Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

Assistência ao parto normal e boas práticas

A prova não pergunta o que é humanização. Pergunta qual prática de rotina a diretriz brasileira proscreveu, qual ela tornou obrigatória e em que minuto cada uma acontece.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Primigesta de 24 anos, 39 semanas de gestação, classificada como gestante de baixo risco no pré-natal na Unidade Básica de Saúde, é admitida na maternidade em trabalho de parto ativo: colo com 6 cm de dilatação, dinâmica de 3 contrações em 10 minutos, bolsa íntegra e batimentos cardíacos fetais de 140 bpm. No momento, ela deambula pelo corredor acompanhada do marido e refere dor suportável, sem intercorrências. A equipe de enfermagem questiona o médico plantonista sobre as condutas a serem adotadas nesse período. Considerando as boas práticas de assistência ao parto recomendadas pela Organização Mundial da Saúde e pelo Ministério da Saúde, qual das seguintes condutas é adequada?

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Como esse tema cai

A régua brasileira do parto normal não é um capítulo de livro-texto: é um documento único, com 225 recomendações numeradas, publicado pelo Ministério da Saúde em 2017 a partir do trabalho da Conitec e adotado pela Portaria nº 353, de 14 de fevereiro de 2017. Praticamente toda questão de 'boas práticas', 'humanização' ou 'assistência ao parto de risco habitual' sai de lá. E a maior parte delas cobra o que a diretriz retirou da rotina — enema, tricotomia, amniotomia precoce, jejum, litotomia imposta, puxo dirigido, Kristeller, episiotomia, aspiração do recém-nascido —, não o que ela criou.

O segundo eixo é o relógio. A diretriz é obsessiva com prazos: de quanto em quanto tempo se ausculta, de quanto em quanto tempo se toca, em quanto tempo o parto deve acontecer depois da dilatação total, em que minuto se clampeia o cordão, quando o recém-nascido pode ser pesado. Questão de assistência ao parto é, quase sempre, questão de número. Decorar a lista de práticas sem os intervalos deixa metade das alternativas indistinguíveis.

O terceiro eixo é o vocabulário da política que paga por tudo isso. A Rede Cegonha, instituída em 2011 e citada pela própria diretriz de 2017, foi transformada em Rede Alyne, com o financiamento redesenhado pela Portaria GM/MS nº 5.349, de 12 de setembro de 2024 — que manteve por 180 dias o repasse dos serviços já habilitados pela rede anterior. São seis componentes: pré-natal; parto e nascimento; puerpério e atenção integral à saúde da criança; sistema logístico; sistema de apoio; e sistema de governança. Dentro do componente parto e nascimento estão o Centro de Parto Normal (CPN), os serviços hospitalares de referência à gestação e ao puerpério de alto risco e a Casa da Gestante, Bebê e Puérpera (CGBP). Enunciado que fala em Rede Cegonha é anterior a setembro de 2024.

Por fim, o documento brasileiro é de 2017 e o da Organização Mundial da Saúde é de 2018 — um ano de diferença que virou a maior fonte de conflito da matéria. Quase toda divergência entre os dois é de data, não de mérito: a OMS mudou o limiar da fase ativa e abandonou o ritmo de 1 cm por hora depois que o texto brasileiro já estava publicado, e o Ministério não o reeditou desde então.

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O que muda decisão

Quem assiste, onde, e com quem a mulher fica

A assistência ao parto de risco habitual que se mantenha dentro da normalidade pode ser prestada tanto por médico obstetra quanto por enfermeira obstétrica ou obstetriz (recomendação 10). Não é uma concessão: a diretriz vai além e recomenda que os gestores criem condições para implantar o modelo com enfermeira obstétrica, porque ele se associa a menos intervenções e maior satisfação (recomendação 11). Questão que trate a presença da enfermeira obstétrica na sala de parto como irregularidade está errada pela régua brasileira.

Sobre o local, a diretriz é explícita em um ponto que costuma ser mal lido: a assistência ao parto no domicílio não faz parte das políticas atuais de saúde do país (recomendação 4). Para a nulípara de baixo risco, o planejamento do parto domiciliar não é recomendado, por maior risco de complicações para a criança (recomendação 5). Para a multípara de baixo risco, a formulação muda — como o parto domiciliar não está disponível no sistema de saúde, não há como recomendá-lo, mas não se deve desencorajar a mulher que o planeje, desde que assegurado acesso oportuno a uma maternidade se houver necessidade de transferência (recomendações 6 e 8). A própria diretriz avisa que as tabelas de desfecho por local de parto vêm de estudos estrangeiros e não são necessariamente aplicáveis ao Brasil (recomendação 2).

Essas tabelas valem uma olhada porque explicam a lógica do Centro de Parto Normal. Entre multíparas de baixo risco, por 1.000 partos, a episiotomia acontece em 15 no domicílio, 23 no CPN extra-hospitalar, 35 no CPN peri ou intra-hospitalar e 56 na maternidade hospitalar; a cesariana, em 7, 8, 10 e 35; a analgesia regional, em 28, 40, 60 e 121. Os desfechos graves do recém-nascido são praticamente idênticos nos quatro cenários (2 a 3 por 1.000). O gradiente é de intervenção, não de segurança neonatal — e é por isso que a política financia o CPN.

Quanto ao acompanhamento, três recomendações se somam e costumam aparecer misturadas nas alternativas. A mulher deve ter acompanhante de sua escolha durante o trabalho de parto e o parto (recomendação 18). Toda parturiente deve ter apoio contínuo e individualizado, de preferência por pessoa que não seja da equipe do hospital — o que inclui a doula —, sem que isso dispense o apoio da própria equipe (recomendações 15 e 16). E a mulher em trabalho de parto não deve ser deixada sozinha, exceto por curtos períodos ou a pedido dela (recomendação 17). A FEBRASGO, em 2018, estende explicitamente o direito ao acompanhante também ao puerpério.

Admissão: quando isso vira trabalho de parto

A diretriz define fase de latência do primeiro período como um período não necessariamente contínuo em que há contrações uterinas dolorosas E alguma modificação cervical, incluindo apagamento e dilatação até 4 cm. Trabalho de parto estabelecido é contração uterina regular E dilatação cervical progressiva a partir dos 4 cm (recomendação 91).

