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Síncope

A prova entrega uma perda transitória de consciência e cobra três decisões em sequência: é síncope mesmo, de qual das três famílias, e quem pode ir para casa — tudo com história, pressão nas duas posições e um ECG.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 68 anos, hipertenso, comparece ao pronto-socorro após episódio de perda súbita e transitória da consciência enquanto subia escadas. Relata palpitações rápidas precedendo o evento e recuperação espontânea completa em menos de 1 minuto, sem confusão pós-episódio. Nega aura, movimentos tônico-clônicos ou liberação esfincteriana. História de infarto agudo do miocárdio há 4 anos. Exame físico: PA 128/80 mmHg, FC 76 bpm, ausculta cardíaca sem sopros. ECG de repouso: ritmo sinusal, onda Q em parede inferior e QRS de 130 ms. Considerando a estratificação de risco desse paciente com síncope, qual é a conduta mais adequada?

02

Como esse tema cai

Síncope é o tema em que a banca testa se o candidato sabe não pedir exame. A vinheta clássica traz uma perda transitória de consciência e quatro ou cinco condutas; as erradas são tomografia de crânio, Doppler de carótidas, eletroencefalograma e ecocardiograma 'para todos'. A resposta quase sempre sai de três instrumentos baratos: história dirigida, pressão arterial deitado e em pé, e ECG de 12 derivações. O que a prova cobra é o raciocínio em três camadas — confirmar que é síncope (e não crise epiléptica, hipoglicemia ou queda), encaixar em uma das três famílias (reflexa, ortostática, cardíaca) e estratificar o risco para decidir entre alta e investigação intensiva.

A síncope do adulto não tem PCDT nem linha de cuidado do Ministério da Saúde. A régua prática, inclusive a que as bancas brasileiras usam, é a diretriz europeia de síncope de 2018 (ESC); o principal documento brasileiro que encosta no tema é a Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis, de 2023, na hora de decidir marcapasso — e é exatamente aí que as duas réguas divergem, como detalhado adiante.

O peso do tema vem da mistura de prevalência com risco assimétrico: a imensa maioria das síncopes é reflexa e benigna, mas escondida no meio delas está a síncope cardíaca, cuja mortalidade é a da doença de base. A banca adora os dois extremos — o jovem com pródromo típico que não precisa de nada além de orientação, e o paciente com síncope ao esforço, sem pródromo ou com ECG alterado, que não pode receber alta.

03

O que muda decisão

O que é síncope — e o que está só imitando

Síncope é a perda transitória de consciência causada por hipoperfusão cerebral global, com início rápido, duração curta e recuperação espontânea e completa. Cada palavra dessa definição elimina um imitador: perda prolongada ou recuperação incompleta não é síncope; perda sem hipoperfusão (crise epiléptica, hipoglicemia, intoxicação, trauma de crânio) também não. A perda transitória de consciência — o guarda-chuva maior — tem quatro marcas: duração curta, controle motor anormal, perda de responsividade e amnésia do período inconsciente.

O imitador mais cobrado é a crise epiléptica, e a pegadinha é que síncope também sacode: abalos mioclônicos ocorrem com frequência na síncope, por hipoperfusão cortical. O que separa os dois quadros é a semiologia fina do abalo e do despertar. Na síncope, os abalos são poucos (menos de dez), irregulares, assimétricos e começam depois da perda de consciência; a consciência volta em 10 a 30 segundos e a confusão dura menos de dez segundos. Na crise tônico-clônica, os abalos são muitos (dezenas a uma centena), síncronos e simétricos, coincidem com o início da perda de consciência, e o paciente desperta com déficit de memória e confusão que dura muitos minutos. Mordedura lateral de língua aponta crise; mordedura de ponta é rara e pode ocorrer na síncope. Incontinência urinária, olhos abertos durante o episódio e cansaço depois não separam nada — ocorrem nos dois.

Dois imitadores neurológicos derrubam candidato por excesso de zelo. O acidente isquêmico transitório carotídeo não causa perda de consciência isolada — é déficit focal sem síncope; por isso Doppler de carótidas não faz parte da investigação de síncope com exame neurológico normal. O AIT vertebrobasilar pode até rebaixar consciência, mas praticamente nunca sem sinais focais associados (ataxia, diplopia, disartria, vertigem). Já a pseudossíncope psicogênica aparece como episódios muito frequentes, prolongados (minutos), de olhos fechados, com frequência cardíaca e pressão normais durante o evento — o padrão-ouro para documentá-la é filmar o episódio (em casa ou durante tilt-test) mostrando hemodinâmica e EEG normais com o paciente inconsciente na aparência.

