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Clínica MédicaPneumologia

Doenças intersticiais: o eixo do pulmão que esta apostila não tinha

Doenças pulmonares intersticiais e fibrose pulmonar idiopática: padrão tomográfico, exclusão de causas e antifibróticos

Reconhecer a síndrome intersticial, definir o padrão na tomografia, procurar exposição e autoimunidade, discutir o diagnóstico em equipe e tratar o fenótipo — não apenas a imagem.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 63 anos, não tabagista, com dispneia progressiva há 18 meses e tosse seca. Exame: PA 130x80 mmHg, FC 90 bpm, FR 22 ipm, SatO2 92%, estertores em velcro nas bases e baqueteamento digital. A tomografia de alta resolução mostra reticulado subpleural e basal com faveolamento e bronquiectasias de tração, sem vidro fosco predominante, caracterizando padrão de pneumonia intersticial usual. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

O recorte é a doença pulmonar intersticial do adulto e a decisão que ela impõe: reconhecer o padrão restritivo, ler a tomografia de alta resolução, separar a fibrose pulmonar idiopática das intersticiais de causa conhecida e saber o que o país oferece a cada uma. É a dispneia que se lê no interstício e na difusão, não no broncodilatador.

Ficam de fora o nódulo pulmonar solitário, que tem capítulo próprio na apostila de Cirurgia Torácica; as pneumoconioses, que têm capítulo em Medicina do Trabalho; e o comprometimento pulmonar da esclerose sistêmica, que é tratado no capítulo de Reumatologia. Fica de fora o tromboembolismo, que já tem o seu. Mas a leitura da tomografia de quem tem fibrose por qualquer dessas causas fica aqui.

A unidade de trabalho é a questão de prova. Cada seção termina onde uma alternativa se decide, e o capítulo prefere mostrar onde as fontes brasileiras divergem a repetir o que elas concordam.

03

O que muda decisão

Reconhecer a síndrome intersticial: restrição, difusão e tomografia

Esta apostila tinha sete capítulos antes deste. Dois tratam de obstrução ao fluxo — asma e doença pulmonar obstrutiva crônica. Dois tratam de infecção — pneumonia adquirida na comunidade e tuberculose. Um trata do vaso, o tromboembolismo; um trata do suporte, a insuficiência respiratória e a oxigenoterapia; um trata do fator de risco, o tabagismo. A dicotomia obstrutivo contra restritivo é a divisão mais antiga da pneumologia, e só um dos lados tinha endereço.

O vão não é impressão de leitura. Varrendo a prosa dos 399 capítulos do nível preparatório — vinte milhões de caracteres, excluída a descrição textual das figuras —, a expressão fibrose pulmonar aparece uma única vez, e não num capítulo de pneumologia: está no capítulo de hepatite C crônica, de passagem. A sigla da doença aparece zero vezes. Pneumonite de hipersensibilidade, que é a principal intersticial de causa conhecida, aparece zero vezes. O estertor em velcro, que é o achado de exame físico do tema, aparece uma vez.

Dois pulmões em contorno; o da esquerda com saída estreitada, o da direita menor e hachurado com saída larga.
Os dois modos de o pulmão falhar: o que prende o ar na saída e o que impede o ar de entrar.

Há um sinal de vão mais eloquente que a ausência. Os dois antifibróticos do tema — nintedanibe e pirfenidona — são nomeados onze vezes no acervo inteiro, e as onze estão dentro de um único capítulo, o de esclerose sistêmica e Sjögren, na apostila de Reumatologia. É o vizinho que prescreve e não tem para onde encaminhar: um capítulo de reumatologia indicava o antifibrótico sem que existisse um capítulo de pneumologia que explicasse a doença em que ele foi estudado.

O terceiro sinal é de endereço. O banco de questões de prova traz um rótulo de tema chamado nódulo pulmonar e doenças intersticiais, com dez questões. O acervo respondeu à primeira metade — existe um capítulo de nódulo pulmonar solitário — e a colocou em Cirurgia Torácica. Com ela foram embora os dois termos que só apareciam ali: as opacidades em vidro fosco, oito das doze ocorrências do acervo, e a capacidade de difusão, todas as quatro. A metade intersticial ficou sem dono e sem vocabulário.

Padrão de pneumonia intersticial usual: quando a tomografia fecha e quando precisa de tecido

A revisão de 2023 da sociedade brasileira é explícita, e vale a citação literal: "Um padrão morfológico de pneumonia intersticial usual, seja radiológico ou histopatológico, é necessário para estabelecer um diagnóstico de fibrose pulmonar idiopática". O padrão é condição necessária. A frase seguinte do mesmo parágrafo é a que a prova cobra, porque desfaz o atalho: "um padrão de pneumonia intersticial usual tem sido associado a outras condições, como asbestose, pneumonite de hipersensibilidade fibrótica e artrite reumatoide", e por isso *"a exclusão de diagnósticos alternativos continua fundamental"* mesmo diante de um padrão definitivo na tomografia.

Traduzindo para a mesa de prova: padrão é necessário e não é suficiente. A tomografia diz que há fibrose com aquela distribuição; ela não diz que a causa é desconhecida. Idiopática é um diagnóstico de exclusão que exige anamnese ocupacional e domiciliar, revisão de medicamentos e triagem de doença do tecido conjuntivo.

Os quatro rótulos tomográficos, na ordem em que decidem conduta, são padrão usual, padrão usual provável, padrão indeterminado e padrão alternativo. O primeiro é o que a fonte descreve com faveolamento exuberante, com ou sem bronquiectasias de tração, em distribuição subpleural e basal. O segundo tem bronquiectasias de tração e a mesma distribuição subpleural inferior típica, sem o favo. O terceiro mostra apenas discretas opacidades reticulares e em vidro fosco. O quarto aponta para outra doença.

