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PediatriaNeonatologia

Prematuridade

A prova não pergunta o que é prematuro — pergunta em qual faixa ele cai e o que muda por causa disso. Idade gestacional, peso ao nascer e adequação peso/idade são três réguas independentes, e a régua brasileira da profilaxia do vírus sincicial respiratório mudou em 2026.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido do sexo masculino, nascido de parto vaginal com 34 semanas e 2 dias de idade gestacional (avaliada pelo método de Capurro), pesando 2.100 g ao nascimento. A mãe realizou pré-natal completo, sem intercorrências. O peso do recém-nascido situa-se entre os percentis 10 e 90 para a idade gestacional na curva de crescimento intrauterino. De acordo com a classificação do recém-nascido quanto à idade gestacional, este neonato é corretamente classificado como:

02

Como esse tema cai

Prematuro é o recém-nascido com menos de 37 semanas de idade gestacional — menos de 259 dias contados do primeiro dia da última menstruação. Peso não entra nessa definição. Um bebê de 2.100 g nascido com 38 semanas é um recém-nascido a termo pequeno para a idade gestacional; um bebê de 2.600 g nascido com 35 semanas é um pré-termo tardio com peso adequado. A prova adora montar a vinheta exatamente nesse cruzamento, porque quem decora "prematuro é o que nasce com menos de 2.500 g" erra as duas.

São três réguas, e elas não se substituem: a idade gestacional diz o grau de imaturidade; o peso ao nascer diz o tamanho absoluto e o risco de mortalidade; a adequação peso/idade gestacional (PIG, AIG, GIG) diz se aquele bebê cresceu bem para o tempo que teve dentro do útero. Cada uma abre uma porta diferente de complicação, e várias condutas brasileiras — triagem de retinopatia, vacina acelular pelo CRIE, dose de ferro na alta — são disparadas por uma delas especificamente, não por "ser prematuro".

O prematuro brasileiro típico não é o de 26 semanas da UTI neonatal. Num estudo de abrangência nacional realizado em 2011-2012, a prevalência de nascimentos pré-termo foi de 11,5%, distribuída em 1,8% abaixo de 32 semanas, 1,2% entre 32 e 33 semanas e 8,5% entre 34 e 36 semanas. Ou seja: três de cada quatro prematuros do país são pré-termos tardios, que saem da sala de parto parecendo recém-nascidos a termo e voltam ao pronto-socorro com icterícia, hipoglicemia ou dificuldade alimentar.

E há uma régua que acabou de mudar. A imunoprofilaxia do vírus sincicial respiratório no SUS deixou de ser um benefício restrito ao prematuro extremo e passou a alcançar todo nascido com menos de 37 semanas, com dose única e aplicação ainda na maternidade — mudança formalizada pelo Ministério da Saúde em 2026, com um período de convivência entre a regra velha e a nova.

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O que muda decisão

Três réguas que não se substituem

A primeira régua é a idade gestacional ao nascer, e é ela que determina as subcategorias do prematuro. A nomenclatura adotada pela Sociedade Brasileira de Pediatria, seguindo a Organização Mundial da Saúde, é: pré-termo extremo, abaixo de 28 semanas; muito pré-termo, de 28 a menos de 32 semanas; pré-termo moderado, de 32 a menos de 37 semanas — categoria dentro da qual se destaca o pré-termo tardio, de 34 a menos de 37 semanas.

Repare que "moderado" e "tardio" se sobrepõem por construção: o tardio é uma subcategoria do moderado, e não uma faixa vizinha. Isso importa na leitura de enunciado, porque um recém-nascido de 33 semanas é pré-termo moderado e não é tardio, enquanto um de 35 semanas é as duas coisas ao mesmo tempo.

A segunda régua é o peso ao nascer, e ela é independente da idade gestacional. Baixo peso ao nascer é peso menor que 2.500 g — corte que nasceu da observação epidemiológica de que essas crianças têm risco de morrer cerca de vinte vezes maior que as de peso maior. Dentro dele, muito baixo peso é abaixo de 1.500 g (até 1.499 g) e extremo baixo peso é abaixo de 1.000 g (até 999 g). São faixas de peso, não de maturidade: um recém-nascido a termo com restrição de crescimento pode ter muito baixo peso sem ser prematuro.

A terceira régua cruza as duas anteriores: a adequação do peso à idade gestacional. Plotando o peso de nascimento na curva correspondente àquela idade gestacional, o bebê é pequeno para a idade gestacional (PIG) abaixo do percentil 10, adequado (AIG) entre os percentis 10 e 90, e grande (GIG) acima do percentil 90. É essa régua que separa o prematuro que simplesmente nasceu cedo daquele que nasceu cedo e mal nutrido — e o PIG carrega risco próprio de hipoglicemia, policitemia e falha de crescimento a longo prazo, somado a tudo que a prematuridade já traz.

Uma quarta faixa aparece cada vez mais nos enunciados e não é prematuridade: o termo precoce, de 37 a 38 semanas. Não é pré-termo — mas também não se comporta como o recém-nascido de 39 ou 40 semanas, e piora os resultados quando se analisa a população inteira de nascidos vivos.

De onde vem a idade gestacional

Toda a classificação depende de um número que muitas vezes é estimado mal. O critério mais recomendado para estimar a idade gestacional é a ultrassonografia precoce, realizada antes de completar 14 semanas de gestação. Quando existe uma data de última menstruação confiável, mantém-se a estimativa biológica se a discordância entre os dois critérios for de até três dias; acima disso, vale a datação do ultrassom precoce.

Na prática brasileira, esse ultrassom precoce raramente foi feito, e o pediatra recebe na sala de parto uma idade gestacional incerta. Daí o uso dos métodos pós-natais de estimativa — Capurro, New Ballard — que são aproximações somáticas e neurológicas, com margem de erro de uma a duas semanas e desempenho pior justamente nos extremos, que é onde a decisão mais pesa.