A hipoglicemia entra no diferencial da perda de consciência, não da síncope: costuma ter pródromo adrenérgico próprio, não se resolve espontânea e completamente em segundos e exige correção. Uma glicemia capilar resolve a dúvida na porta do pronto-socorro.

As três famílias

A síncope reflexa (neuromediada) é a mais comum em qualquer idade. Inclui a vasovagal — desencadeada por ortostatismo prolongado ou estresse emocional (dor, medo, sangue, instrumentação), com pródromo autonômico progressivo de palidez, sudorese e náusea —, a situacional (micção, evacuação, deglutição, tosse, espirro, pós-exercício, riso) e a síndrome do seio carotídeo do idoso (rotação cefálica, colarinho apertado, barbear). Existe ainda a forma não clássica, sem gatilho ou pródromo aparente, que só se rotula depois de excluída cardiopatia. O mecanismo mistura, em proporções variáveis, vasodepressão (queda de tônus simpático e da pressão) e cardioinibição (bradicardia ou assistolia vagal) — e o gatilho não prevê qual componente domina.

A síncope por hipotensão ortostática é a queda de pressão ao assumir a posição em pé que o sistema autonômico não compensa. A causa mais comum é medicamentosa: vasodilatadores, diuréticos, antidepressivos, fenotiazinas — e, no idoso polimedicado, a combinação deles. Seguem-se a depleção de volume (hemorragia, vômitos, diarreia) e a falência autonômica, primária (doença de Parkinson, atrofia de múltiplos sistemas, demência com corpos de Lewy, falência autonômica pura) ou secundária (diabetes, amiloidose, lesão medular, uremia). O quadro piora de manhã, após refeições, no calor e após exercício.

A síncope cardíaca é a que mata. Vem de arritmia — bradicardias por doença do nó sinusal ou do sistema de condução, taquicardias ventriculares ou supraventriculares rápidas — ou de obstrução estrutural ao fluxo: estenose aórtica, miocardiopatia hipertrófica, mixoma atrial, tamponamento, disfunção de prótese, e as duas grandes vasculares, tromboembolismo pulmonar e dissecção de aorta. As marcas clínicas: síncope durante esforço ou deitado, palpitação súbita imediatamente antes de apagar, ausência de pródromo, história familiar de morte súbita em jovem e cardiopatia estrutural conhecida.

A distribuição etária ajuda na vinheta: o jovem saudável com gatilho e pródromo é reflexo até prova em contrário; o idoso acumula as três famílias ao mesmo tempo — reflexo do seio carotídeo, ortostatismo por remédio e arritmia — e é nele que a investigação precisa ser mais disciplinada, não mais dispersa.

Ilustração em três painéis dos mecanismos da síncope: reflexo vasovagal, hipotensão ortostática e causa cardíaca.
As três famílias da síncope: reflexa (arco vagal), ortostática (represamento venoso ao levantar) e cardíaca (arritmia ou obstrução ao fluxo).

Avaliação inicial: história, pressão nas duas posições e ECG

Todo paciente com síncope recebe três coisas: história dirigida (do paciente E de quem viu), exame físico com pressão arterial deitado e após 3 minutos em pé, e ECG de 12 derivações. A história pergunta posição e atividade no momento (em pé parado? esforço? deitado?), gatilho (dor, emoção, micção, tosse, rotação cefálica), pródromo (autonômico? palpitação súbita? nenhum?), duração e recuperação, recorrência desde quando, medicamentos e a história familiar de morte súbita precoce.

A avaliação inicial não é triagem — ela fecha diagnóstico numa boa parte dos casos, com critérios de classe I. Síncope vasovagal é altamente provável quando precipitada por dor, medo ou ortostatismo e acompanhada do pródromo progressivo típico (palidez, sudorese, náusea). Síncope situacional é altamente provável quando ocorre durante ou imediatamente após o gatilho específico. Síncope ortostática está confirmada quando ocorre em pé e há hipotensão ortostática significativa concomitante na medida. E síncope arrítmica é altamente provável direto pelo ECG quando há bradicardia sinusal persistente abaixo de 40 bpm ou pausas sinusais acima de 3 segundos em vigília, BAV de segundo grau Mobitz II ou BAV total, bloqueio de ramo alternante, TV ou TSV rápida paroxística, TV não sustentada polimórfica com QT longo ou curto, ou disfunção de marcapasso/CDI com pausas. Fechou critério, acabou a investigação: trata-se.

