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Clínica MédicaNefrologia

Doença renal crônica

Estadiar em duas letras — G e A — e transformar o estágio em conduta: quem trata na atenção primária, quem vai para o nefrologista e quem entra em diálise.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 62 anos, diabética e hipertensa, faz acompanhamento ambulatorial. Exames de rotina mostram creatinina 1,8 mg/dL estável há mais de 3 meses, com taxa de filtração glomerular estimada em 38 mL/min/1,73m² e relação albumina/creatinina urinária de 400 mg/g. Segundo a classificação KDIGO, em que estágio de doença renal crônica ela se encontra quanto à filtração glomerular?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da DRC já estabelecida. O diferencial com a injúria renal aguda foi resolvido no capítulo anterior e aqui aparece só onde muda a conduta: o critério dos três meses. O que interessa a partir daqui é o que a prova cobra depois que o rótulo está posto — estadiar em duas letras, decidir o que fazer em cada faixa, saber a hora exata de chamar o nefrologista e a hora exata de indicar diálise.

O eixo do capítulo é uma frase: estágio não é diagnóstico, é decisão. Duas questões de residência com a mesma taxa de filtração glomerular podem ter condutas opostas dependendo da albuminúria, e é exatamente aí que a banca separa quem decorou a tabela de quem entendeu o mapa de risco.

O contexto brasileiro pesa. O PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da DRC (Portaria Conjunta SAES/sectics nº 11, de 2024) é documento nacional obrigatório e traz critérios de dispensação que não são iguais aos limiares clínicos do KDIGO. Prova de acesso direto e ENAMED cobram o texto do SUS; prova de especialista tende ao KDIGO. As duas leituras estão neste capítulo, e onde elas divergem eu digo qual marcar.

03

O que muda decisão

Três meses e dois portões: o que fecha o diagnóstico

DRC é anormalidade de estrutura ou de função renal presente por pelo menos 3 meses, com implicações para a saúde. A definição do PCDT 2024 e a do KDIGO 2024 são literalmente a mesma frase, o que é raro e é uma boa notícia para quem estuda: não há divergência sobre o que é a doença.

Há dois portões de entrada, e basta um. Primeiro portão: TFG estimada abaixo de 60 mL/min/1,73 m², sustentada por mais de três meses, independentemente de qualquer outro achado. Segundo portão: TFG igual ou acima de 60 mL/min/1,73 m² acompanhada de pelo menos um marcador de dano renal, também por mais de três meses. Quem tem TFG de 95 e albuminúria confirmada tem DRC. Quem tem TFG de 52 sem nenhum outro achado também tem.

Os marcadores de dano que o PCDT lista são cinco: albuminúria ≥ 30 mg/24 horas ou relação albumina/creatinina (RAC) ≥ 30 mg/g; hematúria de origem glomerular, definida pela presença de cilindros hemáticos ou de dismorfismo eritrocitário no EAS; alterações eletrolíticas ou anormalidades tubulares; alterações histológicas na biópsia renal; e alterações de imagem — rins policísticos, hidronefrose, cicatrizes corticais, alteração da textura cortical, estenose de artéria renal. O KDIGO acrescenta um sexto: antecedente de transplante renal.

O critério de tempo não é decoração burocrática. Ele é o que separa DRC de injúria renal aguda e é o erro mais barato que a banca cobra: uma única creatinina alterada não estadia ninguém. O KDIGO é explícito ao dizer que, diante de RAC elevada, hematúria ou TFGe baixa detectadas incidentalmente, o exame deve ser repetido para confirmar a presença de DRC. Só há exceção quando o próprio achado já prova cronicidade — rins reduzidos e com perda de diferenciação córtico-medular à ultrassonografia, por exemplo, ou uma biópsia com fibrose intersticial estabelecida.

A DRC é assintomática na maior parte do tempo. Nictúria, anemia, fraqueza, prurido, síndrome das pernas inquietas, náusea, inapetência, edema e dispneia aparecem tarde, nos estágios 4 e 5. Sintoma, portanto, não rastreia — quem rastreia é exame em quem tem fator de risco: diabetes, hipertensão, idade avançada, obesidade, doença cardiovascular prévia, história familiar de DRC, tabagismo, uso de nefrotóxicos, doenças glomerulares e doenças genéticas como a doença renal policística autossômica dominante. Nesse grupo, o PCDT pede TFG, RAC e EAS anuais.

Como medir: CKD-EPI, RAC de amostra isolada e o que não usar

A TFG do estadiamento é estimada por fórmula a partir da creatinina sérica, e a fórmula recomendada pelo PCDT é a CKD-EPI. Isso implica duas proibições práticas. A depuração de creatinina em urina de 24 horas deve ser evitada pelo potencial de erro de coleta e pelo inconveniente da coleta temporal. A fórmula de Cockcroft-Gault não é recomendada: precisa de correção para superfície corpórea e tem viés na correlação com a TFG. Se a questão oferece Cockcroft-Gault ou clearance de 24 horas como método de estadiamento, a alternativa está errada.

O KDIGO 2024 amplia a discussão. Recomenda usar uma equação validada em vez de olhar a creatinina crua, usar a mesma equação dentro de uma mesma região geográfica e, quando disponível, estimar a TFG combinando creatinina e cistatina C — a estimativa combinada é mais acurada e o KDIGO a coloca como preferencial para confirmar categoria de TFG em situações de decisão clínica importante. Também determina, em prática específica, que raça não deve ser usada no cálculo da TFGe.

A albuminúria se mede pela RAC em amostra isolada de urina, preferencialmente a primeira urina da manhã, jato médio. A coleta de 24 horas não é necessária para triagem. Dois cuidados que a prova gosta: fita reagente positiva precisa de confirmação por método quantitativo expresso como razão com a creatinina urinária, e RAC ≥ 30 mg/g em amostra aleatória deve ser confirmada em uma primeira urina da manhã subsequente. Uma RAC isolada não estadia; uma RAC confirmada, sim.

