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Hipotonia na infância: separar o neurônio motor do músculo, e o prazo que a norma brasileira impõe

Doenças neuromusculares da infância: atrofia muscular espinhal, distrofinopatia e a criança hipotônica

Distinguir no leito a hipotonia de origem central da periférica, reconhecer o padrão do neurônio motor inferior, saber qual exame fecha cada diagnóstico e conhecer os limites de idade que o protocolo federal impõe ao tratamento da atrofia muscular espinhal.

01

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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Na avaliação de um lactente de três meses trazido por queixa de que é muito molinho, o médico deseja separar hipotonia de origem central de hipotonia de origem periférica ainda no leito, sem exames. Qual conjunto de achados aponta para origem periférica?

02

Como esse tema cai

A queixa quase nunca vem com o nome certo. A mãe diz que o bebê é molinho, que escorrega do colo, que cansa para mamar. O irmão mais velho, aos quatro anos, cai muito e demora para levantar do chão. São duas cenas diferentes, com dois mecanismos diferentes, e o que separa uma da outra cabe no exame de um lactente sobre a maca e numa pergunta sobre quando a criança andou.

O eixo que organiza tudo é a divisão entre hipotonia de origem central e hipotonia de origem periférica. A central vem com força relativamente preservada, reflexos vivos e, quase sempre, comprometimento do contato. A periférica vem com fraqueza real, reflexos deprimidos ou abolidos e uma criança que interage bem — e é dentro dela que moram a doença do neurônio motor, a doença da junção neuromuscular e a doença do músculo.

O segundo eixo é temporal e vale ouro: a criança nunca conquistou o marco, ou conquistou e perdeu? Nunca conquistar aponta para uma via; perder o que já se tinha aponta para outra. E o terceiro eixo, o que mais muda conduta no Brasil de hoje, é o do relógio: existe protocolo federal que paga tratamento modificador para a atrofia muscular espinhal, e ele traz limites de idade contados em meses. O texto a seguir percorre esses três eixos, com os números lidos diretamente nos documentos citados.

03

O que muda decisão

O lactente hipotônico: quatro manobras que separam o centro da periferia

Como usar este capítulo: diferencie hipotonia central de periférica pelo estado de alerta, força, reflexos e padrão de fraqueza. Depois localize corno anterior, nervo, junção ou músculo e escolha o teste; insuficiência respiratória e dificuldade de deglutição têm prioridade sobre o rótulo etiológico.

A avaliação do tônus no lactente não depende de equipamento, e as quatro manobras clássicas respondem à pergunta em poucos minutos. A primeira é a tração: segurando as mãos do bebê em decúbito dorsal e puxando-o suavemente para sentar, observa-se o que a cabeça faz. Atraso do movimento da cabeça em relação ao tronco é esperado no recém-nascido; num lactente de três a quatro meses, uma cabeça que fica para trás e depois pende para a frente é achado patológico.

A segunda é a suspensão ventral: com a mão sob o abdome, o bebê é erguido na horizontal. Quem tem tônus adequado sustenta a cabeça na linha do tronco, flete os cotovelos e mantém os quadris parcialmente fletidos. Quem está hipotônico se dobra sobre a mão como um pano, com a cabeça e os membros pendentes. A terceira é a suspensão vertical pelas axilas: a criança com fraqueza proximal escorrega entre as mãos de quem a segura, porque não consegue fixar a cintura escapular.

A quarta é a postura em repouso. O lactente com fraqueza de origem periférica assume a chamada postura em abdução, com as coxas afastadas e rodadas para fora e os braços apoiados ao lado da cabeça, e mexe pouco contra a gravidade — os movimentos que restam acontecem nas mãos e nos pés, distalmente.

Feito isso, três achados decidem o lado da divisão. Reflexos osteotendinosos vivos ou exaltados, com ou sem sinal de liberação piramidal, empurram para causa central; reflexos deprimidos ou abolidos empurram para a periferia. Contato social preservado — o bebê acompanha com o olhar, sorri, reage à voz da mãe — sugere fortemente que o encéfalo está poupado. E a história perinatal, com intercorrência de parto, necessidade de reanimação ou convulsão precoce, reorienta para causa central adquirida.

Vale dizer o que esse exame não decide. Ele não separa a doença do neurônio motor da doença do músculo, porque as duas produzem fraqueza com reflexos deprimidos. Para essa segunda divisão são necessários outros dados: a língua, o tórax, a curva de creatinoquinase e o teste molecular.

A tríade que aponta o corno anterior da medula

Quando a hipotonia é periférica, três achados apontam especificamente para a degeneração dos neurônios motores da medula e do tronco encefálico, que é o mecanismo da atrofia muscular espinhal.

O primeiro é a fasciculação de língua. Ela se procura com a boca em repouso, sem choro e sem estímulo, porque o tremor do choro imita e engana. O que se vê é um repuxar fino e contínuo das bordas e da superfície da língua, e ele é sinal de desnervação. O protocolo federal de atrofia muscular espinhal descreve, no mesmo bloco de achados, a preservação da mímica facial e da interação com quem atende — o bebê acompanha com o olhar e sorri enquanto o corpo não se move.

O segundo é a arreflexia. O documento federal registra que a fraqueza é progressiva, geralmente simétrica, mais proximal que distal, com predomínio nos membros inferiores, sensibilidade preservada e reflexos tendinosos ausentes ou diminuídos, com fasciculações presentes.

