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PediatriaNeonatologia

Reanimação neonatal

A sequência tem relógio: cada passo tem um gatilho e um prazo, e a prova cobra a ordem antes de cobrar o número. As Diretrizes 2026 da SBP mexeram em três pontos que a questão nova vai perseguir — a saturação-alvo, agora minuto a minuto e mais baixa; o oxigênio inicial do prematuro, que dobrou; e o estímulo tátil, que passou para antes do clampeamento do cordão.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido a termo, nascido de parto vaginal, é colocado sob fonte de calor radiante logo após o clampeamento do cordão. Ao passo inicial, o neonatologista observa que o bebê apresenta respiração regular, choro vigoroso e bom tônus muscular. Segundo o fluxograma de reanimação neonatal da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), qual é a conduta adequada neste momento?

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Como esse tema cai

Reanimação neonatal é o tema em que a régua brasileira manda sozinha e todo mundo sabe onde ela está. O Programa Brasileiro de Reanimação Neonatal da Sociedade Brasileira de Pediatria publica diretrizes em ciclos de cinco anos, em livre acesso, e a edição vigente é de 12 de junho de 2026, válida para o ciclo 2026-2030. São dois documentos separados, com fluxogramas diferentes: um para o recém-nascido de 34 semanas ou mais e outro para o prematuro abaixo de 34 semanas. Saber que são dois já resolve uma parte das questões, porque metade dos erros clássicos consiste em aplicar ao prematuro extremo um número que só vale para o bebê a termo.

O eixo do tema é o relógio. A sequência da reanimação não é uma escala de gravidade que se percorre para cima conforme o caso piora: é uma linha do tempo em que cada passo tem um gatilho objetivo e um prazo em segundos. Os passos iniciais têm 30 segundos. A ventilação com pressão positiva tem de começar dentro dos primeiros 60 segundos de vida — o Minuto de Ouro. Cada rodada de ventilação é reavaliada aos 30 segundos. A massagem cardíaca só é reavaliada aos 60 segundos. A discussão sobre interromper a reanimação acontece por volta dos 20 minutos. A questão de prova quase sempre entrega um cenário parado num desses instantes e pergunta qual é o próximo passo — e a resposta depende de onde o cronômetro está, não de quão grave o caso parece.

Vale saber o tamanho do problema, porque ele explica por que a diretriz é tão operacional. Ao nascimento, cerca de 2 recém-nascidos em cada 10 precisam de ajuda para estabelecer a respiração; 1 em cada 10 precisa de ventilação com pressão positiva; 1 em cada 100 é intubado; e apenas 1 a 3 em cada 1.000 chegam à reanimação avançada, com massagem cardíaca e medicações — desde que a ventilação seja aplicada corretamente. No Brasil, em 2023, nasceram 2.537.576 crianças e houve 15.933 óbitos neonatais precoces, dos quais 3.109 (20%) tiveram como causa associada a asfixia perinatal, a hipóxia ao nascer ou a síndrome de aspiração meconial. Considerando só os que nasceram com 2.500 gramas ou mais, essas causas matam três recém-nascidos por dia no país.

Este capítulo cobre a sala de parto, do briefing da equipe à decisão de interromper, nas duas faixas de idade gestacional. Sepse neonatal e icterícia têm capítulos próprios nesta apostila e não são invadidos aqui. A hipotermia terapêutica aparece só para ser afastada do lugar errado: ela não se inicia na sala de parto, e a decisão sobre ela é tomada nas primeiras 6 horas de vida, já na unidade neonatal.

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O que muda decisão

Antes do nascimento: quem está na sala, e o que já está ligado

Como usar este capítulo: percorra o algoritmo na ordem da sala de parto — preparação, passos iniciais, frequência cardíaca, ventilação, via aérea, compressões e medicações. Na primeira revisão, memorize as transições comandadas pela frequência cardíaca e os momentos de reavaliação; depois acrescente doses e exceções.

A reanimação começa antes do parto, com a anamnese materna, e a diretriz lista as condições que antecipam a necessidade dela em dois blocos. Fatores antenatais: idade materna abaixo de 16 ou acima de 35 anos, diabetes, síndromes hipertensivas, infecção materna, idade gestacional abaixo de 39 ou igual ou acima de 41 semanas, ausência de pré-natal, gestação múltipla, polidrâmnio ou oligoâmnio, rotura prematura de membranas, aloimunização ou anemia fetal, sangramento no segundo ou terceiro trimestre, diminuição da atividade fetal, malformação e hidropsia. Fatores do parto: cesárea, fórcipe ou vácuo-extrator, apresentação não cefálica, trabalho de parto prematuro ou taquitócico, corioamnionite, bolsa rota por mais de 18 horas, padrão anormal de frequência cardíaca fetal, anestesia geral, líquido meconial, prolapso ou nó verdadeiro de cordão, opioide nas 4 horas anteriores ao parto, descolamento prematuro de placenta e placenta prévia. Vale reter que parto cesáreo, mesmo no recém-nascido a termo sem fatores antenatais, já eleva a chance de que a ventilação seja necessária.

A regra de pessoal é curta e cobrada com frequência: em todo parto tem de estar presente pelo menos um profissional de saúde capaz de realizar os passos iniciais e a ventilação com máscara facial, e a única responsabilidade dele deve ser o recém-nascido. Quando a anamnese revela fatores de risco, podem ser necessários dois ou três profissionais treinados, e ao menos um deles precisa ser médico apto a intubar e a indicar massagem cardíaca e medicações — de preferência um pediatra. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a presença do pediatra em todo nascimento. No caso de gemelares, cada criança tem a sua equipe.

O ambiente entra na conta como se fosse equipamento: sala entre 23 e 25 graus, portas fechadas para evitar correntes de ar, fonte de calor radiante ligada antes do nascimento e todo o material preparado, testado e conferido com lista de verificação padronizada. Depois que o bebê nasce, a equipe não pode estar procurando ou ajustando equipamento. E o briefing é a primeira ação da equipe, item de conteúdo e não de etiqueta: antes de cada nascimento, obstetrícia, anestesiologia, pediatria, enfermagem e fisioterapia revisam a anamnese materna, conferem material, dividem funções e definem quem lidera a reanimação. A justificativa é medida — a lista de verificação para o briefing associa-se a melhores desfechos neonatais de curto prazo e a menos falhas de comunicação. Do outro lado do atendimento fica o debriefing, a análise crítica estruturada depois do caso.

As três perguntas do primeiro segundo

O fluxograma abre com três perguntas feitas ao mesmo tempo, no instante do nascimento. Gestação igual ou acima de 34 semanas? Está respirando ou chorando? O tônus muscular está em flexão? A primeira escolhe qual dos dois fluxogramas vale. As outras duas definem a única classificação que importa nesse momento: boa vitalidade ou ausência de boa vitalidade.

Recém-nascido com boa vitalidade é aquele que está respirando ou chorando e com tônus em flexão — e a frase seguinte é a que a prova adora: independentemente do aspecto do líquido amniótico. Mecônio não muda a resposta a essa pergunta. Esse bebê fica com a mãe, o cordão é clampeado no mínimo 60 segundos após o nascimento e ele vai para o contato pele-a-pele, coberto por tecido de algodão seco e aquecido, com boca e narinas sempre visíveis. Enquanto está ali, a equipe faz quatro coisas: provê calor, assegura vias aéreas pérvias, avalia a vitalidade de modo continuado e estimula o início da amamentação. O contato pele-a-pele não é gentileza: ele aumenta a temperatura corporal em média 0,32 grau, reduz o risco de hipoglicemia em 84% e o de admissão hospitalar em 66%.

Recém-nascido sem boa vitalidade é aquele que não está respirando ou chorando, ou não inicia movimentos respiratórios regulares, e/ou está flácido. Repare na estrutura lógica: as duas perguntas somam com “ou”, então basta uma falhar. O bebê que chora vigorosamente mas está hipotônico não tem boa vitalidade. O que tem tônus preservado mas faz apenas gasping — suspiros profundos entremeados por apneias — também não. Isso acontece em cerca de dois em cada dez nascimentos.

Dois detalhes de vocabulário evitam armadilha. Primeiro: a frequência respiratória não é considerada para a tomada de decisões logo após o nascimento — a respiração é avaliada por inspeção da expansão torácica ou pela presença de choro, e está adequada se os movimentos forem regulares e suficientes para manter a frequência cardíaca em 100 batimentos por minuto ou mais. Segundo: o boletim de Apgar não participa dessa decisão nem de nenhuma outra da reanimação.

No prematuro há uma subdivisão a mais depois do clampeamento. O prematuro moderado, de 32 semanas a 33 semanas e 6 dias, com boa vitalidade, pode permanecer em pele-a-pele com os pais, desde que a monitorização seja constante e cuidadosa — temperatura, frequência cardíaca, padrão respiratório, tônus e saturação — porque a morbidade respiratória nessa faixa chega a 20%. Já todo recém-nascido abaixo de 32 semanas vai à mesa de reanimação depois do clampeamento, mesmo com boa vitalidade, para os passos iniciais.

Estímulo tátil antes do cordão: a novidade de 2026

Aqui está a mudança estrutural da edição 2026, e é o tipo de detalhe que separa quem leu o documento novo de quem decorou o antigo. No recém-nascido sem boa vitalidade, o estímulo tátil é feito antes do clampeamento do cordão, com o bebê ainda ligado à placenta. A técnica é específica: fricção delicada no dorso, com movimentos circulares, por cerca de 15 segundos. Nunca chacoalhar o recém-nascido. Estímulos muito vigorosos causam lesão; estímulos muito prolongados atrasam a ventilação, que é o que realmente resolve.

A fisiologia justifica o gesto: a fricção do dorso ativa mecanorreceptores somáticos e viscerais e estimula diretamente o centro respiratório. O número que sustentou a mudança vem de um estudo observacional com 2.563 recém-nascidos que não choraram ao nascer — fazer o estímulo tátil antes do clampeamento aumentou em 84% a chance de o bebê apresentar respiração espontânea, comparado a fazê-lo depois. No prematuro, um estudo com 243 recém-nascidos abaixo de 32 semanas mostrou redução de 60% na intubação traqueal com o estímulo tátil.

A consequência prática é que o estímulo tátil deixou de ser um item dos passos iniciais e virou um passo anterior a eles, executado ainda no campo obstétrico — o que exige combinação prévia com a equipe de obstetrícia, e é exatamente para isso que serve o briefing integrado. Mais adiante, secar o corpo na mesa continua funcionando como estímulo sensorial adicional, pelo mesmo arco reflexo.