Nem toda proteinúria é albuminúria. O EAS negativo para proteína não exclui categoria A2: a fita comum só costuma virar positiva com proteinúria acima de 300 a 500 mg/dia, muito acima do limiar de 30 mg/g que já define dano. É por isso que o PCDT manda pesquisar albuminúria justamente nos diabéticos e hipertensos com EAS sem proteinúria — o exame de urina normal é o cenário em que a RAC muda o diagnóstico.

Uma vez estabelecido o acompanhamento, o KDIGO fixa três limiares de variabilidade que mandam investigar em vez de aceitar como ruído de laboratório: mudança da TFGe maior que 20% em uma medida subsequente; queda maior que 30% depois de iniciar terapia hemodinamicamente ativa (IECA, BRA, diurético, iSGLT2); e duplicação da RAC. Abaixo disso é variação esperada e não deve gerar suspensão de tratamento.

Ilustração de um rim em corte estilizado ao lado de uma matriz de quinze células que escurece do canto superior esquerdo para o inferior direito.
O estadiamento tem dois eixos: filtração e albuminúria. O risco cresce na diagonal, não em uma linha só.

G e A: as duas letras que definem a conduta

A categoria G divide a filtração em seis faixas. G1: TFG ≥ 90 mL/min/1,73 m². G2: 60 a 89. G3a: 45 a 59. G3b: 30 a 44. G4: 15 a 29. G5: abaixo de 15, e o sufixo D indica que o paciente já está em diálise. As faixas do PCDT 2024 e do KDIGO são idênticas, porque o PCDT adotou o quadro do KDIGO.

Atenção ao detalhe que decide questão: G1 e G2 só existem como DRC se houver marcador de dano renal. TFG de 78 mL/min/1,73 m² em um paciente de 70 anos sem albuminúria, sem hematúria e com ultrassom normal não é DRC estágio 2 — não é DRC nenhuma. Já a partir de G3a a TFG baixa carrega o diagnóstico sozinha.

A categoria A divide a RAC em três faixas, em mg/g: A1 abaixo de 30 (normal a levemente aumentada), A2 de 30 a 300 (moderadamente aumentada, o antigo termo microalbuminúria), A3 acima de 300 (gravemente aumentada, o antigo termo macroalbuminúria). O PCDT escreve A2 como 30–299 e A3 como acima de 300; é a mesma coisa.

O produto das duas letras é o mapa de risco por cores do KDIGO, e é ele que a prova cobra quando quer separar candidato. Um paciente G3a A3 tem risco de falência renal, de evento cardiovascular e de morte maior que um G3b A1, apesar de a TFG do primeiro ser melhor. Quem estadia só pela TFG subestima sistematicamente o risco do paciente albuminúrico e superestima o do idoso com filtração moderadamente reduzida e urina limpa.

Esse mapa também organiza o calendário. O PCDT traduz o risco em periodicidade: fator de risco sem doença, exames anuais; G1 e G2, TFG e EAS anuais; G3a, avaliação anual que passa a semestral se a RAC estiver acima de 30 mg/g; G3b, TFG, EAS, RAC e potássio a cada seis meses; G4, avaliação nefrológica trimestral; G5 não dialítico, avaliação mensal. Frequência de consulta é conduta, e questão de gestão do cuidado cobra exatamente isso.

O que realmente muda a história natural

O tratamento conservador tem um objetivo declarado: preservar função renal e adiar a terapia renal substitutiva. Ele se apoia em bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona, inibição do SGLT2, controle pressórico, controle glicêmico, estatina, dieta e retirada de nefrotóxicos. Nenhum desses pilares é opcional em quem tem albuminúria.

IECA ou BRA. O PCDT indica para o paciente diabético com DRC em qualquer estágio de 1 a 5 e RAC ≥ 30 mg/g, e para o não diabético com DRC de 1 a 5 e RAC ≥ 300 mg/g — nos dois casos independentemente de haver hipertensão. O KDIGO recomenda o mesmo com força 1B para A2 e A3 no diabético e para A3 no não diabético, e sugere (2C) para A2 no não diabético. A dose deve ser a máxima tolerada, porque foi com dose alta que os ensaios mostraram benefício. Nunca associar IECA com BRA nem com inibidor direto de renina: a combinação aumenta hipercalemia e injúria renal aguda sem ganho renal.

Depois de iniciar ou aumentar IECA, BRA ou espironolactona, dose-se creatinina e potássio em 2 a 4 semanas. A regra de suspensão é numérica e o KDIGO a escreve sem ambiguidade: mantenha o IECA ou o BRA a menos que a creatinina suba mais de 30% em 4 semanas. Elevação abaixo disso é hemodinâmica, esperada e desejável — reflete a queda da pressão intraglomerular que é justamente o mecanismo da nefroproteção. E o KDIGO manda continuar o bloqueio mesmo quando a TFGe cai abaixo de 30 mL/min/1,73 m²; suspender por TFG baixa isolada é erro.

iSGLT2. A dapagliflozina foi incorporada ao SUS e é o medicamento novo do PCDT. No texto brasileiro, os critérios de inclusão são cumulativos: adulto com DRC, já em uso de IECA ou BRA, com TFG entre 25 e 75 mL/min, e sendo diabético tipo 2 ou apresentando RAC acima de 300 mg/g se não for diabético. Dose de 10 mg uma vez ao dia. E há uma trava importante: mesmo que a TFG mude ou que a RAC caia com o tratamento, o medicamento deve ser mantido até o início da terapia renal substitutiva ou o transplante. Melhorar não é motivo para suspender.

