Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

Rotura prematura de membranas ovulares

A prova entrega uma gestante perdendo líquido e cobra três decisões: como confirmar sem contaminar, quando segurar a gestação (e com quais remédios) e quando resolver. A linha divisória de quase tudo é a 34ª semana.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Uma gestante de 31 anos, na 33ª semana, apresenta perda de líquido claro em grande quantidade pela vagina há 3 horas, sem contrações. Está afebril, PA 120x75 mmHg, FC 84 bpm. Ao exame especular, observa-se saída de líquido pelo orifício cervical, com pH vaginal alcalino ao teste. Qual é o diagnóstico e a conduta mais adequada, na ausência de sinais de infecção ou sofrimento fetal?

02

Como esse tema cai

Rotura prematura de membranas é tema de duas provas dentro de uma. A primeira é de raciocínio diagnóstico: a banca descreve perda líquida e pergunta como confirmar — e a resposta certa quase sempre passa pelo espéculo e quase nunca pelo toque. A segunda é de conduta por idade gestacional: o mesmo achado (bolsa rota, sem trabalho de parto) tem quatro respostas diferentes conforme a gestação tenha menos de 24 semanas, esteja entre 24 e 33+6, entre 34 e 36+6, ou no termo. Quem decora uma conduta única erra três faixas.

O detalhe que diferencia o candidato mediano do aprovado está nos remédios da conduta expectante: qual corticoide e até quando, qual antibiótico e por quanto tempo, qual o papel do sulfato de magnésio — e o que é proibido (tocólise, toque vaginal, amoxicilina-clavulanato). A banca também adora o flagrante da corioamnionite no meio da expectante, porque infecção intrauterina zera a idade gestacional como critério: o parto vira a conduta, em qualquer semana.

Este capítulo trata da rotura antes do trabalho de parto. Trabalho de parto prematuro com bolsa íntegra (tocólise, que lá é permitida) e o rastreio do estreptococo B em detalhe têm capítulos próprios — aqui entram só nos pontos em que a RPMO os convoca.

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O que muda decisão

O que é, quanto pesa e por que acontece

O Manual de Gestação de Alto Risco define rotura prematura de membranas como a saída espontânea de líquido amniótico pela vagina, por perda da integridade das membranas ovulares, na ausência de sinais de trabalho de parto, em gestações acima de 20 a 22 semanas. O sobrenome importa: “prematura” aqui significa antes do trabalho de parto, não antes do termo. Quando acontece antes de 37 semanas, acrescenta-se “pré-termo” (a RPMO pré-termo da literatura em inglês, PPROM). Período de latência é o tempo entre a rotura e o início espontâneo do trabalho de parto — quanto menor a idade gestacional, maior tende a ser a latência, e quanto mais longa a latência, maior o risco de infecção.

Os números que a prova usa: a RPMO ocorre em cerca de 10% de todas as gestações e 80% dos casos acontecem no termo. Apesar disso, responde por aproximadamente um terço de todos os partos pré-termo — é a principal porta de entrada da prematuridade. Entre as causas, o processo inflamatório/infeccioso ascendente é considerado o fator mais influente; somam-se o aumento da pressão intrauterina (polidrâmnio, gemelidade), a fraqueza estrutural do colo (insuficiência istmocervical), a inserção baixa de placenta, as infecções urinárias e o tabagismo.

As complicações desenham as condutas. A principal é a infecção da cavidade amniótica, que ameaça mãe e feto e é a razão de toda a vigilância da conduta expectante. O manual cita ainda o descolamento prematuro de placenta (2% a 5% dos casos) e o prolapso de cordão. Quando a rotura é muito precoce e o oligoâmnio é severo e persistente, o preço é do desenvolvimento fetal: hipoplasia pulmonar, deformidades de face e membros e restrição de crescimento — é isso que torna sombrio o prognóstico antes da viabilidade.

Diagnóstico: o espéculo decide, o toque atrapalha

Em 85% a 90% das vezes o diagnóstico é clínico: história de perda líquida (em geral súbita, contínua, que molha a roupa) e exame físico. O exame que confirma é o especular, buscando líquido amniótico saindo pelo orifício externo do colo — se preciso, com manobras que aumentam a pressão intra-abdominal (Valsalva) ou mobilização cefálica. No termo, a Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal dá um passo além do que a maioria decora: se o diagnóstico já é evidente pela história e pela perda visível, nem o especular precisa ser feito; ele fica para os casos de dúvida.

