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Via aérea no paciente crítico

A laringoscopia dura segundos; o resultado é decidido antes, na identificação da via aérea fisiologicamente difícil, na pré-oxigenação e no plano de falha.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Paciente com abscesso cervical profundo evoluindo com dispneia progressiva, estridor e incapacidade de deitar. A saturação está em 92% em ar ambiente e há trismo importante. Qual é a conduta imediata quanto à via aérea?

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Como esse tema cai

O capítulo aborda manejo da via aérea do adulto grave na emergência e na UTI: indicação, previsão de dificuldade anatômica e fisiológica, pré-oxigenação, sequência rápida, escolha de fármacos, confirmação, ventilação e resgate. O objetivo é reduzir hipoxemia e colapso cardiovascular peri-intubação.

Ficam fora a anestesia eletiva, a via aérea pediátrica, o trauma facial complexo e a técnica cirúrgica detalhada. A intubação acordada aparece como estratégia quando a anatomia prevê falha e a ventilação espontânea ainda é preservada, mas sua execução requer equipe treinada.

Doses são faixas de referência e precisam ser ajustadas à hemodinâmica, idade, peso, comorbidades e protocolo institucional. Nenhum indutor corrige choque não tratado; o preparo hemodinâmico faz parte da via aérea.

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O que muda decisão

Intubar por falha atual ou por trajetória de deterioração

As quatro indicações úteis são incapacidade de oxigenar, incapacidade de ventilar, incapacidade de proteger a via aérea e evolução previsível para uma dessas falhas. Saturação isolada não decide: trabalho respiratório crescente, fadiga, acidose ventilatória, choque, secreção que o paciente não maneja e alteração progressiva de consciência pesam mais que um número momentaneamente aceitável.

A intubação não deve ser adiada até a parada, mas também não é resposta automática a Glasgow ≤8 fora de contexto. O que importa é reflexo de proteção, dinâmica e causa reversível. Intoxicação em melhora e ventilação adequada pode ser observada; hemorragia intracraniana com vômitos, hipoxemia e deterioração exige controle precoce.

Via aérea difícil tem dois eixos. A anatômica dificulta laringoscopia, passagem do tubo ou ventilação com máscara. A fisiológica tolera mal apneia e pressão positiva: hipoxemia grave, choque, acidose metabólica intensa ou falência de ventrículo direito. No paciente crítico, o segundo eixo mata mesmo quando a glote é vista na primeira tentativa.

Planejar antes de retirar a ventilação espontânea

A avaliação anatômica procura abertura oral reduzida, distância tireomentoniana curta, mobilidade cervical limitada, obesidade, barba, trauma, sangue, secreção, massa e história de dificuldade. Não existe escore perfeito na emergência; o valor está em reconhecer que a primeira tentativa deve usar o melhor operador e o melhor dispositivo disponível.

O plano verbalizado evita repetição cega: plano A com videolaringoscópio ou laringoscópio mais familiar e tubo preparado; plano B com otimização, introdutor, lâmina diferente ou segundo operador; plano C com dispositivo supraglótico para reoxigenar; plano D com acesso cervical de emergência quando não se intuba e não se oxigena. Oxigenação é o objetivo; o tubo é um meio.

Monitorização inclui ECG, pressão em ciclos curtos, oximetria e capnografia pronta. Aspirador funcionando, máscara com vedação, cânulas, dispositivo supraglótico e material de cricotireoidostomia ficam ao alcance. Sedação e ventilador pós-intubação são preparados antes do bloqueador neuromuscular.

Pré-oxigenar é criar reserva, não apenas oferecer oxigênio

Elevar cabeça e tronco, alinhar meato auditivo ao esterno no obeso e obter vedação da máscara aumentam capacidade residual funcional. Em hipoxemia grave, ventilação não invasiva com pressão positiva costuma oferecer melhor recrutamento do que máscara convencional. Cânula nasal de alto fluxo é alternativa útil, sobretudo quando máscara não é tolerada, e pode permanecer durante a apneia como oxigenação apneica.