O que muda entre os dois primeiros é a necessidade de biópsia. O padrão usual definitivo tem forte correlação com a histologia e dispensa procedimento invasivo. No padrão provável, a fonte registra que a maioria das sociedades aceita o diagnóstico sem biópsia quando o contexto clínico é de alta suspeita; nos padrões indeterminado e alternativo é que o lavado broncoalveolar ou a biópsia entram para melhorar a precisão.

Guarde a distribuição, porque ela é o que separa o padrão usual de quase tudo o mais: subpleural e basal, heterogênea. As intersticiais alternativas tendem ao oposto — difusas sem predomínio subpleural, peribroncovasculares, perilinfáticas, de campos superiores, ou com preservação subpleural.

Pistas de diagnóstico alternativo: exposição, autoimunidade e distribuição

A revisão de 2023 traz, junto ao algoritmo, duas colunas de atributos que empurram o caso para um lado ou para o outro. Vale decorá-las, porque a vinheta de prova é construída exatamente com elas.

Para fibrose pulmonar idiopática: idade acima de sessenta anos, sexo masculino, tabagismo, ausência de exposição, estertores crepitantes, fator antinuclear negativo, faveolamento, padrão usual ou usual provável, curso progressivo.

Para diagnóstico alternativo: idade abaixo de cinquenta anos, sexo feminino, ausência de tabagismo, exposição identificada, manifestação extrapulmonar, fator antinuclear positivo, opacidades em vidro fosco, padrão alternativo ou pneumonia intersticial não específica, curso estável.

Repare no que a segunda coluna faz com um achado que o senso comum trata como sinal de gravidade. Vidro fosco não é ponto a favor da doença idiopática; é ponto contra ela. Predomínio de vidro fosco empurra o raciocínio para pneumonite de hipersensibilidade, para pneumonia intersticial não específica ou para doença do tecido conjuntivo. Na fibrose idiopática o vidro fosco é discreto e acompanha o reticulado; quando domina a imagem, o rótulo provavelmente está errado.

A manifestação extrapulmonar merece a mesma atenção. Artralgia, fenômeno de Raynaud, refluxo intenso, disfagia, lesão de pele ou boca seca não são ruído da história — são o achado que muda a doença de idiopática para secundária, e com isso muda o tratamento inteiro, de antifibrótico para imunossupressão da doença de base.

Faveolamento: significado radiológico e diagnóstico diferencial

No banco de questões de prova, as palavras que descrevem o interstício na tomografia aparecem em dezenove enunciados: faveolamento e vidro fosco. Só cinco desses dezenove são de pneumologia.

Seis eram de neonatologia, onde o vidro fosco é a descrição clássica da radiografia da doença da membrana hialina do prematuro. Cinco eram de ginecologia, onde o conteúdo "em vidro fosco" descreve o aspecto ultrassonográfico do endometrioma ovariano. Um era de infectologia, na pneumonia por coronavírus. Um era de obstetrícia. Um era do capítulo de nódulo pulmonar, sobre o nódulo em vidro fosco puro.

Um quadrado cinza no topo com quatro setas descendo para quatro formas vazias e distintas.
A mesma descrição de imagem, quatro doenças sem parentesco entre si.

A lição não é sobre busca em banco de dados; é sobre leitura de enunciado. Vidro fosco é uma descrição de textura, não um diagnóstico. O mesmo par de palavras aparece num prematuro de vinte e nove semanas, num cisto ovariano de mulher de vinte e oito anos e numa tomografia de tórax de idoso, e significa coisa diferente nas três. O que dá sentido ao termo é o órgão, o método e a idade — e o candidato que decorou a associação entre a palavra e uma doença única erra nas outras três.

Vale a mesma advertência para o estertor. Estertor crepitante fino em base, seco, que a fonte compara ao abrir de um velcro, é achado de fibrose. Estertor crepitante em base numa insuficiência cardíaca descompensada é úmido e vem com turgência jugular e edema. A palavra crepitante, sozinha, não decide nada.

Fibrose pulmonar idiopática: confirmar em discussão multidisciplinar

O relatório federal que recusou o nintedanibe traz uma tabela de custo diário com duas linhas. A do medicamento na dose de cento e cinquenta miligramas registra a quantidade de dois comprimidos por dia, um preço unitário de R$ 147,35 e um custo diário de R$ 275,80. A linha seguinte, da dose de cem miligramas, registra dois comprimidos por dia, preço unitário de R$ 73,68 e custo diário de R$ 147,35.

A primeira linha não fecha. Dois comprimidos a R$ 147,35 dão R$ 294,70, e não os R$ 275,80 impressos ao lado. O valor que fecha é outro: R$ 275,80 dividido por dois dá R$ 137,90, e o preço proposto para incorporação do comprimido de cento e cinquenta miligramas, numa tabela anterior do mesmo relatório, é de R$ 137,93. Três centavos de distância, que é ruído de arredondamento.

Agora olhe de onde veio o número errado. R$ 147,35 é exatamente o custo diário da linha de baixo. A célula de preço unitário da primeira linha foi preenchida com o total diário da segunda. É um deslize de uma casa na diagonal, e ele se denuncia porque a segunda linha confere: R$ 73,68 vezes dois dá R$ 147,36, um centavo acima do impresso, o que é arredondamento honesto. Duas linhas fecham ao centavo e uma não, e a que não fecha carrega o valor da vizinha.