Antagonistas do receptor mineralocorticoide. O PCDT indica espironolactona para DRC nos estágios 1 a 4 com RAC ≥ 300 mg/g, ou com hipertrofia ventricular esquerda, ou com insuficiência cardíaca, independentemente de hipertensão. O KDIGO 2024 sugere um AMR não esteroidal com benefício renal ou cardiovascular comprovado — a finerenona — para adultos com diabetes tipo 2, TFGe acima de 25 mL/min/1,73 m², potássio sérico normal e albuminúria acima de 30 mg/g. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 endossa finerenona, análogos de GLP-1 e iSGLT2 na DRC hipertensa, com recomendação forte.

Estatina. O KDIGO recomenda estatina, ou estatina com ezetimiba, para todo adulto com 50 anos ou mais e TFGe abaixo de 60 mL/min/1,73 m² que não esteja em diálise crônica nem transplantado (categorias G3a a G5), com força 1A; e estatina isolada para os de 50 anos ou mais com TFGe ≥ 60 (G1–G2), com força 1B. Entre 18 e 49 anos, a indicação depende de comorbidade: doença coronariana conhecida, diabetes, AVC isquêmico prévio ou risco cardiovascular estimado elevado. Ou seja, na DRC a estatina é decisão por idade e estágio, não por meta de LDL isolada.

Dieta e estilo de vida, com os números do PCDT: proteína abaixo de 0,8 g/kg/dia, evitando ultrapassar 1,3 g/kg/dia em quem precise de mais por outra indicação; sódio abaixo de 2 g/dia — restrição que amplifica o efeito antiproteinúrico do bloqueio do SRAA, reduzindo albuminúria em 41% quando associada, contra 17% do bloqueio isolado; fósforo abaixo de 800 mg/dia apenas se houver hiperfosfatemia; potássio de 2 a 4 g/dia apenas se houver hipercalemia; exercício acumulando 150 minutos por semana; cessação do tabagismo; redução de peso até IMC normal.

Retirada de nefrotóxicos, que é conduta e não conselho: anti-inflamatórios não esteroidais, contraste radiológico, aminoglicosídeos, antipsicóticos atípicos e preparações intestinais à base de fosfato e alumínio. O PCDT ainda registra o alerta britânico sobre uso excessivo de inibidores de bomba de prótons. E todas as doses de medicamentos de excreção renal devem ser ajustadas à TFG.

Quatro colunas finas sustentando uma viga horizontal, cada coluna com um ícone simples na base, sobre a silhueta de dois rins.
Os pilares do tratamento conservador. Retirar um deles derruba a viga: nenhum é opcional em quem tem albuminúria.

Quando encaminhar ao nefrologista

O PCDT organiza o encaminhamento por estágio, e a lógica é a mesma em todos: a atenção primária resolve o paciente estável e encaminha quando aparece marcador de gravidade ou de progressão apesar do tratamento correto.

Nos estágios 1 e 2, encaminhe se o paciente for não diabético e tiver RAC acima de 1 g/g, ou se houver perda de 30% da TFG apesar do uso de IECA ou BRA. No estágio 3A, o paciente com RAC acima de 30 mg/g passa a ser reavaliado a cada seis meses, e os gatilhos de encaminhamento são os mesmos: RAC acima de 1 g/g em não diabético ou perda de 30% da TFG apesar do bloqueio. No estágio 3B, o limiar de albuminúria cai: encaminhe o não diabético com RAC acima de 300 mg/g, ou qualquer paciente com perda de 30% da TFG apesar de IECA ou BRA.

A partir do estágio 4 a pergunta muda de "encaminhar?" para "quem acompanha?". O PCDT determina que o acompanhamento dos estágios 4 e 5 não dialítico seja feito na atenção especializada, por equipe multiprofissional com médico nefrologista, enfermeiro, nutricionista, psicólogo e assistente social. E fixa uma regra guarda-chuva na seção de regulação: todo paciente com DRC deve ser acompanhado na atenção primária, e adicionalmente os estágios 3B, 4 e 5, ou qualquer paciente A3, devem ter acompanhamento com nefrologista. Guarde esta última frase — é a resposta mais defensável quando a questão pergunta genericamente "quando encaminhar" no contexto do SUS: TFG abaixo de 45 mL/min/1,73 m² ou RAC acima de 300 mg/g.

O KDIGO chega ao mesmo lugar por outro caminho e com limiares próprios. Encaminha por causa desconhecida da DRC, doença renal hereditária ou nefrolitíase extensa recorrente; por TFGe abaixo de 30 mL/min/1,73 m² ou risco de terapia renal substitutiva em 5 anos acima de 3 a 5% pela equação de risco de falência renal (KFRE); por queda sustentada da TFG maior que 20%, ou maior que 30% em quem iniciou terapia hemodinamicamente ativa; por albuminúria significativa (RAC ≥ 300 mg/g) associada a hematúria, por aumento de duas vezes na albuminúria, por RAC persistentemente acima de 700 mg/g, ou por cilindros hemáticos e mais de 20 hemácias por campo sustentados e não explicados; e ainda por hipertensão refratária a quatro anti-hipertensivos, distúrbio persistente de potássio, acidose, anemia, doença óssea e desnutrição.

O encaminhamento tardio tem preço mensurável, e a prova gosta de cobrar as consequências: hipertensão grave e hipervolemia, mais comorbidade cardiovascular, baixa prevalência de acesso vascular definitivo, mais diálise de urgência por cateter temporário, encaminhamento tardio para transplante, mais internação inicial e maior mortalidade em um ano. Encaminhar cedo não é excesso de zelo — é o que muda desfecho duro.