O terceiro é o padrão respiratório. O mesmo texto descreve fraqueza dos músculos intercostais, tórax em forma de sino e respiração paradoxal — o abdome se expande na inspiração enquanto o tórax se retrai, porque o diafragma trabalha sozinho contra uma parede torácica que não o acompanha. É um achado de inspeção, visível da porta do consultório, e é ele que dá o risco de vida a curto prazo.

A soma desses três com preservação do contato compõe um quadro reconhecível: um bebê alerta, sorridente, que não levanta os braços da maca, respira com o abdome e engasga ao mamar. Quando o quadro está completo, a investigação não precisa passear — vai direto ao teste genético.

O teste que fecha a atrofia muscular espinhal, e os três que ficaram para trás

A doença é causada pela ausência homozigótica do éxon 7 e, eventualmente, do éxon 8 do gene SMN1, e o diagnóstico é molecular. O protocolo federal é explícito sobre o método: o padrão de referência é a análise quantitativa de SMN1 e SMN2 por MLPA ou por reação em cadeia da polimerase quantitativa, e a ausência das duas cópias completas de SMN1, comprovada por um desses dois métodos, confirma o diagnóstico.

Há uma minoria que não fecha assim. Quem tem deleção em um alelo e mutação de ponto no outro, ou mutação de ponto em homozigose nos casos de consanguinidade, precisa de sequenciamento adicional para confirmar. Na prática, isso significa que um resultado que mostra apenas uma cópia de SMN1 não encerra a investigação em criança com quadro compatível — encaminha para o passo seguinte.

O ponto que mais surpreende quem aprendeu a investigar hipotonia pela via clássica é o que o mesmo documento diz sobre os exames antigos: de forma geral, não há necessidade de biópsia muscular, de eletroneuromiografia ou de dosagem sérica de creatinoquinase para diagnosticar a doença. Os três exames que durante décadas organizaram a investigação do lactente hipotônico saíram do caminho quando o teste molecular ficou disponível.

Isso não os aposenta em geral, e a distinção importa. Eles continuam sendo a via para as outras hipóteses — a creatinoquinase é o que levanta a suspeita de doença primária do músculo, e a eletroneuromiografia é o que caracteriza a doença da junção neuromuscular. O que mudou foi a ordem: diante do quadro típico de doença do neurônio motor, o teste molecular vem primeiro e costuma encerrar a questão.

Há ainda um dado prático de tempo. Como a gravidade se correlaciona com a idade de início — e quanto mais precoce o começo dos sinais, mais rápido precisa ser o diagnóstico, segundo o próprio protocolo —, atrasar o teste molecular para colher exames que não confirmam nada é perder janela terapêutica, e não apenas dinheiro.

Os tipos, as cópias e o que cada número significa

A classificação por tipos organiza a doença pela idade de início e pelo marco motor mais alto alcançado. O quadro do protocolo federal traz quatro linhas. O tipo 1 responde por cerca de 60% dos casos, tem duas a três cópias de SMN2, início entre zero e seis meses, mediana de sobrevida abaixo de dois anos e marco máximo de sentar com apoio. O tipo 2 responde por cerca de 27%, tem três cópias, início entre sete e dezoito meses, sobrevida mediana acima de dois anos podendo chegar aos trinta e cinco, e marco máximo de sentar sem apoio.

O tipo 3 responde por cerca de 13%, tem três a quatro cópias, início após os dezoito meses, expectativa de vida normal e capacidade de ficar de pé e andar sem apoio. O tipo 4 aparece em adultos, com quatro ou mais cópias, e caminha na idade adulta. Há ainda o subtipo de apresentação pré-natal, com nenhum marco alcançado e morte em semanas.

O gene SMN2 merece explicação porque é o que quase toda questão cobra. Ele é um gene quase idêntico ao SMN1, mas produz proteína funcional em pequena fração; quanto mais cópias, mais proteína, e mais leve tende a ser o fenótipo. O protocolo diz as duas coisas ao mesmo tempo: o número de cópias é um fator importante de classificação e, isoladamente, não define o fenótipo — a idade de início e as funções motora e respiratória precisam entrar na avaliação.

Essa dupla afirmação tem consequência prática. Uma criança com três cópias pode se comportar como tipo 1 ou como tipo 2, e é a clínica que decide o rótulo. Mas o número de cópias volta como critério administrativo do lado do tratamento, e aí ele é rígido — o que gera a situação incômoda de um número que não define a doença e define o acesso.

Duas silhuetas de bebê suspensas na horizontal por uma mão sob o abdome: na primeira o corpo forma uma linha reta com cabeça alinhada e membros fletidos; na segunda o corpo se dobra em U invertido com cabeça e membros pendentes.
Na suspensão ventral, o corpo que se dobra sobre a mão de apoio, com cabeça e membros pendentes, é o achado que define hipotonia; o alinhamento da cabeça com o tronco e a flexão dos cotovelos indicam tônus adequado.

O que o Sistema Único de Saúde paga, e o prazo contado em meses

O protocolo federal vigente cobre os tipos 1 e 2 e disponibiliza três medicamentos: nusinersena, risdiplam e onasemnogeno abeparvoveque. Todos exigem diagnóstico genético confirmado e até três cópias de SMN2, além de condições adequadas de nutrição e hidratação, com ou sem gastrostomia, e calendário de vacinação em dia.

O medicamento de terapia gênica tem a janela mais estreita e é onde as questões costumam morder. Entram indivíduos com até seis meses de idade na data da solicitação e idade máxima de sete meses na data da infusão, com diagnóstico genético confirmado de tipo 1, até três cópias de SMN2, desde que não estejam em ventilação mecânica invasiva por mais de dezesseis horas por dia. Vale para pré-sintomáticos e para sintomáticos com início dos sintomas até o sexto mês de vida.

