Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

Trabalho de parto prematuro

A prova cobra quatro janelas de idade gestacional e uma escolha de droga: quem tocolisa, quem recebe corticoide, quem ganha sulfato de magnésio para neuroproteção e quem vai direto para a sala de parto.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Gestante de 25 anos, primigesta, com 33 semanas, é admitida na maternidade com contrações uterinas regulares há 3 horas (2 a 3 em 10 minutos, dolorosas). Ao exame: bom estado geral, PA normal, temperatura 36,7°C. Ao toque, colo com 2 cm de dilatação e 50% de apagamento, bolsa íntegra. Cardiotocografia com feto reativo, sem sinais de sofrimento. Ultrassonografia confirma feto único, apresentação cefálica, líquido normal. Não há sangramento nem perda de líquido. Diante do trabalho de parto prematuro em curso, além da tocólise, a medida mais importante para reduzir a morbimortalidade neonatal é:

02

Como esse tema cai

Prematuridade é tema de conduta cronometrada. A banca entrega uma gestante com contrações, informa a idade gestacional com precisão de dias — e é nela que mora a questão. Cada intervenção tem uma janela própria: tocólise e corticoide de 24 até 34 semanas, sulfato de magnésio para neuroproteção só até 31 semanas e 6 dias, e a partir de 34 semanas o certo passa a ser não inibir nada e assistir ao parto. Quem decora as quatro janelas resolve a maioria das questões antes de ler as alternativas.

O segundo alvo é a escolha da droga. Nifedipina por via oral é a primeira escolha nacional para tocólise, e as alternativas errarão de propósito na via (sublingual), na duração (manutenção além de 48 horas) e nas contraindicações (indometacina depois de 32 semanas, betamimético em cardiopata). O terceiro alvo é a prevenção: colo curto no ultrassom morfológico, progesterona vaginal, cerclagem — cada um com sua indicação, e a banca adora oferecer cerclagem para quem só tem indicação de progesterona.

Este capítulo cobre o trabalho de parto prematuro com bolsa íntegra. A rotura prematura de membranas tem capítulo próprio nesta apostila — aqui ela aparece apenas onde muda a decisão: bolsa rota afasta a elegibilidade para tocólise.

03

O que muda decisão

O problema e as três portas de entrada da prematuridade

Parto pré-termo é o que ocorre até 36 semanas e 6 dias, excluído o período de abortamento — na régua brasileira, a partir de 22 semanas. No Brasil, cerca de 11% dos nascimentos são prematuros, e as complicações da prematuridade são a maior causa de morte neonatal. O Manual de Gestação de Alto Risco (2022) divide o problema em três portas de entrada: o trabalho de parto prematuro espontâneo com bolsa íntegra, a rotura prematura pré-termo das membranas e a prematuridade terapêutica, quando uma doença materna ou fetal obriga a antecipar o parto (pré-eclâmpsia grave é o exemplo clássico). O protocolo da SES-DF atribui ao trabalho de parto prematuro 75% dos nascimentos antes de 37 semanas.

O fator de risco que mais pesa é o antecedente de parto pré-termo espontâneo — é a pergunta obrigatória do pré-natal. Ao redor dele orbitam intervalo entre partos menor que 18 meses, baixo índice de massa corporal, anemia, sangramento vaginal no início da gestação, polidrâmnio, gemelaridade, tabagismo, etilismo e outras substâncias, estresse e depressão, malformações uterinas, conização prévia, doença periodontal, vaginose bacteriana, bacteriúria assintomática e infecção urinária, incluindo pielonefrite. Note o padrão: boa parte é infecção tratável — é por isso que rastrear e tratar bacteriúria assintomática na gestação é conduta de prova.

O quadro sindrômico não tem causa única, e isso explica por que a tocólise não reduz a taxa de parto prematuro nem a mortalidade neonatal: ela não trata causa nenhuma. O que ela faz — e é assim que a prova cobra — é comprar 48 horas para o corticoide agir e para transferir a gestante a um serviço com UTI neonatal.

Prevenção: colo curto, progesterona e cerclagem

A ferramenta de predição consagrada é a medida do colo uterino por ultrassonografia transvaginal. Nas gestantes de maior risco (antecedente de parto pré-termo, principalmente), a medida pode começar já às 16 semanas e ser seriada até 24; nas demais, quando disponível, é feita entre 19 e 24 semanas, junto do morfológico de segundo trimestre. Colo de 25 mm ou menos indica risco aumentado — e quanto mais curto, maior o risco.

