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Clínica MédicaNefrologia

Infecção do trato urinário

Quatro quadros com o mesmo germe e condutas opostas: bacteriúria assintomática, cistite, pielonefrite e urossepse. A prova cobra a estratificação — e cobra, acima de tudo, quem NÃO se trata.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 28 anos, previamente hígida, apresenta disúria, polaciúria e urgência miccional há 2 dias, sem febre, sem dor lombar e sem corrimento vaginal. Ao exame, afebril, sem dor à punho-percussão lombar. Urina tipo I com leucocitúria e nitrito positivo. Qual é o diagnóstico e a conduta inicial mais adequada?

02

Como esse tema cai

Infecção urinária não é uma doença: são quatro quadros que compartilham o mesmo germe e têm condutas opostas. Escherichia coli responde por cerca de 80% dos casos em todos eles, e mesmo assim a resposta certa vai de não prescrever nada a drenar um rim em caráter de urgência. Bacteriúria assintomática, cistite, pielonefrite e urossepse formam uma escada, e errar o degrau custa muito mais caro do que errar a droga.

Este capítulo é do adulto não gestante. A gestante é a exceção que confirma a regra da bacteriúria assintomática — nela se rastreia e se trata, por causa da estase que a progesterona e o útero produzem, e porque tratar reduz pielonefrite, prematuridade e baixo peso ao nascer; o rastreio por trimestre, o esquema e o controle de cura estão no capítulo de exames do pré-natal, e aqui a regra fica em uma linha. A ITU da criança tem capítulo próprio em Pediatria, e é lá que mora a investigação de malformação do trato urinário. A urossepse por rim obstruído aparece aqui pelo lado clínico — reconhecer, não retardar e chamar quem desobstrui —, enquanto a lógica geral de controle de foco está no capítulo de sepse cirúrgica.

A ITU do adulto não tem protocolo clínico e diretriz terapêutica do Ministério da Saúde, ao contrário de hipertensão, diabetes e HIV. O documento nacional de referência é o parecer conjunto de 2020 da Sociedade Brasileira de Infectologia, da FEBRASGO, da Sociedade Brasileira de Urologia e da SBPC/ML, e é dele que descem os protocolos municipais e estaduais do SUS. Isso importa para a prova: a régua brasileira aqui é de sociedade, não de portaria, e ela se afasta da internacional num ponto muito concreto — a droga empírica, porque perfil de resistência é dado local.

O erro mais cobrado do tema não é subtratar: é tratar quem não devia. Urocultura positiva em paciente sem sintoma urinário é colonização, e a lista de quem se trata mesmo assim tem dois itens. Idoso institucionalizado com urina turva, diabético com bacteriúria, paciente sondado com cultura positiva, mulher que acabou de terminar o tratamento e faz controle de cura: todos entram na questão como isca.

03

O que muda decisão

Quatro quadros, um germe: o que separa cada degrau

Bacteriúria assintomática é a presença de uma ou mais espécies de bactéria em quantidade significativa na urina — 10⁵ UFC/mL (100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro) em amostra de jato médio — na ausência de sinais e sintomas de infecção urinária, e independentemente de haver piúria. Na mulher o diagnóstico exige duas amostras consecutivas; no homem, uma amostra basta. Em amostra colhida por cateterismo, o corte cai para 10² UFC/mL.

Cistite é a infecção do trato urinário inferior: disúria, polaciúria e urgência miccional, podendo vir com dor suprapúbica e hematúria. O que a define negativamente é tão importante quanto o que a define positivamente — não há febre, não há dor lombar, não há sinal sistêmico. Em mulher com disúria e polaciúria sem corrimento nem irritação vaginal, a probabilidade de infecção urinária passa de 90%.

Pielonefrite é a infecção que alcança o trato superior e o rim: febre, calafrio, dor em flanco ou sensibilidade no ângulo costovertebral, náusea e vômito. Os sintomas baixos podem estar presentes, mas podem faltar por completo — a ausência de disúria não afasta pielonefrite. No idoso e no paciente com déficit cognitivo, a apresentação pode ser inespecífica, com prostração e piora funcional.

Urossepse fecha a escada. O protocolo colaborativo do SUS de Belo Horizonte a define como infecção urinária associada a dois ou mais critérios de resposta inflamatória sistêmica, ou a sinais de disfunção orgânica, ou a escore NEWS 2 igual ou maior que 5. Os critérios de resposta inflamatória sistêmica ali usados são temperatura acima de 38,3 °C ou abaixo de 36 °C, frequência cardíaca acima de 90 bpm, frequência respiratória acima de 20 irpm, leucócitos acima de 12.000/mm³ ou abaixo de 4.000/mm³ ou com mais de 10% de formas jovens, e proteína C reativa acima de duas vezes o valor de referência. Um único critério pontuando 3 no NEWS 2, de forma aguda, já obriga a considerar sepse provável.

Atravessando a escada existe um segundo eixo, que é o que de fato decide internação, exames, droga, via e duração: complicada ou não complicada. ITU não complicada é a que acomete mulher não gestante, sem anormalidade anatômica ou funcional do trato urinário, sem comorbidade grave e sem imunodepressão. ITU complicada é a que ocorre em gestante, em homem, em portador de anormalidade anatômica ou funcional do trato urológico, em portador de cateter vesical de longa permanência, em paciente com doença renal crônica e em imunodeprimido. E os sinais de alarme — febre, prostração intensa, toxemia, comprometimento das funções vitais, sepse — reclassificam o quadro como complicado por si sós, sem nenhum outro fator.

A lista de fatores de risco da associação europeia é mais longa e vale conhecer porque ela recorta enunciados: lactentes, idoso frágil, sexo masculino com envolvimento prostático, gestação, prolapso de órgãos pélvicos, anormalidade anatômica ou funcional, doença neurourológica, resíduo pós-miccional significativo, cateter de demora, litíase, obstrução, instrumentação recente, uso recente de antibiótico, imunossupressão e germe resistente.

Há uma mudança de nomenclatura em curso. A associação europeia propõe abandonar o par não complicada/complicada e trabalhar com ITU localizada — cistite, sem sinal nem sintoma de infecção sistêmica, em qualquer sexo — e ITU sistêmica, que é a infecção com sinais e sintomas sistêmicos originada em qualquer ponto do trato urinário, também em qualquer sexo. Nessa classificação, pielonefrite, prostatite aguda e urossepse são todas ITU sistêmica, e o sexo masculino deixa de ser, por si só, fator de complicação. Os documentos brasileiros em vigor ainda usam o par antigo.

No homem, um cuidado a mais: separar infecção urinária de prostatite, porque a conduta e a duração mudam. E a recorrência masculina, em qualquer idade, tem endereço próprio, que é o urologista.

Bacteriúria assintomática: a lista de quem se trata cabe em duas linhas

Este é o ponto mais cobrado do tema, e a informação que resolve a maioria das questões é curta: só duas situações justificam rastrear e tratar bacteriúria assintomática. A primeira é a gestante. A segunda é o paciente que será submetido a procedimento urológico endoscópico com trauma de mucosa — e mesmo aí a regra é fina: colhe-se urocultura antes do procedimento e prescreve-se terapia dirigida pelo antibiograma, não terapia empírica, em curso curto de uma a duas doses, começando 30 a 60 minutos antes.

Repare no que fica de fora dessa segunda exceção. Implante de esfíncter urinário artificial ou de prótese peniana não entra: nesses casos o paciente recebe a profilaxia perioperatória padrão, sem rastreio prévio de bacteriúria. E cirurgia eletiva não urológica também não entra — inclusive artroplastia, que é o cenário em que a solicitação de urocultura pré-operatória mais persiste na prática.

A lista de quem não se rastreia nem se trata é longa e vale decorar, porque cada item já foi enunciado de questão: mulher jovem saudável não gestante, pré ou pós-menopausa; idoso que vive na comunidade, inclusive com declínio funcional; idoso institucionalizado ou residente de instituição de longa permanência; diabético; paciente com lesão medular; paciente com cateter vesical, de curta ou de longa permanência; transplantado renal com mais de um mês de cirurgia; transplantado de órgão sólido não renal; criança; candidato a cirurgia eletiva não urológica; e paciente com ITU de repetição, entre os episódios.

Duas situações merecem destaque porque é onde a prática mais erra. Diante de delirium em paciente bacteriúrico, sem sintoma geniturinário localizatório e sem sinal de infecção sistêmica, a orientação é avaliar outras causas e observar, em vez de prescrever antimicrobiano — o delirium do idoso é multifatorial, e a bacteriúria costuma ser achado de acompanhamento, não causa. Mesma lógica para queda sem febre e sem instabilidade hemodinâmica. O protocolo brasileiro é explícito ao pedir que não se solicite exame de urina para rastrear infecção em idoso frágil com delirium.

A razão para não tratar não é economia de antibiótico. Bacteriúria assintomática é colonização, não infecção: tratar não reduz episódios sintomáticos nem mortalidade, seleciona resistência, expõe o paciente a efeito adverso e a diarreia por Clostridioides difficile. E no paciente com ITU de repetição o protocolo brasileiro vai além e afirma que tratar a bacteriúria entre os episódios é prejudicial, com evidência de nível 1B — erradicar a flora que está colonizando abre espaço para cepas mais virulentas. A expressão que o consenso brasileiro usa para essa rotina é direta: não rastrear e não tratar.