Três a cinco minutos de ventilação com alta fração inspirada de oxigênio é meta prática quando há tempo; em agitação extrema, respirações profundas espontâneas podem ser usadas. Se o paciente não tolera a interface, sedação dissociativa cuidadosamente titulada para permitir pré-oxigenação é uma estratégia de resgate, não licença para produzir apneia antes de tudo estar pronto.

Ventilar suavemente com bolsa-máscara durante a sequência pode ser apropriado quando o risco de dessaturação supera o de aspiração, usando baixa pressão e boa vedação. A regra antiga de apneia absoluta cede à fisiologia: o paciente com reserva mínima não pode ser sacrificado a um dogma.

Choque e acidose transformam a indução em procedimento hemodinâmico

Antes da indução, identifique pressão baixa, índice de choque elevado, vasopressor em escalada, congestão e falência de ventrículo direito. Corrija o que é corrigível: pequena alíquota de fluido apenas se houver probabilidade de resposta e ausência de sobrecarga; noradrenalina pronta ou já em infusão quando o tônus é insuficiente; sangue no hemorrágico. Um bolus liberal e automático não protege quem está congesto.

Acidose metabólica grave é via aérea fisiologicamente difícil porque a ventilação minuto espontânea pode ser enorme. Depois do bloqueio, alguns minutos de ventilação inadequada elevam rapidamente o CO2 e derrubam o pH. A indicação deve ser forte, a pré-oxigenação eficaz e o ventilador precisa reproduzir, dentro da segurança, a ventilação minuto necessária desde o primeiro ciclo.

A pressão positiva reduz retorno venoso e aumenta pós-carga do ventrículo direito. No choque obstrutivo ou na falência direita, trate a causa e evite pressão excessiva. Pneumotórax hipertensivo deve ser descomprimido antes ou imediatamente durante o controle da via aérea; intubar sem descomprimir pode precipitar parada.

Sequência rápida: hipnose e paralisia em doses ajustadas

A diretriz SCCM recomenda bloqueador neuromuscular quando se usa indutor na sequência rápida. Rocurônio 1,2 mg/kg oferece início rápido e duração longa; succinilcolina 1 a 1,5 mg/kg tem duração menor, mas é evitada em hipercalemia, queimadura ou desnervação após a fase inicial, doença neuromuscular e risco de hipertermia maligna. Dose insuficiente piora condições de laringoscopia e aumenta tentativas.

Etomidato 0,3 mg/kg preserva melhor a pressão em muitos pacientes, embora cause supressão adrenal transitória; cetamina 1 a 2 mg/kg oferece analgesia e costuma manter hemodinâmica, mas pode causar hipotensão no choque catecolamino-depletado. Propofol produz hipnose confiável, porém vasodilata e deprime miocárdio; em instabilidade, a dose precisa cair substancialmente ou o fármaco deve ser evitado. Midazolam tem início menos previsível e acumula.

O melhor indutor é o que a equipe conhece e cuja dose respeita a fisiologia. O erro é tratar 'estável' e 'em choque' com a mesma seringa. Analgesia adicional pode ser útil para resposta simpática intensa, mas opioide em bolus também produz hipotensão; não é componente obrigatório de toda sequência.

Primeira passagem, confirmação e cuidado pós-tubo

A primeira tentativa é a mais segura. Posicionamento, retirada de próteses, aspiração, manipulação laríngea externa, introdutor e videolaringoscopia são escolhidos antes. Se a visão ou a saturação piora, interrompa e reoxigene; repetir a mesma técnica sem mudança converte dificuldade em trauma e edema.

Capnografia com onda contínua é o padrão para confirmar posição traqueal e monitorar deslocamento. Expansão torácica, ausculta e vapor no tubo são complementares e falham. Ausência persistente de CO2 após ventilação adequada exige assumir intubação esofágica, salvo situação de fluxo pulmonar extremamente baixo, como parada cardíaca.

Fixe e documente profundidade, ajuste ventilação, obtenha imagem quando indicada, trate pressão e ofereça analgesia-sedação imediatamente. Paralisia sem sedação é evento sentinela. O ventilador inicial considera peso predito, doença pulmonar, acidose e risco de auto-PEEP; reavalie gasometria, pressões e sincronia.