Encontrou colo curto: progesterona natural micronizada por via vaginal, 200 mg à noite, do diagnóstico até 36 semanas e 6 dias — é a conduta do Manual de Gestação de Alto Risco. Quem tem antecedente de parto pré-termo espontâneo começa progesterona mais cedo, a partir de 16 semanas, na mesma dose, independentemente da medida do colo. A cerclagem não é resposta para colo curto isolado: ela entra quando o quadro é de insuficiência istmocervical — tipicamente perdas de segundo trimestre indolores e repetidas, ou colo que dilata sem contração — a juízo da equipe que acompanha. O pessário não tem papel estabelecido, e repouso no leito não previne parto prematuro; só aumenta risco tromboembólico.

Duas condutas de pré-natal completam a prevenção: tratar as infecções que aparecerem (urinárias e genitais) e suspender o tabagismo. Fibronectina fetal não faz parte da rotina do SUS e não aparece nos documentos brasileiros como critério de conduta.

Ilustração comparando um colo uterino longo e fechado com um colo encurtado e afunilado, como vistos à ultrassonografia transvaginal.
Colo uterino normal e colo curto à ultrassonografia transvaginal: 25 mm ou menos entre 19 e 24 semanas indica risco aumentado de parto pré-termo e abre a indicação de progesterona vaginal.

Diagnóstico: contrações persistentes com colo mudando

O diagnóstico é clínico e exige as duas pernas: contração e modificação cervical. O Manual de Gestação de Alto Risco define trabalho de parto prematuro como contrações uterinas associadas a modificação do colo — amolecimento, esvaecimento e dilatação — sem fixar número; o corte operacional que os protocolos brasileiros adotam, citando o ACOG, é o do protocolo da SES-DF: pelo menos 4 contrações em 20 minutos ou 8 em 60 minutos, com dilatação cervical de pelo menos 1 cm e esvaecimento presente. Contração sem colo mudando não fecha o diagnóstico: interne para observação, reavalie a queixa e repita o toque. O falso trabalho de parto prematuro existe, é frequente, e a paciente dispensada sai com orientação clara de quando voltar — tocolisar contração de Braxton Hicks é expor uma gestante a droga sem indicação.

Antes de inibir, pergunte por que o útero está contraindo. O descolamento prematuro de placenta em fase inicial pode se apresentar só com contrações, sem sangramento visível; a corioamnionite pode ser subclínica; apendicite, litíase urinária e pielonefrite doem em cólica e irritam o útero. Investigue também perda de líquido — parte dos casos é rotura prematura de membranas que chega rotulada de trabalho de parto. Avalie a vitalidade fetal (ausculta e, sempre que possível, cardiotocografia) e peça na entrada: hemograma, urina tipo 1 com urocultura, swab vaginal e retal para estreptococo do grupo B e ultrassonografia quando disponível.

O exame especular faz parte da entrada: procura perda de líquido, sangramento e vulvovaginite. É esse conjunto — e não um exame isolado — que separa quem recebe o pacote terapêutico de quem recebe observação.

Corticoterapia antenatal: a intervenção que muda desfecho

De tudo o que se faz no trabalho de parto prematuro, o corticoide é o que reduz morte: acelera a maturação pulmonar, reduz síndrome do desconforto respiratório, hemorragia peri-intraventricular e enterocolite necrosante. A janela brasileira de uso rotineiro vai de 24 a 34 semanas incompletas; fora dela, o Manual de Gestação de Alto Risco manda particularizar por serviço. O esquema consagrado é betametasona 12 mg intramuscular, 2 doses com intervalo de 24 horas. A alternativa é a dexametasona 6 mg intramuscular de 12 em 12 horas, 4 doses — esquema dos ensaios clínicos, da OMS e do protocolo da SES-DF; o quadro do manual do MS destoa nesse ponto, e a diferença está esmiuçada no bloco de divergências. Exigência comum a qualquer esquema: não pode haver evidência clínica de infecção intra-amniótica.

