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PediatriaNeonatologia

Policitemia neonatal: o número muda com o sítio da agulha, e a troca parcial cobra caro

Policitemia e síndrome de hiperviscosidade neonatal: o hematócrito que depende do sítio de coleta e a troca parcial que tem preço

Reconhecer o recém-nascido pletórico e letárgico, entender por que o hematócrito capilar não serve para decidir, conhecer a curva que faz a viscosidade disparar e pesar a exsanguineotransfusão parcial contra os riscos que ela traz.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Durante a discussão de um caso de policitemia neonatal, um residente pergunta por que existe um valor de corte de hematócrito, se a oferta de oxigênio aos tecidos deveria aumentar quanto mais hemácias houver. Qual explicação fisiológica responde corretamente a essa pergunta?

02

Como esse tema cai

Um recém-nascido a termo, no alojamento conjunto, está vermelho demais e mole demais. A enfermagem colhe um hematócrito de calcanhar, vem 72%, e a partir desse número alguém decide trocar sangue. É a sequência mais comum e a que mais erra, porque o número que chegou não é o número que a decisão exige.

A policitemia neonatal é uma condição em que quase tudo depende de detalhes técnicos: onde o sangue foi colhido, quando foi colhido em relação às horas de vida, e se a criança tem sintoma ou apenas um número. Um mesmo bebê pode ser normal, limítrofe ou candidato a procedimento invasivo conforme essas três variáveis, e nenhuma delas aparece no resultado impresso.

O outro eixo é o do preço. A exsanguineotransfusão parcial reduz a viscosidade em curto prazo, e é isso que ela faz de comprovado; em contrapartida, ela multiplica por onze o risco de enterocolite necrosante segundo o protocolo consultado, e não tem impacto demonstrado sobre o desenvolvimento neurológico a longo prazo. Todo o capítulo se organiza em torno dessa assimetria: um benefício de horas contra um risco de dias.

03

O que muda decisão

A definição, e por que ela nomeia o sítio de coleta

Policitemia neonatal é definida como massa eritrocitária acima de dois desvios padrão do valor normal para a idade, e na prática o corte é hematócrito venoso periférico acima de 65% ou hemoglobina acima de 22 g/dL na primeira semana de vida. Os dois protocolos brasileiros consultados usam exatamente esses dois números.

O adjetivo venoso periférico carrega toda a diferença. O hematócrito obtido por punção de calcanhar pode estar até quinze por cento acima do venoso, porque a estase e a viscosidade na microcirculação distal concentram as hemácias no local da punção. Um valor capilar de 72% pode corresponder a um venoso de 63% — ou seja, à normalidade.

Aquecer o calcanhar antes da punção reduz, mas não elimina, essa diferença. A regra prática é direta e não admite exceção quando há decisão terapêutica em jogo: um hematócrito capilar alto nunca indica procedimento; ele indica a necessidade de repetir por punção venosa periférica, sem garroteamento prolongado.

O sítio venoso importa também pelo outro lado. O sangue colhido de cateter umbilical arterial ou venoso não representa o hematócrito periférico e sofre influência da posição do cateter e da própria infusão em curso, o que o torna inadequado para essa decisão específica.

A consequência dessa exigência técnica é grande no dia a dia: uma proporção considerável dos diagnósticos de policitemia feitos no alojamento conjunto desaparece quando se repete o exame como manda a definição. O trabalho de repetir corretamente evita procedimento invasivo em recém-nascido saudável.

Vale entender por que a definição oferece dois números, hematócrito e hemoglobina, em vez de um só. Eles medem coisas diferentes: o hematócrito é a fração do volume ocupada pelas hemácias, e a hemoglobina é a massa de pigmento transportador por volume de sangue. Nos analisadores automatizados de uso corrente, um dos dois é medido diretamente e o outro é calculado a partir dele e dos índices eritrocitários, e o resultado é que discordâncias entre os dois valores num mesmo hemograma costumam apontar para problema de amostra — coágulo parcial, diluição por infusão em curso no mesmo membro, tempo excessivo até o processamento — antes de apontarem para doença.

Uma consequência operacional se impõe: quando o hematócrito vem alto e a hemoglobina não acompanha, ou o inverso, o passo seguinte não é decidir conduta pelo valor mais alarmante. É repetir a coleta, em membro sem infusão, com técnica adequada, e conferir se a discordância persiste. Colher pelo mesmo acesso por onde corre soro é uma das causas mais frequentes de resultado que não faz sentido — e ela produz valores falsamente baixos, o que nesse contexto tranquiliza indevidamente.

A hora da coleta muda o resultado

O hematócrito do recém-nascido não é estável nas primeiras horas de vida, e o momento da coleta pode transformar um exame normal em alterado e o inverso.

Depois do nascimento há redistribuição de fluidos com passagem de plasma do intravascular para o interstício, o que concentra as hemácias. O resultado é uma curva com pico do hematócrito e da viscosidade entre duas e quatro horas de vida, seguida de queda gradual. Colher no pico produz o valor mais alto que aquele bebê terá.

Isso tem duas consequências opostas. A primeira é que um valor limítrofe colhido às três horas de vida deve ser interpretado com cautela, porque tende a cair sozinho nas horas seguintes se a criança estiver bem hidratada. A segunda é que um hematócrito colhido muito cedo, ainda na primeira hora, pode subestimar o pico que virá — e por isso um recém-nascido de risco com exame normal na sala de parto não está liberado da observação.

