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PediatriaNeonatologia

Infecções congênitas (STORCH)

Cinco agentes, uma clínica quase igual e cinco réguas laboratoriais completamente diferentes. A prova quase nunca pergunta o diagnóstico: pergunta qual exame fecha, em que janela ele vale, e qual dose sai da maternidade.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido com 20 dias de vida, filho de mãe sem pré-natal, apresenta rinite serossanguinolenta persistente, lesões cutâneas palmoplantares, hepatoesplenomegalia e, à radiografia de ossos longos, sinais de periostite e osteocondrite. O VDRL do recém-nascido é reagente com titulação maior que a materna. Qual é o diagnóstico e o tratamento de escolha?

02

Como esse tema cai

STORCH é uma sigla de plantão, não uma doença. Ela existe porque cinco agentes muito diferentes produzem o mesmo recém-nascido: pequeno para a idade gestacional, ictérico, com hepatoesplenomegalia, petéquias, plaquetopenia e alguma alteração no sistema nervoso central. Nenhum desses achados aponta para um agente. O que aponta é a régua laboratorial de cada um — e é exatamente aí que a prova mora.

Por isso a questão de STORCH raramente pede o diagnóstico. Ela entrega o quadro e pergunta um passo operacional: que exame colher e em que amostra; até que dia de vida esse exame ainda significa infecção congênita; qual o corte que separa criança exposta de criança infectada; qual dose sai da maternidade e por quanto tempo. Quem decorou a clínica e não decorou a janela erra a questão inteira sabendo o agente.

Este capítulo trata dos cinco: sífilis, toxoplasmose, citomegalovírus, rubéola e zika. Sífilis e toxoplasmose são as que mais aparecem, por dois motivos — a sífilis congênita subiu de 4,9 para 9,9 casos por mil nascidos vivos entre 2013 e 2023 no Brasil, e a toxoplasmose congênita entrou na etapa 1 do teste do pezinho, o que colocou o resultado do papel filtro na mesa do pediatra da atenção primária. O herpes simples neonatal, o H da sigla clássica, aparece pouco em prova de residência com esse recorte e não é o assunto aqui; o que interessa dele é que entra no diferencial de todo recém-nascido com vesículas ou com quadro séptico sem bactéria.

Uma advertência de método que vale para o capítulo inteiro: em três dos cinco agentes, o exame do recém-nascido tem prazo. IgM de rubéola cai com a idade, PCR de CMV deixa de significar congênito depois de três semanas de vida, e IgG de qualquer um deles pode ser apenas o anticorpo da mãe atravessando a placenta. Prazo vencido é exame perdido — e a maternidade é a única chance de colher a maioria deles.

03

O que muda decisão

O que os cinco compartilham e por que isso não ajuda no diagnóstico

O repertório clínico compartilhado é curto e conhecido: restrição de crescimento intrauterino, icterícia com hiperbilirrubinemia direta, hepatoesplenomegalia, petéquias e púrpura, plaquetopenia, alteração de transaminases, coriorretinite, calcificações intracranianas, microcefalia e perda auditiva neurossensorial. Um recém-nascido com esse conjunto tem infecção congênita — mas o conjunto não diz de quê.

Alguns achados têm mais poder discriminatório do que outros, e vale saber quais. Catarata e cardiopatia congênita, juntas com surdez, formam a tríade que puxa para rubéola. Coriorretinite extensa, com hidrocefalia e calcificações difusas, puxa para toxoplasmose. Calcificações periventriculares com microcefalia puxam para citomegalovírus. Calcificações na junção córtico-subcortical, desproporção craniofacial e artrogripose puxam para zika. Lesões cutâneas palmoplantares, rinite sanguinolenta, pseudoparalisia de Parrot e alteração em radiografia de ossos longos puxam para sífilis.

Nenhum desses padrões, no entanto, dispensa o laboratório. Os documentos brasileiros são explícitos: o diagnóstico diferencial de cada um dos cinco inclui os outros quatro. A conduta correta diante de um recém-nascido com esse quadro é investigar em bloco — STORCH completo — e não escolher um agente pela impressão clínica. Quando a mãe tem uma sorologia positiva conhecida, a investigação começa por ali, mas não termina ali.

É por isso que a distinção mais importante do capítulo não é entre agentes. É entre criança exposta e criança infectada. Exposta é a que tem apenas o anticorpo materno atravessando a placenta e nenhum sinal de infecção; infectada é a que produziu resposta própria ou tem o agente detectado. Confundir as duas gera dois erros de sinal oposto e igualmente graves: internar e tratar por dez dias um bebê que não precisava, ou mandar para casa sem seguimento um bebê que vai perder audição aos oito meses.

Sífilis congênita: a régua começa no tratamento da mãe, não no exame do bebê

A pergunta que abre o caso de sífilis congênita não é sobre o recém-nascido. É sobre a gestante: ela foi adequadamente tratada? O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de IST fecha essa definição em uma frase e a prova cobra essa frase quase literalmente — tratamento adequado é o esquema completo para o estágio clínico da sífilis, com benzilpenicilina benzatina, iniciado até 30 dias antes do parto e já concluído no momento do parto. Quem não se encaixa nisso é considerada inadequadamente tratada, e não há meio-termo.

Cada pedaço da definição já foi distrator de prova. Tratamento com outra medicação que não a benzilpenicilina benzatina não conta como adequado, mesmo quando a paciente é alérgica e recebeu alternativa — para a gestante, a benzilpenicilina benzatina é a única opção segura e eficaz reconhecida pelo protocolo. Esquema iniciado 15 dias antes do parto não conta. Esquema iniciado a tempo, mas com intervalo entre doses ultrapassando 7 dias na gestante, obriga a reiniciar o esquema, e portanto não estava concluído. E a informação verbal não vale: o histórico tem de estar documentado em prontuário ou na caderneta da gestante.

Definida a situação materna, o segundo passo é laboratorial e tem duas travas técnicas. Primeira: o teste não treponêmico é colhido em sangue periférico do recém-nascido, nunca em sangue de cordão umbilical — o cordão contém mistura com sangue materno e produz resultado falso-reagente. Segunda: colher mãe e filho ao mesmo tempo, com o mesmo método, é o cenário que permite interpretar o número. Um título do recém-nascido pelo menos duas diluições acima do materno — por exemplo, mãe 1:4 e bebê 1:16 — é indicativo de sífilis congênita.

A armadilha vem em seguida, e é a mais cobrada do tema: título igual ou menor que o materno não exclui sífilis congênita. Menos de 30% das crianças com sífilis congênita têm o teste pareado maior que o da mãe. Ou seja, o corte de duas diluições serve para confirmar, jamais para descartar. A decisão de investigar e tratar se apoia na avaliação clínica, epidemiológica e laboratorial em conjunto, não no número isolado.

Há ainda uma trava de exame que a prova gosta: não se pede teste treponêmico no bebê antes dos 18 meses. Antes disso, o resultado reflete o anticorpo materno transferido pela placenta e não há correlação de titulação que sugira infecção. A partir dos 18 meses, um teste treponêmico reagente confirma sífilis congênita — e criança com esse resultado e sem histórico de tratamento prévio precisa de avaliação completa, tratamento e notificação.

Ilustração de duas amostras de sangue periférico colhidas ao mesmo tempo, da mãe e do recém-nascido, e de um segmento de cordão umbilical marcado como amostra proibida.
O teste não treponêmico da sífilis congênita é pareado e simultâneo, em sangue periférico da mãe e do bebê. Sangue de cordão umbilical contém mistura com sangue materno e falseia o resultado.

Sífilis congênita: o que sai da maternidade, dose por dose

Confirmada a suspeita, a investigação do recém-nascido é padronizada: hemograma completo, glicemia, radiografia de ossos longos e líquor com celularidade, proteinorraquia e VDRL. O líquor é o exame que decide a via e o intervalo da penicilina, porque separa sífilis congênita com e sem neurossífilis. Os valores que a prova usa: no recém-nascido, líquor sugestivo de sífilis tem mais de 25 células por mm³, proteínas acima de 150 mg/dL ou VDRL reagente. Na criança com mais de 28 dias, os cortes caem para mais de 5 células por mm³ e proteínas acima de 40 mg/dL.