Na dúvida, dois testes de conteúdo vaginal ajudam, ambos com armadilhas. O pH: o líquido amniótico é alcalino (7,1–7,3) contra um pH vaginal normal de 3,8–4,5 — pela fita, um pH acima de 6,5 reforça o diagnóstico (o papel de nitrazina vira azul a partir de 6,0). Sangue, sêmen, urina e vaginose alcalinizam a vagina e produzem 17,4% de falso-positivos; após 48 horas de latência, com pouco líquido no fundo de saco, há 9,4% de falso-negativos. A cristalização: o conteúdo do fundo de saco posterior ou da parede lateral, seco em lâmina, forma cristais em folha de samambaia; colher perto do colo contamina com muco cervical (que também cristaliza) e falseia o resultado — os falso-positivos vão de 5% a 30% e os falso-negativos de 13% a 30%.

A ultrassonografia com líquido reduzido corrobora, mas oligoâmnio tem outras causas — é apoio, não confirmação. Os testes imunocromatográficos que detectam proteínas do líquido amniótico (AmniSure, Actim Prom) têm ótima acurácia, mas o manual é honesto: custo elevado, quase nunca disponíveis. Os diferenciais são prosaicos: perda urinária, corrimento e a saída do tampão mucoso.

E o toque vaginal: não. Ele acrescenta pouco ao especular, encurta a latência e aumenta infecção — na gestante que vai para conduta expectante, o manual o proíbe na admissão, e a diretriz manda evitá-lo no termo enquanto não há contrações. O toque fica reservado para quem está em trabalho de parto, e mesmo aí, contado: nos dados revisados pela diretriz, a corioamnionite clínica subiu de 2% para 13% conforme o número de exames vaginais aumentou.

Corte sagital de útero gravídico mostrando rotura das membranas junto ao colo, com líquido amniótico escoando pelo canal cervical até a vagina.
A rotura junto ao polo inferior deixa o líquido escoar pelo canal cervical: é esse líquido que o exame especular procura no fundo de saco — sem necessidade de toque.

Pré-termo de 24 a 33+6: a expectante armada

Nessa faixa, o feto ganha mais amadurecendo dentro do útero do que nascendo — a conduta é expectante, hospitalar e vigiada. O pacote de admissão do manual: internar todas; avaliação clínica (pulso, temperatura, pressão arterial, tônus uterino) e laboratorial (urina tipo I, urocultura, hemograma e proteína C reativa); coleta vaginal e perianal para pesquisa de estreptococo do grupo B; e datação criteriosa da idade gestacional, porque é ela que comanda todas as decisões seguintes. Toque vaginal, já dito, não entra.

A vigilância da expectante é uma rotina de guerra: controle de pulso, pressão e temperatura; observação do tônus uterino e dos batimentos fetais; inspeção do aspecto, cor e odor dos pensos vaginais; hemograma e proteína C reativa a cada dois a três dias; cardiotocografia diária; ultrassonografia com Doppler e perfil biofísico fetal duas vezes por semana. A regra geral é internação até o parto — o seguimento ambulatorial semanal é excepcional, reservado a casos selecionados com bom líquido residual, apresentação cefálica e condições sociais favoráveis.

Dois remédios mudam prognóstico. Corticoterapia antenatal, ciclo único: betametasona 12 mg intramuscular a cada 24 horas por 2 dias, ou dexametasona 6 mg intramuscular a cada 12 horas por 2 dias — a janela nacional é de 24 a 34 semanas. Antibiótico de latência, no esquema do manual: ampicilina 2 g endovenosa a cada 6 horas por 48 horas (iniciada após a coleta do estreptococo B), seguida de amoxicilina 500 mg via oral a cada 8 horas por mais 5 dias, associada a dose única de azitromicina. O macrolídeo cobre os germes atípicos da cavidade amniótica (micoplasmas e ureaplasmas) que os betalactâmicos ignoram. O Cochrane de Kenyon quantifica o ganho do antibiótico: menos partos em 48 horas (RR 0,71) e em 7 dias (RR 0,79), menos infecção neonatal (RR 0,67), menos ultrassom cerebral anormal (RR 0,81) — e um veto: amoxicilina-clavulanato aumentou quase cinco vezes a enterocolite necrosante neonatal (RR 4,72) e não deve ser usado.

