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Clínica MédicaNefrologia

Distúrbio mineral e ósseo da doença renal crônica: três réguas, três alvos

Distúrbio mineral e ósseo da doença renal crônica no adulto: o alvo do paratormônio, os quelantes do SUS e a cirurgia sem cirurgião

Na DRC não dialítica, interpretar cálcio, fósforo, vitamina D e tendência do PTH antes de tratar; na diálise, aplicar os alvos próprios e reconhecer quando quelante, vitamina D ativa, calcimimético ou cirurgia entram.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Sobre a periodicidade da dosagem de cálcio, fósforo e paratormônio nos pacientes com doença renal crônica, segundo os documentos brasileiros vigentes, assinale a afirmativa correta.

02

Como esse tema cai

O capítulo cobre o distúrbio mineral e ósseo do adulto com doença renal crônica: a partir de que estágio se dosa cálcio, fósforo e paratormônio, com que frequência, qual é a faixa-alvo do hormônio e de onde ela vem, qual quelante entra em cada situação e com que teto, quando se acrescenta vitamina D ativa, quando entra o calcimimético, quando a glândula sai, e onde as réguas brasileiras discordam entre si sobre cada um desses pontos.

Fica de fora o estadiamento da doença renal crônica pelas letras da filtração e da albuminúria, que tem capítulo próprio nesta apostila; fica de fora a anemia do doente renal, que tem o seu; fica de fora a hipercalcemia aguda e o hiperparatireoidismo primário, que pertencem ao capítulo dos distúrbios do cálcio; e fica de fora o distúrbio mineral do transplantado, citado apenas como o destino que a régua da sociedade trata em item separado.

A tese é que este assunto se decide por número de laboratório e por critério de dispensação, não por quadro clínico. O nome da entidade quase nunca aparece na pergunta, e o sintoma que o livro descreve aparece muito e não decide nada. O que decide é o valor do hormônio, o valor do fósforo e a regra que diz qual caixa o sistema público entrega naquele valor.

03

O que muda decisão

Fisiopatologia do DMO-DRC e o estágio em que o rastreio começa

O rim doente retém fósforo e deixa de ativar a vitamina D. A retenção e a queda do calcitriol puxam o cálcio para baixo, e a paratireoide responde subindo o hormônio. Enquanto essa resposta funciona, o fósforo do exame ainda está normal — quem já está alterado é o hormônio. A régua federal marca o momento em que a compensação quebra: com filtração abaixo de vinte a vinte e cinco mililitros por minuto, o aumento do paratormônio e do fator de crescimento de fibroblastos vinte e três já não dá conta, e a hiperfosfatemia aparece no laudo.

Isso tem consequência prática. A mesma portaria registra que níveis elevados de paratormônio podem ser observados com filtração em torno de sessenta mililitros por minuto, ou seja, já no estágio três. Fósforo normal com hormônio alto não é paciente sem distúrbio mineral: é paciente em quem a compensação ainda funciona, e é aí que dieta e quelante ainda mudam a trajetória.

Daí a regra de rastreio, que as duas réguas escrevem igual: dosar cálcio, fósforo e paratormônio a partir do estágio três, e, em crianças, já no estágio dois. A diretriz acrescenta a fosfatase alcalina, anual nos estágios quatro e cinco.

Guarde desde já o que o hormônio não faz. A portaria diz que o valor não prediz com precisão o tipo de doença óssea, sobretudo quando pouco elevado, e delimita: abaixo de cem picogramas por mililitro associa-se a osso adinâmico; acima de quatrocentos e cinquenta, a alto remodelamento ou doença mista; entre cem e quatrocentos e cinquenta, pode haver osso normal ou qualquer um dos padrões. São trezentos e cinquenta picogramas de faixa em que o número, sozinho, não diz o que há no osso.

Circuito em anel ligando um rim de contorno irregular, um par de glândulas ovais junto à tireoide, um osso longo com trabéculas rarefeitas e um segmento de intestino, com esferas de dois tamanhos circulando entre eles.
Quatro peças no mesmo circuito: o rim que retém, o intestino que absorve, as glândulas que respondem e o osso que paga a conta.

O alvo de PTH da diálise não vale para a DRC não dialítica

Para o paciente em diálise, as duas réguas principais dizem a mesma coisa. A diretriz da sociedade determina que o doente em estágio cinco ou em diálise mantenha o paratormônio entre duas e nove vezes o valor superior do método. A portaria federal escreve o mesmo para quem está em terapia renal substitutiva, e traduz: em geral, entre cento e cinquenta e seiscentos picogramas por mililitro.

Repare no que a regra tem de incomum: não é número absoluto, é múltiplo do limite do laboratório que fez o exame. A justificativa está na própria diretriz — há vários ensaios para dosar o hormônio, a maioria dos estudos até dois mil e três apoiou-se num teste hoje fora do mercado, e a comparação entre os disponíveis mostrou variabilidade significativa, porque cada um mede quantidades diferentes de moléculas ativas e inativas. Laudo sem o intervalo de referência do método é, aqui, laudo incompleto.

A tradução para cento e cinquenta a seiscentos, que a portaria oferece, é a que a prova costuma usar — e é conveniência, não regra. Um método com limite superior de sessenta e cinco produz faixa de cento e trinta a quinhentos e oitenta e cinco; outro, com limite de setenta e dois, produz cento e quarenta e quatro a seiscentos e quarenta e oito. Quem decorou só o par erra nos dois extremos, e é neles que a conduta muda.

As duas réguas também concordam sobre o que foi abandonado. A portaria registra que os níveis dos consensos anteriores, de cento e cinquenta a trezentos, apresentam limitações por se associarem a alta incidência de doença de baixo remodelamento. A faixa antiga não foi só alargada: foi acusada de produzir osso adinâmico, que leva a calcificação vascular tanto quanto o excesso de hormônio.

PTH elevado no tratamento conservador: procurar fatores modificáveis

Dois anos depois de publicar as diretrizes, o Comitê de Distúrbio Mineral Ósseo da mesma sociedade publicou um protocolo dedicado ao tratamento do hiperparatireoidismo secundário. O documento reafirma a regra dos múltiplos: evitar valores abaixo de duas vezes ou acima de nove vezes o limite superior do método, porque a doença adinâmica leva a calcificação vascular tanto quanto o hiperparatireoidismo.