Com neurossífilis, o medicamento é a benzilpenicilina potássica, também chamada cristalina, e a internação hospitalar é obrigatória — a razão é farmacocinética, porque os níveis liquóricos alcançados pela procaína são menores. Sem neurossífilis, há duas opções equivalentes: benzilpenicilina cristalina 50.000 UI/kg por dose, via intravenosa, de 12/12 horas na primeira semana de vida e de 8/8 horas depois dela, por 10 dias; ou benzilpenicilina procaína 50.000 UI/kg por dose, intramuscular, uma vez ao dia, por 10 dias — esta última permitindo tratamento fora da unidade hospitalar. Em qualquer das duas, atraso de mais de 24 horas em uma dose obriga a reiniciar o esquema.

A benzilpenicilina benzatina em dose única de 50.000 UI/kg, intramuscular, existe no protocolo, mas com indicação estreita e muito cobrada: só para a criança nascida de mãe não tratada ou inadequadamente tratada que tenha, ao mesmo tempo, exame físico normal, exames complementares normais e teste não treponêmico não reagente ao nascimento. Qualquer alteração em qualquer um desses três itens tira a benzatina da mesa e leva ao esquema de dez dias.

Criança diagnosticada depois de um mês de vida e criança com sífilis adquirida seguem outro intervalo: benzilpenicilina cristalina 50.000 UI/kg por dose, intravenosa, de 4/4 a 6/6 horas, por 10 dias. E há uma regra que a prova adora esconder no enunciado: o esquema completo de dez dias de penicilina deve ser administrado mesmo quando a criança já recebeu ampicilina por outra causa, como suspeita de sepse neonatal. Ampicilina para sepse não conta como tratamento de sífilis.

Duas negativas fecham a seção. A ceftriaxona não tem evidência de eficácia no tratamento da sífilis congênita e só pode ser usada como alternativa em situação de indisponibilidade das benzilpenicilinas cristalina e procaína — não é opção de conveniência. E a única criança que não recebe tratamento algum é a criança exposta: assintomática, mãe adequadamente tratada, teste não treponêmico não reagente ou reagente com titulação menor, igual ou até uma diluição acima da materna. Essa criança não é notificada na maternidade, mas vai para a atenção primária com seguimento clínico e laboratorial marcado.

Sífilis: o seguimento é parte da conduta, não cortesia

Toda criança exposta ou com sífilis congênita faz teste não treponêmico em 1, 3, 6, 12 e 18 meses de idade, e o seguimento laboratorial se interrompe depois de dois testes não reagentes consecutivos. Idealmente o exame é feito sempre com o mesmo método e no mesmo laboratório, porque a comparação é de titulação e método diferente muda o número.

A expectativa é conhecida: os títulos devem cair aos 3 meses e estar não reagentes aos 6 meses quando se tratava apenas de passagem passiva de anticorpo materno, ou quando a criança foi adequadamente tratada. Duas situações configuram falha e mudam a conduta — persistência de titulação reagente aos 6 meses de idade, ou aumento de dois títulos ao longo do seguimento, por exemplo de 1:2 ao nascimento para 1:8 depois.

Diante de qualquer uma das duas, a conduta não é observar mais um pouco. A criança é notificada para sífilis congênita, submetida a punção lombar com VDRL, celularidade e proteína no líquor, e tratada por dez dias com penicilina parenteral — mesmo que já tenha recebido tratamento antes. A escolha entre cristalina e procaína dependerá da presença de neurossífilis.

O seguimento clínico da criança com sífilis congênita tem três consultas especializadas semestrais por dois anos: oftalmológica, audiológica e neurológica. A razão é que parte das manifestações é tardia e não se previne com o tratamento adequado — a ceratite intersticial costuma aparecer entre os 2 e os 20 anos, e a perda auditiva sensorial por acometimento do oitavo par pode surgir entre os 10 e os 40 anos. Em caso de neurossífilis, a punção lombar é repetida a cada 6 meses até a normalização bioquímica, citológica e sorológica.

Toxoplasmose: a gestante define o esquema, e o corte é 16 semanas

A triagem pré-natal da toxoplasmose começa preferencialmente no primeiro trimestre, com IgM e IgG anti-Toxoplasma gondii. O resultado divide a gestante em três destinos. IgG reagente com IgM não reagente é infecção antiga: gestante imune, sem necessidade de repetir sorologia, só orientação de prevenção. IgG e IgM não reagentes é gestante suscetível: repetir a sorologia — idealmente mensal, no mínimo trimestral — e no parto. IgM reagente exige investigação.

Com IgM reagente, o próximo exame é o teste de avidez de IgG, e o corte que interessa é a idade gestacional em que a primeira sorologia foi colhida. Alta avidez em amostra colhida até 16 semanas afasta infecção adquirida na gestação, porque a alta avidez indica infecção há mais de três a quatro meses. Depois de 16 semanas, a avidez perde esse poder — a infecção pode ter ocorrido já na gestação e mesmo assim ter tido tempo de amadurecer. É por isso que a diretriz nacional tem dois fluxogramas separados, um para a primeira sorologia até 16 semanas e outro para depois disso, e a prova costuma testar justamente quem não percebeu que existem dois.

Diante de suspeita de infecção aguda, a espiramicina é iniciada imediatamente, enquanto a investigação corre. A espiramicina não atravessa bem a placenta e serve para reduzir a transmissão, não para tratar o feto. Quando a infecção fetal é confirmada ou altamente provável, o esquema muda para o trio que atravessa: sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico.

As regras da troca têm data. A partir de 16 semanas, substitui-se a espiramicina pelo trio quando não é possível fazer amniocentese. A amniocentese com PCR em líquido amniótico é feita após 18 semanas de gestação e com no mínimo 4 semanas desde a provável infecção — antes disso o resultado negativo não vale. Se a infecção fetal fosse confirmada antes de 14 semanas, situação rara, usa-se apenas sulfadiazina, porque a pirimetamina é antagonista do ácido fólico e evitada no período de organogênese; a partir de 14 semanas entra o trio completo. E infecção adquirida no terceiro trimestre é tratada com sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico independentemente do resultado do PCR em líquido amniótico, pelo risco elevado de transmissão nessa fase.

Uma nota de disponibilidade que explica a régua: espiramicina, sulfadiazina e pirimetamina são fornecidas pelo Sistema Único de Saúde e integram o Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica, adquirido pelo Ministério da Saúde. O ácido folínico é do Componente Básico e a aquisição é responsabilidade municipal — o que, na prática, é o elo que costuma faltar, e faltar ácido folínico obriga a suspender temporariamente o tratamento.

Toxoplasmose congênita: tratar por doze meses, inclusive o assintomático

O ponto de partida é contraintuitivo e por isso rende questão: o tratamento da toxoplasmose congênita está indicado para todas as crianças com infecção diagnosticada no primeiro ano de vida, mesmo as assintomáticas, e dura doze meses. Não se trata de tratar quem tem lesão; trata-se de impedir que a lesão apareça, e a maior parte das sequelas visuais e neurológicas se constrói ao longo do primeiro ano.

As indicações de iniciar tratamento no recém-nascido ou lactente são quatro: IgM e/ou IgA anti-Toxoplasma reagentes no soro no primeiro semestre de vida; IgG reagente com quadro clínico sugestivo; diagnóstico de toxoplasmose fetal, por PCR positiva em líquido amniótico ou ultrassonografia fetal compatível; e IgG crescente ou estável nos primeiros meses de vida. A lógica do quarto item é a mais elegante: IgG materna transferida pela placenta cai e desaparece; IgG que não cai é IgG que a criança está produzindo.

O teste de triagem neonatal — pesquisa de IgM por captura em sangue capilar seco no papel filtro — não é diagnóstico. É muito sensível, o que gera falso-positivo, e falha nas infecções fetais adquiridas no primeiro trimestre e nos casos de tratamento materno prolongado, em que mesmo a IgM sérica pode ser negativa. Duas consequências práticas: criança com manifestações clínicas sugestivas é investigada mesmo com triagem negativa, e recém-nascido de mãe com toxoplasmose na gestação é investigado por completo antes da alta da maternidade, sem esperar o resultado do pezinho.

