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Clínica MédicaPneumologia

Tabagismo: o comparador decidiu, não o remédio

Diagnosticar dependência de nicotina, combinar abordagem comportamental com farmacoterapia disponível no SUS e planejar seguimento, recaída e nova tentativa.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 45 anos, tabagista, comparece à UBS assintomático para consulta. Nega comorbidades. O médico de família decide abordar o tabagismo utilizando um modelo breve e estruturado de aconselhamento recomendado na atenção primária, que inclui perguntar sobre o uso, aconselhar a parar, avaliar a motivação, auxiliar na tentativa e acompanhar. Qual é a denominação desse modelo de abordagem?

02

Como esse tema cai

O recorte é o tabagismo como doença tratável na atenção primária: diagnóstico de dependência à nicotina, medida do grau de dependência, indicação e escolha da farmacoterapia disponível no SUS, estrutura e duração do acompanhamento, e os casos especiais que mudam a conduta — gestante, nutriz, menor de dezoito anos, idoso, paciente psiquiátrico, hospitalizado, com tuberculose ou com câncer.

Entra também a competência que este tema treina melhor do que quase qualquer outro do Preparatório: ler uma medida de efeito perguntando contra qual comparador ela foi obtida, e reconhecer o que significa uma tecnologia ser declarada dominada numa avaliação econômica. A política brasileira de cessação é um caso raro em que a decisão inteira é rastreável até uma única escolha de comparador, com todos os números publicados.

Fica de fora o tratamento das doenças causadas pelo tabaco, que têm capítulos próprios, e a regulação de dispositivos eletrônicos para fumar, que é matéria sanitária e não terapêutica.

03

O que muda decisão

O tabagismo é diagnóstico, não antecedente

A palavra tabagista entra na vinheta como quem entra pela porta de serviço: aparece na primeira linha, ao lado da idade e da pressão, e some. Serve para somar risco à dor torácica, para justificar a espirometria, para explicar o nódulo. Quando a banca resolve cobrar o cigarro como doença, e não como fator de risco de outra doença, o candidato descobre que o assunto tem documento próprio, escore próprio, esquema terapêutico próprio e duração de tratamento maior que a da tuberculose.

O primeiro deslocamento é de categoria. O tabagismo é transtorno mental e comportamental devido ao uso de fumo, e o relatório federal registra a codificação: F17. O diagnóstico de dependência é fechado com três ou mais critérios nos últimos doze meses — desejo forte ou compulsão, dificuldade de controlar o uso, sintomas físicos quando o consumo cessa ou diminui, tolerância com necessidade de doses crescentes, abandono progressivo de outros interesses e persistência apesar de consequência nociva conhecida. O protocolo é explícito sobre o que fica de fora: nenhum exame físico, laboratorial ou de imagem entra no diagnóstico. O profissional se baseia no relato do paciente.

O segundo deslocamento é de duração. O tempo total de tratamento preconizado pelo protocolo nacional é de doze meses, distribuído em avaliação, intervenção e manutenção da abstinência. A alternativa que oferece oito ou doze semanas está descrevendo a farmacoterapia, que é um pedaço; o acompanhamento vai até completar um ano, com sessões mensais abertas de prevenção de recaída.

O pano de fundo epidemiológico vem do inquérito telefônico do Ministério da Saúde. A frequência de fumantes no conjunto das capitais caiu de 15,7% em 2006 para 9,3% em 2023, redução média de 0,40 ponto percentual por ano, maior entre os homens (de 19,5% para 11,7%) do que entre as mulheres (de 12,4% para 7,2%). A queda desacelerou: entre 2018 e 2023 a série oscila entre 9,1% e 9,8% sem tendência clara.

Vale ler a meta com a calculadora na mão, porque ela ensina a desconfiar de número derivado. O plano nacional de enfrentamento das doenças crônicas prevê reduzir a prevalência de tabagismo em 40% até 2030, e o próprio relatório escreve que a aplicação desse percentual resultaria em 5,9% em 2030, partindo de uma frequência de 9,1% em 2021. Os dois números não fecham: 9,1 reduzido em 40% dá 5,5. O 5,9 reconstrói exatamente a partir de 9,8%, que é o valor de 2019, também impresso na mesma tabela. A base que produz o alvo não é a base que o parêntese declara, e a meta publicada acaba oito por cento mais frouxa do que a frase que a antecede.