A conferência seguinte também não fecha, e por pouco. O relatório escreve que o custo anual saiu do custo diário de R$ 275,80 considerando o ano de trezentos e sessenta dias. Essa multiplicação dá R$ 99.288,00, e o número impresso ao lado é de R$ 99.280,00 — oito reais de diferença. Não é erro clínico e não muda decisão nenhuma; é o tipo de resíduo que confirma que a conta foi digitada, e não calculada na planilha que a acompanha.

Antifibróticos: benefício, limitações e monitorização

O mesmo relatório carrega dois custos anuais para o mesmo fármaco na mesma dose. Na seção que avalia a submissão da empresa, o custo anual do nintedanibe é de R$ 99.280,00. Na tabela de custos usada na análise de impacto orçamentário, algumas páginas adiante, o tratamento com nintedanibe aparece com custo anual de R$ 113.058,35. A razão entre os dois é de 1,139 vez.

Os dois valores não se reconciliam. O relatório informa que 27,9% dos pacientes reduziriam a dose de cento e cinquenta para cem miligramas em algum momento, o que sugeriria uma média ponderada entre as duas linhas de custo; essa ponderação dá cerca de R$ 86 mil por ano, que é menor que os dois números impressos, e não maior. Dividir R$ 113.058,35 por trezentos e sessenta dá R$ 314,05 ao dia, e por trezentos e sessenta e cinco dá R$ 309,75 — nenhum dos dois é o custo diário declarado nem a ponderação. Não fecha, e o documento não diz por quê: pode haver imposto, coeficiente de adequação de preços ou horizonte de tempo diferente embutido, e nenhuma nota explica qual.

O que se aprende com isso não é desconfiança genérica. É um hábito de leitura: quando um relatório de avaliação de tecnologia traz um custo anual, pergunte de qual preço ele saiu — do proposto pela empresa, do preço máximo de venda ao governo, ou do praticado em compras públicas. Os três existem lado a lado na mesma peça, e são diferentes.

Para o nintedanibe de cento e cinquenta miligramas, os três são: proposto para incorporação, R$ 137,93; preço máximo de venda ao governo, R$ 204,45; praticado em compras públicas, R$ 206,79. Do menor ao maior há uma razão de 1,50 vez, e a escolha entre eles reprecifica a política inteira.

Magnitude de efeito: traduzir desfechos para o paciente

O relatório calcula o custo anual a partir do preço proposto pela empresa. E escreve, em outra seção, que "hoje o preço médio ponderado para compras públicas está em R$ 206,79 por comprimido de 150 mg". Os dois números estão no mesmo documento e nunca se encontram numa mesma conta.

A conta que falta é de uma linha. Dois comprimidos por dia, ao preço efetivamente praticado, por trezentos e sessenta dias: R$ 206,79 vezes dois vezes trezentos e sessenta dão R$ 148.888,80 por paciente-ano. Isso é 1,50 vez o custo anual de R$ 99.280,00 que o relatório usa para julgar a tecnologia. Metade do custo real de aquisição, pelo preço que o próprio documento diz ser o vigente, fica fora da conta que fundamenta a decisão.

Duas leituras alternativas precisam ser afastadas antes de acusar. A primeira: o valor de R$ 206,79 poderia ser o preço da caixa de sessenta cápsulas, já que a linha da tabela de preços é rotulada pela apresentação de sessenta unidades. A prosa desmente — ela diz "por comprimido" — e a aritmética confirma a prosa, porque o custo diário de R$ 275,80 só fecha com um preço unitário próximo de R$ 137,90, e não com um sexagésimo de qualquer dos valores. A tabela lista preços por comprimido sob um rótulo de linha que descreve a caixa. A segunda leitura: o preço proposto poderia ser o preço com desconto negociado, e o relatório de fato menciona desoneração de imposto estadual e coeficiente de adequação; mas o documento não aplica nenhum desses ajustes ao valor de R$ 206,79 nem refaz a conta.

Nada disso torna a recusa errada. A decisão foi fundamentada em eficácia e segurança, não em preço: o relatório registra que "a evidência atual não demonstra um benefício claro ao paciente associado a um perfil de segurança desfavorável com uma alta taxa de eventos adversos e descontinuação do tratamento". O ponto é outro — o número impresso sob o rótulo de custo anual não é o custo de comprar o remédio hoje, e quem cita esse número como se fosse precisa saber disso.

Pirfenidona e nintedanibe: comparar evidência sem comparação direta

Os dois antifibróticos foram julgados pela mesma comissão, com relatórios assinados no mesmo dia, com vinte e nove minutos entre a criação de um arquivo e a do outro. As razões de custo-efetividade que cada peça apurou nunca aparecem juntas.

Para o nintedanibe, o relatório apura R$ 490.296,21 por ano de vida ganho e R$ 606.140,45 por ano de vida ajustado pela qualidade. Para a pirfenidona, o modelo da empresa apura R$ 85.987 por ano de vida e R$ 356.534 por ano de vida livre de progressão.

Posto lado a lado — o que nenhum dos dois documentos faz —, o primeiro antifibrótico custa 5,70 vezes o segundo por ano de vida ganho. Se o comparador for a reavaliação que a própria comissão refez para a pirfenidona, a razão sobe para 8,64 vezes. Dois remédios da mesma classe, para a mesma doença, no mesmo mês, com uma diferença de quase uma ordem de grandeza no preço por ano de vida — e a mesma decisão final para os dois.

A reavaliação da pirfenidona merece um parágrafo próprio, porque é o caso mais limpo de um mesmo parâmetro com dois valores. O quadro da empresa traz custo total de R$ 213.268 contra R$ 34.729 do tratamento de suporte, com 6,64 e 4,56 anos de vida. O quadro da nova avaliação econômica traz custo total de R$ 152.574 contra os mesmos R$ 34.729, com os mesmos 6,64 e 4,56 anos de vida, e os mesmos 1,95 e 1,45 anos livres de progressão. Só o custo mudou, de 1,398 vez; a razão final caiu de R$ 85.987 para R$ 56.756, exatamente 1,515 vez.