A investigação do recém-nascido suspeito é fechada e a prova pede a lista: exame de fundo de olho, ultrassonografia transfontanela ou tomografia de crânio, hemograma completo, avaliação auditiva com emissões otoacústicas e potencial evocado auditivo de tronco encefálico, líquor e transaminases. O fundo de olho tem prioridade e precisa ser precoce, porque no Brasil é frequente encontrar lesão inflamatória de retina já ao nascimento ou nas primeiras semanas — e é esse achado que indica o corticoide.

O caso suspeito é notificado no Sinan com o código P37.1. As definições de caso que fecham a notificação envolvem número e prazo: caso confirmado inclui IgM ou IgA reagente até 6 meses de vida, IgG em ascensão em pelo menos duas amostras seriadas com intervalo mínimo de três semanas nos primeiros doze meses, IgG persistentemente reagente após os 12 meses, ou detecção do DNA do parasito. Criança assintomática em investigação nos primeiros doze meses de vida fica classificada como caso provável até o desfecho — e é descartada quando a IgG desaparece na ausência de tratamento.

Citomegalovírus: a janela de três semanas define tudo

O citomegalovírus é a infecção congênita mais comum e a principal causa infecciosa de surdez neurossensorial na infância. Estima-se que 0,5% a 1% dos recém-nascidos sejam infectados; em Ribeirão Preto, um estudo em população de altíssima soroprevalência materna encontrou 8 casos por mil nascidos vivos. Entre os infectados, 10% a 15% têm sinais ao nascer — e é entre os assintomáticos ao nascimento que está o problema silencioso: 5% a 15% desenvolvem anormalidade tardia, principalmente perda auditiva, que pode ser bilateral em até metade dos casos.

O diagnóstico não é sorológico. A presença do vírus na urina ou na saliva, detectada por isolamento viral ou por PCR, nas primeiras três semanas de vida, é o marcador definitivo de infecção congênita. Alguns autores encurtam a janela para duas semanas, pela possibilidade de o vírus aparecer na urina na terceira semana em criança infectada no parto ou nos primeiros dias. A urina é a amostra preferencial; a saliva é mais fácil de colher, mas pode ser contaminada por vírus da secreção cervical materna ou do leite materno, e resultado positivo em saliva pede confirmação em urina.

O que acontece depois da janela é o núcleo da questão. Ausência do vírus na urina e na saliva do nascimento até 2 ou 3 semanas de vida exclui infecção congênita. Detecção do vírus a partir da quarta semana até a 12ª semana indica infecção adquirida no período perinatal ou pós-natal precoce — não congênita. Depois da terceira semana, portanto, o PCR positivo perdeu a capacidade de datar a infecção, e o diagnóstico de infecção congênita passa a exigir uma combinação de achados clínicos, de imagem, auditivos e oculares, com exclusão de outras causas.

A IgM sérica anti-CMV no recém-nascido é pouco sensível: dependendo do teste, apenas 30% a 80% dos casos confirmados por detecção viral têm IgM positiva ao nascimento. Ausência de IgM não exclui nada, e presença de IgM precisa ser confirmada por detecção viral em urina ou saliva. Já a IgG é praticamente inútil aqui, porque a maioria das crianças recebe o anticorpo da mãe — no Brasil, 90% a 95% das gestantes têm IgG anti-CMV.

Isso explica por que não existe rastreamento sorológico universal de CMV no pré-natal, nem nas diretrizes brasileiras nem nas internacionais: a maioria das mulheres já teve contato com o vírus, a detecção de IgG e IgM não define infecção primária nem prevê transmissão fetal, e até recentemente não havia intervenção comprovada. Estudos recentes com valaciclovir em altas doses na gestante com infecção primária mostraram redução da transmissão vertical quando iniciado precocemente, mas ainda não há recomendação oficial de uso — e é assim que o assunto deve ser tratado numa prova hoje.

Linha do tempo dos primeiros meses de vida destacando as três primeiras semanas como a janela em que urina e saliva confirmam infecção congênita por citomegalovírus, e o período posterior em que essas amostras deixam de datar a infecção.
Vírus detectado em urina ou saliva até 2 a 3 semanas de vida confirma infecção congênita por citomegalovírus. Detectado a partir da quarta semana, indica aquisição perinatal ou pós-natal precoce.

Citomegalovírus: quem trata, quem não trata e o que a criança faz depois

A decisão de tratar CMV congênito depende da gravidade, e a gravidade é uma classificação com consequência direta. Doença moderada a grave é o que se trata: doença grave ou multiorgânica; múltiplas manifestações persistentes por duas semanas ou mais — trombocitopenia, petéquias, hepatoesplenomegalia, hepatite; envolvimento do sistema nervoso central, incluindo microcefalia, ventriculomegalia, calcificações intracerebrais, alteração de substância branca, malformação cortical ou cerebelar, líquor alterado com PCR positiva, e coriorretinite; ou mais de duas manifestações de doença leve.

Antes de tratar, a investigação sistêmica é obrigatória e serve para classificar: líquor, hemograma completo, função hepática e renal, bilirrubinas, coagulograma, avaliação auditiva por potencial evocado auditivo de tronco encefálico, fundo de olho e imagem do sistema nervoso central — ultrassonografia, tomografia ou ressonância. A tomografia de crânio é recomendada em toda criança com infecção congênita por CMV, inclusive na assintomática, porque radiografia de crânio e ultrassonografia têm baixa sensibilidade para as calcificações e cistos periventriculares.

Há três situações em que não se trata, e todas já foram distrator: doença leve ao nascer, recém-nascido com menos de 32 semanas de idade gestacional, e lactente com mais de 30 dias de idade cronológica no momento do diagnóstico — nesses casos faltam estudos de segurança e eficácia. Criança assintomática também não recebe antiviral. A exceção que confunde é a perda auditiva neurossensorial isolada, que tem benefício documentado com seis semanas de tratamento, iniciado até 13 semanas de vida.

A neutropenia é o efeito adverso que governa o monitoramento, e ela é muito diferente por via: ocorre em cerca de 20% dos lactentes tratados com valganciclovir oral e em cerca de 65% dos tratados com ganciclovir parenteral. O acompanhamento previsto é contagem de neutrófilos semanal por seis semanas e mensal depois, com transaminases e creatinina mensais, reduzindo a dose diante de evento adverso. Não é necessário monitorar excreção viral — e essa é uma pegadinha frequente, porque a virúria reaparece cerca de três semanas depois da suspensão da droga sem que isso signifique falha.

O seguimento é longo e é o que muda o prognóstico funcional: avaliação auditiva a cada seis meses nos primeiros três anos de vida e anual até os 18 anos; avaliação oftalmológica aos 3, 6 e 12 meses. Diferentemente do acometimento auditivo, a coriorretinite pelo CMV não é progressiva — o que explica por que a audição exige vigilância por quase duas décadas e o olho, não.

Rubéola congênita: doença eliminada, vigilância que não pode falhar

A síndrome da rubéola congênita é a única das cinco em que a idade gestacional da infecção materna quase determina o desfecho. Infecção no início da gestação, especialmente nas primeiras 12 semanas, tem cerca de 90% de chance de transmissão ao feto. Depois de 18 semanas, o risco de síndrome da rubéola congênita é baixo, e os defeitos são raros após a 20ª semana. Infecção depois de 20 semanas pode gerar feto infectado sem manifestação — situação classificada como infecção congênita pelo vírus da rubéola, que também é notificada e monitorada, porque a criança excreta vírus.

O mecanismo do dano é vascular: o vírus produz necrose de células endoteliais e isquemia de órgãos em formação, o que explica a distribuição multissistêmica. Os defeitos mais comuns são surdez, catarata, defeitos cardíacos — persistência do canal arterial, hipoplasia de artéria pulmonar, estenoses —, deficiência intelectual, atraso do desenvolvimento, dano hepático e esplênico, baixo peso e exantema ao nascer. Um único defeito é possível, e o mais frequente isoladamente é a deficiência auditiva.