O que não fazer: tocólise. Na RPMO os tocolíticos devem ser evitados — segurar contração com a cavidade exposta é dar tempo à infecção, e a literatura não demonstrou ganho de latência nem benefício neonatal. Essa é uma pegadinha clássica, porque no trabalho de parto prematuro com bolsa íntegra a tocólise é conduta correta; a bolsa rota inverte a resposta.

Falta o neuroprotetor: sulfato de magnésio quando o parto é esperado antes de 32 semanas (o capítulo de prematuridade do mesmo manual fecha a janela em 31+6 e manda iniciar quando há alta probabilidade de nascimento nas próximas 24 horas). Esquema: ataque de 4 g endovenosos em 20 a 30 minutos, manutenção de 1 g por hora até o parto ou por no máximo 24 horas, com vigilância de diurese, reflexo patelar, frequência respiratória e gluconato de cálcio à mão.

A expectante acaba quando surgir qualquer um destes: sinais de infecção materna ou fetal, comprometimento da vitalidade, trabalho de parto espontâneo, maturidade fetal confirmada — ou a chegada às 34 semanas.

Corioamnionite: o alarme que zera a idade gestacional

O quadro clássico é febre acima de 38 °C com útero doloroso e taquicardia materna ou fetal, sem outro foco. O manual detalha os sinais que devem acender o alerta durante a expectante: taquicardia materna e/ou fetal, febre, leucócitos acima de 20.000/mm³ ou com desvio significativo à esquerda — e uma regra fina que a prova adora: se os leucócitos estão abaixo de 20.000 mas subiram 20% em relação aos exames anteriores, vale como sinal; e o corticoide pode elevar o hemograma por cerca de 48 horas, então leucocitose isolada logo após a betametasona não fecha infecção. No perfil biofísico, a ausência de movimentos respiratórios fetais entra na mesma lista.

Confirmada ou fortemente suspeitada a infecção intrauterina, a conduta é uma só, em qualquer idade gestacional: antibioticoterapia de amplo espectro e resolução da gestação — o fluxograma do manual é explícito em mandar conduta ativa imediata, independentemente da semana. Dois erros de prova: continuar “mais 48 horas de expectante para completar o corticoide” (não existe — infecção interrompe tudo) e partir direto para cesárea. Corioamnionite não é, por si, indicação de cesárea: na RPMO a via vaginal deve ser privilegiada na ausência de contraindicações obstétricas, justamente para reduzir risco infeccioso materno.

De 34 semanas ao termo: resolver, e como

A partir de 34 semanas o manual manda conduzir como no termo: resolução da gestação, sobretudo onde há suporte neonatal adequado — o risco infeccioso de esperar passa a pesar mais que a prematuridade tardia. O próprio texto abre uma válvula assumidamente estrutural: serviços com menor infraestrutura neonatal podem particularizar e estender a expectante até 36 semanas, desde que haja líquido satisfatório, boa vitalidade e nenhum sinal de infecção. Guarde a lógica: a régua nacional resolve às 34; a exceção é condicionada ao serviço, não ao desejo de “ganhar mais tempo”. Corticoide aqui já não entra — a janela fechou às 34.

No termo, o manual é lacônico: bolsa rota indica postura ativa para desencadear o trabalho de parto. A Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal, olhando a mesma cena na maternidade de risco habitual, dá os números para conversar com a paciente: o risco de infecção neonatal grave é de 1%, contra 0,5% com bolsa íntegra; 60% das mulheres entrarão em trabalho de parto espontâneo em até 24 horas; e a indução é apropriada dentro dessas 24 horas. Enquanto se aguarda — ou se a mulher escolher expectante além de 24 horas —, a vigilância é surpreendentemente enxuta: temperatura aferida pela própria paciente a cada 4 horas, atenção à cor e ao cheiro das perdas, batimentos e movimentação fetal a cada 24 horas; swab e proteína C reativa não devem ser colhidos; banho não aumenta infecção (relação sexual pode).

O estreptococo do grupo B costura as duas pontas. Na expectante pré-termo, a cultura é colhida na admissão e a ampicilina das primeiras 48 horas já cumpre a prevenção neonatal. No termo, vale a regra dos protocolos de prevenção (CDC, adotada pelas sociedades brasileiras): profilaxia intraparto para cultura positiva — e, quando o status é desconhecido, na presença de fatores de risco: trabalho de parto antes de 37 semanas, rotura há 18 horas ou mais, ou temperatura intraparto de 38 °C ou mais. A droga é a penicilina cristalina endovenosa: 5 milhões UI de ataque e 2,5 milhões UI a cada 4 horas até o parto (ampicilina é a alternativa habitual).