O tempo importa mais que a dose: o efeito máximo acontece quando o parto ocorre entre 2 e 7 dias depois da primeira dose; já há algum benefício após 24 horas, e o efeito declina passados 7 dias. Por isso o ciclo não se repete por rotina. Se o episódio foi inibido e semanas depois vem novo trabalho de parto prematuro, admite-se um único ciclo de resgate — desde que a idade gestacional continue abaixo de 34 semanas e a última dose tenha sido dada há mais de 7 a 14 dias. Ciclos adicionais trazem prejuízo ao concepto, e corticoide semanal profilático é erro clássico de alternativa.

A OMS, em 2022, acrescentou condições de bom senso que valem para prova discursiva: usar corticoide quando a idade gestacional é conhecida com confiança, o parto pré-termo é considerado iminente, não há infecção materna e existe cuidado neonatal minimamente adequado do outro lado.

Tocólise: comprar 48 horas, não tratar doença

A tocólise adia o parto por pelo menos 48 horas — possivelmente até 7 dias — e é só isso que ela faz: não reduz a taxa de parto pré-termo, a mortalidade nem a morbidade neonatal. Vale a pena porque 48 horas bastam para o corticoide agir e para transferir a gestante. É elegível quem tem bolsa íntegra, dilatação de até 4 a 5 cm e idade gestacional entre 24 e 34 semanas — com melhores resultados abaixo de 4 cm. É contraindicada quando manter a gestação é pior que o parto: morte fetal, anomalia fetal letal, vitalidade fetal alterada, pré-eclâmpsia com achados graves ou eclâmpsia, hemorragia com instabilidade hemodinâmica (descolamento prematuro de placenta, placenta prévia sangrante), corioamnionite e cardiopatia materna grave. O protocolo da SES-DF acrescenta à lista a rotura de membranas, o diabetes insulinodependente descompensado, o hipertireoidismo descompensado e a anemia falciforme.

Nifedipina é a primeira escolha — uso off label, por via oral, comprimido engolido inteiro, nunca sublingual. O Manual de Gestação de Alto Risco traz dois esquemas; o mais cobrado: ataque de 10 mg via oral, repetido a cada 20 minutos na primeira hora se as contrações persistirem (até 30 mg; o protocolo do DF admite ataque acumulado de 40 mg), seguido de manutenção de 20 mg de 8 em 8 horas por 48 horas. Efeitos comuns são rubor facial, cefaleia, náusea e hipotensão leve; evite em cardiopatas, hepatopatas e hipotensas, e redobre a vigilância em hipertensas já medicadas. Combinada ao sulfato de magnésio, pode potencializar bloqueio neuromuscular e hipotensão — a associação não é proibida, mas exige monitorização rigorosa.

As alternativas: atosibana, antagonista do receptor de ocitocina, é a droga de melhor tolerabilidade e dose mais bem padronizada — bolus intravenoso de 6,75 mg em 1 minuto, infusão de 18 mg/h por 3 horas e depois 6 mg/h por até 45 horas — mas o custo muito superior limita o uso no SUS. Indometacina (ataque de 50 mg via oral ou 100 mg retal, depois 25 mg de 4 em 4 a 6 em 6 horas, máximo de 48 horas) é opção apenas antes de 32 semanas: constringe o canal arterial e causa oligoâmnio, e fica proibida a partir de 32 semanas e em fetos com oligoâmnio ou restrição de crescimento. Terbutalina intravenosa, o betamimético clássico, é cada vez menos usada como primeira escolha pelos efeitos adversos — palpitação, tremor, hiperglicemia, hipopotassemia, taquiarritmia e até edema agudo de pulmão — e exige frequência cardíaca materna abaixo de 120 por minuto durante a infusão.

Três regras fecham o tema e derrubam candidato: falhou o ataque, troque de classe — nunca associe dois tocolíticos; não existe tocólise de manutenção depois das 48 horas, por nenhuma via; e episódio inibido não vira alta imediata — o protocolo do DF dá alta após 24 horas sem contrações com corticoterapia completa, com orientação de mobilograma e sinais de retorno.