O diagnóstico laboratorial é sorológico e tem calendário: primeira coleta ao nascer, segunda no 6º mês, terceira no 9º mês. IgM reagente no sangue do recém-nascido é evidência de infecção congênita, porque a IgM materna não atravessa a placenta — e nesse caso colhem-se swab de orofaringe e nasofaringe e urina para detecção viral. IgM não reagente com IgG reagente exige as coletas de 6 e 9 meses: IgG materna desaparece por volta do sexto mês, então IgG que persiste ou sobe é sugestiva de infecção intrauterina.

A cinética da IgM é um número que a prova pede: ela é detectada em 100% das crianças com síndrome da rubéola congênita até o 5º mês de vida, em 60% entre 6 e 12 meses, em 40% entre 12 e 18 meses, e raramente depois do 18º mês. Sensibilidade que cai com a idade é o argumento para colher cedo.

Não há tratamento específico. O manejo é sintomático e por órgão, com abordagem multidisciplinar — pediatria, oftalmologia, cardiologia, audiologia e neurodesenvolvimento — e acompanhamento longo, para as manifestações tardias. A prevenção é a vacina, e a régua é clara: recomenda-se que a gravidez seja evitada por 30 dias após a administração da tríplice viral. A frase seguinte é a que resolve questão de ética e conduta: se a vacina foi aplicada inadvertidamente em gestante, não está indicada a interrupção da gravidez.

A definição de caso suspeito tem uma parte que se esquece: além do recém-nascido de mãe que foi caso suspeito ou confirmado de rubéola, é suspeita toda criança até 12 meses com surdez, cardiopatia congênita, suspeita de deficiência auditiva, catarata, glaucoma ou retinopatia pigmentar — independentemente da história materna. E como a rubéola está eliminada no Brasil, confirmação por critério apenas clínico é considerada falha da vigilância: todo caso suspeito deve ter diagnóstico laboratorial.

Zika e a microcefalia: o corte é estatístico, não centimétrico

A síndrome congênita associada ao vírus zika trouxe para a prova um problema de medida antes de um problema de infecção. Microcefalia não é um número fixo em centímetros: é perímetro cefálico abaixo de menos 2 desvios-padrão da média para a idade gestacional e o sexo. Microcefalia grave é abaixo de menos 3 desvios-padrão. A medida é feita com fita métrica inelástica, entre 24 horas de vida e o sexto dia e 23 horas, dentro da primeira semana.

A curva a usar depende da idade gestacional, e essa é a parte que separa quem estudou de quem chutou. Recém-nascido a termo, de 37 a 42 semanas, é interpretado pela referência da Organização Mundial da Saúde. Recém-nascido pré-termo é interpretado pela tabela do InterGrowth, por idade gestacional. Usar a curva errada produz classificação errada nas duas direções.

O histórico dos cortes explica por que valores em centímetros ainda circulam em prova e em enunciado antigo. Entre novembro e dezembro de 2015, o critério adotado foi perímetro cefálico igual ou menor que 33 cm para o recém-nascido a termo — um corte deliberadamente sensível, que na curva da Organização Mundial da Saúde correspondia ao percentil 12,5 nos meninos e ao percentil 22,9 nas meninas, e portanto capturava muitas crianças normais. Entre dezembro de 2015 e março de 2016 vigorou o corte de 32 cm para ambos os sexos. A partir de março de 2016, o Brasil passou a adotar as definições da Organização Mundial da Saúde por desvio-padrão, que são as vigentes.

A investigação de imagem também tem escada. Para detectar anormalidade estrutural do cérebro, a ultrassonografia transfontanela é o exame inicial, quando o tamanho da fontanela permite. Tomografia computadorizada ou ressonância magnética ficam reservadas ao recém-nascido com microcefalia grave, abaixo de menos 3 desvios-padrão — a lógica é evitar radiação e sedação em criança que a ultrassonografia já resolveria.

O achado de imagem que mais discrimina zika de citomegalovírus é a topografia das calcificações: no zika, elas predominam na junção córtico-subcortical; no citomegalovírus, são tipicamente periventriculares. Somam-se ao zika a desproporção craniofacial com pele redundante no couro cabeludo e a artrogripose, que praticamente não aparecem nos outros quatro agentes.

Um último ponto que a sigla STORCH obriga a dizer: microcefalia é achado clínico, não diagnóstico etiológico. A lista de causas congênitas inclui os cinco agentes deste capítulo mais HIV e outros vírus, além de causas genéticas e disruptivas — e existe microcefalia adquirida depois do parto, por meningite, encefalite ou lesão cerebral. Recém-nascido com microcefalia sem etiologia definida é caso de investigação de STORCH completo, não de rótulo.

04

O dia da maternidade: que exame, em que amostra, com que prazo

O fluxo abaixo é a sequência de decisões do primeiro dia de vida, quando ainda dá para colher tudo. Os cards destrincham a única escala verdadeiramente ordinal do capítulo — a classificação do perímetro cefálico por desvio-padrão, que decide qual imagem pedir. A primeira tabela é o cruzamento que resolve a maioria das questões: agente por agente, o exame que confirma, a janela em que ele vale e o que se faz. As demais tabelas trazem as doses e os cortes liquóricos que a prova pede pelo número.

  1. 1Recolha o histórico materno documentado, não a informação verbal: sorologias do pré-natal por trimestre, resultado de teste rápido na admissão, e — na sífilis — qual medicação, em que estágio clínico, quando começou e se terminou antes do parto.
  2. 2Examine a criança por inteiro procurando o repertório compartilhado: peso e perímetro cefálico com a curva certa, icterícia com fração direta, hepatoesplenomegalia, petéquias, lesões cutâneas, alterações osteoarticulares e nível de consciência.
  3. 3Se houver sífilis materna na gestação atual: colha teste não treponêmico em sangue periférico da mãe e do bebê ao mesmo tempo, com o mesmo método. Nunca sangue de cordão. Não peça teste treponêmico no bebê.
  4. 4Classifique a gestante como adequadamente tratada ou não, pela definição fechada: esquema completo para o estágio clínico com benzilpenicilina benzatina, iniciado até 30 dias antes do parto e concluído antes dele.
  5. 5Se a mãe não foi adequadamente tratada, ou se o título do bebê está pelo menos duas diluições acima do materno, ou se o exame físico é alterado: notifique sífilis congênita e complete com hemograma, glicemia, radiografia de ossos longos e líquor com celularidade, proteinorraquia e VDRL.
  6. 6Trate a sífilis congênita pela via que o líquor determinar: cristalina intravenosa por 10 dias se houver neurossífilis, com internação; cristalina ou procaína por 10 dias se não houver; benzatina em dose única apenas no cenário restrito de exame físico, exames complementares e teste não treponêmico todos normais.
  7. 7Se houver toxoplasmose materna suspeita ou confirmada na gestação: colha sorologia pareada mãe-filho — IgG e IgM na mãe, IgG, IgM e, se possível, IgA no bebê — e não espere o teste do pezinho para investigar.
  8. 8Complete a investigação de toxoplasmose antes da alta: fundo de olho, ultrassonografia transfontanela ou tomografia de crânio, hemograma, emissões otoacústicas com potencial evocado auditivo de tronco encefálico, líquor e transaminases. Notifique no Sinan como P37.1.
  9. 9Se houver suspeita de citomegalovírus congênito: colha urina — preferencial — e saliva para PCR ou isolamento viral dentro das três primeiras semanas de vida. Depois desse prazo o exame deixa de datar a infecção.
  10. 10Se houver suspeita de rubéola congênita: colha soro para IgM e IgG ao nascer e agende as coletas do 6º e do 9º mês. IgM reagente pede swab de orofaringe, de nasofaringe e urina para detecção viral.
  11. 11Meça o perímetro cefálico entre 24 horas e o sexto dia e 23 horas de vida, interprete pela curva da Organização Mundial da Saúde no recém-nascido a termo e pela tabela do InterGrowth no pré-termo, e classifique por desvio-padrão.
  12. 12Antes da alta, escreva o seguimento no papel: teste não treponêmico em 1, 3, 6, 12 e 18 meses na sífilis; sorologia seriada e doze meses de tratamento na toxoplasmose confirmada; audiometria semestral por três anos no citomegalovírus; sorologia de 6 e 9 meses na rubéola. Infecção congênita sem seguimento marcado é diagnóstico desperdiçado.