O nusinersena é intratecal, com fase inicial de três doses de 12 mg a cada quatorze dias, nos dias zero, quatorze e vinte e oito, uma quarta dose trinta dias após a terceira, e manutenção de 12 mg a cada quatro meses. O protocolo registra que não preconiza ajuste de dose, por ausência de evidência para esquemas diferentes do de bula. Antes de administrar, recomenda-se aspirar volume de líquido cefalorraquidiano igual ao que será injetado.

O risdiplam é oral e diário, com dose que muda por idade e peso: 0,15 mg/kg de dezesseis dias a menos de dois meses; 0,20 mg/kg de dois meses a menos de dois anos; 0,25 mg/kg a partir de dois anos com menos de vinte quilos; e 5 mg a partir de dois anos com vinte quilos ou mais. O ajuste deve ser reavaliado pelo menos uma vez por mês até a criança atingir vinte quilos.

No tipo 2, além do início dos sintomas entre seis e dezoito meses, há uma régua de idade própria: entram os que começam o tratamento até doze anos; acima disso, apenas quem preserva a capacidade de sentar sem apoio e a função dos membros superiores.

Os critérios que excluem, e por que dois tetos de ventilação convivem

Os critérios de exclusão do protocolo federal são o trecho menos lido e o mais cobrado, porque contêm números que se parecem e não são iguais.

Para nusinersena, ficam de fora as apresentações mais precoces — manifestações presentes ao nascimento ou na primeira semana de vida — e as mais tardias, com manifestações após os dezoito meses. Fica de fora também quem tem necessidade de ventilação mecânica invasiva entendida como vinte e quatro horas por dia, continuamente, por vinte e um dias ou mais. Somam-se contraturas ou escoliose graves que inviabilizem a punção, doença cerebral ou medular que impeça a administração intratecal ou a circulação liquórica, derivação implantada para drenagem do líquido cefalorraquidiano e cateter de sistema nervoso central implantado.

Para risdiplam, os limites de subtipo são os mesmos e o teto de ventilação também é o de vinte e quatro horas por dia por vinte e um dias ou mais; acrescenta-se a idade inferior a dezesseis dias de vida, por ausência de estudos de segurança e eficácia nessa faixa.

Para a terapia gênica, o teto de ventilação é outro: mais de dezesseis horas por dia já exclui. Também excluem título de anticorpos contra o vírus adenoassociado sorotipo 9 igual ou maior que 1:50, infecção viral ativa de qualquer natureza, alergia conhecida a glicocorticoide e incapacidade de deglutição avaliada pelo médico responsável. O documento acrescenta uma saída explícita: manejada a infecção viral, se a criança já passou dos seis meses, restam as duas alternativas de uso continuado.

A convivência dos dois tetos não é descuido de redação. Eles vêm de populações de estudo diferentes e cumprem funções diferentes: um marca a fronteira do que se considera doença já estabelecida em ventilação permanente; o outro marca o limite de segurança de uma infusão única e irreversível. Quem lê o protocolo procurando um número só sai com o número errado.

A troca entre medicamentos e o que conta como falha

O protocolo federal prevê troca nos dois sentidos entre nusinersena e risdiplam, mediante relatório médico e questionário de avaliação clínica, e lista os motivos aceitos. Do lado do medicamento intratecal, entram reações adversas graves, evolução para contraturas ou escoliose que inviabilizem a punção, surgimento de doença cerebral ou medular que impeça a via, necessidade de derivação liquórica e não adesão por preferência quanto à via de administração.

O critério de inefetividade é o que interessa numa questão, porque é numérico. Considera-se falha a regressão nos indicadores de mobilidade medida pelas escalas de função motora usadas em lactentes e em crianças maiores, após doze meses de tratamento ou antes disso a critério médico, sempre com o resultado de duas avaliações consecutivas. Uma perda maior que dois pontos na escala é considerada regressão.

Repare no desenho: não basta uma medida ruim, e não basta piorar um ponto. São necessárias duas avaliações seguidas e uma perda que ultrapasse dois pontos. Esse rigor existe porque as escalas têm variabilidade entre aplicações, e porque interromper um tratamento modificador com base em ruído de medida é dano maior que manter.

O documento também define o que conta como benefício para manter o tratamento: no tipo 1, manutenção da pontuação da escala de lactentes acima de quarenta pontos em relação à linha de base; ausência de necessidade de ventilação permanente, definida como traqueostomia ou dezesseis horas ou mais de suporte ventilatório; não regredir na função motora atingida — sustentar a cabeça, sentar, ficar de pé ou andar; e alcance da capacidade de sentar por pelo menos trinta segundos até os trinta e seis meses.

Na terapia gênica há um cuidado à parte que aparece pouco no ensino e muito na prática: por risco de elevação de aminotransferases, todos recebem corticoide sistêmico por via oral desde o dia anterior à infusão e diariamente por trinta dias depois, com prednisolona 1 mg/kg/dia ou equivalente, com redução gradual ao longo dos vinte e oito dias seguintes se a função hepática estiver normal.

O menino que andou e depois andou mal: a distrofinopatia

A segunda grande doença neuromuscular da infância tem outra cena. O menino andou na idade esperada, e entre os dois e os cinco anos começa a cair com frequência, a subir escada com dificuldade, a correr menos que os colegas. Ninguém o descreve como molinho — descrevem-no como desastrado.