Quando dialisar — e por que não existe um número mágico

A pergunta mais frequente da prova é feita errada de propósito: "com qual TFG se inicia diálise?". A resposta correta é que a indicação é clínica, composta, e a TFG entra como um dos elementos, não como gatilho isolado. O KDIGO manda iniciar a diálise a partir de uma avaliação composta de sintomas, sinais, qualidade de vida, preferências do paciente, nível de TFG e alterações laboratoriais.

As indicações objetivas são três blocos. Primeiro: sintomas ou sinais atribuíveis à falência renal — manifestações neurológicas da uremia, pericardite, anorexia, prurido intratável, serosite e distúrbios acidobásicos ou eletrolíticos resistentes ao tratamento clínico. Segundo: incapacidade de controlar volemia ou pressão arterial. Terceiro: deterioração progressiva do estado nutricional refratária à intervenção dietética, ou comprometimento cognitivo. Basta uma delas.

O número que se guarda é este: isso costuma ocorrer, mas não invariavelmente, com TFG entre 5 e 10 mL/min/1,73 m². Não é um limiar de indicação — é a faixa em que as indicações clínicas tipicamente aparecem. O ensaio ideal comparou início precoce (TFG de 10 a 14) com início tardio (5 a 7) e não encontrou diferença de mortalidade, o que é a base de evidência para não dialisar por número.

Antes disso, há uma decisão de planejamento com limiar próprio, e essa sim tem número: considerar transplante preemptivo e confecção de acesso para diálise quando a TFG estiver abaixo de 15 a 20 mL/min/1,73 m², ou quando o risco de terapia renal substitutiva em 2 anos ultrapassar 40%. O PCDT converge ao determinar que o paciente em estágio 4 seja esclarecido sobre as modalidades de TRS por equipe multiprofissional, e que no estágio 5 não dialítico a equipe treine e prepare o paciente para a modalidade escolhida por ele. Preparar acesso não é iniciar diálise — é o que evita começar por cateter venoso central.

A dimensão do desfecho no Brasil justifica a obsessão com o conservador: o Censo Brasileiro de Diálise de 2023 estimou 157.357 pacientes em diálise em 1º de julho daquele ano e 51.153 entradas no ano, prevalência de 771 e incidência de 251 por milhão de população, com mortalidade bruta anual de 16,2%. Hemodiálise responde por 88,2% e diálise peritoneal por 3,8%. Cada ano de diálise evitado no tratamento pré-dialítico economiza, segundo o próprio PCDT, mais de R$ 33 mil por paciente — mas o argumento que importa na enfermaria é o outro: um em cada seis pacientes em diálise morre a cada ano.

Um detalhe de prescrição que a prova cobra na virada para a diálise: a dapagliflozina deve ser interrompida no início da terapia renal substitutiva ou no transplante. IECA, BRA e espironolactona não são automaticamente suspensos — a manutenção é avaliada individualmente e pode continuar por hipertensão, diabetes ou insuficiência cardíaca.

04

Do estágio à conduta

O estadiamento só vale se produzir decisão. A sequência abaixo é a que resolve questão: confirme a cronicidade, estadie nas duas letras, aplique os pilares, cheque o gatilho de encaminhamento e reavalie na periodicidade do estágio.

  1. 11. Confirme a cronicidade: alteração estrutural ou funcional presente por mais de 3 meses. Achado isolado e recente exige repetição do exame antes do rótulo.
  2. 22. Estime a TFG pela CKD-EPI. Não use Cockcroft-Gault nem depuração de creatinina em urina de 24 horas para estadiar.
  3. 33. Meça a RAC em amostra isolada, preferencialmente primeira urina da manhã. RAC ≥ 30 mg/g em amostra aleatória precisa de confirmação.
  4. 44. Peça o EAS: procure hematúria glomerular (cilindros hemáticos, dismorfismo eritrocitário). Se houver história familiar, ITU de repetição ou doença urológica, peça ultrassonografia de rins e vias urinárias.
  5. 55. Cruze as duas letras (G e A) e leia o risco na diagonal, não em uma linha só.
  6. 66. Aplique os pilares: IECA ou BRA na dose máxima tolerada se houver albuminúria; iSGLT2 se preencher critério; meta de PA < 130/80 mmHg; estatina conforme idade e estágio; proteína < 0,8 g/kg/dia e sódio < 2 g/dia; retire nefrotóxicos.
  7. 77. Dose creatinina e potássio 2 a 4 semanas após iniciar ou aumentar IECA, BRA ou espironolactona. Suba de até 30% na creatinina: mantenha.
  8. 88. Cheque o gatilho de encaminhamento do estágio. Regra guarda-chuva do SUS: G3b, G4, G5 ou A3 vão para acompanhamento com nefrologista.
  9. 99. Reavalie na periodicidade do estágio: anual em G1–G2, anual ou semestral em G3a, semestral em G3b, trimestral em G4, mensal em G5 não dialítico.
  10. 1010. Em G4, comece a educação sobre modalidades de TRS. Com TFG < 15–20 mL/min/1,73 m², planeje acesso e avalie transplante preemptivo.

G1

TFG ≥ 90 mL/min/1,73 m². Só é DRC se houver marcador de dano (RAC ≥ 30 mg/g, hematúria glomerular, alteração tubular, histológica ou de imagem). Acompanhamento na atenção primária, TFG e EAS anuais.

G2

TFG 60 a 89 mL/min/1,73 m². Também exige marcador de dano: TFG nessa faixa sem albuminúria, sem hematúria e com imagem normal não é DRC. Mesma conduta de G1.

G3a

TFG 45 a 59 mL/min/1,73 m². A TFG já carrega o diagnóstico sozinha. Atenção primária com avaliação anual de TFG, EAS, RAC, potássio, cálcio, fósforo, PTH e hemograma; semestral se RAC > 30 mg/g.