Perímetro cefálico dentro da faixa esperada

Acima de menos 2 desvios-padrão da média para idade gestacional e sexo, medido entre 24 horas e 6 dias e 23 horas de vida. Não caracteriza microcefalia e, isoladamente, não gera investigação de imagem — o que gera investigação é o restante do exame físico e o histórico materno. Vale lembrar que perímetro normal ao nascer não exclui infecção congênita: a maioria dos recém-nascidos com citomegalovírus congênito tem exame físico normal e mesmo assim pode perder audição no primeiro ano.

Microcefalia (abaixo de menos 2 desvios-padrão)

Perímetro cefálico inferior a menos 2 desvios-padrão da média para idade gestacional e sexo. Indica ultrassonografia transfontanela como exame inicial de imagem, quando a fontanela permitir, além de avaliação e acompanhamento regulares na infância: crescimento da cabeça, histórico gestacional e familiar, avaliação de desenvolvimento, exame neurológico, audição e olhos. Quando há anormalidade estrutural cerebral por imagem, ou anormalidade neurológica ou de desenvolvimento, a classificação passa a microcefalia com anormalidade do cérebro.

Microcefalia grave (abaixo de menos 3 desvios-padrão)

Perímetro cefálico inferior a menos 3 desvios-padrão da média para idade gestacional e sexo. Aqui a imagem sobe de degrau: indica-se tomografia computadorizada de crânio ou ressonância magnética, e não apenas ultrassonografia transfontanela. É o cenário em que a topografia das calcificações mais rende diagnóstico diferencial — junção córtico-subcortical aponta para zika, periventricular aponta para citomegalovírus — e em que a desproporção craniofacial com pele redundante no couro cabeludo e a artrogripose reforçam a etiologia por zika.

AgenteExame que confirma no recém-nascidoJanela em que o exame valeO que muda a conduta
SífilisTeste não treponêmico em sangue periférico, pareado e simultâneo com o materno; líquor com VDRL, células e proteínaAo nascimento, com seguimento em 1, 3, 6, 12 e 18 meses; teste treponêmico só a partir dos 18 mesesTítulo duas diluições acima do materno confirma; título igual ou menor NÃO exclui. Líquor alterado define via e intervalo da penicilina
ToxoplasmoseIgM e/ou IgA no soro; IgG seriada; PCR em líquor, sangue ou urinaIgM ou IgA reagentes valem até 6 meses de vida; IgG em ascensão em duas amostras com 3 semanas de intervalo, nos primeiros 12 mesesQualquer confirmação leva a 12 meses de tratamento, mesmo assintomático. Retinocoroidite ativa ou proteinorraquia ≥ 1.000 mg/dL acrescenta corticoide
CitomegalovírusPCR ou isolamento viral em urina (preferencial) e salivaPrimeiras 2 a 3 semanas de vida; a partir da 4ª semana indica aquisição perinatal ou pós-natalSó doença moderada a grave recebe antiviral. Perda auditiva neurossensorial isolada é a exceção que trata
RubéolaIgM e IgG no soro; swab de oro e nasofaringe e urina para detecção viral se IgM reagenteColetas ao nascer, no 6º e no 9º mês; IgM detectável em 100% até o 5º mês, 60% de 6 a 12 meses, 40% de 12 a 18 mesesNão há tratamento específico: manejo por órgão e vigilância da excreção viral a cada 3 meses a partir dos 6 meses
ZikaPerímetro cefálico por desvio-padrão mais imagem de sistema nervoso central; sorologia e RT-PCR conforme o protocolo de vigilânciaPerímetro cefálico medido entre 24 horas e 6 dias e 23 horas de vidaAbaixo de −2 desvios-padrão: ultrassonografia transfontanela. Abaixo de −3: tomografia ou ressonância

Sífilis congênita: o esquema que sai da maternidade, por cenário

CenárioMedicamento e doseVia, intervalo e duração
Sífilis congênita COM neurossífilis (líquor alterado)Benzilpenicilina potássica (cristalina) 50.000 UI/kg por doseIntravenosa, 12/12h na 1ª semana de vida e 8/8h depois, por 10 dias — internação obrigatória
Sífilis congênita SEM neurossífilisBenzilpenicilina potássica (cristalina) 50.000 UI/kg por dose OU benzilpenicilina procaína 50.000 UI/kg por doseCristalina intravenosa 12/12h na 1ª semana e 8/8h depois, por 10 dias; ou procaína intramuscular 1×/dia por 10 dias, fora da unidade hospitalar
Mãe não tratada ou inadequadamente tratada, com exame físico normal, exames complementares normais e teste não treponêmico não reagenteBenzilpenicilina benzatina 50.000 UI/kgIntramuscular, dose única
Diagnóstico após 1 mês de idade, ou sífilis adquiridaBenzilpenicilina potássica (cristalina) 50.000 UI/kg por doseIntravenosa, de 4/4h a 6/6h, por 10 dias
Criança exposta à sífilis (assintomática, mãe adequadamente tratada, teste não treponêmico não reagente ou até uma diluição acima do materno)Nenhum tratamentoSeguimento clínico e teste não treponêmico em 1, 3, 6, 12 e 18 meses na atenção primária

Toxoplasmose congênita: doses do primeiro ano de vida

MedicamentoDose e intervaloDuração e ajustes
Sulfadiazina100 mg/kg/dia, via oral, dividida em 2 doses diárias1 ano. Vigiar icterícia e bilirrubinas quando usada no recém-nascido
Pirimetamina1 mg/kg/dia, via oral, em dose única diária2 a 6 meses conforme a intensidade do acometimento; depois 1 mg/kg três vezes por semana até completar 1 ano de uso
Ácido folínico10 mg, via oral, três vezes por semanaAcompanha a pirimetamina e segue por mais uma semana após a suspensão dela. Neutrófilos < 1.000/mm³: aumentar para 20 mg/dia. Neutrófilos < 500/mm³: suspender a pirimetamina até recuperação. Ácido fólico NÃO substitui o folínico
Prednisona ou prednisolona1 mg/kg/dia, via oral, em 2 doses diáriasApenas se retinocoroidite em atividade e/ou proteinorraquia ≥ 1.000 mg/dL; sempre associada à sulfadiazina e à pirimetamina, com retirada gradual após estabilizar o processo inflamatório

Líquor sugestivo de sífilis: os cortes por idade

ParâmetroRecém-nascidoCriança com mais de 28 dias
Leucócitos> 25 células/mm³> 5 células/mm³
Proteínas> 150 mg/dL> 40 mg/dL
VDRLReagenteReagente

Atraso de mais de 24 horas em uma dose de benzilpenicilina procaína ou cristalina obriga a reiniciar o esquema de 10 dias.

O esquema completo de 10 dias de penicilina é administrado mesmo quando a criança já recebeu ampicilina por outra causa, como investigação de sepse neonatal.

Ceftriaxona não tem evidência de eficácia na sífilis congênita: cabe apenas como alternativa em indisponibilidade das benzilpenicilinas cristalina e procaína.

No tratamento da toxoplasmose congênita, o hemograma é semanal nos dois primeiros meses; estabilizada a contagem de neutrófilos, passa a quinzenal por mais dois meses e depois mensal até o fim do tratamento.

Espiramicina, sulfadiazina e pirimetamina são do Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica, adquiridas pelo Ministério da Saúde; o ácido folínico é do Componente Básico, de aquisição municipal. Sem ácido folínico, suspende-se temporariamente a pirimetamina e a sulfa.