Isso tem consequência direta: a mesma criança pode ser classificada como muito pré-termo ou pré-termo moderado dependendo de qual estimativa se usa, e com ela mudam a curva de crescimento, a indicação de triagem oftalmológica e a escolha da vacina. Quando o enunciado dá a idade gestacional por ultrassom de primeiro trimestre, ele está dizendo que aquele número é para ser levado a sério.

O que se faz antes do parto ainda conta para o recém-nascido

Boa parte da gravidade que o pediatra encontra na sala de parto já foi decidida horas antes. O corticoide antenatal acelera a maturação pulmonar fetal, dá maior estabilidade vascular ao prematuro e reduz outras morbidades graves — hemorragia periventricular e enterocolite necrosante entre elas. O Ministério da Saúde recomenda betametasona 12 mg por via intramuscular a cada 24 horas por dois dias, ou dexametasona 6 mg por via intramuscular a cada 24 horas por dois dias, com uso estimulado entre 24 e 34 semanas de gestação.

A eficácia máxima aparece quando o parto ocorre de dois a sete dias após a primeira dose; depois de 24 horas já há algum efeito, abaixo disso o efeito é incompleto, e ele declina após sete dias. É por isso que a tocólise faz sentido: inibir o trabalho de parto por até 48 horas não reduz de forma significativa o parto pré-termo nem a mortalidade neonatal, mas compra o tempo do corticoide e permite transferir a gestante para uma instituição com mais recursos antes de o bebê nascer.

O sulfato de magnésio entra por outra razão: está recomendado como neuroprotetor conceptual quando o parto vai ocorrer antes de 32 semanas. Não é tocolítico nessa indicação — é redução de risco de paralisia cerebral no prematuro. Uma vinheta que descreve gestante em trabalho de parto com 29 semanas e pergunta a conduta obstétrica está cobrando os três: corticoide, tocólise de curto prazo e sulfato de magnésio.

O que falha primeiro: as complicações das primeiras horas

A lógica das complicações imediatas é simples e vale como método: o que ainda não amadureceu é o que falha. O pulmão que não produziu surfactante suficiente colaba nas expirações e gera a doença da membrana hialina, com desconforto respiratório progressivo desde os primeiros minutos, gemência, retrações e necessidade de pressão positiva ou surfactante exógeno. O centro respiratório imaturo gera a apneia da prematuridade, com pausas que aparecem tipicamente após as primeiras 24 horas e são mais frequentes quanto menor a idade gestacional.

A pele fina, a superfície corporal relativamente grande e a ausência de gordura marrom fazem o prematuro perder calor rápido — hipotermia é regra, não exceção, e piora tudo o mais: aumenta consumo de oxigênio, agrava a acidose e favorece a hipoglicemia. As reservas hepáticas de glicogênio são pequenas e se esgotam em horas, o que torna a hipoglicemia previsível e rastreável, não uma surpresa.

O canal arterial que deveria fechar com a queda da resistência pulmonar frequentemente permanece patente, e o shunt esquerda-direita sobrecarrega o pulmão que já está doente. A matriz germinativa subependimária, uma estrutura vascular frágil que involui ao longo do terceiro trimestre, é o sítio da hemorragia peri-intraventricular — motivo pelo qual esse risco se concentra nos abaixo de 32 semanas e praticamente desaparece no pré-termo tardio.

No trato gastrointestinal, a imaturidade da motilidade e da barreira mucosa se soma à colonização e à hipoperfusão para produzir a enterocolite necrosante, com distensão abdominal, resíduo gástrico, sangue nas fezes e pneumatose intestinal na radiografia. E a imaturidade da glicuroniltransferase hepática, associada ao aumento da circulação êntero-hepática, explica por que a icterícia do prematuro aparece mais cedo, sobe mais alto e dura mais que a do recém-nascido a termo — com limiares de fototerapia mais baixos exatamente por isso.

Sobre tudo isso corre o risco infeccioso: a barreira cutânea frágil, os acessos vasculares, a ventilação e a imaturidade imunológica fazem da sepse — precoce e tardia — a complicação que muda o prognóstico mais rápido.

Diagrama de incubadora conectada a pulmões, matriz germinativa, retina, intestino e pele, os cinco principais territórios vulneráveis da prematuridade.
Os cinco territórios que a prematuridade cobra primeiro: pulmão sem surfactante, matriz germinativa periventricular, retina com vascularização incompleta, intestino imaturo e pele que não retém calor.

As complicações que se instalam e vão embora com o bebê

Passadas as primeiras semanas, um segundo grupo de complicações se estabelece — e essas o pediatra vai encontrar no ambulatório, meses depois da alta. A displasia broncopulmonar, ou doença pulmonar crônica da prematuridade, é caracterizada pela dependência de oxigênio a partir dos 28 dias de vida associada a alterações radiográficas pulmonares típicas, ou pela necessidade de oxigenoterapia às 36 semanas de idade gestacional corrigida, especialmente nos prematuros extremos. Essa criança segue precisando de corticoide, diurético ou oxigênio bem além da alta.

A retinopatia da prematuridade é uma doença vasoproliferativa da retina que decorre da interrupção da vascularização retiniana normal pelo nascimento antecipado. O oxigênio suplementar gera hiperóxia retiniana, que causa vasoconstrição e obliteração vascular periférica; a isquemia resultante superproduz fator de crescimento do endotélio vascular, que estimula neovascularização desordenada, com fibrose e descolamento de retina como desfecho possível. Ciclos repetidos de hipóxia e hiperóxia favorecem a progressão — daí os alvos brasileiros de saturação, de 85% a 93% para prematuros com idade gestacional igual ou inferior a 32 semanas e de 85% a 95% acima disso.