O que não entra de rotina: tomografia de crânio, Doppler de carótidas, EEG, radiografia de tórax e bateria laboratorial ampla têm baixíssimo rendimento diagnóstico na síncope e só se justificam quando a clínica aponta para eles — trauma craniano na queda, déficit focal, suspeita de sangramento (aí sim hematócrito), suspeita de TEP (aí sim D-dímero). Ecocardiograma é para quem tem cardiopatia estrutural conhecida ou suspeitada pelo exame ou pelo ECG — não é peça obrigatória do pacote inicial.

Dois complementos da beira de leito ampliam a avaliação inicial em cenários específicos: a massagem do seio carotídeo em maiores de 40 anos com síncope inexplicada de padrão reflexo, e a glicemia capilar quando a consciência não voltou completa.

Estratificação de risco no pronto-socorro

Quando a avaliação inicial não fecha diagnóstico, a pergunta muda: qual o risco de desfecho grave? A resposta vem de quatro colunas — o evento, os antecedentes, o exame físico e o ECG — cada uma com marcadores de baixo e de alto risco, e é essa tabela que decide o destino do paciente (o quadro completo está no bloco de critérios).

São de baixo risco: pródromo autonômico típico, gatilho súbito desagradável (visão, som, cheiro, dor), ortostatismo prolongado, lugar quente e cheio, refeição, tosse/micção/evacuação, rotação cefálica, história de anos de episódios recorrentes iguais ao atual começando antes dos 40, ausência de cardiopatia, exame normal e ECG normal. São de alto risco maior: desconforto torácico, dispneia, dor abdominal ou cefaleia de início novo acompanhando a síncope; síncope durante esforço ou em decúbito; palpitação súbita imediatamente antes. Três achados de evento são de risco intermediário — 'menores' — e só viram alto risco se houver cardiopatia estrutural ou ECG alterado: ausência de pródromo (ou pródromo curto, abaixo de 10 segundos), história familiar de morte súbita em jovem e síncope sentado.

No exame físico, gritam alto risco: pressão sistólica inexplicada abaixo de 90 mmHg, sinal de sangramento digestivo ao toque retal, bradicardia persistente abaixo de 40 bpm em vigília sem treinamento físico e sopro sistólico ainda sem diagnóstico. No ECG: isquemia aguda, Mobitz II ou BAV total, FA ou bradicardia sinusal abaixo de 40 bpm, pausas acima de 3 segundos, bloqueio de ramo com distúrbio de condução intraventricular, hipertrofia ventricular ou ondas Q, TV sustentada ou não, disfunção de dispositivo, padrão de Brugada tipo 1 e QTc acima de 460 ms em traçados repetidos.

O destino sai da classificação, com três saídas de classe I: baixo risco recebe alta do próprio pronto-socorro com orientação; alto risco fica para avaliação intensiva precoce — em unidade de observação, unidade de síncope ou internação; quem não é nem um nem outro fica em observação no pronto-socorro ou na unidade de síncope em vez de internar. Internação não é sinônimo de investigação: a diretriz empurra o máximo possível para observação estruturada e ambulatório rápido, porque internar paciente de baixo risco causa dano sem achado. Os números que sustentam a calma: em 7 a 30 dias, a mortalidade é de 0,8% e cerca de 10% têm algum desfecho grave — quase metade já identificado durante a própria passagem pelo pronto-socorro.

Sobre os escores (San Francisco, OESIL, EGSYS, Canadian Syncope Risk Score): a posição da diretriz europeia é desconfortável para quem gosta de fórmula — nenhum deles superou o julgamento clínico estruturado na predição de desfecho grave de curto prazo, e a recomendação é classe IIb, com a instrução explícita de não usá-los sozinhos para estratificar. Pré-síncope, aliás, carrega o mesmo prognóstico da síncope e se maneja igual.