Em todas as faixas, decidida a resolução, a via preferencial é a vaginal; cesárea segue indicações obstétricas.

Antes da viabilidade: a conversa mais difícil

Rotura antes de 24 semanas (o manual individualiza a zona cinzenta de 22 a 24, conforme a capacidade do serviço) tem prognóstico habitualmente desfavorável: o oligoâmnio persistente impede o desenvolvimento pulmonar — hipoplasia —, deforma face e membros, comprime o cordão e convida a infecção. Via de regra, mesmo com expectante, o concepto não terá condição de vida pós-natal.

A conduta aqui é, antes de tudo, informação: explicar ao casal prognóstico perinatal e riscos maternos, abrir espaço para dúvidas e registrar. Se a opção for manter a gestação, seguem-se os cuidados maternos e fetais com o recebimento das orientações documentado por escrito. Se a proposta for interrupção por risco materno (com misoprostol ou ocitocina), o manual exige anuência assinada do casal e de dois profissionais especialistas do serviço. Não há corticoide, sulfato ou antibiótico de latência que conserte essa faixa — o que existe é decisão compartilhada e vigilância do risco materno.

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A régua das 34 semanas (e as outras três linhas de corte)

O caminho inteiro cabe num fluxo: confirmar sem contaminar, rastrear infecção, datar a gestação e deixar a idade gestacional escolher a conduta. Os cards mostram as quatro faixas — a gestação cresce, a conduta muda. A primeira tabela é a que a prova cobra; as outras duas guardam a rotina de vigilância e os remédios com dose.

  1. 1Suspeita (perda líquida): história + exame especular com Valsalva; toque vaginal NÃO. No termo com perda evidente, nem especular é obrigatório.
  2. 2Dúvida diagnóstica: pH vaginal (> 6,5 reforça; nitrazina azul ≥ 6,0) e cristalização em samambaia, colhida longe do colo; ultrassom como apoio; teste imunocromatográfico se disponível.
  3. 3Confirmada a RPMO: afastar trabalho de parto, prolapso de cordão e descolamento; avaliar vitalidade fetal; datar a gestação com rigor.
  4. 4Rastrear infecção: temperatura, pulso, tônus uterino; hemograma, proteína C reativa, urina tipo I e urocultura; coleta vaginal e perianal para estreptococo B (na expectante pré-termo).
  5. 5Sinais de infecção intrauterina em QUALQUER momento: antibiótico de amplo espectro + resolução imediata, independentemente da idade gestacional.
  6. 6Sem infecção: a idade gestacional decide — antes de 24 semanas, aconselhamento e decisão compartilhada; de 24 a 33+6, expectante armada (corticoide + antibiótico de latência, sem tocólise); de 34 em diante, resolução; no termo, postura ativa/indução oportuna.
  7. 7Parto se aproximando antes de 32 semanas: sulfato de magnésio para neuroproteção. Via preferencial sempre vaginal; profilaxia do estreptococo B conforme protocolo.

< 24 semanas — pré-viabilidade

Prognóstico desfavorável (hipoplasia pulmonar, deformidades, infecção). Aconselhamento do casal, decisão compartilhada documentada; interrupção por risco materno exige anuência assinada do casal e de dois especialistas. Sem corticoide, sem antibiótico de latência, sem tocólise.

24 a 33+6 — expectante armada

Internar até o parto, sem toque. Corticoide (betametasona 12 mg IM 24/24 h, 2 doses) + ampicilina–amoxicilina–azitromicina. Vigilância: hemograma e PCR a cada 2–3 dias, cardiotocografia diária, ultrassom com Doppler e perfil biofísico 2×/semana. Tocólise evitada. Sulfato de magnésio se o parto vier antes de 32 semanas.

34 a 36+6 — resolução (com válvula)

Conduzir como no termo: resolução da gestação onde há suporte neonatal. Serviço com menor estrutura pode estender a expectante até 36 semanas se houver líquido satisfatório, boa vitalidade e nenhum sinal de infecção. Corticoide já não entra — a janela fechou às 34.