Daí sai a regra de admissão, que é a pergunta mais frequente da matéria. Mulher que procura a maternidade com 3 cm ou menos não está em trabalho de parto estabelecido: oferece-se apoio individual e alívio da dor, e ela é encorajada e aconselhada a permanecer ou retornar para casa — levando em conta as preocupações dela, a distância até o local do parto e o risco de o parto acontecer sem assistência. Com 4 cm ou mais, admite-se para assistência (recomendação 90). A diretriz pede que se tenha em mente que a mulher pode estar tendo contrações dolorosas sem mudança cervical e, pela definição dela própria, sentir que está em trabalho de parto — o aconselhamento não é dispensa seca.

As durações que a diretriz manda informar à mulher: o trabalho de parto ativo dura em média 8 horas na primípara, sendo pouco provável que passe de 18 horas; e em média 5 horas na multípara, sendo pouco provável que passe de 12 horas (recomendação 92).

Primeiro período: o que se registra e o que não se faz

O bloco de observações do primeiro período é uma lista fechada, e cada item tem o seu intervalo: frequência das contrações uterinas de 1 em 1 hora; pulso de 1 em 1 hora; temperatura e pressão arterial de 4 em 4 horas; frequência da diurese; e exame vaginal de 4 em 4 horas — ou antes disso, se houver preocupação com o progresso ou se a mulher pedir, sempre após palpação abdominal e avaliação das perdas vaginais (recomendação 93).

A avaliação do bem-estar fetal na parturiente de baixo risco é feita por ausculta intermitente, em qualquer local de parto, com estetoscópio de Pinard ou sonar Doppler: ausculta antes, durante e imediatamente após uma contração, por pelo menos 1 minuto, a cada 30 minutos, registrada como taxa única; registram-se acelerações e desacelerações se ouvidas; e palpa-se o pulso materno diante de qualquer anormalidade, para não confundir os dois batimentos (recomendação 25). Há uma exceção com intervalo próprio: toda parturiente que recebe analgesia regional, no início ou em dose de resgate, faz ausculta de 5 em 5 minutos por no mínimo 30 minutos, e a alteração aí sim leva à cardiotocografia (recomendação 77). Cardiotocografia contínua não é a rotina do risco habitual.

O registro do progresso é feito em partograma com linha de ação de 4 horas, modelo da OMS ou equivalente (recomendação 94). Esse é o ponto em que a régua brasileira mais se afastou do corpo internacional depois de 2017 — o bloco de divergências trata disso.

As intervenções que saíram da rotina no primeiro período são quatro, e caem muito: enema não deve ser realizado de rotina (98); tricotomia pubiana e perineal não deve ser realizada de rotina (99); amniotomia precoce, associada ou não à ocitocina, não deve ser realizada de rotina em quem está progredindo bem (100); e antagonistas H2 e antiácidos não devem ser usados de rotina em mulher de baixo risco para anestesia geral (21) — ficam reservados a quem recebeu opioide ou tem fator de risco para anestesia geral (22).

Do lado do que é permitido: a mulher em trabalho de parto pode ingerir líquidos, de preferência soluções isotônicas em vez de só água (19), e pode receber dieta leve se não estiver sob efeito de opioides nem tiver fator de risco iminente para anestesia geral (20). Deve ser encorajada a se movimentar e adotar as posições mais confortáveis (101). Para a limpeza vulvar e perineal antes do exame vaginal, água potável basta; luvas únicas, não necessariamente estéreis, são apropriadas (23 e 24).

A diretriz também fecha a lista de gatilhos que tiram a mulher do trilho do risco habitual e obrigam a transferir para maternidade hospitalar ou chamar o obstetra (recomendação 95): pulso acima de 120 bpm em duas ocasiões com 30 minutos de intervalo; pressão sistólica de 160 mmHg ou mais, ou diastólica de 110 mmHg ou mais, em uma única medida; sistólica de 140 mmHg ou mais, ou diastólica de 90 mmHg ou mais, em duas medidas consecutivas com 30 minutos de intervalo; proteinúria de fita de 2++ ou mais somada a uma única medida de 140 por 90 mmHg; temperatura de 38 °C em medida única ou de 37,5 °C em duas ocasiões com 1 hora de intervalo; qualquer sangramento vaginal que não a eliminação do tampão; mecônio significativo; dor diferente da dor das contrações; progresso lento confirmado; pedido de analgesia regional; e as emergências obstétricas. Do lado fetal: apresentação anômala ou de cordão, situação transversa ou oblíqua, apresentação cefálica alta em nulípara, suspeita de restrição de crescimento ou macrossomia, suspeita de anidrâmnio ou poli-hidrâmnio, frequência cardíaca fetal abaixo de 110 ou acima de 160 bpm e desacelerações à ausculta intermitente.

Falha de progresso: a sequência que a diretriz exige antes da ocitocina

Suspeita-se de falha de progresso na fase ativa quando a dilatação avança menos de 2 cm em 4 horas, tanto na primípara quanto na multípara — nesta última, também quando o trabalho de parto está lento por outros parâmetros (recomendação 103). Antes de rotular, a diretriz manda pesar o ambiente, a postura da mulher, o estado emocional dela, o tipo de apoio que está recebendo, a paridade, as contrações e a altura e posição da apresentação (recomendação 102).

Confirmada a suspeita, a sequência é fixa. Considerar amniotomia se as membranas estiverem íntegras, explicando à mulher que o procedimento encurta o trabalho de parto em cerca de 1 hora e pode aumentar a intensidade e a dor das contrações (104). Tenha sido feita a amniotomia ou não, refazer o exame vaginal 2 horas depois: a falha de progresso se confirma se a dilatação avançou menos de 1 cm nesse intervalo (105). Confirmada, a mulher passa a ser assistida por médico obstetra, que decide sobre as opções — inclusive a ocitocina (106).