Daí decorre a trava operacional, que é mais eficiente que a regra teórica: o jeito mais confiável de não tratar bacteriúria assintomática é não pedir o exame. Não se solicita urocultura em adulto sem sintoma urinário, salvo gestante e pré-operatório urológico invasivo. Não se solicita urocultura em paciente assintomático porque a urina está turva ou com odor alterado. E não se solicita controle de cura pós-tratamento em paciente assintomático que não seja gestante.

A aparência da urina nunca é critério. O consenso brasileiro é textual: cor, odor e transparência não devem ser usados como critério isolado para diagnosticar infecção urinária nem para iniciar antimicrobiano. Urina turva costuma ser urina concentrada, e odor forte costuma ser desidratação, medicamento ou alimento.

Diagnóstico: quando o exame ajuda e quando ele atrapalha

Em mulher não gestante com quadro típico de cistite não complicada, o diagnóstico é clínico e o tratamento é empírico — sem exame de urina de rotina e sem urocultura. Os três documentos convergem, e o brasileiro do SUS grada essa recomendação como forte. A razão é aritmética: com disúria, polaciúria e urgência, sem corrimento vaginal, a probabilidade pré-teste já passa de 90%, e nenhum exame move o suficiente essa probabilidade para mudar a conduta.

A fita reagente entra quando há dúvida. Nitrito e esterase leucocitária positivos têm sensibilidade de 75% a 96% e especificidade de 94% a 98% para confirmar infecção urinária — ou seja, positiva confirma, e negativa não exclui. O nitrito é o mais específico e o menos sensível dos dois: depende de bactéria que reduz nitrato a nitrito, o que enterobactérias fazem e Enterococcus, Staphylococcus saprophyticus e Pseudomonas não fazem, e depende de urina represada tempo suficiente na bexiga. Coleta apressada, com bexiga de poucas horas, produz falso-negativo mesmo com infecção.

Piúria é definida como mais de 10 leucócitos por microlitro em urina não centrifugada, ou cinco ou mais leucócitos por campo de grande aumento no sedimento. É um achado inespecífico: não confirma infecção urinária na ausência de sintomas, e não serve, sozinha, como indicador de infecção associada a cateter. Piúria isolada em paciente assintomático não é motivo para prescrever. O contrário também é informativo: ausência de piúria em paciente com sintomas floridos é incomum e deve fazer pensar em outro diagnóstico.

Urocultura com antibiograma se pede em sete situações, e a lista é a mesma nos documentos brasileiros: gestante; suspeita de pielonefrite, sempre e antes da primeira dose; ITU de repetição, confirmando cada episódio; apresentação atípica ou dúvida diagnóstica; falha do tratamento empírico inicial, entendida como ausência de melhora em 48 a 72 horas; recorrência de sintomas dentro de quatro semanas do fim do tratamento; e ITU complicada. Some-se o pré-operatório de procedimento urológico invasivo.

E não se pede urocultura, como já dito, em paciente assintomático fora das duas exceções; nem em assintomático com urina de aspecto alterado; nem como controle de cura em assintomático não gestante; nem de forma periódica em quem tem ITU de repetição; nem para rastrear infecção em idoso frágil com delirium.

Os cortes de contagem mudam com o cenário de coleta, e a questão costuma testar exatamente isso. Em jato médio, o corte da bacteriúria significativa é 10⁵ UFC/mL — duas amostras consecutivas na mulher, uma no homem. Em amostra colhida por cateterismo, 10² UFC/mL já basta, porque não houve passagem pela uretra distal. E, no episódio sintomático de ITU de repetição, o consenso brasileiro aceita 10² UFC/mL em jato médio: com sintoma agudo, contagem baixa é infecção, não contaminação.

A técnica de coleta decide o resultado tanto quanto o corte. Colher a primeira urina da manhã sempre que possível; desprezar o primeiro jato, que carrega contaminantes uretrais, e enviar a amostra intermediária; se não for a primeira urina, reter na bexiga por pelo menos duas horas; fazer higiene do meato com água e sabão; separar manualmente os lábios da vulva para minimizar contato do jato com a mucosa. E não aumentar a ingestão de água antes da coleta para encher a bexiga: excesso de líquido dilui a urina, reduz a contagem de colônias e produz falso-negativo.

Hemocultura tem uso seletivo, na pielonefrite complicada, onde a positividade pode ter peso prognóstico. Função renal se avalia e se monitora, para graduar o comprometimento e para ajustar dose e escolha de antimicrobiano.

Cistite não complicada: cinco dias, dose única, e as duas drogas que saíram

A primeira linha brasileira tem dois esquemas, e ambos precisam estar na ponta da língua com dose e duração. Nitrofurantoína 100 mg por via oral de 6 em 6 horas por 5 dias. Fosfomicina trometamol 3 g por via oral, diluídos em meio copo de água, em dose única. Os dois compartilham a mesma virtude: concentração urinária alta, resistência baixa no Brasil e pouquíssimo dano à flora intestinal.

As alternativas são beta-lactâmicos: amoxicilina com clavulanato 500/125 mg de 8 em 8 horas por 7 dias, ou 875/125 mg de 12 em 12 horas por 7 dias; e cefuroxima 250 mg de 12 em 12 horas por 7 dias. São alternativas, e não primeira linha, porque beta-lactâmico oral tem eficácia inferior e mais recorrência na cistite quando comparado com os esquemas curtos das outras classes.

Duas classes saíram do tratamento empírico da cistite não complicada no Brasil, por razões diferentes. O sulfametoxazol-trimetoprima saiu por resistência: o número brasileiro fica acima do limiar de 20% que os documentos internacionais definem como o ponto em que a droga deixa de servir para empírico. As fluoroquinolonas saíram por dano ecológico e por perfil de efeitos adversos, independentemente do quanto a resistência esteja alta ou baixa naquele serviço — o consenso brasileiro de 2020 afirma que norfloxacino, ciprofloxacino e levofloxacino não devem ser usados para tratar cistite não complicada, salvo ausência absoluta de outra opção. Ampicilina e amoxicilina isoladas também não servem: nas séries que o consenso tabula, a sensibilidade de E. coli à ampicilina varia de 34% a 55%.

Uma consequência da farmacologia costuma virar distrator: nitrofurantoína e fosfomicina não figuram em nenhum esquema de pielonefrite, em nenhum documento. São drogas de concentração urinária, sem penetração de parênquima renal. Servem para cistite e para profilaxia da ITU de repetição, e não servem para infecção alta. Prescrever nitrofurantoína para quem tem febre e Giordano positivo é subtratar com aparência de tratar.

Regime de dose única e curso de três dias têm restrição de público, e ela é antiga e continua válida: não se aplicam a homens, crianças, mulheres idosas e diabéticos, por menor eficácia, nem a qualquer infecção complicada, pelo risco de a infecção não ser debelada. Na mulher jovem imunocompetente com episódio ocasional, o curso curto tem eficácia comparável ao longo, com melhor adesão, menos efeito adverso e menor pressão seletiva.

O alívio sintomático faz parte da conduta. Hidratação, sem hiperidratar. Analgésico simples ou anti-inflamatório para controle de sintomas. Fenazopiridina 200 mg por via oral três vezes ao dia, após as refeições, pode ser usada para a disúria nas primeiras 48 horas — e o protocolo brasileiro pede explicitamente que não se prolongue além desse prazo, porque a melhora sintomática é o marcador de sucesso terapêutico, e mascará-la cega a reavaliação.

Cistite complicada — a que ocorre em homem, em portador de doença renal crônica, em imunodeprimido ou em quem tem anormalidade do trato urinário — muda de manejo: curso mais longo, preferência por beta-lactâmico, urocultura colhida no início do tratamento, e reavaliação em 72 horas e ao término, pela maior chance de evoluir para pielonefrite e sepse. Fluoroquinolona nesse cenário fica reservada para alergia a beta-lactâmico.

O número que decide a droga: a resistência é local, e a local é brasileira

A régua internacional é condicional, e é isso que a torna traiçoeira na prova. A IDSA e a sociedade europeia de microbiologia descrevem sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg de 12 em 12 horas por 3 dias como esquema de primeira linha na cistite aguda não complicada — desde que a resistência local dos uropatógenos não exceda 20%. O limiar de 20% é definido no próprio documento como a prevalência de resistência a partir da qual o agente deixa de ser indicado para tratamento empírico. A associação europeia repete a condição, tanto para a associação por 3 dias quanto para trimetoprima isolada 200 mg de 12 em 12 horas por 5 dias.

O número brasileiro não cumpre a condição. Em 802 uroculturas comunitárias de Divinópolis, em Minas Gerais, no primeiro semestre de 2015, Escherichia coli respondeu por 72,8% dos isolados, com resistência de 38,6% ao sulfametoxazol-trimetoprima, 33,0% ao norfloxacino, 31,8% ao ciprofloxacino e apenas 9,0% à nitrofurantoína. As séries que o parecer conjunto de 2020 tabula apontam na mesma direção: num hospital quaternário de São Paulo, em 2014, a sensibilidade de E. coli ao cotrimoxazol foi de 62,5% e ao ciprofloxacino de 82,3%; em Curitiba, em 2012, a sensibilidade ao cotrimoxazol foi de 63,3% e ao ciprofloxacino de 83,6%.

