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PediatriaNeonatologia

Doença hemolítica perinatal

Da gestante Rh negativo ao RN ictérico nas primeiras 24 horas: a prova cobra o fluxo do Coombs indireto, a imunoglobulina anti-D nos três momentos certos e a régua de fototerapia, imunoglobulina EV e exsanguineotransfusão.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido a termo, do sexo masculino, com 3 dias de vida, apresenta icterícia progressiva. Mãe do grupo O e RN grupo A. Exame: ictérico até zona III de Kramer, sem hepatoesplenomegalia. Bilirrubina total 14 mg/dL (indireta 13 mg/dL), Coombs direto fracamente positivo, reticulócitos elevados, presença de esferócitos no esfregaço. Qual o mecanismo mais provável dessa anemia hemolítica?

02

Como esse tema cai

Doença hemolítica perinatal é a anemia hemolítica do feto e do recém-nascido causada por anticorpos maternos da classe IgG dirigidos contra antígenos das hemácias fetais que a mãe não possui. É um tema com dois palcos: no pré-natal, a prova cobra o seguimento da gestante Rh negativo — Coombs indireto, título crítico, Doppler de artéria cerebral média — e a profilaxia com imunoglobulina anti-D nos momentos certos; na maternidade, cobra o RN que fica ictérico nas primeiras 24 horas de vida e a decisão entre fototerapia, imunoglobulina EV e exsanguineotransfusão.

A profilaxia anti-D mudou a cara da doença: a forma Rh, grave e potencialmente letal, tornou-se evitável e despencou de frequência, e hoje a incompatibilidade ABO — mais comum e mais branda — é a principal causa de doença hemolítica neonatal. Ainda assim, as doenças hemolíticas seguem entre as principais condições associadas à encefalopatia bilirrubínica, e a doença Rh grave permanece a principal indicação de exsanguineotransfusão. É por isso que a banca insiste: o tema mistura prevenção de programa público, raciocínio fisiopatológico e decisão terapêutica com número na mão.

03

O que muda decisão

O mecanismo: IgG materna contra hemácia fetal

Tudo começa com a sensibilização: hemácias fetais portando um antígeno que a mãe não tem entram na circulação materna — o grande momento é a hemorragia feto-materna do parto, mas abortamento, gravidez ectópica, procedimentos invasivos, sangramentos da gestação e transfusão incompatível também sensibilizam. A resposta primária produz IgM, que não atravessa a placenta; nas exposições seguintes, o sistema imune materno responde com IgG — e IgG atravessa. Na gestação seguinte de um feto antígeno-positivo, o anticorpo recobre as hemácias fetais, que são destruídas por hemólise extravascular no baço.

O feto compensa: eritropoetina sobe, a medula acelera e surge eritropoiese extramedular em fígado e baço — daí a hepatoesplenomegalia e os eritroblastos na circulação periférica que deram o nome clássico de eritroblastose fetal. Nos casos graves, os reticulócitos chegam a 30-40%. Quando a destruição supera a compensação, instala-se anemia progressiva; na forma extrema, insuficiência cardíaca de alto débito e hipoproteinemia levam à hidropisia fetal — edema generalizado, derrames cavitários — e ao óbito intraútero.

Um detalhe fisiopatológico decide questões: intraútero o feto não fica ictérico, por mais intensa que seja a hemólise. A bilirrubina indireta atravessa a placenta e é conjugada e excretada pelo fígado materno. O recém-nascido gravemente acometido nasce anêmico, às vezes hidrópico — mas com bilirrubina de cordão apenas moderadamente elevada. É depois do clampeamento, sem a placenta como rim de bilirrubina, que a icterícia explode: ascensão rápida já nas primeiras horas de vida, com risco de encefalopatia bilirrubínica aguda se não houver tratamento agressivo.

A gravidade do acometimento fetal é progressiva nas gestações subsequentes: cada nova gravidez de feto antígeno-positivo reexpõe a mãe e amplifica a resposta. Essa história natural — primeira gestação poupada, seguintes cada vez piores — é a assinatura da doença Rh.