A ocitocina tem regras próprias: os incrementos de dose não podem ser mais frequentes do que a cada 30 minutos, e a dose sobe até haver 4 a 5 contrações em 10 minutos (111). Deve-se oferecer analgesia peridural, se disponível, quando a ocitocina for indicada (110), e informar que a criança precisará de monitoração contínua ou mais frequente (109). O exame vaginal se repete 4 horas após o início da ocitocina: se a dilatação aumentou menos de 2 cm, faz-se revisão obstétrica adicional para avaliar a necessidade de cesariana; se aumentou 2 cm ou mais, segue-se observando (112).

Segundo período: posição, puxo e períneo

A posição supina, o decúbito dorsal horizontal e a posição semi-supina devem ser desencorajados no segundo período; a mulher é incentivada a adotar qualquer outra posição que ache mais confortável, incluindo cócoras, lateral ou quatro apoios (recomendação 113). A FEBRASGO acrescenta o motivo fisiológico — a posição horizontal em decúbito dorsal pode comprimir a aorta e a cava, com hipotensão materna e bradicardia fetal — e a ressalva prática de que a litotomia é vantajosa quando há necessidade de manipulação do feto, instrumentação, episiotomia ou parto cirúrgico.

Nas mulheres sem analgesia, apoia-se o puxo espontâneo e evita-se o puxo dirigido (115); se o puxo espontâneo for ineficaz ou a mulher pedir ajuda, oferecem-se suporte, mudança de posição, esvaziamento da bexiga e encorajamento (116). Nas mulheres com analgesia regional, confirmada a dilatação total, o puxo deve ser adiado por pelo menos 1 hora — ou mais, se ela quiser —, salvo se ela desejar puxar ou se a cabeça do bebê estiver visível; passada a hora, ela é incentivada ativamente a puxar durante as contrações (117 e 65). Ainda no contexto da analgesia, a diretriz fixa uma meta: confirmados os 10 cm, devem ser estabelecidas estratégias para que o nascimento ocorra em até 4 horas, independentemente da paridade (67).

A manobra de Kristeller não deve ser realizada no segundo período do trabalho de parto (recomendação 118). É a proibição mais cobrada do capítulo e a que tem a redação mais seca de toda a diretriz.

As durações observadas da fase ativa do segundo período são de cerca de 0,5 a 2,5 horas na primípara sem peridural e de 1 a 3 horas com peridural; na multípara, até 1 hora sem peridural e 2 horas com (recomendação 121). Já a conduta usa outro par de números: na nulípara, o parto deve ocorrer no prazo de 3 horas após o início da fase ativa do segundo período, e a falha de progresso se confirma quando esse período passa de 2 horas, momento em que se encaminha ou se solicita assistência de médico treinado em parto vaginal operatório, se o nascimento não for iminente; na multípara, os números são 2 horas e 1 hora (recomendação 122). Antes disso, suspeita-se de prolongamento quando não há rotação nem descida adequadas após 1 hora de segundo período ativo na nulípara, ou após 30 minutos na multípara — e aí se faz amniotomia se as membranas estiverem intactas (125 e 126).

No períneo, a diretriz é seletiva: considerar compressas mornas (137); não recomendar a massagem perineal durante o segundo período (136); não usar spray de lidocaína para dor perineal (138); e aceitar tanto a técnica de 'mãos sobre', que protege o períneo e controla a deflexão da cabeça, quanto a de 'mãos prontas', sem tocar, ambas para facilitar o parto espontâneo (139 e 140).

Episiotomia não se faz de rotina no parto vaginal espontâneo (141). Quando é feita, a indicação tem de ser justificada e a técnica é definida: médio-lateral, originando-se na fúrcula vaginal e direcionada para o lado direito, com ângulo entre 45 e 60 graus em relação ao eixo vertical (142), sempre com analgesia efetiva antes (143). A FEBRASGO delimita as indicações — alto risco de laceração perineal grave, distocia significativa de tecidos moles ou necessidade de encurtar o segundo período por situação fetal não tranquilizadora — e registra que a episiotomia não é indicação de rotina nem no parto instrumentado nem na distocia de ombros, ainda que possa haver necessidade técnica nessas situações.

O trauma perineal, seja por episiotomia ou por laceração, é classificado em quatro graus, com o terceiro subdividido (recomendação 172) — é a classificação que aparece nos cartões abaixo. O reparo tem regras que caem: no primeiro grau, sutura-se para melhorar a cicatrização, a menos que as bordas da pele já estejam bem apostas (182); no segundo, sutura-se o músculo (183); a pele só é suturada se as bordas não se apuserem após a sutura muscular, e aí com técnica subcutânea contínua (186 e 187); usa-se sutura contínua para parede vaginal e músculo (188), com fio sintético absorvível (189); faz-se exame retal após o reparo em trauma de terceiro e quarto graus, para garantir que nenhum ponto atravessou a mucosa retal (190); e recomendam-se supositórios retais de anti-inflamatório não esteroidal de rotina após o reparo de trauma de primeiro e segundo graus, se não houver contraindicação (191).

Esquema do períneo com o eixo vertical e a linha da incisão médio-lateral partindo da fúrcula vaginal em direção ao lado direito, com o arco do ângulo entre as duas linhas.
Episiotomia médio-lateral conforme a recomendação 142: origem na fúrcula vaginal, direção para o lado direito e ângulo entre 45 e 60 graus em relação ao eixo vertical.

Terceiro período: conduta ativa, e em que ordem

O terceiro período vai do nascimento da criança até a expulsão da placenta e das membranas. A conduta ativa reúne três componentes: uso rotineiro de uterotônico, clampeamento e secção precoce do cordão e tração controlada do cordão após sinais de separação placentária. A conduta fisiológica é o espelho: sem uterotônico de rotina, clampeamento depois que a pulsação cessa e expulsão da placenta por esforço materno (recomendação 145).

A diretriz recomenda a conduta ativa, por menor risco de hemorragia e de transfusão (152), e manda informar os números à mulher antes do parto (149 a 151). Com conduta ativa: náusea e vômitos em cerca de 100 mulheres a cada 1.000, hemorragia acima de 1 litro em cerca de 13 a cada 1.000 e transfusão em cerca de 14 a cada 1.000. Com conduta fisiológica: náusea e vômitos em cerca de 50 a cada 1.000, hemorragia acima de 1 litro em cerca de 29 a cada 1.000 e transfusão em cerca de 40 a cada 1.000. Se a mulher com baixo risco de hemorragia pedir conduta expectante, ela deve ser apoiada na escolha (153); muda-se para conduta ativa se houver hemorragia ou se a placenta não dequitar em 1 hora (159).