Clampeamento: 60 segundos, e em quem não se faz

No recém-nascido com boa vitalidade, de qualquer idade gestacional, o cordão é clampeado no mínimo 60 segundos após o nascimento, preferencialmente depois que a respiração já começou. A fisiologia é a chave para não errar a pergunta: se o cordão é clampeado antes da insuflação e da vasodilatação pulmonares, corta-se a chegada de sangue oxigenado pela placenta sem que os pulmões tenham assumido o serviço — cai a pré-carga, sobe a pós-carga do ventrículo esquerdo e instala-se um estado de baixo fluxo sistêmico com hipóxia. É por isso que a ordem importa mais que o cronômetro: o ideal é clampear depois que o bebê respirou.

O ganho é mensurável. O clampeamento com 60 segundos ou mais redistribui sangue da placenta para o concepto, o que pode representar até 25% do volume placentário, eleva a hemoglobina nas primeiras 24 horas e aumenta a ferritina entre 3 e 6 meses, com possível redução da anemia do lactente. O preço é um aumento da frequência de policitemia, o que obriga a acompanhar a icterícia nos primeiros dias — a ponte entre este capítulo e o de icterícia neonatal. No prematuro, o benefício é mais duro ainda: metanálise de dados individuais de 20 ensaios randomizados com 3.260 recém-nascidos abaixo de 37 semanas mostrou redução de 32% na chance de morte com o clampeamento de no mínimo 60 segundos.

Há três situações em que não se espera nada: descolamento prematuro de placenta, placenta prévia com sangramento e nó verdadeiro de cordão. Nessas, a circulação placentária já está interrompida, e a indicação é de clampeamento imediato. Guardar essas três é mais eficiente que decorar a lista inteira de fatores de risco, porque são as únicas que revertem a conduta padrão.

E quando o bebê não vai bem? Depois dos 15 segundos de estímulo tátil, observa-se se houve desencadeamento de movimentos respiratórios. Se começou a respirar, clampeia-se com no mínimo 60 segundos, como no bebê vigoroso. Se mesmo assim não iniciou a respiração, clampeia-se o cordão — o fluxograma marca menos de 30 segundos — e leva-se o paciente para a mesa sob calor radiante. A frase que governa tudo é: o manejo do cordão não deve atrasar o início da ventilação assistida.

Existe uma alternativa que preserva parte da transfusão placentária nesse cenário: a ordenha do cordão intacto, da placenta em direção ao recém-nascido, seguida do clampeamento antes dos 60 segundos. A técnica é comprimir cerca de 20 centímetros de cordão ao longo de 2 segundos, repetindo o movimento três vezes e deixando o cordão se reencher de sangue a cada vez. O ensaio que sustenta essa opção randomizou 1.730 recém-nascidos de 35 a 42 semanas sem boa vitalidade: não houve diferença na admissão em UTI neonatal, mas a ordenha reduziu a necessidade de suporte cardiorrespiratório na sala de parto, a encefalopatia hipóxico-isquêmica moderada a grave e o uso de hipotermia terapêutica. No prematuro, a ordenha vale de 28 semanas para cima e é contraindicada abaixo disso, porque um ensaio com 540 recém-nascidos de 23 a 31 semanas mostrou mais hemorragia peri-intraventricular grave nesse subgrupo. O que não se faz fora de protocolo de pesquisa é ventilar o recém-nascido ainda ligado à parturiente pelo cordão: três estudos unicêntricos não permitiram excluir nem benefício nem dano.

Passos iniciais: 30 segundos, e nada além disso

Os passos iniciais são o pacote que se executa na mesa de reanimação em no máximo 30 segundos, e têm apenas dois objetivos: manter a normotermia e assegurar vias aéreas pérvias. O recém-nascido chega envolto em campos aquecidos, é posicionado sob calor radiante em decúbito dorsal com a cabeça voltada para o profissional, seca-se a cabeça e o corpo, desprezam-se os campos úmidos, coloca-se a touca e posiciona-se o pescoço em leve extensão. Um coxim sob os ombros ajuda quando o posicionamento da cabeça não sai. Ao fim dos 30 segundos, avaliam-se respiração e frequência cardíaca.

A temperatura tem alvo e tem teto. A normotermia é definida pela OMS como temperatura axilar entre 36,5 e 37,5 graus, e a temperatura à admissão na unidade neonatal é forte preditor de morbidade e mortalidade em todas as idades gestacionais — tanto que virou indicador de qualidade assistencial, a ser anotado. A hipotermia compromete a função respiratória, causa hipóxia tecidual, aumenta a resistência vascular pulmonar e favorece acidose metabólica, hipoglicemia e bradicardia. Do outro lado, é preciso evitar temperatura acima de 38 graus, porque a hipertermia agrava a lesão cerebral no paciente asfixiado. Daí uma regra que a prova gosta de testar pelo avesso: não se desliga a fonte de calor radiante nem se inicia hipotermia terapêutica na sala de parto. Durante a reanimação, garante-se normotermia; a decisão sobre hipotermia terapêutica é tomada nas primeiras 6 horas, depois da admissão na unidade neonatal.

No prematuro abaixo de 34 semanas, o pacote térmico é outro e o corte de idade gestacional é esse mesmo: 34 semanas. Logo após posicionar o paciente sob calor radiante, introduz-se o corpo dentro de um saco plástico de polietileno sem secá-lo, mantendo a face de fora, e o saco só sai depois da estabilização térmica, já na unidade neonatal. Soma-se a touca dupla — plástica coberta por lã ou algodão — para reduzir a perda de calor na região da fontanela, e os gases do suporte respiratório vão umidificados e aquecidos. A perda de calor acontece por quatro mecanismos que vale nomear porque cada medida ataca um: evaporação, condução, convecção e radiação. E há um item a mais dentro dos mesmos 30 segundos: a monitorização entra já aqui — enquanto o pediatra, na cabeceira, insere o saco plástico, coloca a touca e posiciona o pescoço, um segundo profissional posiciona os eletrodos e o sensor do oxímetro, evitando ao máximo deixar o saco aberto.

A aspiração de vias aéreas não é procedimento de rotina em nenhuma idade gestacional, e essa frase vale independentemente do aspecto do líquido amniótico. Recém-nascidos aspirados em oro e nasofaringe logo após o nascimento evoluem com saturação mais baixa e demoram mais para atingir a saturação-alvo; além disso, a aspiração retarda a ventilação em quem precisa dela. A aspiração fica reservada à suspeita de obstrução por excesso de secreções — e aí se aspira delicadamente primeiro a boca, depois as narinas, com sonda traqueal número 8 a 10 no bebê de 34 semanas ou mais (número 6 a 8 no prematuro), sob pressão máxima de 80 a 100 milímetros de mercúrio. Introduzir a sonda de forma brusca ou na faringe posterior induz resposta vagal e espasmo laríngeo, com apneia e bradicardia; aspirar a hipofaringe causa atelectasia e trauma.

Mecônio: o que se deixou de fazer, e desde quando

Mecônio é a pegadinha mais antiga do tema, e a diretriz responde a ela em três tempos. Primeiro: na vigência de líquido amniótico meconial, independentemente da viscosidade, a aspiração das vias aéreas no momento do desprendimento do polo cefálico não deve ser realizada. Segundo: se o recém-nascido está respirando ou chorando e com tônus em flexão, ele tem boa vitalidade e segue o caminho normal — fica com a parturiente, com clampeamento de no mínimo 60 segundos. Terceiro: se não tem boa vitalidade e não inicia respiração efetiva após o estímulo tátil, clampeia-se o cordão e leva-se à mesa para os passos iniciais, com ênfase em normotermia e vias aéreas pérvias — e a aspiração de boca e narinas só entra se houver suspeita de obstrução.

A laringoscopia direta imediata e a aspiração traqueal de rotina não devem ser realizadas, porque não modificam o prognóstico e atrasam a ventilação. A base é uma revisão sistemática com metanálise de quatro estudos randomizados e controlados com 581 recém-nascidos, mais um estudo observacional com 131, comparando aspiração traqueal sob visualização direta contra ventilação com máscara sem aspiração: sem diferença em síndrome de aspiração meconial, encefalopatia hipóxico-isquêmica ou sobrevida à alta hospitalar.

A data importa porque a pergunta “o que mudou?” aparece em prova. Essa recomendação não é da edição de 2026 nem da de 2022: ela entrou nas diretrizes brasileiras de 26 de janeiro de 2016, que registram, com todas as letras, que não existem evidências para indicar de modo rotineiro a aspiração traqueal sob visualização direta no recém-nascido não vigoroso com líquido meconial. A mudança seguiu a revisão do ILCOR de 2015. Antes disso, sob o ILCOR de 2010, a aspiração sob visualização direta era a recomendação padrão para o não vigoroso — que é justamente a conduta que continua circulando em material desatualizado.

Sobrou uma exceção estreita, e ela tem técnica própria. Em raras ocasiões, com obstrução de vias aéreas caracterizada, o recém-nascido não vigoroso com mecônio pode precisar de aspiração de boca e narinas, além de intubação e aspiração traqueal. Nesse caso, a aspiração traqueal é feita uma única vez, através da cânula conectada a um dispositivo para aspiração de mecônio e ao aspirador a vácuo, com pressão máxima de 80 a 100 milímetros de mercúrio — e a ventilação com pressão positiva é aplicada imediatamente depois, respeitando o Minuto de Ouro.

A frequência cardíaca é quem decide

A frequência cardíaca é o principal parâmetro para indicar conduta logo após o nascimento, e a melhora dela é o indicador mais sensível de que a reanimação está funcionando. Os três números que organizam o fluxograma inteiro são: 100 batimentos por minuto ou mais é adequado; abaixo de 100 é bradicardia e o gatilho da ventilação; abaixo de 60 é o gatilho da massagem cardíaca. Não há um quarto número.

A primeira avaliação, logo após os passos iniciais, é feita por ausculta do precórdio com estetoscópio: ausculta-se por seis segundos e multiplica-se por 10, e o valor é dito em voz alta para a equipe. A partir do momento em que há indicação de ventilação, a exigência sobe: é preciso avaliar a frequência cardíaca de modo mais acurado, pelo monitor cardíaco. O motivo é aritmético — tanto a palpação do cordão umbilical quanto a ausculta precordial subestimam a frequência cardíaca em cerca de 15 a 25 batimentos por minuto em comparação ao monitor, e método que subestima leva a intervenção desnecessária. A oximetria detecta a frequência de pulso de forma contínua, mas demora mais que o monitor e também subestima nos primeiros minutos.

Um detalhe conceitual que rende distrator: o monitor cardíaco na sala de parto serve para acompanhar o valor da frequência cardíaca, não para detectar arritmias — as características do traçado eletrocardiográfico não são valorizadas nesse momento.