Ilustração da passagem transplacentária de anticorpos IgG maternos que recobrem hemácias fetais, destruídas por macrófago esplênico, com fígado e baço fetais aumentados.
Fisiopatologia da doença hemolítica perinatal: IgG materna atravessa a placenta, recobre as hemácias fetais e provoca hemólise extravascular; a eritropoiese extramedular compensatória explica a hepatoesplenomegalia.

Doença Rh: a forma grave — e evitável

O par de risco é mãe Rh (D) negativo com feto Rh positivo — o antígeno D herdado do pai. Como depende de sensibilização prévia, a primeira gestação costuma ser poupada, exceto se a mãe já teve contato com o antígeno por transfusão incompatível ou por evento obstétrico anterior (aborto, ectópica) sem profilaxia. A partir daí, o espectro é largo: cerca de 25% dos recém-nascidos acometidos têm hemólise leve, com anemia discreta; metade evolui com anemia, hepatoesplenomegalia e icterícia precoce; e a fração mais grave morre intraútero por hidropisia ou nasce em falência, exigindo tratamento nas primeiras horas.

No recém-nascido, o Coombs direto — o teste que detecta anticorpo aderido à hemácia — é positivo e forte, e aqui ele é o pilar diagnóstico: positividade intensa acompanha doença intensa. A tipagem do RN deve incluir a pesquisa de D fraco: o RN D fraco se comporta como Rh positivo para fins de doença e de indicação de profilaxia materna.

Uma curiosidade com cara de pegadinha: a incompatibilidade ABO concomitante protege contra a sensibilização Rh. Se a mãe O Rh negativo gesta um feto A Rh positivo, as hemácias fetais que caem na circulação materna são destruídas rapidamente pelos anti-A naturais — antes que o sistema imune tenha tempo de conhecer o antígeno D e montar resposta contra ele.

Doença ABO: a forma comum — e branda

O par de risco é mãe do grupo O com RN do grupo A ou B. Mães A ou B produzem anti-B e anti-A predominantemente IgM, que não atravessam a placenta — por isso a doença é praticamente exclusiva do filho de mãe O, cujos anticorpos naturais têm fração IgG relevante. E como esses anticorpos preexistem, sem necessidade de sensibilização, a doença ABO pode aparecer já na primeira gestação — o contrário exato da doença Rh.

A tradução clínica é mais suave. Entre as duplas mãe O e RN A ou B, cerca de 20% desenvolvem icterícia hemolítica, mas só 2% dos RN evoluem com hiperbilirrubinemia já nas primeiras horas. A icterícia costuma aparecer entre 24 e 36 horas de vida, evolui de forma gradual e persistente e faz pico em torno do 5º dia — podendo alcançar bilirrubina indireta de 20 mg/dL, com risco real de encefalopatia diagnosticada depois da alta se o seguimento falhar. A anemia é discreta, a hemólise tende a ser mais intensa quando o RN é do grupo B, e a hidropisia é excepcional.

O laboratório é o oposto do da doença Rh e é onde a prova arma a casca de banana: o Coombs direto é positivo em apenas 20% a 40% dos casos, e a positividade não guarda relação com a gravidade. Coombs direto negativo não afasta doença ABO. O esfregaço mostra esferócitos — a marca morfológica da doença —, os reticulócitos variam de 10% a 30%, e o teste do eluato (pesquisa de anti-A ou anti-B ligados às hemácias do RN) demonstra o anticorpo, mas também sem correlação com gravidade. O diagnóstico é, na prática, clínico-evolutivo: mãe O, RN A ou B, icterícia precoce, hemólise no laboratório e exclusão das outras causas.