A ordem dos três atos é o detalhe que separa quem estudou de quem chutou. Primeiro a ocitocina: 10 UI por via intramuscular logo após o desprendimento da criança e antes do clampeamento e corte do cordão — a ocitocina isolada é preferível à associação com ergometrina, por menos efeitos colaterais (154). Depois o clampeamento: não seccionar o cordão antes de 1 minuto do nascimento, salvo necessidade de manobras de reanimação neonatal, e pinçá-lo antes de 5 minutos para permitir a tração controlada como parte da conduta ativa; se a mulher pedir clampeamento após os 5 minutos, apoia-se a escolha (155). Só então a tração controlada do cordão, e apenas depois da ocitocina e dos sinais de separação da placenta (156 e 157). Na seção do recém-nascido, a mesma janela reaparece de outra forma: clampear entre 1 e 5 minutos, ou de forma fisiológica quando cessar a pulsação, exceto por contraindicação relativa ao cordão ou necessidade de reanimação (200).

Considera-se terceiro período prolongado depois de decorridos 30 minutos (146). Na retenção placentária: acesso venoso calibroso (165); não usar ocitocina intravenosa adicional de rotina para o desprendimento — só se houver hemorragia (166 e 167); exame vaginal minucioso com analgesia oferecida (168); e nenhuma remoção manual ou cirúrgica sem analgesia adequada (170). Ocitocina em veia umbilical não se usa de rotina (161). Documenta-se o momento do clampeamento em qualquer das duas condutas (158).

A primeira hora do recém-nascido

O índice de Apgar é aplicado de rotina no primeiro e no quinto minutos de vida (196). A coleta de sangue de cordão para pH não é rotineira nem universal: reserva-se aos recém-nascidos com alterações clínicas, como respiração irregular e tônus diminuído (197). No recém-nascido saudável, não se faz aspiração orofaríngea nem nasofaríngea sistemática (198), nem passagem sistemática de sonda nasogástrica ou retal para descartar atresias (199).

O contato pele a pele imediato é estimulado logo após o nascimento, com a criança coberta por campo ou toalha morna para mantê-la aquecida (219 e 220). A separação entre mãe e filho na primeira hora deve ser evitada para procedimentos de rotina como pesar, medir e dar banho, a não ser que a própria mulher os solicite ou que sejam realmente necessários ao cuidado imediato (221). O aleitamento materno é estimulado precocemente, idealmente na primeira hora de vida (222). Perímetro cefálico, temperatura corporal e peso são registrados depois da primeira hora (223).

Todos os recém-nascidos recebem vitamina K para profilaxia da doença hemorrágica (204), por via intramuscular, em dose única de 1 mg, por ser a melhor relação de custo-efetividade (205). Se os pais recusarem a via intramuscular, oferece-se a via oral, avisando que ela exige múltiplas doses: 2 mg ao nascimento ou logo depois e 2 mg entre o quarto e o sétimo dia (206 e 207); e, no recém-nascido em aleitamento materno exclusivo, mais 2 mg por via oral entre a quarta e a sétima semana, por causa dos níveis baixos e variáveis de vitamina K no leite materno (208).

A profilaxia da oftalmia neonatal é feita de rotina (201) e o seu tempo de administração pode ser ampliado em até 4 horas após o nascimento (202) — o que preserva a primeira hora de contato. A diretriz recomenda pomada de eritromicina a 0,5% e, como alternativa, tetraciclina a 1%; o nitrato de prata a 1% fica reservado ao caso de não haver nenhuma das duas (203).

Diante de mecônio, a régua se divide pelo estado da criança. Se o mecônio for significativo — verde-escuro ou preto, grosso, tenaz, com grumos — e o recém-nascido não tiver respiração, frequência cardíaca e tônus normais, ele é assistido segundo diretriz reconhecida de reanimação neonatal, incluindo laringoscopia precoce e aspiração sob visão direta (214). Se o mecônio for significativo mas a criança estiver saudável, observa-se em unidade com acesso imediato a neonatologista, com avaliações com 1 e 2 horas de vida e depois de 2 em 2 horas por 12 horas (215). Sem mecônio significativo, observa-se com 1 e 2 horas de vida (216). Qualquer que seja o grau de mecônio, exigem avaliação por neonatologista: frequência respiratória acima de 60 irpm, gemidos, frequência cardíaca abaixo de 100 ou acima de 160 bpm, enchimento capilar acima de 3 segundos, temperatura de 38 °C ou mais — ou de 37,5 °C em duas ocasiões com 30 minutos de intervalo —, saturação de oxigênio abaixo de 95% e cianose central (217).

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As práticas, os prazos e o trauma perineal

Leia este bloco em duas camadas. Primeiro, siga a espinha temporal do parto de risco habitual; depois, consulte as tabelas para os prazos e números da Diretriz Nacional. O ponto crítico é identificar o que deve ser oferecido, o que depende de indicação e o que não entra na rotina. Os limiares de fase ativa não são universais: o Ministério da Saúde de 2017 usa 4 cm, enquanto a OMS adota 5 cm e rejeita 1 cm/h como régua isolada de normalidade.