Somando as séries, a resistência brasileira de E. coli comunitária ao sulfametoxazol-trimetoprima gira em torno de 36% a 39% — quase o dobro do limiar. O protocolo do SUS de Belo Horizonte tira a conclusão em uma frase: o tratamento com sulfametoxazol-trimetoprima por 3 dias não é indicado, porque os estudos mostram que, no Brasil, a resistência local de E. coli a esse antimicrobiano é superior a 20%. Não se trata de discordar da régua internacional — trata-se de aplicá-la e chegar a outro resultado, porque a condição embutida nela não se cumpre aqui.

A quinolona tem duas réguas distintas, e confundi-las é erro comum. Para cistite, ela está fora por dano ecológico — alteração da flora intestinal, seleção de produtores de betalactamase de espectro estendido e o conjunto de eventos adversos que motivou restrição regulatória —, e isso independe da taxa de resistência do serviço. Para pielonefrite empírica, a régua da IDSA é outra e é numérica: se a prevalência de resistência dos uropatógenos comunitários a fluoroquinolona não excede 10%, a quinolona oral basta; acima disso, o tratamento começa com dose única endovenosa de antimicrobiano de longa ação — ceftriaxona 1 g ou aminoglicosídeo em dose consolidada de 24 horas — e só depois segue por via oral. A resistência brasileira a ciprofloxacino nas séries citadas fica entre 16% e 32%, ou seja, acima dessa régua.

O contraste é o que sustenta a escolha da primeira linha. Nitrofurantoína teve 9,0% de resistência em Divinópolis, 87,8% de sensibilidade em Curitiba e 96,8% em São Paulo. Fosfomicina teve 97,0% de sensibilidade de E. coli no ARESC, estudo multicêntrico que avaliou setenta centros em nove países europeus e no Brasil. São as duas drogas cuja curva de resistência quase não se moveu, e por isso são a primeira linha.

Um dado do estudo de Divinópolis fecha o argumento e explica por que o tema cai tanto: no mesmo serviço, 56,1% dos médicos entrevistados escolhiam norfloxacino como tratamento empírico e 19,3% escolhiam sulfametoxazol-trimetoprima — exatamente as duas opções com a maior resistência medida naquela população. A distância entre o que se prescreve e o que o antibiograma mostra é o motivo pedagógico do tema.

Onde existe antibiograma, toda essa discussão sai de cena: o tratamento é dirigido. A régua empírica só governa a decisão que precisa ser tomada antes do resultado.

Pielonefrite: quem vai para casa, quem interna e por quanto tempo

A primeira coisa a desfazer é a ideia de que pielonefrite interna. Na maioria dos casos, a pielonefrite aguda não complicada não requer hospitalização, e o tratamento inicial é por via oral — o protocolo brasileiro grada essa afirmação como recomendação forte, com evidência 1B.

A segunda coisa é obrigatória e vale para todos: urocultura com antibiograma antes do antimicrobiano, sempre. Esta é a única síndrome do capítulo em que a cultura é mandatória mesmo com quadro típico, porque a terapia empírica inicial precisa ser ajustada depois pelo uropatógeno isolado. Colher e tratar, sem esperar o resultado.

Interna quem não tolera via oral por vômitos; quem está hemodinamicamente instável ou preenche critérios de sepse; quem tem suspeita de obstrução do trato urinário; a gestante, sempre, porque pielonefrite na gestação é urgência obstétrica e o tratamento exige antibiótico endovenoso; o imunodeprimido; quem tem dúvida diagnóstica; quem falhou no tratamento ambulatorial; e quem não tem como retornar para reavaliação em 48 a 72 horas. Pielonefrite complicada interna e recebe antibiótico endovenoso, com urocultura colhida no início; urossepse vai para terapia intensiva e segue o protocolo de sepse.

No esquema ambulatorial, a primeira linha é fluoroquinolona — e aqui, ao contrário da cistite, ela é a droga de escolha. Ciprofloxacino 500 mg por via oral de 12 em 12 horas por 7 dias, dose que a associação europeia registra como 500 a 750 mg de 12 em 12 horas por 7 dias. Alternativa de curso mais curto: levofloxacino 750 mg por via oral uma vez ao dia por 5 dias. Como alternativa oral não quinolônica, amoxicilina com clavulanato 875/125 mg de 12 em 12 horas por 7 dias no protocolo brasileiro — lembrando que beta-lactâmico oral é reconhecidamente menos eficaz na pielonefrite e, pela régua da IDSA, exige dose endovenosa inicial de longa ação e curso de 10 a 14 dias.

A dose endovenosa inicial é o detalhe que a questão adora. Onde a resistência local a fluoroquinolona excede 10% — o que descreve boa parte do Brasil —, o paciente ambulatorial recebe uma dose única endovenosa antes de seguir por via oral. As opções do protocolo brasileiro são ceftriaxona 1 a 2 g endovenosa, ciprofloxacino 400 mg endovenoso, ou gentamicina 5 mg/kg endovenosa. Depois disso, terapia sequencial oral em casa.

Sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg por via oral de 12 em 12 horas por 14 dias é opção válida na pielonefrite quando o antibiograma documenta sensibilidade. Usado empiricamente, exige a mesma dose endovenosa inicial de ceftriaxona.

No paciente internado, a primeira linha brasileira é cefalosporina de terceira geração em monoterapia — ceftriaxona 1 g endovenosa de 12 em 12 horas, com avaliação de associar aminoglicosídeo, por exemplo gentamicina 5 mg/kg/dia em dose única diária. A associação europeia registra ceftriaxona 2 g uma vez ao dia como dose padrão e 2 g duas vezes ao dia como dose alta. Quando se considera germe resistente, cefepime 1 g de 8 em 8 horas cobre o grupo CESP — Citrobacter, Enterobacter, Serratia e Proteus. Piperacilina com tazobactam 4,5 g de 8 em 8 horas e carbapenêmicos ficam para multirresistência documentada ou para urossepse com risco de produtor de betalactamase de espectro estendido, situação em que a cobertura empírica ampliada se justifica.

A duração da pielonefrite complicada é de 7 a 14 dias, com julgamento caso a caso. E há um piso que independe da droga: em homem com infecção urinária febril, pielonefrite ou infecção recorrente, a duração mínima é de duas semanas.

Descalonar é regra, não exceção: o paciente que começou parenteral, melhorou clinicamente e tolera líquidos passa para via oral. E a alta hospitalar se avalia quando há melhora dos sintomas e dos sinais de gravidade após 48 a 72 horas de antibioticoterapia adequada, com possibilidade de completar o tratamento por via oral em regime ambulatorial. Na alta, orienta-se retorno imediato se houver piora ou recorrência dos sintomas depois da melhora inicial, e alerta-se que náusea com vômitos persistentes pode sinalizar piora clínica.

Quando pedir imagem, e o que ela está procurando

Imagem não faz parte da avaliação de rotina da infecção urinária. Ela é reservada, e procura três coisas: obstrução, coleção e gás. Fora dessas três perguntas, o exame não muda conduta.

A avaliação inicial do trato superior se faz com ultrassonografia, para excluir obstrução ou litíase, em paciente com história de urolitíase, com alteração de função renal ou com pH urinário alto. É o exame de porta de entrada, disponível, sem contraste e sem radiação.

A tomografia computadorizada com contraste entra em quatro cenários, e nesses cenários ela é mais acurada que a ultrassonografia: suspeita de obstrução do trato urinário; sintomas persistentes apesar de 48 a 72 horas de antibioticoterapia apropriada; paciente criticamente enfermo, ou com deterioração clínica a qualquer momento; e recorrência de sintomas 2 a 4 semanas após tratamento recente. Na gestante, prefere-se ultrassonografia ou ressonância magnética, para evitar radiação ao feto.

O que a tomografia enxerga e a ultrassonografia pode perder: abscesso renal e perirrenal — a ultrassonografia é útil, mas pode não distinguir massa inflamatória de abscesso verdadeiro —, pielonefrite enfisematosa e pielonefrite xantogranulomatosa. Na pionefrose acontece o inverso e vale registrar: o diagnóstico ultrassonográfico é feito pela demonstração de ecos e debris dentro do sistema pielocalicial dilatado, enquanto a tomografia é pouco específica nessa entidade, podendo mostrar apenas espessamento da pelve renal, borramento da gordura perirrenal ou nefrograma heterogêneo.

Na ITU de repetição, os documentos brasileiros não coincidem sobre imagem de rotina, e a divergência está registrada mais adiante. O que os dois compartilham: se a imagem mostrar alteração, o paciente vai ao urologista; e homem com ITU de repetição, em qualquer idade, vai ao urologista com ou sem imagem alterada.

Esquema coronal do trato urinário. À esquerda, rim e ureter de aspecto normal. À direita, um cálculo obstrui o ureter alto; acima da obstrução, a pelve e os cálices estão dilatados e preenchidos por urina infectada, e o parênquima renal aparece inflamado. Uma linha pontilhada marca o trajeto ascendente da infecção desde a bexiga.
Rim obstruído e infectado: o antibiótico não esteriliza urina represada. Enquanto a via não for desobstruída — com cateter ureteral ou nefrostomia percutânea —, o foco continua alimentando a sepse.