O sensor do oxímetro tem lugar fixo e único: membro superior direito, na região do pulso radial, para medir saturação pré-ductal. Isso não é preferência, é a definição de pré-ductal — o membro superior direito é irrigado antes da desembocadura do canal arterial, e é essa a saturação que a tabela-alvo descreve. A leitura confiável de saturação e frequência cardíaca demora cerca de 1 a 2 minutos após o nascimento, desde que haja débito cardíaco suficiente com perfusão periférica; vérnix caseoso, circulação transicional e movimentação atrapalham.

Saturação-alvo por minuto: a régua que mudou em 2026

Este é o ponto em que material antigo e material novo se contradizem de forma visível, e por isso é alvo fácil de questão. De 2011 até a edição de 2022, a saturação-alvo brasileira vinha em três faixas largas: até 5 minutos, de 70 a 80%; de 5 a 10 minutos, de 80 a 90%; acima de 10 minutos, de 85 a 95%. Em 2026, o PRN-SBP passou a valores minuto a minuto, alinhados às diretrizes norte-americana e europeia, na tabela que abre o bloco seguinte — e a mesma tabela vale para o bebê de 34 semanas ou mais e para o prematuro.

Repare na direção da mudança: os alvos ficaram mais baixos nos primeiros minutos. Aos 5 minutos, o alvo passou de 70 a 80% para 80 a 85% — subiu; mas nos minutos 2 e 3, que antes estavam contidos na faixa larga de 70 a 80%, o alvo hoje é 65 a 70% e 70 a 75%. Isso não é detalhe: é o que impede que alguém ofereça oxigênio a um bebê de 2 minutos de vida com 68% de saturação, achando que está abaixo do alvo.

A tabela existe porque a transição normal é lenta, e isso precisa estar internalizado. No recém-nascido que não recebe nenhum procedimento de reanimação, a saturação com 1 minuto de vida fica em torno de 60 a 65%, e só se aproxima de 85% no quinto minuto. Alcançar saturação acima de 90% respirando ar ambiente exige 5 minutos ou mais em recém-nascidos saudáveis. Cianose nos primeiros minutos, portanto, é achado esperado, não indicação de oxigênio.

A monitorização da saturação é obrigatória para o uso criterioso e racional do oxigênio suplementar — e essa frase, na prática, quer dizer que ninguém titula oxigênio no olho. Se a saturação está fora do alvo, aumenta-se ou diminui-se a concentração de oxigênio em 20% a cada 30 segundos, e não com mais frequência: há um atraso médio de 30 segundos entre o que se ajusta no blender e o que chega ao paciente. O blender é obrigatório, e quando oxigênio suplementar é administrado, a concentração deve ser reduzida o mais rápido possível assim que o alvo é atingido.

Ventilação: o procedimento que resolve nove em cada dez

A ventilação pulmonar é o procedimento mais importante e efetivo da reanimação neonatal, e a diretriz repete isso em três lugares diferentes. A razão é fisiológica: o sucesso da transição depende de substituir por ar o líquido que preenche sáculos e alvéolos. Feita essa substituição, o leito vascular pulmonar dilata, a resistência vascular pulmonar cai, o sangue do coração direito chega aos pulmões, é oxigenado e volta ao coração esquerdo para a circulação sistêmica. Sem aeração pulmonar adequada não há hematose nem transição do padrão circulatório fetal para o neonatal, e nenhuma outra intervenção contorna isso. Some-se um detalhe elegante: na apneia a glote permanece fechada, e é a ventilação com pressão positiva que a mantém aberta.

A indicação é uma só: após os passos iniciais, apneia ou respiração irregular e/ou frequência cardíaca abaixo de 100 batimentos por minuto. E o prazo é o Minuto de Ouro — a ventilação precisa começar nos primeiros 60 segundos após o nascimento. O número que justifica a pressa é caro: o risco de morte ou morbidade aumenta 16% a cada 30 segundos de demora para iniciar a ventilação, independentemente do peso ao nascer, da idade gestacional ou de complicações da gravidez ou do parto.

A concentração inicial de oxigênio depende da idade gestacional, e essa é a bifurcação mais cobrada do capítulo. No recém-nascido de 34 semanas ou mais, a ventilação começa com ar ambiente, 21% de oxigênio. A base é uma metanálise de 10 ensaios clínicos com 2.164 recém-nascidos de 35 semanas ou mais: ventilar com ar ambiente, comparado a oxigênio a 100%, associou-se a redução de 27% na mortalidade intra-hospitalar. No prematuro abaixo de 34 semanas, a ventilação começa com oxigênio a 60% — valor que dobrou em relação aos 30% da edição de 2022. Nos dois casos, a titulação segue a saturação pré-ductal, com ajustes de 20% a cada 30 segundos.

Os parâmetros estão na terceira tabela do bloco seguinte, e o que importa reter aqui são três coisas. A frequência é de 30 a 60 movimentos por minuto nas duas faixas de idade gestacional, obtida pela regra prática “aperta/solta/solta” com o balão autoinflável ou “ocluuui/solta/solta” com o ventilador com Peça-T. A pressão máxima do circuito é limitada em 40 centímetros de água. E depois das primeiras 3 a 5 ventilações reajusta-se a pressão inspiratória para visualizar movimento torácico leve e auscultar entrada de ar — leve, e não ampla: o objetivo é expansão adequada sem superdistensão.

A escolha do equipamento também tem hierarquia. O ventilador mecânico manual com Peça-T é preferível, porque fornece pressão consistente a cada ventilação, oferece PEEP e CPAP de forma confiável e é menos cansativo. O balão autoinflável tem a vantagem de não depender de gás comprimido nem de eletricidade, e deve estar sempre disponível e pronto para uso em todo nascimento — mas não fornece CPAP, não fornece PEEP consistente mesmo com válvula acoplada, e a pressão que entrega depende da força e da velocidade da compressão, com válvula de escape ativada entre 30 e 40 centímetros de água. Um detalhe de concentração que decide questão: o balão fornece 21% quando não está conectado à fonte de oxigênio e 90 a 100% quando conectado a 5 litros por minuto com reservatório — concentrações intermediárias com ele não são tituláveis, mesmo acoplado a blender.

A reavaliação acontece aos 30 segundos. Se o bebê apresenta frequência cardíaca de 100 ou mais e respiração espontânea regular, suspende-se a ventilação: de cada 10 recém-nascidos que recebem ventilação com máscara facial ao nascer, nove melhoram e não precisam de mais nada. Se mantém frequência abaixo de 100 e/ou não retoma respiração rítmica, é falha, e existe uma sequência fixa de correções antes de qualquer escalada: readaptar a máscara à face, reposicionar a cabeça mantendo o pescoço em leve extensão, aspirar secreções de boca e nariz, ventilar com a boca levemente aberta e, por último, aumentar a pressão em cerca de 5 centímetros de água até o máximo de 40. A cada ação corretiva, verificam-se movimento torácico e frequência cardíaca. E vale a regra de ouro do oxigênio: quando o bebê não melhora com ventilação em ar ambiente, corrige-se a técnica antes de oferecer oxigênio suplementar — aumentar oxigênio ventilando errado não melhora ninguém.

O CPAP fecha o assunto, e tem estatuto diferente nas duas populações. No prematuro é a melhor estratégia inicial de suporte respiratório, indicado quando há frequência cardíaca de 100 ou mais com respiração espontânea e desconforto ou saturação abaixo do alvo, aplicado com Peça-T e máscara facial a 5 a 6 centímetros de água. No bebê de 34 semanas ou mais a mesma indicação existe, mas com cautela explícita: uma coorte retrospectiva de 6.913 recém-nascidos com 35 semanas ou mais mostrou aumento de 5,5 vezes na chance de pneumotórax com CPAP na sala de parto, tanto maior quanto maior a idade gestacional. Se a saturação está dentro do alvo, a conduta é conservadora. Em ventilação ou CPAP prolongados por máscara facial, insere-se sonda orogástrica, mantida aberta, para reduzir a distensão gástrica.

Recém-nascido em decúbito dorsal sob calor radiante, com touca e coxim sob os ombros, recebendo ventilação com máscara facial em pega C-E; sensor de oximetria no pulso direito e eletrodos no tórax; ampliação mostra alvéolos passando de preenchidos por líquido a preenchidos por ar.
A pega C-E e o selo entre face e máscara decidem a ventilação: escape perioral de 50 a 70% da mistura gasosa é descrito com máscara facial. À direita, o que a ventilação de fato faz — trocar líquido por ar nos alvéolos, dilatar o leito vascular pulmonar e permitir a transição circulatória. O sensor do oxímetro vai sempre no pulso radial DIREITO, porque o alvo é a saturação pré-ductal.

Quando a máscara não resolve: laríngea e cânula traqueal

Corrigida a técnica e ainda sem melhora, muda-se de interface. A máscara laríngea é um dispositivo supraglótico inserido pela boca até recobrir a glote, sem necessidade de laringoscópio. No Brasil, o menor tamanho disponível é o número 1, adequado para 2 a 5 quilos, e a indicação da diretriz é para recém-nascido de 34 semanas ou mais com peso estimado de 2.000 gramas ou mais. Os números que a sustentam são bons: comparada à máscara facial em revisão sistemática de seis ensaios com 1.823 recém-nascidos, a máscara laríngea reduziu em 76% a probabilidade de falha da ventilação e em 66% a de intubação traqueal, com menor duração da ventilação e menor tempo até atingir frequência cardíaca de 100 ou mais.

Mesmo assim, o posicionamento dela na sequência brasileira é o de alternativa, não de primeira escolha: sugere-se o dispositivo supraglótico quando a ventilação com máscara facial não é efetiva e a intubação traqueal não é factível ou não foi bem-sucedida. Ela também é a interface de primeira escolha na via aérea difícil — sequência de Pierre Robin, Treacher Collins, fendas laringotraqueoesofágicas e afins. As limitações são três e devem ser memorizadas juntas: não foi estudada para aspiração de secreções, não serve para instilação de medicação por via traqueal e não é recomendada como interface rotineira durante a massagem cardíaca.

A intubação traqueal tem três indicações em sala de parto: ventilação com máscara não efetiva depois de corrigidos os problemas técnicos, com frequência cardíaca persistentemente abaixo de 100; ventilação com máscara prolongada, quando o bebê não retoma respiração espontânea; e a aplicação de massagem cardíaca. Fora dessas, há a indicação clássica da hérnia diafragmática, que exige intubação e sonda gástrica imediatas quando o paciente precisa de ventilação. Por ser procedimento de emergência, não há tempo hábil para analgesia prévia na sala de parto.

O material segue idade gestacional e peso estimado, e está na última tabela do bloco seguinte: diâmetro da cânula, número da lâmina reta e marca em centímetros no lábio superior. As cânulas são sem balonete e com marcador de corda vocal, e deixa-se sempre à mão uma de diâmetro maior e outra menor. O marcador de corda vocal isolado não basta para estimar a profundidade, porque seu desenho varia entre fabricantes — por isso a marca em centímetros entra junto com a visualização das cordas.