G3b

TFG 30 a 44 mL/min/1,73 m². Acompanhamento com nefrologista recomendado pelo PCDT. TFG, EAS, RAC e potássio a cada 6 meses. Encaminhe se RAC > 300 mg/g em não diabético ou perda de 30% da TFG apesar de IECA/BRA.

G4

TFG 15 a 29 mL/min/1,73 m². Acompanhamento na atenção especializada com equipe multiprofissional, avaliação nefrológica trimestral. Começa a educação sobre modalidades de TRS e o planejamento de acesso.

G5

TFG < 15 mL/min/1,73 m² (5D quando em diálise). Avaliação mensal na atenção especializada. Diálise se houver sintoma urêmico, volemia ou PA incontroláveis, ou desnutrição progressiva — não pela TFG isolada.

CategoriaFaixaO que defineDecisão que muda
G1TFG ≥ 90Só é DRC com marcador de danoTratar fator de risco; TFG e EAS anuais
G2TFG 60–89Só é DRC com marcador de danoIdem G1; sem marcador, não rotule
G3aTFG 45–59TFG basta para o diagnósticoRastrear complicações (K, Ca, P, PTH, Hb) 1x/ano
G3bTFG 30–44TFG basta para o diagnósticoNefrologista recomendado; exames 2x/ano
G4TFG 15–29Falência renal iminenteAtenção especializada trimestral; educar sobre TRS
G5TFG < 15Falência renal (5D se em diálise)Avaliação mensal; diálise por critério clínico
A1RAC < 30 mg/gNormal a levemente aumentadaIECA/BRA só por outra indicação (HAS, ICFEr)
A2RAC 30–300 mg/gModeradamente aumentadaIECA/BRA se diabético (PCDT); sugerido se não diabético (KDIGO)
A3RAC > 300 mg/gGravemente aumentadaIECA/BRA sempre; espironolactona (G1–G4); nefrologista

As faixas de TFG do PCDT 2024 são as do KDIGO — não há divergência de estadiamento entre o documento brasileiro e o internacional.

Perda de 30% da TFG apesar do uso de IECA ou BRA é gatilho de encaminhamento em qualquer estágio de 1 a 3B no PCDT. Não confundir com a alta de até 30% na creatinina nas 4 semanas após iniciar o bloqueio, que é esperada e não manda suspender nada.

Critério de dispensação da dapagliflozina no SUS, cumulativo: adulto com DRC + em uso de IECA ou BRA + TFG entre 25 e 75 mL/min + (diabetes tipo 2 OU RAC > 300 mg/g se não diabético). Mantida até o início da TRS, mesmo que a TFG ou a RAC melhorem.

Meta de pressão arterial adotada aqui: < 130/80 mmHg na DRC em tratamento conservador (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, recomendação forte, certeza alta). Ver divergências.

A faixa de TFG de 5 a 10 mL/min/1,73 m² descreve onde as indicações clínicas de diálise costumam aparecer — não é, ela própria, indicação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Meta de pressão arterial na DRC em tratamento conservador

PAS < 120 mmHg

Sugere tratar adultos com pressão elevada e DRC com alvo de pressão arterial sistólica abaixo de 120 mmHg, quando tolerado, usando medida padronizada de consultório. Recomendação 2B, baseada sobretudo no SPRINT. Ressalva explícita: considerar alvo menos intensivo em fragilidade, alto risco de queda, expectativa de vida muito limitada ou hipotensão postural sintomática.

KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of CKD, recomendação 3.4.1

PA < 130/80 mmHg

Recomenda, em adultos com hipertensão e DRC ou diabetes, a meta de PA abaixo de 130/80 mmHg para redução de eventos cardiovasculares e falência renal — recomendação forte, certeza alta. O texto brasileiro rejeita explicitamente a extrapolação do SPRINT: o estudo excluiu diabéticos, proteinúria acima de 1 g/dia, TFGe abaixo de 20, rins policísticos e AVC prévio (parte expressiva dos brasileiros com DRC), mediu a PA com aparelho automatizado não disponível comercialmente no Brasil e frequentemente com o paciente desacompanhado, e não teve desfecho renal como objetivo primário. Admite mirar PAS < 120 mmHg em casos selecionados: mais jovens, sem fragilidade, com medida automatizada e sob vigilância.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, seção 8.2.1 (Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250624)

PA < 140/90 mmHg (ou < 130/80 se albuminúria)

Posição do KDIGO 2012, reproduzida no apêndice de evidências do PCDT brasileiro de 2024: recomenda manter PA abaixo de 140/90 mmHg em adultos com DRC e albuminúria acima de 30 mg/24 h, e sugere abaixo de 130/80 mmHg para o mesmo grupo. É a meta mais permissiva das três e ainda circula em provas antigas.

PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da DRC (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11/2024), Apêndice 1, resumo das evidências do KDIGO 2012

Na prova

São três documentos de datas diferentes, e a divergência principal é metodológica, com as razões escritas. O KDIGO 2024 sugere PAS abaixo de 120 mmHg quando tolerada (2B), apoiado sobretudo no SPRINT, com ressalva explícita para fragilidade, risco de queda, expectativa de vida muito limitada e hipotensão postural sintomática. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025 fixa abaixo de 130/80 mmHg (recomendação forte, certeza alta) e recusa a extrapolação do SPRINT porque o ensaio excluiu diabéticos, proteinúria acima de 1 g/dia, TFGe abaixo de 20, rins policísticos e AVC prévio, mediu a PA com aparelho automatizado não comercializado no Brasil e frequentemente com o paciente desacompanhado, e não teve desfecho renal primário — admitindo mirar PAS abaixo de 120 em casos selecionados. O apêndice do PCDT de 2024 reproduz o KDIGO 2012, com abaixo de 140/90 mmHg (ou 130/80 com albuminúria), meta mais permissiva que ainda aparece em provas antigas. Cenário de SUS, atenção primária ou citação da diretriz brasileira aponta 130/80, e prova oficial do MEC tende a conduta SUS; citação nominal ao KDIGO 2024, ou descrição de medida padronizada de consultório em paciente jovem, sem fragilidade e sem diabetes, aponta a sistólica abaixo de 120 — faixa que a própria diretriz brasileira admite nesse perfil. O 140/90 só se sustenta quando a questão declara seguir o KDIGO 2012, e a data da prova pesa nessa leitura.