A anemia da prematuridade decorre da menor massa eritrocitária inicial, da vida média encurtada das hemácias, do crescimento acelerado e das coletas repetidas de sangue, e é a razão de o ferro profilático do prematuro ser prescrito em dose maior e mais cedo que o do recém-nascido a termo. A doença metabólica óssea do prematuro nasce do déficit de aporte de cálcio e fósforo — o terceiro trimestre é justamente quando o feto acumula a maior parte desses minerais — e é rastreada durante a internação e reavaliada aos 6 meses de idade corrigida.

O desfecho de neurodesenvolvimento é o que mais pesa a longo prazo, e os fatores de risco biológicos são conhecidos: peso ao nascer abaixo de 1.500 g, idade gestacional abaixo de 32 semanas, displasia broncopulmonar, hemorragia peri-intraventricular grave, leucomalácia periventricular, restrição de crescimento intrauterino e perímetro cefálico anormal na alta. Nos primeiros dois anos predominam distonias transitórias, atraso de linguagem, deficiências sensoriais e paralisia cerebral; na idade escolar, pior desempenho em matemática, leitura e ortografia, hiperatividade e déficit de atenção. Cerca de um terço dos prematuros extremos chega aos 20 anos com pelo menos um problema crônico, contra um quinto dos nascidos a termo.

A ultrassonografia cerebral é o exame de rotina para leucomalácia periventricular; a ressonância magnética, quando disponível, é o padrão-ouro para o componente difuso da leucomalácia e é preconizada ao termo ou próximo dele — entre 37 e 40 semanas de idade pós-concepcional — em todo prematuro extremo, independentemente da clínica durante a internação.

O prematuro tardio: o que parece termo e não é

O pré-termo tardio, de 34 a menos de 37 semanas, é o grande volume da prematuridade brasileira: 8,5% de todos os nascimentos, contra 1,8% abaixo de 32 semanas. Ele nasce com peso próximo do normal, respira sozinho, vai para o alojamento conjunto e recebe alta em 48 horas como se fosse um recém-nascido a termo. É exatamente aí que a prova arma a vinheta.

As últimas semanas de gestação não são decorativas. Entre 34 e 40 semanas o feto acumula gordura, aumenta as reservas de glicogênio, amadurece a sucção-deglutição-respiração, completa a reabsorção do líquido pulmonar e ganha capacidade de conjugar bilirrubina. O pré-termo tardio pulou tudo isso. O resultado previsível é o pacote de hipotermia, hipoglicemia, dificuldade de pega e sucção, perda de peso além do esperado, taquipneia transitória por reabsorção incompleta do líquido pulmonar e icterícia mais precoce, mais alta e mais prolongada.

A consequência prática é a reinternação. O pré-termo tardio volta ao serviço nos primeiros dez dias com desidratação hipernatrêmica por falha de amamentação, com icterícia que já cruzou o limiar de fototerapia, ou com hipoglicemia sintomática. Por isso a alta dele não segue o roteiro do recém-nascido a termo: exige verificação de que a amamentação está efetiva, pesagem, dosagem de bilirrubina quando indicado e retorno precoce — em 48 a 72 horas — em vez do retorno padrão.

Do lado obstétrico, o dado da nota técnica da SBP é incômodo e explica parte do problema: no Brasil, um dos dois componentes principais do nascimento prematuro é composto de pré-termos tardios associados a cesarianas em mulheres de maior nível educacional. O outro, mais relevante em volume e gravidade, envolve todos os graus de prematuridade e está vinculado sobretudo à pobreza, tendo a ruptura prematura de membranas como principal fator associado.

Depois da alta: idade corrigida, curva, ferro e olho

A idade corrigida é o ajuste da idade cronológica pelo grau de prematuridade: subtrai-se da idade cronológica o número de semanas que faltaram para a idade gestacional atingir 40 semanas. Um recém-nascido de 32 semanas que recebe alta com três meses de vida (doze semanas) tem 44 semanas pós-concepcionais, ou um mês de idade corrigida. Não há consenso formal sobre por quanto tempo corrigir, mas a maior parte dos autores usa a idade corrigida nos primeiros dois anos de vida — e é ela, não a idade cronológica, que governa a leitura dos marcos do desenvolvimento e o momento da alimentação complementar, iniciada aos 6 meses de idade corrigida na criança em aleitamento materno exclusivo.

O crescimento é monitorado com peso obtido em balança de sensibilidade de 5 gramas, diariamente até a recuperação do peso de nascimento e duas vezes por semana até a alta, com comprimento e perímetro cefálico plotados semanalmente em curva até 50 a 64 semanas de idade gestacional corrigida. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda as curvas pós-natais do Intergrowth-21st até 64 semanas pós-concepcionais, quando o acompanhamento passa para as curvas da OMS adotadas pelo Ministério da Saúde.

Há uma regra pouco lembrada e muito cobrável para o prematuro abaixo de 32 semanas: o canal de crescimento a ser seguido não é definido pelo peso de nascimento, e sim pelo peso atingido quando o ganho recomeça, depois da perda inicial — perda que deve respeitar o limite fisiológico de no máximo 15% do peso de nascimento nos pré-termos extremos. Quem plota o canal pelo peso de nascimento acaba diagnosticando falha de crescimento onde há apenas a adaptação esperada das duas a três primeiras semanas.

A recuperação do crescimento não é imediata nem uniforme. O comprimento costuma atingir a normalidade por volta dos 2 anos e o peso por volta dos 3 anos de idade corrigida; nos nascidos com menos de 1.000 g ou menos de 28 semanas, o processo pode demorar mais. E o catch-up exagerado tem preço: as crianças que aceleram o peso ultrapassando o escore Z do comprimento e do perímetro cefálico têm risco maior de hipertensão, diabetes tipo 2 e doença cardiovascular na adolescência e no adulto jovem — motivo pelo qual se vigia a curva, a pressão arterial e o perfil metabólico, e não apenas se comemora o ganho de peso.

