscita ninguém. A segunda é a porta do número: cada protocolo brasileiro tem o seu, e eles não coincidem — 10 mL/kg na primeira hora na dengue do grupo C, 20 mL/kg em até 20 minutos no grupo D, 30 mL/kg em 30 minutos no plano C da diarreia do adulto, pelo menos 30 mL/kg nas primeiras três horas na sepse. A terceira é a porta do freio: quando parar, como saber que mais volume não vai ajudar, e por que o balanço positivo acumulado é um desfecho, não um detalhe de enfermagem.

A espinha deste capítulo é uma só: líquido intravenoso é fármaco, com dose, via, duração e efeito adverso. Quem trata a bolsa como veículo inerte erra nos dois sentidos — nega volume a quem está hipoperfundido porque o prontuário diz insuficiência cardíaca, e mantém dois litros por dia correndo em quem já come, já bebe e já está edemaciado. As duas condutas aparecem como alternativa na mesma questão, e a que separa uma da outra é a reavaliação entre alíquotas, não a régua decorada.

Ficam fora daqui o que tem capítulo próprio e é cobrado por inteiro nele: os distúrbios do sódio e do potássio, o equilíbrio ácido-base, o pacote da primeira hora da sepse, a classificação do choque hemorrágico e a hipotensão permissiva do trauma, a fórmula de Parkland do queimado, a reposição da cetoacidose diabética e os planos A, B e C da diarreia aguda. Aqui esses protocolos entram como linhas de uma mesma tabela — para mostrar que a régua muda com a cena e que o examinador escolhe a cena de propósito.

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O que muda decisão

Volume ou tonicidade: a pergunta que vem antes da bolsa

Duas coisas diferentes se escondem sob a palavra desidratação, e a conduta muda conforme qual delas está na frente. Perda de volume é perda de líquido isotônico do compartimento extracelular — vômito, diarreia, hemorragia, terceiro espaço, poliúria osmótica. O que falta é volume circulante; o sódio pode estar perfeitamente normal; o tratamento é repor líquido com sódio semelhante ao do plasma. Perda de água livre é outra história: falta água sem sal proporcional, o sódio sobe, e o tratamento é dar água — pela boca, por sonda, ou como glicosado na veia. O paciente clássico do primeiro caso é o que teve diarreia por dois dias; o do segundo é o idoso acamado que ninguém ofereceu copo.

Os dois coexistem com frequência, e a ordem de tratamento é fixa: primeiro o volume, depois a tonicidade. Um paciente hipovolêmico e hipernatrêmico recebe cristaloide isotônico enquanto estiver hipoperfundido, porque perfusão não espera. A correção do sódio, com o seu teto de velocidade próprio, começa quando a circulação já está sustentada. Inverter essa ordem — abrir soro glicosado em quem está com pulso fino e extremidade fria porque o sódio veio 158 — é uma das alternativas erradas mais frequentes do tema, e ela erra duas vezes: não expande o intravascular e ainda derruba a osmolalidade depressa.

Antes de escolher a bolsa, três indicações precisam ser separadas, porque têm dose, velocidade e alvo diferentes. Ressuscitação é volume rápido para restaurar perfusão, medido em mL/kg e minutos. Manutenção é o líquido diário de quem não pode beber, medido em mL/kg/dia, e vem obrigatoriamente com eletrólito. Reposição é a devolução do que continua saindo por sonda, dreno, ostomia, diarreia ou febre, medida no que foi perdido no dia anterior. Uma prescrição que mistura as três num único frasco genérico não acerta nenhuma delas.

A quarta pergunta é a que mais economiza dano: este paciente precisa mesmo de veia? Quem bebe, come e urina não precisa de soro — precisa de copo, de registro do que ingeriu e de tratamento da náusea que está impedindo a via oral. A via digestiva é a única que regula a absorção; a veia entrega tudo o que a bomba mandar, inclusive o que sobra.

Onde a bolsa vai parar: a conta que explica todo o resto

A água do corpo está repartida em compartimentos com tamanhos conhecidos: o líquido intracelular equivale a cerca de 40% do peso corporal, o extracelular a cerca de 20%, e dentro do extracelular o plasma responde por cerca de 5% do peso e o interstício por cerca de 12%. Num homem de 70 kg, isso dá aproximadamente 28 L dentro das células, 14 L fora delas, 3,5 L de plasma e 8,4 L de interstício.

Dessas frações sai o número que decide a escolha da solução na emergência. Um cristaloide isotônico não entra na célula: ele se distribui pelo extracelular inteiro. Como o plasma é 5 das 20 partes desse compartimento, ele fica com um quarto do que foi infundido — de 1.000 mL de soro fisiológico, cerca de 250 mL permanecem no intravascular, e os outros 750 mL vão para o interstício. Já o soro glicosado a 5% é água livre disfarçada: a glicose é metabolizada e sobra água, que se distribui pela água corporal total, 60% do peso. O plasma fica com 5 das 60 partes, ou seja, cerca de 8% — de 1.000 mL de glicosado, algo em torno de 83 mL sustentam a circulação.

É por isso que soro glicosado não é fluido de ressuscitação e nunca é a resposta certa numa questão de choque: precisaria de doze litros para entregar ao plasma o que um litro e pouco de cristaloide isotônico entrega, e os outros onze iriam inchar células, inclusive as do encéfalo. E é por isso que a resposta ao volume, quando existe, é rápida e transitória: a maior parte do que entra sai do vaso em minutos a horas. O edema que aparece no terceiro dia de reposição não é complicação inesperada — é a fração de três quartos cumprindo a fisiologia.

A mesma conta explica o efeito colateral de um teto: em quem tem barreira endotelial lesada, como no séptico e no dengue grave, a fração que fica no vaso é ainda menor e a que vai para o interstício é maior. Repetir alíquotas sem reavaliar, nesses pacientes, é encher o interstício sem levantar o débito.

Três bolsas de um litro distribuindo seu conteúdo de forma diferente entre os compartimentos corporais, com quadrados proporcionais comparando quanto de cada litro permanece no compartimento menor.
Do mesmo litro, o cristaloide isotônico deixa cerca de um quarto no plasma e o glicosado a 5%, menos de um décimo — a diferença não é de rótulo, é de compartimento de distribuição.

As soluções do elenco brasileiro, número por número

A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista, no componente básico, o cloreto de sódio a 9 mg/mL (0,9%), equivalente a 0,154 mEq/mL; o cloreto de sódio a 200 mg/mL (20%), equivalente a 3,4 mEq/mL; o cloreto de potássio a 191 mg/mL (19,1%), equivalente a 2,56 mEq/mL; e a solução de Ringer com lactato, descrita pela composição em massa — lactato de sódio 3 mg/mL, cloreto de sódio 6 mg/mL, cloreto de potássio 0,3 mg/mL e cloreto de cálcio 0,2 mg/mL. Esse é o arsenal que existe de fato na farmácia do SUS, e vale conhecer os dois primeiros pela conta que eles permitem.