A hidratação altera a leitura em ambos os sentidos. Perda de peso excessiva, oferta hídrica insuficiente e febre concentram; hidratação adequada dilui. Por isso a primeira medida diante de um número alto em criança assintomática é garantir hidratação e repetir, e não indicar procedimento.

A incidência da condição em recém-nascidos a termo saudáveis é descrita entre 0,4% e 5%, faixa larga que reflete justamente essas diferenças de método — quem colhe capilar no pico encontra muito mais casos do que quem colhe venoso periférico depois das primeiras horas.

Por que a viscosidade não sobe em linha reta

O ponto conceitual que organiza o restante do capítulo é que a relação entre hematócrito e viscosidade sanguínea não é linear. Até certo valor, aumentos do hematócrito produzem aumentos discretos de viscosidade; a partir dele, a curva se inclina abruptamente e pequenos aumentos produzem grandes elevações.

Esse comportamento explica por que existe um corte, e por que ele fica onde fica. Abaixo dele, o aumento de massa eritrocitária melhora a oferta de oxigênio sem custo de fluxo relevante. Acima dele, o custo de fluxo passa a superar o ganho de conteúdo, e a oferta tecidual de oxigênio cai justamente no bebê que tem mais hemácias.

Curva ascendente sobre dois eixos sem marcações: trecho inicial quase plano ao longo de dois terços do eixo horizontal e subida acentuada no terço final, com linha tracejada vertical marcando o ponto de inflexão.
A relação entre hematócrito e viscosidade sanguínea não é linear: além do ponto de inflexão, pequenos aumentos de hematócrito produzem grandes elevações de viscosidade, e o custo de fluxo passa a superar o ganho de conteúdo de oxigênio.

A viscosidade elevada produz lentificação do fluxo em leitos de pequeno calibre e alta resistência, e é isso que explica a distribuição dos sintomas: sistema nervoso central, intestino, rim e pulmão. Não é o número de hemácias que adoece a criança — é a queda de fluxo nos territórios que menos toleram estase.

Uma consequência prática decorre disso: hematócrito e viscosidade não são a mesma coisa, e a correlação entre os dois é imperfeita. Existem bebês com hematócrito alto e viscosidade aceitável, e bebês sintomáticos com valores apenas moderadamente elevados. Como a medida direta de viscosidade não está disponível na assistência, o hematócrito é o marcador substituto que se usa — e por isso o sintoma pesa tanto quanto o número na decisão.

Duas famílias de risco, e elas pedem condutas diferentes

Os fatores de risco se organizam em dois mecanismos, e reconhecer qual está em jogo muda o que se procura além do hematócrito.

O primeiro é a produção aumentada por hipóxia crônica intrauterina. Aqui entram o recém-nascido pequeno para a idade gestacional, o pós-termo, o filho de mãe com doença hipertensiva da gestação, o filho de mãe com hipoxemia crônica — cardiopatia, pneumopatia, tabagismo, altitude — e o filho de mãe diabética. O feto responde à hipóxia com aumento de eritropoetina, e nasce com massa eritrocitária alta. Nesses casos, a policitemia costuma vir acompanhada de restrição de crescimento e de instabilidade metabólica, sobretudo hipoglicemia.

O segundo é a transfusão aguda de hemácias para o feto. Aqui entram a transfusão entre gemelares em gestação monocoriônica, a transfusão materno-fetal e as circunstâncias do nascimento que aumentam a transferência placentária: clampeamento tardio do cordão, ordenha do cordão e a posição do recém-nascido abaixo do plano da placenta antes do clampeamento. Nesse grupo o quadro tende a ser mais agudo e mais sintomático, porque o volume chegou de uma vez.

Completam a lista as cromossomopatias e as endocrinopatias congênitas, com destaque para as trissomias e para os distúrbios de tireoide e de adrenal, em que a policitemia é achado associado e não a doença principal.

A distinção entre os dois mecanismos tem consequência direta. Na hipóxia crônica, o que mais adoece a criança costuma ser a hipoglicemia associada, e a vigilância metabólica é prioritária. Na transfusão aguda, sobretudo entre gemelares, a policitemia é o problema principal, o irmão precisa ser avaliado por anemia e a evolução costuma exigir decisão mais rápida.

Há um terceiro grupo, menor e frequentemente esquecido, que é o das causas maternas e medicamentosas. Uso materno de substâncias que reduzem o fluxo uteroplacentário, tabagismo pesado, residência em altitude elevada e hipoxemia materna de qualquer origem produzem o mesmo estímulo eritropoético crônico. E a mãe com diabetes, além do estímulo próprio da hiperinsulinemia fetal, entrega um recém-nascido que soma policitemia, macrossomia e hipoglicemia — três problemas que se agravam mutuamente e cuja vigilância precisa começar antes de qualquer exame ficar pronto.

Reconhecer a categoria também organiza o que se colhe. Nas cromossomopatias e nas endocrinopatias congênitas, a policitemia é achado associado, e a pergunta clínica passa a ser sobre a doença de base: fenótipo, curva de crescimento, triagem neonatal, avaliação cardiológica. Tratar o hematócrito e não investigar o motivo, nesse grupo, resolve o número e perde o diagnóstico.

O clampeamento do cordão, e por que ele não vira contraindicação

O clampeamento tardio do cordão umbilical aumenta a transferência de sangue placentário para o recém-nascido e, com ela, o hematócrito das primeiras horas. Isso é fato conhecido e faz parte da conta.