A frase seguinte, no mesmo parágrafo, diz outra coisa. Ela sugere que o controle dos níveis do hormônio seja feito a partir de um valor maior que trezentos picogramas. O documento propõe intervir num valor que ele acabou de classificar como aceitável — trezentos está confortavelmente entre cento e cinquenta e seiscentos, e não é nem duas nem nove vezes coisa alguma.

O efeito prático é uma bifurcação real. Diante de um paciente em hemodiálise com paratormônio de trezentos e cinquenta, cálcio e fósforo normais, a diretriz da sociedade e a portaria federal dizem que ele está na faixa e que a conduta é acompanhar. O protocolo do comitê, da mesma sociedade, diz que esse é ponto de iniciar controle. As duas leituras estão escritas, em português, em documentos brasileiros disponíveis.

Há uma pista para saber qual leitura o enunciado quer. Quando a questão fornece o intervalo de referência do método, ela pede a regra dos múltiplos, porque o intervalo só serve para isso. Quando dá apenas o valor absoluto e um cenário de diálise estável, o par cento e cinquenta a seiscentos costuma bastar. E quando nomeia o protocolo do comitê ou reproduz a expressão maior que trezentos, o número que ela quer é o trezentos.

Periodicidade de cálcio, fósforo, PTH e fosfatase alcalina

A pergunta de quando repetir o exame parece administrativa e cai com frequência, porque a resposta é tabelada. A diretriz da sociedade publica: estágio três, anual; estágio quatro, semestral; estágio cinco ou cinco em diálise, trimestral. Três linhas, três palavras, sem exceção.

A portaria federal do distúrbio mineral publica quatro linhas e separa o hormônio dos eletrólitos. Para cálcio e fósforo: anual, semestral, trimestral no estágio cinco não dialítico e mensal em diálise. Para o paratormônio: anual, semestral, semestral ou trimestral, e trimestral. Aquela terceira célula é a única da tabela inteira com duas respostas ligadas por conjunção alternativa: no paciente que ainda não dialisa e já tem filtração abaixo de quinze, a régua manda dosar cálcio e fósforo a cada três meses e deixa o hormônio, que se altera primeiro, entre dois intervalos.

A portaria mais recente sobre a doença renal, de dois mil e vinte e quatro, publica uma terceira grade e quebra o estágio três em dois. No três A, com filtração entre quarenta e cinco e cinquenta e nove, a avaliação de potássio, cálcio, fósforo, hormônio e hemograma é anual. Nos estágios três B e quatro, a avaliação nefrológica é trimestral e cálcio, fósforo e hormônio passam a semestrais. Abaixo de quinze, o hormônio é trimestral.

O desencontro é pequeno em aparência e verificável: um paciente com filtração de trinta e cinco mililitros por minuto tem paratormônio dosado uma vez por ano pela régua da sociedade e pela portaria do distúrbio mineral, e duas vezes por ano pela portaria da progressão. É o mesmo paciente, as três réguas estão em vigor, e nenhuma menciona a outra nessa passagem. Enunciado com filtração entre trinta e quarenta e cinco que pergunte periodicidade está, sem avisar, escolhendo entre documentos federais.

Fósforo: meta sérica, dieta e modalidade de tratamento

A portaria federal dá cortes explícitos. O diagnóstico de hiperfosfatemia é laboratorial e o ponto de corte do fósforo sérico é quatro vírgula cinco miligramas por decilitro; nos pacientes em diálise, nível de até cinco vírgula cinco é considerado aceitável. O cálcio deve ser mantido dentro do limite da normalidade, geralmente entre oito vírgula cinco e dez.

A tabela equivalente da diretriz da sociedade não traz número nenhum. Nos estágios três, quatro e cinco, o valor recomendado é a frase dentro do valor de referência; no estágio cinco em diálise, é reduzir o fósforo sérico em direção ao valor normal. A tabela publica frequência de coleta com precisão e substitui o alvo por uma direção.

O texto que acompanha essa mesma tabela cita dois números, e nenhum é o corte federal: fósforo acima de três vírgula cinco na fase pré-dialítica associou-se a mais mortalidade, e uma coorte de quarenta mil pacientes em hemodiálise mostrou aumento do risco de morte acima de cinco vírgula zero.

São quatro números brasileiros para a mesma grandeza — três vírgula cinco e cinco vírgula zero no texto da sociedade, quatro vírgula cinco e cinco vírgula cinco na portaria — e as faixas que eles definem não coincidem. Um paciente em diálise com fósforo de cinco vírgula dois está acima do limiar de risco que a sociedade cita e dentro do que a portaria aceita. Antes de acusar contradição, registre o que cada par mede: os da sociedade são limiares de associação com mortalidade; os da portaria, critérios operacionais de diagnóstico e de dispensação. Por medirem coisas diferentes, coexistem. O problema é que a tabela de recomendação, que é o que o leitor apressado consulta, não publica nenhum dos quatro.

A prescrição dietética, essa sim, tem número dos dois lados. Nos estágios três e quatro, a ingestão de fósforo não passa de setecentos miligramas por dia, com proteína de zero vírgula seis a zero vírgula oito grama por quilo. No estágio cinco em diálise, sobe para oitocentos a mil miligramas, com pelo menos um grama de proteína por quilo, e com trava explícita: desde que o fósforo sérico não esteja abaixo de três vírgula cinco.

Padrões de doença óssea e o limite do PTH isolado

A portaria federal reproduz uma tabela de quatro linhas com a prevalência dos padrões ósseos no Brasil, colhida entre mil novecentos e noventa e sete e dois mil e um: doença secundária ao hiperparatireoidismo quarenta e quatro por cento, mista vinte e três vírgula nove, osteomalácia onze vírgula sete, adinâmica vinte vírgula quatro. Vale somar antes de comentar: dá cem vírgula zero exatos. A tabela fecha, tem origem única declarada e é internamente consistente.

Só então cabe a observação. Nenhuma das quatro linhas é clínica: as quatro são classes histológicas, obtidas por biópsia óssea com dupla marcação, e a própria portaria diz que o valor do hormônio não prediz com precisão qual delas o paciente tem. É uma tabela perfeita sobre uma informação que não se obtém à beira do leito, num assunto cuja conduta é decidida por dois exames de sangue.