Soro fisiológico a 0,9% carrega 154 mEq/L de sódio e 154 mEq/L de cloreto, e nada mais: 308 mOsm/L. O sódio está acima da faixa do plasma; o cloreto, muito acima — o plasma normal tem entre 98 e 106 mEq/L. Essa é a origem do problema clínico da salina em grande volume: cada litro entrega quase 50 mEq de cloreto a mais do que o plasma tem, e a carga de cloreto reduz a diferença de íons fortes, produzindo acidose metabólica com ânion-gap normal. Não é curiosidade de gasometria — é a razão pela qual o paciente que recebeu quatro litros de salina aparece acidótico sem sepse nova.

A composição da solução de Ringer com lactato sai da lista da Rename com aritmética simples. Os 6 mg/mL de cloreto de sódio dão 102,7 mEq/L de sódio e de cloreto; os 3 mg/mL de lactato de sódio acrescentam 26,8 mEq/L de sódio e a mesma quantidade de lactato; os 0,3 mg/mL de cloreto de potássio dão 4,0 mEq/L de potássio; e os 0,2 mg/mL de cloreto de cálcio di-hidratado dão 2,7 mEq/L de cálcio. Somando: sódio 130, potássio 4, cálcio 2,7, cloreto 109 e lactato 27 mEq/L, com osmolaridade calculada em torno de 271 mOsm/L. São exatamente os números do cartão clássico — e eles agora vêm com procedência.

Três consequências práticas saem desses números, e todas as três já foram enunciado de prova. Primeira: o Ringer é levemente hipotônico em relação ao plasma, e é por isso que ele sai da lista de primeira escolha no traumatismo cranioencefálico, em que a prioridade é não baixar a osmolalidade do soro. Segunda: o Ringer contém cálcio, e cálcio precipita com ceftriaxona e quela o citrato do hemocomponente — daí as duas incompatibilidades que se decoram. Terceira: os 4 mEq/L de potássio do Ringer assustam quem vê hipercalemia no laudo, mas a salina em volume alto tende a subir o potássio medido pela acidose hiperclorêmica que produz, deslocando potássio de dentro para fora da célula. O reflexo de trocar Ringer por salina no hipercalêmico erra pelo lado que ninguém confere.

Balanceado ou salina: o que os ensaios mostraram, e o que ainda decidem

O maior ensaio já feito sobre a pergunta é brasileiro. O BaSICS randomizou 11.052 pacientes em 75 unidades de terapia intensiva do país para receber solução balanceada (Plasma-Lyte 148) ou soro fisiológico a 0,9% em todos os fluidos intravenosos; 10.520 entraram na análise. Em 90 dias, morreram 26,4% no grupo balanceado e 27,2% no grupo salina, com razão de risco ajustada de 0,97 (IC 95% 0,90 a 1,05; p = 0,47). A conclusão dos autores é literal: os achados não sustentam o uso dessa solução balanceada.

Dois detalhes do BaSICS explicam por que ele não encerrou o assunto. A mediana de fluido do estudo recebida no primeiro dia foi de apenas 1,5 litro, e quase metade da amostra era de admissão cirúrgica programada — pouco volume e baixa gravidade reduzem a chance de a composição importar. Os próprios autores listam entre as limitações que o ensaio testou uma solução específica e que não está claro se soluções com outros tampões, como o lactato, dariam o mesmo resultado. A observação pesa no Brasil: o balanceado do elenco básico da Rename 2024 é a solução de Ringer com lactato, de tampão diferente do que foi testado.

A síntese que organiza o campo é a metanálise de Hammond e colaboradores, publicada em 2022, com 13 ensaios randomizados e 35.884 participantes; dos seis ensaios com baixo risco de viés, somando 34.450 pacientes, o risco relativo de morte em 90 dias com balanceado foi de 0,96 (IC 95% 0,91 a 1,01), e a análise bayesiana com priores vagas atribuiu 89,5% de probabilidade a que o balanceado reduza mortalidade. Traduzindo para linguagem de prova: o efeito plausível vai de 9% de redução relativa a 1% de aumento — provavelmente benéfico, seguramente pequeno, e não é ele que decide o desfecho do seu paciente.

Como o efeito médio é pequeno, o que decide na questão são as situações particulares em que a diferença de composição deixa de ser sutil. Volume alto e prolongado, ou acidose hiperclorêmica já instalada, empurram para o balanceado, porque o problema é a carga de cloreto. Traumatismo cranioencefálico empurra para a salina, porque a prioridade é tonicidade e o Ringer é hipotônico — e o próprio BaSICS registrou sinal de possível dano no subgrupo com traumatismo cranioencefálico alocado ao balanceado, com pior componente neurológico do escore de disfunção no sétimo dia, achado que os autores classificam como gerador de hipótese. Alcalose metabólica hipoclorêmica — a do vômito de repetição e a da estenose de piloro — empurra para a salina, que é justamente a solução que devolve cloreto. E hipercalemia grave empurra para o balanceado, apesar do potássio na bolsa, pela acidose que a salina produz.

Coloides: onde a albumina ainda vale e onde o amido não vale

A promessa do coloide é permanecer no vaso em vez de vazar para o interstício. O ensaio que testou a promessa em desfecho duro foi o SAFE, com 6.997 pacientes de terapia intensiva randomizados para albumina a 4% ou salina: 726 mortes contra 729, risco relativo de 0,99 (IC 95% 0,91 a 1,09; p = 0,87), sem diferença em disfunção de órgãos, dias de ventilação, de diálise, de unidade intensiva ou de hospital. Na população geral do doente crítico, portanto, albumina não é melhor — é apenas mais cara.

O seguimento pós-hoc do mesmo ensaio nos pacientes com traumatismo cranioencefálico é o que transforma a neutralidade em contraindicação. Dos 460 seguidos por 24 meses, morreram 33,2% dos que receberam albumina contra 20,4% dos que receberam salina (risco relativo 1,63; IC 95% 1,17 a 2,26; p = 0,003); no subgrupo com lesão grave, escala de coma de Glasgow de 3 a 8, foram 41,8% contra 22,2% (risco relativo 1,88; IC 95% 1,31 a 2,70; p < 0,001). A diferença absoluta de 19,6 pontos percentuais significa uma morte adicional a cada cerca de cinco pacientes com traumatismo cranioencefálico grave ressuscitados com albumina em vez de salina — o mesmo eixo de tonicidade que reaparece pela terceira vez neste capítulo.

O hidroxietilamido percorreu o caminho contrário ao da promessa. A bula brasileira do produto o contraindica na sepse e no paciente crítico, e a nota técnica de 2023 do núcleo de avaliação de tecnologias do Hospital Universitário da UFSCar, ao examinar o pedido de incorporação da solução a 6%, concluiu que não há evidência de superioridade sobre o cristaloide em procedimentos cirúrgicos, que ambas as soluções são eficazes no manejo da hipovolemia e que os coloides se associam a maior risco de sangramento — e sugeriu a não incorporação. Amido no séptico, no queimado e no renal é alternativa errada por definição, não por preferência.