É a leitura que vale a pena guardar: os números clínicos são idênticos nas duas tabelas, dígito por dígito, e só o dinheiro se move. Quando a razão de custo-efetividade de uma tecnologia muda numa reavaliação, vale sempre conferir se a efetividade mudou junto. Aqui não mudou.

Segurança e nomenclatura: checar o fármaco antes de prescrever

O relatório do nintedanibe cita um estudo brasileiro que estimou quantas pessoas têm a doença no país. O sobrenome do primeiro autor aparece grafado Baddini três vezes e Baldini duas vezes, no mesmo documento.

A distribuição das duas grafias não é aleatória, e é isso que interessa. A grafia correta aparece na seção de epidemiologia, onde as estimativas são apresentadas, e na lista de referências, onde o artigo é citado por extenso. A grafia trocada aparece em exatamente dois lugares: no parágrafo que adota as estimativas para o modelo e no parágrafo que depois as rejeita, registrando que elas "foram consideradas inadequadas pois partiu de prevalências e incidência calculadas em uma população de faixa etária específica". Os dois parágrafos analíticos carregam o mesmo erro; os dois parágrafos de referência, não.

A epidemiologia desse relatório rende um segundo achado, e ele exige honestidade na apresentação. A seção de epidemiologia registra que "dois estudos brasileiros calcularam a taxa de incidência em 0,26 por 100 mil em 1996 e 0,48 por 100 mil em 2010". O modelo de impacto orçamentário, adiante, trabalha com incidência de 0,0056%, isto é, 5,6 por cem mil — 11,67 vezes a maior das duas medidas brasileiras e 21,54 vezes a menor.

Reconcilie antes de acusar, porque o documento declara a substituição: ele rejeita explicitamente as estimativas brasileiras derivadas e refaz o cálculo sobre um estudo norte-americano, com justificativa metodológica escrita. Não é um fork silencioso. O que permanece como achado é mais fino e mais útil: a justificativa dada trata da faixa etária de uma das fontes e não diz nada sobre as duas medidas de incidência brasileiras, que vêm de outra referência, são citadas uma única vez e nunca mais reaparecem. O relatório dimensiona a política brasileira com uma taxa uma ordem de grandeza acima da única coisa que já foi medida no Brasil, e não volta ao assunto.

Há ainda um terceiro número que se bifurca entre as duas peças gêmeas: a taxa de diagnóstico. O relatório do nintedanibe usa 50%; o da pirfenidona usa 47%, tirados de um estudo feito pelo próprio fabricante em cinco países europeus. Mesma doença, mesmo país, mesmo mês, duas taxas — e a menor delas, que encolhe a população elegível, vem do interessado.

Acesso no SUS e encaminhamento a centro especializado

Dentro do relatório que recusou o nintedanibe, na seção que reproduz as contribuições recebidas, está escrita a frase que resume o tema: "o SUS não oferece atualmente nenhuma opção terapêutica medicamentosa específica para pacientes com fibrose pulmonar idiopática".

A decisão veio em duas portarias do mesmo dia, 24 de dezembro de 2018: uma determina "não incorporar o nintedanibe" e a outra, "não incorporar o pirfenidona", ambas no âmbito do Sistema Único de Saúde. As duas foram publicadas na mesma edição do diário oficial.

A sociedade brasileira de pneumologia participou da consulta e discordou. O próprio relatório registra: "Embora em discordância com a recomendação preliminar, a contribuição da sociedade, em sua maior parte, foi de reconhecimento quanto ao rigor técnico do relatório". A sociedade acrescentou que o transplante pulmonar "tem potencial de beneficiar somente quantidade mínima de brasileiros", dado o pequeno número de centros capazes de realizá-lo.

Dois anos depois, em 2020, a mesma sociedade publicou diretrizes farmacológicas com metodologia de graduação de evidência e escreveu, sobre o fármaco recusado: "Para pacientes com fibrose pulmonar idiopática, nós sugerimos usar nintedanibe (recomendação condicional; qualidade de evidência moderada)". Note a cronologia, que importa para não distorcer nenhum dos dois lados: a recusa é de 2018 e a recomendação formal é de 2020 — a comissão não contrariou uma diretriz que ainda não existia, mas contrariou uma discordância que já estava registrada dentro do seu próprio relatório.

Duas caixas ligadas por seta descendente, seta horizontal barrada por uma faixa grossa e caixa tracejada isolada à direita.
O caminho da recomendação até a barreira da incorporação, e o tratamento que fica do outro lado sem via de acesso.

Para a prova, o que se cobra é a consequência prática: o antifibrótico não está na farmácia do SUS, por não ter sido incorporado, e a conduta que se espera do candidato num serviço público é a de suporte e encaminhamento a centro de referência, não a de prescrever o fármaco. A questão que traz padrão usual em vinheta típica e pede a conduta costuma premiar o encaminhamento e o cuidado de suporte, não a caneta.

Tratamento além do fármaco: exposição, reabilitação, oxigênio e transplante

A ausência do antifibrótico não deixa o médico de mãos vazias, e a prova cobra justamente o que sobra. Oxigenoterapia domiciliar prolongada quando há hipoxemia em repouso, pela mesma régua usada na doença obstrutiva crônica. Reabilitação pulmonar, que melhora capacidade de exercício e qualidade de vida. Vacinação contra influenza e pneumococo, porque a infecção respiratória é gatilho de exacerbação aguda.