O segundo número exige o mesmo cuidado. O protocolo do comitê, citando o censo de diálise de dois mil e onze, escreve que havia cerca de noventa e dois mil pacientes em diálise no país, que aproximadamente quarenta e quatro por cento deles tinham hiperparatireoidismo secundário e que cerca de dez por cento estavam em fila para o tratamento cirúrgico.

Os dois quarenta e quatro por cento não são a mesma medida. O da portaria é fração histológica de casuística de biópsias de mil novecentos e noventa e sete a dois mil e um; o do protocolo é fração bioquímica da população dialítica de dois mil e onze. Denominadores diferentes, métodos diferentes, catorze anos de distância, o mesmo número. É coincidência, e tomar uma como confirmação da outra é o erro que a semelhança convida a cometer.

Na mesma frase do protocolo há uma ambiguidade que muda a conta por mais do que o dobro: o pronome de dez por cento destes pacientes pode remeter aos noventa e dois mil em diálise, dando cerca de nove mil e duzentos em fila, ou aos quarenta e quatro por cento com hiperparatireoidismo, dando cerca de quatro mil. A frase não resolve o antecedente.

Quelantes de fósforo: tomar com a refeição e limitar a carga de cálcio

O quelante é tomado junto com a refeição, na dose proporcional ao fósforo daquela refeição — é a regra que abre o item nas duas réguas, e é a que o enunciado testa quando descreve um paciente que toma o comprimido em jejum. Fora da refeição, o mesmo sal deixa de quelar e passa a ser absorvido.

A diretriz da sociedade põe o teto em cálcio elemento: a dose contida nos quelantes de cálcio não deve exceder um vírgula cinco grama por dia, ou dois vírgula zero incluindo o cálcio da dieta. Acrescenta que eles não devem ser usados em hipercalcemia persistente, calcificação vascular, doença óssea adinâmica ou hormônio persistentemente baixo, e que, entre os sais de cálcio, o acetato deve ser preferido. Sem cálcio, nomeia carbonato de sevelamer e carbonato de lantânio. E proíbe sem exceção o quelante à base de alumínio.

A portaria federal põe o teto em comprimido. A apresentação dispensada é o carbonato de cálcio de mil duzentos e cinquenta miligramas, equivalente a quinhentos miligramas de cálcio, e a dose máxima é de dois mil miligramas de cálcio elementar no adulto, cerca de cinco mil miligramas de sal. A conversão é da própria portaria, e a conta bate: quatro comprimidos por dia dão exatamente dois gramas de cálcio elementar.

Na mesma unidade, o teto federal é um terço maior que o da sociedade para o quelante isolado — dois gramas contra um vírgula cinco — e coincide com o teto que a sociedade define para quelante mais dieta somados. Quem tomar a dose máxima federal chega ao limite total da sociedade com zero de margem para o cálcio do alimento, num paciente a quem a mesma diretriz prescreve pelo menos um grama de proteína por quilo por dia.

Há um detalhe na linha vizinha. A dose máxima que a portaria escreve para crianças é de dois mil e quinhentos miligramas de cálcio elementar, cerca de seis mil de carbonato — teto vinte e cinco por cento maior que o do adulto. E a conversão, exata na linha do adulto, deixa de ser: dois mil e quinhentos miligramas de cálcio exigiriam seis mil duzentos e cinquenta de sal, não seis mil.

Duas ausências completam o quadro. A portaria dispensa o cloridrato de sevelâmer; a diretriz nomeia o carbonato de sevelamer. O carbonato de lantânio, que a diretriz oferece, não aparece na portaria. E o acetato de cálcio, preferido pela sociedade, aparece nela só como comparador de ensaios, não na lista do que se entrega.

Vitamina D nutricional e calcitriol: indicações diferentes

Corrigidos cálcio, fósforo e vitamina D nutricional, se o hormônio permanece alto entra a vitamina D ativa. A diretriz da sociedade escreve, no item que recomenda essa passagem: recomenda-se o tratamento com calcitriol na dose de zero vírgula vinte e cinco a zero vírgula cinco miligrama por dia. Mais adiante, no mesmo item, acrescenta que em hemodiálise se recomenda a via intravenosa quando a dose for superior a um miligrama.

A unidade está errada por um fator de mil. O calcitriol é dosado em micrograma, e a portaria federal registra a apresentação que o sistema público entrega: cápsulas de zero vírgula vinte e cinco micrograma, com dose inicial de zero vírgula vinte e cinco a zero vírgula cinco micrograma por dia no estágio três e quatro. Meio miligrama por dia corresponderia a quinhentos microgramas, isto é, a duas mil cápsulas da apresentação existente.

A verificação importa mais do que o achado. O engano não é da leitura: a mesma diretriz escreve micrograma noutras partes. No item da paratireoidectomia, manda iniciar calcitriol oral a dois vírgula cinco microgramas por dia; no item da criança, cita zero vírgula cinco a um micrograma. O símbolo de micro aparece vinte e três vezes nesta parte e nenhuma naquela do hiperparatireoidismo, onde a palavra escrita é miligrama, nas duas ocorrências. O texto no sítio do periódico traz a mesma grafia do arquivo diagramado.

Para o estudante, o valor prático é duplo. A dose correta de partida do calcitriol oral é de zero vírgula vinte e cinco a zero vírgula cinco micrograma por dia, com ajuste a cada quatro semanas guiado por cálcio e fósforo, e é essa que a prova cobra. E fica a lição de leitura: quando um número produz absurdo de ordem de grandeza, procure a mesma substância noutra parte do mesmo documento antes de acreditar. Aqui, o próprio documento se corrige duas vezes.

O ajuste também tem número. A portaria manda reduzir a dose se o hormônio cair abaixo de cento e cinquenta picogramas por mililitro, e a diretriz manda reduzir ou suspender calcitriol, análogos e calcimimético no mesmo limiar — que é o piso da faixa-alvo e o mesmo valor que exclui o paciente do quelante à base de cálcio.