O ponto que precisa ser dito com clareza é que esse aumento não transforma o clampeamento tardio em prática a ser evitada. O benefício da transferência placentária — melhores reservas de ferro nos primeiros meses, menos anemia da infância, melhor estabilidade de transição no pré-termo — supera, na população geral, o custo de uma elevação de hematócrito que na maioria das vezes é assintomática e transitória.

O que muda é a vigilância. Recém-nascido que reúne clampeamento tardio e um fator de risco de produção aumentada — pequeno para a idade gestacional, pós-termo, filho de mãe com doença hipertensiva da gestação — merece observação clínica atenta nas primeiras horas e limiar baixo para colher hematócrito venoso se aparecer sintoma.

A ordenha do cordão é assunto distinto e mais restrito, com transferência mais rápida e volumes menos previsíveis; ela tem indicações específicas e não deve ser generalizada. A posição do bebê em relação à placenta antes do clampeamento também influencia a transferência.

Há uma leitura errada que aparece com frequência e vale desfazer: policitemia diagnosticada em um recém-nascido que teve clampeamento tardio não é complicação de conduta errada nem motivo para mudar o protocolo da sala de parto. Ela é um achado esperado dentro de uma faixa, cuja conduta é a mesma de qualquer outra policitemia — sítio de coleta correto, hidratação, avaliação de sintomas.

Os sintomas, e os três que aparecem mais

A maioria dos recém-nascidos com policitemia é assintomática, e essa é a informação mais importante da seção. O achado costuma ser incidental, em exame colhido por fator de risco, e a evolução costuma ser benigna.

Entre os que adoecem, os sintomas mais comuns segundo o protocolo consultado são intolerância alimentar ou vômitos, hipoglicemia e cianose ou apneia. Repare que os três são inespecíficos e compartilhados com sepse, cardiopatia e distúrbio metabólico — e é por isso que a policitemia é diagnóstico de exclusão relativa, mesmo com hematócrito alto documentado.

A lista completa acrescenta pletora, regurgitação, hipoatividade, desconforto respiratório, taquicardia, irritabilidade, letargia, convulsões, tremor, hipocalcemia, icterícia, hematúria, trombose de veia renal e priapismo. A pletora é o achado de inspeção característico: coloração vermelho-intensa, mais evidente sob luz natural, com mucosas também congestas e enchimento capilar frequentemente lentificado.

Dois desfechos merecem destaque por serem os que assustam. A trombose de veia renal se manifesta com hematúria, massa em flanco e plaquetopenia, e sua suspeita indica ultrassonografia com estudo de fluxo. A enterocolite necrosante é o desfecho intestinal temido, e ela aparece tanto associada à própria hiperviscosidade quanto ao procedimento usado para tratá-la — o que será retomado adiante.

Diante de qualquer sintoma, a obrigação é dupla: tratar a policitemia como hipótese e, ao mesmo tempo, excluir ativamente as causas que a imitam — distúrbio respiratório, cardiopatia, hipertensão pulmonar, hemorragia intracraniana, infecção, desidratação e desordens metabólicas, todas nomeadas pelo protocolo consultado como diagnósticos a afastar.

O painel que acompanha o hematócrito

Confirmada a policitemia em amostra venosa periférica, o exame não termina no hematócrito. A triagem inicial do recém-nascido sintomático inclui hemograma completo, glicemia, cálcio, magnésio, bilirrubina total e frações e densidade urinária, conforme o protocolo consultado.

A hipoglicemia é a companhia mais frequente e a mais urgente. Ela decorre em parte do consumo aumentado pela massa eritrocitária e em parte da própria condição de base, sobretudo quando há restrição de crescimento ou mãe diabética. A glicemia deve ser seriada, e não uma medida única, porque a queda pode ocorrer horas depois do primeiro exame normal.

A hipocalcemia entra na mesma lógica e explica parte da tremulação e da irritabilidade, sintomas que também são atribuídos à hiperviscosidade. Distinguir as duas mudou pouco a conduta imediata — ambas se corrigem —, mas evita atribuir à viscosidade um sintoma que se resolve com cálcio.

A plaquetopenia merece número próprio: o protocolo consultado registra que ela ocorre em cerca de 51% dos pacientes com policitemia. É uma proporção alta o suficiente para que a plaqueta baixa não seja lida como sinal de sepse por si só, e para que a contagem seja acompanhada nas horas seguintes.

A hiperbilirrubinemia vem depois, com a destruição do excesso de hemácias, e por isso a vigilância de icterícia precisa se estender por dias e não apenas pelo período de observação inicial. Completam a avaliação, quando o quadro exige, a oximetria de pulso, a radiografia de tórax e abdome e a ultrassonografia transfontanelar, que o protocolo lista como exames de exclusão.

A conduta por faixa: quatro cenários

Com o hematócrito venoso periférico confirmado e o bebê classificado como sintomático ou não, o protocolo consultado organiza a conduta em quatro cenários.

Assintomático com hematócrito entre 65% e 70%: garantir hidratação adequada e observar. Checar glicemia e bilirrubina, e repetir o hematócrito em doze a vinte e quatro horas. Persistindo assintomático e com valor abaixo de 70%, mantém-se a observação de sintomas e repete-se em vinte e quatro horas. Não há procedimento neste cenário.

Assintomático com hematócrito acima de 70%: manter observação ativa de sintomas e avaliar hidratação venosa com cota hídrica de 100 mL/kg/dia e velocidade de infusão de glicose de 6 a 8 mg/kg/min. A hidratação venosa aqui não é apenas suporte: ela é a intervenção que muitas vezes resolve, porque dilui.