A suplementação de ferro do prematuro é maior que a do recém-nascido a termo e escalona pelo peso de nascimento: acima de 1.500 g, 2 mg/kg/dia a partir dos 30 dias de vida por um ano, seguidos de 1 mg/kg/dia por mais um ano; entre 1.000 g e 1.500 g, 3 mg/kg/dia por um ano e 1 mg/kg/dia entre 1 e 2 anos; abaixo de 1.000 g, 4 mg/kg/dia por um ano e 1 mg/kg/dia por mais um ano. Junto vai o polivitamínico com vitaminas A, C e D, com oferta de vitamina D de 400 UI/dia.

A triagem de retinopatia da prematuridade no Brasil alcança todo prematuro com peso de nascimento de 1.500 g ou menos e/ou idade gestacional igual ou menor que 32 semanas — o "e/ou" é literal: basta um dos dois critérios. O primeiro exame é feito entre a quarta e a sexta semana de vida, com dilatação pupilar e oftalmoscopia binocular indireta. Recém-nascidos maiores ou mais maduros podem ser incluídos por solicitação do neonatologista quando as condições clínicas os colocam em risco — sepse, transfusões, ventilação, uso de surfactante, displasia broncopulmonar.

Vacinar o prematuro e proteger do vírus sincicial respiratório

A regra de ouro está no manual do CRIE e é contraintuitiva: o prematuro é vacinado pela idade cronológica, nas mesmas doses e intervalos das demais crianças. Idade gestacional e peso de nascimento não são, isoladamente, indicativos de intolerância ou de resposta inadequada. Espera-se resposta menor abaixo de 1.500 g ou 29 semanas, mas a maioria dos prematuros produz resposta suficiente para proteção — e adiar vacina "até engordar" é o erro mais comum e mais caro.

As exceções são poucas e precisas. As vacinas de vírus vivo atenuado não são aplicadas na unidade neonatal, com destaque para a rotavírus. A BCG pode ser aplicada ao nascimento em todas as crianças com peso de nascimento igual ou maior que 2 kg — abaixo disso, aguarda-se atingir esse peso. E crianças nascidas com menos de 1.500 g ou menos de 33 semanas (até 32 semanas e 6 dias) recebem o componente pertussis acelular, nas apresentações Penta ou Hexa acelular disponíveis nos CRIE, a partir de 2 meses de idade, com mínimo de 1 mês e 15 dias — indicação que também vale para o bebê que ainda esteja internado na unidade neonatal na idade da vacinação. A razão é concreta: crianças abaixo de 1.000 g podem apresentar mais episódios de apneia após a vacina de células inteiras, e isso é menos frequente com o componente acelular.

A hepatite B guarda uma pegadinha que já foi resposta certa e hoje não é mais. Crianças nascidas com menos de 2.000 g ou 33 semanas precisam de pelo menos quatro doses de vacina hepatite B — mas o esquema vigente do Programa Nacional de Imunizações já contempla quatro doses para todas as crianças, uma monovalente ao nascer mais três nas vacinas combinadas. Não é preciso acrescentar dose alguma. Filho de mãe AgHBs positiva recebe, além da vacina, imunoglobulina humana anti-hepatite B 0,5 mL por via intramuscular no membro oposto, preferencialmente nas primeiras 12 a 24 horas de vida, independentemente do peso ou da idade gestacional.

Na exposição à varicela, a imunoglobulina humana antivaricela-zóster, 125 UI por via intramuscular, é indicada ao prematuro nascido entre 28 e 36 semanas quando a mãe tem história negativa para varicela, e ao nascido com menos de 28 semanas ou menos de 1.000 g independentemente da história materna.

A proteção contra o vírus sincicial respiratório é o ponto em que a régua brasileira mudou de patamar. Pelo protocolo do Ministério da Saúde, o nirsevimabe está indicado para toda criança nascida com idade gestacional inferior a 37 semanas, com qualquer peso corpóreo, independentemente de a mãe ter recebido a vacina contra o VSR na gestação. A aplicação é intramuscular, ainda na maternidade ou durante a internação neonatal, logo após o nascimento ou assim que o recém-nascido estiver clinicamente estável, em dose única por temporada: 50 mg para peso abaixo de 5 kg e 100 mg para peso igual ou acima de 5 kg.

Duas particularidades separam o prematuro da criança com comorbidade. Para os prematuros abaixo de 37 semanas, o nirsevimabe fica disponível durante o ano todo, independentemente da sazonalidade; para crianças de até 2 anos com comorbidades, a aplicação segue o período sazonal brasileiro de fevereiro a agosto, definido pelas semanas epidemiológicas 8 a 32, com dose de 200 mg em duas injeções de 100 mg na segunda temporada. E a segunda temporada é exclusiva das comorbidades listadas — cardiopatia congênita hemodinamicamente significativa, displasia broncopulmonar em tratamento de suporte, imunocomprometimento grave, síndrome de Down, fibrose cística, doença neuromuscular e anomalias congênitas das vias aéreas. Prematuridade isolada não dá direito à segunda temporada.

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Classificar antes de conduzir

A classificação do prematuro não é rótulo acadêmico: cada faixa dispara uma conduta diferente. Antes de responder qualquer pergunta de manejo, o enunciado precisa ser lido nas três réguas — idade gestacional, peso ao nascer e adequação peso/idade gestacional — porque a triagem oftalmológica, a escolha da vacina, a dose de ferro e a curva de crescimento são acionadas por critérios distintos.