Sequência de intubação com pré-oxigenação, videolaringoscopia, passagem do tubo pela glote, capnografia e dispositivos de resgate.
A primeira passagem começa antes do laringoscópio: posição, pré-oxigenação, plano de resgate e capnografia pronta. O tubo só encerra a sequência quando ventilação, pressão e sedação pós-intubação estão garantidas.

Quando não se intuba e não se oxigena

Se máscara e dispositivo supraglótico não restauram oxigenação e o tubo não passa, o diagnóstico é cenário não intuba–não oxigena. A prioridade muda para acesso cervical de emergência, geralmente cricotireoidostomia por técnica institucional. Persistir em laringoscopias consome o último oxigênio e torna o acesso mais difícil.

Via aérea anatômica previsivelmente impossível, com ventilação espontânea preservada, favorece estratégia acordada e manutenção de respiração própria. Já paciente agônico sem oxigenação não tem tempo para técnica sofisticada: o algoritmo de resgate precisa ser simples, treinado e acionado cedo.

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Sequência segura da decisão ao ventilador

Use a mesma ordem em prova e à beira-leito: indicação, dificuldade, reserva, hemodinâmica, plano, execução, confirmação e pós-intubação.

  1. 1INDICAÇÃO: falha de oxigenação, ventilação, proteção ou trajetória previsível de deterioração.
  2. 2DIFICULDADE: separe anatômica de fisiológica; choque, hipoxemia, acidose e falência direita mudam o preparo.
  3. 3PRÉ-OXIGENE: cabeça elevada; VNI na hipoxemia grave; alto fluxo quando apropriado; cânula nasal pode permanecer durante apneia.
  4. 4PREPARE A FALHA: plano A, B, dispositivo supraglótico e acesso cervical; aspirador e capnografia testados.
  5. 5OTIMIZE A PRESSÃO: vasopressor pronto, fluido apenas se indicado; trate pneumotórax hipertensivo antes da pressão positiva.
  6. 6INDUZA E BLOQUEIE: ajuste dose à fisiologia; rocurônio ou succinilcolina conforme contraindicações.
  7. 7CONFIRME E COMPLETE: onda contínua de CO2, fixação, ventilação, analgesia-sedação e reavaliação hemodinâmica.

Dificuldade anatômica

Prevê falha de máscara, dispositivo supraglótico, laringoscopia ou passagem do tubo.

Dificuldade fisiológica

Prevê hipoxemia, hipotensão, acidemia ou colapso direito durante apneia e pressão positiva.

Confirmação

Capnografia com onda contínua; ausculta isolada não basta.

Fármacos usuais na sequência rápida do adulto

FármacoDose de referênciaQuando ajudaRisco principal
Etomidato0,3 mg/kg IVInstabilidade hemodinâmicaMioclonia e supressão adrenal transitória
Cetamina1–2 mg/kg IV; reduzir no choqueBroncoespasmo, analgesia, pressão relativamente preservadaHipotensão no catecolamino-depletado
Propofol1–2 mg/kg IV; reduzir muito no gravePaciente hemodinamicamente estávelVasodilatação e depressão miocárdica
Rocurônio1,2 mg/kg IVBloqueio rápido sem riscos da succinilcolinaParalisia prolongada
Succinilcolina1–1,5 mg/kg IVInício e recuperação rápidosHipercalemia, bradicardia, hipertermia maligna

Nunca administre bloqueador sem ter fármaco de sedação pós-intubação disponível.

Succinilcolina não é segura em hipercalemia e estados de up-regulation de receptor nicotínico.

Oxigenação tem prioridade sobre colocar o tubo.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Ventilação com bolsa durante a sequência rápida

Sequência clássica

Evita ventilação entre indução e passagem do tubo para reduzir insuflação gástrica.

Ensino clássico de RSI.

Paciente crítico hipoxêmico

Ventilação cuidadosa pode ser usada quando a reserva é mínima e a dessaturação representa risco maior.

SCCM 2023 e ensaios contemporâneos de intubação crítica.

Na prova

A regra contemporânea é individualizar. Em alto risco de dessaturação, ventilação suave com baixa pressão pode reduzir hipoxemia; em alto risco de aspiração, minimizar insuflação gástrica continua importante. Alternativas absolutas — 'nunca ventilar' ou 'sempre ventilar' — ignoram o risco dominante.