Sintomático com hematócrito entre 65% e 75%: iniciar hidratação venosa com a mesma cota e a mesma velocidade de infusão de glicose e observar rigorosamente, reservando a exsanguineotransfusão parcial para os pacientes com sintomas importantes ou progressivos. Ou seja, ter sintoma e ter hematócrito alto ainda não é indicação automática de procedimento — a hidratação vem primeiro.

Hematócrito acima de 75%, independentemente de sintomas: iniciar a hidratação venosa e realizar a exsanguineotransfusão parcial. Esse é o único cenário em que o número sozinho indica o procedimento no protocolo consultado, e é justamente onde as fontes brasileiras não coincidem, como se verá adiante.

Falta definir o que conta como sintoma importante ou progressivo, porque é essa expressão que decide o procedimento na faixa intermediária. O protocolo consultado a preenche com exemplos concretos: hipoglicemia, cianose, apneia e sintomas gastrintestinais que persistem apesar da hidratação venosa. A palavra que carrega o peso é persistem — o que autoriza a troca não é ter o sintoma, e sim mantê-lo depois de uma intervenção mais simples e mais segura ter sido tentada de forma adequada.

Progressivo, por sua vez, significa piora documentada entre duas avaliações, e não impressão. Por isso a observação rigorosa dessa faixa precisa ter horário: exame clínico e glicemia em intervalos definidos, registro do que se encontrou e comparação explícita com a avaliação anterior. Sem esse registro, a decisão de trocar sangue acaba tomada por acúmulo de ansiedade da equipe, e não por evolução da criança.

A troca parcial: fórmula, solução e técnica

A exsanguineotransfusão parcial retira sangue total e repõe volume igual de solução cristaloide, reduzindo o hematócrito sem alterar a volemia. Não é transfusão: nenhum hemocomponente entra.

O volume a trocar se calcula pela fórmula que relaciona volemia, hematócrito observado e hematócrito desejado: multiplica-se a volemia pela diferença entre o hematócrito observado e o desejado e divide-se pelo hematócrito observado. Os dois protocolos brasileiros consultados usam a mesma fórmula e valores diferentes para as duas entradas: um adota volemia de 80 a 100 mL/kg e hematócrito desejado de 55%; o outro adota volemia de 90 a 100 mL/kg e, no cálculo, hematócrito desejado de 60%.

A solução de troca é o soro fisiológico a 0,9%, e isso é consenso entre as fontes consultadas. Não se usa albumina nem plasma: eles não oferecem vantagem, custam mais e acrescentam risco. O acesso pode ser central ou periférico.

A técnica é de alíquotas pequenas e alternadas: retira-se sangue em frações de cerca de 5 mL/kg e repõe-se imediatamente volume igual de cristaloide, repetindo até completar o volume calculado. O recém-nascido deve estar monitorizado durante todo o procedimento, em unidade com capacidade de vigilância contínua.

O acompanhamento posterior também difere entre as fontes: um protocolo manda repetir o hematócrito a cada seis horas até que ele atinja valores entre 65% e 70% em paciente assintomático; o outro faz controle com oito e vinte e quatro horas após o procedimento e reavalia cálcio, magnésio, glicemia e bilirrubina total. O que as duas compartilham é a exigência de reavaliar, porque o hematócrito pode subir de novo.

O preço do procedimento, e o número que ele tem

A exsanguineotransfusão parcial é descrita pelo protocolo consultado como um procedimento geralmente seguro, com efeitos de curto prazo caracterizados pela redução da viscosidade. É importante ler essa frase inteira: o benefício documentado é de curto prazo e é de viscosidade.

O mesmo documento lista as complicações possíveis: bradicardia, apneia, trombocitopenia grave, hipocalcemia e hipopotassemia. E traz o número que mais pesa na decisão: o procedimento aumenta em onze vezes o risco de enterocolite necrosante.

Esse dado precisa ser colocado ao lado do outro que o mesmo protocolo registra: os estudos não mostram impacto sobre o desenvolvimento neurológico. Ou seja, a intervenção que multiplica por onze o risco de uma complicação intestinal grave não tem, até aqui, benefício demonstrado sobre o desfecho que mais preocupa a família a longo prazo.

A conclusão prática não é abandonar o procedimento, e sim reservá-lo. Ele continua indicado no recém-nascido com sintomas importantes ou progressivos que não respondem à hidratação, e nos valores extremos de hematócrito. O que ele não deve ser é reflexo automático diante de um número alto em criança que está bem.

Duas medidas acompanham a decisão e reduzem o dano. A primeira é o jejum inicial com vigilância abdominal nas horas seguintes, justamente pelo risco intestinal aumentado, com atenção a distensão, resíduo e sangue nas fezes. A segunda é o registro em prontuário da indicação, da discussão com a família e do consentimento, porque se trata de procedimento invasivo com risco conhecido e alternativa conservadora disponível.

Depois da alta: o que acompanhar e o que dizer

O seguimento do recém-nascido que teve policitemia sintomática tem três frentes, e todas começam antes da alta.

A primeira é metabólica e hematológica de curto prazo: glicemia até estabilização, cálcio, contagem de plaquetas — que cai em cerca de metade dos casos — e vigilância de icterícia, que aparece depois, com a destruição do excesso de hemácias, e pode exigir fototerapia já em casa acompanhada em ambulatório.

A segunda é gastrointestinal, sobretudo se houve procedimento: reintrodução cuidadosa e progressiva da dieta, com observação de distensão, resíduo, vômito e sangue nas fezes, e orientação explícita à família sobre esses sinais.