Sulfato de magnésio para neuroproteção e profilaxia do estreptococo B

Abaixo de 32 semanas — na letra dos documentos brasileiros, até 31 semanas e 6 dias — o feto prestes a nascer deve receber sulfato de magnésio pela mãe: reduz paralisia cerebral. A indicação liga quando o parto é considerado de alta probabilidade nas próximas 24 horas (tocólise contraindicada, falha de inibição ou prematuridade terapêutica em preparação). O esquema é o mesmo Zuspan que o capítulo de eclâmpsia desta série usa: ataque de 4 g intravenosos em 20 a 30 minutos e manutenção de 1 g por hora até o parto ou por no máximo 24 horas — se o parto não vier em 24 horas, suspende-se. Na prematuridade terapêutica programada, inicia-se cerca de 4 horas antes do nascimento. O que muda em relação à eclâmpsia não é a dose, é a indicação e o teto de 24 horas. Vigilância: diurese, reflexo patelar, frequência respiratória e pressão arterial; miastenia gravis contraindica; gluconato de cálcio a 10% fica preparado para intoxicação.

A segunda profilaxia do parto prematuro é antibiótica, e o alvo é a sepse neonatal precoce por estreptococo do grupo B. Na entrada do trabalho de parto prematuro colhe-se o swab vaginal e retal e já se inicia o antibiótico enquanto se aguarda o resultado — prematuro com status desconhecido é indicação de profilaxia. Se o trabalho de parto evolui, o antibiótico vai até o nascimento; se a tocólise funciona ou a cultura vem negativa, suspende-se. Esquemas do protocolo da SES-DF: penicilina G cristalina 5 milhões de unidades intravenosas de ataque, depois 2,5 milhões de 4 em 4 horas; alternativa com ampicilina 2 g e depois 1 g de 6 em 6 horas; nas alérgicas, clindamicina 900 mg de 8 em 8 horas.

Atenção ao que o antibiótico não faz: com bolsa íntegra, ele não prolonga a gestação nem trata o trabalho de parto prematuro. Antibiótico aqui é profilaxia intraparto dirigida ao estreptococo B — não é tocolítico adjuvante.

O parto prematuro em si e a periviabilidade

Prematuridade, por si, não indica cesariana. Em apresentação cefálica fletida o parto vaginal está liberado, com vigilância contínua do bem-estar fetal, parcimônia com ocitocina e analgésicos sistêmicos, membranas preservadas o maior tempo possível, desprendimento lento e sem episiotomia de rotina. Fórcipe só a partir de 34 semanas, havendo indicação e experiência. A cesariana concentra-se nas apresentações anômalas — o protocolo do DF a indica em situação transversa, apresentação pélvica, cefálica defletida, peso fetal estimado abaixo de 1.500 g e síndromes hemorrágicas — e é tecnicamente mais difícil no pré-termo: o segmento inferior mal formado aumenta o risco de incisão vertical, com consequências para as gestações futuras.

Na sala: temperatura entre 23 e 26 °C, equipe neonatal presente e clampeamento tardio do cordão — pelo menos 1 a 3 minutos — se o recém-nascido estiver em boas condições.

Entre 22 e 23 semanas e 6 dias está a periviabilidade, onde a régua muda de natureza. O Manual de Gestação de Alto Risco manda individualizar e decidir junto com a família. O protocolo da SES-DF operacionaliza: interna e tenta tocólise nessa faixa, mas reserva corticoide, sulfato de magnésio e antibioticoprofilaxia para 24 semanas em diante, pelo mau prognóstico fetal abaixo disso. Questão que informa 23 semanas e pergunta por corticoide de rotina está testando exatamente essa fronteira.

04

A conduta pela idade gestacional

O manejo inteiro cabe em uma pergunta: quantas semanas? Quatro intervenções — tocólise, corticoide, sulfato de magnésio e profilaxia do estreptococo B — entram e saem de cena conforme a faixa. O fluxo dá a ordem dos passos; os cards, o pacote de cada faixa; as tabelas, as doses que a prova pede.

  1. 1Feche o diagnóstico: 4 contrações em 20 minutos (ou 8 em 60) com colo dilatado pelo menos 1 cm e esvaecendo. Colo sem mudança = observação e reexame, não tocólise.
  2. 2Pergunte por que o útero contrai: afaste descolamento de placenta, corioamnionite, pielonefrite e rotura de membranas antes de decidir segurar a gestação.
  3. 3Colha na entrada: hemograma, urina tipo 1 com urocultura, swab vaginal e retal para estreptococo do grupo B; cardiotocografia e ultrassonografia quando disponíveis.
  4. 4Cheque contraindicações à tocólise: vitalidade fetal alterada, pré-eclâmpsia com achados graves, sangramento com instabilidade, infecção intra-amniótica, bolsa rota, cardiopatia grave — nesses, conduza a causa e prepare o parto.
  5. 5Monte o pacote da faixa (cards): tocólise + corticoide de 24 a 33 semanas e 6 dias; sulfato de magnésio somente até 31 semanas e 6 dias; a partir de 34 semanas, assistência ao parto.
  6. 6Prescreveu nifedipina: reavalie na primeira hora; persistindo contrações após o ataque máximo, é falha — troque de classe, nunca associe. Limite de 48 horas, sem manutenção.
  7. 7Parto inevitável: penicilina cristalina correndo se cultura desconhecida ou positiva, sulfato de magnésio se abaixo de 32 semanas, equipe neonatal avisada, sala a 23–26 °C e clampeamento tardio se o recém-nascido nascer bem.