No citomegalovírus congênito não é necessário monitorar excreção viral durante o tratamento: a virúria reaparece cerca de três semanas após a suspensão da droga sem significar falha terapêutica.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Tratamento do citomegalovírus congênito sintomático: ganciclovir por seis semanas ou valganciclovir por seis meses

Texto nacional de 2014, do Ministério da Saúde

Ganciclovir 8 a 12 mg/kg/dia, de 12/12 horas, em infusão endovenosa lenta, por seis semanas, restrito a recém-nascido com infecção confirmada, sintomático e com evidência de envolvimento do sistema nervoso central, alteração auditiva ou coriorretinite, e diagnóstico feito antes de 1 mês de idade. Redução de dose para 4 a 6 mg/kg/dia diante de neutropenia abaixo de 500/mm³ ou plaquetopenia abaixo de 50.000/mm³, com controle laboratorial em dias fixos do tratamento.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde, volume 2, 2ª edição atualizada, 2014 — Tabela 12.

Posição da Sociedade de Pediatria de São Paulo em 2025, apoiada no Red Book da Academia Americana de Pediatria

Valganciclovir 16 mg/kg/dose de 12/12 horas por via oral durante seis meses para infecção congênita moderada a grave, ou ganciclovir 6 mg/kg/dose de 12/12 horas endovenoso por 14 a 21 dias seguido de valganciclovir. O argumento é de desfecho: houve melhora audiológica e de desenvolvimento neuropsicomotor aos dois anos de idade com seis meses de valganciclovir oral, e a neutropenia significativa é bem menos frequente por via oral — cerca de 20%, contra cerca de 65% com ganciclovir parenteral.

Sociedade de Pediatria de São Paulo, Departamento Científico de Infectologia. Infecção congênita pelo citomegalovírus. Pediatra Atualize-se, ano 10, nº 6, nov/dez 2025, Quadro 1.

Na prova

A distância entre as duas posições é de onze anos: o texto brasileiro de referência é de 2014 e antecede os estudos que sustentaram os seis meses de valganciclovir, e a limitação de disponibilidade e custo do valganciclovir no Brasil é reconhecida no próprio boletim de 2025, que registra que muitas vezes não é possível tratar pelos seis meses. Como identificar o recorte: enunciado que cite nominalmente o guia do Ministério da Saúde, ou que descreva um recém-nascido internado recebendo antiviral endovenoso em maternidade pública, opera no corpo brasileiro de 2014; enunciado que mencione a Academia Americana de Pediatria, o Red Book, ou que trate de desfecho auditivo aos dois anos de idade, opera no corpo internacional. As alternativas denunciam o mundo da questão: distrator com dose em mg/kg/dia e via endovenosa pertence ao texto de 2014, distrator com dose por tomada em via oral e duração em meses pertence ao corpo internacional. Vale a régua geral de que prova oficial do MEC tende a conduta do Sistema Único de Saúde, e outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Quando reduzir a pirimetamina de diária para três vezes por semana na toxoplasmose congênita

Tabela 10 do guia do Ministério da Saúde, de 2014

Pirimetamina 1 mg/kg/dia em dose única diária durante dois a seis meses, dependendo da intensidade do acometimento, e a seguir 1 mg/kg três vezes por semana até completar 1 ano de uso do medicamento. A janela de dois a seis meses é deixada ao julgamento clínico sobre a gravidade, sem critério objetivo declarado.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde, volume 2, 2ª edição atualizada, 2014 — Tabela 10.

Protocolo estadual de toxoplasmose congênita da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, de 2021

Pirimetamina 1 mg/kg/dia em dose única diária por seis meses e, depois, a mesma dose três vezes por semana, completando um ano. Registra em nota que alguns autores passam para três vezes por semana já após dois meses de dose diária, mas apenas quando o lactente não tem hidrocefalia nem retinocoroidite macular e tem no máximo três calcificações cerebrais — isto é, transforma a janela em critério objetivo de gravidade.

Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolo de toxoplasmose congênita, 2021.

Na prova

As duas posições são brasileiras e não se contradizem no total — um ano de pirimetamina em ambas — mas discordam no ponto de virada e, sobretudo, em quem decide: julgamento clínico aberto em 2014, critério anatômico fechado em 2021. Como identificar o recorte: enunciado que fale em 'dependendo da intensidade do acometimento' ou que apenas peça o esquema do primeiro ano de vida está no texto federal; enunciado que descreva hidrocefalia, retinocoroidite macular ou conte calcificações cerebrais está usando o critério do protocolo estadual, e nesse caso a descrição da imagem no enunciado não é enfeite, é o dado que define a duração. Distrator que encerre a pirimetamina antes de completar um ano de uso não pertence a nenhuma das duas posições.

Benzilpenicilina benzatina em dose única como tratamento de sífilis congênita

Protocolo brasileiro de IST, do Ministério da Saúde

A benzilpenicilina benzatina 50.000 UI/kg intramuscular em dose única é opção terapêutica, restrita à criança cuja mãe não foi tratada ou foi tratada de forma não adequada e que apresente, simultaneamente, exame físico normal, exames complementares normais e teste não treponêmico não reagente ao nascimento. Nesse cenário, a dose única é considerada eficaz para prevenir evidência clínica de sífilis congênita.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST, 2022 — seção 6.4.1 e Figura 8.

Prática internacional que só reconhece penicilina de longa duração intravenosa ou intramuscular diária

A conduta de referência internacional para a criança nascida de mãe inadequadamente tratada é o esquema de dez dias com penicilina cristalina intravenosa ou procaína intramuscular, com a dose única de benzatina reservada, quando aceita, a situação de avaliação completa normal e seguimento garantido. O argumento é farmacológico: a benzatina alcança níveis liquóricos baixos e não trata neurossífilis, que pode ser assintomática nesse grupo.

Racional farmacocinético registrado no próprio protocolo brasileiro de 2022, que recomenda cristalina para neurossífilis por evidência de níveis liquóricos menores com a penicilina procaína.

Na prova

A posição brasileira tem uma causa nomeável e legítima: viabilidade operacional. Dose única intramuscular evita internação de dez dias para um recém-nascido inteiramente normal, em um país com quase dez casos de sífilis congênita por mil nascidos vivos — e o protocolo compensa a escolha exigindo que os três critérios estejam simultaneamente normais e amarrando o seguimento laboratorial em 1, 3, 6, 12 e 18 meses. Como identificar o recorte: enunciado com cenário de maternidade do Sistema Único de Saúde, criança assintomática, radiografia de ossos longos e líquor normais e teste não treponêmico não reagente está no corpo brasileiro; enunciado com centro terciário, ou que peça explicitamente o esquema que trata neurossífilis oculta, está no corpo internacional. E há um detalhe que resolve a questão sem depender de posição: se qualquer um dos três itens estiver alterado, a benzatina sai da mesa nas duas réguas.