  1. 1Extraia a idade gestacional do enunciado e prefira a estimativa por ultrassonografia precoce, quando informada; classifique em extremo (<28), muito pré-termo (28 a <32), moderado (32 a <37) ou tardio (34 a <37).
  2. 2Leia o peso ao nascer como régua independente: baixo peso (<2.500 g), muito baixo peso (<1.500 g) ou extremo baixo peso (<1.000 g).
  3. 3Cruze as duas na curva de peso por idade gestacional e defina PIG (<p10), AIG (p10-p90) ou GIG (>p90).
  4. 4Dispare os gatilhos que dependem de cada régua: triagem de retinopatia se ≤1.500 g e/ou ≤32 semanas; pertussis acelular pelo CRIE se <1.500 g ou <33 semanas; BCG só com peso ≥2 kg; dose de ferro pela faixa de peso ao nascer.
  5. 5Verifique o que independe de faixa: nirsevimabe para todo nascido <37 semanas, ainda na maternidade, e vacinação pela idade cronológica sem adiamento.

Pré-termo extremo — menos de 28 semanas

Máxima imaturidade de todos os sistemas. Concentra doença da membrana hialina, apneia, hemorragia peri-intraventricular, enterocolite necrosante, displasia broncopulmonar e retinopatia. Costuma somar-se ao extremo baixo peso e é o grupo em que a ressonância magnética ao termo é preconizada mesmo sem clínica.

Muito pré-termo — 28 a menos de 32 semanas

Ainda dentro da janela de risco da matriz germinativa e da retina. Mantém indicação de triagem oftalmológica e de pertussis acelular, e é o limite abaixo do qual o sulfato de magnésio antenatal é recomendado como neuroprotetor. O canal de crescimento se define pelo peso após a perda inicial, não pelo peso de nascimento.

Pré-termo moderado — 32 a menos de 37 semanas

Faixa em que a triagem de retinopatia e a indicação de acelular deixam de valer pela idade gestacional isolada, e passam a depender do peso. Persistem os problemas de adaptação: termorregulação, glicemia, icterícia e coordenação alimentar. O pré-termo tardio é uma subcategoria dentro desta faixa.

Pré-termo tardio — 34 a menos de 37 semanas

Três de cada quatro prematuros brasileiros. Parece recém-nascido a termo e não é: hipotermia, hipoglicemia, taquipneia transitória, dificuldade de sucção e icterícia mais precoce e prolongada. A alta exige amamentação comprovadamente efetiva e retorno precoce, e continua com indicação de nirsevimabe por ser menor de 37 semanas.

Faixa de idade gestacionalDefiniçãoFrequência no BrasilO que essa faixa dispara
Pré-termo extremoMenos de 28 semanasDentro do 1,8% abaixo de 32 semanasRessonância ao termo mesmo sem clínica; risco máximo de hemorragia peri-intraventricular, enterocolite e displasia broncopulmonar
Muito pré-termo28 a menos de 32 semanas1,8% dos nascimentos (com os extremos)Sulfato de magnésio antenatal como neuroprotetor; triagem de retinopatia; canal de crescimento definido após a perda inicial
Pré-termo moderado32 a menos de 37 semanas1,2% entre 32 e 33 semanasTriagem de retinopatia e acelular passam a depender do peso; abaixo de 33 semanas ainda há indicação de pertussis acelular
Pré-termo tardio34 a menos de 37 semanas (subcategoria do moderado)8,5% dos nascimentosAlta com amamentação verificada e retorno precoce; nirsevimabe por ser menor de 37 semanas
Termo precoce37 a 38 semanasFora das estatísticas de prematuridadeNão dispara nenhuma conduta de prematuro, mas tem desfechos piores que o termo pleno

Classificação por peso ao nascer — régua independente da idade gestacional

CategoriaCorteConduta que depende desse corte
Baixo peso ao nascerMenos de 2.500 gRisco de morrer cerca de vinte vezes maior que o das crianças de peso maior
Limiar da hepatite BMenos de 2.000 g (ou 33 semanas)Necessidade de pelo menos quatro doses de hepatite B — já contempladas pelo esquema atual do PNI, sem dose extra
Limiar da BCG2 kgCom 2 kg ou mais, a BCG pode ser aplicada ao nascimento; abaixo disso, aguarda-se atingir esse peso
Muito baixo peso ao nascerMenos de 1.500 g (até 1.499 g)Triagem de retinopatia; pertussis acelular pelo CRIE; ferro 3 mg/kg/dia (1.000-1.500 g); risco alto de desfecho de neurodesenvolvimento
Extremo baixo peso ao nascerMenos de 1.000 g (até 999 g)Ferro 4 mg/kg/dia no primeiro ano; imunoglobulina antivaricela-zóster independentemente da história materna; perda de peso tolerada até 15% do peso de nascimento

Adequação do peso à idade gestacional

ClassificaçãoPercentil de peso para a idade gestacionalLeitura clínica
PIG — pequeno para a idade gestacionalAbaixo do percentil 10Nasceu cedo e cresceu mal; soma risco de hipoglicemia, policitemia e falha de crescimento a longo prazo. Aos 3 anos, metade ainda tem peso abaixo da média
AIG — adequado para a idade gestacionalEntre os percentis 10 e 90Cresceu conforme o tempo que teve; o catch-up costuma ocorrer nos dois primeiros anos
GIG — grande para a idade gestacionalAcima do percentil 90Levanta a hipótese de filho de mãe com diabetes, com risco próprio de hipoglicemia neonatal

Ferro profilático do prematuro pela faixa de peso ao nascer

Peso ao nascerPrimeiro anoSegundo ano
Acima de 1.500 g2 mg/kg/dia a partir dos 30 dias de vida1 mg/kg/dia
Entre 1.000 g e 1.500 g3 mg/kg/dia1 mg/kg/dia entre 1 e 2 anos
Abaixo de 1.000 g4 mg/kg/dia1 mg/kg/dia

O "e/ou" da triagem de retinopatia é literal: peso de nascimento de 1.500 g ou menos e/ou idade gestacional igual ou menor que 32 semanas. Um bebê de 31 semanas com 1.700 g entra pela idade gestacional; um de 34 semanas com 1.400 g entra pelo peso.