Confirmando o mecanismo: os testes de segunda linha

massagem do seio carotídeo: indicada em maiores de 40 anos com síncope de origem desconhecida compatível com mecanismo reflexo. Faz-se em decúbito E em ortostase, com monitorização contínua batimento a batimento. Hipersensibilidade do seio carotídeo é o achado laboratorial — pausa acima de 3 segundos e/ou queda da pressão sistólica acima de 50 mmHg — e é comum em idoso assintomático; síndrome do seio carotídeo, que muda conduta, exige que a massagem reproduza a síncope espontânea em paciente cuja clínica é compatível (nesses, a pausa costuma passar de 6 segundos). Cautela em quem teve AIT ou AVC ou tem estenose carotídea acima de 70%: o risco neurológico da manobra, embora raro (cerca de 0,24%), existe.

teste de inclinação (tilt-test): mesa a 60-70°, fase passiva de cerca de 20 minutos e, se negativa, sensibilização farmacológica — no protocolo brasileiro clássico, nitrato sublingual. As respostas seguem a classificação VASIS: mista, cardioinibitória (sem ou com assistolia) e vasodepressora. O tilt serve para a síncope reflexa duvidosa — forma atípica, sem pródromo, quedas inexplicadas do idoso, diferenciação de crise convulsiva — e para documentar POTS (aumento da FC acima de 30 bpm, ou acima de 120 bpm, em 10 minutos de ortostase, sem hipotensão) e pseudossíncope psicogênica (episódio 'reproduzido' sem qualquer alteração hemodinâmica). O que o tilt não é: teste confirmatório para vasovagal típica — essa já fechou na avaliação inicial e não precisa de mais nada. O resultado expressa suscetibilidade hipotensiva, e um tilt positivo em quem tem cardiopatia não exclui a causa cardíaca.

monitorização: a escolha é ditada pela frequência dos episódios. Holter de 24-72 horas só rende se o episódio for quase diário; gravador de eventos externo cobre semanas; o monitor de eventos implantável (loop recorder) cobre anos e é o divisor de águas da síncope recorrente inexplicada — multiplica por 3,7 a chance de diagnóstico em comparação com a estratégia convencional, e quando flagra o episódio, cerca de metade mostra assistolia. O padrão-ouro diagnóstico é a correlação sintoma-ECG; pausas assintomáticas acima de 3 segundos, TSV rápida sustentada ou TV documentadas também contam como achado significativo.

estudo eletrofisiológico ficou para nichos: síncope com infarto prévio ou cicatriz, bloqueio bifascicular com suspeita de BAV paroxístico quando a monitorização não resolveu, e palpitação súbita pré-síncope com suspeita de taquiarritmia. Ecocardiograma entra quando há suspeita estrutural — sopro, ECG alterado, cardiopatia conhecida.

Tratamento: cada família tem o seu

síncope reflexa: a base é educação — explicar o mecanismo benigno, mapear e evitar gatilhos, reconhecer o pródromo e deitar-se — e ela sozinha derruba a recorrência. Nos que têm pródromo e menos de 60 anos, manobras de contrapressão física (cruzar as pernas contraindo, agarrar uma mão com a outra e tracionar, agachar) abortam ou adiam o episódio. No hipertenso com suscetibilidade hipotensiva, reduzir ou retirar anti-hipertensivo, mirando sistólica em torno de 140 mmHg, reduz recorrência. Fludrocortisona e midodrina são classe IIb para formas ortostáticas em jovens com pressão baixa-normal e sintomas refratários. Betabloqueador não funciona — classe III, testado e reprovado em ensaios randomizados. Tilt training tem eficácia pobre e adesão pior.

Marcapasso na síncope reflexa é exceção rigidamente cercada: paciente acima de 40 anos com cardioinibição espontânea documentada — pausa sintomática acima de 3 segundos ou assintomática acima de 6 segundos por parada sinusal, BAV ou ambos (classe IIa na régua europeia); síndrome do seio carotídeo cardioinibitória recorrente e imprevisível (IIa); resposta assistólica ao tilt em maiores de 40 com recorrência (IIb). Sem cardioinibição documentada, marcapasso é classe III — não se estimula vaso que dilata. A diretriz brasileira de dispositivos de 2023 corta essa carne de outro jeito, e a diferença está no bloco de divergências.

hipotensão ortostática: a primeira prescrição é um corte — revisar a lista de medicamentos e reduzir ou trocar os hipotensores, na frente dos quais estão diuréticos, vasodilatadores e alfabloqueadores. Depois: água (2-3 L/dia) e sal liberado quando não houver contraindicação, levantar em etapas, contrapressão, meia elástica ou cinta abdominal, cabeceira elevada para dormir, e — se insuficiente — midodrina ou fludrocortisona. No parkinsoniano e no diabético com falência autonômica, a meta é sintoma e não número: alguma hipertensão supina costuma ser o preço da ortostase tolerável.

síncope cardíaca: trata-se a causa, não a síncope — marcapasso na doença do nó e nos bloqueios avançados, ablação ou fármaco na taquiarritmia, troca valvar na estenose aórtica sintomática (síncope É sintoma clássico da tríade), manejo específico em miocardiopatia hipertrófica, TEP e dissecção. Nas canalopatias e cardiopatias arritmogênicas, a síncope inexplicada pesa na decisão de CDI. Enquanto a causa não está controlada, o paciente não dirige e não fica sozinho em atividade de risco.