Sobram indicações estreitas e bem definidas para a albumina, e todas elas têm documento nomeando a dose. No dengue grave com choque que persiste depois de reposição adequada e com hematócrito em ascensão, o manual do Ministério da Saúde manda usar expansor plasmático — albumina 0,5 a 1 g/kg —, e ensina a preparar a solução a 5% misturando 25 mL de albumina a 20% com 75 mL de soro fisiológico para cada 100 mL. As indicações do cirrótico — paracentese de grande volume, peritonite bacteriana espontânea, síndrome hepatorrenal — pertencem ao capítulo de cirrose e obedecem a doses próprias, em gramas por quilo, que não se transportam para outros cenários.

Reconhecer e graduar a desidratação no adulto

O quadro de avaliação do estado de hidratação do Ministério da Saúde organiza o exame em três verbos e é o instrumento que a prova reproduz. Observe: estado geral (ativo e alerta; irritado e intranquilo; comatoso, hipotônico, letárgico ou inconsciente), olhos (sem alteração; fundos), sede (sem sede; sedento, bebe rápido e avidamente; não é capaz de beber), lágrimas, boca e língua, e o sinal da prega abdominal (desaparece imediatamente; lentamente; muito lentamente, mais de 2 segundos). Explore: pulso (cheio; fraco ou ausente) e perda de peso (sem perda; até 10%; acima de 10%). Decida: sem sinais, dois ou mais sinais, ou dois ou mais sinais com ao menos um dos destacados — os que marcam gravidade são a alteração do sensório, a incapacidade de beber e o pulso fraco ou ausente.

Duas regras de leitura vêm impressas no próprio quadro e resolvem questão. A primeira é a hierarquia das variáveis: o documento assinala estado geral, olhos, sede, prega abdominal e perda de peso como as de maior relação de sensibilidade e especificidade segundo a Organização Mundial da Saúde. A segunda é a regra de desempate: havendo dúvida entre desidratação e desidratação grave, estabelece-se o plano do pior cenário. Alternativa que manda observar mais um pouco diante da dúvida está contrariando a instrução escrita.

A perda de peso é a medida que ancora tudo. Desidratação grave é perda acima de 10% do peso corporal — num adulto de 70 kg, mais de 7 litros de déficit. Não é coincidência que o esquema endovenoso completo da desidratação grave some 100 mL/kg, que é exatamente 10% do peso: o plano foi construído para devolver o déficit estimado. Entender isso dispensa decorar: o volume total é o déficit, e o que muda entre faixas etárias é apenas o tempo em que ele entra.

O laboratório entra depois do exame e não o substitui. Ureia desproporcionalmente elevada em relação à creatinina, densidade urinária alta, sódio urinário baixo e fração de excreção de sódio abaixo de 1% apontam para causa pré-renal por hipovolemia — mas todos perdem valor em quem usa diurético, e nenhum deles decide sozinho iniciar ou suspender volume. Hematócrito e albumina sobem por hemoconcentração e servem para acompanhar a resposta; lactato elevado é marcador de hipoperfusão, não de volume, e pode estar alto por outras causas.

Quanto infundir, e como saber que funcionou

A unidade da ressuscitação não é o litro, é a alíquota. Infunde-se uma quantidade definida em tempo definido, reavalia-se, e só então se decide pela próxima. O que se reavalia são sinais de perfusão e sinais de congestão ao mesmo tempo: enchimento capilar, temperatura e cor de extremidade, nível de consciência, diurese, pressão arterial, ausculta de bases, turgência jugular e conforto respiratório. Uma alíquota que melhorou a perfusão sem sinal novo de congestão autoriza a seguinte; uma que não melhorou nada obriga a perguntar se o problema é volume mesmo.

A pergunta tem resposta fisiológica: só faz sentido dar volume a quem está na porção ascendente da curva de função ventricular, e essa condição — responsividade a fluido — está presente em cerca de metade dos pacientes submetidos a prova de volume na terapia intensiva. Dar volume a quem não é responsivo produz o edema sem produzir o débito. É a razão pela qual a decisão de infundir deixou de se apoiar em valores estáticos de pressão de enchimento e passou a se apoiar em testes dinâmicos.

O teste mais reproduzível à beira do leito é a elevação passiva das pernas, que devolve sangue da periferia ao tórax e funciona como um bolus reversível — sem infundir nada e sem deixar resíduo se o teste der negativo. A metanálise de Monnet, Marik e Teboul, com 21 estudos, 991 pacientes e 995 provas de volume, encontrou sensibilidade agrupada de 0,85 e especificidade de 0,91 quando o efeito é medido pela variação do débito cardíaco, com área sob a curva de 0,95 e limiar de aumento de cerca de 10%. Medido apenas pela variação da pressão de pulso, o mesmo teste perde sensibilidade — cai para 0,56, mantendo especificidade de 0,83 e área sob a curva de 0,77. A tradução prática é dura e cai em prova: elevação de pernas sem medida de débito cardíaco só serve quando dá positivo.

Dois detalhes de execução mudam o resultado e o examinador gosta deles. O teste começa com o paciente em posição semi-sentada, e é a báscula da cama que leva o tronco à horizontal enquanto as pernas sobem — partir do decúbito dorsal plano recruta menos pré-carga, como mostrou o estudo de Jabot e colaboradores. E o efeito é fugaz: a medida tem de ser feita no primeiro minuto, não depois de arrumar o monitor. Quando não há como medir débito, a alternativa é a prova de volume propriamente dita, com alíquota pequena, tempo curto e desfecho definido antes de começar.

Quando parar: as quatro fases e a de-ressuscitação

A fluidoterapia tem quatro fases dinâmicas, resumidas na sigla ROSE, e cada uma tem objetivo oposto ao da seguinte. Ressuscitação: minutos, correção do choque grave com bolus guiados por índices de responsividade. Otimização: horas, suporte de órgãos e manutenção da perfusão tecidual, já evitando sobrecarga. Estabilização: dias, apenas manutenção e reposição, com o paciente em estado estável e sem ameaça de choque. Evacuação: dias a semanas, remoção ativa do excesso acumulado — a de-ressuscitação, com diurético ou terapia de substituição renal, buscando balanço negativo.

O mesmo raciocínio se organiza pelos quatro Ds do fluido, que são os de qualquer fármaco: droga, ou seja, o tipo e a composição; dose, o volume apropriado; duração, mantida a mais curta possível; e de-escalonamento, suspender quando não é mais necessário. A prescrição de soro que atravessa a semana sem revisão falha nos dois últimos, e é o modo mais comum de iatrogenia silenciosa da enfermaria.