22 a 23 sem + 6 d — periviabilidade

Decisão compartilhada com a família. O protocolo do DF interna e tenta tocólise, mas corticoide, sulfato de magnésio e antibiótico ficam reservados para 24 semanas em diante, pelo prognóstico fetal reservado.

24 a 31 sem + 6 d — pacote completo

Internação, tocólise (nifedipina), corticoide (betametasona 12 mg IM, 2 doses), sulfato de magnésio se o parto ficar iminente e profilaxia do estreptococo B enquanto houver risco de nascimento.

32 a 33 sem + 6 d — sem o sulfato

Tocólise e corticoide seguem indicados; o sulfato de magnésio sai do pacote (janela de neuroproteção fechou em 31 semanas e 6 dias). Indometacina também já saiu: proibida a partir de 32 semanas.

34 sem ou mais — assistir ao parto

Tocólise contraindicada. Fase latente com bolsa íntegra pode receber alta orientada; fase ativa interna para assistência, com profilaxia do estreptococo B se status desconhecido ou positivo. Corticoide fora de rotina no SUS nessa faixa.

TocolíticoEsquemaO que trava o uso
Nifedipina — 1ª escolha (off label)Ataque 10 mg VO; repetir a cada 20 min na 1ª hora se persistirem contrações (máx. 30 mg pelo MS; o DF admite 40 mg). Manutenção 20 mg VO 8/8 h por 48 h. Engolir inteiro; nunca sublingual.Cardiopatia, disfunção hepática, hipotensão; vigiar de perto em hipertensas medicadas; com sulfato de magnésio, risco de bloqueio neuromuscular e hipotensão — monitorização rigorosa.
Atosibana (antagonista de ocitocina)Bolus IV 6,75 mg em 1 min → 18 mg/h por 3 h → 6 mg/h por até 45 h.Sem contraindicação própria além das gerais da tocólise; o custo muito superior restringe o uso no SUS.
Indometacina (inibidor de prostaglandina)Ataque 50 mg VO ou 100 mg retal; depois 25 mg VO 4/4 a 6/6 h; máximo 48 h.Proibida com 32 semanas ou mais, no oligoâmnio e na restrição de crescimento: constrição do canal arterial e oligoâmnio.
Terbutalina / salbutamol (betamimético IV)Infusão contínua em bomba, titulada a cada 20–30 min até inibição; desmame após 12 h sem contrações; máximo 48 h.Cardiopatia, taquiarritmia, hipertireoidismo e diabetes descompensados; FC materna deve ficar < 120 bpm; edema agudo de pulmão é o efeito temido.

Corticoide e sulfato de magnésio — esquemas e janelas

IntervençãoEsquemaJanela e regra
Betametasona (preferida)12 mg IM, 2 doses com intervalo de 24 h.24 a 34 semanas incompletas; sem infecção intra-amniótica; efeito máximo com parto 2 a 7 dias após a 1ª dose.
Dexametasona (alternativa)6 mg IM de 12/12 h, 4 doses — esquema dos ensaios, da OMS e da SES-DF (o quadro do manual do MS de 2022 imprime 6 mg a cada 24 h; ver divergências).Mesma janela e mesmas condições da betametasona.
Ciclo de resgateRepetir um único ciclo completo.Só se idade gestacional ainda < 34 semanas e última dose há mais de 7 a 14 dias; nunca ciclos seriados.
Sulfato de magnésio (neuroproteção)Ataque 4 g IV em 20–30 min; manutenção 1 g/h até o parto ou por no máximo 24 h.Até 31 semanas e 6 dias, com parto de alta probabilidade em 24 h; monitorar diurese, reflexo patelar e frequência respiratória; contraindicado na miastenia gravis; gluconato de cálcio à mão.