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Baixo ou alto risco: a decisão do pronto-socorro

A régua europeia de 2018 substitui escore por leitura estruturada de quatro colunas — evento, antecedentes, exame, ECG. O fluxo abaixo é o caminho da vinheta típica; a tabela principal condensa os marcadores que decidem o destino.

  1. 1Confirme que é síncope: início rápido, duração curta, recuperação espontânea completa — contra crise epiléptica, hipoglicemia, queda simples e pseudossíncope.
  2. 2Aplique o tripé em todos: história dirigida + PA deitado e após 3 min em pé + ECG 12 derivações.
  3. 3A avaliação inicial fechou diagnóstico (vasovagal típica, situacional, ortostática confirmada, arrítmica pelo ECG)? Trate e encerre a investigação.
  4. 4Não fechou: classifique com a tabela de risco, coluna por coluna.
  5. 5Só baixo risco → alta do pronto-socorro com orientação, sem exame adicional.
  6. 6Qualquer alto risco → monitorização e avaliação intensiva precoce: unidade de observação, unidade de síncope ou internação.
  7. 7Nem baixo nem alto → observação no PS ou unidade de síncope, em vez de internação.
  8. 8Recorrente e ainda inexplicada após a fase aguda → monitorização guiada pela frequência dos episódios, até o loop recorder implantável.

Baixo risco

Pródromo autonômico típico, gatilho identificável, anos de episódios iguais começando antes dos 40, sem cardiopatia, exame e ECG normais. Conduta: alta com orientação — todo exame a mais é dano.

Alto risco — marcadores maiores

Dor torácica, dispneia, dor abdominal ou cefaleia novas; síncope ao esforço ou deitado; palpitação súbita antes de apagar; PAS < 90 inexplicada; sangramento digestivo; bradicardia < 40; sopro sistólico sem diagnóstico; ECG de alto risco. Qualquer um basta: observação monitorizada ou internação.

Marcadores menores — condicionados

Sem pródromo (ou pródromo < 10 s), história familiar de morte súbita em jovem, síncope sentado. Sozinhos, não internam; com cardiopatia estrutural ou ECG alterado, viram alto risco.

Escores

San Francisco, OESIL, EGSYS e Canadian não superaram o julgamento clínico estruturado (classe IIb). Nenhum escore normal anula um achado maior na mesa.

Coluna da avaliaçãoAponta BAIXO riscoAponta ALTO risco
EventoPródromo autonômico típico; gatilho súbito desagradável; ortostatismo prolongado, calor, aglomeração; durante refeição; tosse, micção, evacuação; rotação cefálicaDor torácica, dispneia, dor abdominal ou cefaleia de início novo; durante esforço ou em decúbito; palpitação súbita imediatamente antes. Menores (condicionados): sem pródromo ou pródromo < 10 s; história familiar de morte súbita em jovem; síncope sentado
AntecedentesAnos de síncopes recorrentes com as mesmas características, início antes dos 40; sem cardiopatia estruturalDoença estrutural ou coronariana grave: insuficiência cardíaca, FEVE reduzida, infarto prévio
Exame físicoNormalPAS < 90 mmHg inexplicada; sugestão de sangramento digestivo ao toque; bradicardia persistente < 40 bpm em vigília sem treinamento; sopro sistólico não diagnosticado
ECGNormalIsquemia aguda; Mobitz II ou BAVT; FA ou bradicardia sinusal < 40 bpm; pausas > 3 s; bloqueio de ramo, distúrbio de condução, HVE ou ondas Q; TV; disfunção de dispositivo; Brugada tipo 1; QTc > 460 ms. Menores (condicionados): Mobitz I, BAV 1º grau com PR muito longo, bradicardia 40-50 assintomática, TSV/FA paroxística, pré-excitação, QTc ≤ 340 ms, Brugada atípico, T negativa em precordiais direitas/ondas épsilon