O dano tem número. O acúmulo de líquido se calcula dividindo o balanço cumulativo em litros pelo peso corporal basal e multiplicando por 100; sobrecarga, em qualquer fase, é definida pelo corte de 10% de acúmulo, valor associado a piores desfechos. Num paciente de 70 kg, portanto, o alarme dispara com 7 litros de balanço positivo acumulado — quantidade que dois dias de reposição desatenta produzem sem esforço. Do outro lado da conta, dois dias consecutivos de balanço negativo na primeira semana de internação em terapia intensiva são preditor forte e independente de sobrevida.

Isso muda o que se escreve na evolução. Peso diário na mesma balança e no mesmo horário é a medida de balanço mais confiável que existe fora da terapia intensiva; um quilo a mais é um litro que ficou. Registrar o que entrou pela boca é obrigatório, porque o balanço que só conta a veia está sistematicamente errado por baixo, e a prescrição do dia seguinte sai errada por cima. E a retirada do soro se justifica por escrito, do mesmo jeito que a introdução — sem isso, ele volta no plantão seguinte por hábito.

A via que não é a veia

A reidratação oral é a intervenção de maior impacto populacional do tema e continua sendo a primeira escolha sempre que o paciente consegue beber. No plano B do quadro do Ministério da Saúde, o paciente desidratado sem sinais de gravidade recebe solução de sais de reidratação oral no próprio estabelecimento de saúde, de 50 a 100 mL/kg, média de 75 mL/kg, administrados em 4 a 6 horas, com a quantidade dependendo da sede e a administração contínua até que os sinais de desidratação desapareçam. Se não houver melhora após 6 horas, encaminha-se para internação.

O vômito não é contraindicação à via oral, é obstáculo removível — e o documento diz como. Vômitos persistentes durante o plano B autorizam uma dose de ondansetrona, com posologia por faixa: 2 mg dos 6 meses aos 2 anos, 4 mg dos 2 aos 10 anos ou até 30 kg, e 8 mg em adultos e crianças acima de 10 anos ou 30 kg, com alerta escrito de não utilizar em gestantes. Persistindo a desidratação apesar da tentativa oral, o passo seguinte ainda não é a veia: é a sonda nasogástrica, a gastróclise. Só a evolução para desidratação grave leva ao plano C, endovenoso.

A regra de saída da veia é simétrica à de entrada e está escrita no mesmo quadro: inicia-se a reidratação oral quando o paciente puder beber, em geral 2 a 3 horas depois do início da endovenosa, concomitantemente; e a endovenosa só se interrompe quando ele conseguir ingerir solução de reidratação oral em quantidade suficiente para se manter hidratado. Ninguém fica com acesso venoso à espera de horário.

Duas armadilhas de composição fecham o assunto da via oral. Bebida açucarada não repõe: o açúcar acrescenta carga osmótica, pode piorar a diarreia e não traz potássio nem base — o refrigerante está explicitamente fora, e o chá e o suco entram sem adoçar. E líquido caseiro sem eletrólito, ingerido em grande quantidade contra perda rica em sódio, dilui: é água livre entrando por outra porta.

Cada cena tem sua régua: o mapa dos protocolos brasileiros

A fluidoterapia geral não tem protocolo clínico e diretrizes terapêuticas federal próprio; a régua brasileira vem repartida entre os documentos de cada doença, e é por isso que os números não coincidem. Saber de qual documento veio o número é metade da questão, porque o enunciado escolhe a cena antes de escolher a alternativa.

Na dengue, o manual do Ministério da Saúde em sexta edição, de 2024, separa por grupo. O grupo A recebe hidratação oral de 60 mL/kg/dia no adulto, com um terço em sais de reidratação oral. O grupo C recebe 10 mL/kg de soro fisiológico a 0,9% na primeira hora e mantém 10 mL/kg na segunda hora até a reavaliação do hematócrito, com teto de 20 mL/kg por fase de expansão em duas horas, repetível até três vezes; melhorando, entra em manutenção com 25 mL/kg em 6 horas e depois 25 mL/kg em 8 horas. O grupo D, com choque, recebe expansão rápida de 20 mL/kg em até 20 minutos, em qualquer nível de complexidade, com reavaliação clínica a cada 15 a 30 minutos e hematócrito em 2 horas.

O mesmo manual traz a exceção do cardiopata, e ela é fina: classe funcional I hidrata como todo mundo, classe IV vai para terapia intensiva e é manejado como crítico, classe II recebe 15 mL/kg e classe III recebe 10 mL/kg de soro fisiológico a 0,9% ou Ringer simples, idealmente em 30 minutos, repetindo até três vezes sob observação rigorosa. Para esse grupo, o documento define hipotensão arterial como pressão sistólica abaixo de 100 mmHg — corte mais alto que o dos 90 mmHg usados no restante da medicina de emergência, e proposital, porque o objetivo ali é antecipar.

Na diarreia aguda, o quadro de manejo do Ministério da Saúde separa por idade e não por peso: o plano C do paciente com 1 ano ou mais entrega 30 mL/kg em 30 minutos e 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos, enquanto o menor de 1 ano recebe os mesmos volumes em 1 hora e 5 horas. Recém-nascidos e menores de 5 anos com cardiopatia grave começam com 10 mL/kg. A fase de manutenção é a mesma para todas as faixas: soro glicosado a 5% com soro fisiológico na proporção 4 para 1, calculada por peso — 100 mL/kg até 10 kg; 1.000 mL mais 50 mL/kg do que exceder 10 kg; 1.500 mL mais 20 mL/kg do que exceder 20 kg, com máximo de 2.000 mL —, correndo em 24 horas, acrescida de reposição com a proporção 1 para 1 iniciando em 50 mL/kg/dia e de cloreto de potássio a 10%, 2 mL para cada 100 mL da solução de manutenção.

Duas leituras desse cálculo valem nota. O teto de 2.000 mL passa a morder a partir de 45 kg — daí para cima, todo paciente recebe o mesmo volume de manutenção, o que faz do adulto de 90 kg e do adolescente de 45 kg iguais nessa linha. E os 2 mL de cloreto de potássio a 10% por 100 mL entregam cerca de 27 mEq de potássio por litro de solução, concentração confortável para veia periférica e bem abaixo dos tetos de segurança do sal.

No pré-hospitalar, o protocolo AC16 dos protocolos de intervenção do SAMU 192 manda repor volemia com solução cristaloide isotônica com o objetivo de manter pressão sistólica acima de 80 mmHg, elevando o alvo para acima de 90 mmHg quando há traumatismo cranioencefálico; no choque hipovolêmico do trauma, prescreve cristaloide aquecido a 39 °C e nomeia o Ringer com lactato como solução de primeira escolha, seguido da salina a 0,9%. Na sepse, a Surviving Sepsis Campaign de 2021 sugere pelo menos 30 mL/kg de cristaloide intravenoso nas primeiras três horas de ressuscitação — e o faz como recomendação fraca, apoiada em evidência de baixa qualidade, o que já diz que o número é ponto de partida e não meta. Os prazos do protocolo brasileiro, a ressalva do cardiopata e o resto do pacote da primeira hora pertencem ao capítulo próprio.