Vacinação do prematuro segue a idade cronológica, não a corrigida. A idade corrigida governa marcos do desenvolvimento, curva de crescimento e alimentação complementar — nunca o calendário vacinal.

Idade corrigida = idade cronológica − (40 semanas − idade gestacional ao nascer). Usada nos primeiros dois anos de vida.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Imunoprofilaxia do vírus sincicial respiratório no SUS: quem tem direito e com qual anticorpo

Palivizumabe restrito ao prematuro extremo e às comorbidades, em cinco doses mensais

Incorporado ao SUS em 2012, o palivizumabe cobria prematuros com idade gestacional menor ou igual a 28 semanas e menos de um ano de idade, além de crianças com menos de dois anos com doença pulmonar crônica da prematuridade, displasia broncopulmonar ou cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica demonstrada. Exige cálculo individual da dose pelo peso e cinco aplicações mensais dentro da mesma temporada. Continua em uso na transição: crianças que iniciaram o esquema na sazonalidade de 2025 concluem com o mesmo anticorpo na sazonalidade de 2026.

Ministério da Saúde, decisão de incorporação de 2012, descrita no Protocolo de Uso do Nirsevimabe (Portaria SCTIE/MS nº 14, de 7 de março de 2026)

Nirsevimabe para todo prematuro abaixo de 37 semanas, em dose única na maternidade

O protocolo aprovado em março de 2026 estende a imunoprofilaxia a toda criança nascida com menos de 37 semanas, com qualquer peso e independentemente da vacinação materna contra o VSR, em dose única por temporada — 50 mg abaixo de 5 kg e 100 mg de 5 kg em diante — aplicada ainda na maternidade assim que o recém-nascido esteja clinicamente estável. Para o prematuro, fica disponível o ano todo; para crianças de até 2 anos com comorbidades, dentro do período sazonal de fevereiro a agosto. Nascidos a partir de fevereiro de 2026 iniciam já com nirsevimabe, e o protocolo não admite trocar de anticorpo dentro da mesma temporada.

Ministério da Saúde, Portaria SCTIE/MS nº 14, de 7 de março de 2026 — Protocolo de Uso do Nirsevimabe, em vigor desde a publicação

Na prova

Duas redações convivem em 2026, e o que separa uma da outra é a data que o enunciado insere. Vinheta com criança que já recebeu doses mensais na temporada anterior está no mundo do palivizumabe; vinheta de recém-nascido na maternidade, com dose única e sem menção a sazonalidade, está no mundo do nirsevimabe. O distrator mais denunciador é o número de doses: cinco aplicações mensais só existem na régua antiga. Enunciado que descreve prematuro de 34 ou 35 semanas com indicação de imunoprofilaxia só faz sentido na régua de 2026, porque a antiga parava em 28 semanas. E a segunda temporada continua reservada às comorbidades: prematuridade isolada não entra nela em nenhuma das duas redações.

Critério de triagem da retinopatia da prematuridade

Rede mais larga no Brasil: 1.500 g ou menos e/ou 32 semanas ou menos

No Brasil ficou estabelecido que o exame de fundo de olho para detecção precoce de retinopatia é feito em todos os prematuros com peso de nascimento de 1.500 g ou menos e/ou idade gestacional igual ou menor que 32 semanas, com o primeiro exame entre a quarta e a sexta semana de vida, sob dilatação pupilar. Recém-nascidos maiores ou mais maduros podem ser incluídos por solicitação do neonatologista quando há fatores de risco clínicos. O corte mais alto acompanha o perfil epidemiológico de países de renda média, em que formas graves aparecem também em bebês mais maduros, por variação na qualidade do controle da oxigenoterapia entre serviços.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Manual de seguimento ambulatorial do prematuro de risco (2012), que reproduz o critério das diretrizes brasileiras de ROP formuladas com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica

Rede mais estreita nos Estados Unidos: 1.500 g ou menos, ou 30 semanas ou menos

A Academia Americana de Pediatria estabelece triagem para todos os recém-nascidos com peso de nascimento de 1.500 g ou menos ou idade gestacional de 30 semanas ou menos, além de casos selecionados entre 1.500 g e 2.000 g considerados de risco pelo neonatologista. O corte mais baixo de idade gestacional reflete uma população em que a retinopatia grave praticamente não ocorre acima de 30 semanas, o que só se sustenta com controle rigoroso e homogêneo da oxigenoterapia nas unidades neonatais.

American Academy of Pediatrics, Screening Examination of Premature Infants for Retinopathy of Prematurity (Pediatrics, 2018)

Na prova

O recorte se revela pelo cenário e pelo vocabulário. Enunciado ambientado em maternidade do SUS, rede de atenção perinatal ou programa de triagem neonatal trabalha com o corte de 32 semanas. Enunciado que cita a Academia Americana de Pediatria pelo nome, ou que descreve uma unidade com controle estrito de saturação, trabalha com o corte de 30 semanas. As alternativas costumam entregar o recorte sozinhas: quando aparecem 30 e 32 semanas na mesma lista, a questão está testando justamente qual documento o candidato tem na cabeça. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; nas demais bancas, o par de números nas alternativas é o melhor indício.