06

Caso resolvido

Recém-nascido a termo, 39 semanas, parto vaginal, peso 2.640 g, perímetro cefálico 32,5 cm, Apgar 8 e 9. A mãe tem 22 anos, fez cinco consultas de pré-natal e teve teste rápido de sífilis reagente na 30ª semana, com VDRL 1:32. A caderneta registra uma única aplicação de benzilpenicilina benzatina 2.400.000 UI, feita 18 dias antes do parto, com anotação de que a paciente não retornou para as doses seguintes. Diagnóstico registrado como sífilis latente de duração indeterminada. Ao exame do recém-nascido: ativo, ictérico até zona 2, fígado a 3 cm do rebordo costal direito, baço palpável, algumas petéquias em tronco, sem lesões palmoplantares e sem secreção nasal. VDRL colhido em sangue periférico do bebê: 1:64. VDRL materno simultâneo: 1:32. Hemograma com plaquetas de 88.000/mm³. Radiografia de ossos longos com banda metafisária radiotransparente em fêmures. Líquor: 34 células/mm³, proteínas 180 mg/dL, VDRL reagente.
achado
A mãe recebeu benzilpenicilina benzatina, medicação correta, mas em dose única para sífilis latente de duração indeterminada — que exige três doses semanais — e iniciada 18 dias antes do parto. Falha em dois critérios da definição: esquema incompleto para o estágio clínico e início depois da janela de 30 dias antes do parto. Portanto, gestante inadequadamente tratada.
achado
O teste não treponêmico do bebê está uma diluição acima do materno em titulação absoluta (1:64 contra 1:32), o que corresponde a apenas uma diluição de diferença e, isoladamente, não fecharia o critério de duas diluições. Mas o exame físico é alterado e há plaquetopenia, hepatoesplenomegalia e alteração óssea — a decisão de tratar não depende do número isolado.
achado
A banda metafisária radiotransparente em ossos longos é achado sugestivo de sífilis congênita e reforça a conclusão a que a clínica já tinha chegado. Radiografia de ossos longos é parte da investigação padronizada, não exame de exceção.
achado
O líquor tem 34 células/mm³ (corte de mais de 25 no recém-nascido), proteínas de 180 mg/dL (corte de mais de 150) e VDRL reagente. Os três parâmetros ultrapassam o limite: líquor sugestivo de sífilis, ou seja, neurossífilis.
conduta
Notificar sífilis congênita imediatamente e internar. O líquor alterado exclui procaína e exclui benzatina: o medicamento é a benzilpenicilina potássica (cristalina), 50.000 UI/kg por dose, intravenosa, de 12/12 horas na primeira semana de vida e de 8/8 horas a partir dela, por 10 dias. Atraso de mais de 24 horas em qualquer dose obriga a reiniciar o esquema.
conduta
Investigar os outros agentes do STORCH, porque hepatoesplenomegalia, petéquias e plaquetopenia são compartilhados pelos cinco e a sífilis materna confirmada não exclui coinfecção. Testar a mãe para HIV, hepatite B e outras infecções sexualmente transmissíveis, e tratar as parcerias sexuais.
conduta
Escrever o seguimento antes da alta: teste não treponêmico em 1, 3, 6, 12 e 18 meses, sempre pelo mesmo método e laboratório, interrompendo depois de dois resultados não reagentes consecutivos. Consultas oftalmológica, audiológica e neurológica semestrais por dois anos. Por haver neurossífilis, repetir a punção lombar a cada 6 meses até normalização bioquímica, citológica e sorológica.
conduta
Não pedir teste treponêmico no bebê agora: antes dos 18 meses o resultado reflete anticorpo materno. Ele entra depois dos 18 meses, quando um resultado reagente confirma o diagnóstico.
07

Agora feche você

Recém-nascido a termo, 38 semanas e 4 dias, peso 2.480 g (pequeno para a idade gestacional), perímetro cefálico 31,0 cm — abaixo de menos 2 desvios-padrão para sexo e idade gestacional na curva da Organização Mundial da Saúde. Mãe de 27 anos, pré-natal com nove consultas, sorologias do primeiro e do terceiro trimestre não reagentes para sífilis, toxoplasmose (IgG e IgM negativos), HIV e hepatites; sem exantema, sem artralgia e sem viagem relatada na gestação. Ao exame, com 20 horas de vida: petéquias esparsas em tronco, fígado a 3,5 cm do rebordo costal, baço a 2 cm, icterícia com bilirrubina total de 11 mg/dL e fração direta de 3,8 mg/dL. Hemograma com plaquetas de 62.000/mm³; ALT e AST cerca de três vezes o limite superior. Triagem auditiva neonatal com falha bilateral nas emissões otoacústicas. Ultrassonografia transfontanela: calcificações periventriculares e ventriculomegalia leve. Fundoscopia sem alterações.
achado
Recém-nascido pequeno para a idade gestacional com microcefalia por desvio-padrão, hepatoesplenomegalia, colestase, plaquetopenia, elevação de transaminases, falha na triagem auditiva e calcificações periventriculares. É o quadro completo de infecção congênita, e o pré-natal materno afasta sífilis e toxoplasmose com sorologias negativas nos dois trimestres.
achado
A topografia periventricular das calcificações aponta para citomegalovírus e afasta o padrão do zika, cujas calcificações predominam na junção córtico-subcortical. A mãe não teve exantema nem artralgia, e a sorologia de toxoplasmose foi negativa em dois trimestres. A soroprevalência de citomegalovírus em gestantes brasileiras é de 90% a 95%, e não existe rastreamento sorológico de rotina — a ausência de sorologia materna para citomegalovírus no pré-natal é esperada, não é falha.
achado
A criança está com 20 horas de vida. Isso importa: a janela de detecção viral que confirma infecção congênita, e não perinatal, se fecha entre a segunda e a terceira semana de vida.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Colher o VDRL do recém-nascido em sangue de cordão umbilical Atrai porque o cordão está ali, já foi clampeado e poupa punção em um bebê de horas de vida. Mas o sangue de cordão contém mistura do sangue da criança com o da mãe e pode gerar resultado falso-reagente — o protocolo é explícito em proibir essa amostra. O teste não treponêmico é colhido em sangue periférico do recém-nascido, ao mesmo tempo que o da mãe e pelo mesmo método.
  2. 2Concluir que título igual ou menor que o materno exclui sífilis congênita A tentação é simétrica e por isso perigosa: se duas diluições acima confirmam, o inverso deveria descartar. Não descarta. Menos de 30% das crianças com sífilis congênita têm o teste pareado maior que o materno, e o próprio protocolo diz que título igual ou inferior ao materno não exclui a doença, mesmo em mãe adequadamente tratada. O corte serve para confirmar; descartar exige clínica, epidemiologia e seguimento.
  3. 3Pedir teste treponêmico no bebê para 'confirmar' a sífilis congênita Parece o exame mais específico e portanto o melhor. Só que antes dos 18 meses ele detecta o anticorpo materno transferido pela placenta, e não há correlação de titulação entre mãe e filho que sugira infecção — o protocolo recomenda não realizá-lo até essa idade. Também não se recomendam testes que detectam IgM anti-treponema, como o FTA-Abs IgM, porque o resultado negativo não exclui o diagnóstico.
  4. 4Tratar a toxoplasmose congênita só quando há sintoma Atrai porque é a lógica de quase todo o resto da neonatologia: sem doença, sem droga. Aqui é o contrário. O tratamento está indicado para todas as crianças com infecção diagnosticada no primeiro ano de vida, inclusive as assintomáticas, e dura doze meses — porque o objetivo é impedir a sequela visual e neurológica que ainda não apareceu, não tratar a que já apareceu.
  5. 5Substituir ácido folínico por ácido fólico O nome parecido e a disponibilidade fazem o resto: ácido fólico está em qualquer farmácia e o folínico, não — ele é do Componente Básico, de aquisição municipal, e é o que costuma faltar. Mas o ácido fólico não substitui o folínico no tratamento da toxoplasmose. E há uma regra de segurança acoplada: pirimetamina e sulfa só se administram se o ácido folínico também estiver em uso; na falta dele, suspende-se temporariamente o tratamento.
  6. 6Chamar de citomegalovírus congênito o PCR positivo colhido com seis semanas de vida A tentação é grande porque o exame é o exame certo, o resultado é positivo e a criança tem achados compatíveis. Mas a janela venceu: detecção do vírus a partir da quarta semana até a 12ª semana de vida indica infecção adquirida no período perinatal ou pós-natal precoce, não congênita — inclusive pelo leite materno. Depois da terceira semana, o diagnóstico de infecção congênita passa a exigir combinação de achados clínicos, auditivos, oculares e de imagem, com exclusão de outras causas.
  7. 7Indicar interrupção da gravidez por tríplice viral aplicada inadvertidamente em gestante O raciocínio parece coerente: vacina de vírus vivo atenuado, gestante, risco de síndrome da rubéola congênita. O Guia de Vigilância em Saúde fecha a questão em uma frase — recomenda-se evitar a gravidez por 30 dias após a vacina, e caso ela seja aplicada inadvertidamente, não está indicada a interrupção da gravidez. A conduta é acompanhamento, não interrupção.
  8. 8Trocar a topografia das calcificações entre zika e citomegalovírus As duas produzem microcefalia com calcificação intracraniana, e é fácil embaralhar. A distinção que a prova cobra é topográfica: no zika, as calcificações predominam na junção córtico-subcortical, acompanhadas de desproporção craniofacial e, às vezes, artrogripose; no citomegalovírus, são caracteristicamente periventriculares, com cistos e ventriculomegalia. Errar a topografia troca o agente e, com ele, a conduta — porque um tem antiviral com indicação fechada e o outro não tem tratamento específico.
  9. 9Usar a curva de perímetro cefálico errada no pré-termo Atrai porque a tabela da Organização Mundial da Saúde é a que se tem na parede. Mas ela é a referência para o recém-nascido a termo, de 37 a 42 semanas; o pré-termo é interpretado pela tabela do InterGrowth, por idade gestacional. Somam-se dois detalhes de técnica que também são cobrados: a medida vale se feita entre 24 horas de vida e o sexto dia e 23 horas, e o que define microcefalia é o desvio-padrão — menos 2 para microcefalia, menos 3 para microcefalia grave — não um valor fixo em centímetros como os 33 cm e os 32 cm que vigoraram por poucos meses entre 2015 e 2016.
  10. 10Considerar a ampicilina da investigação de sepse como tratamento da sífilis O enunciado costuma plantar isso: recém-nascido que entrou em antibiótico por suspeita de sepse neonatal e depois recebe diagnóstico de sífilis congênita. Parece razoável descontar os dias de ampicilina. Não se desconta: o esquema completo de dez dias com benzilpenicilina deve ser administrado mesmo nos casos em que a criança tenha recebido ampicilina por outra causa.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Rinite serossanguinolenta ('coriza sifilítica'), lesões palmoplantares, hepatoesplenomegalia, periostite/osteocondrite e VDRL do RN com título maior que o materno definem sífilis congênita. O tratamento do RN com doença/neurossífilis (ou alterações liquóricas/ósseas) é penicilina cristalina EV (ou procaína IM) por 10 dias — penicilina benzatina em dose única NÃO trata a doença ativa/neurossífilis, sendo insuficiente aqui. Toxoplasmose cursa com a tétrade de Sabin (coriorretinite, hidrocefalia, calcificações difusas); rubéola com catarata/surdez/cardiopatia; CMV com microcefalia/calcificações periventriculares — quadros distintos do descrito.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