Fagerström: seis perguntas, dez pontos e três cortes federais

O grau de dependência é medido pelo teste de Fagerström, seis perguntas, escore de zero a dez. Duas perguntas carregam quase todo o peso e são as que a vinheta sempre informa: quanto tempo após acordar o paciente fuma o primeiro cigarro (nos primeiros cinco minutos vale 3 pontos; de seis a trinta minutos, 2; de trinta e um a sessenta, 1; mais de sessenta, 0) e quantos cigarros fuma por dia. As outras quatro valem um ponto cada: achar difícil não fumar em lugar proibido, ter o primeiro cigarro da manhã como o mais satisfatório, fumar mais na primeira parte do dia e fumar mesmo acamado por doença.

Régua de 0 a 10 do escore de Fagerström com as cinco faixas de dependência, a janela de 5 a 7 destacada, três setas marcando cortes diferentes e a região de 0 a 4 riscada.
O escore de Fagerström e os três cortes federais que a mesma rede publica para a mesma decisão.

A legenda do escore divide em cinco faixas: zero a dois, dependência muito baixa; três a quatro, baixa; cinco, média; seis a sete, elevada; oito a dez, muito elevada. Quando a vinheta diz que o paciente fuma vinte e cinco cigarros por dia e acende o primeiro cinco minutos depois de acordar, ela já entregou 3 pontos da primeira pergunta e 2 da quantidade — cinco pontos antes de o candidato ler o resto.

O detalhe que vale ponto é a pergunta da quantidade, e ela tem dois buracos impressos. As faixas publicadas são menos de 10, 11 a 20, 21 a 30 e mais de 31. Quem fuma exatamente dez cigarros por dia não cai em nenhuma faixa, e quem fuma exatamente trinta e um, tampouco. São dois valores órfãos num escore de seis itens dentro de uma portaria conjunta federal. O erro não muda conduta, porque as faixas vizinhas distam um ponto e o limiar de tratamento fica longe delas, mas ensina o hábito certo: quando um instrumento é cobrado por corte, o candidato lê os limites, não a média.

O corte de indicação é onde a rede se contradiz sozinha. O protocolo clínico escreve que o escore indica sintomas desconfortáveis de abstinência quando o resultado for acima de seis pontos — mas a legenda do mesmo quadro já chama seis de dependência elevada. O relatório de recomendação, ao estimar quantos brasileiros seriam fumantes pesados, define a categoria como de seis a dez e chega a cerca de 20% dos tratados. E o esquema de adesivo transcrito no mesmo relatório abre a segunda modalidade para escore de cinco a sete somado a consumo de dez a vinte cigarros por dia e primeiro cigarro nos primeiros trinta minutos. Três documentos da mesma rede, três fronteiras para a mesma decisão.

Na prova, isso se resolve por hierarquia e não por memória. O que o protocolo clínico define positivamente é o inverso: aconselhamento isolado é preferencial quando o escore é igual ou inferior a quatro, o consumo é de até cinco cigarros por dia, o primeiro cigarro vem uma hora ou mais depois de acordar ou o paciente relata ausência de sintomas de abstinência. Basta uma dessas características. Acima disso, a farmacoterapia entra somada ao aconselhamento.

Quem entra: a régua é de exclusão, não de inclusão

O protocolo faz algo incomum e muito cobrado: o critério de inclusão é universal. Ficam incluídos, para todos os tratamentos, medicamentoso e não medicamentoso, os tabagistas atendidos nos diferentes níveis de atenção do SUS. Não há filtro por carga tabágica, por idade, por comorbidade ou por número de tentativas prévias. A alternativa que exige vinte maços-ano, ou que restringe o tratamento ao especialista, está inventando uma porta que o documento não tem.

O critério de exclusão é igualmente enxuto e vale só para a parte medicamentosa: ficam de fora os tabagistas com contraindicação ao respectivo medicamento. Some-se a recusa informada: independentemente da carga tabágica e do grau de dependência, a farmacoterapia não é usada em quem tem contraindicação clínica nem em quem optar por não usar medicamento após esclarecimento adequado.