Qual curva usar para monitorar o crescimento pós-natal do prematuro

INTERGROWTH-21st até 64 semanas pós-concepcionais, na recomendação da SBP

O Departamento Científico de Neonatologia da SBP recomenda acompanhar os pré-termos com as curvas pós-natais do INTERGROWTH-21st, disponíveis em português para peso, comprimento e perímetro cefálico, até 64 semanas pós-concepcionais, quando o seguimento passa para as curvas da OMS adotadas pelo Ministério da Saúde. O argumento é metodológico: são curvas prescritivas — dizem como a criança deve crescer, e não apenas como um grupo cresceu —, multiétnicas, construídas com técnica antropométrica padronizada, com idade gestacional aferida por ultrassonografia precoce, e incluíram gestantes e recém-nascidos brasileiros.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Neonatologia, Monitoramento do crescimento de RN pré-termos, Documento Científico nº 1, fevereiro de 2017

Fenton 2013 como curva de referência de 24 a 50 semanas

As curvas de Fenton, construídas a partir de revisão sistemática e metanálise com dados de países desenvolvidos, cobrem de 24 semanas de idade gestacional até 50 semanas de idade corrigida, são específicas por sexo, fornecem medianas e desvios-padrão que permitem calcular escore Z e emendam na curva da OMS de 2006. Cobrem justamente a faixa em que o INTERGROWTH é frágil: a amostra prescritiva incluiu 201 pré-termos, dos quais apenas 28 abaixo de 34 semanas, e as curvas do INTERGROWTH são consideradas robustas a partir de 33 semanas.

Curvas de Fenton (2013), descritas e comparadas no mesmo Documento Científico nº 1 do Departamento de Neonatologia da SBP (2017)

Na prova

Aqui a divergência é de faixa etária, não de país. Vinheta de prematuro extremo, de 25 ou 27 semanas, dentro da UTI neonatal, está no terreno em que a curva de referência de 24 a 50 semanas tem cobertura e o padrão prescritivo não tem amostra. Vinheta de seguimento ambulatorial, com criança já em casa e idade corrigida acompanhada até por volta de um ano, está no terreno da curva recomendada pela SBP. Menção explícita ao escore Z calculado por programa próprio aponta para a primeira; menção a curva prescritiva, multiétnica ou a transição para a curva da OMS aponta para a segunda. Independentemente da curva escolhida, a regra do canal de crescimento definido pelo peso após a perda inicial vale para os abaixo de 32 semanas.

06

Caso resolvido

Recém-nascido do sexo masculino, parto cesáreo por ruptura prematura de membranas, idade gestacional de 30 semanas e 4 dias por ultrassonografia de 11 semanas, peso de nascimento 1.180 g, no percentil 35 da curva de peso para a idade gestacional. A mãe recebeu ciclo completo de betametasona 48 horas antes do parto. O recém-nascido apresentou desconforto respiratório progressivo na primeira hora, com gemência e retração subcostal, e recebeu surfactante. Evoluiu estável, em ar ambiente no 12º dia. No 30º dia de vida, a equipe organiza o plano de seguimento.
classificação por idade gestacional
30 semanas e 4 dias coloca o recém-nascido na faixa de muito pré-termo (28 a menos de 32 semanas). Não é extremo, porque está acima de 28 semanas, e não é moderado nem tardio, porque está abaixo de 32.
classificação por peso e adequação
1.180 g é muito baixo peso ao nascer (abaixo de 1.500 g) e não é extremo baixo peso (não está abaixo de 1.000 g). O percentil 35 o coloca como adequado para a idade gestacional. As três réguas dão respostas diferentes e todas são necessárias.
achado
O desconforto respiratório progressivo desde a primeira hora, com gemência e resposta ao surfactante, é doença da membrana hialina — a complicação esperada nessa faixa de imaturidade. O corticoide antenatal completo 48 horas antes do parto está dentro da janela de eficácia máxima, de dois a sete dias após a primeira dose, e explica parte da boa evolução.
triagem oftalmológica
Entra pelos dois critérios: 30 semanas é igual ou menor que 32, e 1.180 g é igual ou menor que 1.500 g. O primeiro exame de fundo de olho, com dilatação pupilar, deve ocorrer entre a quarta e a sexta semana de vida — ou seja, a janela já está aberta no 30º dia.
vacinas
Vacinação pela idade cronológica. A BCG aguarda o peso de 2 kg. As vacinas de vírus vivo atenuado, com destaque para a rotavírus, não são aplicadas na unidade neonatal. Por ter nascido com menos de 1.500 g e menos de 33 semanas, o componente pertussis deve ser o acelular, nas apresentações Penta ou Hexa disponíveis no CRIE, a partir dos 2 meses de idade cronológica.
profilaxia do vírus sincicial respiratório
Nascido com menos de 37 semanas, tem indicação de nirsevimabe em dose única, aplicada ainda durante a internação neonatal assim que estiver clinicamente estável, com 50 mg por pesar menos de 5 kg, e independentemente da época do ano.
prescrição de alta e seguimento
Ferro 3 mg/kg/dia no primeiro ano, por ter nascido entre 1.000 g e 1.500 g, com 1 mg/kg/dia entre 1 e 2 anos, além do polivitamínico com oferta de 400 UI/dia de vitamina D. Acompanhamento do crescimento por idade gestacional corrigida, com o canal definido pelo peso atingido quando o ganho recomeçou, e não pelos 1.180 g de nascimento.
07