Três regras de execução fecham o assunto. Cada tentativa de intubação dura no máximo 30 segundos; em caso de insucesso, interrompe-se, volta-se à ventilação com máscara facial e tenta-se de novo após a estabilização. Logo após a intubação, a ventilação é aplicada com oxigênio a 60%, ajustando-se depois pela saturação pré-ductal. E a confirmação do posicionamento: o melhor indicador clínico de que a cânula está na traqueia é o aumento da frequência cardíaca, mas a avaliação clínica isolada é lenta e imprecisa — a detecção de gás carbônico exalado por método colorimétrico é mais acurada e reduz o tempo de confirmação para menos de 10 segundos. Atenção ao falso-negativo: com débito cardíaco comprometido e fluxo pulmonar baixo, o detector pode não virar de cor mesmo com a cânula bem posicionada.

Massagem cardíaca: 3 para 1, 120 eventos, e reavaliação só aos 60 segundos

O gatilho da massagem cardíaca é frequência cardíaca abaixo de 60 batimentos por minuto após 30 segundos de ventilação com técnica adequada. A diretriz é explícita quanto ao que “técnica adequada” significa na prática: como a massagem reduz a eficácia da ventilação, e a ventilação é a ação mais efetiva da reanimação neonatal, as compressões só começam quando a expansão e a ventilação pulmonares estão bem estabelecidas, com a via aérea assegurada — ou seja, na prática clínica, após 30 segundos de ventilação por cânula traqueal. Massagear um bebê que ainda está sendo mal ventilado por máscara é o erro conceitual mais caro do tema.

A partir do momento em que a massagem entra, o oxigênio vai a 100%. A recomendação não vem de vantagem demonstrada em modelos animais durante a parada, e sim do peso dos efeitos deletérios da hipóxia no asfixiado com perfusão comprometida, somado à impossibilidade prática de titular oxigênio quando a oximetria não consegue sinal confiável no paciente bradicárdico. Recuperada a função cardíaca e a leitura do oxímetro, reduz-se o oxigênio conforme a saturação-alvo, para evitar a hiperóxia — que, entre outras coisas, reduz o fluxo sanguíneo cerebral.

A técnica é a dos dois polegares, com os outros dedos envolvendo o tórax, e é superior às demais porque comprime a área correta na profundidade adequada, gera maior pico de pressão sistólica e de perfusão coronariana e cansa menos. Os polegares podem ficar sobrepostos ou justapostos. O ponto é o terço inferior do esterno, logo abaixo da linha intermamilar, poupando o apêndice xifoide, onde está a maior parte do ventrículo esquerdo. A profundidade é de um terço do diâmetro anteroposterior do tórax, o suficiente para produzir pulso palpável, e é obrigatório permitir a reexpansão plena entre as compressões, para que ventrículos e coronárias se encham. As complicações que a diretriz nomeia são fratura de costelas, pneumotórax, hemotórax e laceração de fígado — esta última quando se comprime o xifoide, que é exatamente o ponto que a técnica manda poupar.

A relação é de 3 para 1: três compressões para uma ventilação, com frequência total de 120 eventos por minuto — 90 compressões e 30 ventilações a cada minuto. A sincronia garante a expansão pulmonar plena, central para a transição cardiocirculatória. Quem massageia fica atrás da cabeça do recém-nascido, e quem ventila se desloca para o lado: além de reduzir a fadiga, essa posição libera o coto umbilical para o cateterismo venoso, que provavelmente virá a seguir. Sugere-se trocar o profissional que comprime a cada 2 a 5 minutos.

A reavaliação é aos 60 segundos, e esse número é uma das diferenças mais cobradas do capítulo: a ventilação se reavalia aos 30 segundos, a massagem aos 60. O motivo é fisiológico — 60 segundos é o tempo mínimo para que a massagem efetiva restabeleça a pressão de perfusão coronariana, e interrupções desnecessárias comprometem a recuperação cardíaca. Se, aos 60 segundos, a frequência cardíaca ultrapassa 60, interrompe-se apenas a massagem e começa-se a reduzir o oxigênio; se o bebê tem respiração espontânea regular e frequência de 100 ou mais, a ventilação também é suspensa. Se mantém abaixo de 60, verifica-se posição da cânula, permeabilidade das vias aéreas, concentração de oxigênio e técnica de ventilação e de massagem, antes de passar às medicações.

Tórax de recém-nascido em vista anterior com o coração atrás do terço inferior do esterno; dois polegares justapostos sobre esse ponto, abaixo da linha intermamilar, com os demais dedos envolvendo o dorso; apêndice xifoide destacado logo abaixo dos polegares e vista lateral mostrando a profundidade de um terço do diâmetro anteroposterior e a reexpansão do tórax.
Terço inferior do esterno, logo abaixo da linha intermamilar, poupando o apêndice xifoide — comprimir sobre o xifoide é o que lacera o fígado. Profundidade de um terço do diâmetro anteroposterior, com reexpansão plena entre as compressões: sem diástole não há enchimento coronariano, e é a perfusão coronariana que a massagem existe para restaurar.

Adrenalina e expansor: a dose muda com a via

A medicação entra quando a frequência cardíaca permanece abaixo de 60 batimentos por minuto apesar de ventilação efetiva por cânula traqueal com oxigênio a 100%, acompanhada de massagem cardíaca adequada e sincronizada por no mínimo 60 segundos. Isso acontece em 1 a 3 recém-nascidos por 1.000 nascidos vivos quando os passos anteriores foram bem executados — e essa raridade é o argumento da diretriz para insistir que bradicardia neonatal é, em geral, resultado de insuflação pulmonar insuficiente ou de hipoxemia profunda, e que a ventilação adequada é o passo mais importante para corrigi-la.

A via preferencial da adrenalina é a intravascular, e o acesso de eleição é o cateterismo venoso umbilical de emergência, feito com técnica estéril assim que houver indicação de medicação — nas primeiras horas de vida a veia umbilical está pérvia, acessível e oferece acesso central direto. Usa-se cateter de lúmen único 3,5 ou 5,0 French preenchido com soro fisiológico; corta-se o cordão em ângulo reto cerca de 2 centímetros acima da base e identifica-se a veia, em geral na posição de 12 horas, maior, de paredes finas e aspecto ovalado, ao contrário das duas artérias, menores, de paredes espessas e enroladas; progride-se de 3 a 4 centímetros após o ânulo, até haver refluxo de sangue, mantendo o cateter em posição periférica e evitando o nível hepático. A via intraóssea é alternativa quando o cateterismo umbilical não é factível, na superfície plana anteromedial da tíbia, 1 a 2 centímetros abaixo e medial à tuberosidade tibial.

A diluição é obrigatória e é a mesma para qualquer via: 1 mililitro da ampola comercial de 1 miligrama por mililitro em 9 mililitros de soro fisiológico, resultando em 0,1 miligrama por mililitro. As doses estão na tabela do bloco seguinte, e o que precisa ficar gravado é a relação entre elas: em volume, a dose traqueal é cinco vezes a intravascular — 1,0 mililitro por quilo contra 0,2 mililitro por quilo da mesma solução. Trocar as duas é o erro de prescrição mais frequente do tema, e ele erra em cinco vezes para mais ou para menos.

A via traqueal tem três restrições que costumam ser cobradas juntas. É de uso único, indicada apenas enquanto o cateterismo venoso umbilical está sendo realizado, e não pode atrasar a obtenção do acesso vascular. A adrenalina é instilada no interior da cânula traqueal, e não no conector entre a cânula e o equipamento, sendo distribuída aos pulmões pela própria ventilação. E é contraindicado fazer flush com salina para empurrá-la — flush é da via intravascular, não da traqueal. A absorção pulmonar é lenta, imprevisível e a resposta costuma ser insatisfatória, mesmo com doses altas. Sem reversão da bradicardia com a adrenalina intravascular, assegura-se ventilação e massagem adequadas e repete-se a dose a cada 3 a 5 minutos, por via intravascular. Doses acima de 0,1 miligrama por quilo não devem ser empregadas por nenhuma via no período neonatal: causam hipertensão arterial grave, queda da função miocárdica e piora do quadro neurológico.

O expansor de volume é o soro fisiológico a 0,9%, 10 mililitros por quilo, administrado lentamente em 5 a 10 minutos. A indicação é a suspeita de hipovolemia: ausência de aumento da frequência cardíaca em resposta às demais medidas, ou perda de sangue, ou sinais de choque hipovolêmico como palidez, má perfusão e pulsos débeis — o que remete a hemorragia materna ou fetal aguda, como descolamento prematuro de placenta, laceração placentária e nó apertado de cordão. Concentrado de hemácias tipo O Rh negativo entra quando se suspeita de anemia fetal grave. A cautela é explícita: sem choque ou perda aguda de sangue, dar volume a um recém-nascido com lesão miocárdica induzida pela asfixia pode piorar o quadro, precipitando edema pulmonar e hemorragia intraventricular.

Duas medicações estão fora, e a prova gosta delas como distrator. Bicarbonato de sódio não é recomendado: falta evidência de benefício, e há preocupação de que comprometa a pressão de perfusão coronariana ao reduzir a resistência vascular sistêmica, além de causar hipernatremia, hiperosmolaridade, excesso de gás carbônico e piora da acidose venosa central. Naloxone também não: falta evidência de efeito clinicamente importante em recém-nascidos com depressão respiratória cujas mães receberam opioides, a segurança no período neonatal não foi avaliada e há relatos animais de edema pulmonar, convulsão e parada cardíaca. Atropina, albumina e vasopressores não figuram na reanimação ao nascimento. E o surfactante não é medicação de sala de parto: o manejo inicial prioriza CPAP ou ventilação, com o surfactante indicado depois, nas primeiras duas horas, conforme a evolução.

Apgar: para que serve e para que não serve

O boletim de Apgar é determinado no primeiro e no quinto minutos após a extração completa do corpo materno e não é utilizado para indicar procedimentos na reanimação neonatal. Essa é a frase inteira, e ela vale como resposta de prova. O que o Apgar faz é permitir avaliar retrospectivamente a resposta do paciente às manobras realizadas, além de ter valor prognóstico do ponto de vista de estudos populacionais.

A regra operacional que decorre disso: se o Apgar for menor que 7 no quinto minuto, ele passa a ser feito a cada cinco minutos, até 20 minutos após o nascimento. E é obrigatório documentá-lo de maneira concomitante ao registro dos procedimentos de reanimação executados — a diretriz traz um modelo de boletim ampliado justamente para casar as duas linhas do tempo.