O encaminhamento a centro de referência é conduta, e não adiamento. O relatório federal do nintedanibe registra a exacerbação aguda em cerca de 5 a 10% dos pacientes por ano, podendo chegar a 20%, e a descreve como principal causa de hospitalização e morte — é um evento com letalidade alta, e reconhecê-lo cedo muda desfecho.

O transplante pulmonar é a única intervenção que altera sobrevida de forma consistente, e por isso a avaliação deve ser precoce, antes que a função caia demais. A ressalva da sociedade médica, já citada, é honesta e deve ser dita ao paciente: o número de centros habilitados no país limita o alcance dessa via.

Trate as comorbidades que pioram o quadro e que a vinheta esconde: refluxo gastroesofágico, apneia do sono, hipertensão pulmonar associada e enfisema concomitante. E não trate o que não deve: corticoide e imunossupressão não têm lugar na fibrose idiopática estável, ao contrário do que acontece nas intersticiais de causa conhecida — e é exatamente por isso que separar a idiopática da secundária, no começo, decide o tratamento inteiro.

04

Da dispneia crônica com estertor fino à conduta

A decisão treinada aqui tem cinco degraus, e o primeiro não é pedir tomografia. Primeiro reconheça que o padrão é restritivo, e não obstrutivo. Depois peça a tomografia de alta resolução e leia o padrão. Depois exclua causa conhecida, que é o passo que a maioria pula. Só então nomeie a doença como idiopática, e trate pelo que o país efetivamente oferece.

  1. 1Separe restritivo de obstrutivo antes de qualquer imagem. Dispneia progressiva com tosse seca, estertores finos em velcro nas bases e baqueteamento digital não é doença obstrutiva crônica, mesmo em ex-tabagista. A espirometria com padrão restritivo e a capacidade de difusão reduzida confirmam o eixo e mudam toda a investigação seguinte.
  2. 2Peça tomografia de alta resolução e classifique o padrão em um de quatro rótulos. Faveolamento subpleural e basal define padrão usual; bronquiectasias de tração com a mesma distribuição, sem favo, define usual provável; reticulado discreto com pouco vidro fosco fica indeterminado; predomínio de vidro fosco, distribuição em campos superiores ou preservação subpleural apontam padrão alternativo.
  3. 3Exclua causa conhecida antes de escrever a palavra idiopática. Anamnese ocupacional e domiciliar completa, revisão de todos os medicamentos, triagem sorológica de doença do tecido conjuntivo e busca ativa de manifestação extrapulmonar. Padrão usual definitivo também aparece em asbestose, pneumonite de hipersensibilidade fibrótica e artrite reumatoide.
  4. 4Decida a necessidade de procedimento invasivo pelo padrão. Padrão usual definitivo em contexto clínico compatível dispensa biópsia. Padrão provável em alta suspeita costuma ser aceito sem biópsia. Padrão indeterminado ou alternativo é onde lavado broncoalveolar e biópsia agregam precisão, e onde a discussão multidisciplinar decide.
  5. 5Trate com o que existe. Oxigenoterapia se houver hipoxemia, reabilitação pulmonar, vacinação, controle de refluxo e apneia, encaminhamento precoce a centro de referência e avaliação de transplante. Antifibrótico é recomendação condicional da sociedade médica e não foi incorporado ao sistema público, o que muda a resposta esperada numa vinheta de serviço público.

Primeiro o eixo, depois a imagem

Estertor fino em velcro nas bases com baqueteamento digital em dispneia progressiva é restrição, não obstrução. A espirometria restritiva e a difusão reduzida confirmam antes de a tomografia entrar. Errar esse degrau faz o candidato responder broncodilatador numa doença que não obstrui.

Quatro rótulos, uma decisão de biópsia

Padrão usual, usual provável, indeterminado e alternativo. Os dois primeiros dispensam biópsia em contexto compatível; os dois últimos são onde o lavado e a biópsia entram. O que separa os dois primeiros é o faveolamento, e o que separa do resto é a distribuição subpleural e basal.

Vidro fosco joga contra, não a favor

Predomínio de opacidade em vidro fosco afasta a fibrose idiopática e aproxima pneumonite de hipersensibilidade, pneumonia intersticial não específica e doença do tecido conjuntivo. Na idiopática o vidro fosco é discreto e acompanha o reticulado. Quem trata o achado como marcador de gravidade inverte o raciocínio.

A palavra idiopática é ganha, não dada

Padrão usual é necessário e não suficiente. Ele também aparece em asbestose, pneumonite de hipersensibilidade fibrótica e artrite reumatoide. Sem anamnese ocupacional, revisão de medicamentos e triagem de colagenose, o rótulo idiopática é chute com aparência de diagnóstico.

No serviço público, a conduta é outra

Os dois antifibróticos não foram incorporados ao sistema público, por decisão de dezembro de 2018. A resposta esperada numa vinheta de serviço público é suporte, oxigênio se houver hipoxemia, reabilitação, vacinação e encaminhamento precoce a centro de referência com avaliação de transplante.