O exame tem assinatura própria. A manobra de levantar do chão mostra a criança que rola para decúbito ventral, apoia as mãos no solo, ergue o quadril e depois sobe escalando as próprias coxas com as mãos, porque a cintura pélvica não sustenta a extensão. A panturrilha aumentada e de consistência firme completa o quadro, e o aumento é de substituição por tecido fibroso e gorduroso, não de força. A marcha ganha hiperlordose lombar e apoio nas pontas dos pés, e o encurtamento do tendão calcâneo se instala cedo.

A fraqueza é proximal e simétrica, os reflexos patelares se apagam antes dos aquileus, e há um dado que engana quem espera doença só motora: atraso de linguagem e dificuldade de aprendizagem acompanham parte considerável dos meninos, porque a proteína também é expressa no encéfalo.

O exame que muda tudo é barato e está em qualquer laboratório. A creatinoquinase na distrofinopatia está muito elevada desde o período pré-sintomático, tipicamente dezenas de vezes acima do limite superior, e um valor normal praticamente afasta a hipótese. É o inverso exato do que acontece na doença do neurônio motor, em que a enzima é normal ou pouco elevada e não serve de triagem.

Confirmado o rastreio enzimático, a etapa seguinte é molecular: pesquisa de deleções e duplicações do gene da distrofina e, se negativa em quadro compatível, sequenciamento. A biópsia muscular com estudo da proteína ficou reservada para os casos em que a genética não fecha. A herança é recessiva ligada ao X, o que traz para a consulta a irmã e a mãe como possíveis transmissoras e faz do aconselhamento genético parte da conduta, e não um adendo.

O corticoide da distrofinopatia e a régua brasileira

O tratamento que mais muda história natural na distrofinopatia é o corticoide, e o objetivo dele é prolongar a marcha independente, adiar a escoliose e proteger a função respiratória e cardíaca. O consenso brasileiro sobre a doença recomenda iniciar preferencialmente na fase de platô do desempenho motor — o momento em que a criança para de ganhar habilidades novas e ainda não começou a perdê-las —, e admite início a partir dos dois anos de idade.

Os dois esquemas usados são prednisona ou prednisolona a 0,75 mg/kg/dia e deflazacorte a 0,9 mg/kg/dia. A escolha entre eles pesa perfil de efeito adverso e disponibilidade: ganho de peso tende a ser maior com o primeiro, e catarata é descrita com mais frequência com o segundo. No elenco público brasileiro, prednisona e prednisolona são as que estão disponíveis com facilidade.

O acompanhamento é multiprofissional e tem calendário. Função respiratória com espirometria e medidas de tosse; função cardíaca com ecocardiograma periódico e início precoce de inibidor da enzima conversora mesmo antes de disfunção clínica; densidade óssea e vitamina D pelo risco de fratura vertebral do corticoide; fisioterapia com alongamento diário do tendão calcâneo; e vigilância da coluna, porque a escoliose progride depressa quando a marcha se perde.

A diferença de estrutura normativa entre as duas doenças é o que mais confunde. A atrofia muscular espinhal tem protocolo federal com critérios de inclusão, de exclusão, de troca e de monitoramento escritos linha a linha. A distrofinopatia tem a régua distribuída entre consenso de sociedade, pareceres técnicos de apoio à decisão judicial e prática de serviço, e é por isso que perguntas sobre ela cobram conduta clínica e prognóstico, enquanto perguntas sobre a primeira cobram números administrativos.

Uma consequência prática vale registro: a criança com distrofinopatia em corticoide crônico é imunossuprimida para efeitos de vacinação e de manejo de infecção, e o uso prolongado desloca a conversa sobre profilaxia e sobre vacinas de vírus vivo para dentro da consulta de rotina.

As duas que imitam e mudam a conduta em horas

Nem toda hipotonia periférica aguda é degenerativa, e duas hipóteses precisam ser afastadas ativamente porque têm tratamento e janela curta.

A primeira é o botulismo do lactente. Ele acomete tipicamente crianças abaixo de um ano, com pico entre dois e oito meses, e a cena é reconhecível: constipação de instalação recente abrindo o quadro, seguida de fraqueza descendente que começa nos nervos cranianos — ptose, oftalmoparesia, choro fraco, sucção débil, redução da expressão facial — e desce para os membros. As pupilas podem ficar pouco reativas, o que é achado incomum nas outras doenças neuromusculares e serve de pista. A pergunta sobre mel oferecido antes de um ano é obrigatória, embora a maioria dos casos não tenha essa exposição identificada, e a fonte ambiental costuma ser poeira e solo. O diagnóstico se faz pela pesquisa do agente e da toxina nas fezes, e o tratamento é de suporte com imunoglobulina específica, o que torna a suspeita precoce decisiva.

A segunda é a doença da junção neuromuscular. Nas formas congênitas, a fraqueza flutua ao longo do dia e piora com o esforço, e a ptose que aumenta ao fim da tarde é a queixa que a família descreve como olhinho caindo. Nas formas transitórias do recém-nascido filho de mãe com a doença autoimune, o quadro se instala nas primeiras horas e regride em semanas. A eletroneuromiografia com estimulação repetitiva é o exame que caracteriza, e a resposta a inibidor da colinesterase pode ser diagnóstica e terapêutica ao mesmo tempo.