A terceira é o desenvolvimento neurológico. Aqui a honestidade importa. A hiperviscosidade grave e sintomática é descrita em associação com desfechos neurológicos piores, mas o procedimento usado para tratá-la não demonstrou, nos estudos disponíveis, modificar esse desfecho. O que se recomenda, portanto, é acompanhamento do desenvolvimento em consultas programadas, e não a promessa de que a troca resolveu o problema de longo prazo.

A conversa com a família precisa cobrir três pontos: o que aconteceu, em linguagem simples — o sangue estava grosso demais e circulava mal; o que foi feito e por quê; e quais sinais motivam procurar atendimento. Quando há gemelaridade envolvida, acrescenta-se a explicação sobre o irmão, que costuma estar do outro lado do problema, com anemia, e cuja evolução também precisa ser acompanhada.

Um ponto de organização do serviço fecha o capítulo. A policitemia é diagnosticada com frequência em alojamento conjunto, onde a criança está com a mãe, mama em livre demanda e não tem monitorização contínua — e é justamente ali que a maioria dos casos deve permanecer, porque a conduta é hidratação e observação. Transferir para unidade intensiva todo recém-nascido com hematócrito alto separa mãe e filho, interrompe o aleitamento no momento em que ele mais protege contra a desidratação que concentra, e não acrescenta segurança a quem está assintomático.

O que precisa estar definido é o gatilho de transferência, e ele é clínico: aparecimento de qualquer dos três sintomas mais comuns, hipoglicemia que recorre, alteração respiratória, ou indicação de hidratação venosa e de procedimento. Escrever esse gatilho na prescrição, junto com os horários de reavaliação e de repetição do hematócrito, é o que permite que a equipe de enfermagem chame no momento certo, e não cedo demais nem tarde demais.

04

Do número ao procedimento: confirmar o sítio, hidratar, medir sintoma

O roteiro abaixo parte de um hematócrito alto em recém-nascido e decide entre observar, hidratar e trocar. Ele não substitui a exclusão das causas que imitam o quadro, que corre em paralelo.

  1. 1Hematócrito alto de calcanhar: não indica nada. Repita por punção venosa periférica, sem garroteamento prolongado.
  2. 2Confirme o corte: hematócrito venoso periférico acima de 65% ou hemoglobina acima de 22 g/dL na primeira semana de vida.
  3. 3Situe a coleta no tempo: o pico do hematócrito e da viscosidade ocorre entre duas e quatro horas de vida.
  4. 4Classifique o mecanismo: hipóxia crônica intrauterina ou transfusão aguda de hemácias para o feto. Em gemelaridade, avalie também o irmão.
  5. 5Procure sintoma, e comece pelos três mais comuns: intolerância alimentar ou vômitos, hipoglicemia e cianose ou apneia.
  6. 6Exclua ativamente o que imita: distúrbio respiratório, cardiopatia, hipertensão pulmonar, hemorragia intracraniana, infecção, desidratação e desordens metabólicas.
  7. 7Colha o painel: hemograma, glicemia, cálcio, magnésio, bilirrubina total e frações e densidade urinária.
  8. 8Assintomático com 65% a 70%: hidratação adequada, glicemia e bilirrubina, e repetição do hematócrito em doze a vinte e quatro horas.
  9. 9Assintomático acima de 70%: observação ativa com hidratação venosa de 100 mL/kg/dia e velocidade de infusão de glicose de 6 a 8 mg/kg/min.
  10. 10Sintomático com 65% a 75%: hidratação venosa e observação rigorosa; a troca fica reservada a sintomas importantes ou progressivos.
  11. 11Indicada a troca: soro fisiológico a 0,9% como solução, alíquotas de cerca de 5 mL/kg com reposição imediata, monitorização contínua.
  12. 12Depois do procedimento: jejum inicial com vigilância abdominal, repetição do hematócrito e reavaliação de cálcio, glicemia e bilirrubina.
  13. 13Antes da alta: plano de vigilância de icterícia, de plaquetas e de desenvolvimento, com sinais de alarme escritos para a família.

O número só vale com o sítio

Corte: hematócrito venoso periférico acima de 65% ou hemoglobina acima de 22 g/dL na primeira semana. O capilar de calcanhar pode estar até quinze por cento acima do venoso. Sangue de cateter umbilical também não representa o periférico. Pico do hematócrito entre duas e quatro horas de vida.

Dois mecanismos, duas vigilâncias

Produção aumentada por hipóxia crônica: pequeno para a idade gestacional, pós-termo, mãe com doença hipertensiva da gestação, mãe com hipoxemia crônica, mãe diabética — vigie hipoglicemia. Transfusão aguda: gemelaridade monocoriônica, transfusão materno-fetal, clampeamento tardio — quadro mais agudo, avalie o irmão.

Hidratar antes de trocar

Assintomático de 65% a 70%: hidratar e repetir. Assintomático acima de 70%: hidratação venosa com 100 mL/kg/dia e velocidade de infusão de glicose de 6 a 8 mg/kg/min. Sintomático de 65% a 75%: hidratação venosa e observação rigorosa, com troca reservada a sintomas importantes ou progressivos.