Falha em 48 a 72 horas: procure o obstáculo antes de trocar a droga

O prazo de reavaliação é de 48 a 72 horas, e a definição de falha é operacional: piora clínico-laboratorial, especialmente em contexto de sepse, ou persistência e reaparecimento de febre e de sintomas urinários ou sistêmicos, depois desse prazo com antibioticoterapia adequada. Adequada quer dizer droga a que o germe é sensível, na dose certa, pela via certa.

Diante de falha, o reflexo de trocar o antibiótico é o erro. A ordem certa das hipóteses é: primeiro obstáculo mecânico — cálculo, estenose, pionefrose; segundo coleção — abscesso renal ou perirrenal; terceiro germe resistente, que o antibiograma já colhido vai nomear; e quarto diagnóstico alternativo. Antibiótico não atravessa obstrução nem penetra coleção, e nenhuma troca de classe resolve o que é problema de drenagem.

Pionefrose é hidronefrose infectada associada à destruição supurativa do parênquima renal, com perda parcial ou total da função daquele rim. Diagnóstico rápido e tratamento imediato evitam o dano definitivo e a sepse. O tratamento começa com antimicrobiano e drenagem da pelve infectada por cateter ureteral; em caso de insucesso, nefrostomia percutânea. Estabilizado o paciente, tratam-se a causa e a natureza da obstrução.

Abscesso renal e perirrenal: a tomografia é o método preferencial, porque caracteriza a extensão e ajuda a identificar a origem. Abscessos pequenos, de 1 a 3 cm, frequentemente respondem à terapia antimicrobiana sem drenagem. Acima de 3 cm, a drenagem geralmente é necessária, e serve a dois fins — terapêutico e diagnóstico, porque a cultura do líquido identifica o agente. Se a drenagem for ineficaz, converte-se para via aberta, e a nefrectomia fica para os casos mais graves. A resolução se acompanha por imagem, e o antimicrobiano continua até o abscesso resolver ou reduzir-se a cicatriz residual estável.

Pielonefrite enfisematosa é infecção grave com presença de gás no sistema coletor, tipicamente em diabético com controle glicêmico ruim, tendo a obstrução como outro fator predisponente frequente. A tomografia confirma e gradua o envolvimento. A conduta mudou de patamar: a nefrectomia de emergência já foi considerada necessária em todos os casos, e hoje a drenagem percutânea é a abordagem inicial recomendada, com mortalidade relatada de 13,5%, contra 50% do tratamento clínico isolado e 25% da nefrectomia de emergência.

Pielonefrite xantogranulomatosa é a entidade crônica do grupo, pouco frequente (1% a 8%), com destruição e substituição do parênquima por tecido granulomatoso histiocitário contendo células espumosas, podendo estender-se ao espaço perirrenal, ao psoas, ao diafragma e ao baço. A tomografia identifica anormalidades em 74% a 90% dos casos: rim aumentado, parênquima substituído por múltiplas cavidades de conteúdo espesso e, com frequência, urolitíase associada. O diferencial inclui neoplasia e tuberculose renal, e o tratamento clássico é a nefrectomia, com o antimicrobiano em papel secundário.

A urgência urológica do capítulo é uma só e merece ser dita sem rodeios: rim obstruído e infectado. Antibiótico não esteriliza urina represada. A conduta é descomprimir — cateter ureteral, tipicamente duplo J, ou nefrostomia percutânea — e o antimicrobiano acompanha, não substitui. Diante de disfunção orgânica secundária à infecção urinária, inicia-se na primeira hora o protocolo local de sepse e encaminha-se o paciente para terapia intensiva. A lógica geral de reconhecimento e controle de foco está no capítulo de sepse cirúrgica.

Duas outras situações também correm no relógio: pielonefrite na gestante, que é urgência obstétrica com internação e antibiótico endovenoso; e infecção urinária febril em rim único ou em rim transplantado, em que a margem para observar é menor.

ITU de repetição: conte os episódios antes de prescrever

A definição é numérica e é a mesma nos documentos brasileiros e europeus: pelo menos três infecções urinárias em um ano, ou pelo menos dois episódios em seis meses. O consenso brasileiro acrescenta o requisito de cada episódio: sintomas de início agudo e bacteriúria de pelo menos 10² UFC/mL em amostra de jato médio.

Confirmar cada episódio por urocultura não é preciosismo: em quem recorre, o risco de germe resistente é maior, e o tratamento empírico começa logo após a coleta, ajustado depois pelo antibiograma. O que não se faz é o contrário — colher urocultura periódica em paciente assintomático entre os episódios e tratar a bacteriúria que aparecer.

A investigação começa com anamnese e exame físico dirigidos. Em mulheres sexualmente ativas, a recorrência costuma ocorrer sem anormalidade estrutural identificável, e os fatores de risco são relações sexuais frequentes, uso de espermicida e história familiar. Na pós-menopausa entram fatores urológicos: incontinência urinária, cistocele e resíduo pós-miccional. Quando há anormalidade, ela é anatômica ou funcional — obstrução, estase ou refluxo, além de bexiga hiperativa —, e as lesões podem ser intraluminais (cateter, cálculo, neoplasia), intramurais (estenose ureteral ou uretral, obstrução prostática) ou extramurais (massa paravesical, neoplasia, fibrose). Infecção urinária de repetição isolada, sem infecções em outros sítios, não é apresentação típica de imunodeficiência.

No homem, em qualquer idade, ITU de repetição vai ao urologista. A recorrência masculina costuma traduzir anormalidade obstrutiva ou neurogênica — bexiga hipotônica gerando estase —, e prostatite é diferencial obrigatório.

A prevenção se faz em camadas, e a ordem importa. A primeira camada é comportamental, oferecida a todas as pacientes: ingestão hídrica de 2 a 3 litros por dia — um ensaio randomizado mostrou que 1,5 litro adicional por dia reduziu o número de episódios em pré-menopausadas ao longo de doze meses —, micção pós-coito, não adiar a micção, higiene da frente para trás após a evacuação, evitar espermicida, evitar ducha vaginal e evitar roupas oclusivas.

A segunda camada, na pós-menopausa, é o estrogênio por via vaginal — e apenas o vaginal, não o oral. As opções disponíveis no Brasil são estriol creme 1 mg/g, 0,5 mg por dia durante duas semanas e depois duas vezes por semana; e promestrieno 10 mg/g, creme ou cápsula, 10 mg por 20 dias consecutivos e depois duas vezes por semana. A absorção sistêmica é baixa e não exige associação de progestagênio para proteção endometrial, e o tratamento pode ser mantido sem limite de tempo.

A terceira camada é a profilaxia antibiótica, e ela não é estratégia preventiva de primeira linha. Entra em quem mantém recorrências frequentes com sintomas limitantes, depois de aconselhamento sobre risco e benefício, e depois de urocultura de controle mostrando que o trato está estéril — não se inicia profilaxia sobre bacteriúria não erradicada. Quando os episódios têm relação temporal com a atividade sexual, o regime pós-coital é mais eficiente: nitrofurantoína 100 mg por via oral em dose única após a relação. Quando não têm, o regime é contínuo: nitrofurantoína 100 mg por via oral à noite, ou fosfomicina trometamol 3 g a cada 10 dias. A duração é de 6 a 12 meses no consenso brasileiro; o protocolo do SUS-BH reavalia resposta e tolerância aos 3 meses e mantém até um ano se a frequência dos episódios caiu. Fluoroquinolona não entra em profilaxia.

Sobre as medidas não antimicrobianas, o consenso brasileiro é restritivo: não recomenda D-manose, instilação intravesical de ácido hialurônico com sulfato de condroitina, metenamina, fitoterápicos, biofeedback de assoalho pélvico nem probióticos com lactobacilos. Cranberry — cujo mecanismo proposto é a proantocianidina A, que impede a aderência das fímbrias bacterianas ao urotélio — e OM-89, imunoterapia oral feita com fragmentos de 18 cepas de E. coli, têm ensaios randomizados positivos, mas o documento conclui que a evidência é insuficiente para recomendação forte e deixa a decisão para conversa individual. A associação europeia trata esses mesmos itens de outra forma, e a divergência está registrada adiante.

Por fim, a recorrência com acometimento alto muda de endereço: pielonefrites de repetição vão para pronto-atendimento pelo potencial de sepse, com seguimento ambulatorial por urologista. Casos não complicados, sem acometimento renal e sem alteração de imagem, seguem com o clínico ou o médico de família — e não há prazo definido de acompanhamento, porque a condição é crônica.

Sonda vesical: colonização não é infecção

Todo paciente com cateter vesical de demora, cateter suprapúbico ou nefrostomia acaba portador de bacteriúria. Não é complicação: é o curso natural do dispositivo. E o tratamento antibiótico dessa bacteriúria não mostra benefício, razão pela qual não se trata de rotina.

Disso decorrem quatro proibições explícitas, todas com recomendação forte. Não colher urocultura de rotina em paciente cateterizado assintomático. Não tratar bacteriúria assintomática associada a cateter. Não usar piúria como indicador isolado de infecção associada a cateter. E não usar a presença ou a ausência de urina turva ou com odor para diferenciar colonização de infecção.

O que caracteriza infecção urinária associada a cateter é o achado de bacteriúria em paciente com sintomas compatíveis com infecção urinária, ou com sinais de infecção sistêmica sem outra etiologia definida. E há uma janela temporal que a questão gosta de cobrar: também se define como associada a cateter a infecção urinária em paciente que teve o cateter removido nas últimas 48 horas.