Antígenos irregulares: o terceiro personagem

Quando há doença hemolítica com Coombs direto positivo mas sem incompatibilidade D nem ABO, pense nos antígenos eritrocitários irregulares: os demais antígenos do sistema Rh (c, C, e, E), Kell, Duffy, Kidd e MNS. São causas raras, mas produzem quadros tão graves quanto a doença Rh clássica — inclusive óbito intrauterino. O anti-Kell é o mais temido: além de hemolisar, suprime os precursores eritroides, produzindo anemia fetal desproporcional ao título do anticorpo. No pré-natal, é a pesquisa de anticorpos irregulares (o painel que acompanha o Coombs indireto) que os identifica; no RN de mãe multigesta ou politransfundida com Coombs direto positivo inexplicado, o painel materno fecha o diagnóstico.

Pré-natal da gestante Rh negativo

Toda gestante faz tipagem sanguínea e Coombs indireto na primeira consulta. Se a gestante é Rh negativo, tipa-se o parceiro: parceiro comprovadamente Rh negativo encerra o risco para o antígeno D. Com parceiro Rh positivo ou desconhecido, o Coombs indireto negativo se repete a cada 4 semanas a partir da 24ª semana, e a gestante recebe imunoglobulina anti-D na 28ª — o seguimento do Manual de Gestação de Alto Risco do MS (2022).

Coombs indireto positivo muda o jogo: identifica-se o anticorpo, titula-se e referencia-se ao pré-natal de alto risco — a profilaxia perdeu o papel, porque a sensibilização que ela previne já aconteceu. Pelo manual do MS, título igual ou maior que 1:16 dispara a investigação de anemia fetal por Dopplervelocimetria da artéria cerebral média, medindo o pico de velocidade sistólica a partir de 18-24 semanas, com repetição seriada. O racional é elegante: o feto anêmico compensa com débito alto e sangue menos viscoso, e a velocidade na ACM sobe. Valores acima de 1,5 múltiplo da mediana (MoM) para a idade gestacional identificam anemia moderada ou grave — e substituíram a amniocentese com espectrofotometria do líquido amniótico (curva de Liley), método histórico e invasivo que a prova só cobra como distrator.

PVS-ACM acima de 1,5 MoM leva à cordocentese, que confirma a anemia no sangue fetal e já trata: hematócrito fetal abaixo de 30% indica transfusão intrauterina com concentrado de hemácias O negativo irradiado, buscando hemoglobina final acima de 10 g/dL. A TIU se repete conforme a reavaliação e tem janela: pelo manual do MS vai até a 34ª semana; depois disso, anemia fetal grave se resolve antecipando o parto em centro com UTI neonatal, não transfundindo. Título estável em multigesta sensibilizada não tranquiliza — a série histórica mostra que a gravidade cresce a cada gestação, e o seguimento é do Doppler, não do título.

Imunoglobulina anti-D: os três momentos

A profilaxia é para a gestante Rh negativo não sensibilizada — Coombs indireto negativo — sob risco de contato com hemácias D positivas. A dose é 300 µg por via intramuscular, e os momentos são três: na 28ª semana de gestação; em até 72 horas após o parto de RN Rh positivo (ou de fator desconhecido); e em até 72 horas após qualquer evento potencialmente sensibilizante — abortamento, gravidez ectópica, mola hidatiforme, sangramento vaginal, procedimentos invasivos (amniocentese, biópsia de vilo corial, cordocentese) e hemorragia feto-materna volumosa, situação em que a dose pode precisar ser maior. Se o RN é Rh negativo, a dose pós-parto é desnecessária.

O mecanismo é a razão de tudo: a imunoglobulina recobre e destrói as hemácias fetais D positivas que alcançaram a circulação materna antes que apresentem o antígeno ao sistema imune. Dois detalhes derrubam candidato: primeiro, a anti-D administrada positiva o Coombs indireto por 8 a 12 semanas — um título baixo transitório depois da profilaxia é imunoglobulina circulante, não sensibilização, e não se repete a dose por causa dele; segundo, dar anti-D a uma mulher já sensibilizada não trata nem reduz título — é prevenção, e o evento a prevenir já passou.