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Caso resolvido

Homem de 64 anos com pneumonia grave, SpO2 86% apesar de alto fluxo, FR 38, uso de musculatura acessória, PA 82×48 mmHg após pequena reposição, lactato 5,2 mmol/L. VNI melhora a saturação para 94%, mas mantém exaustão. Ultrassom mostra ventrículo esquerdo hiperdinâmico e sem congestão importante.
indicação
Falha de oxigenação e trajetória de fadiga: intubação deve ocorrer antes da parada.
fisiologia
Via aérea fisiologicamente difícil por hipoxemia e choque; alto risco de hipotensão peri-intubação.
preparo
Manter VNI para pré-oxigenação, cabeça elevada, noradrenalina já iniciada, material de resgate e capnografia prontos.
sequência
Indutor hemodinamicamente apropriado em dose ajustada e rocurônio 1,2 mg/kg; primeira tentativa pelo operador mais experiente com videolaringoscópio.
depois
Confirmar por onda de CO2, iniciar analgesia-sedação, ventilação protetora e reavaliar pressão imediatamente.
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Agora feche você

Mulher de 35 anos com asma grave, fala palavras isoladas, tórax silencioso, pH 7,12 e PaCO2 72 mmHg. Está agitada, SpO2 89% com máscara, PA 118×70 mmHg. Não tolera pré-oxigenação.
achado
Exaustão ventilatória e hipercapnia progressiva indicam controle da via aérea; agitação impede criar reserva.
conduta
Preparar toda a sequência e considerar sedação dissociativa titulada para permitir pré-oxigenação, seguida de RSI com cetamina e bloqueador, ventilando com tempo expiratório longo e vigilância de auto-PEEP.
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Onde a banca derruba

  1. 1Esperar a saturação cair para decidir Trabalho respiratório, fadiga e trajetória podem indicar intubação antes da hipoxemia terminal.
  2. 2Chamar via aérea fácil porque a anatomia parece normal Choque, acidose e hipoxemia fazem a via aérea fisiologicamente difícil e concentram as paradas peri-intubação.
  3. 3Dar grande volume antes de toda intubação Fluido só ajuda o responsivo; congestão e falência direita pioram. Vasopressor e tratamento etiológico podem ser a medida correta.
  4. 4Usar dose plena de propofol no choque A vasodilatação e a depressão miocárdica podem precipitar colapso. A dose do indutor precisa refletir a fisiologia.
  5. 5Confirmar apenas por ausculta Sons transmitidos e expansão enganosa ocorrem. O padrão é capnografia com onda contínua.
  6. 6Repetir a mesma laringoscopia até funcionar Cada tentativa piora hipoxemia e edema. Reoxigene e mude operador, dispositivo ou plano.
  7. 7Esquecer analgesia-sedação porque o paciente recebeu bloqueador Paralisia não trata consciência nem dor. Sedação pós-tubo deve estar preparada antes da sequência.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trismo, estridor e distorção anatômica desenham uma via aérea difícil previsível — e nessa situação a sequência rápida é armadilha: ao abolir o esforço respiratório e o tônus muscular, pode-se perder a via aérea sem conseguir intubar nem ventilar. A conduta segura é assegurar a via aérea com o paciente acordado, sob visão, tipicamente por fibroscopia, com cirurgião escovado e material de traqueostomia aberto. Ventilação não invasiva não trata obstrução mecânica alta e apenas atrasa. A cricotireoidostomia é resgate depois da falha, não primeira escolha eletiva. Corticoide pode reduzir edema como adjuvante, mas não substitui a via aérea nem o controle do foco.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os quatro motivos para intubar e os quatro planos de via aérea. Depois, compare rocurônio e succinilcolina.

em 30 dias

Desenhe uma RSI completa para hipoxemia e choque, incluindo pré-oxigenação, pressão, doses, confirmação e pós-intubação.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Paciente com choque e acidose metabólica grave mantém FR 42 para compensar. Explique por que a intubação pode piorar a acidemia e programe o ventilador para não retirar abruptamente a ventilação minuto. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Via aérea no paciente crítico — Preparatório para provas | OsceLabs