Falha do ataque tocolítico = trocar de classe. Associar tocolíticos soma efeito adverso, não eficácia.

Tocólise de manutenção após as 48 horas não melhora desfecho por nenhuma via — nem oral.

Bolsa rota tira a paciente da elegibilidade para tocólise; o manejo passa a ser o do capítulo de rotura prematura de membranas.

Antibiótico com bolsa íntegra não prolonga gestação: aqui ele é só profilaxia intraparto do estreptococo B.

Se a tocólise inibiu e a cultura veio negativa, o antibiótico é suspenso; alta após 24 horas sem contrações com corticoterapia completa.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Corticoide no pré-termo tardio (34 a 36 semanas e 6 dias)

SMFM/ACOG (EUA, 2016–2021): ciclo único possível

Após o ensaio ALPS (2016), a SMFM (Consult Series nº 58, 2021) e o ACOG admitem um ciclo único de betametasona entre 34 e 36 semanas e 6 dias quando o parto é esperado em até 7 dias e não houve ciclo prévio — sem tocolisar para completar o esquema. O preço conhecido é mais hipoglicemia neonatal.

SMFM Consult Series nº 58, Am J Obstet Gynecol, 2021 (substitui a Statement nº 4); ensaio ALPS, 2016

OMS (2022): restringir a menos de 34 semanas

A diretriz de 2022 recomenda corticoide apenas antes de 34 semanas: acima disso o benefício respiratório é modesto e a hipoglicemia neonatal pesa contra, especialmente onde a vigilância glicêmica do recém-nascido não é garantida.

WHO recommendations on antenatal corticosteroids, 2022

Ministério da Saúde (2022): rotina até 34, fora disso cada serviço decide

O Manual de Gestação de Alto Risco estimula o uso entre 24 e 34 semanas e, fora dessa faixa, manda particularizar conforme as características de cada serviço — texto que acomoda tanto a leitura restritiva quanto a seleção de casos no pré-termo tardio.

Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022, cap. 6

Na prova

O cenário denuncia o recorte: maternidade americana, enunciado citando ALPS ou SMFM e parto tardio iminente apontam para o mundo em que 34–36 semanas ainda recebe betametasona; UBS, SUS, enunciado citando OMS ou o manual do MS apontam para a janela fechando em 34. Distrator típico: oferecer corticoide de rotina a 35 semanas numa questão inteira ambientada no SUS — ou negá-lo taxativamente numa questão que nomeia a SMFM.

Esquema da dexametasona: de 12 em 12 horas ou de 24 em 24?

SES-DF (2018) e OMS/ensaios: 6 mg IM 12/12 h, 4 doses

O esquema testado nos ensaios que sustentam a corticoterapia antenatal soma 24 mg em 48 horas: 6 mg intramusculares de 12 em 12 horas, 4 doses. É o que consta no protocolo da SES-DF (dexametasona como segunda escolha) e nos documentos internacionais.

Protocolo SES-DF, Portaria nº 1.356/2018; WHO recommendations on antenatal corticosteroids, 2022

Quadro do manual do MS (2022): 6 mg IM a cada 24 h por 2 dias

O Quadro 1 do capítulo de prematuridade imprime, literalmente, dexametasona 6 mg IM a cada 24 horas por 2 dias — metade da dose total dos ensaios. A própria bibliografia do capítulo cita a revisão Cochrane cujos estudos usaram o esquema de 12 em 12 horas, o que sugere tratar-se de redação destoante do quadro, e não de uma recomendação deliberada de dose menor; o texto oficial, porém, é o que está impresso.

Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022, cap. 6, Quadro 1

Na prova

Alternativa com dexametasona 6 mg de 12 em 12 horas em 4 doses reflete o esquema dos ensaios, da OMS e dos protocolos estaduais; um intervalo de 24 horas para a dexametasona só existe no quadro do manual federal de 2022. Como a betametasona 12 mg de 24 em 24 horas em 2 doses é idêntica em todos os documentos, ela costuma ser o terreno seguro que as bancas escolhem para cobrar esquema.