≥ 37 — termo: postura ativa

Postura ativa para desencadear o parto; a Diretriz de Parto Normal considera a indução apropriada dentro de 24 horas (60% entram em trabalho de parto sozinhas nesse prazo). Sem swab, sem PCR; temperatura de 4/4 h na espera. Estreptococo B: profilaxia se cultura positiva ou status desconhecido com rotura ≥ 18 h ou febre.

Faixa de idade gestacionalCondutaO que NÃO fazer
< 24 semanasAconselhamento do casal e decisão compartilhada documentada; se interrupção por risco materno, anuência assinada do casal + 2 especialistas (misoprostol ou ocitocina)Prometer benefício de corticoide/antibiótico de latência; tocólise
24 a 33+6Internação até o parto; corticoide (24–34 sem); ampicilina EV 48 h → amoxicilina 5 dias + azitromicina dose única; vigilância seriada; MgSO4 se parto < 32 semToque vaginal; tocólise; amoxicilina-clavulanato; expectante ambulatorial de rotina
34 a 36+6Resolução da gestação (conduzir como termo) onde há suporte neonatal; válvula: expectante até 36 sem em serviço com menor estrutura, se líquido bom, vitalidade boa e zero infecçãoCorticoide após 34 semanas; esperar “maturidade” sem critério de serviço
≥ 37 (termo)Postura ativa; indução apropriada dentro de 24 h; vigilância enxuta (temperatura 4/4 h, cor/odor das perdas, BCF a cada 24 h); profilaxia EGB conforme status/fatoresSwab e PCR de rotina; toques repetidos; cesárea por “bolsa rota” sem outra indicação
Qualquer faixa com infecção intrauterinaAntibiótico de amplo espectro + resolução IMEDIATA; via vaginal privilegiadaSegurar para completar corticoide; cesárea automática por corioamnionite

Vigilância da conduta expectante (24 a 33+6)

ParâmetroFrequência
Pulso, pressão arterial e temperaturaControle diário contínuo (curva)
Tônus uterino e batimentos cardíacos fetaisDiariamente
Aspecto, cor e odor dos pensos vaginaisDiariamente
Hemograma e proteína C reativaA cada 2 a 3 dias
CardiotocografiaDiária
Ultrassonografia com Doppler e perfil biofísico fetal2 vezes por semana
Repouso relativo e hidratação oralContínuos (mínimo 2,5 L/dia)

Medicações da RPMO pré-termo (esquemas do Ministério da Saúde)

IndicaçãoEsquemaJanela/duração
Corticoterapia antenatalBetametasona 12 mg IM a cada 24 h (2 doses) OU dexametasona 6 mg IM a cada 12 h (2 dias)24 a 34 semanas, ciclo único
Antibiótico de latência + prevenção EGBAmpicilina 2 g EV a cada 6 h por 48 h (após coleta do swab) → amoxicilina 500 mg VO a cada 8 h por 5 dias + azitromicina dose únicaTotal de 7 dias
Neuroproteção fetalSulfato de magnésio: ataque 4 g EV em 20–30 min → 1 g/h até o parto ou por no máximo 24 hParto provável antes de 32 semanas (até 31+6)
Profilaxia intraparto do EGBPenicilina cristalina 5.000.000 UI EV → 2.500.000 UI EV a cada 4 h até o parto (alternativa: ampicilina 2 g → 1 g 6/6 h)Cultura positiva, ou status desconhecido com rotura ≥ 18 h, febre ≥ 38 °C ou parto < 37 sem

Tocólise NÃO: na RPMO os tocolíticos devem ser evitados — não prolongam latência com benefício e dão tempo à infecção. Não confundir com trabalho de parto prematuro de bolsa íntegra, onde a tocólise é conduta.

Amoxicilina-clavulanato nunca como antibiótico de latência: enterocolite necrosante neonatal com RR 4,72 no Cochrane.

Leucocitose logo após corticoide não fecha corioamnionite — o hemograma sobe por até 48 horas; use a régua dos 20.000, do desvio à esquerda e da subida de 20%.

Corioamnionite indica o PARTO, não a cesárea: a via vaginal segue privilegiada na ausência de outra indicação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Bolsa rota no termo: agir já ou dar 24 horas?

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022)

RPM no termo indica postura ativa para desencadeamento do trabalho de parto — o texto trata a resolução como o caminho, evitando expor mãe e feto ao risco infeccioso da espera.