Quem recebe iSGLT2 na DRC

Critério do SUS (dispensação)

Dapagliflozina 10 mg/dia para adulto com DRC de qualquer etiologia, desde que cumpra tudo isto ao mesmo tempo: já estar em uso de IECA ou BRA, ter TFG entre 25 e 75 mL/min, e ser diabético tipo 2 ou apresentar RAC acima de 300 mg/g se não for diabético. Uma vez iniciada, mantém-se até o início da terapia renal substitutiva ou o transplante, mesmo que a TFG ou a RAC mudem.

PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da DRC (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11/2024), seção 4 — Critérios de inclusão

Critério clínico internacional

Recomenda iSGLT2 (1A) para diabetes tipo 2 com DRC e TFGe ≥ 20 mL/min/1,73 m²; e para adultos com DRC e TFGe ≥ 20 com RAC ≥ 200 mg/g, ou com insuficiência cardíaca independentemente da albuminúria. Sugere (2B) para TFGe de 20 a 45 mL/min/1,73 m² mesmo com RAC abaixo de 200 mg/g. Iniciado o fármaco, é razoável mantê-lo mesmo se a TFGe cair abaixo de 20, até que se inicie TRS. A queda inicial e reversível da TFGe não é indicação de suspender.

KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of CKD, recomendações 3.7.1 a 3.7.3

Na prova

A diferença de natureza vem primeiro: o PCDT é norma de dispensação — define quem o SUS financia — e o KDIGO é critério clínico de indicação; as faixas não estão em desacordo técnico, estão respondendo a perguntas distintas. Sinais do corpo brasileiro: dispensação, protocolo do Ministério da Saúde, PCDT, farmácia, ou os números de TFG entre 25 e 75 mL/min no enunciado — e ali o distrator clássico é oferecer dapagliflozina a quem ainda não está em IECA ou BRA, exigência do documento nacional, junto de RAC acima de 300 mg/g no não diabético. Sinais do corpo internacional: conduta clínica sem menção ao SUS, TFGe de 20 mL/min/1,73 m² como piso, RAC de 200 mg/g, insuficiência cardíaca independentemente da albuminúria, ou a faixa de 20 a 45 com RAC baixo (sugestão 2B) — números que só existem no KDIGO e que, aparecendo nas alternativas, denunciam o recorte. Os dois textos concordam em algo que também cai: iniciado o fármaco, mantém-se até a terapia renal substitutiva ou o transplante, e a queda inicial e reversível da TFGe não é motivo de suspensão.

Raça no cálculo da TFG estimada

CKD-EPI com coeficiente de raça

O PCDT brasileiro de 2024 recomenda a CKD-EPI e reproduz, no Quadro 1, a versão de 2009 da fórmula, com constantes distintas por raça (166 e 163 para um grupo, 144 e 141 para outro, além dos coeficientes por sexo e por faixa de creatinina). É o que está escrito no documento nacional vigente.

PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da DRC (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11/2024), Quadro 1

Sem raça no cálculo

Determina que o uso de raça na computação da TFGe deve ser evitado, e orienta usar a mesma equação dentro de uma mesma região geográfica — na prática, a CKD-EPI 2021 sem coeficiente racial. Recomenda ainda considerar a combinação de creatinina com cistatina C quando disponível, por maior acurácia.

KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of CKD, práticas 1.2.4.1 e 1.2.4.2

Na prova

A divergência é de versão da mesma fórmula: o PCDT brasileiro de 2024 reproduz no Quadro 1 a CKD-EPI de 2009, com constantes distintas por raça (166 e 163 para um grupo, 144 e 141 para outro), enquanto o KDIGO 2024 orienta evitar raça no cálculo e usar a mesma equação dentro de uma mesma região geográfica — na prática a CKD-EPI 2021 —, além de considerar creatinina com cistatina C quando disponível. A escolha da equação, e não o coeficiente, é o que a maioria das questões cobra: CKD-EPI atende aos dois documentos. Quando o enunciado discute explicitamente o ajuste racial, ou cita cistatina C, está trabalhando com o texto internacional de 2024; quando reproduz o quadro do PCDT, está na versão de 2009 que o documento nacional ainda carrega. As duas alternativas erradas de sempre seguem erradas nos dois corpos: Cockcroft-Gault e depuração de creatinina em urina de 24 horas não servem para estadiar.

Limiar de albuminúria para encaminhar ao nefrologista

RAC > 1 g/g (estágios 1 a 3A) ou > 300 mg/g (3B)

O PCDT gradua o gatilho pelo estágio: nos estágios 1, 2 e 3A encaminha o paciente não diabético com RAC acima de 1 g/g; no 3B, o não diabético com RAC acima de 300 mg/g. Em qualquer estágio, perda de 30% da TFG apesar de IECA ou BRA encaminha. E fixa, na seção de regulação, a regra guarda-chuva: estágios 3B, 4 e 5, ou qualquer paciente A3, devem ter acompanhamento com nefrologista.