Progesterona preventiva: dose e janela

Ministério da Saúde (2022): 200 mg para todos os cenários, e começando cedo

Progesterona natural micronizada vaginal 200 mg à noite: no colo curto (≤ 25 mm), do diagnóstico até 36 semanas e 6 dias; no antecedente de parto pré-termo, desde 16 semanas, independentemente da medida do colo, com colo seriado de 16 a 24 semanas.

Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022, cap. 6

SES-DF (2018): 100 mg no antecedente, e janela de 24 a 33+6

O protocolo distrital, anterior ao manual federal, prescreve 100 mg diários de 24 a 33 semanas e 6 dias para quem tem antecedente de parto prematuro, reservando 200 mg (mesma janela) para colo ≤ 25 mm medido entre 20 e 25 semanas. A diferença reflete a literatura da época da portaria; o documento federal é quatro anos mais novo e alinhado às recomendações internacionais de 2021.

Protocolo SES-DF, Portaria nº 1.356/2018

Na prova

Questão de prova nacional ambientada no pré-natal tende a seguir o documento federal vigente — 200 mg começando às 16 semanas no antecedente, ou ao diagnóstico do colo curto. Dose de 100 mg ou janela começando às 24 semanas nas alternativas identifica enunciado construído sobre protocolo local mais antigo; a menção nominal ao protocolo ou ao ano entrega qual régua a banca usou.

06

Caso resolvido

Secundigesta de 27 anos, parto anterior aos 32 semanas, chega à maternidade com 29 semanas e 3 dias queixando-se de dores em baixo ventre há 4 horas. Dinâmica uterina: 4 contrações em 20 minutos, moderadas. Toque: colo dilatado 2 cm, esvaecido 80%, bolsa íntegra, apresentação cefálica. BCF 142 bpm, cardiotocografia categoria I. Sem sangramento, afebril, PA 110×70 mmHg. Urina tipo 1 sem alterações; não fez cultura para estreptococo B no pré-natal.
diagnóstico
Contrações persistentes (4 em 20 minutos) com colo modificado (2 cm, 80% de esvaecimento) fecham trabalho de parto prematuro verdadeiro em gestação de 29 semanas — dentro da faixa 24 a 31+6, a do pacote completo. Sem febre, sem sangramento, com CTG categoria I: nenhuma contraindicação à tocólise à vista.
conduta imediata
Internação. Nifedipina 10 mg via oral, repetível a cada 20 minutos na primeira hora se as contrações persistirem; betametasona 12 mg intramuscular agora e a segunda dose em 24 horas; swab vaginal e retal para estreptococo do grupo B colhido na entrada, com penicilina cristalina iniciada enquanto se aguarda o resultado, já que o parto pode evoluir.
evolução
Após 30 mg acumulados de nifedipina, mantém 4 contrações em 20 minutos e o colo vai a 4 cm: falha do ataque. Troca-se de classe (atosibana, se disponível; sem ela, betamimético IV se não houver contraindicação) — nunca se associa o segundo tocolítico ao primeiro.
neuroproteção
Com o parto agora provável nas próximas horas e idade gestacional abaixo de 32 semanas, inicia-se sulfato de magnésio: 4 g IV em 20 a 30 minutos e manutenção de 1 g/h até o parto (máximo 24 horas), monitorando reflexo patelar, diurese e frequência respiratória. A penicilina segue até o nascimento.
desfecho
Parto vaginal cefálico com equipe neonatal presente, sala aquecida a 23–26 °C e clampeamento do cordão após 1 a 3 minutos, com o recém-nascido em boas condições. O corticoide dado à admissão já tinha mais de 24 horas — tempo suficiente para algum benefício pulmonar.
07