Conduta por faixa de hematócrito venoso periférico

Hematócrito venosoSintomasCondutaReavaliação
65% a 70%AusentesHidratação adequada e observação; checar glicemia e bilirrubinaRepetir hematócrito em 12 a 24 horas
Acima de 70%AusentesObservação ativa e hidratação venosa com 100 mL/kg/dia e glicose a 6 a 8 mg/kg/minVigilância de sintomas e repetição do hematócrito
65% a 75%PresentesHidratação venosa e observação rigorosa; troca reservada a sintomas importantes ou progressivosReavaliação clínica frequente
Acima de 75%Presentes ou ausentesHidratação venosa e exsanguineotransfusão parcialHematócrito a cada 6 horas até 65% a 70%

Números lidos diretamente nos documentos citados

NúmeroO que ele medeFonte
Acima de 65% e acima de 22 g/dLCortes de hematócrito venoso periférico e de hemoglobina na primeira semanaAmbos os protocolos brasileiros consultados
Até 15%Quanto o hematócrito capilar pode exceder o venosoProtocolo de policitemia neonatal, código PR.CMED.017
2 a 4 horas de vidaMomento do pico do hematócrito e da viscosidadeMesmo protocolo
0,4% a 5%Incidência em recém-nascidos a termo saudáveisMesmo protocolo
Cerca de 51%Frequência de trombocitopenia entre os recém-nascidos com policitemiaMesmo protocolo
100 mL/kg/dia e 6 a 8 mg/kg/minCota hídrica e velocidade de infusão de glicose na hidratação venosaMesmo protocolo
11 vezesAumento do risco de enterocolite necrosante atribuído à troca parcialMesmo protocolo
5 mL/kgTamanho da alíquota retirada e reposta durante a troca parcialTécnica descrita nas fontes consultadas
50% a 55% e 60%Alvo declarado e valor usado no cálculo, no mesmo protocolo de serviço privadoProtocolo de policitemia neonatal de rede hospitalar privada

O hematócrito capilar de calcanhar pode estar até quinze por cento acima do venoso; um valor capilar alto indica repetir por punção venosa, nunca indicar procedimento.

A relação entre hematócrito e viscosidade não é linear, e a correlação entre os dois é imperfeita: por isso o sintoma pesa tanto quanto o número na decisão.

A troca parcial reduz a viscosidade em curto prazo, não demonstrou impacto sobre o desenvolvimento neurológico e multiplica por onze o risco de enterocolite necrosante.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual hematócrito indica a troca no recém-nascido assintomático, e para qual valor se deve baixá-lo?

Acima de 75%, com alvo de 55%

O protocolo de maternidade pública consultado reserva a troca parcial para os pacientes com hematócrito acima de 75%, ou com sintomas graves, ou com hematócrito acima de 65% em recém-nascidos com sintomas progressivos ou importantes — hipoglicemia, cianose, apneia, sintomas gastrintestinais — apesar da hidratação venosa. Na fórmula do volume a trocar, adota volemia de 80 a 100 mL/kg e hematócrito desejado de 55%. Depois do procedimento, manda repetir o hematócrito a cada seis horas até que atinja valores entre 65% e 70% em paciente assintomático.

Protocolo Policitemia Neonatal, código PR.CMED.017, revisão 00, de maternidade municipal, com referência a protocolo de rede federal de hospitais universitários

Acima de 70%, com alvo declarado de 50% a 55% e cálculo com 60%

O protocolo de rede hospitalar privada consultado indica a troca parcial em recém-nascido com hematócrito entre 65% e 70% apenas se sintomático, e em hematócrito acima de 70% independentemente dos sintomas — cinco pontos percentuais abaixo do outro documento. Declara como objetivo diminuir o hematócrito para valores entre 50% e 55%, mas na mesma página, ao descrever a fórmula, considera volemia de 90 a 100 mL/kg e hematócrito desejado de 60%. O alvo declarado e o valor usado no cálculo não coincidem dentro do próprio documento. O controle é feito com oito e vinte e quatro horas após o procedimento.

Protocolo Policitemia Neonatal de rede hospitalar privada, item de abordagem terapêutica e observações

Na prova

O que os dois documentos compartilham é seguro e é o que enunciado bem construído cobra: corte de 65% em sangue venoso periférico, soro fisiológico a 0,9% como solução de troca, e indicação firme diante de sintomas importantes ou progressivos. O que eles não compartilham é o limiar do assintomático — 70% ou 75% — e o hematócrito desejado da fórmula — 55% ou 60%. Enunciado que exija um desses dois números sem nomear a referência está apoiado em um documento específico, e a alternativa correta costuma ser a que reproduz a régua mais difundida de 55%. Se a alternativa citar o alvo, confira se ela fala do valor usado no cálculo ou do intervalo declarado como objetivo: no documento privado, esses dois números são diferentes.

A troca parcial melhora o desfecho, ou só o número?

Benefício de curto prazo, com risco intestinal medido

O protocolo de maternidade pública consultado é explícito ao registrar que o procedimento apresenta efeitos de curto prazo com redução da viscosidade e que os estudos não mostram impactos em neurodesenvolvimento. No mesmo parágrafo, lista bradicardia, apneia, trombocitopenia grave, hipocalcemia e hipopotassemia como complicações possíveis, e afirma que a troca aumenta em onze vezes o risco de enterocolite necrosante. Lidos juntos, esses dados sustentam reservar o procedimento para sintomas importantes ou progressivos que não respondem à hidratação.

Protocolo Policitemia Neonatal, código PR.CMED.017 — item de exsanguineotransfusão parcial

Indicação pelo número, independentemente de sintomas

O protocolo de rede hospitalar privada consultado organiza a indicação por faixas de hematócrito e determina a troca parcial em valores acima de 70% independentemente dos sintomas, sem condicionar a decisão a resposta prévia à hidratação venosa e sem registrar, no mesmo item, o risco intestinal associado ao procedimento. Nessa leitura, o número isolado basta para indicar a intervenção num recém-nascido que está bem.