Síncope × crise epiléptica: o que separa de verdade

TraçoSíncopeCrise tônico-clônica
GatilhoMuito frequente (dor, ortostatismo, emoção, micção)Raro (fotoestimulação é o clássico)
PródromoAutonômico: palidez, sudorese, náusea; ou palpitação na cardíacaAura estereotipada: déjà vu, sensação epigástrica ascendente, odor desagradável
Abalos< 10, irregulares, assimétricos, começam APÓS a perda de consciência20-100, síncronos, simétricos ou hemilaterais, coincidem com o início da perda
Mordedura de línguaRara, na pontaLateral (raramente bilateral)
Recuperação10-30 segundos, lúcido em seguida (confusão < 10 s)Confusão e déficit de memória por muitos minutos
Pouco úteis para separarIncontinência, olhos abertos, mioclonia presente, cansaço posterior — ocorrem nos doisIdem

Medidas de ortostase: definições operacionais

EntidadeCritérioObservação
Hipotensão ortostática clássicaQueda sustentada da PAS ≥ 20 mmHg ou da PAD ≥ 10 mmHg, ou PAS caindo abaixo de 90 mmHg, em até 3 min de ortostase ativaO corte absoluto de 90 mmHg foi acréscimo da régua europeia de 2018 — útil em quem já parte de sistólica baixa. Diagnóstico de síncope ortostática: queda + reprodução dos sintomas
Resposta cronotrópicaFC sobe pouco (≤ 10 bpm) na falência autonômica; sobe exagerado na hipovolemia e anemiaAjuda a separar hipotensão neurogênica de depleção de volume
POTSAumento da FC > 30 bpm (ou FC > 120 bpm) em 10 min de ortostase, SEM hipotensão, reproduzindo sintomasIntolerância ortostática do jovem, mais comum em mulheres
Massagem do seio carotídeoHipersensibilidade: pausa > 3 s e/ou queda da PAS > 50 mmHg. Síndrome: reprodução da síncope + clínica compatível, em > 40 anosEvitar após AIT/AVC recente e na estenose carotídea > 70%

Pré-síncope tem o mesmo prognóstico da síncope e recebe a mesma estratificação.

Exames de rotina de baixo rendimento (TC de crânio, carótidas, EEG, RX de tórax, bateria laboratorial) só entram quando a clínica aponta — a diretriz europeia é explícita em não os pedir de forma rotineira.

Cerca de 10% dos pacientes do pronto-socorro têm desfecho grave em 7-30 dias, quase metade ainda durante a estadia; mortalidade no período é 0,8%. Internar baixo risco não melhora esses números.

Paciente com dispositivo implantado e síncope: interrogar o dispositivo primeiro — é a monitorização que já está dentro do paciente.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Marcapasso na síncope reflexa cardioinibitória

ESC 2018 — assistolia espontânea documentada, classe IIa

Marcapasso bicameral deve ser considerado (IIa) em maiores de 40 anos com pausas espontâneas documentadas — sintomáticas > 3 s ou assintomáticas > 6 s — por parada sinusal, BAV ou ambos; síndrome do seio carotídeo cardioinibitória recorrente e imprevisível também é IIa. A própria ESC rebaixou o seio carotídeo de classe I (que era a posição das diretrizes de estimulação de 2013) para IIa, argumentando desfechos semelhantes entre as formas assistólicas. Resposta assistólica apenas ao tilt: IIb. Sem cardioinibição documentada: III.

ESC 2018, Eur Heart J 2018;39:1883-1948

Diretriz Brasileira de DCEI 2023 — seio carotídeo classe I, vasovagal classe IIb

O documento brasileiro mantém a tradição das diretrizes de estimulação: síncope documentada (ou história convincente) atribuível à hipersensibilidade do seio carotídeo com resposta cardioinibidora (pausa > 3 s) ou mista à massagem é indicação classe I de marcapasso; já a síncope vasovagal só chega ao dispositivo como classe IIb — recorrências muito frequentes, bradicardia/assistolia significativa documentada associada aos episódios e refratariedade ao tratamento não invasivo.

Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis — 2023, Arq Bras Cardiol

Na prova

O recorte se identifica pelo vocabulário e pelas classes: enunciado que fala em 'síndrome de hipersensibilidade do seio carotídeo' com indicação classe I ecoa o documento brasileiro de dispositivos (2023); enunciado que exige pausa espontânea > 3 s sintomática ou > 6 s assintomática em maior de 40 anos, ou que trata seio carotídeo como IIa, está lendo a diretriz europeia (2018). Alternativas que oferecem marcapasso a paciente jovem, sem documentação de assistolia ou com resposta puramente vasodepressora estão erradas nas duas réguas — esse é o ponto de concordância que a banca mais explora.