Os sintomas clássicos podem faltar por completo. No paciente com lesão medular, a apresentação pode ser especialmente atípica e inespecífica — aumento da espasticidade, mal-estar, letargia e disreflexia autonômica. Nesses casos, a ausência de disúria não afasta nada.

A conduta não se esgota no antimicrobiano: é preciso mexer no cateter. Quem não precisa mais dele tem o cateter removido e recebe a terapia adequada. Quem ainda precisa deve, sempre que possível, passar a cateterismo intermitente. Se o cateterismo contínuo for necessário, o cateter é substituído no início da terapia antimicrobiana — biofilme não responde a antibiótico. E, quando o uso contínuo de cateter vesical de demora for inevitável, considera-se cistostomia.

A prevenção é a parte que mais rende: evitar cateterismo desnecessário, técnica estéril na colocação e retirada do cateter o mais cedo possível. Antibiótico profilático não deve ser usado de rotina para prevenir infecção após a retirada do cateter uretral, nem em quem faz autocateterismo intermitente. Antibioticoprofilaxia prolongada fica restrita a infecção urinária de repetição associada a uso contínuo de cateter sem possibilidade de retirada do dispositivo.

04

Da colonização à sepse: o degrau decide a conduta

A escada bacteriúria assintomática → cistite → pielonefrite → urossepse é ordinal de verdade: cada degrau acrescenta território anatômico e repercussão sistêmica, e cada degrau muda o exame que se pede, a droga, a via e o local do tratamento. Percorra-a sempre na mesma ordem — sintoma, sinal sistêmico, fator de complicação —, porque é a ordem que impede o erro mais caro do tema, que é tratar quem não precisava.

  1. 1Pergunte primeiro se há sintoma urinário. Sem sintoma, urocultura positiva é bacteriúria assintomática — e a lista de quem se trata tem dois itens: gestante e pré-operatório de procedimento urológico com trauma de mucosa.
  2. 2Com sintoma, procure sinal sistêmico: febre, calafrio, dor em flanco, Giordano positivo, náusea e vômito. Ausentes, é cistite. Presentes, é pielonefrite — e a ausência de disúria não afasta.
  3. 3Classifique em complicada ou não: gestante, homem, anormalidade anatômica ou funcional do trato urinário, cateter de demora, doença renal crônica, imunodepressão — ou qualquer sinal de alarme, que reclassifica sozinho.
  4. 4Cistite não complicada típica: não peça exame. Nitrofurantoína 100 mg de 6 em 6 horas por 5 dias, ou fosfomicina trometamol 3 g em dose única.
  5. 5Pielonefrite: urocultura com antibiograma antes da primeira dose, sempre. Colher e tratar, sem esperar o resultado.
  6. 6Decida o local. Tolera via oral, está estável e consegue retornar em 72 horas? Ambulatorial, com dose endovenosa inicial e ciprofloxacino oral por 7 dias. Vomita, está instável, é gestante, é imunodeprimido ou há suspeita de obstrução? Interna com antibiótico endovenoso.
  7. 7Rastreie sepse em quem tem sinal de alarme, com NEWS 2 ou qSOFA. Havendo disfunção orgânica, protocolo de sepse na primeira hora e terapia intensiva.
  8. 8Reavalie em 48 a 72 horas. Febre que persiste com antibiótico ao qual o germe é sensível não é hora de trocar a droga — é hora de procurar obstrução, coleção ou gás na tomografia com contraste.
  9. 9Rim obstruído e infectado é urgência urológica: descomprimir com cateter ureteral ou nefrostomia percutânea. O antimicrobiano acompanha, não substitui.

Bacteriúria assintomática — bactéria na urina, tecido íntegro

Contagem significativa em paciente sem qualquer sintoma urinário, com ou sem piúria. Não é infecção: é colonização. Não se rastreia e não se trata, exceto na gestante e antes de procedimento urológico com trauma de mucosa. A trava operacional é anterior à decisão terapêutica — não pedir o exame em quem não tem sintoma.

Cistite — inflamação da parede vesical, sem sinal sistêmico

Disúria, polaciúria e urgência, sem corrimento vaginal, sem febre e sem dor lombar. Em mulher não gestante e sem fator de risco, o diagnóstico é clínico e o tratamento é empírico, sem exame de urina. Nitrofurantoína por 5 dias ou fosfomicina em dose única resolvem o degrau.

Pielonefrite — a infecção alcança pelve e parênquima renal

Febre, calafrio, dor em flanco e Giordano positivo, com ou sem sintomas baixos. Urocultura com antibiograma antes da primeira dose, sempre. A maioria não interna: dose endovenosa inicial e ciprofloxacino oral por 7 dias resolvem em casa, desde que o paciente tolere líquidos, esteja estável e possa retornar em 72 horas.

Urossepse — o foco renal repercute no organismo inteiro

Infecção urinária com dois ou mais critérios de resposta inflamatória sistêmica, disfunção orgânica ou NEWS 2 igual ou maior que 5. Protocolo de sepse na primeira hora, terapia intensiva e, se houver obstrução, descompressão do trato — antibiótico não esteriliza urina represada.

QuadroO que defineExameConduta
Bacteriúria assintomática10⁵ UFC/mL em jato médio sem qualquer sintoma urinário, com ou sem piúria — duas amostras na mulher, uma no homemUrocultura só na gestante e antes de procedimento urológico invasivo. Fora disso, não pedirNão tratar. Exceções: gestante e pré-operatório urológico com trauma de mucosa, este com terapia dirigida e 1 a 2 doses
Cistite não complicadaDisúria, polaciúria e urgência, sem corrimento vaginal, sem febre e sem sinal sistêmico, em mulher não gestante sem fator de riscoNenhum — o diagnóstico é clínico. Fita só em caso de dúvidaNitrofurantoína 100 mg 6/6h por 5 dias, OU fosfomicina trometamol 3 g em dose única
Cistite complicadaMesmo quadro em homem, gestante, sondado, doença renal crônica, imunodeprimido ou com anormalidade do trato urinárioUrocultura no início do tratamentoPreferir beta-lactâmico, curso de 7 dias, reavaliação em 72 horas e ao término. Quinolona só em alergia a beta-lactâmico
Pielonefrite não complicadaFebre, calafrio, dor em flanco e Giordano positivo, com paciente estável, tolerando via oral e com retorno garantidoUrocultura com antibiograma, sempre, antes da primeira doseAmbulatorial: dose endovenosa inicial + ciprofloxacino 500 mg 12/12h por 7 dias
Pielonefrite complicadaPielonefrite com fator de complicação, vômitos, instabilidade, suspeita de obstrução, gestação ou imunodepressãoUrocultura, hemocultura seletiva, função renal e imagem se houver critérioInternação com antimicrobiano endovenoso por 7 a 14 dias, descalonando para via oral quando houver melhora
UrossepseITU com dois ou mais critérios de resposta inflamatória sistêmica, disfunção orgânica ou NEWS 2 igual ou maior que 5Culturas, marcadores de perfusão e imagem para excluir obstruçãoProtocolo de sepse na primeira hora, terapia intensiva e desobstrução do trato urinário se houver obstáculo

Bacteriúria e piúria: os cortes por cenário de coleta

CenárioCorteO que muda
Jato médio, paciente assintomático10⁵ UFC/mL — duas amostras consecutivas na mulher, uma amostra no homemDefine bacteriúria assintomática. Não é indicação de tratar
Amostra colhida por cateterismo10² UFC/mLContagem baixa já conta: não houve passagem pela uretra distal
Episódio sintomático de ITU de repetição, jato médio10² UFC/mLCom sintoma agudo, contagem baixa é infecção, não contaminação
PiúriaMais de 10 leucócitos por microlitro em urina não centrifugada, ou 5 ou mais por campo de grande aumentoAchado inespecífico: não confirma ITU sem sintoma e não define ITU associada a cateter
Fita reagente (nitrito e esterase leucocitária)Sensibilidade de 75% a 98%; especificidade de 94% a 98%Positiva confirma; negativa não exclui. Em quadro típico, acrescenta pouco à acurácia
Aspecto da urina (cor, odor, transparência)Sem valor diagnósticoNunca é critério isolado para diagnosticar ITU nem para iniciar antimicrobiano

Cistite não complicada: esquemas empíricos, dose e duração

DrogaDose e viaDuraçãoPosição
Nitrofurantoína100 mg por via oral de 6 em 6 horas5 diasPrimeira linha
Fosfomicina trometamol3 g por via oral, diluídos em meio copo de águaDose únicaPrimeira linha
Amoxicilina com clavulanato500/125 mg de 8 em 8 horas, ou 875/125 mg de 12 em 12 horas7 diasAlternativa
Cefuroxima250 mg por via oral de 12 em 12 horas7 diasAlternativa
Sulfametoxazol-trimetoprima800/160 mg por via oral de 12 em 12 horas3 diasFora do empírico no Brasil: resistência de E. coli acima do limiar de 20%
Fluoroquinolona (norfloxacino, ciprofloxacino, levofloxacino)Fora do empírico: dano ecológico, seleção de produtores de betalactamase de espectro estendido e perfil de efeitos adversos de classe
Ampicilina ou amoxicilina isoladasFora do empírico: sensibilidade de E. coli entre 34% e 55% nas séries tabuladas
Fenazopiridina (sintomático, não antimicrobiano)200 mg por via oral 3 vezes ao dia, após as refeiçõesAté 48 horasAlívio da disúria. Não prolongar: mascara o marcador de melhora