04

As soluções, as fases e a régua de cada cena

Três tabelas resolvem a maior parte das questões do tema. A primeira é a composição das soluções disponíveis no Brasil, com o número que explica cada efeito colateral. A segunda é o mapa dos protocolos brasileiros, que mostra por que o mesmo paciente desidratado recebe volumes diferentes conforme a doença que o trouxe. A terceira é a das quatro fases, que diz o que fazer depois que o choque saiu. Os cards mostram a curva do volume ao longo da internação; o fluxo, a sequência de decisão à beira do leito.

  1. 1Passo 0 — Decida se há indicação de veia. Quem bebe, come e urina recebe copo e registro do ingerido, não soro. Vômito é obstáculo removível: antiemético e, se preciso, sonda antes de puncionar.
  2. 2Passo 1 — Separe as três indicações. Ressuscitação (mL/kg em minutos), manutenção (mL/kg/dia com eletrólito) e reposição de perdas medidas. Uma prescrição só não atende as três.
  3. 3Passo 2 — Havendo hipoperfusão, trate volume antes de tonicidade. Cristaloide isotônico primeiro; a correção do sódio, com o teto de velocidade dela, vem depois que a circulação está sustentada.
  4. 4Passo 3 — Escolha a solução pela cena. Salina se há traumatismo cranioencefálico ou alcalose hipoclorêmica; balanceado se o volume será alto, se já há acidose hiperclorêmica ou se há hipercalemia grave. Fora dessas quatro, o efeito médio é pequeno e qualquer cristaloide isotônico serve.
  5. 5Passo 4 — Infunda em alíquota, não em litro. Volume definido, tempo definido, reavaliação obrigatória entre uma e outra, com sinais de perfusão e de congestão pesando juntos.
  6. 6Passo 5 — Antes da alíquota seguinte, pergunte se ele ainda responde. Elevação passiva das pernas a partir da posição semi-sentada, com medida de débito cardíaco no primeiro minuto; aumento de cerca de 10% indica responsividade. Sem medida de débito, o teste só vale quando dá positivo.
  7. 7Passo 6 — Saindo do choque, mude de fase. Suspenda o bolus, reduza para manutenção e reposição, e passe a somar o balanço cumulativo — 10% de acúmulo sobre o peso basal é o corte de sobrecarga.
  8. 8Passo 7 — Programe a saída. Reidratação oral assim que ele puder beber, tipicamente 2 a 3 horas após o início da endovenosa e concomitante a ela; suspensão da veia quando a via oral sustentar a hidratação, justificada por escrito.

Ressuscitação: minutos

Choque instalado. Alíquota rápida de cristaloide isotônico, guiada por índices de responsividade e reavaliada entre uma e outra. É a única fase em que a pergunta é 'quanto mais posso dar'.

Otimização: horas

Perfusão recuperando. O volume continua, mas condicionado a teste positivo de responsividade, e a vigilância de congestão passa a pesar tanto quanto a de hipoperfusão.

Estabilização: dias

Sem ameaça de choque. Só manutenção e reposição do que continua saindo. Bolus nesta fase é volume sem indicação — e é aqui que o balanço positivo se acumula sem que ninguém decida nada.

Evacuação: dias a semanas

Excesso acumulado. Remoção ativa com diurético ou terapia de substituição renal, buscando balanço negativo — a de-ressuscitação. Dois dias consecutivos de balanço negativo na primeira semana são preditor independente de sobrevida.

Solução (1.000 mL)SódioCloretoOutrosOsmolaridadeO que o número explica
Soro fisiológico 0,9% (NaCl 9 mg/mL)154 mEq154 mEq308 mOsm/LCloreto quase 50 mEq acima do plasma: em volume alto, acidose metabólica com ânion-gap normal. Isotônico — fica no extracelular, e cerca de um quarto permanece no plasma
Solução de Ringer + lactato (composição da Rename 2024)130 mEq109 mEqPotássio 4 mEq; cálcio 2,7 mEq; lactato 27 mEq≈271 mOsm/L (calculada)Cloreto dentro da faixa do plasma. Levemente hipotônica: fora de primeira escolha no traumatismo cranioencefálico. Contém cálcio: precipita com ceftriaxona e quela citrato de hemocomponente
Soro glicosado 5%50 g de glicoseEfetivamente nula após metabolizaçãoÉ água livre: distribui-se pela água corporal total e deixa cerca de 8% no plasma. Não é fluido de ressuscitação em nenhuma cena
Cloreto de sódio 20% — ampola de 10 mL34 mEq (3,4 mEq/mL)34 mEqHipertônicaFonte de sódio para montar manutenção. Sempre diluir antes de infundir
Cloreto de potássio 19,1% — ampola de 10 mL25,6 mEqPotássio 25,6 mEq (2,56 mEq/mL)HipertônicaMedicamento potencialmente perigoso: nunca administrar sem diluir, e conferir concentração e velocidade antes de assinar
Cloreto de potássio 10% — 2 mL por 100 mL de solução (quadro da diarreia)≈27 mEq de potássio por litro de solução finalConcentração confortável para veia periférica; é a forma como o próprio documento federal resolve o potássio da manutenção

O mesmo volume, réguas diferentes: o mapa dos protocolos brasileiros

CenaSoluçãoVolume e tempoDocumentoOnde está o detalhe
Dengue, grupo A (sem sinais de alarme)Via oral, com sais de reidratação oral60 mL/kg/dia no adulto, um terço como sais de reidratação oralManual de dengue do Ministério da Saúde, 6ª edição, 2024Capítulo de Dengue
Dengue, grupo C (sinal de alarme)Soro fisiológico 0,9%10 mL/kg na 1ª hora e 10 mL/kg na 2ª hora (teto de 20 mL/kg por fase em 2 h), repetível até 3 vezes; manutenção 25 mL/kg em 6 h e 25 mL/kg em 8 hManual de dengue do Ministério da Saúde, 6ª edição, 2024Capítulo de Dengue
Dengue, grupo D (choque)Soro fisiológico 0,9%; albumina 0,5 a 1 g/kg se choque persiste com hematócrito subindo20 mL/kg em até 20 minutos, em qualquer nível de complexidade, repetível até 3 vezesManual de dengue do Ministério da Saúde, 6ª edição, 2024Capítulo de Dengue
Dengue no cardiopataSoro fisiológico 0,9% ou Ringer simplesClasse funcional II: 15 mL/kg em 30 min. Classe III: 10 mL/kg em 30 min. Ambos repetíveis até 3 vezesManual de dengue do Ministério da Saúde, 6ª edição, 2024Neste capítulo
Diarreia com desidratação (plano B)Sais de reidratação oral50 a 100 mL/kg (média 75 mL/kg) em 4 a 6 horas, no estabelecimento de saúdeQuadro de manejo do paciente com diarreia, Ministério da SaúdeCapítulo de Diarreia aguda infecciosa no adulto
Diarreia com desidratação grave (plano C), 1 ano ou maisSoro fisiológico 0,9% ou Ringer com lactato30 mL/kg em 30 min + 70 mL/kg em 2 h 30 min. Abaixo de 1 ano: os mesmos volumes em 1 h e 5 hQuadro de manejo do paciente com diarreia, Ministério da SaúdeCapítulo de Diarreia aguda infecciosa no adulto
Sepse e choque sépticoCristaloide intravenosoPelo menos 30 mL/kg nas primeiras 3 horas — recomendação fraca, com evidência de baixa qualidadeSurviving Sepsis Campaign 2021 (Evans L, et al. Intensive Care Med. 2021)Capítulo de Sepse e choque séptico, onde estão os prazos do protocolo brasileiro e a ressalva do cardiopata
Choque no pré-hospitalarCristaloide isotônico; Ringer com lactato de 1ª escolha no trauma, aquecido a 39 °CTitulado para pressão sistólica acima de 80 mmHg; acima de 90 mmHg se traumatismo cranioencefálicoProtocolo AC16, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Ministério da SaúdeCapítulo de Choque hemorrágico no trauma