Manual de Gestação de Alto Risco, cap. 7

Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (MS/CONITEC, 2017)

Informar que 60% entrarão em trabalho de parto em 24 horas e que a indução é apropriada DENTRO das 24 horas; a mulher pode escolher expectante além disso, com vigilância enxuta (temperatura 4/4 h, sem swab e sem PCR). A evidência revisada não mostrou aumento significativo de infecção neonatal na espera de até 24 horas.

Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, seção 11, recomendações 83–84

Na prova

São dois documentos do próprio Ministério, de 2017 e 2022, olhando populações diferentes: a diretriz nasce da adaptação do NICE para o parto de risco habitual, com a decisão informada da mulher no centro; o manual fala ao serviço de alto risco, priorizando o risco infeccioso. Identifique o recorte pelo cenário e pelo vocabulário: enunciado de centro obstétrico de risco habitual, com aconselhamento e percentuais (60%, 1% versus 0,5%), cobra a régua da diretriz — indução dentro de 24 horas e espera vigiada como opção legítima; enunciado seco de conduta obstétrica, ou de maternidade de referência, cobra postura ativa. Alternativas que mencionam “colher swab e PCR seriados no termo” denunciam distrator em qualquer dos dois mundos.

RPMO entre 34 e 36+6: resolver às 34 ou esperar até 37?

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022)

A partir de 34 semanas, conduzir como no termo — resolução da gestação, sobretudo onde há suporte neonatal adequado. A exceção é estrutural, não clínica: serviços com menor infraestrutura neonatal podem estender a expectante até 36 semanas se houver líquido satisfatório, boa vitalidade e nenhum sinal de infecção.

Manual de Gestação de Alto Risco, cap. 7

Cochrane 2017 (Bond) e a atualização do ACOG PB 217 (2020)

Nas roturas antes de 37 semanas sem contraindicação, a expectante monitorada associou-se a melhores desfechos: o parto precoce aumentou síndrome do desconforto respiratório (RR 1,26) e cesariana (RR 1,26) sem reduzir sepse neonatal (RR 0,93) — reduziu corioamnionite (RR 0,50), mas aumentou endometrite (RR 1,61). Incorporando o ensaio PPROMT, o boletim do ACOG foi atualizado em 2020 exatamente no ponto do momento do parto entre 34 0/7 e 36 6/7 semanas.

Cochrane CD004735 (2017); ACOG Practice Bulletin nº 217 (2020)

Na prova

A causa da distância é cronológica e operacional: o corte nacional em 34 vem da tradição pré-PPROMT e da capacidade heterogênea de vigilância contínua nos serviços do SUS — esperar até 37 com segurança exige monitorização que nem toda maternidade sustenta; o próprio manual cita o boletim de 2020 na bibliografia sem mudar a régua. Prova do MEC e cenários SUS cobram resolução a partir de 34. Desconfie do recorte internacional quando o enunciado citar ACOG ou evidência recente, descrever centro terciário com vigilância plena, ou quando uma alternativa detalhar “expectante com monitorização até 37 semanas” — distrator que só faz sentido nesse mundo.

Qual antibiótico de latência na RPMO pré-termo?

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022)

Ampicilina 2 g EV a cada 6 horas por 48 horas, seguida de amoxicilina 500 mg VO a cada 8 horas por 5 dias, com dose única de azitromicina — betalactâmico que já cobre o estreptococo B, mais macrolídeo para os atípicos.

Manual de Gestação de Alto Risco, cap. 7

Linha ORACLE/NICE, relatada pela revisão da FEBRASGO (Femina, 2018)

Eritromicina como droga de referência dos ensaios que consagraram o antibiótico de latência; a revisão brasileira registra que não há eritromicina endovenosa disponível no Brasil, o que empurra os serviços nacionais para o esquema com ampicilina/amoxicilina + azitromicina.

Femina 2018;46(1):48-53; Kenyon, Cochrane CD001058

Na prova

Não há esquema universal — o Cochrane que sustenta a conduta diz textualmente que a droga de escolha não está definida, com uma única proibição firme: amoxicilina-clavulanato (enterocolite necrosante, RR 4,72). A divergência entre os esquemas é de disponibilidade de droga, não de princípio: nos dois mundos há cobertura de estreptococo B e de atípicos por cerca de 7 a 10 dias. Na questão, ancore-se no que as alternativas revelam: esquema com clavulanato está sempre errado; esquema com macrolídeo (azitromicina ou eritromicina) é defensável nos dois recortes; a dupla ampicilina→amoxicilina + azitromicina é o esquema que denuncia enunciado de serviço brasileiro.