PCDT das Estratégias para Atenuar a Progressão da DRC (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11/2024), seções 8.1 a 8.4 e 9

RAC > 700 mg/g, ou ≥ 300 mg/g com hematúria

Encaminha por achado consistente de RAC acima de 700 mg/g; por RAC ≥ 300 mg/g associada a hematúria; por aumento de duas vezes na albuminúria em quem já está em monitoramento; e, independentemente da albuminúria, por TFGe abaixo de 30 mL/min/1,73 m², queda sustentada de TFG maior que 20% (ou 30% após terapia hemodinamicamente ativa), ou risco de TRS em 5 anos acima de 3 a 5% pela KFRE.

KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of CKD, Figura 48 e prática 2.2.1

Na prova

Os dois documentos organizam coisas diferentes. O PCDT gradua o encaminhamento porque também está regulando a agenda do nefrologista no SUS: RAC acima de 1 g/g no não diabético dos estágios 1 a 3A, acima de 300 mg/g no 3B, perda de 30% da TFG apesar de IECA ou BRA em qualquer estágio, e a regra guarda-chuva de que estágios 3B, 4 e 5 ou qualquer paciente A3 têm acompanhamento com nefrologista. O KDIGO 2024 gradua por risco individual: RAC acima de 700 mg/g, ou ≥ 300 mg/g com hematúria, duplicação da albuminúria em quem já é monitorado, TFGe abaixo de 30 mL/min/1,73 m², queda sustentada maior que 20% (30% após terapia hemodinamicamente ativa) e risco de TRS em 5 anos acima de 3 a 5% pela KFRE. Cenário de UBS, atenção primária, regulação ou fila aponta o corpo nacional, e quando o enunciado não detalha o estágio é a regra guarda-chuva que ele costuma estar cobrando: TFG abaixo de 45 mL/min/1,73 m² (G3b em diante) ou RAC acima de 300 mg/g (A3). Menção à KFRE, a equação de risco de falência renal, a hematúria associada ou à duplicação da albuminúria só existe no vocabulário do KDIGO, e ali os cortes passam a TFGe abaixo de 30 e RAC acima de 700 mg/g. Os dois convergem no que a maioria das vinhetas de fato descreve: perda progressiva de função apesar do tratamento correto encaminha.

06

Caso resolvido

Mulher de 61 anos, hipertensa e diabética tipo 2 há 12 anos, vem à unidade básica para revisão. Usa metformina 1 g duas vezes ao dia e anlodipino 10 mg/dia. Assintomática. PA de 148 x 88 mmHg em duas aferições. Exames de hoje: creatinina 1,42 mg/dL, TFG estimada pela CKD-EPI de 40 mL/min/1,73 m², RAC de 680 mg/g, potássio 4,4 mEq/L, hemoglobina 12,8 g/dL, HbA1c 7,4%. Exames de cinco meses atrás, no prontuário: creatinina 1,38 mg/dL, TFG de 41 mL/min/1,73 m², RAC de 610 mg/g. Ultrassonografia de rins e vias urinárias sem alterações.
achado
Duas medidas de TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² separadas por cinco meses. O critério de cronicidade (mais de 3 meses) está cumprido pelo próprio prontuário — não é preciso repetir nada.
estadiamento
TFG de 40 mL/min/1,73 m² coloca em G3b (faixa de 30 a 44). RAC de 680 mg/g coloca em A3 (acima de 300). O estágio é G3b A3, e a leitura do risco é feita na diagonal: albuminúria grave em filtração moderadamente reduzida é risco muito alto, pior que um G4 A1.
raciocínio
Nefropatia diabética é a hipótese etiológica dominante: diabetes de longa data, albuminúria em faixa grave, ultrassom sem obstrução nem assimetria. Não há indicação de biópsia nesse quadro típico. A causa importa aqui apenas para reforçar que a doença é progressiva e que o tempo de tratamento conservador é agora.
conduta
Introduzir IECA ou BRA em dose máxima tolerada — o PCDT indica para diabético com DRC em qualquer estágio e RAC ≥ 30 mg/g, e esta paciente está muito acima disso. O anlodipino sozinho não protege o rim. Meta de PA < 130/80 mmHg. Introduzir dapagliflozina 10 mg/dia: ela preenche todos os critérios do SUS assim que estiver em IECA ou BRA (adulta com DRC, TFG de 40, dentro da faixa de 25 a 75, diabética tipo 2). Estatina está indicada (61 anos, TFG < 60, não dialítica). Proteína abaixo de 0,8 g/kg/dia e sódio abaixo de 2 g/dia. Retirar anti-inflamatórios e evitar contraste.
monitorização
Dosar creatinina e potássio em 2 a 4 semanas após iniciar o bloqueio do SRAA. Se a creatinina subir até 30% em relação ao basal, mantenha a medicação e siga o acompanhamento; acima disso, investigue. Aumento inicial da creatinina não é falha de tratamento.
encaminhamento
Encaminhar ao nefrologista: G3b e A3 preenchem a regra guarda-chuva do PCDT duas vezes. O seguimento passa a ser conjunto — a atenção primária mantém o cuidado longitudinal, e o nefrologista assume a avaliação de progressão. Exames de TFG, EAS, RAC e potássio a cada seis meses.
07