Balanceado × salina: o que decide quando o efeito médio é pequeno

SituaçãoEscolhaPor quê
Doente crítico em geral, volume moderadoQualquer cristaloide isotônicoBaSICS: 26,4% contra 27,2% de mortalidade em 90 dias, razão de risco ajustada 0,97 (0,90–1,05). Metanálise de 2022: risco relativo 0,96 (0,91–1,01)
Volume alto e prolongado, ou acidose hiperclorêmica instaladaBalanceadoO problema é a carga de cloreto: 154 mEq/L contra 109 mEq/L
Traumatismo cranioencefálicoSalina 0,9%Ringer é hipotônico (≈271 mOsm/L). O BaSICS registrou sinal de possível dano no subgrupo com traumatismo cranioencefálico alocado ao balanceado — achado gerador de hipótese
Alcalose metabólica hipoclorêmica (vômito de repetição, estenose de piloro)Salina 0,9%É a solução que devolve cloreto, que é o que está faltando
Hipercalemia graveBalanceado, apesar dos 4 mEq/L de potássioA acidose hiperclorêmica da salina desloca potássio para fora da célula e sobe o potássio medido
Ceftriaxona na mesma via, ou transfusão pelo mesmo acessoSalina 0,9%O cálcio do Ringer precipita com ceftriaxona e quela o citrato do hemocomponente

Os 100 mL/kg do esquema endovenoso completo da desidratação grave equivalem a 10% do peso corporal — exatamente o déficit que define a gravidade no quadro do Ministério da Saúde. O volume total é o déficit; o que muda entre faixas etárias é só o tempo.

No cálculo da manutenção do quadro de diarreia, o teto de 2.000 mL passa a limitar a partir de 45 kg: 1.500 mL mais 20 mL/kg do que exceder 20 kg atinge 2.000 mL nesse peso. Acima dele, adulto pequeno e adulto grande recebem o mesmo volume de manutenção.

O manual de dengue de 2024 usa os termos em sentido invertido em relação ao uso corrente: define hidratação como a administração rápida de volume em 30 a 60 minutos e ressuscitação volêmica como a administração de volume predeterminado em 12 a 24 horas, chamando esta última de manutenção. O Quadro 4 do próprio documento, porém, opõe ressuscitação volêmica a manutenção como condutas distintas. Na leitura de prova, vale o que o enunciado descreve — volume rápido é expansão, independentemente do rótulo.

Ainda no manual de dengue, o corte de hipotensão arterial no capítulo do cardiopata é pressão sistólica abaixo de 100 mmHg, e não os 90 mmHg habituais. O corte mais alto é deliberado nesse subgrupo e não se transporta para os demais.

Os 4 mEq/L de potássio da solução de Ringer com lactato raramente têm importância clínica diante de um rim que urina. O que sobe potássio medido em volume alto é a acidose hiperclorêmica da salina, que desloca potássio do intracelular para o extracelular sem que um único miliequivalente tenha sido infundido.

A solução testada no BaSICS foi a Plasma-Lyte 148. O balanceado do elenco básico brasileiro é a solução de Ringer com lactato, de tampão diferente — e os autores do ensaio registram entre as limitações que não está claro se soluções com outros tampões dariam o mesmo resultado.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual cristaloide é a primeira escolha na expansão — e por que dois documentos federais discordam

Protocolo do SAMU 192 (Ministério da Saúde)

No choque hipovolêmico secundário ao trauma, a reposição volêmica é feita com solução cristaloide aquecida a 39 °C, preferencialmente; o Ringer com lactato é a solução cristaloide de primeira escolha, seguido da solução salina a 0,9%. O alvo é pressão sistólica acima de 80 mmHg, elevado para acima de 90 mmHg quando há traumatismo cranioencefálico.

Protocolo AC16 — Choque. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Ministério da Saúde

Manual de dengue do Ministério da Saúde (2024)

A expansão dos grupos C e D é feita com soro fisiológico a 0,9%, com volumes e tempos definidos por grupo. Ringer simples aparece como alternativa apenas no manejo do paciente cardiopata, ao lado do soro fisiológico, e a manutenção do cardiopata usa 15 a 25 mL/kg de uma das duas soluções a cada 12 horas.

Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança, 6ª edição, Ministério da Saúde, 2024

Na prova

A cena denuncia o documento. Enunciado ambientado em pré-hospitalar, ambulância, resgate ou trauma reproduz o protocolo do SAMU e cobra Ringer com lactato como primeira escolha, com o detalhe do aquecimento a 39 °C. Enunciado de dengue, em qualquer nível de complexidade, cobra soro fisiológico a 0,9% — e admite Ringer simples apenas na linha do cardiopata. Enunciado de unidade de terapia intensiva que cita ensaio clínico ou vocabulário de evidência está cobrando o debate balanceado × salina, e aí a resposta é a neutralidade do efeito médio, não uma bolsa. As duas escolhas federais não se contradizem: elas respondem a perguntas diferentes, uma sobre trauma no pré-hospitalar e outra sobre extravasamento plasmático na dengue.

Coloide sintético como alternativa à albumina no choque do dengue

Manual de dengue do Ministério da Saúde (2024)

Persistindo o choque com hematócrito em ascensão após reposição volêmica adequada, usar expansores plasmáticos: albumina 0,5 a 1 g/kg, preparando a solução a 5% com 25 mL de albumina a 20% e 75 mL de soro fisiológico para cada 100 mL. Na falta de albumina, utilizar coloides sintéticos a 10 mL/kg/hora.

Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança, 6ª edição, Ministério da Saúde, 2024

Restrição regulatória do hidroxietilamido e avaliação de tecnologia de 2023

A bula brasileira do hidroxietilamido a 6% contraindica o uso em sepse e em pacientes críticos. A nota técnica que avaliou a incorporação da solução concluiu não haver evidência de superioridade sobre o cristaloide em procedimentos cirúrgicos, apontou maior risco de sangramento com o coloide e sugeriu a não incorporação.

Nota Técnica 11/2023 do Núcleo de Avaliação de Tecnologias em Saúde do HU-UFSCar (Ebserh), sobre hidroxietilamido 6%

Na prova

Enunciado que reproduz a sequência brasileira do dengue grave — choque persistente, hematócrito em ascensão, expansor plasmático — e oferece coloide sintético entre as alternativas está reproduzindo o manual nacional, que o mantém como alternativa na falta de albumina. Enunciado que cita bula, agência reguladora, sepse ou paciente crítico está cobrando a restrição do produto, e aí coloide sintético é a alternativa errada. Reconhecer qual dos dois mundos o enunciado habita vale mais do que escolher um lado: a albumina é a primeira opção nos dois.

O quanto a solução balanceada realmente vale

BaSICS (JAMA, 2021)

Ensaio duplo-cego e fatorial em 75 unidades de terapia intensiva brasileiras, com 11.052 randomizados e 10.520 analisados. Mortalidade em 90 dias de 26,4% com balanceado contra 27,2% com salina; razão de risco ajustada 0,97 (IC 95% 0,90 a 1,05; p = 0,47). Os achados não sustentam o uso dessa solução balanceada.

Zampieri FG, et al. JAMA. 2021

Metanálise de Hammond e colaboradores (NEJM Evidence, 2022)

Treze ensaios randomizados e 35.884 participantes; nos seis com baixo risco de viés, somando 34.450 pacientes, o risco relativo de morte em 90 dias foi de 0,96 (IC 95% 0,91 a 1,01), com probabilidade posterior de 89,5% de que o balanceado reduza mortalidade. O efeito estimado varia de 9% de redução relativa a 1% de aumento no risco de morte.

Hammond NE, Zampieri FG, et al. NEJM Evid. 2022;1(2)

Na prova

Enunciado que nomeia o BaSICS, ou que descreve um ensaio brasileiro com mais de dez mil pacientes, cobra o resultado neutro e a conclusão dos autores. Enunciado que fala em síntese de evidência, metanálise ou probabilidade cobra a estimativa agrupada, que é favorável e pequena. Alternativa que afirme superioridade estabelecida do balanceado sobre a salina em mortalidade extrapola os dois documentos; alternativa que afirme equivalência absoluta ignora a direção consistente do efeito. A resposta segura reconhece efeito pequeno, provável e insuficiente para decidir sozinho.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos, 70 kg, chega ao pronto-socorro com diarreia aquosa e vômitos há três dias, sem conseguir manter líquido pela boca desde ontem. Está letárgico, mucosas muito secas, prega abdominal desfazendo-se em mais de 2 segundos, pulso fino, pressão arterial 84/52 mmHg, frequência cardíaca 122 bpm, extremidades frias, enchimento capilar de 4 segundos, sem diurese registrada nas últimas 10 horas. Ausculta pulmonar limpa, sem turgência jugular, sem edema. Laboratório: sódio 152 mEq/L, potássio 3,1 mEq/L, ureia 118 mg/dL, creatinina 2,3 mg/dL, hematócrito 52%, lactato 3,4 mmol/L. Antecedente de hipertensão em uso de hidroclorotiazida.
achado
Desidratação grave pelo quadro federal: dois ou mais sinais, com pelo menos um dos destacados — letargia, incapacidade de manter líquido pela boca e pulso fino. Há hipoperfusão instalada (extremidade fria, enchimento capilar de 4 segundos, oligúria, lactato elevado) somada a lesão renal aguda pré-renal e hemoconcentração.
interpretação
Coexistem os dois problemas do capítulo: perda de volume isotônico pela diarreia e perda de água livre, com sódio de 152 mEq/L. A ordem é fixa — volume antes de tonicidade. O sódio alto não autoriza soro glicosado enquanto houver hipoperfusão: cada litro de glicosado deixaria cerca de 83 mL no plasma, contra cerca de 250 mL de um cristaloide isotônico.
conduta imediata
Cristaloide isotônico em alíquota, com reavaliação entre uma e outra. A régua do plano C para paciente com 1 ano ou mais é 30 mL/kg em 30 minutos — 2.100 mL para 70 kg — seguidos de 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos, totalizando 100 mL/kg, que é o próprio déficit de 10% do peso que define a gravidade. Sem traumatismo cranioencefálico e sem alcalose, salina e Ringer com lactato servem igualmente; volume alto previsto pesa a favor do balanceado, pela carga de cloreto.
reavaliação
Ao fim de cada alíquota, medir perfusão e congestão juntas: enchimento capilar, temperatura de extremidade, nível de consciência, diurese, pressão arterial, ausculta de bases e turgência jugular. Persistindo hipotensão depois de reposição adequada, o próximo passo não é mais um bolus reflexo — é testar responsividade, com elevação passiva das pernas a partir da posição semi-sentada e leitura do débito cardíaco no primeiro minuto, considerando positivo o aumento em torno de 10%.
sequência
Com o paciente conseguindo beber, tipicamente 2 a 3 horas depois do início da endovenosa, iniciar sais de reidratação oral concomitantemente, e só suspender a veia quando a via oral sustentar a hidratação. Suspender a hidroclorotiazida. Repor potássio conforme a diurese — 2 mL de cloreto de potássio a 10% para cada 100 mL da solução de manutenção entregam cerca de 27 mEq por litro. Corrigida a perfusão, aí sim tratar a tonicidade, respeitando o teto de velocidade de correção do sódio, que pertence ao capítulo próprio.
freio
Passada a fase de ressuscitação, mudar de fase explicitamente: suspender bolus, prescrever manutenção e reposição das perdas medidas, pesar diariamente na mesma balança e somar o balanço cumulativo. Acúmulo de 10% sobre o peso basal — 7 litros neste paciente — é o corte de sobrecarga associado a piores desfechos.
07