O Apgar de 0 ou 1 aos 10 minutos é forte preditor de morbidade, especialmente neurológica, e de mortalidade. Mas os números modernos impedem que ele seja lido como sentença. Revisão sistemática da força-tarefa neonatal do ILCOR mostrou sobrevida sem sequelas maiores do neurodesenvolvimento mesmo com Apgar de 0 ou 1 aos 10 minutos: entre os 39 recém-nascidos reanimados por mais de 20 minutos, 15 sobreviveram, e seis desses sobreviventes não tinham lesão neurológica moderada ou grave. Outra metanálise, com 28 estudos e 820 recém-nascidos, mostrou que dois em cada cinco com Apgar 0 no décimo minuto sobrevivem, e um em cada cinco sobrevive sem sequela neurológica moderada ou grave. A disponibilidade de hipotermia terapêutica modifica esse prognóstico.

Quando não iniciar, quando parar, e como sair da sala

Para o recém-nascido de 34 semanas ou mais, a questão de não iniciar a reanimação só se coloca diante de anomalias congênitas letais ou potencialmente letais, em que a chance de óbito ou de sobrevida com sequelas muito graves e permanentes põe em questão a futilidade da manobra. Recomenda-se comprovação diagnóstica antenatal e é obrigatório considerar a vontade da família, bem informada sobre as opções, os riscos e os benefícios. A possibilidade de reanimação deve ser discutida antes do parto. A regra de desempate é o que mais cai: se não houver certeza quanto à decisão de não reanimar, ou se não houve oportunidade de discutir o desejo da família, todos os procedimentos necessários devem ser realizados conforme as diretrizes atualizadas. As decisões sobre suporte vital podem ser tomadas depois, com a família, já na unidade neonatal. Se a decisão for por não reanimar, oferece-se cuidado de conforto, com atenção aos aspectos culturais e religiosos.

Quanto a interromper, não há duração específica de esforço que prediga de modo consistente óbito ou sequela grave. O que a diretriz oferece é um momento para a conversa: se, apesar de todos os procedimentos recomendados, o recém-nascido segue exigindo reanimação avançada de modo continuado, sugere-se discutir a interrupção entre os membros da equipe e com a família, e um tempo razoável para essa discussão é ao redor de 20 minutos depois do nascimento. A decisão é individualizada e leva em conta idade gestacional, anomalias congênitas, duração da agressão asfíxica, se a reanimação foi de fato bem conduzida, o desejo familiar e a disponibilidade de infraestrutura para os cuidados pós-reanimação. Sem possibilidade de conversar com a família, a equipe age no melhor interesse do recém-nascido. Qualquer decisão vai relatada com fidelidade no prontuário materno e/ou do recém-nascido.

O transporte fecha o atendimento e tem uma regra dura: nunca transportar o recém-nascido com frequência cardíaca abaixo de 100 batimentos por minuto. O transporte só acontece após a estabilização cardiorrespiratória, é procedimento de alto risco mesmo em distâncias curtas e exige planejamento, equipe treinada e comunicação eficaz. A incubadora vai pré-aquecida entre 35 e 37 graus, com touca; o prematuro segue dentro do saco plástico, com touca dupla e, abaixo de 1.000 gramas, com colchão térmico químico. Mantém-se o pescoço em leve extensão, o suporte respiratório conforme a condição clínica e a monitorização de frequência cardíaca, respiração e saturação até a chegada à unidade neonatal — onde a temperatura de admissão será anotada, porque é indicador de qualidade.

04

O fluxograma com relógio

O fluxo abaixo é a sequência inteira, do nascimento à reanimação avançada, na ordem cronológica em que ela acontece — que é a ordem em que a questão a percorre. A primeira tabela é a única escala verdadeiramente contínua do tema, a saturação-alvo pré-ductal minuto a minuto, e é a que mais mudou em 2026. A segunda organiza o que a prova cobra como “o próximo passo”: cada intervenção com seu gatilho e seu prazo de reavaliação. A terceira separa o que muda entre o bebê de 34 semanas ou mais e o prematuro, que é onde nasce a maior parte dos erros. A quarta traz as doses de adrenalina e expansor por via, e a quinta, o material da intubação por idade gestacional e peso.

  1. 1Antes do nascimento: anamnese materna em busca de fatores de risco, verificação do material com lista padronizada, sala entre 23 e 25 graus com calor radiante já ligado, e briefing da equipe definindo funções e liderança.
  2. 2Ao nascer, três perguntas simultâneas: gestação de 34 semanas ou mais? Está respirando ou chorando? Tônus em flexão? O aspecto do líquido amniótico não entra nessa avaliação.
  3. 3Com boa vitalidade: clampear o cordão com no mínimo 60 segundos e manter o bebê em contato pele-a-pele com a mãe, provendo calor, assegurando vias aéreas pérvias, avaliando a vitalidade de modo continuado e estimulando a amamentação. O prematuro abaixo de 32 semanas, mesmo com boa vitalidade, vai à mesa depois do clampeamento.
  4. 4Sem boa vitalidade: estímulo tátil no dorso, com movimentos circulares, por cerca de 15 segundos, ANTES de clampear o cordão. Se começar a respirar, clampeia-se com no mínimo 60 segundos. Se não respirar, clampeia-se (o fluxograma marca menos de 30 segundos) e leva-se à mesa — a ordenha de cordão intacto é a alternativa que preserva a transfusão placentária, permitida de 28 semanas para cima.
  5. 5Passos iniciais na mesa, em no máximo 30 segundos: calor radiante, secar cabeça e corpo, desprezar campos úmidos, touca, pescoço em leve extensão. Aspirar boca e narinas apenas se houver suspeita de obstrução. No prematuro abaixo de 34 semanas, entrar com o corpo no saco plástico sem secá-lo, touca dupla, e posicionar monitor cardíaco e oxímetro dentro dos mesmos 30 segundos.
  6. 6Avaliar respiração e frequência cardíaca. Se respiração regular e frequência de 100 ou mais, seguir com os cuidados de rotina e o contato pele-a-pele. Se apneia ou respiração irregular e/ou frequência abaixo de 100, iniciar a ventilação com pressão positiva dentro dos primeiros 60 segundos de vida.
  7. 7Ventilar com máscara facial: ar ambiente no bebê de 34 semanas ou mais, oxigênio a 60% no prematuro; frequência de 30 a 60 movimentos por minuto; pressão inspiratória inicial de 20 a 30 (20 a 25 no prematuro); PEEP de 5. Enquanto um profissional ventila, o outro posiciona os eletrodos do monitor cardíaco e o sensor do oxímetro no pulso radial direito.
  8. 8Reavaliar aos 30 segundos. Melhorou (frequência de 100 ou mais com respiração regular): suspender. Não melhorou: percorrer as ações corretivas na ordem — readaptar a máscara, reposicionar a cabeça, aspirar secreções, ventilar com a boca levemente aberta, aumentar a pressão em cerca de 5 centímetros de água até o máximo de 40. Corrigir a técnica antes de aumentar o oxigênio.
  9. 9Persistindo frequência abaixo de 100 com a técnica já corrigida: considerar máscara laríngea (34 semanas ou mais e peso estimado de 2.000 gramas ou mais) ou intubação traqueal. Após a intubação, ventilar com oxigênio a 60% e titular pela saturação.
  10. 10Frequência abaixo de 60 após 30 segundos de ventilação adequada — na prática, por cânula traqueal: iniciar massagem cardíaca com oxigênio a 100%, técnica dos dois polegares no terço inferior do esterno, relação 3:1, 120 eventos por minuto. Considerar o cateterismo venoso umbilical desde já.
  11. 11Reavaliar a massagem só aos 60 segundos. Acima de 60 batimentos: interromper as compressões e reduzir o oxigênio pela saturação-alvo. Abaixo de 60: adrenalina intravascular 0,02 miligrama por quilo (0,2 mililitro por quilo da diluição), repetível a cada 3 a 5 minutos, e considerar hipovolemia — soro fisiológico 10 mililitros por quilo em 5 a 10 minutos.
  12. 12Sem retorno da circulação apesar de tudo: discutir a interrupção com a equipe e com a família ao redor de 20 minutos após o nascimento. Estabilizado, transportar — nunca com frequência cardíaca abaixo de 100 — em incubadora pré-aquecida, e fazer o debriefing da equipe e a conversa com a família.
Minutos após o nascimentoSaturação-alvo pré-ductal (Diretrizes 2026)O que valia de 2011 a 2022O que fazer
2 minutos65 a 70%Faixa única de 70 a 80% para tudo até 5 minutosSensor no pulso radial direito. Valor abaixo do alvo com ventilação em curso: corrigir a técnica antes de mexer no oxigênio.
3 minutos70 a 75%Faixa única de 70 a 80% para tudo até 5 minutosFora do alvo: ajustar a concentração de oxigênio em 20%, para cima ou para baixo, e esperar 30 segundos antes do próximo ajuste.
4 minutos75 a 80%Faixa única de 70 a 80% para tudo até 5 minutosAjuste em 20% a cada 30 segundos, com blender obrigatório.
5 minutos80 a 85%80 a 90% na faixa de 5 a 10 minutosNão atingir 80% aos 5 minutos é associado a maior risco de morte e lesão cerebral no prematuro.
10 minutos85 a 95%85 a 95% acima de 10 minutosAssim que o alvo é atingido, reduzir o oxigênio suplementar o mais rápido possível.