Agora feche você

Gestante de 35 semanas e 1 dia, sem intercorrências no pré-natal, chega com contrações regulares — 3 fortes em 10 minutos — iniciadas há 3 horas. Toque: colo 5 cm, esvaecido, bolsa íntegra, cefálico. BCF 138 bpm, sem mecônio, sem febre. Cultura para estreptococo do grupo B não foi colhida no pré-natal.
achado
Trabalho de parto em fase ativa (colo 5 cm, dinâmica ativa) em gestação de 35 semanas — pré-termo tardio, acima da janela de tocólise, com status desconhecido para estreptococo do grupo B.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tocolisar depois das 34 semanas Atrai porque inibir parece sempre protetor. Mas a partir de 34 semanas a morbidade neonatal despenca e a tocólise vira risco sem benefício — os documentos brasileiros a contraindicam. A vinheta de 35 semanas com dinâmica ativa pede assistência ao parto, não nifedipina.
  2. 2Sulfato de magnésio até 34 semanas A cabeça funde as janelas do corticoide (até 34) e da neuroproteção (até 31 semanas e 6 dias). Com 32 ou 33 semanas há tocólise e corticoide — mas não sulfato. O contrário também cai: negar neuroproteção a um parto iminente de 28 semanas porque a paciente não tem pré-eclâmpsia.
  3. 3Manter tocólise além das 48 horas ou repetir corticoide toda semana As duas manutenções parecem zelo e são erro. Tocólise de manutenção não muda desfecho por nenhuma via; corticoide se repete uma única vez (resgate), só abaixo de 34 semanas e com mais de 7 a 14 dias da última dose — ciclos seriados prejudicam o concepto.
  4. 4Indometacina com 32 semanas ou mais O distrator explora quem decorou a droga mas não a trava: a partir de 32 semanas a constrição do canal arterial e o oligoâmnio proíbem o inibidor de prostaglandina. Oligoâmnio prévio e restrição de crescimento também o vetam, em qualquer idade gestacional.
  5. 5Nifedipina sublingual, ou sem olhar o resto da prescrição Sublingual despenca a pressão e está proscrita — o comprimido é engolido inteiro. E a nifedipina exige ler o contexto: cardiopatia, hepatopatia e hipotensão contraindicam; junto do sulfato de magnésio, o risco de bloqueio neuromuscular e hipotensão exige monitorização rigorosa.
  6. 6Inibir um útero que está avisando outra doença Contração é sintoma antes de ser diagnóstico: descolamento de placenta inicial pode não sangrar para fora, corioamnionite pode ser subclínica e pielonefrite irrita o útero. Tocolisar sem afastar as causas trata o alarme e deixa o incêndio — e é exatamente o cenário que a banca monta para punir a tocólise reflexa.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

No trabalho de parto prematuro entre 24 e 34 semanas, a intervenção que mais reduz morbimortalidade neonatal (síndrome do desconforto respiratório, hemorragia intraventricular, enterocolite) é a corticoterapia antenatal para maturação pulmonar. A tocólise apenas ganha tempo para o corticoide agir. A antibioticoprofilaxia para estreptococo do grupo B se dá no parto conforme protocolo, não como principal medida. A cesariana não está indicada com feto em bem-estar e cefálico. O sulfato de magnésio é usado para neuroproteção fetal (<32 semanas), não como tocolítico primário, e não substitui o corticoide.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Repasse as quatro janelas com dias: tocólise e corticoide de 24 a 33+6; sulfato de magnésio até 31+6; 34 em diante, parto assistido. Doses: nifedipina ataque 10 mg VO repetível a cada 20 min (máx. 30–40 mg) e manutenção 20 mg 8/8 h por 48 h; betametasona 12 mg IM 24/24 h, 2 doses; dexametasona 6 mg IM 12/12 h, 4 doses (quadro do MS 2022 imprime 24/24 h — saiba as duas versões); sulfato 4 g IV em 20–30 min + 1 g/h até o parto ou 24 h; penicilina cristalina 5 milhões UI + 2,5 milhões 4/4 h. Diagnóstico: 4 contrações/20 min + colo ≥ 1 cm esvaecendo. Prevenção: colo ≤ 25 mm entre 19 e 24 semanas → progesterona vaginal 200 mg/noite até 36+6; antecedente de parto pré-termo → desde 16 semanas.

em 30 dias

Monte de memória a conduta para três vinhetas: 29 semanas com colo 2 cm (pacote completo — e o que muda se o ataque de nifedipina falhar); 33 semanas asmática com oligoâmnio (quem tocolisa e quem está proibido); 35 semanas em fase ativa sem cultura de estreptococo B (o que entra e o que não entra). Depois responda: quando a dexametasona substitui a betametasona, quem pode receber ciclo de resgate, e por que antibiótico com bolsa íntegra não é tocolítico. Se travar em alguma janela, releia só os cards.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Secundigesta de 29 semanas com parto anterior prematuro chega com 4 contrações em 20 minutos e colo de 2 cm esvaecido, bolsa íntegra — maternidade com UTI neonatal. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Trabalho de parto prematuro — Preparatório para provas | OsceLabs