Hiperparatireoidismo grave: calcimimético, análogo e paratireoidectomia

A diretriz da sociedade dedica um item inteiro à retirada da glândula. A paratireoidectomia é indicada com hormônio persistentemente acima de oitocentos associado a pelo menos uma de cinco condições: hipercalcemia ou hiperfosfatemia refratárias; hipercalcemia ou hiperfosfatemia durante pulso de calcitriol, apesar de quelante sem cálcio e de redução do cálcio do dialisato; calcificação extraóssea ou calcifilaxia; doença óssea avançada e debilitante sem resposta clínica; ou glândula volumosa ao ultrassom, acima de um centímetro cúbico.

A portaria federal usa o mesmo número para outra coisa. O critério de tratamento com cinacalcete é o paciente em diálise regular há pelo menos três meses, maior de dezoito anos, com hormônio acima de oitocentos e cálcio acima de oito vírgula quatro miligramas por decilitro. Não há segunda condição além do cálcio: onde a régua da sociedade exige oitocentos mais um critério de dano, a federal exige oitocentos mais um cálcio que não esteja baixo.

O degrau anterior também está tabelado. O paricalcitol é autorizado para quem desenvolve hipercalcemia ou hiperfosfatemia com calcitriol em duas tentativas, ou mantém hormônio acima de quinhentos sem resposta a três meses de calcitriol. O sevelâmer entra quando o fósforo se mantém acima de cinco vírgula cinco em diálise, ou de quatro vírgula cinco fora dela, apesar de quelante de cálcio na dose máxima; ou com cálcio corrigido alto; ou com hormônio abaixo de cento e cinquenta.

Falta um passo, e a ausência é mensurável. A portaria do distúrbio mineral escreve paratireoidectomia catorze vezes em catorze páginas, e escreve cirurgião, cirurgia e cirúrgico zero vez. As catorze menções são de dois tipos: o estado pós-operatório a medicar, e o desfecho que o cinacalcete evita — o documento registra que o calcimimético reduziu o risco de paratireoidectomia em cinquenta e seis por cento. A régua federal nomeia a operação como evento a prevenir e nunca como conduta a indicar: não há limiar cirúrgico, não há critério de encaminhamento, não há quem opere.

O contraste com os controles fecha o argumento. No mesmo arquivo, diálise aparece sessenta vezes, dose sessenta e nove, cinacalcete cinquenta e três e sevelâmer quarenta e seis: o documento não é lacônico, é lacônico sobre cirurgia. Fora dele, as diretrizes clínicas federais do cuidado ao doente renal, em trinta e sete páginas, escrevem cirurgião zero vez, e a portaria de dois mil e vinte e quatro, em sessenta e oito páginas, escreve uma. Já o item da sociedade sobre a operação, em quatro páginas, escreve paratireoidectomia vinte e nove vezes. Quem escreve o passo é a sociedade; quem paga o procedimento é quem não o nomeia.

Alumínio: prevenção, suspeita e confirmação

A diretriz da sociedade reserva um item inteiro à intoxicação alumínica, tema que soa histórico e permanece regulado. A prevenção tem duas linhas: quelantes de fósforo à base de alumínio não devem ser usados em pacientes com doença renal crônica, e a concentração de alumínio na água e no dialisato deve ser monitorada semestralmente, mantida abaixo de cinco microgramas por litro.

O diagnóstico começa pelo teste à desferroxamina no paciente em diálise, conforme indicação médica. Suspeita clínica com teste negativo obriga biópsia óssea, e a presença de pelo menos vinte por cento da superfície trabecular recoberta por alumínio é diagnóstica. A coloração é por solocromo-azurina, seguida da de Perls para afastar depósitos de ferro — dois corantes na mesma lâmina, porque um deles não distingue os dois metais sozinho.

O tratamento tem esquema fechado: desferroxamina cinco miligramas por quilo, intravenosa, em trinta minutos, uma vez por semana, depois da primeira sessão semanal de hemodiálise; suspensão ao fim de seis meses, com novo teste um mês depois. Com alumínio acima de duzentos microgramas por litro no teste, a droga passa a ser dada cinco horas antes da diálise, feita com membranas de alta permeabilidade.

O detalhe que datar o assunto não apaga: a portaria federal de dois mil e dezessete lista a desferroxamina entre os fármacos que dispensa para este distúrbio, em frasco-ampola de quinhentos miligramas com ampolas de água para injetáveis. O sistema público continua a comprar o antídoto de um problema cuja prevenção está resolvida há décadas, e a presença do item na lista é a prova de que a régua não considera o risco extinto.

Para a prova, cobra-se reconhecimento de padrão, não manejo: doente em diálise com anemia microcítica que não responde ao ferro, dor óssea e hormônio baixo — não alto — remete a osso adinâmico por alumínio, e quem confirma não é o hormônio, é o teste à desferroxamina, com a biópsia atrás dele.

O que as provas costumam transformar em decisão

A medida foi feita sobre as duas mil oitocentas e oitenta e sete questões de trilha de prova classificadas em Clínica Médica, contando cada termo em enunciado, alternativas e comentário, e verificando à parte se ele aparece na alternativa correta. O conjunto do assunto é modesto em volume e claro em forma: trinta e quatro questões tocam o tema, cinco trazem algum termo na resposta certa e dezesseis o trazem em alguma opção.

O teste que interessa é o inverso, e ele inverte duas vezes. O nome da entidade — hiperparatireoidismo secundário, osteodistrofia renal, distúrbio mineral e ósseo — aparece em cinco questões e em zero respostas certas. O achado clínico que os livros descrevem com carinho — prurido, dor óssea, fratura patológica, tumor marrom, calcifilaxia, calcificação de partes moles — aparece em setenta e três questões e também em zero respostas certas.

O que paga é o par número e conduta. O paratormônio aparece em vinte e cinco questões e em seis respostas certas; o conjunto das condutas — quelante, sevelâmer, calcitriol, paricalcitol, cinacalcete, paratireoidectomia, carbonato de cálcio — aparece em vinte e quatro e em seis respostas certas. A prova brasileira não pede que se reconheça a doença; pede que se leia o valor do hormônio e se diga qual caixa se entrega.