Cada intervenção com seu gatilho e seu relógio

IntervençãoGatilhoPrazoQuando reavaliar
Estímulo tátil no dorsoAusência de boa vitalidade ao nascer: não respira ou não chora ou não inicia respiração regular, e/ou tônus flácidoCerca de 15 segundos, antes do clampeamento do cordãoImediatamente: se respirou, clampeia-se com no mínimo 60 segundos; se não, clampeia-se e vai para a mesa
Passos iniciaisNão iniciou a respiração após o estímulo tátilNo máximo 30 segundosAo fim dos 30 segundos, avaliando respiração e frequência cardíaca
Ventilação com pressão positivaApneia ou respiração irregular e/ou frequência cardíaca abaixo de 100 bpmIniciar nos primeiros 60 segundos de vida (Minuto de Ouro)Aos 30 segundos de ventilação
Ações corretivas da ventilaçãoFrequência abaixo de 100 e/ou ausência de respiração rítmica após 30 segundos de ventilaçãoSequência fixa: máscara, cabeça, secreções, boca aberta, pressãoA cada ação corretiva, checando movimento torácico e frequência cardíaca
Máscara laríngea ou intubaçãoVentilação com máscara facial ineficaz apesar das correções, ventilação prolongada, ou indicação de massagem cardíacaCada tentativa de intubação dura no máximo 30 segundosAos 30 segundos de ventilação pela nova interface
Massagem cardíacaFrequência cardíaca abaixo de 60 bpm após 30 segundos de ventilação adequada — na prática, por cânula traquealRelação 3:1, 120 eventos por minuto, com oxigênio a 100%Só aos 60 segundos: é o tempo mínimo para restabelecer a perfusão coronariana
AdrenalinaFrequência abaixo de 60 bpm após 60 segundos de massagem sincronizada com ventilação por cânula traqueal e oxigênio a 100%Intravascular, o mais rápido possível; a via traqueal só enquanto se obtém o acessoRepetir a cada 3 a 5 minutos por via intravascular
Discussão sobre interromperReanimação avançada continuada sem retorno da circulação espontâneaAo redor de 20 minutos depois do nascimentoDecisão individualizada, com a equipe e com a família, registrada em prontuário

O que muda entre 34 semanas ou mais e o prematuro

ItemRecém-nascido com 34 semanas ou maisRecém-nascido com menos de 34 semanas
Oxigênio para iniciar a ventilaçãoAr ambiente, 21%60% (eram 30% até a edição de 2022)
Controle térmico nos passos iniciaisSecar cabeça e corpo, desprezar campos úmidos, toucaEntrar com o corpo no saco plástico de polietileno SEM secar, face de fora, mais touca dupla; colchão térmico químico como medida adicional no prematuro extremo
Destino do bebê com boa vitalidadePele-a-pele com a parturiente após clampeamento de no mínimo 60 segundosDe 32 a 33 semanas, pele-a-pele com monitorização constante; abaixo de 32 semanas, sempre à mesa de reanimação
Ordenha de cordão quando não respira após o estímuloOpção para prover transfusão placentáriaOpção de 28 semanas para cima; contraindicada abaixo de 28 semanas
Equipamento de ventilaçãoBalão autoinflável ou ventilador com Peça-T, sendo este preferívelVentilador com Peça-T, com gases umidificados e aquecidos
Pressão inspiratória inicial e PEEP20 a 30 cmH2O e PEEP de 5 cmH2O20 a 25 cmH2O e PEEP de 5 a 6 cmH2O
CPAP na sala de partoCom cautela: associado a aumento de 5,5 vezes na chance de pneumotórax; se a saturação está no alvo, conduta conservadoraMelhor estratégia inicial de suporte respiratório, a 5 a 6 cmH2O com Peça-T e máscara facial
Saturação-alvo, massagem, adrenalina e expansorIguais nos dois documentosIguais nos dois documentos

Adrenalina e expansor: dose por via

Medicação e viaDiluiçãoDoseVolume por quilo e execução
Adrenalina intravascular (veia umbilical ou intraóssea) — via preferencial1 mL da ampola de 1 mg/mL em 9 mL de soro fisiológico, resultando em 0,1 mg/mL0,01 a 0,03 mg/kg; na prática, 0,02 mg/kg0,2 mL/kg em seringa de 1 mL. Infundir rápido, seguido de flush de 3,0 mL de soro fisiológico. Repetir a cada 3 a 5 minutos se necessário. Exemplos: 0,4 mL para 2 kg, 0,6 mL para 3 kg, 0,8 mL para 4 kg.
Adrenalina endotraqueal — só enquanto se obtém o acessoA mesma: 1 mL em 9 mL de soro fisiológico0,05 a 0,10 mg/kg; na prática, 0,1 mg/kg1,0 mL/kg em seringa de 5 mL. Instilar no interior da cânula traqueal e ventilar. USO ÚNICO e sem flush de salina. Exemplos: 2,0 mL para 2 kg, 3,0 mL para 3 kg, 4,0 mL para 4 kg.
Expansor de volumeSoro fisiológico a 0,9%, sem diluição10 mL/kgInfundir lentamente, em 5 a 10 minutos. Segunda dose de 10 mL/kg possível após corrigir todos os fatores técnicos. Concentrado de hemácias O Rh negativo se houver suspeita de anemia fetal grave.
Dose máxima e o que não se usaNunca acima de 0,1 mg/kg de adrenalina por qualquer viaDoses maiores causam hipertensão grave, queda da função miocárdica e piora neurológica. Bicarbonato de sódio e naloxone não são recomendados; atropina, albumina e vasopressores não figuram na reanimação ao nascimento.

Intubação: cânula, lâmina e profundidade

Idade gestacionalPeso estimadoCânula traqueal (diâmetro interno)Lâmina retaMarca no lábio superior
28 a 34 semanas1.000 a 2.000 g3,0 mmNº 07,5 cm para 33 a 34 semanas (1.500 a 1.800 g)
35 a 38 semanas2.000 a 3.000 g3,5 mmNº 18,0 cm para 35 a 37 semanas (1.900 a 2.400 g)
38 a 40 semanas2.500 a 3.100 g3,5 mm (acima de 38 semanas, 3,5 ou 4,0)Nº 18,5 cm
40 a 43 semanas3.200 a 4.200 g3,5 ou 4,0 mmNº 19,0 cm

As cânulas traqueais neonatais são sem balonete, de diâmetro uniforme, com linha radiopaca e marcador de corda vocal, e deixa-se sempre à disposição uma de diâmetro superior e outra inferior à escolhida. O marcador de corda vocal isolado não basta para estimar a profundidade, porque seu desenho varia entre fabricantes — por isso a marca em centímetros no lábio superior entra junto.

O colchão térmico químico é medida adicional no prematuro extremo, e os dois documentos o delimitam de maneiras diferentes: o texto o sugere para idade gestacional abaixo de 30 semanas, enquanto a lista de material e o resumo dos pontos principais o vinculam a peso abaixo de 1.000 gramas. Ele deve ser aprovado para uso neonatal, com limite de 40 graus, e convém colocar um campo de algodão entre o colchão e a pele.

O ventilador com Peça-T é o equipamento preferido, mas o balão autoinflável tem de estar sempre disponível e pronto para uso em todo nascimento, porque é o único que funciona sem gás comprimido e sem eletricidade. Com o balão não se aplica CPAP, e a PEEP não é consistente nem com válvula acoplada.

A massagem cardíaca é reavaliada aos 60 segundos, e não aos 30 como a ventilação. Trocar esses dois números é o erro de sequência mais comum, e ele muda a resposta de qualquer questão que peça o próximo passo.

Não se desliga a fonte de calor radiante nem se inicia hipotermia terapêutica na sala de parto. Durante a reanimação, o objetivo é normotermia entre 36,5 e 37,5 graus, evitando ultrapassar 38 graus; a indicação de hipotermia terapêutica é decidida nas primeiras 6 horas de vida, já na unidade neonatal.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Com quanto oxigênio se começa a ventilação do prematuro

FiO2 de 0,30 ou mais, sem fixar valor — Força Tarefa Neonatal do ILCOR, outubro de 2025

A recomendação internacional de outubro de 2025 é usar fração inspirada de oxigênio igual ou superior a 0,30 para iniciar a ventilação do prematuro, sem cravar um número dentro dessa faixa. O que a sustenta é a metanálise de dados individuais NETMOTION, com 1.055 recém-nascidos abaixo de 32 semanas provenientes de 12 estudos publicados entre 2005 e 2019, que comparou fração inicial baixa (0,30 ou menos), intermediária (0,50 a 0,65) e alta (0,90 ou mais): a fração inicial alta associou-se a menor chance de óbito hospitalar tanto em relação à baixa quanto em relação à intermediária. A explicação proposta é que fração mais elevada reduz a resistência vascular pulmonar e facilita a transição, ou compensa a troca gasosa reduzida do pulmão imaturo.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026, item 9.1, que registra e discute a recomendação da Força Tarefa Neonatal do ILCOR de outubro de 2025.

60% fixos — Programa Brasileiro de Reanimação Neonatal da SBP, junho de 2026

A régua brasileira crava 60% e manda titular pela saturação pré-ductal, com ajustes de 20% a cada 30 segundos. O argumento é o ensaio TORPIDO 30/60, publicado em dezembro de 2025, que randomizou recém-nascidos de 23 a 28 semanas para fração inicial de 0,60 (728 pacientes) ou 0,30 (741): o desfecho primário — morte ou lesão cerebral até a 36ª semana corrigida — não diferiu (47% contra 48%), mas o grupo de 0,60 teve maior probabilidade de atingir a saturação-alvo pré-ductal e frequência cardíaca de 100 ou mais aos 5 minutos, menos episódios de hipóxia e bradicardia e menor necessidade de massagem cardíaca e adrenalina. Vale notar que 60% é compatível com o piso internacional de 0,30 — a diferença é que o Brasil escolheu um valor único em vez de deixar a faixa aberta.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026, item 9.1 e Anexo 1.

30% — a régua brasileira anterior, em vigor de 2022 até junho de 2026

A edição de 2022 mandava iniciar a ventilação do prematuro abaixo de 34 semanas com concentração de oxigênio de 30%, e escalonar de 30 para 40 e de 40 para 60 conforme a saturação. Esse valor continua circulando em material de estudo, em protocolos institucionais ainda não revisados e em bancos de questões montados antes de junho de 2026.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2022, item de oxigênio suplementar na VPP.

Na prova

O que denuncia o recorte é a data e o vocabulário. Enunciado que traz FiO2 em decimais e fala em faixa (“0,30 ou mais”) está no mundo do consenso internacional; enunciado que traz porcentagem cravada está no mundo do programa brasileiro. Prova de banca nacional aplicada a partir do segundo semestre de 2026 tende a cobrar o valor único brasileiro, porque o material oficial de treinamento do país é o do PRN-SBP. As alternativas ajudam: se 30% e 60% aparecem juntas como opções, a questão está exatamente sobre a mudança de 2026 — e aí a data do documento citado no enunciado, quando houver, resolve. Se o enunciado descreve um recém-nascido a termo, nenhum dos dois vale: para 34 semanas ou mais a ventilação começa com ar ambiente.

Quanto tempo o cordão espera

No mínimo 60 segundos, e de preferência depois que a respiração começou — Programa Brasileiro de Reanimação Neonatal da SBP, 2026

A régua brasileira estabelece o piso de 60 segundos para o recém-nascido com boa vitalidade, de qualquer idade gestacional, e ancora a recomendação na fisiologia: o clampeamento antes da insuflação e da vasodilatação pulmonares reduz a pré-carga e aumenta a pós-carga do ventrículo esquerdo, gerando baixo fluxo sistêmico. Daí a ênfase em clampear depois de estabelecida a respiração, e não simplesmente contar segundos.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026, item 4; e Reanimação do recém-nascido <34 semanas, item 4.

De 1 a 3 minutos — Organização Mundial da Saúde

A OMS recomenda que o clampeamento do cordão umbilical no recém-nascido com boa vitalidade seja feito de 1 a 3 minutos após o nascimento — uma janela mais longa que o piso brasileiro, que ela contém. Na prática assistencial os dois não se contradizem, porque 60 segundos é mínimo e não teto; a diferença aparece quando o enunciado pergunta pelo intervalo recomendado, e não pelo tempo mínimo.