  1. 1TRIAGEM E ACOLHIMENTO — confirmar risco habitual, respeitar privacidade, comunicação e acompanhante de escolha. Na latência, oferecer apoio, analgesia e orientação individualizada; distância e risco de parto sem assistência mudam a decisão de permanecer ou retornar.
  2. 2ADMISSÃO — pela Diretriz Nacional de 2017, trabalho de parto estabelecido a partir de 4 cm; pela OMS, fase ativa a partir de 5 cm. Não diagnosticar distócia apenas porque a dilatação não segue 1 cm por hora.
  3. 3PRIMEIRO PERÍODO — permitir mobilidade, posição de escolha, líquidos e dieta leve quando não houver contraindicação. No risco habitual, preferir ausculta fetal intermitente; toque vaginal em geral a cada 4 horas.
  4. 4NÃO FAZER DE ROTINA — enema, tricotomia, amniotomia precoce, aceleração com ocitocina em evolução normal e cardiotocografia contínua no baixo risco.
  5. 5SEGUNDO PERÍODO — apoiar posição escolhida e puxo espontâneo; não impor posição supina, não realizar Kristeller e não indicar episiotomia rotineira. Compressa morna pode ser considerada.
  6. 6TERCEIRO PERÍODO — prevenir hemorragia com uterotônico, preferencialmente ocitocina; clampear o cordão após pelo menos 1 minuto se mãe e recém-nascido estiverem estáveis; fazer tração controlada somente após sinais de separação placentária.
  7. 7PRIMEIRA HORA — manter pele a pele e favorecer a primeira mamada; adiar peso e medidas quando não houver necessidade clínica. Vitamina K e profilaxia ocular seguem o protocolo, sem interromper desnecessariamente o contato.

Trauma perineal de 1º grau

Lesão apenas de pele e mucosas. Sutura-se para melhorar a cicatrização, a menos que as bordas da pele já estejam bem apostas.

Trauma perineal de 2º grau

Lesão dos músculos perineais sem atingir o esfíncter anal. Sutura-se o músculo; a pele só é suturada se as bordas não se apuserem depois disso.

Trauma perineal de 3º grau

Lesão que envolve o complexo do esfíncter anal, subdividida em 3a (menos de 50% da espessura do esfíncter anal), 3b (mais de 50%) e 3c (esfíncter anal interno). Exige exame retal após o reparo.

Trauma perineal de 4º grau

Lesão do complexo do esfíncter anal — interno e externo — somada ao epitélio anal. Reparo por profissional experiente, com anestesia adequada e exame retal ao final.

PráticaDiretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal (MS, 2017)Recomendação nº
EnemaNão realizar de rotina98
Tricotomia pubiana e perinealNão realizar de rotina99
Amniotomia precoce (com ou sem ocitocina)Não realizar de rotina em quem progride bem100
Restrição de líquidos e alimentosLiberar líquidos (de preferência isotônicos) e dieta leve, se sem opioide e sem risco iminente de anestesia geral19 e 20
Cardiotocografia contínua no risco habitualNão é a rotina: usa-se ausculta intermitente com Pinard ou sonar25
Posição supina ou semi-supina no expulsivoDesencorajar; incentivar a posição de escolha da mulher113
Puxo dirigido em mulher sem analgesiaEvitar; apoiar o puxo espontâneo115
Manobra de KristellerNão deve ser realizada no segundo período118
Massagem perineal no segundo períodoNão recomendada136
Compressas mornas no períneoConsiderar a aplicação137
EpisiotomiaNão fazer de rotina; se indicada, médio-lateral a 45–60° do eixo vertical, com analgesia prévia141 a 143
Uterotônico no terceiro períodoConduta ativa recomendada: 10 UI de ocitocina intramuscular após o desprendimento152 e 154
Aspiração oro e nasofaríngea do recém-nascido saudávelNão realizar de forma sistemática198
Sonda nasogástrica ou retal de rotina no recém-nascidoNão realizar de forma sistemática199
Pesar, medir e dar banho na primeira horaEvitar; a separação mãe-filho na primeira hora não se justifica por procedimento de rotina221 e 223
Vitamina K1 mg intramuscular, dose única, em todos os recém-nascidos204 e 205

Prazos e limites por período (MS, 2017)

MomentoLimite ou intervaloRecomendação nº
AdmissãoFase de latência até 4 cm; trabalho de parto estabelecido a partir de 4 cm90 e 91
Duração do trabalho de parto ativoPrimípara: média de 8 h, improvável passar de 18 h. Multípara: média de 5 h, improvável passar de 12 h92
Ausculta fetal intermitenteA cada 30 min, por pelo menos 1 min, antes/durante/após a contração25
Ausculta após analgesia regional ou dose de resgateDe 5 em 5 min por no mínimo 30 min77
Exame vaginal no primeiro períodoDe 4 em 4 h (ou antes, por preocupação com o progresso ou a pedido da mulher)93
Suspeita de falha de progresso na fase ativaMenos de 2 cm de dilatação em 4 h103
Confirmação da falha de progressoMenos de 1 cm de dilatação no reexame 2 h depois105
Incrementos de ocitocinaNão mais frequentes que a cada 30 min, até 4–5 contrações em 10 min111
Reavaliação após início da ocitocinaExame vaginal 4 h depois; menos de 2 cm exige revisão obstétrica para avaliar cesariana112
Puxo com analgesia regionalAdiar por pelo menos 1 h após a dilatação total117
Nascimento após os 10 cm sob analgesiaEstratégias para que ocorra em até 4 h, independentemente da paridade67
Segundo período — nulíparaParto em até 3 h após o início da fase ativa; falha confirmada se passar de 2 h122
Segundo período — multíparaParto em até 2 h após o início da fase ativa; falha confirmada se passar de 1 h122
Terceiro período prolongadoMais de 30 min146
Clampeamento do cordãoNão antes de 1 min; pinçar antes de 5 min na conduta ativa, ou quando cessar a pulsação155 e 200
Profilaxia da oftalmia neonatalPode ser feita até 4 h após o nascimento202

Terceiro período: conduta ativa × conduta fisiológica (MS, 2017, recomendações 145 e 149 a 152)

ItemConduta ativaConduta fisiológica
UterotônicoUso rotineiro: 10 UI de ocitocina intramuscular após o desprendimentoSem uso rotineiro
CordãoClampeamento e secção precoces em relação à dequitação (não antes de 1 min do nascimento; pinçar antes de 5 min)Clampeamento após cessar a pulsação
DequitaçãoTração controlada do cordão após sinais de separaçãoExpulsão por esforço materno
Hemorragia acima de 1 litroCerca de 13 em 1.000Cerca de 29 em 1.000
Transfusão sanguíneaCerca de 14 em 1.000Cerca de 40 em 1.000
Náusea e vômitosCerca de 100 em 1.000Cerca de 50 em 1.000
Posição da diretrizRecomendadaApoiar a escolha da mulher com baixo risco de hemorragia; migrar para a ativa se houver hemorragia ou se a placenta não dequitar em 1 h

O segundo período tem dois relógios diferentes, e trocá-los custa questão: na nulípara, 3 horas é o prazo em que o parto deve acontecer depois do início da fase ativa; 2 horas é o ponto em que a falha de progresso se confirma e obriga a chamar quem faça parto vaginal operatório. Na multípara, os mesmos papéis cabem a 2 horas e 1 hora.