Os negativos confirmam por outro lado. Hiperfosfatemia, motor fisiopatológico do assunto inteiro, aparece em dezoito questões e em nenhuma resposta certa. Fosfatase alcalina, que a diretriz manda dosar anualmente, aparece em vinte e sete e em nenhuma. Biópsia óssea, padrão de referência dos quatro padrões da tabela que fecha em cem por cento, aparece em zero questões. Nenhum desses termos merece tempo de memorização.

Convém dizer onde o assunto não estava. O item vizinho que mais concentra termos deste tema — o dos distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo — traz cinco deles numa única frase, que resolve o manejo em duas linhas e remete o detalhamento a outro lugar. Suas seções tratam de hipercalcemia, hipocalcemia, magnésio, fósforo e hiperparatireoidismo primário, e as suas duas controvérsias são a cirurgia no primário assintomático e o antirreabsortivo na hipercalcemia da malignidade. A frase que remete existe; o destino dela é aqui.

04

Do laudo à conduta: cinco degraus, na ordem em que a vinheta os embaralha

A vinheta costuma entregar estágio ou modalidade de diálise, um cálcio, um fósforo, um paratormônio e, às vezes, o intervalo de referência do método. A ordem abaixo usa esses dados na sequência em que eles decidem, e não na sequência em que o enunciado os oferece.

  1. 1Localize o paciente no estágio e na modalidade antes de olhar o hormônio. O alvo de duas a nove vezes o limite superior do método vale para estágio cinco e para quem dialisa. Nos estágios três e quatro, os níveis ideais não estão estabelecidos, e a régua manda apenas investigar e corrigir o que é corrigível quando o hormônio passa do limite do método.
  2. 2Antes de tratar o hormônio, corrija o que o eleva. Hipocalcemia, hiperfosfatemia e vitamina D nutricional abaixo de trinta nanogramas por mililitro são os três alvos que vêm primeiro, com sais de cálcio, dieta e quelante, e com ergocalciferol ou colecalciferol. Vitamina D ativa antes dessa correção é erro de ordem, não de escolha.
  3. 3Leia o intervalo de referência do laudo se ele estiver na questão. Ele transforma o alvo em números concretos e é a única razão de o enunciado o fornecer. Sem ele, use cento e cinquenta a seiscentos picogramas por mililitro como aproximação, sabendo que é aproximação.
  4. 4Escolha a droga pelo cálcio e pelo fósforo, não pelo hormônio. Com hipercalcemia ou hiperfosfatemia, calcitriol e análogos ficam fora até a correção; com hipocalcemia, o calcimimético fica fora. É esse par de bloqueios recíprocos que a questão testa quando dá um cálcio baixo e um hormônio altíssimo.
  5. 5Verifique o piso antes de subir a dose. Hormônio abaixo de cento e cinquenta picogramas por mililitro manda reduzir ou suspender calcitriol, análogos e calcimimético, e contraindica quelante à base de cálcio. Abaixo de cem, o quadro provável é osso adinâmico, e insistir na supressão piora o osso e a artéria.

Primeiro degrau: estágio e modalidade, antes do número

A faixa de duas a nove vezes vale para estágio cinco e para quem dialisa. Nos estágios três e quatro, o alvo não está estabelecido, e a conduta é investigar cálcio, fósforo e vitamina D quando o hormônio passa do limite do método.

Segundo degrau: corrigir o que eleva o hormônio

Cálcio baixo, fósforo alto e vitamina D nutricional abaixo de trinta nanogramas por mililitro vêm primeiro, com dieta, quelante e vitamina D nutricional. Vitamina D ativa antes disso é erro de ordem.

Terceiro degrau: o intervalo do método, se a questão o deu

O alvo é múltiplo do limite superior do laboratório. O enunciado que fornece o intervalo de referência está pedindo a conta; o que não fornece aceita a aproximação de cento e cinquenta a seiscentos.

Quarto degrau: a droga sai do cálcio e do fósforo

Com hipercalcemia ou hiperfosfatemia, calcitriol e análogos ficam fora até a correção. Com hipocalcemia, o calcimimético fica fora. Os dois bloqueios são recíprocos e é esse par que a questão testa.

Quinto degrau: o piso, antes de subir a dose

Abaixo de cento e cinquenta, reduzir ou suspender vitamina D ativa e calcimimético, e tirar o quelante de cálcio. Abaixo de cem, o quadro provável é osso adinâmico, e insistir na supressão piora osso e artéria.

Os limiares brasileiros do assunto, com a origem declarada de cada célula

DecisãoLimiar publicadoOrigem declarada
Alvo do paratormônio em diáliseDuas a nove vezes o limite superior do método, em geral cento e cinquenta a seiscentosDiretriz da sociedade, item do hiperparatireoidismo secundário, e portaria federal de dois mil e dezessete
Iniciar controle do paratormônioAcima de trezentos picogramas por mililitroProtocolo do comitê da mesma sociedade, dois mil e treze
ParicalcitolAcima de quinhentos, sem resposta a três meses de calcitriolPortaria federal de dois mil e dezessete, critérios de tratamento
CinacalceteAcima de oitocentos, com cálcio acima de oito vírgula quatroPortaria federal de dois mil e dezessete, critérios de tratamento
ParatireoidectomiaAcima de oitocentos, mais uma de cinco condições de danoDiretriz da sociedade, item da paratireoidectomia
Reduzir ou suspender vitamina D ativa e calcimiméticoAbaixo de cento e cinquentaDiretriz da sociedade e portaria federal, no mesmo valor

Fósforo: quatro números brasileiros e o que cada um mede

NúmeroCenárioNatureza da medida
Três vírgula cinco miligramas por decilitroFase pré-dialíticaLimiar de associação com mortalidade, citado no texto da sociedade
Quatro vírgula cincoFora de diáliseCorte diagnóstico e critério de acesso ao sevelâmer, portaria federal
Cinco vírgula zeroHemodiálise, coorte de quarenta mil pacientesLimiar de associação com mortalidade, citado no texto da sociedade
Cinco vírgula cincoEm diáliseValor considerado aceitável e critério de acesso ao sevelâmer, portaria federal

A tabela dos quatro padrões ósseos brasileiros fecha em cem vírgula zero por cento e tem origem única declarada, e ainda assim nenhuma das quatro linhas é obtenível sem biópsia óssea. Ela descreve a doença; não decide a conduta de nenhum paciente à beira do leito.