Recomendação da Organização Mundial da Saúde tal como registrada na Sociedade Brasileira de Pediatria, Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026, item 4, referência 48.

Ordenha de cordão intacto quando o recém-nascido não vai bem — evidência de ensaio randomizado, tratada como opção no Brasil

Para o recém-nascido sem boa vitalidade que não inicia a respiração após o estímulo tátil, existe o caminho da ordenha do cordão intacto seguida de clampeamento antes dos 60 segundos. O ensaio randomizado com 1.730 recém-nascidos de 35 a 42 semanas não vigorosos não mostrou diferença na admissão em UTI neonatal, mas registrou menos necessidade de suporte cardiorrespiratório na sala de parto, menos encefalopatia hipóxico-isquêmica moderada a grave e menos uso de hipotermia terapêutica com a ordenha, comparada ao clampeamento antes de 60 segundos. O documento brasileiro apresenta a ordenha como uma opção, não como conduta preferencial, e a contraindica abaixo de 28 semanas por causa do excesso de hemorragia peri-intraventricular grave observado nesse subgrupo. Ventilar com o cordão intacto, por sua vez, permanece restrito a protocolo de pesquisa nos dois documentos.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026, item 5.2 e Figura 1; e Reanimação do recém-nascido <34 semanas, item 5.2.

Na prova

O primeiro filtro é o estado do recém-nascido, não o relógio: enunciado que descreve bebê respirando ou chorando com tônus em flexão está no território do clampeamento tardio; enunciado que descreve apneia ou hipotonia está no território do “não atrasar a ventilação”. O segundo filtro é a instituição citada — cenário de política pública, Rede Cegonha, alojamento conjunto ou aleitamento tende a puxar a janela de 1 a 3 minutos da OMS; cenário de reanimação em sala de parto puxa a régua do PRN-SBP. E as alternativas denunciam o recorte: se uma opção fala em ordenha de cordão, a questão está tratando do recém-nascido não vigoroso, e aí a idade gestacional do enunciado passa a decidir — abaixo de 28 semanas a ordenha está fora.

Qual saturação-alvo se usa nos primeiros minutos

Três faixas largas — régua brasileira de 2011 até a edição de 2022

Até 5 minutos, de 70 a 80%; de 5 a 10 minutos, de 80 a 90%; acima de 10 minutos, de 85 a 95%. Foi a tabela que vigorou por mais de uma década no Brasil, está impressa em incontáveis materiais de estudo e ainda aparece em protocolos institucionais e em bancos de questões antigos.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2022, Quadro 2.

Cinco marcas minuto a minuto, mais baixas no início — Diretrizes 2026 da SBP, alinhadas às diretrizes norte-americana e europeia

65 a 70% aos 2 minutos, 70 a 75% aos 3, 75 a 80% aos 4, 80 a 85% aos 5 e 85 a 95% aos 10 minutos, valendo igualmente para o recém-nascido de 34 semanas ou mais e para o prematuro. A base são curvas de normalidade construídas com medianas e intervalos interquartis da saturação pré-ductal nos 10 primeiros minutos de recém-nascidos que não receberam nenhuma manobra de reanimação. A mudança rebaixa o alvo dos minutos 2 e 3, que antes estavam engolidos pela faixa única de 70 a 80%.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026, Quadro 2 e Anexo 2; e Reanimação do recém-nascido <34 semanas, Quadro 1.

Na prova

O recorte se identifica pela unidade de tempo do próprio enunciado. Questão que fala em “até 5 minutos de vida” ou “entre 5 e 10 minutos” foi escrita sobre a tabela antiga; questão que crava “aos 3 minutos de vida” ou “no quinto minuto” só faz sentido na tabela nova, porque a antiga não distinguia esses instantes. Um segundo sinal: se as alternativas trazem valores abaixo de 70% como opção de normalidade nos primeiros minutos, a questão está escrita sobre a régua de 2026. E há um ponto em que as duas tabelas concordam e que por isso rende questão estável: aos 10 minutos, 85 a 95% nas duas.

06

Caso resolvido

Parto cesáreo de urgência por padrão anormal de frequência cardíaca fetal, gestação de 39 semanas, líquido amniótico meconial espesso. Ao nascer, o recém-nascido não chora, não apresenta movimentos respiratórios e está flácido. A equipe pediátrica é composta por três profissionais, com a mesa de reanimação testada, calor radiante ligado e sala a 24 graus.
achado
Recém-nascido de 39 semanas que não respira e está hipotônico ao nascer. Duas das três perguntas iniciais foram respondidas com não, então ele não tem boa vitalidade — e o mecônio, por espesso que seja, não muda essa avaliação nem indica qualquer aspiração.
conduta
Estímulo tátil no dorso, com movimentos circulares delicados, por cerca de 15 segundos, com o bebê ainda ligado ao cordão. Nunca chacoalhar, e não prolongar: estímulo longo demais atrasa a ventilação.
achado
Após o estímulo, o recém-nascido continua sem movimentos respiratórios.
conduta
Clampear o cordão e levar à mesa de reanimação sob calor radiante. Não se aspira a orofaringe no desprendimento do polo cefálico, não se faz laringoscopia direta e não se aspira a traqueia de rotina — a aspiração traqueal de rotina no não vigoroso com mecônio saiu das diretrizes brasileiras em janeiro de 2016 e não modifica prognóstico.
conduta
Passos iniciais em no máximo 30 segundos: posicionar em decúbito dorsal com a cabeça voltada para o profissional, secar cabeça e corpo, desprezar os campos úmidos, colocar a touca e manter o pescoço em leve extensão. Aspirar boca e narinas apenas se houver suspeita de obstrução por excesso de secreções, com sonda número 8 a 10 e pressão máxima de 80 a 100 mmHg.
achado
Ao fim dos passos iniciais, o recém-nascido permanece em apneia. A ausculta do precórdio por seis segundos mostra 8 batimentos, o que corresponde a 80 batimentos por minuto.
conduta
Iniciar ventilação com pressão positiva com máscara facial em ar ambiente, dentro dos primeiros 60 segundos de vida, na frequência de 30 a 60 movimentos por minuto, com pressão inspiratória inicial de 20 a 30 cmH2O e PEEP de 5 cmH2O se estiver usando o ventilador com Peça-T. Enquanto um profissional ventila, outro posiciona os três eletrodos do monitor cardíaco e o sensor do oxímetro no pulso radial direito.
achado
Aos 30 segundos de ventilação, o monitor mostra 132 batimentos por minuto e o recém-nascido inicia movimentos respiratórios regulares. A saturação pré-ductal, aos 3 minutos de vida, é de 73%.
conduta
Suspender a ventilação: frequência cardíaca de 100 ou mais com respiração espontânea regular é o critério de melhora. A saturação de 73% aos 3 minutos está dentro do alvo, que é de 70 a 75% nesse instante — não há indicação de oxigênio suplementar. Manter a normotermia, avaliar as condições clínicas e, sempre que possível ainda na sala de parto, colocar em contato pele-a-pele com a parturiente, coberto por tecido de algodão seco e aquecido.
achado
O boletim de Apgar foi 2 no primeiro minuto e 8 no quinto.
conduta
O Apgar é registrado junto com os procedimentos realizados, mas não indicou nem indicaria nenhum deles. Como foi 8 no quinto minuto, não é necessário repeti-lo a cada cinco minutos — essa regra vale quando o quinto minuto vem abaixo de 7. Nove em cada dez recém-nascidos que recebem ventilação com máscara facial evoluem exatamente assim, sem precisar de mais nada.
07