Fecham a lista as causas metabólicas de depósito com acometimento muscular, em que a combinação de hipotonia grave, cardiomegalia e creatinoquinase elevada em lactente pequeno pede investigação enzimática dirigida, porque também há tratamento de reposição disponível.

O denominador comum das três é o tempo. Diferentemente da doença do neurônio motor, em que o teste molecular pode esperar alguns dias, essas hipóteses cobram decisão no mesmo plantão — e a pergunta que as levanta é sempre a mesma: o quadro é estático, progressivo ou flutuante?

A conversa que a família precisa ter, e a herança que muda o próximo filho

O aconselhamento genético não é um encaminhamento burocrático. As duas doenças principais deste conjunto têm heranças diferentes, e os números que a família recebe mudam decisões reprodutivas concretas.

A atrofia muscular espinhal é autossômica recessiva: pais heterozigotos têm risco de um em quatro a cada gestação, meninos e meninas igualmente. A consanguinidade aumenta a probabilidade de dois portadores se encontrarem, e por isso a pergunta sobre parentesco entre os pais faz parte da anamnese. O protocolo federal recomenda que o aconselhamento seja feito por pessoal adequadamente capacitado, e que a criança com suspeita seja encaminhada preferencialmente a serviço especializado ou de referência em doenças raras.

A distrofinopatia é recessiva ligada ao X: a mãe transmissora tem risco de metade dos filhos homens afetados e metade das filhas transmissoras. Uma fração relevante dos casos surge por mutação nova, sem transmissora identificável, e isso precisa ser dito, porque a suposição automática de culpa materna aparece em quase toda consulta.

A triagem neonatal ampliada entra aqui. A lei federal que reorganizou o teste do pezinho incluiu a atrofia muscular espinhal no rastreamento, e o próprio protocolo do medicamento registra essa inclusão em nota. O sentido clínico é direto: identificar antes dos sintomas é o que permite tratar dentro da janela em que o neurônio motor ainda existe, porque o tratamento impede perda adicional e não devolve o que já se perdeu.

Por fim, o que dizer sobre prognóstico sem prometer o que não se pode. Na forma mais grave, o tratamento mudou a história natural de uma doença que levava à morte ou à ventilação permanente antes dos dois anos, mas o ganho depende de quanto neurônio restava quando o tratamento começou. Essa frase, dita cedo e sem rodeio, é o que sustenta a urgência do encaminhamento aos olhos da família.

04

Da criança mole à decisão: separar, localizar, testar

O roteiro abaixo cabe numa primeira consulta e não fecha diagnóstico. Ele decide se a investigação vai para o encéfalo, para o corno anterior, para o músculo ou para a junção neuromuscular — e quanto tempo se pode esperar.

  1. 1Confirme que há fraqueza, e não apenas frouxidão: mobilidade contra a gravidade, força de sucção, capacidade de sustentar a cabeça na tração.
  2. 2Faça tração, suspensão ventral e suspensão vertical, e descreva o que a cabeça, os cotovelos e os quadris fazem em cada uma.
  3. 3Pesquise reflexos osteotendinosos. Vivos ou exaltados apontam para causa central; deprimidos ou abolidos apontam para causa periférica.
  4. 4Avalie contato social, mímica facial e acompanhamento visual. Contato preservado com corpo imóvel empurra fortemente para doença periférica.
  5. 5Olhe a língua em repouso, sem choro, procurando fasciculação, e olhe o tórax procurando forma de sino e respiração paradoxal.
  6. 6Estabeleça a linha do tempo: nunca conquistou o marco, conquistou e perdeu, ou o quadro flutua ao longo do dia?
  7. 7Quadro típico de neurônio motor inferior: peça análise quantitativa de SMN1 e SMN2 por MLPA ou reação em cadeia da polimerase quantitativa.
  8. 8Menino que andou e passou a cair, com manobra de levantar do chão positiva e panturrilha firme: peça creatinoquinase antes de qualquer imagem.
  9. 9Constipação recente com fraqueza descendente e comprometimento de nervos cranianos em lactente: pense em botulismo e não espere o teste molecular.
  10. 10Fraqueza que flutua e ptose que piora ao fim do dia: eletroneuromiografia com estimulação repetitiva e avaliação de junção neuromuscular.
  11. 11Confirmada atrofia muscular espinhal: encaminhamento imediato a serviço de referência, avaliação de deglutição e de suporte ventilatório, aconselhamento genético.

Central × periférica

Central: reflexos vivos, contato comprometido, força relativamente preservada, história perinatal frequente. Periférica: reflexos deprimidos ou abolidos, contato preservado, fraqueza real, movimento residual distal. A divisão se faz no leito, antes de qualquer exame.

A tríade do corno anterior

Fasciculação de língua em repouso, arreflexia global e tórax em sino com respiração paradoxal, num bebê que sorri e acompanha com o olhar. Fraqueza simétrica, mais proximal que distal, com predomínio em membros inferiores e sensibilidade preservada.

Neurônio motor × músculo

Creatinoquinase normal ou pouco elevada, fasciculação de língua e arreflexia precoce: corno anterior, e o teste é molecular. Creatinoquinase dezenas de vezes elevada, manobra de levantar do chão positiva, panturrilha firme em menino que já andou: músculo, e o teste começa pela enzima.