06

Caso resolvido

Primigesta de 24 anos, 29 semanas e 3 dias por ultrassom de primeiro trimestre, procura a maternidade referindo perda súbita de líquido claro há 4 horas, molhando a roupa íntima, sem cólicas. Afebril (36,7 °C), pulso 82 bpm, PA 110×70 mmHg, útero normotônico, BCF 140 bpm. Exame especular: saída de líquido claro pelo orifício externo do colo, que aumenta com a manobra de Valsalva. Hemograma com 12.400 leucócitos sem desvio, PCR baixa, urina tipo I normal.
achado
Perda líquida súbita e contínua antes de 37 semanas, sem contrações, com líquido visível saindo pelo colo ao especular sob Valsalva: RPMO pré-termo confirmada clinicamente — não há necessidade de pH, cristalização ou teste imunocromatográfico, que ficam para a dúvida diagnóstica. Toque vaginal não foi feito, e não deve ser.
interpretação
Gestação de 29+3 com vitalidade preservada e nenhum sinal de infecção (afebril, sem taquicardia materna ou fetal, útero indolor, leucograma e PCR tranquilos): faixa de 24 a 33+6, cenário de conduta expectante hospitalar.
conduta
Internação até o parto. Coleta vaginal e perianal para estreptococo do grupo B e urocultura. Betametasona 12 mg IM, repetida em 24 horas (janela de 24–34 semanas). Ampicilina 2 g EV a cada 6 horas por 48 horas iniciada após o swab, seguida de amoxicilina 500 mg VO 8/8 h por 5 dias com azitromicina em dose única. Nada de tocólise, nada de toque.
conduta
Vigilância da expectante: curva de temperatura e pulso, tônus e BCF diários, inspeção dos pensos, hemograma e PCR a cada 2–3 dias, cardiotocografia diária, ultrassom com Doppler e perfil biofísico 2 vezes por semana. Gatilhos de interrupção pactuados: infecção, comprometimento da vitalidade, trabalho de parto ou 34 semanas.
desfecho
Com 31+1, inicia contrações regulares com dilatação progressiva. Parto provável antes de 32 semanas: sulfato de magnésio 4 g EV em 20–30 minutos seguido de 1 g/h para neuroproteção, e profilaxia intraparto do estreptococo B com penicilina cristalina (cultura da admissão positiva). Parto vaginal cefálico, recém-nascido de 1.590 g recebido pela neonatologia. A sequência corticoide completo + antibiótico de latência + sulfato no dia do parto é exatamente o tripé que a prova quer ver montado.
07