'Clampeamento precoce' na conduta ativa é precoce em relação à dequitação, não em relação ao nascimento: mesmo na conduta ativa a diretriz proíbe seccionar antes de 1 minuto, salvo necessidade de reanimação neonatal.

A ordem dos atos do terceiro período é ocitocina, depois clampeamento, depois tração — e a tração só depois dos sinais de separação placentária. Inverter qualquer par torna a alternativa errada.

As recomendações valem para gestante de risco habitual. A recomendação 95 é a lista fechada dos achados maternos e fetais que tiram a mulher desse trilho e obrigam a chamar o obstetra ou transferir para maternidade hospitalar.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde começa a fase ativa e o que conta como progresso lento

Fase ativa a partir de 4 cm, com partograma de linha de ação de 4 horas

Trabalho de parto estabelecido é contração regular com dilatação progressiva a partir dos 4 cm; o progresso é registrado em partograma com linha de ação de 4 horas, modelo da OMS ou equivalente; e suspeita-se de falha de progresso quando a dilatação avança menos de 2 cm em 4 horas. O documento é de 2017 e não foi reeditado desde então.

Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, Ministério da Saúde/CONITEC, 2017 (recomendações 91, 94 e 103)

Fase ativa a partir de 5 cm, sem linha de alerta e sem limiar de 1 cm por hora

A fase latente vai até 5 cm e a fase ativa começa aí; o limiar de 1 cm por hora, representado pela linha de alerta do partograma, é impreciso para identificar quem está em risco e não é recomendado para esse fim; e o trabalho de parto pode não acelerar naturalmente antes dos 5 cm, de modo que ocitocina ou cesariana para acelerá-lo antes desse ponto não são recomendadas quando mãe e feto estão bem. Em 2020 a OMS substituiu o partograma pelo Labour Care Guide, que troca a linha única por tempos de espera específicos para cada dilatação — 6 horas aos 5 cm, 5 horas aos 6 cm, 3 horas aos 7 cm, 2 horas e meia aos 8 cm e 2 horas aos 9 cm.

WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience, OMS, 2018 (recomendações 5, 7, 8 e 9); WHO Labour Care Guide: user's manual, OMS, 2020

Na prova

A distância aqui é de calendário: o texto brasileiro é de 2017 e o da OMS é de 2018, e o Ministério da Saúde não reeditou a diretriz depois disso. O recorte aparece no vocabulário do enunciado. Quem descreve 'partograma com linha de alerta e linha de ação' ou 'trabalho de parto estabelecido a partir de 4 cm' está no corpo brasileiro; quem fala em Labour Care Guide, em coluna de alerta, ou traz uma alternativa negando o ritmo de 1 cm por hora está no corpo da OMS. Cenário de UBS, de maternidade do SUS ou de programa federal puxa o corpo brasileiro; prova oficial do MEC tende a conduta SUS, e outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Manobra de Kristeller: vedada sem exceção ou desaconselhada com excepcionalidade

Não deve ser realizada, sem exceção prevista no texto

A redação é de uma linha e não abre hipótese: a manobra de Kristeller não deve ser realizada no segundo período do trabalho de parto. Não há no documento previsão de uso excepcional, de consentimento ou de registro que a autorize.

Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, Ministério da Saúde/CONITEC, 2017 (recomendação 118)

Fora da rotina e desaconselhada, mas admitida em excepcionalidade documentada

Não há prova de benefício da realização rotineira e são escassas as evidências de dano; por isso a manobra não deve ser procedimento de rotina e deve ser desaconselhada. Se for necessária, numa situação de excepcionalidade, deve ser feita por profissional experiente, com consentimento da parturiente e devidamente justificada no prontuário.

Recomendações Febrasgo parte II – Cuidados Gerais na Assistência ao Parto, FEBRASGO, 10 de dezembro de 2018

Pressão manual do fundo uterino não é recomendada

A aplicação de pressão manual sobre o fundo uterino para facilitar o nascimento no segundo período não é recomendada, na mesma linha do documento brasileiro de 2017.

WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience, OMS, 2018 (recomendação 40)

Na prova

É um caso de documento brasileiro contra documento brasileiro, com um ano de distância entre eles. As alternativas denunciam o recorte: quando uma opção descreve consentimento da parturiente e justificativa em prontuário, o enunciado foi escrito a partir do texto da sociedade de especialidade; quando a opção é categórica — 'está proscrita', 'não deve ser realizada' —, foi escrito a partir da diretriz do Ministério. Menção nominal a qualquer um dos dois documentos no enunciado encerra a discussão.

Massagem perineal durante o período expulsivo

Não recomendada; compressas mornas, sim

As três técnicas de proteção perineal foram avaliadas uma a uma e receberam respostas diferentes: a massagem perineal durante o segundo período não é recomendada; a aplicação de compressas mornas deve ser considerada; e as técnicas de 'mãos sobre' e 'mãos prontas' são ambas aceitáveis para facilitar o parto espontâneo.

Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, Ministério da Saúde/CONITEC, 2017 (recomendações 136, 137 e 139)

Recomendada como parte do pacote de proteção perineal

As técnicas para reduzir o trauma perineal e facilitar o parto espontâneo — massagem perineal, compressas mornas e proteção do períneo com as mãos — são recomendadas em bloco, conforme a preferência da mulher e as opções disponíveis.

WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience, OMS, 2018 (recomendação 38)

Na prova

As duas réguas concordam sobre compressas mornas e sobre a proteção manual do períneo, e discordam só sobre a massagem. A pista está na forma da alternativa: opção que junta as três técnicas num único item foi montada sobre o texto da OMS, que as trata como pacote; opção que separa a massagem das demais foi montada sobre o texto brasileiro, que as avaliou isoladamente.