As duas colunas do algoritmo, do jeito que a vinheta as usa

AtributoEmpurra para fibrose idiopáticaEmpurra para diagnóstico alternativo
IdadeAcima de sessenta anosAbaixo de cinquenta anos
Sexo e tabagismoMasculino, fumante ou ex-fumanteFeminino, nunca fumante
ExposiçãoAusente após anamnese dirigidaIdentificada — ave, mofo, poeira, medicamento
Fora do pulmãoNada extrapulmonar; fator antinuclear negativoArtralgia, Raynaud, pele, boca seca; fator antinuclear positivo
TomografiaFaveolamento; padrão usual ou usual provávelPredomínio de vidro fosco; padrão alternativo ou não específico
CursoProgressivoEstável

Três preços para o mesmo comprimido, no mesmo relatório

Referência de preçoComprimido de cento e cinquenta miligramasO que ela produz por paciente-ano
Proposto para incorporaçãoR$ 137,93R$ 99.309,60 — é a base do custo anual impresso
Preço máximo de venda ao governoR$ 204,45R$ 147.204,00 — não usado em nenhuma conta do relatório
Praticado em compras públicasR$ 206,79R$ 148.888,80 — o inverso que o documento nunca imprime

Capacidade vital forçada é o desfecho funcional que os ensaios dos antifibróticos usaram, e a comissão federal registrou que houve redução do declínio dessa medida em todos os estudos, considerando ainda assim o balanço desfavorável. Saber qual desfecho o ensaio mediu evita confundir redução de declínio funcional com aumento de sobrevida.

Exacerbação aguda é evento definido e grave, com incidência anual estimada em 5 a 10% dos pacientes, podendo chegar a 20%, e é apontada como principal causa de hospitalização e morte. Piora da dispneia em menos de um mês, com novo vidro fosco sobreposto ao reticulado e sem causa alternativa, é o quadro a reconhecer.

A distinção entre pneumonia intersticial usual e não específica não é filigrana acadêmica: a não específica costuma ter mais vidro fosco, mais preservação subpleural, associação com colagenose e resposta a imunossupressão, enquanto a usual não responde. É a diferença entre tratar com imunossupressor e não tratar com imunossupressor.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Antifibrótico na fibrose pulmonar idiopática: recomendado pela sociedade, recusado pela comissão federal

Sugerir o uso, com recomendação condicional

As diretrizes farmacológicas da sociedade brasileira de pneumologia, de 2020, escrevem literalmente que para pacientes com a doença a recomendação é de sugerir o uso de nintedanibe, classificada como condicional e com qualidade de evidência moderada, apoiada em metanálise que mostrou redução de exacerbações agudas.

Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico da fibrose pulmonar idiopática, documento oficial da sociedade, 2020.

Não incorporar, por benefício incerto e segurança desfavorável

As duas portarias de 24 de dezembro de 2018 determinam não incorporar nem o nintedanibe nem a pirfenidona ao sistema público. O relatório do primeiro registra que a evidência não demonstra benefício claro associado a perfil de segurança desfavorável, com alta taxa de eventos adversos e descontinuação; o do segundo reconhece redução do declínio da capacidade vital forçada, mas aponta benefício incerto em qualidade de vida, exacerbações e mortalidade.

Relatórios de recomendação nº 419 e nº 420 da comissão nacional de incorporação de tecnologias, dezembro de 2018.

Na prova

A banca brasileira cobra a consequência prática, e não o mérito da disputa: em vinheta de serviço público, a conduta esperada é suporte, oxigênio se houver hipoxemia, reabilitação, vacinação e encaminhamento a centro de referência. Reconheça o recorte pelo cenário — quando o enunciado situa o caso numa unidade básica ou num serviço do sistema público, ele está perguntando o que o país entrega, não o que a literatura sugere. E note a cronologia antes de julgar qualquer das duas partes: a recusa é de 2018 e a recomendação formal da sociedade é de 2020.

Quantos brasileiros têm a doença: a medida nacional e o modelo

O que já se mediu no Brasil

A seção de epidemiologia do relatório federal registra que dois estudos brasileiros calcularam a taxa de incidência em 0,26 por cem mil em 1996 e em 0,48 por cem mil em 2010, e cita estimativa nacional de prevalência entre 7,1 e 9,4 casos por cem mil habitantes na população geral.

Relatório de recomendação nº 419, seção de epidemiologia.

O que o modelo usou

O modelo de impacto orçamentário do mesmo relatório trabalha com incidência de 0,0056% e prevalência de 0,011%, ou seja, 5,6 e 11 por cem mil, derivadas de estudo norte-americano, com taxa de diagnóstico de 50%. A peça gêmea, da pirfenidona, usa taxa de diagnóstico de 47%, extraída de estudo do próprio fabricante em cinco países europeus.

Relatórios de recomendação nº 419 e nº 420, seções de impacto orçamentário.

Na prova

Nenhuma banca vai cobrar a taxa de incidência usada num modelo de impacto orçamentário. O que se aprende aqui é a ler número epidemiológico com endereço: quando um enunciado ou um material de estudo afirma quantos brasileiros têm uma doença rara, vale perguntar se o número foi medido no Brasil ou importado. Neste tema, o que já se mediu aqui e o que o modelo federal usou estão separados por mais de uma ordem de grandeza, dentro do mesmo documento.

Qual preço vale, quando o mesmo relatório imprime três

O proposto, que fundamenta a conta

O custo anual de R$ 99.280,00 usado na avaliação sai do custo diário de R$ 275,80 declarado pela empresa, que corresponde a dois comprimidos ao preço proposto para incorporação, de R$ 137,93 cada, ao longo de trezentos e sessenta dias.

Relatório de recomendação nº 419, tabela de custo diário e quadro de avaliação da submissão.

O praticado, que o relatório cita e não usa

O mesmo relatório informa que o preço médio ponderado praticado em compras públicas está em R$ 206,79 por comprimido de cento e cinquenta miligramas. Refeita a conta com esse preço, o custo por paciente-ano é de R$ 148.888,80, ou 1,50 vez o valor impresso sob o rótulo de custo anual.

Relatório de recomendação nº 419, seção de impacto orçamentário e tabela de preços.