Os quatro tipos de atrofia muscular espinhal segundo o protocolo federal

TipoProporçãoCópias de SMN2Início dos sintomasMarco motor máximoSobrevida mediana
Tipo 160%2 a 30 a 6 mesesSenta com apoioMenos de 2 anos
Tipo 227%37 a 18 mesesSenta sem apoioMais de 2 anos até 35 anos
Tipo 313%3 a 4Após 18 mesesFica de pé e anda sem apoioNormal
Tipo 4Não informada4 ou maisIdade adultaCaminha na idade adultaNormal

Números lidos diretamente nos documentos citados

NúmeroO que ele medeFonte
Até 3 cópias de SMN2Teto para inclusão em qualquer dos três medicamentosPCDT AME 5q tipos 1 e 2 (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 3/2025)
6 meses na solicitação e 7 meses na infusãoJanela de idade da terapia gênicaMesmo protocolo, item de critérios de inclusão
16 dias de vidaIdade mínima para uso do risdiplamMesmo protocolo, item de critérios de exclusão
12 anosIdade limite de início no tipo 2, exceto se preservada a capacidade de sentar sem apoio e a função de membros superioresMesmo protocolo
12 mgDose de nusinersena por via intratecal, na fase inicial e na manutençãoMesmo protocolo, item de tratamento
0,15 / 0,20 / 0,25 mg/kg e 5 mgDoses diárias de risdiplam por faixa de idade e pesoMesmo protocolo, quadro de esquema posológico
Mais de 2 pontos em 2 avaliações consecutivasDefinição de regressão que caracteriza inefetividadeMesmo protocolo, item de troca de tratamento
1 mg/kg/dia de prednisolonaCorticoide oral desde o dia anterior até 30 dias após a terapia gênicaMesmo protocolo, item de monitoramento
Etapa 5 de 5Posição da atrofia muscular espinhal no escalonamento da triagem neonatalLei federal nº 14.154, de 26 de maio de 2021

Creatinoquinase normal não afasta doença do neurônio motor e praticamente afasta distrofinopatia — a mesma enzima tem valores opostos de utilidade nas duas hipóteses.

O protocolo federal registra que biópsia muscular, eletroneuromiografia e creatinoquinase são dispensáveis para diagnosticar a atrofia muscular espinhal, porque o teste molecular é o padrão de referência.

Os limites de ventilação mecânica invasiva não coincidem entre os medicamentos: dezesseis horas por dia para a terapia gênica; vinte e quatro horas por dia por vinte e um dias ou mais para as demais.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A lei põe a atrofia muscular espinhal na última etapa do teste do pezinho, e o tratamento tem prazo de sete meses

A lei escalona, e põe esta doença por último

A lei federal que ampliou o Programa Nacional de Triagem Neonatal organiza a implantação em cinco etapas sucessivas. A primeira reúne fenilcetonúria e outras hiperfenilalaninemias, hipotireoidismo congênito, doença falciforme e outras hemoglobinopatias, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita, deficiência de biotinidase e toxoplasmose congênita. A segunda traz galactosemias, aminoacidopatias, distúrbios do ciclo da ureia e distúrbios da betaoxidação de ácidos graxos. A terceira, doenças lisossômicas. A quarta, imunodeficiências primárias. A atrofia muscular espinhal está na quinta e última.

Lei federal nº 14.154, de 26 de maio de 2021, que altera a Lei nº 8.069/1990 e organiza a ampliação do Programa Nacional de Triagem Neonatal

O protocolo do medicamento conta o prazo em meses

O protocolo federal do tratamento admite a terapia gênica em criança com até seis meses de idade na data da solicitação e no máximo sete meses na data da infusão, e admite explicitamente o uso em pré-sintomáticos, cuja identificação depende de rastreamento populacional. O mesmo documento traz, em nota do quadro clínico, o registro de que a lei federal de 2021 incluiu o diagnóstico da doença em recém-nascidos no exame conhecido como teste do pezinho.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Atrofia Muscular Espinhal 5q tipos 1 e 2 (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 3, de 20 de março de 2025) — itens de critérios de inclusão e nota do Quadro 2

Na prova

Enunciado que pergunta o que a triagem neonatal do Sistema Único de Saúde detecta hoje deve ser lido pela etapa efetivamente implantada no território descrito, não pela lista completa da lei — o escalonamento é parte da norma. Enunciado que pergunta o limite de idade da terapia gênica cobra os dois números do protocolo, seis meses para solicitar e sete para infundir, e não um número só. E enunciado que descreve lactente pré-sintomático identificado por antecedente familiar está cobrando a via que existe hoje para chegar cedo, que é o teste feito por indicação e não o rastreamento universal.

Onde entra a creatinoquinase na investigação da criança fraca

Dispensável quando a hipótese é o neurônio motor

O protocolo federal afirma que, de forma geral, não há necessidade de realização de biópsia muscular, eletromiografia ou mensuração dos níveis séricos de creatinoquinase para o diagnóstico, porque o padrão de referência é a análise quantitativa de SMN1 e SMN2 por MLPA ou por reação em cadeia da polimerase quantitativa, e a homozigose para a ausência do gene confirma a doença.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Atrofia Muscular Espinhal 5q tipos 1 e 2 (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 3/2025) — item de diagnóstico clínico e genético

Primeiro exame quando a hipótese é o músculo

Nas distrofinopatias, a régua brasileira de conduta descrita em consenso de especialistas parte de uma creatinoquinase muito elevada em menino com atraso motor ou perda de marcha, antes de qualquer teste molecular, e reserva a biópsia com estudo da proteína para os casos em que a genética não confirma. O mesmo consenso situa o início do corticoide na fase de platô do desempenho motor, a partir dos dois anos, com prednisona ou prednisolona a 0,75 mg/kg/dia ou deflazacorte a 0,9 mg/kg/dia.