Banho do recém-nascido e momento da vitamina K

Piso de uma hora, sem teto definido

Deve-se evitar a separação de mãe e filho na primeira hora após o nascimento para procedimentos de rotina como pesar, medir e dar banho, e o perímetro cefálico, a temperatura e o peso são registrados depois dessa primeira hora. A vitamina K é obrigatória para todos, 1 mg por via intramuscular em dose única, mas o texto não fixa o minuto em que ela deve ser aplicada.

Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, Ministério da Saúde/CONITEC, 2017 (recomendações 204, 205, 221 e 223)

Banho adiado por 24 horas e vitamina K depois da primeira hora

O banho deve ser adiado por 24 horas após o nascimento; se isso não for possível por razões culturais, por pelo menos 6 horas. A vitamina K, 1 mg por via intramuscular, é dada depois da primeira hora — exatamente a hora em que o recém-nascido deve estar em contato pele a pele e iniciando a mamada.

WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience, OMS, 2018 (recomendações 50 e 51)

Na prova

O piso é o mesmo nos dois documentos: nada de banho, peso ou medida na primeira hora. O teto de 24 horas só existe no texto internacional, e a ordem explícita 'vitamina K depois do pele a pele' também. Enunciado que pergunta em que momento dar o banho e oferece '24 horas' entre as alternativas está no corpo da OMS; enunciado que só pergunta o que não fazer na primeira hora funciona nos dois.

Nascimento dentro da água

Evidência insuficiente nos dois sentidos

Deve-se informar à mulher que há insuficiência de evidências de alta qualidade tanto para apoiar quanto para desencorajar o parto na água. A imersão em água para alívio da dor no trabalho de parto, essa sim, deve ser oferecida sempre que possível, e os gestores devem redesenhar as unidades para viabilizá-la.

Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, Ministério da Saúde/CONITEC, 2017 (recomendações 27, 28 e 114)

Útil no primeiro período; no expulsivo, restrita a ensaios clínicos

A imersão durante a primeira fase do trabalho de parto parece benéfica como método não farmacológico de alívio da dor, sem aumento de complicações. Na segunda fase, porém, não houve benefício materno ou fetal, há relatos de complicações graves e evidências que apontam maior risco de lesão perineal — possivelmente pela dificuldade de o profissional proteger o períneo ou perceber um problema dentro da água —, de modo que deve ficar restrita a situações de ensaio clínico. O texto registra ainda que a experiência brasileira maior é com a água em forma de ducha morna, técnica que não exige reforma das maternidades.

Recomendações Febrasgo parte II – Cuidados Gerais na Assistência ao Parto, FEBRASGO, 10 de dezembro de 2018

Na prova

Outro par brasileiro contra brasileiro, com um ano de diferença. Os dois textos concordam integralmente sobre a imersão como método de alívio da dor no primeiro período — esse ponto é seguro em qualquer banca. A discordância é só sobre nascer dentro da água, e o distrator que menciona risco de lesão perineal ou restrição a protocolo de pesquisa vem do texto da sociedade.

06

Caso resolvido

Gestante de 32 anos, G2P1A0, 39 semanas e 4 dias por ultrassonografia precoce, pré-natal de risco habitual completo, chega à maternidade do SUS às 2h com contrações dolorosas a cada 5 minutos há 3 horas. Exame: pressão arterial 118 por 74 mmHg, temperatura 36,6 °C, pulso 88 bpm; altura uterina 34 cm, apresentação cefálica, dois quintos palpáveis acima da sínfise; frequência cardíaca fetal 140 bpm, sem desacelerações; toque com colo apagado em 70% e 3 cm de dilatação, bolsa íntegra, sem perdas vaginais. Ela está acompanhada do marido e mora a 15 minutos da maternidade.
achado
Contrações dolorosas com modificação cervical e 3 cm de dilatação: fase de latência do primeiro período, não trabalho de parto estabelecido, que só começa a partir dos 4 cm.
conduta
Não internar. Oferecer apoio individual e alívio da dor se necessário, explicar o que esperar da fase latente e aconselhar permanecer ou retornar para casa — a distância de 15 minutos e a ausência de qualquer gatilho da lista de transferência sustentam a orientação. Estabelecer com ela um plano de quando e com quem contatar.
achado
Retorna às 8h com contrações regulares e dor mais intensa. Toque: 6 cm, bolsa íntegra, frequência cardíaca fetal 144 bpm. Trabalho de parto estabelecido.
conduta
Admitir. Garantir o acompanhante de escolha dela e apoio contínuo, liberar líquidos isotônicos e dieta leve, encorajar movimentação e posição livre. Não fazer enema nem tricotomia, e não romper a bolsa — a amniotomia precoce não se faz de rotina em quem progride bem. Registrar contrações e pulso de 1 em 1 hora, temperatura e pressão de 4 em 4 horas, toque de 4 em 4 horas; auscultar a frequência cardíaca fetal com sonar por pelo menos 1 minuto, antes, durante e após uma contração, a cada 30 minutos; e anotar o progresso em partograma com linha de ação de 4 horas.
achado
Às 11h30, dilatação total, bolsa rota espontaneamente com líquido claro, sem analgesia farmacológica, puxos involuntários presentes, cabeça em plano baixo.
conduta
Apoiar o puxo espontâneo e não dirigir os puxos. Deixá-la escolher a posição — de cócoras, lateral ou de quatro apoios —, desencorajando apenas a supina. Considerar compressas mornas no períneo; não fazer massagem perineal nem usar spray de lidocaína. Não fazer Kristeller. Não fazer episiotomia sem indicação justificada. Na multípara, o parto é esperado em até 2 horas após o início da fase ativa do segundo período, e a falha de progresso só se confirma se ele passar de 1 hora.
achado
Nascimento às 12h05, recém-nascido a termo, vigoroso, chorando, tônus normal, líquido claro.
conduta
Terceiro período com conduta ativa, na ordem certa: 10 UI de ocitocina intramuscular logo após o desprendimento, antes de clampear; clampeamento do cordão aos 2 minutos, dentro da janela de 1 a 5 minutos; e tração controlada do cordão só depois dos sinais de separação placentária. Dequitação completa em 9 minutos — dentro dos 30 minutos que definem o terceiro período prolongado. Examinar placenta e membranas e monitorar pulso, pressão, temperatura, lóquios e contração uterina.
conduta
Recém-nascido: Apgar de 1º e 5º minutos, contato pele a pele imediato coberto por campo morno, sem aspiração orofaríngea nem sonda gástrica de rotina, sem coleta de pH de cordão. Mamada estimulada na primeira hora. Vitamina K 1 mg por via intramuscular em dose única e profilaxia da oftalmia neonatal com pomada de eritromicina a 0,5%, que pode esperar até 4 horas. Peso, perímetro cefálico e temperatura registrados depois da primeira hora; banho, também depois dela.
07