Agora feche você

Recém-nascida de 35 semanas e 1 dia, peso de nascimento 2.380 g, adequada para a idade gestacional, parto vaginal sem intercorrências, Apgar 8 e 9. Ficou em alojamento conjunto com a mãe, primípara. Com 30 horas de vida, a enfermagem registra temperatura axilar de 36,1 °C, perda de 7% do peso de nascimento, mamadas curtas com pega superficial e sonolência entre as mamadas. A mãe pergunta quando podem ir para casa. Não há icterícia visível até a altura do tronco, e a glicemia capilar colhida antes da mamada foi de 44 mg/dL.
classificação
35 semanas e 1 dia é pré-termo tardio, dentro da faixa de 34 a menos de 37 semanas, e também pré-termo moderado, já que o tardio é subcategoria do moderado. 2.380 g é baixo peso ao nascer, sem ser muito baixo peso. Adequada para a idade gestacional.
achado
O conjunto — temperatura no limite inferior, sonolência, pega superficial, mamadas curtas e glicemia baixa com perda de peso já em 7% em 30 horas — é o quadro clássico do pré-termo tardio: reservas pequenas de glicogênio e gordura, termorregulação imatura e coordenação sucção-deglutição-respiração ainda incompleta. Nada disso é comportamento esperado de recém-nascido a termo.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de prematuro o recém-nascido de baixo peso Atrai porque as duas categorias andam juntas na maioria dos casos e porque "baixo peso" soa como sinônimo de "nasceu cedo". Prematuridade é definida só por idade gestacional abaixo de 37 semanas. O recém-nascido a termo com restrição de crescimento pode ter muito baixo peso e não é prematuro — e o pré-termo tardio de 2.600 g é prematuro sem ter baixo peso.
  2. 2Tratar pré-termo moderado e pré-termo tardio como faixas vizinhas A intuição de que as categorias se sucedem sem sobreposição é forte, e a maioria das listas as escreve uma embaixo da outra. Mas o tardio, de 34 a menos de 37 semanas, está contido no moderado, de 32 a menos de 37. Um bebê de 33 semanas é moderado e não é tardio; um de 35 semanas é os dois.
  3. 3Adiar vacina do prematuro esperando ele engordar Parece cuidado e é dano. Idade gestacional e peso de nascimento não indicam, isoladamente, intolerância ou resposta inadequada, e a vacinação segue a idade cronológica nas mesmas doses e intervalos. As exceções são poucas: BCG espera o peso de 2 kg, vírus vivo atenuado não é aplicado na unidade neonatal, e abaixo de 1.500 g ou 33 semanas usa-se o componente pertussis acelular.
  4. 4Acrescentar uma quinta dose de hepatite B ao prematuro de menos de 2.000 g Foi resposta certa por muitos anos e sobreviveu em material antigo. A exigência de pelo menos quatro doses continua valendo para quem nasceu com menos de 2.000 g ou 33 semanas, mas o esquema vigente do Programa Nacional de Imunizações já entrega quatro doses a todas as crianças — uma monovalente ao nascer mais três nas combinadas. Nenhuma dose extra é necessária.
  5. 5Usar idade corrigida para o calendário vacinal Quem aprendeu que "no prematuro tudo é por idade corrigida" generaliza demais. A idade corrigida governa marcos do desenvolvimento, curva de crescimento e início da alimentação complementar. Vacina segue idade cronológica — usar a corrigida atrasaria o esquema em semanas ou meses justamente na criança mais vulnerável.
  6. 6Ler o "e/ou" da triagem de retinopatia como "e" Quem exige os dois critérios deixa de examinar metade da população de risco. Basta um: peso de nascimento de 1.500 g ou menos, ou idade gestacional igual ou menor que 32 semanas. O bebê de 31 semanas com 1.700 g entra pela idade gestacional, e o de 34 semanas com 1.400 g entra pelo peso.
  7. 7Definir o canal de crescimento do prematuro extremo pelo peso de nascimento É o reflexo automático de quem plota qualquer criança pelo primeiro ponto disponível. Nos abaixo de 32 semanas, o canal a seguir é o peso atingido quando o ganho recomeça, depois da perda inicial fisiológica de até 15% do peso de nascimento. Plotar pelo peso de nascimento produz diagnóstico falso de falha de crescimento nas primeiras semanas.
  8. 8Dar alta ao pré-termo tardio no roteiro do recém-nascido a termo Ele respira sozinho, tem peso próximo do normal e ocupa o alojamento conjunto — parece um bebê a termo pequeno. É o grupo que mais reinterna nos primeiros dez dias por icterícia, desidratação hipernatrêmica e hipoglicemia. Alta exige amamentação verificada, controle de peso, bilirrubina quando indicada e retorno em 48 a 72 horas.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a classificação da OMS por idade gestacional define prematuro como nascimento antes de 37 semanas completas. Dentro da prematuridade: prematuro extremo (< 28 semanas), muito prematuro (28 a < 32 semanas), prematuro moderado (32 a < 34 semanas) e prematuro tardio (34 a < 37 semanas). Com 34 semanas e 2 dias, o RN está na faixa de 34 a < 37 semanas, sendo classificado como prematuro tardio. Prematuro extremo seria < 28 semanas. Prematuro moderado seria 32 a < 34 semanas — o RN já ultrapassou 34 semanas. A termo exige 37 a 41 semanas e 6 dias. Pós-termo exige ≥ 42 semanas.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória as três réguas: as quatro faixas de idade gestacional com os cortes exatos, as três faixas de peso ao nascer e os percentis de PIG, AIG e GIG. Depois responda sem consultar: quais condutas são disparadas por idade gestacional isolada, quais por peso isolado e quais pelo "e/ou" dos dois. Termine escrevendo a fórmula da idade corrigida e aplicando-a a um recém-nascido de 29 semanas com 5 meses de vida.

em 30 dias

Monte três vinhetas suas — uma de 26 semanas com 780 g, uma de 31 semanas com 1.700 g e uma de 35 semanas com 2.400 g — e, para cada uma, decida: entra na triagem de retinopatia e por qual critério; qual componente pertussis usar e por quê; qual dose de ferro; se tem indicação de nirsevimabe, em que dose e em que época do ano; e se tem direito à segunda temporada. Em seguida, reconstrua as três divergências do capítulo dizendo, para cada uma, qual documento sustenta cada posição e em que ano.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é o pediatra de plantão no alojamento conjunto. Foi chamado para avaliar uma recém-nascida de 35 semanas e 1 dia, com 2.380 g, com 30 horas de vida: a enfermagem registrou temperatura axilar de 36,1 °C, perda de 7% do peso e mamadas curtas com pega superficial. A mãe, primípara, quer saber se pode receber alta amanhã de manhã como as outras puérperas do quarto. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.