Na prova

O recorte do avaliador aqui não é o preço, é o desfecho: o candidato precisa saber que a decisão federal se fundamentou em eficácia e segurança, e não em custo. A leitura de preço serve para outra coisa — para não repetir, como se fosse o custo do tratamento, um número que saiu do valor proposto numa negociação. Quando um texto citar o custo anual de uma tecnologia, identifique de qual das três referências de preço ele veio.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos, ex-tabagista de trinta anos-maço, cessado há dez anos, procura o ambulatório com dispneia aos esforços progressiva há dezoito meses e tosse seca persistente. Nega febre, emagrecimento, artralgia, fenômeno de Raynaud, boca seca e lesões de pele. Nega criação de aves, mofo domiciliar, exposição ocupacional a poeira e uso de amiodarona ou quimioterápico. Ao exame: eupneico em repouso, saturação de 92% em ar ambiente, estertores crepitantes finos, secos, em ambas as bases, descritos como som de velcro, e baqueteamento digital. Ausculta cardíaca normal, sem turgência jugular e sem edema. Espirometria com padrão restritivo e capacidade de difusão reduzida. Fator antinuclear negativo. Tomografia de alta resolução com reticulado subpleural e basal, faveolamento e bronquiectasias de tração, sem vidro fosco extenso.
Passo 1
Nomeie o eixo antes da doença. Estertor fino em velcro com baqueteamento digital, espirometria restritiva e difusão reduzida colocam o caso no compartimento intersticial e excluem a doença obstrutiva crônica, que o antecedente de tabagismo sugeria. Esse degrau é o que separa broncodilatador de investigação de fibrose.
Passo 2
Classifique o padrão tomográfico. Reticulado subpleural e basal com faveolamento e bronquiectasias de tração, sem vidro fosco extenso, é padrão de pneumonia intersticial usual. É o padrão que tem forte correlação com a histologia e que, em contexto clínico compatível, dispensa biópsia pulmonar.
Passo 3
Exclua causa conhecida antes de aceitar o rótulo. A vinheta já nega exposição a aves, mofo e poeira ocupacional, nega medicamento fibrosante e traz fator antinuclear negativo sem manifestação extrapulmonar. É essa negativa ativa, e não a imagem, que autoriza a palavra idiopática — o mesmo padrão apareceria em asbestose, pneumonite de hipersensibilidade fibrótica e artrite reumatoide.
Passo 4
Some os atributos da coluna que empurra para a doença idiopática: idade acima de sessenta, sexo masculino, tabagismo prévio, ausência de exposição, estertores, fator antinuclear negativo, faveolamento, padrão usual e curso progressivo. Nove de nove. Não há atributo da coluna oposta, e é essa concordância que fecha o diagnóstico sem procedimento invasivo.
Passo 5
Conduza pelo que existe. Encaminhamento a centro de referência em doenças intersticiais, reabilitação pulmonar, vacinação contra influenza e pneumococo, investigação e tratamento de refluxo e apneia do sono, e avaliação precoce para transplante pulmonar. A saturação de 92% em repouso não indica oxigenoterapia domiciliar por si só, mas obriga a medir a saturação no esforço e ao dormir. Antifibrótico é recomendação condicional da sociedade e não está incorporado ao sistema público.
07