Os dois quarenta e quatro por cento que circulam neste assunto têm denominadores diferentes: um é fração histológica de casuística de biópsias de mil novecentos e noventa e sete a dois mil e um, o outro é fração bioquímica da população em diálise de dois mil e onze. A igualdade é coincidência.

Os totais nacionais de diálise que a portaria federal publica em frases vizinhas não batem entre si: o sistema de informações ambulatoriais dá cerca de noventa e três mil em hemodiálise e sete mil em diálise peritoneal, e o censo da sociedade dá cento e onze mil trezentos e três em terapia renal substitutiva com cerca de noventa por cento em hemodiálise. A diferença no total passa de onze mil pacientes, e na diálise peritoneal chega a quase sessenta por cento.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A partir de que valor de paratormônio se inicia o controle no paciente em diálise

Quando sai da faixa de duas a nove vezes o limite do método

A diretriz da sociedade determina que o paciente em estágio cinco ou em diálise mantenha o hormônio entre duas e nove vezes o valor superior do método, e que medidas terapêuticas sejam introduzidas quando as avaliações mostrarem tendência de elevação ou de redução dentro dessa faixa.

Diretrizes Brasileiras de Prática Clínica para o Distúrbio Mineral e Ósseo na Doença Renal Crônica, segunda edição, dois mil e onze, item da prevenção e tratamento do hiperparatireoidismo secundário.

Acima de trezentos picogramas por mililitro

O protocolo do Comitê de Distúrbio Mineral Ósseo da mesma sociedade, dois anos depois, reafirma a regra de evitar valores abaixo de duas vezes ou acima de nove vezes o limite do método e, na frase seguinte, sugere que o controle seja feito a partir de um valor maior que trezentos picogramas por mililitro — que está dentro da faixa que acabou de endossar.

Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para o tratamento do hiperparatireoidismo secundário em pacientes com doença renal crônica, Jornal Brasileiro de Nefrologia, dois mil e treze.

Quando sai da faixa, e o acesso à droga tem limiar próprio

A portaria federal repete o alvo de duas a nove vezes, traduzido como cento e cinquenta a seiscentos, mas separa o alvo do acesso: paricalcitol acima de quinhentos sem resposta a três meses de calcitriol, e cinacalcete acima de oitocentos com cálcio acima de oito vírgula quatro.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Distúrbio Mineral Ósseo na Doença Renal Crônica, Portaria SAS/MS número 801, de dois mil e dezessete.

Na prova

O enunciado que fornece o intervalo de referência do método está pedindo a regra dos múltiplos, porque é a única utilidade desse dado. O que fornece apenas o valor absoluto e um cenário de diálise estável aceita a tradução de cento e cinquenta a seiscentos. O que nomeia o protocolo do comitê, ou reproduz a expressão maior que trezentos, está cobrando o trezentos. E o que descreve falha terapêutica documentada com valor específico está cobrando o limiar de acesso à droga, não o alvo.

Qual é o teto do quelante à base de cálcio

Um vírgula cinco grama de cálcio elemento por dia, dois somando a dieta

A diretriz da sociedade limita a dose total de cálcio elemento contida nos quelantes a um vírgula cinco grama por dia, ou a dois vírgula zero gramas por dia incluindo o cálcio da dieta, e prefere o acetato de cálcio entre os sais de cálcio.

Diretrizes Brasileiras de Prática Clínica para o Distúrbio Mineral e Ósseo na Doença Renal Crônica, segunda edição, dois mil e onze, item do controle da hiperfosfatemia.

Dois mil miligramas de cálcio elementar por dia, em carbonato

A portaria federal dispensa carbonato de cálcio em comprimido de mil duzentos e cinquenta miligramas equivalente a quinhentos miligramas de cálcio, com dose máxima de dois mil miligramas de cálcio elementar no adulto, cerca de cinco mil miligramas de sal. O acetato de cálcio não consta da lista de fármacos, e o carbonato de lantânio não é mencionado.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Distúrbio Mineral Ósseo na Doença Renal Crônica, Portaria SAS/MS número 801, de dois mil e dezessete, item dos fármacos e esquemas de administração.

Na prova

Converta antes de comparar: os dois tetos estão em unidades diferentes, e a própria portaria dá a taxa de conversão. Questão que ofereça quatro comprimidos de mil duzentos e cinquenta miligramas está no teto federal e um terço acima do teto da sociedade para o quelante isolado. Questão que nomeie acetato de cálcio como o preferido está reproduzindo a régua da sociedade, e questão que descreva o que o serviço público entrega está reproduzindo a portaria.

Com que frequência se dosa o paratormônio nos estágios intermediários

Anual no estágio três, semestral no quatro, trimestral no cinco

A diretriz da sociedade publica três linhas sem exceção: filtração entre trinta e cinquenta e nove, anual; entre quinze e vinte e nove, semestral; abaixo de quinze ou em diálise, trimestral.

Diretrizes Brasileiras de Prática Clínica para o Distúrbio Mineral e Ósseo na Doença Renal Crônica, segunda edição, dois mil e onze, tabela da frequência de avaliação do paratormônio.

Anual no estágio três, e semestral ou trimestral no cinco não dialítico

A portaria do distúrbio mineral separa o hormônio do cálcio e do fósforo e deixa a célula do estágio cinco não dialítico com duas respostas alternativas, enquanto cálcio e fósforo, nesse mesmo estágio, são trimestrais e, em diálise, mensais.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Distúrbio Mineral Ósseo na Doença Renal Crônica, Portaria SAS/MS número 801, de dois mil e dezessete, tabela da monitorização.

Anual só no três A, semestral já no três B

A portaria conjunta de dois mil e vinte e quatro divide o estágio três: com filtração entre quarenta e cinco e cinquenta e nove, a avaliação é anual; nos estágios três B e quatro, cálcio, fósforo e hormônio passam a semestrais, com avaliação nefrológica trimestral.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das Estratégias para Atenuar a Progressão da Doença Renal Crônica, Portaria Conjunta SAES/SECTICS número 11, de dois mil e vinte e quatro.