Pielonefrite: esquema por cenário, com dose e duração

CenárioEsquemaDuração
Ambulatorial — dose endovenosa inicialCeftriaxona 1 a 2 g EV, ou ciprofloxacino 400 mg EV, ou gentamicina 5 mg/kg EVDose única, seguida do esquema oral
Ambulatorial — oral de primeira linhaCiprofloxacino 500 mg por via oral de 12 em 12 horas (a EAU registra 500 a 750 mg)7 dias
Ambulatorial — oral alternativoLevofloxacino 750 mg por via oral, uma vez ao dia5 dias
Ambulatorial — beta-lactâmico oralAmoxicilina com clavulanato 875/125 mg de 12 em 12 horas7 dias no protocolo do SUS-BH; 10 a 14 dias pela régua da IDSA, com dose endovenosa inicial
Com antibiograma documentando sensibilidadeSulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg por via oral de 12 em 12 horas14 dias
Internado — primeira linhaCeftriaxona 1 g EV de 12 em 12 horas (2 g/dia na dose padrão da EAU), avaliando gentamicina 5 mg/kg/dia7 a 14 dias, com troca para via oral quando houver melhora
Internado — suspeita de germe resistenteCefepime 1 g EV de 8 em 8 horas (grupo CESP); piperacilina com tazobactam 4,5 g de 8 em 8 horas7 a 14 dias
Homem com ITU febril, pielonefrite ou infecção recorrenteConforme o antibiogramaMínimo de 14 dias

ITU de repetição: prevenção, da primeira camada à última

EstratégiaEsquemaQuando
Comportamental2 a 3 litros de líquido por dia, micção pós-coito, não adiar a micção, higiene da frente para trás, evitar espermicida e ducha vaginalPara todas as pacientes, sempre — é a primeira camada
Estrogênio vaginalEstriol creme 1 mg/g: 0,5 mg/dia por 2 semanas, depois 2 vezes por semana. Promestrieno 10 mg/g: 10 mg por 20 dias, depois 2 vezes por semanaPós-menopausa. Só o vaginal, nunca o oral. Sem necessidade de progestagênio; pode ser mantido sem prazo
Profilaxia pós-coitalNitrofurantoína 100 mg por via oral em dose única após a relaçãoEpisódios com relação temporal clara com a atividade sexual
Profilaxia contínuaNitrofurantoína 100 mg por via oral à noite, ou fosfomicina trometamol 3 g a cada 10 diasEpisódios sem relação com a atividade sexual, depois de falharem as camadas anteriores
Duração da profilaxia6 a 12 meses, com reavaliação de resposta e tolerância aos 3 mesesSempre precedida de urocultura de controle mostrando trato estéril
Sem recomendação no consenso brasileiroD-manose, metenamina, instilação intravesical de ácido hialurônico com condroitina, fitoterápicos, probióticos, biofeedback de assoalho pélvicoCranberry e OM-89 ficam com evidência insuficiente para recomendação forte, em decisão individual

A duração na pielonefrite é função da droga, não da doença: 5 dias para levofloxacino 750 mg, 7 dias para ciprofloxacino, 10 a 14 dias para beta-lactâmico oral e 14 dias para sulfametoxazol-trimetoprima. Alternativa que troca o par droga-duração é distrator construído de propósito.

Nitrofurantoína e fosfomicina não figuram em nenhum esquema de pielonefrite: são drogas de concentração urinária, sem penetração de parênquima renal. Servem para cistite e para profilaxia da ITU de repetição.

Regime de dose única e curso de 3 dias não se aplicam a homens, crianças, mulheres idosas, diabéticos nem a qualquer ITU complicada — a eficácia cai e o risco de a infecção não ser debelada sobe.

Sobre imagem na ITU de repetição os documentos brasileiros não coincidem: o parecer conjunto das quatro sociedades dispensa imagem de rotina na ausência de fator de risco, enquanto o protocolo colaborativo do SUS-BH prevê ultrassonografia do aparelho urinário na investigação básica, com encaminhamento ao urologista se houver alteração. Nos dois, homem com ITU de repetição vai ao urologista.

Sepse urinária, no protocolo do SUS-BH, é infecção urinária com dois ou mais critérios de resposta inflamatória sistêmica, ou disfunção orgânica, ou NEWS 2 igual ou maior que 5 — e um único critério pontuando 3 no NEWS 2, de forma aguda, já obriga a considerar sepse provável.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Fluoroquinolona na cistite aguda não complicada

Fora da primeira linha desde 2010 e, no consenso brasileiro de 2020, fora do tratamento da cistite

A IDSA e a sociedade europeia de microbiologia, em 2010, já classificavam as fluoroquinolonas como alternativas na cistite aguda não complicada e pediam que fossem reservadas para outros usos, pelo dano ecológico — alteração da flora intestinal e aumento do risco de colonização ou infecção por multirresistentes. O parecer conjunto brasileiro de 2020 vai além e afirma que norfloxacino, ciprofloxacino e levofloxacino não devem ser usados para tratar cistite não complicada em mulheres nem na gestação, a menos que não haja outra opção disponível. A associação europeia de urologia mantém a orientação de não usar. Dois atos regulatórios sustentam a posição: em 2016 a agência norte-americana descreveu o conjunto de eventos adversos incapacitantes associados à classe — tendinite e ruptura de tendão, fraqueza muscular, neuropatia periférica, disfunção cognitiva e autonômica, convulsão e transtornos psiquiátricos; e em março de 2019 a Comissão Europeia restringiu a classe a situações em que o uso de outros antibacterianos seja considerado inapropriado.

IDSA/ESCMID 2010 (Clin Infect Dis 2011;52:e103); parecer conjunto SBI/FEBRASGO/SBU/SBPC-ML, Braz J Infect Dis 2020;24(2):110-119; EAU Guidelines on Urological Infections; alerta do FDA de 2016 e decisão da Comissão Europeia de março de 2019, ambos citados nesses documentos.

Mantida entre as alternativas onde é a quinolona padronizada na rede

O protocolo colaborativo do SUS de Belo Horizonte, de 2022, lista norfloxacino 400 mg de 12 em 12 horas por 3 dias entre as alternativas para cistite aguda não complicada — é a quinolona disponível na relação municipal de medicamentos — e, na recomendação imediatamente seguinte, orienta não prescrever aminopenicilinas nem fluoroquinolonas de rotina, pelos efeitos ecológicos negativos, pelas altas taxas de resistência e pela maior seleção de bactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido. Na prática o documento a mantém como recurso de exceção dentro do que a rede dispõe, não como escolha.

Protocolo Colaborativo SUS-BH, Manejo da Infecção do Trato Urinário no Adulto e na Gestante, 2022, itens 3.1 e 3.1.2.

Na prova

Enunciado que cita nominalmente as sociedades brasileiras, ou que fala em dano ecológico, seleção de produtores de betalactamase de espectro estendido ou efeito adverso de classe, roda com o documento de 2020. Cenário de unidade básica com lista de medicamentos padronizados, em que uma das opções é norfloxacino, denuncia o mundo do protocolo municipal. E as próprias alternativas entregam o recorte: quando nitrofurantoína e fosfomicina aparecem lado a lado com uma quinolona, o teste é a exclusão da quinolona; quando a quinolona aparece isolada entre beta-lactâmicos, o teste costuma ser outro.

Sulfametoxazol-trimetoprima empírico e o limiar de 20% de resistência

Primeira linha, condicionada a resistência local abaixo de 20%

A IDSA e a sociedade europeia de microbiologia descrevem sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg de 12 em 12 horas por 3 dias como esquema de primeira linha na cistite aguda não complicada, desde que a resistência local dos uropatógenos não exceda 20%. O próprio documento define o limiar de 20% como a prevalência de resistência a partir da qual o agente deixa de ser indicado para tratamento empírico. A associação europeia de urologia repete a condição, tanto para a associação por 3 dias quanto para trimetoprima isolada 200 mg de 12 em 12 horas por 5 dias.

IDSA/ESCMID 2010 (Clin Infect Dis 2011;52:e103); EAU Guidelines on Urological Infections, tabela de tratamento da cistite.

Fora do empírico no Brasil, porque o número local mede acima do limiar

Em 802 uroculturas comunitárias de Divinópolis, em Minas Gerais, no primeiro semestre de 2015, Escherichia coli respondeu por 72,8% dos isolados, com resistência de 38,6% ao sulfametoxazol-trimetoprima. As séries que o parecer brasileiro de 2020 tabula caminham junto: sensibilidade de E. coli à associação de 62,5% num hospital quaternário de São Paulo em 2014, e de 63,3% em Curitiba em 2012 — ou seja, resistência entre 36% e 38%. O protocolo do SUS de Belo Horizonte conclui em uma frase que o tratamento com sulfametoxazol-trimetoprima por 3 dias não é indicado, porque os estudos mostram que a resistência local de E. coli a esse antimicrobiano no Brasil é superior a 20%. A causa da divergência é epidemiológica, não conceitual: a régua internacional é condicional, e a condição embutida nela não é atendida aqui.

Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, estudo de Divinópolis (MG) com 802 uroculturas de 2015; séries de São Paulo (2014) e Curitiba (2012) tabuladas no parecer SBI/FEBRASGO/SBU/SBPC-ML 2020; Protocolo Colaborativo SUS-BH 2022, item 3.1.

Na prova

O limiar de 20% é internacional e condicional, e quem fornece o número é o cenário. Enunciado brasileiro de unidade básica ou de pronto-atendimento, sem dado local, roda com o corpo brasileiro, em que a condição não se cumpre. Enunciado que informa a taxa de resistência daquele serviço está pedindo que o candidato aplique o limiar aritmeticamente. E enunciado que traz o antibiograma tira a discussão do tabuleiro: com sensibilidade documentada, o tratamento é dirigido e a régua empírica sai de cena.

Duração do tratamento da pielonefrite: 5, 7, 10 ou 14 dias

Curso curto, de 5 a 7 dias, quando a droga é fluoroquinolona

A IDSA e a sociedade europeia de microbiologia descrevem ciprofloxacino 500 mg de 12 em 12 horas por 7 dias e levofloxacino 750 mg uma vez ao dia por 5 dias na pielonefrite aguda não complicada. Um ensaio randomizado de não inferioridade publicado em 2018 comparou parar o antimicrobiano não fluoroquinolônico no sétimo dia, havendo melhora sintomática, contra seguir até o décimo quarto dia, em adultos com pielonefrite que exigiu internação, e não encontrou inferioridade do curso curto.

IDSA/ESCMID 2010 (Clin Infect Dis 2011;52:e103); Rudrabhatla P et al., PLoS One 2018;13(5):e0197302, citado no Protocolo Colaborativo SUS-BH 2022.

Curso de 10 a 14 dias quando a droga é beta-lactâmico oral ou sulfametoxazol-trimetoprima, e piso de 14 dias no homem

No mesmo documento da IDSA, sulfametoxazol-trimetoprima oral na pielonefrite dura 14 dias, e beta-lactâmico oral, reconhecidamente menos eficaz que as demais opções, dura 10 a 14 dias e pede uma dose endovenosa inicial de antimicrobiano de longa ação. A associação europeia registra 14 dias para a associação, 10 dias para cefpodoxima e ceftibuteno, e duração mínima de duas semanas em homem com infecção urinária febril, pielonefrite ou infecção recorrente. O protocolo do SUS-BH trabalha com a faixa de 7 a 14 dias na pielonefrite complicada e observa que outros estudos e revisões sistemáticas comparando curso curto e longo deram resultados conflitantes, deixando a decisão para o julgamento caso a caso.

IDSA/ESCMID 2010 (Clin Infect Dis 2011;52:e103); EAU Guidelines on Urological Infections; Protocolo Colaborativo SUS-BH 2022, item 4.1.4.

Na prova

A duração acompanha a droga e o cenário, não o nome da doença. Alternativa que junta ciprofloxacino com 14 dias, ou sulfametoxazol-trimetoprima com 7 dias, troca o par e é distrator construído justamente para isso. Enunciado de paciente internado com fator de complicação puxa a faixa de 7 a 14 dias; mulher jovem tratada em casa puxa o curso curto; e paciente do sexo masculino com infecção urinária febril desloca o piso para duas semanas em qualquer documento.

Bacteriúria assintomática no idoso e no diabético

Não rastrear e não tratar, sem exceção por idade, institucionalização ou diabetes

A atualização da IDSA de 2019 traz recomendações fortes contra rastrear e tratar bacteriúria assintomática em idosos que vivem na comunidade, inclusive com declínio funcional, em residentes de instituições de longa permanência, em diabéticos, em pacientes com lesão medular e em portadores de cateter vesical de curta ou longa permanência. Diante de delirium ou de queda em paciente bacteriúrico, sem sintoma geniturinário localizatório e sem sinal de infecção sistêmica, o documento orienta avaliar outras causas e observar, em vez de prescrever antimicrobiano. O parecer brasileiro de 2020 repete a lista, e o protocolo do SUS-BH acrescenta que tratar a bacteriúria no paciente com ITU de repetição é prejudicial, com evidência 1B, além de pedir que não se solicite exame de urina para rastrear infecção em idoso frágil com delirium.

IDSA, Clinical Practice Guideline for the Management of Asymptomatic Bacteriuria, 2019 Update (Clin Infect Dis 2019;68:e83); parecer SBI/FEBRASGO/SBU/SBPC-ML 2020; Protocolo Colaborativo SUS-BH 2022, itens 2.1.3, 3.1.4 e 3.1.5.

Julgamento individual na paciente idosa, no texto brasileiro de 2004

A diretriz de tratamento das infecções urinárias não complicadas do Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, elaborada pela Sociedade Brasileira de Infectologia e pela Sociedade Brasileira de Urologia em 2004, orienta não tratar a bacteriúria assintomática na mulher sexualmente ativa não grávida, mas, na paciente idosa, deixa a decisão a julgamento individual, registrando que parte dos autores da época não indicava tratamento por não haver associação com aumento de mortalidade ou morbidade. É um texto de 2004, anterior ao corpo de evidência que hoje sustenta a abstenção, e continua acessível — o que ajuda a explicar por que a prática ainda trata.

Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Urologia. Infecções do Trato Urinário não Complicadas: Tratamento. Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2004, seção Bacteriúria Assintomática.

Na prova

O ano do documento é o que separa as duas posições, e o enunciado costuma entregá-lo pelo cenário. Idoso institucionalizado, urina turva ou com odor, urocultura positiva e nenhum sintoma urinário localizatório nem febre é o desenho clássico da abstenção. O distrator característico é iniciar antimicrobiano porque a cultura veio positiva ou porque a piúria é intensa. Quando o enunciado insere febre, dor lombar, hipotensão ou rebaixamento com sinal de infecção sistêmica, o quadro deixa de ser bacteriúria assintomática e a discussão muda de bloco.

Medidas não antimicrobianas na prevenção da ITU de repetição

Cranberry e metenamina com recomendação forte, D-manose e probióticos com recomendação fraca (EAU)

A associação europeia de urologia recomenda produtos de cranberry para prevenção da cistite recorrente com recomendação forte, advertindo explicitamente que a qualidade da evidência que a sustenta é baixa; recomenda metenamina hipurato também com força alta em mulheres sem anormalidade do trato urinário; e traz recomendações fracas para D-manose, para cepas específicas de probióticos (Lactobacillus rhamnosus GR-1, L. reuteri, L. casei shirota, L. crispatus CTV-05), para imunomodulação com OM-89 ou MV140 e para fitoterápicos definidos — sempre informando a paciente sobre a fragilidade e a contradição das evidências.

EAU Guidelines on Urological Infections, seção de prevenção da cistite recorrente.

Sem recomendação, no parecer conjunto brasileiro de 2020

O parecer das quatro sociedades brasileiras não recomenda D-manose, instilação intravesical de ácido hialurônico com sulfato de condroitina, metenamina, fitoterápicos, biofeedback de assoalho pélvico nem probióticos com lactobacilos. Sobre cranberry e OM-89 registra ensaios randomizados com resultados positivos, mas conclui que a evidência é insuficiente para recomendação forte, deixando o assunto para discussão individual — no caso do cranberry, por falta de consistência entre os estudos e por não haver definição da formulação. O que o documento brasileiro recomenda sem ressalva na pós-menopausa é o estrogênio por via vaginal, e não o oral.

Parecer conjunto SBI/FEBRASGO/SBU/SBPC-ML, Braz J Infect Dis 2020;24(2):110-119, seção de ITU recorrente.

Na prova

Cenário de unidade básica ou de programa do SUS, e enunciado que cita as sociedades brasileiras, rodam com o corpo de 2020. Ambulatório de uroginecologia com arsenal amplo, ou menção nominal à associação europeia, roda com o outro. As alternativas ajudam: opção que ofereça metenamina ou D-manose como profilaxia de primeira linha só faz sentido no corpo europeu — e mesmo lá, com evidência declaradamente fraca. Estrogênio vaginal na pós-menopausa é o único item em que os dois documentos coincidem, e por isso costuma ser a opção estável do enunciado.