Definição de hipotensão ortostática: 20/10 com ou sem o corte absoluto de 90 mmHg

Consenso clássico de disautonomia (2011) e diretriz americana (2017)

Hipotensão ortostática é queda sustentada da PAS ≥ 20 mmHg ou da PAD ≥ 10 mmHg em até 3 minutos de ortostase — sem corte absoluto de pressão. É a definição que os textos de semiologia e a diretriz americana de síncope de 2017 carregam.

Freeman et al., consenso de 2011; ACC/AHA/HRS 2017 (recorte conferido em comparação publicada no JACC, 2019)

ESC 2018 — acrescenta PAS < 90 mmHg

A diretriz europeia de 2018 somou à queda relativa um critério absoluto: PAS caindo abaixo de 90 mmHg também define a resposta anormal, com o argumento de que em pacientes com sistólica basal já baixa (< 110 mmHg) a queda de 20 mmHg pode não aparecer e o sintoma sim.

ESC 2018, Eur Heart J 2018;39:1883-1948

Na prova

Se as alternativas trazem 'PAS < 90 mmHg' como critério de positividade, o enunciado foi escrito sobre a régua europeia de 2018; se a questão se limita ao 20/10 em 3 minutos, qualquer das duas fontes a sustenta — esse par de números é consensual e costuma ser o que decide a alternativa. A diferença é de data e de refinamento, não de discordância clínica: o acréscimo europeu cobre o paciente que parte de pressão baixa.

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Caso resolvido

Homem, 52 anos, trazido ao pronto-socorro após perda de consciência no escritório. Estava sentado quando sentiu palpitação de início súbito e 'apagou' segundos depois, com queda da cadeira. Testemunha: inconsciente por menos de um minuto, sem abalos, acordou lúcido. Primeiro episódio; nega dor torácica. Sem doenças conhecidas, sem medicações. Exame: PA 128/82 mmHg deitado e 124/80 mmHg em pé, FC 78 bpm, sem sopros. ECG: PR curto com onda delta e QRS alargado.
achado
Síncope sentado, sem pródromo autonômico, precedida de palpitação de início súbito — dois marcadores de evento (um maior: palpitação imediatamente antes; um menor: posição sentada) — em ECG com pré-excitação ventricular (Wolff-Parkinson-White).
interpretação
A palpitação súbita seguida de síncope é marcador maior de alto risco, e o achado menor (sentado) se soma a um ECG anormal: o quadro é de síncope cardíaca arrítmica altamente provável — taquicardia por reentrada usando a via acessória, com baixo débito durante o episódio. Vasovagal está descartada pela ausência de gatilho e pródromo; tilt-test não tem papel aqui.
conduta
Não recebe alta do pronto-socorro: observação monitorizada e encaminhamento para estudo eletrofisiológico com ablação da via acessória — síncope em portador de pré-excitação é justamente o cenário em que a via pode conduzir rápido demais. Orientar a não dirigir até o tratamento definitivo.
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Agora feche você