O RN com doença hemolítica: diagnóstico e tratamento

Icterícia nas primeiras 24-36 horas de vida é doença hemolítica até prova em contrário — nunca é fisiológica. A investigação sai do sangue de cordão ou do RN: bilirrubina total e frações, hemoglobina e hematócrito, reticulócitos, morfologia de hemácias (esferócitos), tipagem ABO e Rh com pesquisa de D fraco, Coombs direto, eluato se a mãe é do grupo O e painel de anticorpos irregulares se há Coombs direto positivo sem incompatibilidade ABO ou D. Na mãe Rh negativo, o Coombs indireto materno completa o quadro.

O tratamento é a fototerapia — com uma régua deslocada: na doença hemolítica, o limiar de indicação cai 2 mg/dL em relação à tabela geral, porque a hemólise é fator agravante da neurotoxicidade. Para o RN com 38 semanas ou mais, os limiares de fototerapia são 10, 13 e 15 mg/dL às 24, 48 e 72 horas (8, 11 e 13 no RN de 35-37 semanas) — menos 2 se hemolítica. Bilirrubina em zona de tratamento pede fototerapia de alta intensidade, de preferência dupla, com controle da BT em intervalos de horas, não de dias.

A doença Rh grave tem gatilhos próprios, decorados por quem passa: no sangue de cordão, BT acima de 4 mg/dL e/ou hemoglobina abaixo de 12 g/dL sinalizam que a exsanguineotransfusão pode ser indicada logo após o nascimento; depois, BT dosada a cada 6-8 horas com ascensão igual ou maior que 0,5-1,0 mg/dL por hora nas primeiras 36 horas também indica o procedimento, assim como os níveis absolutos da tabela (18, 21 e 22 mg/dL às 24, 48 e 72 horas no termo). Sinais de encefalopatia bilirrubínica aguda — hipertonia, opistótono, choro neurológico, febre — ou BT 5 mg/dL ou mais acima da linha indicam EST imediata, com fototerapia intensiva enquanto o material é preparado.

Entre a fototerapia e a EST existe a imunoglobulina humana EV: 0,5-1,0 g/kg em 2 horas, repetível após 12 horas, quando a BT continua subindo apesar da fototerapia de alta intensidade ou chega a 2-3 mg/dL do nível de exsanguineotransfusão. A SBP pede uso individualizado, não rotineiro: a metanálise disponível mostra redução do número de ESTs, mas com evidência de baixa qualidade — e os dois únicos ensaios de baixo risco de viés, com fototerapia intensiva adequada, não mostraram benefício.

A EST troca duas volemias (2 × 80 mL/kg) por acesso calibroso, idealmente veia umbilical, usando 2/3 de concentrado de hemácias e 1/3 de plasma fresco congelado, com sangue colhido há menos de 7 dias, filtrado e irradiado. Na incompatibilidade Rh, o sangue é O negativo submetido a contraprova com o sangue materno; na ABO, hemácias O reconstituídas em plasma AB. O procedimento remove hemácias recobertas, anticorpos circulantes e bilirrubina, e corrige a anemia — mas carrega morbidade real (complicações metabólicas, hemodinâmicas, infecciosas e vasculares) e virou evento raro na era da fototerapia intensiva: indicação sempre revisada, execução só por equipe de terapia intensiva neonatal.

Depois da alta: a anemia que volta

O RN que teve doença hemolítica não recebe alta do problema junto com a alta hospitalar. Os anticorpos maternos persistem em circulação por semanas, e entre 1 e 3 semanas de vida pode instalar-se a anemia tardia da doença hemolítica — tipicamente hiporregenerativa, com reticulócitos e eritropoetina baixos. É a pegadinha inversa: aqui, reticulócito baixo não afasta a doença, é a assinatura dela. O seguimento ambulatorial precisa incluir hemoglobina e reticulócitos seriados até a estabilização, com transfusão simples reservada ao lactente sintomático.

Também na doença ABO o pico tardio cobra vigilância: como a bilirrubina culmina em torno do 5º dia, depois da alta, o retorno ambulatorial em 48-72 horas — regra da SBP para todo RN que sai antes do pico da icterícia — é o que impede a encefalopatia diagnosticada na reinternação. Do lado materno, o desfecho de uma gestação aloimunizada reprograma a próxima: pré-natal de alto risco desde o início, Doppler mais precoce e a certeza de que a profilaxia não tem mais papel.