Consenso brasileiro sobre distrofia muscular de Duchenne, e pareceres técnicos de apoio à decisão judicial que descrevem a terapia padrão disponível no Sistema Único de Saúde

Na prova

As duas posições não se contradizem: elas respondem a perguntas diferentes, e o que decide qual vale é o quadro descrito. Fasciculação de língua, arreflexia e respiração paradoxal em lactente cobram teste molecular direto. Menino de quatro a cinco anos que já andou, com manobra de levantar do chão positiva e panturrilha firme, cobra creatinoquinase primeiro. Enunciado que ofereça biópsia muscular como primeira escolha em qualquer dos dois cenários está oferecendo a conduta antiga.

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Caso resolvido

Lactente do sexo masculino, cinco meses, é levado à unidade básica porque a mãe percebeu que ele parou de levantar os braços e cansa para mamar. Nasceu a termo, sem intercorrências, e sustentava a cabeça aos três meses; hoje não sustenta mais. Está alerta, sorri para a mãe e acompanha objetos com o olhar. Ao exame: hipotonia global acentuada, escorrega ao ser erguido pelas axilas, dobra-se sobre a mão do médico na suspensão ventral, movimenta apenas dedos e pés, reflexos osteotendinosos abolidos nos quatro membros, língua com repuxar fino e contínuo em repouso, tórax estreito na porção superior e movimento abdominal amplo com retração torácica na inspiração. Os pais são primos em primeiro grau.
quadro clínico
Hipotonia com fraqueza real, reflexos abolidos e contato social íntegro definem hipotonia de origem periférica. Fasciculação de língua, arreflexia e respiração paradoxal com tórax em sino localizam a lesão no corno anterior da medula e no tronco encefálico.
linha do tempo
A criança conquistou o controle cefálico e o perdeu, com início dos sinais dentro dos seis primeiros meses de vida. Esse padrão de perda em lactente pequeno corresponde à forma mais grave e mais frequente da doença, que responde por cerca de sessenta por cento dos casos.
o que descartar
Botulismo do lactente foi afastado pela ausência de constipação recente e de fraqueza descendente com comprometimento de nervos cranianos. Doença da junção neuromuscular é improvável pela ausência de flutuação e de ptose. Causa central é improvável pelo contato preservado e pelos reflexos abolidos.
exame que confirma
Análise quantitativa de SMN1 e SMN2 por MLPA ou por reação em cadeia da polimerase quantitativa. A ausência das duas cópias completas de SMN1 confirma o diagnóstico, e a contagem de cópias de SMN2 entra no prognóstico e na elegibilidade ao tratamento. Biópsia muscular, eletroneuromiografia e creatinoquinase são dispensáveis aqui.
urgência do encaminhamento
Encaminhamento imediato a serviço de referência em doenças raras. Aos cinco meses, a janela da terapia gênica ainda está aberta — seis meses na data da solicitação e sete meses na data da infusão —, e cada semana de espera pela consulta consome parte dela.
suporte que não espera o laudo
Avaliação de deglutição pelo engasgo às mamadas, com plano de via alternativa se houver risco de aspiração; avaliação respiratória com fisioterapia e técnicas de tosse assistida e definição sobre suporte não invasivo noturno; garantia de nutrição e hidratação adequadas, que o próprio protocolo exige como condição para tratar.
aconselhamento genético
Herança autossômica recessiva, com risco de um em quatro a cada gestação e consanguinidade aumentando a chance de encontro de dois heterozigotos. O casal deve ser encaminhado para aconselhamento por profissional capacitado, e a discussão sobre gestações futuras entra na mesma conversa.
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Agora feche você

Menino de cinco anos é trazido pela avó à unidade básica porque cai muito no parque e não consegue acompanhar os primos. Andou com um ano e três meses, fala bem e frequenta a escola, onde a professora relata dificuldade para acompanhar a turma na alfabetização. Ao exame: alerta, marcha com hiperlordose lombar e apoio nas pontas dos pés, panturrilhas volumosas e de consistência firme à palpação, fraqueza proximal simétrica em cintura pélvica, reflexo patelar ausente e aquileu presente, e ao ser solicitado a levantar do chão ele rola para decúbito ventral, apoia as mãos no solo, ergue o quadril e sobe escalando as próprias coxas com as mãos. Não há fasciculação de língua nem alteração do padrão respiratório.
o que o quadro exclui
Marco motor conquistado na idade esperada e perdido só depois, sem fasciculação de língua e sem respiração paradoxal, afasta a doença do corno anterior de apresentação precoce. Não há flutuação ao longo do dia nem ptose, o que torna improvável a doença da junção neuromuscular.
o padrão que se reconhece
Fraqueza proximal simétrica em menino que já andava, com manobra de levantar do chão positiva, panturrilha aumentada e firme, marcha em pontas com hiperlordose e dificuldade de aprendizagem compõem a distrofinopatia ligada ao X.
o primeiro exame
Creatinoquinase sérica, que nesta doença está elevada dezenas de vezes acima do limite superior mesmo antes dos sintomas, e cujo valor normal praticamente afasta a hipótese. É exatamente o exame que o protocolo da outra doença dispensa.
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Onde a banca derruba