Protocolo Policitemia Neonatal de rede hospitalar privada, item de abordagem terapêutica

Na prova

Enunciado que descreve recém-nascido assintomático com hematócrito venoso confirmado em faixa intermediária e oferece hidratação e reavaliação contra procedimento imediato está cobrando a régua conservadora, que é a resposta esperada na maioria das construções. Enunciado que descreve recém-nascido letárgico, com hipoglicemia recorrente e sintomas progressivos apesar de hidratação venosa adequada está cobrando a indicação da troca, e nele hesitar é o erro. Diante de alternativa que afirme que a troca melhora o desenvolvimento neurológico a longo prazo, a afirmação não se sustenta: o benefício documentado é hemorreológico e de curto prazo.

06

Caso resolvido

Recém-nascido a termo de 38 semanas, segundo gemelar de gestação monocoriônica, com 30 horas de vida, é avaliado no alojamento conjunto porque a mãe refere que ele está mais quieto que o irmão e mama pouco. Ao exame sob luz natural: coloração vermelho-intensa de pele e mucosas, enchimento capilar de três segundos, hipoatividade, tremulação aos estímulos, frequência respiratória de 72 irpm sem esforço, abdome flácido. O irmão gemelar está corado e ativo, com hemoglobina de 11,2 g/dL. Hematócrito colhido em calcanhar mostra 76%. Glicemia capilar de 38 mg/dL.
o que se corrige primeiro
A hipoglicemia. Ela está entre os três sintomas mais comuns da condição, decorre do consumo aumentado pela massa eritrocitária e é a única alteração do caso que produz lesão em minutos. Corrige-se de imediato e passa-se a glicemia seriada, e não a medida única.
o número que ainda não vale
O hematócrito de 76% foi colhido em calcanhar e pode estar até quinze por cento acima do venoso. Antes de qualquer decisão terapêutica, colhe-se hematócrito venoso periférico, sem garroteamento prolongado, porque um capilar alto indica repetir e nunca indica procedimento.
o mecanismo, e o que ele obriga
Gemelaridade monocoriônica com um irmão corado e o outro pletórico aponta para transfusão entre os fetos, mecanismo de transfusão aguda. Isso torna o quadro mais sintomático e mais rápido, e obriga a avaliar o irmão pelo lado oposto do problema, a anemia.
o que se exclui em paralelo
Taquipneia, hipoatividade e enchimento capilar lentificado são compartilhados com sepse, cardiopatia, hipertensão pulmonar, desidratação e distúrbio metabólico, todos nomeados como diagnósticos a afastar. Oximetria, hemograma completo, radiografia de tórax e abdome e avaliação de infecção correm junto.
o painel que acompanha
Glicemia seriada, cálcio e magnésio, bilirrubina total e frações, contagem de plaquetas — que cai em cerca de metade dos casos — e densidade urinária. A ultrassonografia de rins e vias urinárias com estudo de fluxo entra se houver hematúria ou massa em flanco, pela trombose de veia renal.
hidratar antes de trocar
Confirmado hematócrito venoso em faixa sintomática, inicia-se hidratação venosa com cota de 100 mL/kg/dia e velocidade de infusão de glicose de 6 a 8 mg/kg/min, com observação rigorosa. A troca parcial fica reservada aos sintomas importantes ou progressivos que persistem apesar dessa medida, ou ao hematócrito em faixa extrema.
se a troca for indicada
Soro fisiológico a 0,9% como solução, volume calculado pela fórmula que relaciona volemia, hematócrito observado e desejado, alíquotas de cerca de 5 mL/kg com reposição imediata e monitorização contínua. Depois: jejum inicial com vigilância abdominal pelo risco aumentado de enterocolite, repetição do hematócrito e registro da indicação e do consentimento.
07

Agora feche você

Recém-nascido a termo de 39 semanas, pequeno para a idade gestacional, filho de mãe com doença hipertensiva da gestação, está com 20 horas de vida no alojamento conjunto. Mama bem ao seio, está ativo e reativo, com coloração levemente avermelhada de pele, enchimento capilar de dois segundos, frequência respiratória de 48 irpm, abdome flácido e diurese presente. Foi colhido hematócrito por rotina de fator de risco, em punção venosa periférica sem garroteamento, com resultado de 68%. Glicemia capilar de 62 mg/dL. Bilirrubina total dentro da faixa esperada para as horas de vida.
o que o caso tem
Hematócrito venoso periférico de 68%, acima do corte de 65%, colhido pelo método correto em recém-nascido com dois fatores de risco de produção aumentada por hipóxia crônica: restrição de crescimento e doença hipertensiva materna.
o que o caso não tem
Sintomas. A criança mama bem, está ativa e reativa, tem enchimento capilar normal, frequência respiratória normal, abdome flácido, glicemia normal e bilirrubina adequada. A maioria dos recém-nascidos com policitemia é assintomática, e a evolução costuma ser benigna.
a faixa em que ele cai
Assintomático com hematócrito entre 65% e 70%. É o primeiro dos quatro cenários de conduta, e o único em que os dois protocolos brasileiros consultados coincidem plenamente ao dispensar qualquer procedimento.
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Onde a banca derruba