Agora feche você

Nulípara de 24 anos, 40 semanas, risco habitual, em trabalho de parto espontâneo, recebeu analgesia peridural a pedido próprio com 6 cm. Às 14h00 confirma-se dilatação total do colo. Ela não sente puxo involuntário, a cabeça fetal está relativamente alta na pelve, a frequência cardíaca fetal é 138 bpm com boa variabilidade e sem desacelerações, a pressão arterial é 110 por 70 mmHg e as contrações são de 4 em 10 minutos. A residente propõe iniciar puxos dirigidos imediatamente e, se não houver descida em meia hora, aplicar pressão sobre o fundo uterino para ajudar.
achado
Dilatação total sem sensação de puxo involuntário, com cabeça ainda relativamente alta e sob analgesia regional: é a fase inicial (passiva) do segundo período, não a fase ativa.
achado
Os parâmetros maternos e fetais são tranquilizadores e nenhum gatilho de transferência ou de intervenção urgente está presente.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Contar o relógio do segundo período a partir dos 10 cm A dilatação total não dispara o cronômetro da falha de progresso. O que conta é o início da fase ATIVA do segundo período — puxo involuntário, cabeça visível ou esforço materno ativo. A mulher com peridural que fica uma hora em fase passiva não está em falha de progresso; ela está exatamente onde a recomendação 117 manda que fique.
  2. 2Ler 'clampeamento precoce' como clampeamento imediato O adjetivo 'precoce' na definição de conduta ativa é relativo à dequitação, não ao nascimento. Mesmo na conduta ativa, a diretriz proíbe seccionar o cordão antes de 1 minuto, salvo necessidade de reanimação neonatal. A alternativa que descreve clampeamento imediato como parte da conduta ativa está errada nas duas réguas.
  3. 3Dar a ocitocina depois de clampear A ordem é fixa e é o detalhe mais cobrado do terceiro período: 10 UI de ocitocina intramuscular após o desprendimento da criança e ANTES do clampeamento e corte do cordão; só depois a tração controlada, e apenas com sinais de separação placentária. Trocar a ordem transforma a alternativa correta em errada sem mudar nenhuma palavra do resto.
  4. 4Suturar a pele em toda laceração de segundo grau No trauma de segundo grau o que precisa ser suturado é o músculo. A pele só é suturada se as bordas não se apuserem depois da sutura muscular — e, se for preciso, com técnica subcutânea contínua. O mesmo vale para a episiotomia.
  5. 5Transformar 'não aspirar' em 'nunca aspirar' O que a diretriz veda é a aspiração orofaríngea e nasofaríngea SISTEMÁTICA do recém-nascido saudável. Diante de mecônio significativo em criança sem respiração, frequência cardíaca e tônus normais, a assistência segue a diretriz de reanimação neonatal e inclui laringoscopia precoce com aspiração sob visão direta.
  6. 6Aplicar a diretriz a qualquer gestante As 225 recomendações valem para o parto de risco habitual. A recomendação 95 é a lista fechada dos achados que tiram a mulher desse trilho — pressão de 140 por 90 mmHg em duas medidas com 30 minutos de intervalo, temperatura de 38 °C em medida única, mecônio significativo, frequência cardíaca fetal fora de 110 a 160 bpm, pedido de analgesia regional, entre outros. Questão que descreve um desses achados não está mais pedindo 'boas práticas': está pedindo transferência ou chamada do obstetra.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

As Diretrizes de Atenção ao Parto Normal (MS/OMS) recomendam liberdade de movimentação/posição e a presença de acompanhante de escolha da mulher, práticas que aumentam o conforto e a satisfação sem prejuízo aos desfechos (correta). Tricotomia e enema de rotina foram abandonados por não trazerem benefício e causarem desconforto. O decúbito dorsal obrigatório é desencorajado, pois posições verticalizadas/livres são preferíveis. A amniotomia precoce de rotina não deve ser realizada, ficando reservada a indicações específicas.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite, sem consultar, as práticas que saíram da rotina em cada período: no primeiro (enema, tricotomia, amniotomia precoce, antiácido de rotina, cardiotocografia contínua no risco habitual), no segundo (posição supina imposta, puxo dirigido, Kristeller, episiotomia de rotina, massagem perineal) e na primeira hora (aspiração sistemática, sonda gástrica ou retal, pesar/medir/banhar). Depois diga em voz alta os três atos do terceiro período na ordem certa.

em 30 dias

Reconstrua de memória a tabela de prazos: intervalo da ausculta intermitente e da ausculta após analgesia regional, intervalo do toque, o par 2 cm em 4 horas e 1 cm em 2 horas da falha de progresso, os quatro números do segundo período (3 e 2 horas na nulípara, 2 e 1 hora na multípara), os 30 minutos do terceiro período prolongado e a janela de 1 a 5 minutos do clampeamento. Em seguida, escreva as duas posições sobre onde começa a fase ativa, com o ano de cada documento.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Multípara de 39 semanas, pré-natal de risco habitual, chega à maternidade com contrações dolorosas a cada 5 minutos e 3 cm de dilatação. Conduza a admissão, o acompanhamento do trabalho de parto e a assistência ao nascimento de acordo com a régua brasileira. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Assistência ao parto normal e boas práticas — Preparatório para provas | OsceLabs