As réguas numéricas, na ordem em que a questão as usa. SÍFILIS — tratamento adequado da gestante: esquema completo para o estágio clínico com benzilpenicilina benzatina, iniciado até 30 dias antes do parto e concluído antes dele; teste não treponêmico em sangue periférico pareado e simultâneo, nunca em cordão; duas diluições acima do materno confirmam, título igual ou menor não exclui; teste treponêmico só a partir dos 18 meses; líquor sugestivo no recém-nascido com mais de 25 células/mm³, proteínas acima de 150 mg/dL ou VDRL reagente, e na criança com mais de 28 dias, mais de 5 células/mm³ e proteínas acima de 40 mg/dL; cristalina 50.000 UI/kg/dose de 12/12h na 1ª semana e 8/8h depois por 10 dias, procaína 50.000 UI/kg/dose IM 1×/dia por 10 dias, benzatina 50.000 UI/kg dose única só com exame físico, exames complementares e teste não treponêmico todos normais em mãe inadequadamente tratada; após 1 mês de vida, cristalina de 4/4h a 6/6h por 10 dias; seguimento em 1, 3, 6, 12 e 18 meses, com alta laboratorial após dois testes não reagentes consecutivos; falha se persistir reagente aos 6 meses ou subir duas diluições. TOXOPLASMOSE — triagem no 1º trimestre com IgM e IgG; avidez de IgG útil se a amostra foi colhida até 16 semanas; amniocentese após 18 semanas e no mínimo 4 semanas após a provável infecção; espiramicina imediata e troca pelo trio a partir de 16 semanas ou quando não há amniocentese; infecção do 3º trimestre trata com o trio independentemente do PCR; no recém-nascido, 12 meses de tratamento mesmo assintomático — sulfadiazina 100 mg/kg/dia em 2 doses por 1 ano, pirimetamina 1 mg/kg/dia por 2 a 6 meses e depois 3×/semana até completar 1 ano, ácido folínico 10 mg 3×/semana, prednisona 1 mg/kg/dia em 2 doses se retinocoroidite ativa ou proteinorraquia ≥ 1.000 mg/dL; confirmação por IgM ou IgA até 6 meses, ou IgG ascendente em duas amostras com 3 semanas de intervalo nos primeiros 12 meses, ou IgG reagente após 12 meses; CID P37.1. CITOMEGALOVÍRUS — PCR ou isolamento em urina, preferencial, e saliva nas primeiras 2 a 3 semanas; a partir da 4ª semana é aquisição perinatal; IgM positiva em 30% a 80%; trata só doença moderada a grave e a perda auditiva neurossensorial isolada, esta por 6 semanas com início até 13 semanas de vida; não trata doença leve, idade gestacional abaixo de 32 semanas nem lactente com mais de 30 dias; neutropenia em 20% com valganciclovir e 65% com ganciclovir; audiometria semestral por 3 anos e anual até 18 anos, fundo de olho aos 3, 6 e 12 meses. RUBÉOLA — 90% de transmissão na infecção precoce, risco baixo após 18 semanas, defeitos raros após a 20ª semana; IgM em 100% até o 5º mês, 60% de 6 a 12 meses, 40% de 12 a 18 meses; coletas ao nascer, no 6º e no 9º mês; excreção viral monitorada a cada 3 meses a partir dos 6 meses; sem tratamento específico; evitar gravidez por 30 dias após a vacina, e vacina inadvertida não indica interrupção. ZIKA — microcefalia abaixo de −2 desvios-padrão e grave abaixo de −3, medida entre 24 horas e 6 dias e 23 horas de vida; curva da Organização Mundial da Saúde no termo de 37 a 42 semanas e InterGrowth no pré-termo; ultrassonografia transfontanela primeiro, tomografia ou ressonância na microcefalia grave.

em 30 dias

As decisões, não os números. Primeiro: a pergunta de abertura de todo caso de sífilis congênita é sobre a mãe, não sobre o bebê — e a definição de tratamento adequado tem quatro peças que precisam estar todas presentes (medicação certa, esquema completo para o estágio, início até 30 dias antes do parto, conclusão antes do parto). Segundo: a distinção que organiza o capítulo é entre criança exposta e criança infectada; a única criança que não recebe tratamento algum é a exposta, e mesmo ela sai da maternidade com seguimento marcado. Terceiro: três dos cinco exames têm prazo, e prazo vencido é exame perdido — PCR de citomegalovírus deixa de datar a infecção depois da terceira semana, IgM de rubéola cai com a idade, IgG de qualquer um pode ser apenas o anticorpo da mãe. Quarto: na toxoplasmose congênita, tratar não é reagir à lesão, é impedir a que viria — doze meses inclusive no assintomático. Quinto: quando o líquor está alterado na sífilis congênita, a via está decidida e a internação também, porque a razão é farmacocinética e não administrativa. Sexto: microcefalia é achado, não etiologia; o desvio-padrão define a gravidade e a gravidade define a imagem, e a topografia da calcificação é o que aponta o agente. Sétimo: a clínica dos cinco é a mesma, e por isso o diferencial de cada um inclui os outros quatro — mãe com uma sorologia positiva não dispensa investigar o resto. Oitavo: onde a régua brasileira se afasta do estado da arte, nos seis meses de valganciclovir do citomegalovírus, a causa é datada e econômica — texto nacional de 2014 e limitação de custo e disponibilidade da droga —, o que muda o que se responde conforme o enunciado esteja falando do Sistema Único de Saúde ou do corpo internacional.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Recém-nascido a termo, pequeno para a idade gestacional, com icterícia, hepatoesplenomegalia, petéquias e plaquetopenia, filho de mãe com teste rápido de sífilis reagente na 30ª semana e uma única dose de benzilpenicilina benzatina registrada 18 dias antes do parto — alojamento conjunto de maternidade pública — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Infecções congênitas (STORCH) — Preparatório para provas | OsceLabs