  1. 1Indicar procedimento com hematócrito de calcanhar O valor capilar pode estar até quinze por cento acima do venoso, porque a estase e a viscosidade concentram hemácias no local da punção. Um capilar de 72% pode corresponder a um venoso de 63%, ou seja, à normalidade. Aquecer o calcanhar reduz mas não elimina a diferença. Valor capilar alto indica repetir por punção venosa periférica, e nada mais.
  2. 2Ignorar a hora de vida ao interpretar o número O pico do hematócrito e da viscosidade ocorre entre duas e quatro horas de vida, pela passagem de plasma para o interstício. Valor limítrofe colhido no pico tende a cair sozinho com hidratação adequada; valor normal colhido na primeira hora não libera da observação um recém-nascido de risco, porque o pico ainda não chegou.
  3. 3Tratar o número e esquecer a glicemia A hipoglicemia é a companhia mais frequente da policitemia e está entre os três sintomas mais comuns. Ela decorre do consumo aumentado pela massa eritrocitária e da própria condição de base, sobretudo em criança com restrição de crescimento ou filha de mãe diabética, e exige glicemia seriada — a queda pode ocorrer horas depois de uma primeira medida normal.
  4. 4Ler a plaquetopenia como sinal de sepse Trombocitopenia ocorre em cerca de metade dos recém-nascidos com policitemia segundo o protocolo consultado. Isso não dispensa afastar infecção, que continua no diferencial, mas impede que a contagem baixa seja lida isoladamente como prova de sepse. O que ela exige é acompanhamento seriado, junto com cálcio, glicemia e bilirrubina.
  5. 5Trocar sangue antes de tentar hidratação venosa Nos protocolos consultados, o recém-nascido sintomático com hematócrito entre 65% e 75% recebe primeiro hidratação venosa com cota de 100 mL/kg/dia e velocidade de infusão de glicose de 6 a 8 mg/kg/min, com observação rigorosa, e a troca fica reservada aos sintomas importantes ou progressivos. Pular essa etapa expõe a um procedimento que multiplica por onze o risco de enterocolite.
  6. 6Usar albumina ou plasma como solução de troca A solução de troca é o soro fisiológico a 0,9%, e isso é consenso entre as fontes consultadas. Coloides não oferecem vantagem hemorreológica, custam mais e acrescentam risco de reação e de exposição a hemoderivado num procedimento cuja finalidade é justamente diluir, e não transfundir.
  7. 7Prometer que a troca protege o desenvolvimento O protocolo consultado registra que o benefício é de curto prazo, com redução da viscosidade, e que os estudos não mostram impacto sobre o desenvolvimento neurológico. Prometer à família que o procedimento resolveu o risco de longo prazo é afirmação sem base e substitui o que realmente é necessário, que é o acompanhamento programado do desenvolvimento.
  8. 8Reintroduzir a dieta sem vigiar o abdome depois do procedimento Como a troca parcial multiplica por onze o risco de enterocolite necrosante, o jejum inicial com vigilância abdominal e a reintrodução progressiva da dieta fazem parte do procedimento, e não são cautela opcional. Distensão, resíduo, vômito e sangue nas fezes precisam ser procurados ativamente e explicados à família antes da alta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A relação entre hematócrito e viscosidade sanguínea não é linear. Até certo valor, aumentos de hematócrito produzem elevações discretas de viscosidade e a oferta tecidual de oxigênio melhora com o maior conteúdo. A partir de determinado ponto, a curva se inclina abruptamente, e pequenos aumentos passam a produzir grandes elevações de viscosidade, com lentificação do fluxo em leitos de pequeno calibre e alta resistência. É essa inversão que explica por que existe um corte e por que a criança com mais hemácias pode ter menos oxigênio chegando ao tecido, com sintomas concentrados em sistema nervoso central, intestino, rim e pulmão. Também explica por que a correlação entre hematócrito e viscosidade é imperfeita, e por que o sintoma pesa tanto quanto o número na decisão. A afinidade da hemoglobina pelo oxigênio não é o mecanismo em jogo, e o corte não decorre de limitação do método de medida.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória a definição de policitemia com os dois cortes e o sítio de coleta exigido, e ao lado o quanto o hematócrito capilar pode exceder o venoso e a hora do pico. Em seguida, escreva as duas famílias de fatores de risco com três exemplos de cada e o que se vigia em cada uma. Por fim, escreva os quatro cenários de conduta por faixa de hematócrito e a fórmula do volume da troca parcial, com as duas entradas que variam entre as fontes.

em 30 dias

Monte, em dez linhas, a conduta completa diante de um recém-nascido a termo, segundo gemelar, com 36 horas de vida, letárgico e pletórico, com hematócrito de calcanhar de 74%: o que confirmar, o que colher, o que excluir, o que oferecer antes do procedimento e quando indicá-lo. Depois refaça o caso trocando um dado por vez — o hematócrito venoso confirmado vem 63%; o bebê está assintomático com venoso de 68%; há hipoglicemia recorrente apesar de hidratação venosa adequada; o venoso vem 78% em bebê que mama bem — e diga o que cada troca muda na conduta e por quê.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é chamado à unidade neonatal para avaliar um recém-nascido pletórico e letárgico cujo hematócrito veio alto. Confirme o número pelo sítio correto, investigue o mecanismo com a mãe e com a equipe, exclua o que imita o quadro, decida entre hidratar e trocar com a régua de sintomas, e explique à família o que o procedimento resolve e o que ele custa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Policitemia e síndrome de hiperviscosidade neonatal – Policitemia neonatal: o número muda com o sítio da agulha, e a troca parcial cobra caro — Preparatório para provas | OsceLabs