04

Do Coombs ao parto: o fluxo da gestante Rh negativo

A banca cobra este tema como um algoritmo com números nos nós: o título que dispara o Doppler, o MoM que dispara a cordocentese, o hematócrito que dispara a transfusão e a régua de bilirrubina do RN. O fluxo abaixo segue o Manual de Gestação de Alto Risco do MS (2022) e o Manual de Orientação da SBP (2021).

  1. 1Tipagem sanguínea + Coombs indireto na 1ª consulta de toda gestante; se Rh negativo, tipar o parceiro (parceiro Rh negativo comprovado encerra o risco para o antígeno D)
  2. 2Coombs indireto negativo → repetir a cada 4 semanas a partir da 24ª semana + imunoglobulina anti-D 300 µg na 28ª
  3. 3Coombs indireto positivo → identificar o anticorpo, titular e referenciar ao pré-natal de alto risco; a profilaxia perde o papel
  4. 4Título ≥1:16 → Doppler seriado da artéria cerebral média (pico de velocidade sistólica) a partir de 18-24 semanas
  5. 5PVS-ACM >1,5 MoM → cordocentese; hematócrito fetal <30% → transfusão intrauterina (janela até a 34ª semana, alvo de Hb >10 g/dL)
  6. 6Anemia grave além da janela da TIU → antecipar o parto em centro com UTI neonatal
  7. 7Ao nascer: sangue de cordão com tipagem (incluindo D fraco), Coombs direto, BT e Hb; mãe Rh negativo não sensibilizada com RN Rh positivo → anti-D em até 72 horas
Rh (anti-D)ABO
Par de riscoMãe Rh negativo · feto Rh positivoMãe O · RN A ou B
Gestação em que apareceA partir da 2ª — exige sensibilização prévia (transfusão ou evento obstétrico anterior antecipam)Pode já na 1ª — anti-A/anti-B IgG preexistem na mãe O
GravidadeDe leve a hidropisia e óbito fetal; piora a cada gestaçãoBranda; icterícia precoce com anemia discreta; hidropisia excepcional
Coombs diretoPositivo e forte — pilar do diagnósticoPositivo em só 20-40%, sem relação com gravidade
Esfregaço e reticulócitosEritroblastos; reticulócitos de até 30-40% nos gravesEsferócitos; reticulócitos de 10-30%
Curso da icteríciaAscensão rápida já nas primeiras horas; principal indicação de exsanguineotransfusãoInício em 24-36 h, pico no 5º dia; quase sempre resolve com fototerapia

Bilirrubina total (mg/dL) que indica tratamento no RN ≥35 semanas (SBP, 2021)

Idade pós-natalFototerapia 35-37⁶ semFototerapia ≥38 semEST 35-37⁶ semEST ≥38 sem
24 horas8101518
48 horas11131721
72 horas13151822
96 horas14162023
5-7 dias15172124

Na doença hemolítica (e demais agravantes: G6PD, asfixia, sepse, acidose, albumina <3 g/dL), o limiar de fototerapia cai 2 mg/dL. EST imediata se sinais de encefalopatia bilirrubínica ou BT ≥5 mg/dL acima da linha.

Doença Rh grave: BT >4 mg/dL e/ou Hb <12 g/dL no sangue de cordão indicam possível EST logo após o nascimento; ascensão ≥0,5-1,0 mg/dL/h nas primeiras 36 horas também.

A imunoglobulina anti-D positiva o Coombs indireto por 8-12 semanas — título baixo transitório após a profilaxia não é sensibilização.

O manual do MS trabalha com TIU até a 34ª semana; a literatura nacional de medicina fetal descreve a última transfusão em torno da 35ª, com parto cerca de 3 semanas depois (RBGO, 2009).