Agora feche você

Parto vaginal de gestação de 29 semanas, com trabalho de parto prematuro e bolsa rota de 20 horas. Ao nascer, o recém-nascido está flácido e sem movimentos respiratórios. O estímulo tátil no dorso por 15 segundos não desencadeia respiração. O cordão é clampeado e o bebê levado à mesa sob calor radiante, onde recebe os passos iniciais em 30 segundos, com o corpo dentro do saco plástico de polietileno sem ter sido seco, touca dupla e pescoço em leve extensão; enquanto isso, um segundo profissional posiciona os eletrodos do monitor cardíaco e o sensor do oxímetro no pulso radial direito. Ao fim dos passos iniciais, o paciente permanece em apneia e a ausculta do precórdio mostra 70 batimentos por minuto. A equipe inicia ventilação com pressão positiva por máscara facial com ventilador mecânico manual com Peça-T. Após 30 segundos de ventilação, o monitor cardíaco mostra 54 batimentos por minuto e não há movimento torácico visível. A técnica de ventilação é revisada por completo — máscara readaptada, cabeça reposicionada, secreções aspiradas, boca mantida levemente aberta e pressão inspiratória aumentada — sem melhora.
achado
Prematuro de 29 semanas, em apneia, com frequência cardíaca de 54 batimentos por minuto após 30 segundos de ventilação por máscara facial e sem movimento torácico, mesmo depois de percorrida toda a sequência de ações corretivas.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Aspirar o mecônio antes de ventilar Atrai porque a imagem mental é forte: líquido espesso, bebê deprimido, alguém tem de tirar aquilo dali. Só que a laringoscopia direta imediata e a aspiração traqueal de rotina saíram das diretrizes brasileiras em 26 de janeiro de 2016, e a metanálise que sustentou a mudança não achou diferença em síndrome de aspiração meconial, encefalopatia hipóxico-isquêmica ou sobrevida à alta. Aspirar de rotina só faz uma coisa: atrasar a ventilação, que é o que resolve. A exceção é obstrução caracterizada de via aérea — e mesmo aí a aspiração traqueal é feita uma única vez, com a ventilação começando imediatamente depois.
  2. 2Começar a massagem cardíaca com frequência abaixo de 100 O erro nasce de misturar os dois gatilhos. Abaixo de 100 batimentos por minuto é o gatilho da ventilação; abaixo de 60 é o gatilho da massagem. Como o número 100 aparece o tempo todo no fluxograma — indicação de ventilação, critério de melhora, limite para transportar —, ele acaba grudando também na massagem. Não gruda: 60 é o único número que aciona compressões.
  3. 3Massagear antes de assegurar a via aérea Parece diligência e é o contrário. A massagem cardíaca reduz a eficácia da ventilação, e a ventilação é a ação mais efetiva da reanimação neonatal; por isso as compressões só começam com a expansão e a ventilação pulmonares bem estabelecidas e a via aérea assegurada, o que na prática clínica significa após 30 segundos de ventilação por cânula traqueal com técnica adequada. Comprimir o tórax de um bebê que está sendo mal ventilado por máscara não corrige a bradicardia, porque a bradicardia vem da insuflação pulmonar insuficiente.
  4. 4Reavaliar a massagem aos 30 segundos A tentação é aplicar o mesmo relógio da ventilação. Mas 60 segundos é o tempo mínimo para que a massagem efetiva restabeleça a pressão de perfusão coronariana, e interromper antes compromete justamente o que ela existe para fazer. A regra prática: ventilação se reavalia aos 30 segundos, massagem aos 60.
  5. 5Iniciar a ventilação do bebê a termo com oxigênio a 100% Atrai porque o bebê está cianótico e a lógica intuitiva manda oferecer o máximo. Mas a metanálise com 2.164 recém-nascidos de 35 semanas ou mais mostrou que começar com ar ambiente, em vez de 100%, reduz em 27% a mortalidade intra-hospitalar — e a cianose dos primeiros minutos é fisiológica, porque a saturação normal com 1 minuto de vida fica em torno de 60 a 65%. O espelho desse erro é igualmente comum e igualmente caro: ventilar o prematuro abaixo de 34 semanas com ar ambiente, quando a régua de 2026 manda começar com 60%.
  6. 6Aumentar o oxigênio antes de corrigir a técnica É o reflexo mais natural da sala e a diretriz o combate nominalmente: quando o recém-nascido não melhora com ventilação em ar ambiente, checa-se e corrige-se a técnica antes de oferecer oxigênio suplementar, porque aumentar a oferta ventilando errado não leva à melhora. Existe uma sequência fixa para isso — readaptar a máscara, reposicionar a cabeça, aspirar secreções, ventilar com a boca levemente aberta e só então aumentar a pressão em cerca de 5 cmH2O até o máximo de 40. A necessidade de oxigênio suplementar é excepcional no bebê de 34 semanas ou mais quando a ventilação é bem feita.
  7. 7Trocar a dose de adrenalina entre as vias, ou repetir a traqueal As duas doses são diferentes por um fator de cinco em volume — 0,2 mililitro por quilo por via intravascular contra 1,0 mililitro por quilo por via traqueal, ambas da mesma diluição de 1 mililitro da ampola em 9 de soro fisiológico. Dar a dose intravascular pela cânula subdosa; dar a traqueal na veia superdosa. E a via traqueal é de uso único, indicada só enquanto o cateterismo venoso umbilical está sendo feito: a absorção pulmonar é lenta e imprevisível, e repeti-la em vez de correr atrás do acesso vascular é perder tempo. Flush de soro fisiológico é da via intravascular; pela cânula, é contraindicado.
  8. 8Desligar o calor radiante para “começar a hipotermia terapêutica” Parece antecipar a neuroproteção do bebê asfixiado e faz o oposto: a hipotermia na sala de parto compromete a função respiratória, aumenta a resistência vascular pulmonar e favorece acidose, hipoglicemia e bradicardia — exatamente o que se está tentando reverter. Não há indicação de desligar a fonte de calor nem de iniciar hipotermia terapêutica na sala de parto; a decisão sobre ela é tomada nas primeiras 6 horas de vida, após a admissão na unidade neonatal. Durante a reanimação, o alvo é normotermia entre 36,5 e 37,5 graus — e vale o teto: acima de 38 graus, a hipertermia agrava a lesão cerebral do asfixiado.
  9. 9Usar o Apgar do primeiro minuto para decidir alguma coisa É o clássico do tema, e a diretriz responde com uma frase fechada: o boletim de Apgar não é utilizado para indicar procedimentos na reanimação neonatal. Ele mede retrospectivamente a resposta às manobras e tem valor prognóstico populacional. Quem espera o primeiro minuto para decidir se ventila já perdeu o Minuto de Ouro — e o risco de morte ou morbidade sobe 16% a cada 30 segundos de atraso no início da ventilação.
  10. 10Colocar o sensor do oxímetro no pé ou no membro superior esquerdo Parece detalhe de enfermagem e é definição fisiológica. A tabela de saturação-alvo descreve a saturação pré-ductal, isto é, medida antes da desembocadura do canal arterial — e isso só existe no membro superior direito, na região do pulso radial. Sensor no pé mede saturação pós-ductal, que nos primeiros minutos é sistematicamente mais baixa por causa do shunt pelo canal arterial, e leva a oferecer oxigênio a quem está dentro do alvo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A avaliação inicial do RN baseia-se em 3 perguntas: gestação a termo? respirando ou chorando? tônus muscular bom? Como as três respostas são SIM (termo, choro vigoroso, bom tônus), o RN não necessita de manobras de reanimação. A conduta correta é manter o clampeamento oportuno já realizado, colocar em contato pele a pele com a mãe garantindo normotermia e seguir com cuidados de rotina. Erra: a aspiração de vias aéreas NÃO é rotineira e só se indica com obstrução por secreções em RN que precisa de VPP. Erra VPP só se indica se o RN não respira/está em apneia ou com FC < 100 bpm após passos iniciais — não é o caso. Erra: oximetria e monitorização são reservadas ao RN que necessita de reanimação ou recebe suporte, não ao RN vigoroso liberado para a mãe. Erra: secagem/estímulo e passos iniciais na mesa de reanimação são para o RN que responde NÃO a alguma das perguntas; o RN vigoroso vai direto para o colo materno.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a questão os usa. As três perguntas do nascimento: 34 semanas ou mais? respirando ou chorando? tônus em flexão? Boa vitalidade exige as duas últimas, independentemente do líquido amniótico. Estímulo tátil: dorso, movimentos circulares, cerca de 15 segundos, ANTES do clampeamento. Clampeamento: no mínimo 60 segundos com boa vitalidade; imediato no descolamento prematuro de placenta, na placenta prévia com sangramento e no nó verdadeiro de cordão; se não respirou após o estímulo, clampear (fluxograma: menos de 30 segundos) e levar à mesa; ordenha de cordão como opção, contraindicada abaixo de 28 semanas. Passos iniciais: 30 segundos. Normotermia: 36,5 a 37,5 graus axilar, sala a 23 a 25 graus, evitar acima de 38. Saco plástico de polietileno sem secar o corpo: abaixo de 34 semanas; touca dupla; colchão térmico no prematuro extremo. Ventilação: apneia ou respiração irregular e/ou frequência abaixo de 100, iniciada nos primeiros 60 segundos (Minuto de Ouro); 30 a 60 movimentos por minuto; pressão inicial de 20 a 30 cmH2O (20 a 25 no prematuro); PEEP de 5 (5 a 6 no prematuro); fluxo de 10 litros por minuto; limite do circuito em 40. Oxigênio inicial: 21% em 34 semanas ou mais, 60% abaixo de 34 semanas, 60% logo após a intubação, 100% durante a massagem; ajuste de 20% a cada 30 segundos. Saturação-alvo pré-ductal: 65 a 70% aos 2 minutos, 70 a 75% aos 3, 75 a 80% aos 4, 80 a 85% aos 5, 85 a 95% aos 10; sensor no pulso radial direito. Frequência cardíaca: 100 ou mais é adequada, abaixo de 100 é bradicardia e indica ventilação, abaixo de 60 indica massagem; primeira avaliação por ausculta do precórdio em seis segundos multiplicados por 10; monitor cardíaco assim que se indica ventilação. Máscara laríngea: 34 semanas ou mais e 2.000 gramas ou mais, tamanho 1 no Brasil. Intubação: três indicações — máscara ineficaz, ventilação prolongada, massagem cardíaca; cânula 3,0 para 28 a 34 semanas, 3,5 para 35 a 38, 3,5 ou 4,0 acima de 38; marca no lábio de 7,5, 8,0, 8,5 e 9,0 centímetros; cada tentativa em até 30 segundos. Massagem: 3:1, 120 eventos por minuto (90 compressões e 30 ventilações), dois polegares, terço inferior do esterno abaixo da linha intermamilar poupando o xifoide, um terço do diâmetro anteroposterior, reavaliação aos 60 segundos, troca do profissional a cada 2 a 5 minutos. Adrenalina: diluição de 1 mililitro em 9 de soro fisiológico; intravascular 0,02 mg/kg, ou 0,2 mL/kg, com flush de 3 mL, repetível a cada 3 a 5 minutos; traqueal 0,1 mg/kg, ou 1,0 mL/kg, uso único e sem flush; nunca acima de 0,1 mg/kg por qualquer via. Expansor: soro fisiológico 10 mL/kg em 5 a 10 minutos. Apgar: primeiro e quinto minutos, não indica procedimento, repetir a cada 5 minutos até 20 se for menor que 7 no quinto. Interrupção: discussão ao redor de 20 minutos. Transporte: nunca com frequência abaixo de 100; incubadora a 35 a 37 graus.

em 30 dias

A lógica, para reconstruir o fluxograma sem decorá-lo. Tudo na reanimação neonatal existe para resolver um problema só: o pulmão está cheio de líquido e precisa se encher de ar. Enquanto isso não acontece, a resistência vascular pulmonar permanece alta, o sangue não chega aos pulmões, não há hematose e a circulação continua fetal. Daí decorre a hierarquia inteira. A ventilação é a intervenção mais importante porque é a única que ataca a causa — nove em cada dez bebês ventilados por máscara melhoram e param por aí. A massagem cardíaca não é uma intervenção mais forte, é uma intervenção diferente, que só faz sentido depois que a ventilação está garantida, porque ela existe para restaurar a perfusão coronariana de um coração que parou de responder por hipoxemia — e como ela atrapalha a ventilação, exige via aérea assegurada antes. A adrenalina vem por último porque a bradicardia neonatal é, em regra, insuflação pulmonar insuficiente, e não falta de catecolamina. Por isso os gatilhos são a frequência cardíaca e a respiração, nunca a cor, nunca a saturação isolada, nunca o Apgar: a frequência cardíaca é o indicador mais sensível de que a aeração pulmonar está acontecendo. E por isso os prazos são curtos e assimétricos — 30 segundos para reavaliar a ventilação porque a resposta é rápida quando o pulmão abre, 60 segundos para reavaliar a massagem porque perfusão coronariana leva mais tempo para se restabelecer. O cordão entra nessa mesma história: clampear antes da aeração pulmonar tira o suprimento placentário sem que o pulmão tenha assumido o serviço, e é isso que o piso de 60 segundos protege — mas nunca à custa de atrasar a ventilação, porque a ventilação resolve e o cordão apenas ajuda. O controle térmico não é conforto: hipotermia aumenta a resistência vascular pulmonar, ou seja, empurra na direção contrária de tudo o que se está tentando fazer. Guardado isso, a sequência se deduz, e cada número vira consequência de uma ideia em vez de item de lista.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Recém-nascido de 39 semanas, cesárea de urgência por padrão anormal de frequência cardíaca fetal e líquido amniótico meconial espesso, que ao nascer não chora, está flácido e permanece em apneia com frequência cardíaca de 80 batimentos por minuto após os passos iniciais — sala de parto — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Reanimação neonatal — Preparatório para provas | OsceLabs