Mulher, 19 anos, desmaia durante coleta de sangue em campanha de doação. Refere que viu a agulha, sentiu calor, náusea e 'a visão escurecendo' antes de perder os sentidos por cerca de 20 segundos. Acordou orientada, pálida e suada. Segundo episódio na vida — o primeiro foi aos 15 anos, em pé numa fila ao sol, com os mesmos sintomas. Exame físico normal, PA sem queda ortostática, ECG normal.
achado
Síncope precipitada por instrumentação/visão de sangue, com pródromo autonômico progressivo (calor, náusea, escurecimento visual, palidez, sudorese), recuperação rápida e completa, recorrência com as mesmas características desde a adolescência, exame e ECG normais.
diagnóstico
Síncope vasovagal — o critério de classe I da avaliação inicial está completo (gatilho emocional/dor + pródromo típico), em paciente jovem sem nenhum marcador de alto risco.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir tomografia de crânio e Doppler de carótidas 'para investigar o desmaio' Atrai porque perda de consciência soa neurológica. Mas AIT carotídeo não causa perda de consciência isolada, e a síncope com exame neurológico normal não é doença cerebrovascular: TC, Doppler e EEG têm rendimento baixíssimo e só entram quando há déficit focal, trauma craniano na queda ou suspeita real de crise epiléptica. Na alternativa da prova, o pacote 'TC + EEG + carótidas' é quase sempre o distrator.
  2. 2Tilt-test para confirmar vasovagal típica Atrai porque parece rigor. A vasovagal com gatilho e pródromo típicos fecha diagnóstico de classe I na avaliação inicial — o tilt é para a dúvida: forma atípica, quedas inexplicadas, suspeita de pseudossíncope ou de POTS. Pedir tilt no caso típico é o mesmo erro de pedir exame para o que a história já resolveu.
  3. 3Tratar abalo mioclônico como crise epiléptica Atrai porque testemunhas descrevem 'convulsão'. A síncope sacode com frequência: poucos abalos, irregulares, assimétricos e DEPOIS da perda de consciência, com despertar lúcido em segundos. Crise verdadeira tem dezenas de abalos síncronos desde o início, mordedura lateral e confusão prolongada. Rotular síncope convulsiva de epilepsia rende anticonvulsivante desnecessário e, pior, deixa uma causa cardíaca sem investigação.
  4. 4Deixar o escore decidir sozinho Atrai porque escore dá sensação de objetividade. San Francisco, OESIL, EGSYS e afins não superaram o julgamento clínico estruturado e são classe IIb — auxílio, nunca substituto. Um paciente com sopro sistólico não explicado ou síncope ao esforço é de alto risco ainda que qualquer escore some zero pontos.
  5. 5Betabloqueador para 'prevenir' síncope vasovagal Atrai pelo raciocínio mecânico (menos contratilidade, menos reflexo). Ensaios randomizados reprovaram: classe III. O tratamento que funciona é educação, contrapressão, revisão de hipotensores — e, num recorte estreito de maiores de 40 anos com assistolia espontânea documentada, marcapasso.
  6. 6Banalizar a síncope do esforço ou em decúbito Atrai quando o paciente chega bem e com ECG de repouso normal. Síncope durante esforço ou deitado é marcador maior de alto risco — pensa-se em estenose aórtica, miocardiopatia hipertrófica, canalopatia, arritmia — e o paciente sai do pronto-socorro apenas com investigação encaminhada (eco, monitorização), nunca com 'retorno se precisar'.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o paciente apresenta múltiplos marcadores de alto risco para síncope cardíaca (idade avançada, cardiopatia estrutural com IAM prévio, síncope sem pródromos vasovagais, palpitações precedendo o evento e ECG anormal com Q inferior e QRS alargado sugestivo de doença de condução). Diretrizes (ESC 2018) indicam internação/observação monitorizada quando há cardiopatia estrutural e ECG anormal, pelo risco de arritmia ventricular e morte súbita. Tilt test avalia síncope reflexa/vasovagal e é inadequado como primeira linha num paciente de alto risco cardíaco. Betabloqueador não trata a causa arrítmica suspeita e Holter ambulatorial retarda a investigação de um paciente de alto risco. Massagem carotídea investiga síndrome do seio carotídeo, cujo quadro (idoso, hipersensibilidade) não é o padrão aqui, e não substitui a monitorização. A ausência de aura, pós-ictal ou movimentos tônico-clônicos torna crise epiléptica improvável, não sendo prioridade sobre a causa cardíaca.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória: (1) as três famílias com dois exemplos cada; (2) o tripé da avaliação inicial; (3) os três marcadores maiores de evento de alto risco e os três menores condicionados; (4) os números da ortostase — 20/10/90 mmHg em 3 min — e do POTS (30 bpm/120 bpm em 10 min); (5) massagem do seio carotídeo: em quem, e o que separa hipersensibilidade de síndrome; (6) as pausas que indicam marcapasso na reflexa (> 3 s sintomática, > 6 s assintomática, > 40 anos).

em 30 dias

Pegue três vinhetas: jovem com pródromo em fila; idoso polimedicado com tontura matinal ao levantar; homem de meia-idade com síncope ao esforço e sopro. Para cada uma, escreva família, risco, o que a avaliação inicial já fecha, qual exame (se algum) acrescentar e o destino — alta, observação ou internação. Depois confira na tabela de risco e no fluxo se alguma coluna ficou de fora.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 63 anos chega ao pronto-socorro depois de desmaiar subindo uma ladeira. Acordou em segundos, lúcido, e agora se sente bem — quer ir embora. Na ausculta, um sopro sistólico que ninguém havia registrado antes. Conduza a avaliação, decida os exames e o destino dele. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síncope — Preparatório para provas | OsceLabs