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual título de Coombs indireto dispara a investigação de anemia fetal

MS — Manual de Gestação de Alto Risco (2022)

Título igual ou maior que 1:16 exige investigação de anemia fetal com Doppler de artéria cerebral média a partir de 18-24 semanas.

Ministério da Saúde, 2022

Literatura nacional de medicina fetal (RBGO)

Considera o feto de risco mínimo apenas com títulos até 1:8; a partir daí, serviços de referência já iniciam a vigilância dopplervelocimétrica, especialmente em multigestas com história de feto acometido.

Baiochi & Nardozza, RBGO, 2009

Na prova

O cenário denuncia o recorte: pré-natal na rede, programa do SUS ou menção nominal ao manual do MS trabalham com 1:16; enunciado ambientado em serviço de medicina fetal, ou com alternativas que oferecem vigilância a partir de 1:8, usa a régua da literatura especializada. História de feto anterior acometido desloca a conduta para vigilância mais precoce em qualquer recorte.

A régua de fototerapia e exsanguineotransfusão do RN ≥35 semanas

SBP — Manual de Orientação (2021)

Adota os limiares derivados da diretriz AAP 2004: fototerapia a partir de 10 mg/dL às 24 horas no RN ≥38 semanas, com desconto de 2 mg/dL na doença hemolítica.

SBP, 2021

AAP — revisão de 2022

Elevou os limiares de fototerapia e EST, agora estratificados por idade gestacional semana a semana e pela presença de fatores de neurotoxicidade; estudos de implementação mostram queda de mais de 50% no uso de fototerapia sem perda de segurança. O documento brasileiro é anterior à revisão — a diferença é de calendário editorial, não de discordância clínica.

Kemper et al., Pediatrics, 2022

Na prova

Valores de tabela em prova brasileira saem da régua SBP 2021 — é dela que vêm os limiares 10/13/15 e 18/21/22 cobrados em vinheta. Menção nominal à diretriz americana de 2022, ou alternativas com limiares visivelmente mais altos e estratificação semana a semana, denunciam o recorte internacional.

06

Caso resolvido

G3P2, 29 anos, Rh negativo, parceiro Rh positivo. Não recebeu imunoglobulina anti-D nos dois partos anteriores. Com 26 semanas, Coombs indireto 1:64, confirmado, com anticorpo identificado como anti-D. Encaminhada ao alto risco, inicia Doppler seriado: com 29 semanas, pico de velocidade sistólica da artéria cerebral média em 1,7 MoM. Sem sinais de hidropisia.
achado
Multigesta Rh negativo sem profilaxia prévia com Coombs indireto positivo em título alto (1:64, bem acima do crítico de 1:16): gestante aloimunizada — a imunoglobulina não tem mais papel nesta ou em qualquer gestação futura.
interpretação
PVS-ACM de 1,7 MoM ultrapassa o corte de 1,5 MoM para a idade gestacional: anemia fetal moderada a grave é provável. O Doppler rastreia, não confirma — o diagnóstico definitivo é no sangue fetal.
conduta
Cordocentese em centro de medicina fetal: dosagem do hematócrito fetal e, se abaixo de 30%, transfusão intrauterina no mesmo procedimento com concentrado de hemácias O negativo irradiado, buscando hemoglobina acima de 10 g/dL. Com 29 semanas, está dentro da janela da TIU (até a 34ª).
seguimento
Doppler e TIUs repetidos conforme a reavaliação até o limite da janela; a partir daí, anemia recorrente indica antecipar o parto em maternidade com UTI neonatal. Ao nascer: sangue de cordão com tipagem, Coombs direto, BT e Hb, fototerapia intensiva precoce e preparo para exsanguineotransfusão conforme os gatilhos de cordão (BT >4 mg/dL, Hb <12 g/dL).
07