Agora feche você

Mulher de 74 anos, 60 kg, com dengue confirmada no quinto dia de doença, chega à unidade de pronto atendimento com dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes e hematócrito que subiu de 38% para 47% em 24 horas. Pressão arterial 96/64 mmHg, frequência cardíaca 104 bpm, enchimento capilar de 3 segundos, diurese escassa. Tem insuficiência cardíaca em classe funcional III da New York Heart Association. A enfermagem pergunta se instala 30 mL/kg de soro fisiológico em bolus, como se faz na sepse.
achado
Dengue com sinais de alarme — dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes e aumento progressivo do hematócrito —, ou seja, grupo C, numa paciente cardiopata em classe funcional III.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Abrir soro glicosado no paciente hipotenso porque o sódio veio alto Atrai porque o laudo grita hipernatremia. Mas glicosado é água livre: distribui-se pela água corporal total e deixa cerca de 8% no plasma, contra cerca de 25% do cristaloide isotônico. Enquanto houver hipoperfusão, a bolsa é isotônica; a correção do sódio, com o teto de velocidade dela, começa depois que a circulação está sustentada.
  2. 2Trocar Ringer por salina no paciente com potássio alto O reflexo nasce dos 4 mEq/L de potássio da bolsa, que um rim que urina absorve sem dificuldade. O que a salina faz em grande volume é produzir acidose hiperclorêmica, que desloca potássio de dentro para fora da célula e sobe o potássio medido sem que se tenha infundido nada. A troca erra pelo lado que ninguém confere.
  3. 3Usar Ringer com lactato no traumatismo cranioencefálico O Ringer tem osmolaridade calculada em torno de 271 mOsm/L, abaixo da do plasma. No encéfalo lesado, a prioridade é não baixar a osmolalidade. É o mesmo eixo que explica o excesso de mortalidade com albumina a 4% no traumatismo cranioencefálico grave do estudo SAFE — 41,8% contra 22,2% — e o sinal de dano no subgrupo com traumatismo cranioencefálico do BaSICS.
  4. 4Repetir alíquotas até a pressão subir, sem testar responsividade Só cerca de metade dos pacientes submetidos a prova de volume na terapia intensiva é responsiva a fluido. Nos outros, cada alíquota produz interstício sem produzir débito. Depois dos primeiros bolus, a probabilidade de não responder é alta, e a infusão passa a exigir teste dinâmico positivo — não um valor estático de pressão de enchimento.
  5. 5Fazer elevação passiva das pernas a partir do decúbito dorsal e ler só a pressão de pulso São dois erros de execução no mesmo teste. O ganho de pré-carga é maior quando o movimento parte da posição semi-sentada. E a leitura pela variação da pressão de pulso tem sensibilidade agrupada de 0,56, contra 0,85 quando o efeito é medido pela variação do débito cardíaco: sem medir débito, o teste só serve quando dá positivo.
  6. 6Continuar prescrevendo bolus depois que o choque saiu A fase mudou e o objetivo se inverteu. Estabilização é manutenção e reposição; evacuação é remoção ativa. Acúmulo de 10% sobre o peso basal — 7 litros num paciente de 70 kg — é o corte de sobrecarga associado a piores desfechos, e ele se atinge em dois dias de reposição desatenta.
  7. 7Puncionar veia em quem está vomitando, sem tentar antiemético e sonda O quadro federal de manejo da diarreia coloca a ordem por escrito: vômitos persistentes durante o plano B recebem ondansetrona; persistindo a desidratação, indica-se sonda nasogástrica (gastróclise); só a evolução para desidratação grave leva ao plano C endovenoso. Alternativa que pula direto para a veia pula dois degraus previstos.
  8. 8Oferecer refrigerante ou chá adoçado para reidratar O açúcar acrescenta carga osmótica, pode piorar a diarreia e não repõe potássio nem base. O documento federal exclui o refrigerante e manda não adoçar chá e suco. E líquido caseiro sem eletrólito, em grande quantidade contra perda rica em sódio, funciona como água livre entrando por outra porta.
  9. 9Prescrever hidroxietilamido como expansor no séptico ou no crítico A bula brasileira do produto contraindica o uso na sepse e no paciente crítico. A avaliação de tecnologia de 2023 que examinou a incorporação da solução a 6% concluiu que não há evidência de superioridade sobre o cristaloide em procedimento cirúrgico, que ambos são eficazes no manejo da hipovolemia e que o coloide se associa a maior risco de sangramento — e sugeriu a não incorporação.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

No traumatismo cranioencefálico o eixo que decide é a tonicidade, e ele aparece três vezes na literatura do tema. A solução de Ringer com lactato tem osmolaridade calculada em torno de 271 mOsm/L, abaixo da do plasma, e por isso sai da primeira escolha aqui — o BaSICS ainda registrou sinal de possível dano no subgrupo com traumatismo cranioencefálico alocado ao balanceado, achado que os próprios autores classificam como gerador de hipótese. A alternativa 2 é o erro mais bem documentado do tema: no seguimento pós-hoc do estudo SAFE, a mortalidade em 24 meses no traumatismo cranioencefálico grave foi de 41,8% com albumina a 4% contra 22,2% com salina (risco relativo 1,88). A alternativa 4 inverte a fisiologia: reduzir a osmolaridade plasmática puxa água para dentro do encéfalo. A alternativa 5 esbarra na restrição do próprio produto, cuja bula brasileira o contraindica em pacientes críticos.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória os números que a questão usa. Compartimentos: intracelular 40% do peso, extracelular 20%, plasma 5%, interstício 12% — de 1 L de cristaloide isotônico ficam cerca de 250 mL no plasma; de 1 L de glicosado, cerca de 83 mL. Soro fisiológico: sódio 154, cloreto 154, 308 mOsm/L. Ringer com lactato: sódio 130, potássio 4, cálcio 2,7, cloreto 109, lactato 27, ≈271 mOsm/L. Dengue: grupo A 60 mL/kg/dia; grupo C 10 mL/kg/h com teto de 20 mL/kg por fase, manutenção 25 mL/kg em 6 h e 25 mL/kg em 8 h; grupo D 20 mL/kg em até 20 min; cardiopata classe II 15 mL/kg e classe III 10 mL/kg em 30 min. Diarreia, plano B 50 a 100 mL/kg em 4 a 6 h; plano C do maior de 1 ano 30 mL/kg em 30 min mais 70 mL/kg em 2 h 30 min. Sepse 30 mL/kg. Sobrecarga: 10% de acúmulo sobre o peso basal.

em 30 dias

Reveja os raciocínios, não as listas. Por que volume vem antes de tonicidade e por que glicosado nunca ressuscita. Por que a carga de cloreto da salina produz acidose de ânion-gap normal e sobe o potássio medido. Por que o eixo da tonicidade reaparece três vezes — Ringer hipotônico no traumatismo cranioencefálico, albumina a 4% no SAFE com 41,8% contra 22,2% de mortalidade no traumatismo cranioencefálico grave, e o sinal de dano do BaSICS no mesmo subgrupo. Por que o efeito do balanceado é pequeno o bastante para não decidir sozinho: 0,97 no BaSICS, 0,96 na metanálise. Por que só metade responde a volume e o que a elevação passiva das pernas acrescenta, com a diferença entre medir débito cardíaco e medir pressão de pulso. E por que a fase muda o objetivo: ressuscitar, otimizar, estabilizar, evacuar. Feche simulando o caso do dengue no cardiopata: identificar o grupo, achar a régua do documento certo e vigiar os dois lados ao mesmo tempo.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 68 anos com diarreia há três dias chega letárgico, com pulso fino, extremidades frias e sódio de 152 mEq/L — decida qual solução abrir, em que volume e em quanto tempo, e quando parar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.