Agora feche você

Mulher de 46 anos, nunca tabagista, é encaminhada por dispneia aos esforços há dez meses e tosse seca. Trabalha há oito anos em criadouro de aves e mantém dois pombos em casa. Refere artralgia intermitente em mãos e ressecamento ocular. Ao exame: saturação de 94% em ar ambiente, estertores crepitantes finos em bases, sem baqueteamento digital. Espirometria com padrão restritivo. Tomografia de alta resolução mostra opacidades em vidro fosco difusas com predomínio em campos superiores e médios, nódulos centrolobulares mal definidos e áreas de aprisionamento aéreo em expiração, sem faveolamento. Fator antinuclear positivo em título de um para trezentos e vinte, padrão nuclear pontilhado fino.
Passo 1
Liste, um a um, os atributos desta vinheta que pertencem à coluna do diagnóstico alternativo, e diga quantos são. Comece pela idade, pelo sexo e pelo tabagismo, e siga pela exposição e pelas manifestações fora do pulmão.
Passo 2
Explique por que a distribuição tomográfica descrita — predomínio em campos superiores e médios, com nódulos centrolobulares e aprisionamento aéreo — afasta o padrão de pneumonia intersticial usual, e diga qual distribuição seria esperada se fosse esse padrão.
Passo 3
Diga o que a ausência de faveolamento somada ao predomínio de vidro fosco significa para o prognóstico e para a decisão terapêutica, e por que essa combinação muda a resposta esperada a imunossupressão em relação ao caso anterior.
Passo 4
Nomeie as duas hipóteses principais que competem aqui e diga qual pergunta da anamnese e qual exame complementar melhor separam uma da outra. Justifique por que o fator antinuclear positivo, isolado, não fecha nenhuma das duas.
Passo 5
Escreva a primeira medida terapêutica desta paciente, que não é medicamentosa, e explique por que ela precede qualquer prescrição. Depois diga o que muda na conduta se a investigação confirmar doença do tecido conjuntivo em vez de pneumonite de hipersensibilidade.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de doença obstrutiva crônica toda dispneia de ex-tabagista É o erro mais comum do tema e a vinheta o arma de propósito. Homem idoso, ex-fumante, dispneia progressiva e tosse seca cabem nas duas doenças. O que decide está no exame físico e na espirometria: estertor fino em velcro nas bases e baqueteamento digital não pertencem ao enfisema, e o padrão espirométrico é restritivo, com capacidade de difusão reduzida. Broncodilatador não é a resposta de uma doença que não obstrui.
  2. 2Ler vidro fosco como marcador de gravidade da fibrose É a inversão mais cara. Na fibrose idiopática o vidro fosco é discreto e acompanha o reticulado; quando domina a imagem, ele empurra o diagnóstico para pneumonite de hipersensibilidade, pneumonia intersticial não específica ou doença do tecido conjuntivo — todas com tratamento diferente, porque respondem a imunossupressão. O achado que parece agravar a idiopática é, na verdade, o que a afasta.
  3. 3Escrever idiopática sem ter excluído causa conhecida O padrão usual na tomografia é necessário e não suficiente, e a própria fonte lista as condições que o reproduzem: asbestose, pneumonite de hipersensibilidade fibrótica e artrite reumatoide. Sem anamnese ocupacional e domiciliar, sem revisão de medicamentos e sem triagem de colagenose com fator antinuclear, o rótulo é chute. Perguntar por ave em casa, mofo, banho de piscina aquecida e uso de amiodarona custa dois minutos e muda o tratamento.
  4. 4Indicar biópsia pulmonar diante de padrão usual definitivo Padrão usual definitivo em contexto clínico compatível tem forte correlação com a histologia e dispensa procedimento invasivo — a fonte é explícita. Biópsia cirúrgica em idoso com função reduzida não é exame inócuo. O lugar do lavado broncoalveolar e da biópsia é nos padrões indeterminado e alternativo, e a decisão é de discussão multidisciplinar.
  5. 5Prescrever corticoide em dose alta na fibrose idiopática estável É o reflexo herdado das intersticiais inflamatórias e não se aplica aqui. A fibrose idiopática estável não responde a corticoide nem a imunossupressão, e a exposição traz o dano da droga sem o benefício. A imunossupressão pertence às intersticiais de causa conhecida e às associadas a colagenose — mais uma razão para separar as duas antes de tratar.
  6. 6Responder antifibrótico numa vinheta de serviço público Nintedanibe e pirfenidona não foram incorporados ao sistema público, por decisão de dezembro de 2018 que segue valendo. A sociedade médica sugere o uso em recomendação condicional, e a distância entre as duas coisas é justamente o que a questão testa. Num cenário de unidade pública, a conduta esperada é oxigenoterapia se houver hipoxemia, reabilitação, vacinação, controle de refluxo e apneia, e encaminhamento precoce a centro de referência com avaliação de transplante.
  7. 7Confundir redução do declínio funcional com ganho de sobrevida Os ensaios mediram capacidade vital forçada, e a comissão federal registrou que houve redução do declínio dessa medida em todos os estudos — e ainda assim julgou o benefício incerto em mortalidade, qualidade de vida e exacerbações. Desacelerar a queda de um parâmetro funcional não é o mesmo que viver mais, e a alternativa que troca uma coisa pela outra está errada mesmo quando cita o ensaio certo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Padrão de pneumonia intersticial usual (faveolamento e bronquiectasias de tração subpleurais/basais) em paciente sem exposições ou colagenose define fibrose pulmonar idiopática, corroborada por estertores em velcro e baqueteamento. Pneumonia de hipersensibilidade aguda cursa com vidro fosco e mosaico, ligada a exposição antigênica. Sarcoidose dá acometimento peribroncovascular e linfonodomegalia hilar. Pneumonia em organização mostra consolidações periféricas migratórias. Proteinose alveolar exibe padrão em pavimentação em mosaico (crazy-paving).

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Dispneia progressiva com tosse seca, estertor fino em velcro nas bases e baqueteamento digital é doença intersticial, não obstrutiva — confirme com espirometria restritiva e difusão reduzida. Na tomografia de alta resolução, faveolamento subpleural e basal define padrão usual e dispensa biópsia em contexto compatível; predomínio de vidro fosco afasta a idiopática e aponta pneumonite de hipersensibilidade, pneumonia intersticial não específica ou colagenose. Padrão usual é necessário e não suficiente: exclua asbestose, pneumonite de hipersensibilidade fibrótica e artrite reumatoide antes de escrever idiopática. No sistema público, a conduta é suporte, oxigênio, reabilitação, vacinação e encaminhamento a centro de referência com avaliação de transplante — os dois antifibróticos não foram incorporados.

em 30 dias

A chave que os documentos não escrevem: neste tema, o número que decide muda conforme a página em que você o lê. O custo anual do mesmo remédio na mesma dose aparece como R$ 99.280,00 numa seção e R$ 113.058,35 em outra, e o preço unitário que fecha a primeira conta não é o que está impresso na célula ao lado, mas o total da linha de baixo. O preço praticado em compras públicas, citado no mesmo relatório e nunca usado, produziria R$ 148.888,80 por paciente-ano — uma vez e meia o valor que fundamentou a análise. E dois remédios da mesma classe, julgados no mesmo dia pela mesma comissão, saíram com razões de custo por ano de vida separadas por 5,70 vezes sem que nenhuma linha as pusesse lado a lado. Clinicamente, a régua é mais estável que a contábil: padrão necessário, exclusão obrigatória, vidro fosco jogando contra, e suporte como conduta real.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem idoso, ex-tabagista, com dispneia progressiva e tosse seca há mais de um ano. Colha a história com atenção especial a exposições domiciliares e ocupacionais e a medicamentos, procure no exame físico o estertor que diferencia fibrose de congestão, peça os exames que definem o eixo restritivo e classifique o padrão tomográfico antes de propor qualquer tratamento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Doenças pulmonares intersticiais e fibrose pulmonar idiopática – Doenças intersticiais: o eixo do pulmão que esta apostila não tinha — Preparatório para provas | OsceLabs