06

Caso resolvido

Homem de 62 anos, diabético tipo 2 em uso de metformina, chega ao pronto-atendimento com febre de 39,2 °C, calafrios e dor lombar esquerda há dois dias, com náusea e três episódios de vômito nas últimas doze horas. Refere disúria há quatro dias. Pressão arterial 104×64 mmHg, frequência cardíaca 108 bpm, frequência respiratória 22 irpm, saturação de 96% em ar ambiente. Giordano positivo à esquerda. Não consegue reter líquidos por via oral.
achado
Febre, calafrio, dor em flanco e Giordano positivo colocam o quadro no degrau da pielonefrite, não da cistite. O sintoma baixo pode estar presente, como aqui, mas não é ele que define — e a ausência de disúria também não afastaria.
classificação
Sexo masculino e diabetes já tornam esta uma ITU complicada pela lista brasileira. Somam-se vômito persistente, taquicardia e pressão no limite inferior — e a discussão sobre tratamento domiciliar se encerra.
gravidade
Frequência respiratória de 22, frequência cardíaca de 108 e temperatura acima de 38,3 °C somam três critérios de resposta inflamatória sistêmica. Pelo protocolo colaborativo do SUS-BH, infecção urinária com dois ou mais desses critérios já configura sepse urinária: o paciente deve ser rastreado com NEWS 2 ou qSOFA e, havendo disfunção orgânica, tratado como séptico, com protocolo iniciado na primeira hora e encaminhamento à terapia intensiva.
exames
Urocultura com antibiograma antes da primeira dose, sempre — esta é a única síndrome do capítulo em que a cultura é obrigatória mesmo com quadro típico. Hemocultura tem uso seletivo na pielonefrite complicada, onde a positividade pesa no prognóstico. Função renal para graduar o comprometimento e ajustar dose.
conduta
Internação com antimicrobiano endovenoso. A primeira linha brasileira é cefalosporina de terceira geração em monoterapia — ceftriaxona 1 g endovenosa de 12 em 12 horas —, avaliando associar gentamicina 5 mg/kg/dia. A duração é de 7 a 14 dias, com troca para via oral quando houver melhora clínica e tolerância a líquidos. Nitrofurantoína e fosfomicina estão descartadas por princípio: não penetram parênquima renal.
imagem
Diabético com pielonefrite é exatamente o cenário em que gás e coleção aparecem. Imagem não é obrigatória na admissão de quem responde, mas passa a ser se a febre persistir após 48 a 72 horas de antibiótico adequado — ou imediatamente, se houver deterioração clínica. Nesses casos a tomografia com contraste é mais acurada que a ultrassonografia.
reavaliação
O prazo é de 48 a 72 horas. Melhora dos sintomas e dos sinais de gravidade nesse intervalo, com possibilidade de completar o tratamento por via oral em casa, autoriza a alta. Persistência da febre com germe sensível à droga em uso não é indicação de trocar o antibiótico: é indicação de procurar obstrução, abscesso ou gás.
07

Agora feche você

Mulher de 29 anos, não gestante, sem comorbidades, procura a unidade básica com disúria, polaciúria e urgência miccional há três dias. Nega febre, dor lombar, corrimento vaginal e prurido. Está afebril, com Giordano negativo e dor discreta à palpação suprapúbica. Relata que este é o quarto episódio semelhante em doze meses; os três anteriores tiveram urocultura com Escherichia coli e responderam ao tratamento. Os episódios costumam começar um a dois dias depois da relação sexual. Não usa espermicida e não está na pós-menopausa.
achado
Disúria, polaciúria e urgência sem corrimento vaginal, sem febre e sem sinal sistêmico, em mulher não gestante e sem fator de risco: cistite aguda não complicada. A probabilidade de infecção urinária, com esse conjunto, passa de 90%.
classificação
Quatro episódios documentados em doze meses cumprem a definição de ITU de repetição — pelo menos três em um ano, ou pelo menos dois em seis meses. O quadro é, ao mesmo tempo, um episódio agudo a tratar e uma condição crônica a prevenir.
exames
Aqui a urocultura entra, apesar de o quadro ser típico: na ITU de repetição cada episódio deve ser confirmado por cultura, porque o risco de germe resistente é maior. Colhe-se e trata-se empiricamente, sem esperar o resultado.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a urocultura em vez de tratar o paciente É o erro mais frequente do tema e o distrator mais frequente da questão. Cultura positiva em paciente sem sintoma urinário é bacteriúria assintomática, e a lista de quem se trata tem dois itens: gestante e pré-operatório de procedimento urológico com trauma de mucosa. Atrai porque o resultado laboratorial parece um comando, e porque prescrever dá sensação de ter feito algo. O antídoto é anterior à prescrição: não pedir o exame em quem não tem sintoma.
  2. 2Pedir exame de urina na cistite típica não complicada Em mulher não gestante com disúria, polaciúria e urgência sem corrimento vaginal, o diagnóstico é clínico e o tratamento é empírico — os três documentos gradam isso como recomendação forte. Atrai porque parece cuidado, e porque a fita ou o exame de rotina 'não custam nada'. Custam: atrasam o tratamento, e um resultado inesperado costuma gerar conduta que não seria tomada de outro modo.
  3. 3Usar a aparência da urina como critério Urina turva, escura ou com odor forte não diagnostica infecção e não indica tratamento — o consenso brasileiro é textual ao dizer que cor, odor e transparência jamais devem ser usados como critério isolado. No paciente sondado, a orientação é ainda mais explícita: presença ou ausência de urina turva ou com odor não diferencia colonização de infecção. Atrai porque é o achado que a equipe e a família reportam espontaneamente.
  4. 4Confundir piúria com infecção Piúria é achado inespecífico. Não confirma infecção urinária na ausência de sintomas, e não define, sozinha, infecção associada a cateter. Atrai porque leucócito em urina parece prova de infecção — mas há piúria em cálculo, em cateter, em inflamação vizinha e em bacteriúria assintomática. O contrário também informa: ausência de piúria com sintomas floridos é incomum e deve fazer pensar em outro diagnóstico.
  5. 5Manter sulfametoxazol-trimetoprima ou quinolona como empírico da cistite As duas saíram, por motivos diferentes: o cotrimoxazol por resistência acima do limiar de 20% no Brasil, a quinolona por dano ecológico e perfil de efeitos adversos, independentemente da resistência. Atrai porque é o que se aprendeu, porque está barato e disponível, e porque funciona em parte dos pacientes. No estudo de Divinópolis, 56,1% dos médicos escolhiam norfloxacino e 19,3% escolhiam cotrimoxazol — as duas drogas com a maior resistência medida naquela população.
  6. 6Prescrever nitrofurantoína ou fosfomicina para pielonefrite Nenhuma das duas figura em qualquer esquema de pielonefrite, em qualquer documento: são drogas de concentração urinária, sem penetração de parênquima renal. Atrai porque são a primeira linha da cistite e porque a resistência de E. coli a elas é baixíssima — mas o degrau mudou, e com ele mudou a exigência farmacocinética. Prescrever nitrofurantoína para quem tem febre e Giordano positivo é subtratar com aparência de tratar.
  7. 7Trocar o antibiótico quando a febre persiste em 72 horas Falha terapêutica com germe sensível à droga em uso raramente é problema de espectro. A ordem certa das hipóteses é obstáculo mecânico, coleção, germe resistente e diagnóstico alternativo — e as duas primeiras se resolvem com imagem e com drenagem, não com receita nova. Atrai porque escalonar o antimicrobiano é a ação mais rápida e mais visível. Antibiótico não atravessa obstrução nem penetra abscesso.
  8. 8Tratar a colonização da sonda — e esquecer de mexer na sonda Todo cateter de demora acaba colonizado, e bacteriúria assintomática associada a cateter não se trata. Atrai porque a cultura vem positiva e a urina parece feia. E há um erro simétrico: quando há mesmo infecção associada a cateter, prescrever o antimicrobiano e deixar o dispositivo intocado. A conduta inclui retirar o cateter se ele não é mais necessário, preferir cateterismo intermitente, e trocar o cateter no início da terapia quando ele tiver de permanecer.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Disúria, polaciúria e urgência em mulher jovem, sem febre nem dor lombar, com nitrito/leucocitúria positivos define cistite aguda não complicada — trata-se empiricamente com antibiótico de curta duração (ex.: nitrofurantoína ou fosfomicina). Pielonefrite exigiria febre e dor lombar (punho-percussão positiva). Uretrite cursaria com corrimento e fatores de risco sexuais. Litíase daria cólica em flanco com irradiação. Bexiga hiperativa não tem nitrito/leucocitúria positivos nem quadro infeccioso agudo.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite a lista de quem se trata na bacteriúria assintomática: gestante e pré-operatório de procedimento urológico com trauma de mucosa. Depois recite a lista de quem não se trata, com os cinco que mais caem — idoso institucionalizado, idoso com delirium sem sintoma urinário, diabético, lesado medular e paciente sondado. Em seguida, escreva de memória os dois esquemas de primeira linha da cistite, com dose e duração, e o esquema ambulatorial da pielonefrite, com dose, duração e a dose endovenosa inicial.

em 30 dias

Refaça a escada inteira em voz alta — bacteriúria assintomática, cistite, pielonefrite, urossepse — dizendo, para cada degrau, o que define, que exame se pede e qual a conduta. Depois responda a quatro perguntas sem consultar: por que o sulfametoxazol-trimetoprima saiu do empírico brasileiro, com o número; qual é o prazo de reavaliação e o que se procura na tomografia quando a febre persiste; o que caracteriza infecção urinária associada a cateter, inclusive a janela de 48 horas depois da retirada; e qual é a definição de ITU de repetição com a sequência das três camadas de prevenção.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 71 anos, diabética, é trazida pela filha ao pronto-atendimento por febre de 38,8 °C, calafrios e dor lombar direita iniciados há 36 horas, com dois episódios de vômito nas últimas horas. Está lúcida, taquicárdica, com Giordano positivo à direita e aceitando pouco líquido. A filha traz uma urocultura colhida há duas semanas, em consulta de rotina, com Escherichia coli 10⁵ UFC/mL, que não chegou a ser tratada, e quer saber se 'foi por isso'. Conduza o caso: separe o que era bacteriúria assintomática do que é agora pielonefrite, decida o local do tratamento, escolha os exames e o esquema com dose e duração, e defina em quanto tempo vai reavaliar e o que fará se a febre persistir. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.