Na prova

Filtração entre trinta e quarenta e cinco é a faixa em que os documentos divergem, e é a faixa que o enunciado escolhe quando quer separar quem decorou uma régua de quem leu duas. Enunciado que cite estágio três sem subdividir está usando a régua mais antiga; enunciado que escreva três A ou três B está usando a de dois mil e vinte e quatro. Fora dessa faixa, as três concordam.

06

Caso resolvido

Homem de cinquenta e nove anos, em hemodiálise há cinco anos por nefropatia diabética, comparece à consulta de rotina do serviço. Refere prurido difuso há meses e dor nas coxas ao subir escada, sem febre e sem perda de peso. Faz três sessões semanais, com boa adequação dialítica declarada, e usa carbonato de cálcio quatro comprimidos por dia, um a cada refeição principal e um antes de dormir. Exames: cálcio total de oito vírgula um miligramas por decilitro com albumina de quatro vírgula zero, fósforo de seis vírgula quatro miligramas por decilitro, paratormônio de novecentos e trinta picogramas por mililitro, com intervalo de referência do método de quinze a sessenta e cinco picogramas por mililitro, e fosfatase alcalina elevada.
passo 1
Passo 1. Traduza o hormônio para o alvo antes de olhar qualquer outra coisa. O limite superior do método é sessenta e cinco, então a faixa é de cento e trinta a quinhentos e oitenta e cinco picogramas por mililitro. Novecentos e trinta está acima do teto por margem larga, e o cálculo com o intervalo do próprio laudo é o que a régua manda — a aproximação de cento e cinquenta a seiscentos daria a mesma conclusão aqui, mas não daria sempre.
passo 2
Passo 2. Leia o cálcio e o fósforo antes de escolher a droga, porque são eles que abrem e fecham as portas. Cálcio de oito vírgula um com albumina normal é cálcio baixo-normal, e fósforo de seis vírgula quatro é hiperfosfatemia franca, acima do valor de cinco vírgula cinco que a portaria considera aceitável em diálise. Com fósforo alto, calcitriol e análogos ficam fora até a correção; com cálcio que não está baixo, o calcimimético não está bloqueado.
passo 3
Passo 3. Corrija o erro de administração antes de trocar qualquer coisa. O paciente toma um dos quatro comprimidos antes de dormir, longe da refeição. Nessa tomada o carbonato de cálcio não quela fósforo nenhum — ele é absorvido como cálcio. Redistribuir os quatro comprimidos pelas refeições que contêm fósforo é intervenção sem custo e é o que a régua escreve no item que abre o assunto.
passo 4
Passo 4. Verifique o teto do quelante. Quatro comprimidos de mil duzentos e cinquenta miligramas equivalem a dois mil miligramas de cálcio elementar, que é exatamente o máximo que a portaria autoriza no adulto e um terço acima do teto de um vírgula cinco grama que a diretriz da sociedade define para o quelante isolado. Não há margem para subir a dose do sal de cálcio: o degrau seguinte é trocar de classe, não aumentar.
passo 5
Passo 5. Aplique os critérios de acesso na ordem em que a portaria os escreve. Fósforo acima de cinco vírgula cinco em diálise apesar de quelante de cálcio na dose máxima é exatamente o critério do sevelâmer, e é o que este paciente preenche. Com o fósforo corrigido, reavalia-se o hormônio; se persistir alto, o degrau é a vitamina D ativa, e o calcimimético tem critério próprio, com hormônio acima de oitocentos e cálcio acima de oito vírgula quatro — que este paciente também preenche, embora por margem pequena no cálcio.
passo 6
Passo 6. Guarde o que ainda não se decide. A retirada da glândula exige, pela régua da sociedade, hormônio persistentemente acima de oitocentos mais uma condição de dano, e o que há aqui é hiperfosfatemia que ainda não foi tratada com o quelante correto. Refratariedade se declara depois de a terapêutica adequada ter sido tentada, e não antes. O prurido e a dor óssea, apesar de sugestivos, não entram como critério isolado.
07