  1. 1Confundir frouxidão articular com fraqueza Criança com hipermobilidade articular benigna alcança amplitudes exageradas e parece mole no colo, mas levanta os membros contra a gravidade, suga com força e tem reflexos normais. Fraqueza se mede por movimento antigravitacional e por força de sucção, não por quanto o cotovelo estende. Trocar uma pela outra gera investigação cara em criança saudável e, no sentido inverso, atraso em criança doente.
  2. 2Ler o tremor do choro como fasciculação de língua A língua de um lactente que chora treme, e esse tremor grosseiro não é sinal de desnervação. A fasciculação se procura com a boca em repouso, sem estímulo, e o que se vê é um repuxar fino e contínuo das bordas. Registrar fasciculação onde havia choro cria uma suspeita de doença do neurônio motor que arrasta a família por exames desnecessários.
  3. 3Pedir creatinoquinase para confirmar atrofia muscular espinhal O protocolo federal diz que a enzima não é necessária para o diagnóstico, e um valor normal em nada afasta a doença. Pior: um valor discretamente elevado, que pode ocorrer, é lido como se apontasse para o músculo e desvia a investigação. Diante do quadro típico de neurônio motor inferior, o exame que se pede é a análise quantitativa dos genes.
  4. 4Achar que qualquer teto de ventilação serve para qualquer medicamento São dois números diferentes no mesmo documento. Mais de dezesseis horas por dia de ventilação invasiva já exclui a terapia gênica; para os dois medicamentos de uso continuado, o critério é vinte e quatro horas por dia, continuamente, por vinte e um dias ou mais. Uma criança pode estar excluída de um e elegível para os outros no mesmo dia.
  5. 5Tratar o número de cópias de SMN2 como se definisse o tipo O protocolo afirma as duas coisas: as cópias são fator importante de classificação e, isoladamente, não definem o fenótipo, que depende também da idade de início e das funções motora e respiratória. Três cópias aparecem tanto no tipo 1 quanto no tipo 2. Rotular a criança pelo laudo molecular sem olhar a idade de início troca a classificação e, com ela, a régua de acesso.
  6. 6Deixar a constipação de fora da história do lactente fraco No botulismo do lactente a constipação costuma abrir o quadro, dias antes da fraqueza, e a família raramente a relaciona ao problema neurológico. A fraqueza é descendente, começa nos nervos cranianos com ptose e choro fraco, e as pupilas podem ficar pouco reativas. É a hipótese que exige decisão no mesmo plantão, porque há tratamento específico.
  7. 7Prometer recuperação do que já se perdeu Os medicamentos modificadores impedem perda adicional de neurônio motor; eles não repovoam o corno anterior. O ganho funcional depende de quanto havia quando o tratamento começou, e é por isso que o protocolo aceita o uso em pré-sintomáticos. Dizer à família que a criança vai andar transforma um resultado bom em fracasso percebido e mina a adesão a um tratamento longo.
  8. 8Supor culpa materna na herança ligada ao X Uma fração relevante das distrofinopatias surge por mutação nova, sem transmissora identificável, e o teste da mãe pode vir negativo. Anunciar a herança antes de estudar o caso instala culpa e atrapalha o próprio aconselhamento, que é o momento de discutir risco concreto para irmãs e para gestações futuras com números, e não com suposição.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A divisão entre hipotonia central e periférica se faz por três eixos que não dependem de exame complementar. Reflexos osteotendinosos deprimidos ou abolidos apontam para comprometimento do neurônio motor inferior, da junção neuromuscular ou do músculo, ao passo que reflexos vivos ou exaltados, com sinais de liberação piramidal, apontam para o encéfalo. Contato social preservado, com o bebê que sorri e acompanha com o olhar enquanto o corpo não se move, é o segundo eixo e sugere fortemente que o encéfalo está poupado. O terceiro é a presença de fraqueza real, com movimento antigravitacional ausente e sobra de movimento apenas distal, nas mãos e nos pés. Reflexos exaltados com contato pobre compõem o padrão central. Macrocefalia progressiva com opistótono e força preservada com sorriso social também apontam para o encéfalo. Hipermobilidade articular com sucção vigorosa e reflexos normais descreve frouxidão sem fraqueza, que não é doença neuromuscular.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as quatro manobras de avaliação do tônus no lactente e o que cada uma mostra, e ao lado a divisão entre hipotonia central e periférica pelos três achados que a decidem. Em seguida, escreva a tríade que aponta o corno anterior e o exame que confirma a atrofia muscular espinhal, com o método nomeado. Por fim, liste os três medicamentos do protocolo federal e o teto de cópias de SMN2 comum aos três.

em 30 dias

Monte, em dez linhas, a conduta completa diante de um lactente de quatro meses com hipotonia grave, arreflexia, fasciculação de língua e respiração paradoxal: o que examinar, que exame pedir, para onde encaminhar e o que dizer à família sobre prognóstico e sobre risco na próxima gestação. Depois refaça o caso trocando um dado por vez — a criança tem sete meses, está em ventilação invasiva dezoito horas por dia, tem quatro cópias de SMN2, tem creatinoquinase quarenta vezes elevada, começou com constipação há cinco dias — e diga o que cada troca muda no acesso ao tratamento e na hipótese.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Atenda a mãe de um lactente que parou de levantar os braços e cansa para mamar. Faça o exame do tônus com as manobras que separam o centro da periferia, procure a fasciculação de língua e o padrão respiratório, peça o exame que confirma sem passear pelos que não confirmam, e comunique a suspeita de doença neuromuscular grave em linguagem acessível, sem prometer o que o tratamento não devolve. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doenças neuromusculares da infância – Hipotonia na infância: separar o neurônio motor do músculo, e o prazo que a norma brasileira impõe — Preparatório para provas | OsceLabs