Agora feche você

RN a termo (39 semanas), mãe do grupo O Rh positivo, RN do grupo A Rh positivo. Com 20 horas de vida, icterícia até o tórax. BT 9,2 mg/dL, Hb 15 g/dL, reticulócitos 14%, esfregaço com esferócitos, Coombs direto negativo.
achado
Icterícia antes de 24 horas de vida em par de risco ABO (mãe O, RN A), com marcadores de hemólise: reticulocitose e esferócitos. O Coombs direto negativo não afasta — na doença ABO ele é positivo em apenas 20-40% dos casos.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Coombs direto negativo descartou doença hemolítica Vale para a doença Rh, em que o Coombs direto é o pilar. Na ABO ele é positivo em só 20-40% dos casos e não mede gravidade — o diagnóstico é clínico-evolutivo (mãe O, RN A ou B, icterícia precoce, esferócitos, reticulocitose). A banca adora dar o CD negativo para induzir o abandono da hipótese certa.
  2. 2Primeira gestação está sempre protegida A regra vale só para a doença Rh — e mesmo assim cai por terra se a mãe já foi transfundida ou teve evento obstétrico sensibilizante sem profilaxia. Na ABO, os anticorpos IgG preexistem na mãe O: o primeiro filho A ou B já pode adoecer.
  3. 3Anti-D para a gestante já sensibilizada O reflexo 'Rh negativo = imunoglobulina' atrai o erro. Com Coombs indireto positivo para anti-D, a sensibilização que a imunoglobulina previne já aconteceu: a dose não trata, não reduz título e não protege o feto. O caminho é alto risco, Doppler de ACM e, se preciso, transfusão intrauterina.
  4. 4Coombs indireto positivo logo após a imunoglobulina = sensibilizou A anti-D administrada circula e positiva o Coombs indireto por 8-12 semanas, em título baixo. Interpretar esse achado como aloimunização gera encaminhamento e ansiedade indevidos — e repetir a dose por causa dele é errar duas vezes.
  5. 5Nasceu sem icterícia, então não é grave Intraútero, a placenta exporta a bilirrubina indireta para o fígado materno conjugar: o feto gravemente hemolítico nasce anêmico ou hidrópico, mas pouco ictérico. A icterícia explode nas primeiras horas de vida — por isso os gatilhos de sangue de cordão (BT >4, Hb <12) valem antes de qualquer icterícia visível.
  6. 6Reticulócito baixo afastou hemólise Na fase aguda, a reticulocitose é a regra. Mas a anemia tardia da doença hemolítica (1-3 semanas de vida) é hiporregenerativa: anticorpos maternos persistentes e eritropoetina baixa derrubam os reticulócitos. No lactente pálido pós-doença hemolítica, o reticulócito baixo confirma a suspeita em vez de afastá-la.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Mãe O e RN A/B, icterícia nas primeiras 24–72h, Coombs direto fracamente positivo, reticulocitose e esferócitos no esfregaço são achados típicos de incompatibilidade ABO — a causa mais comum de doença hemolítica do RN (correta). Incompatibilidade Rh exige mãe Rh negativa sensibilizada (não é o caso: incompatibilidade descrita é ABO) e Coombs geralmente fortemente positivo. Esferocitose hereditária tem Coombs NEGATIVO e história familiar. Deficiência de G6PD costuma ter Coombs negativo e desencadeante oxidativo. Sepse teria sinais sistêmicos e não explica o padrão imuno-hemolítico com Coombs positivo.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória o fluxo da gestante Rh negativo: quando pedir o Coombs indireto, que título dispara o Doppler de ACM (1:16), que MoM dispara a cordocentese (1,5) e os três momentos da anti-D (28ª semana, 72 h pós-parto, 72 h pós-evento). Depois confira no fluxo do capítulo o que escapou.

em 30 dias

Monte você mesmo a tabela Rh × ABO (par de risco, gestação, Coombs direto, esfregaço, gravidade) e escreva os gatilhos de exsanguineotransfusão no sangue de cordão e a indicação exata da imunoglobulina EV no RN. Feche resolvendo de novo o caso para completar.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Plantão na maternidade: o RN de uma mãe Rh negativo fica ictérico com 12 horas de vida. Peça os exames certos no sangue de cordão e decida entre fototerapia, imunoglobulina EV e exsanguineotransfusão antes que a curva cruze a linha. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.