Agora feche você

Secundigesta de 31 anos (um parto vaginal anterior), 38 semanas e 2 dias, chega à maternidade de risco habitual relatando perda de líquido claro há 10 horas, abundante, sem contrações. Traz cartão de pré-natal completo com cultura para estreptococo do grupo B negativa colhida há 10 dias. Afebril, BCF 138 bpm, dinâmica uterina ausente. A perda líquida é visível na roupa e escorre em pequena quantidade pela vulva durante a anamnese.
achado
Bolsa rota no termo, evidente pela história e pela perda visível, há 10 horas, sem trabalho de parto, com EGB negativo recente e sem qualquer sinal de infecção.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Fazer toque vaginal “para avaliar o colo” na admissão Atrai porque avaliar o colo é reflexo de admissão obstétrica. Na RPMO sem trabalho de parto o toque é proscrito: encurta a latência, acrescenta pouco ao especular e é o fator que mais multiplica infecção — nos dados da diretriz, a corioamnionite sobe de 2% para 13% conforme os toques se acumulam. Espéculo confirma; toque contamina.
  2. 2Tocolisar a bolsa rota que entrou em trabalho de parto Atrai porque no trabalho de parto prematuro com bolsa ÍNTEGRA a tocólise é a conduta certa para ganhar corticoide. Com membranas rotas a lógica inverte: segurar contrações com a cavidade amniótica aberta é dar tempo à infecção, e não há ganho demonstrado — o manual manda evitar tocolíticos na RPMO.
  3. 3Escolher amoxicilina-clavulanato como antibiótico de latência Atrai porque parece um upgrade de espectro sobre a amoxicilina. É a única proibição firme do Cochrane: quase quintuplicou a enterocolite necrosante neonatal (RR 4,72). Se a alternativa traz clavulanato na RPMO pré-termo, está errada — o esquema nacional é ampicilina→amoxicilina + azitromicina.
  4. 4Fechar corioamnionite pela leucocitose da véspera do corticoide Atrai porque leucócitos altos gritam infecção. A betametasona eleva o hemograma por cerca de 48 horas; a régua do manual pede mais de 20.000/mm³, desvio significativo à esquerda ou subida de 20% sobre exames anteriores — e sempre em conjunto com febre, taquicardia materna/fetal e útero doloroso. O contrário também derruba: corioamnionite clínica flagrante não espera hemograma para indicar o parto.
  5. 5Converter corioamnionite em cesárea automática Atrai porque “infecção grave” soa como urgência cirúrgica. A infecção intrauterina indica antibiótico de amplo espectro e RESOLUÇÃO — e a via preferencial continua sendo a vaginal, que expõe menos a mãe infectada; cesárea fica para as indicações obstétricas de sempre.
  6. 6Esticar a expectante depois das 34 semanas “para amadurecer mais” Atrai porque prolongar parece sempre pró-feto. A régua nacional resolve a partir de 34: daí em diante o risco infeccioso da espera supera a prematuridade tardia, e corticoide já nem cabe. A exceção do manual (até 36 semanas) é condicionada à estrutura do serviço, com líquido bom, vitalidade boa e zero infecção — é válvula operacional, não conduta de escolha em maternidade equipada.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Perda abundante de líquido com visualização de saída pelo orifício cervical e pH alcalino caracteriza ruptura prematura de membranas ovulares pré-termo (RPMO). Entre 24 e 34 semanas, sem infecção ou sofrimento fetal, a conduta é expectante com internação, corticoide para maturação pulmonar e antibioticoprofilaxia para prolongar a latência. Tocólise isolada com alta é inadequada e há amniorrexe. Incontinência urinária não dá pH alcalino nem saída pelo colo. Indução imediata não está indicada nessa idade gestacional sem complicações. Não é corrimento fisiológico.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça as réguas de cabeça: definição (rotura ANTES do trabalho de parto, acima de 20–22 semanas; latência = rotura → trabalho de parto). Números: 10% das gestações, 80% no termo, um terço dos partos pré-termo; infecção neonatal grave no termo 1% versus 0,5%; 60% em trabalho de parto em 24 h. Diagnóstico: especular + Valsalva; pH > 6,5 (nitrazina azul ≥ 6,0, falso-positivo com sangue/sêmen/urina/vaginose); cristalização longe do colo; toque proscrito. Faixas: < 24 aconselhar; 24–33+6 expectante com betametasona 12 mg IM 24/24 h ×2 + ampicilina 2 g EV 6/6 h 48 h → amoxicilina 500 mg 8/8 h 5 dias + azitromicina dose única, sem tocólise; 34–36+6 resolução (válvula até 36 por estrutura); termo postura ativa/indução em até 24 h. MgSO4 4 g + 1 g/h se parto < 32 sem. Corioamnionite (febre + taquicardias + útero doloroso; leucócitos > 20.000/desvio/Δ20%) = antibiótico amplo + parto, via vaginal.

em 30 dias

Teste-se com três perguntas. (1) Bolsa rota de 31 semanas entra em trabalho de parto na sua plantão: quais TRÊS medicações têm de estar correndo antes do nascimento e com que doses? (sulfato 4 g→1 g/h; penicilina cristalina 5 milhões→2,5 milhões 4/4 h se EGB positivo/desconhecido; corticoide se ciclo incompleto dentro da janela). (2) O que diferencia a resposta certa entre 33+6 e 34+1? (a janela do corticoide e a régua da resolução). (3) Em que única situação a idade gestacional deixa de mandar? (infecção intrauterina — e a via continua vaginal). Se alguma travou, releia a tabela de faixas e as notas do critério.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Primigesta de 29 semanas chega à maternidade com perda súbita de líquido claro há 4 horas, sem contrações, afebril, BCF 140 bpm — confirme o diagnóstico sem contaminar, monte a conduta expectante e diga o que interromperia a espera. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Rotura prematura de membranas ovulares — Preparatório para provas | OsceLabs