Agora feche você

Mulher de sessenta e sete anos, hipertensa, com doença renal crônica em tratamento conservador e filtração glomerular estimada de trinta e três mililitros por minuto por um vírgula setenta e três metros quadrados, estável há dois anos. Comparece à consulta anual na atenção especializada. Está assintomática. Traz exames pedidos há doze meses: cálcio de nove vírgula dois miligramas por decilitro, fósforo de quatro vírgula um miligramas por decilitro, paratormônio de duzentos e dez picogramas por mililitro com intervalo de referência de dez a sessenta e cinco, vitamina D nutricional de dezoito nanogramas por mililitro e hemoglobina normal. O médico assistente pergunta se deve iniciar calcitriol e quando repetir a dosagem do hormônio.
passo 1
Passo 1. Situe a paciente no estágio e diga por que o alvo de duas a nove vezes não se aplica a ela. Filtração de trinta e três a coloca no estágio três B, e as réguas brasileiras dizem, com todas as letras, que nos estágios três a cinco em tratamento conservador os níveis ideais de hormônio não são conhecidos. A conduta escrita não é perseguir uma faixa: é investigar o que eleva o hormônio quando ele passa do limite do método.
passo 2
Passo 2. Investigue os quatro fatores que a régua nomeia, na ordem, e diga quais desta paciente estão alterados. Hipocalcemia, hiperfosfatemia, fração de excreção de fósforo elevada e vitamina D nutricional abaixo de trinta nanogramas por mililitro. Aqui o cálcio está normal, o fósforo está normal, e a vitamina D nutricional está em dezoito.
passo 3
Passo 3. Escolha a intervenção que a régua manda antes de qualquer vitamina D ativa, e diga a dose e por quanto tempo. A diretriz define reposição com ergocalciferol ou colecalciferol para quem tem menos de trinta nanogramas por mililitro, com esquema por faixa e reavaliação em seis meses, e manda dosar cálcio e fósforo durante a reposição.
passo 4
Passo 4. Responda à pergunta sobre o calcitriol usando o critério escrito, não a impressão. Diga em que condição a vitamina D ativa entraria nesta paciente e por que ela ainda não entrou.
passo 5
Passo 5. Responda à pergunta da periodicidade e nomeie a divergência. Diga o que a diretriz da sociedade prescreve para filtração de trinta e três, o que a portaria do distúrbio mineral prescreve para o mesmo estágio e o que a portaria de dois mil e vinte e quatro prescreve para o estágio três B, e explique por que essa faixa de filtração é a que separa as três réguas.
passo 6
Passo 6. Diga que exame a diretriz acrescenta a partir do estágio quatro e com que frequência, e explique por que ele é útil justamente quando o valor do hormônio não distingue o padrão ósseo.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar o par cento e cinquenta a seiscentos como se fosse a regra É o erro de maior rendimento do assunto. A regra brasileira é um múltiplo — duas a nove vezes o limite superior do método —, e o par cento e cinquenta a seiscentos é apenas a tradução que a portaria oferece para um método de referência típico. Quando a questão fornece o intervalo do laboratório, ela está pedindo a conta, e quem responde com o par decorado erra nos extremos, que é justamente onde a conduta muda.
  2. 2Prescrever vitamina D ativa antes de corrigir cálcio, fósforo e vitamina D nutricional As duas réguas põem a correção primeiro e a vitamina D ativa depois, e a razão é mecânica: calcitriol aumenta a absorção intestinal de cálcio e de fósforo, de modo que dá-lo a quem já está hipercalcêmico ou hiperfosfatêmico piora exatamente o que se queria tratar. A diretriz é explícita ao mandar evitar calcitriol e análogos até a correção. Alternativa que inicie a droga ativa num paciente com fósforo alto está errada por ordem, mesmo que a droga seja a certa mais adiante.
  3. 3Ler paratormônio baixo como boa notícia Abaixo de cem picogramas por mililitro em diálise, o quadro que se associa é doença óssea adinâmica, que a régua trata como problema e não como controle bem-sucedido, porque leva a calcificação vascular tanto quanto o excesso de hormônio. Abaixo de cento e cinquenta, a conduta escrita é reduzir ou suspender vitamina D ativa e calcimimético e retirar o quelante de cálcio. Alternativa que suba a dose diante de hormônio baixo inverte a régua.
  4. 4Confundir o fósforo que se recomenda com o fósforo que se associa a morte Circulam quatro números brasileiros para a mesma grandeza, e eles não medem a mesma coisa: três vírgula cinco e cinco vírgula zero são limiares de associação com mortalidade citados no texto da sociedade; quatro vírgula cinco e cinco vírgula cinco são cortes operacionais de diagnóstico e de acesso ao sevelâmer na portaria. Um paciente em diálise com fósforo de cinco vírgula dois está acima de um e dentro do outro, e as duas leituras estão corretas nos seus próprios termos.
  5. 5Tomar o quelante fora da refeição A regra que abre o item nas duas réguas é que o quelante seja tomado no mesmo momento em que se ingere o alimento com fósforo, e com a dose proporcional àquela refeição. Fora da refeição, o carbonato de cálcio deixa de quelar e passa a ser absorvido como suplemento de cálcio — o mesmo comprimido, efeito oposto. É por isso que, no pós-operatório da retirada da glândula, a régua manda dar carbonato de cálcio justamente longe das refeições: ali se quer a absorção, não a quelação.
  6. 6Achar que a régua federal manda operar Quem indica a paratireoidectomia, com limiar de oitocentos picogramas por mililitro e cinco condições associadas, é a diretriz da sociedade. A portaria federal cita a operação apenas como estado pós-operatório a medicar e como desfecho que o calcimimético reduz, e não escreve as palavras cirurgião, cirurgia ou cirúrgico nenhuma vez. Enunciado que cobre indicação cirúrgica está cobrando a régua da sociedade; enunciado que cobre acesso a medicamento está cobrando a portaria.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

As réguas brasileiras determinam monitorização de cálcio, fósforo e paratormônio a partir do estágio três, e a razão está escrita: níveis elevados do hormônio podem ser observados com filtração em torno de sessenta mililitros por minuto, enquanto a hiperfosfatemia só aparece quando a filtração cai abaixo de vinte a vinte e cinco, porque até ali o aumento do próprio hormônio e do fator de crescimento de fibroblastos vinte e três ainda compensa a retenção. Esperar o estágio cinco perde justamente a fase em que dieta e quelante mudam a trajetória. Restringir a dosagem a quem dialisa contraria a régua e ignora o tratamento conservador. As frequências publicadas são anual, semestral e trimestral conforme o estágio, com cálcio e fósforo mensais apenas em diálise pelo protocolo federal — nunca mensais em todos os estágios nem mensais para todo paciente abaixo de sessenta.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite, sem olhar, os três limiares que separam as condutas: acima de oitocentos picogramas por mililitro com uma condição de dano, retirada da glândula pela régua da sociedade; acima de oitocentos com cálcio acima de oito vírgula quatro, calcimimético pela régua federal; acima de quinhentos sem resposta a três meses de calcitriol, análogo da vitamina D. Depois diga o piso e o que ele manda fazer: cento e cinquenta, reduzir ou suspender vitamina D ativa e calcimimético e tirar o quelante de cálcio. Por fim, o alvo: duas a nove vezes o limite superior do método, e não o par decorado.

em 30 dias

Monte de memória a tabela dos quatro limiares brasileiros do fósforo com o cenário e a natureza de cada um, e depois responda três perguntas sobre ela: quais dois vêm de associação com mortalidade e quais dois são critério de acesso a medicamento; qual valor deixa um paciente em diálise simultaneamente acima de um limiar e dentro do outro; e por que a tabela de recomendação da diretriz da sociedade, que publica a frequência de coleta com precisão, substitui o alvo por uma direção.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Paciente com doença renal crônica avançada em consulta de rotina, trazendo exames de cálcio, fósforo e paratormônio. Pergunte há quanto tempo dialisa e em que modalidade, ou qual a filtração se ainda não dialisa; quais quelantes usa, quantos comprimidos por dia e em que momento em relação às refeições; se já usou ou usa vitamina D, e se nutricional ou ativa; se há prurido, dor óssea, fratura prévia ou lesão de pele que não cicatriza; e se o laudo do hormônio traz o intervalo de referência do método. Confirme a adesão à dieta e ao horário do quelante antes de concluir que o esquema falhou. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Distúrbio mineral e ósseo da doença renal crônica no adulto – Distúrbio mineral e ósseo da doença renal crônica: três réguas, três alvos — Preparatório para provas | OsceLabs