Agora feche você

Homem de 54 anos, não diabético, hipertenso há 15 anos, em uso de losartana 100 mg/dia e hidroclorotiazida 25 mg/dia. Vem para reavaliação de rotina. Assintomático, sem edema, PA de 126 x 78 mmHg. Creatinina de 2,4 mg/dL com TFG estimada de 28 mL/min/1,73 m². Há sete meses, a creatinina era 2,3 mg/dL com TFG de 30 mL/min/1,73 m². RAC atual de 520 mg/g, confirmada em duas amostras de primeira urina da manhã. Potássio 4,9 mEq/L, bicarbonato 22 mEq/L, hemoglobina 11,9 g/dL, cálcio e fósforo normais. Ultrassonografia: rins de 9,2 e 9,0 cm, com redução da espessura cortical.
achado
TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² em duas medidas separadas por sete meses, rins reduzidos com afilamento cortical à ultrassonografia e albuminúria confirmada. Cronicidade não está em dúvida.
estadiamento
TFG de 28 mL/min/1,73 m² é G4 (faixa de 15 a 29). RAC de 520 mg/g é A3 (acima de 300). Estágio G4 A3, com função praticamente estável nos últimos sete meses.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Rotular DRC com uma creatinina só O critério é anormalidade presente por mais de 3 meses. Uma TFGe de 48 hoje, sem exame anterior e sem sinal de cronicidade na imagem, pede repetição — não estadiamento. A banca monta esse enunciado com desidratação, uso recente de anti-inflamatório ou pós-operatório justamente para ver quem carimba o rótulo cedo demais.
  2. 2Chamar de estágio 2 quem só tem TFG de 70 G1 e G2 exigem marcador de dano renal. Sem albuminúria, sem hematúria glomerular, sem alteração tubular, histológica ou de imagem, TFG entre 60 e 89 não é DRC — é filtração normal para a idade. O inverso também cai: TFG de 100 com RAC de 90 mg/g confirmada é DRC G1 A2, com todas as condutas que isso implica.
  3. 3Suspender IECA ou BRA porque a creatinina subiu Alta de até 30% na creatinina nas 4 semanas seguintes ao início ou ao aumento da dose é esperada e reflete o próprio mecanismo de proteção. Mantenha. Só investigue acima de 30%. E não suspenda porque a TFGe caiu abaixo de 30: o KDIGO manda continuar. Motivos legítimos de suspensão são hipotensão sintomática e hipercalemia não controlada apesar do tratamento.
  4. 4Associar IECA com BRA para 'potencializar' a nefroproteção Não existe. O PCDT registra que não há evidência suficiente para a associação, e o KDIGO recomenda ativamente evitar qualquer combinação de IECA, BRA e inibidor direto de renina, com força 1B. A combinação aumenta hipercalemia e injúria renal aguda sem ganho renal.
  5. 5Estadiar com Cockcroft-Gault ou clearance de 24 horas O PCDT descarta os dois explicitamente: a depuração em urina de 24 horas pelo erro de coleta, e Cockcroft-Gault por precisar de correção para superfície corpórea e ter viés na correlação com a TFG. A fórmula do estadiamento é a CKD-EPI. Cockcroft-Gault ainda aparece em bula para ajuste de dose de alguns fármacos — isso não a transforma em ferramenta de estadiamento.
  6. 6Confiar no EAS para excluir albuminúria A fita comum costuma só marcar proteína acima de 300 a 500 mg/dia, muito acima do limiar de 30 mg/g que já define dano renal. Diabético ou hipertenso com EAS sem proteinúria é exatamente o paciente em quem o PCDT manda pedir RAC. Um EAS limpo não fecha a investigação.
  7. 7Esperar um número de TFG para indicar diálise A indicação é clínica e composta: sintoma ou sinal atribuível à falência renal, incapacidade de controlar volemia ou pressão, ou deterioração nutricional progressiva refratária à dieta. A faixa de 5 a 10 mL/min/1,73 m² descreve onde isso costuma acontecer, não um gatilho. O ensaio IDEAL não mostrou diferença de mortalidade entre iniciar com TFG de 10 a 14 ou de 5 a 7.
  8. 8Suspender a dapagliflozina porque a TFG piorou ou porque a albuminúria melhorou O PCDT é explícito: mesmo com mudanças na TFG ou redução da RAC, o medicamento deve ser mantido até o início da terapia renal substitutiva ou o transplante. O KDIGO diz o mesmo em outra formulação — é razoável continuar mesmo se a TFGe cair abaixo de 20, e a queda inicial reversível da TFGe não é indicação de suspender.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Pela KDIGO, TFG de 38 mL/min/1,73m² situa-se entre 30 e 44, o que corresponde ao estágio G3b. G2 é TFG 60-89; G3a é 45-59; G4 é 15-29; G5 é menor que 15 (falência renal). A albuminúria de 400 mg/g adiciona a categoria A3, mas o estágio pela filtração é G3b.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: as seis faixas de TFG (G1 a G5) e as três de RAC (A1 a A3), com os números. Depois responda em uma frase cada: por que G1 e G2 exigem marcador de dano? Quais são os quatro critérios cumulativos da dapagliflozina no SUS? Quanto a creatinina pode subir após iniciar IECA sem que você suspenda? Se errar qualquer número, refaça o exercício inteiro no dia seguinte — a prova cobra o número, não o conceito.

em 30 dias

Pegue três vinhetas de provas antigas de nefrologia e, para cada uma, produza em até dois minutos: estágio nas duas letras, um gatilho de encaminhamento presente ou ausente, e a prescrição completa dos pilares (bloqueio do SRAA, iSGLT2, meta de PA, estatina, dieta, nefrotóxico a retirar). Em seguida, releia só o bloco de divergências deste capítulo e decida, para cada vinheta, se a banca estava perguntando pelo PCDT do SUS ou pelo KDIGO — essa leitura de contexto vale mais pontos que qualquer número isolado.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 67 anos chega à unidade básica com resultado de exames pedidos há uma semana por outro profissional: creatinina de 1,9 mg/dL e TFG estimada de 34 mL/min/1,73 m². Está assintomático, trouxe a receita de losartana e um frasco de diclofenaco que compra para dor no joelho. Não sabe dizer se já fez exame de rim antes. Conduza: confirme a cronicidade, estadie nas duas letras, monte a prescrição e decida se ele vai para o nefrologista hoje. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.