Os casos especiais são o cardápio favorito das bancas, e quase todos se decidem pela mesma lógica: a intervenção comportamental nunca sai; o que sai é a droga. Em gestantes e nutrizes, o protocolo indica aconselhamento estruturado e afirma faltarem evidências suficientes de eficácia e segurança para reposição de nicotina e bupropiona na gestação — a orientação é tentar parar sem tratamento medicamentoso. Em menores de dezoito anos, o aconselhamento estruturado é a conduta, e a bupropiona não é preconizada nessa faixa até que novas pesquisas justifiquem o uso.

No idoso, nada muda em relação ao adulto, exceto por comorbidade que contraindique algum medicamento, e há um ajuste nominal: acima de 65 anos, preconiza-se a dose matinal de 150 mg por dia de cloridrato de bupropiona. Em tuberculose, o protocolo indica tratar a dependência em qualquer fase do esquema, com aconselhamento estruturado associado à farmacoterapia, e cita que mais de 20% da incidência global da doença é atribuível ao tabagismo. Em câncer, a cessação entra como parte essencial da assistência oncológica, o mais cedo possível.

Dois cenários exigem leitura mais fina. No paciente com transtorno psiquiátrico, incluindo dependência de álcool e outras drogas, o aconselhamento isolado não tem evidência de eficácia, e a indicação é oferecer farmacoterapia combinada ao aconselhamento; na depressão pregressa a bupropiona aumenta a cessação frente ao placebo, mas na depressão atual essa evidência não existe, e na esquizofrenia a bupropiona é o que tem evidência. No paciente hospitalizado, o que funciona é intervenção comportamental de alta intensidade iniciada na internação com contato por pelo menos um mês após a alta; associar reposição de nicotina aumenta a cessação, e associar bupropiona ao aconselhamento intensivo não mostrou ganho nessa população.

Abordagem mínima e básica: três minutos que a prova cobra pela sigla

Antes do escore e antes da receita existe a etapa que qualquer profissional executa em qualquer contato, e é dela que saem as questões de atenção primária. O protocolo nomeia duas, e a diferença entre elas cabe numa letra.

A abordagem breve ou mínima é chamada de PAAP — perguntar e avaliar, aconselhar e preparar. Leva cerca de três minutos, pode ser feita por qualquer profissional de saúde durante consulta de rotina e é recomendada sobretudo para quem tem dificuldade de acompanhar esse paciente depois, como as equipes de pronto-socorro e de triagem. Ela não acompanha o fumante no processo.

A abordagem básica é o PAAPA — perguntar e avaliar, aconselhar, preparar e acompanhar. Dura de três a cinco minutos por contato, é indicada para todos os fumantes e é a mais recomendada das duas, justamente porque prevê o retorno do paciente na fase crítica da abstinência. O quinto passo é a diferença inteira, e é ele que a questão troca de lugar.

As perguntas sugeridas pelo protocolo são padronizadas e servem de gabarito para vinheta: se fuma e há quanto tempo, quantos cigarros por dia, quanto tempo após acordar acende o primeiro, o que acha de marcar uma data, se já tentou e o que aconteceu. Duas respostas preveem abstinência forte: vinte cigarros ou mais por dia e primeiro cigarro em até trinta minutos.

Para quem não está disposto a parar nos próximos trinta dias, a conduta é estimular a pensar no assunto e retomar no contato seguinte — e não prescrever. Para quem está disposto, entra a preparação: marcar a data, explicar os sintomas de abstinência e sugerir estratégias para a fissura e para os gatilhos.

O aconselhamento estruturado, ou abordagem intensiva, é outro nível. São quatro sessões iniciais, preferencialmente semanais, com conteúdo definido sessão a sessão — entender por que se fuma, os primeiros dias sem fumar, como vencer os obstáculos e os benefícios obtidos —, seguidas de duas sessões quinzenais e de sessões mensais abertas até completar um ano. Deve ser coordenado por profissional de nível superior capacitado, de preferência em grupo, e é a base sobre a qual a droga é acrescentada, nunca a sobremesa dela.

A farmacoterapia do SUS, na ordem em que o protocolo a põe

O arsenal brasileiro tem dois princípios ativos e três apresentações de um deles: nicotina em adesivo, goma e pastilha, e cloridrato de bupropiona. Vareniclina não está no SUS, e o motivo é o assunto da metade seguinte deste capítulo.

A ordem importa e mudou. O protocolo de 2020 diz que a reposição de nicotina pode combinar forma lenta (adesivo) e rápida (goma ou pastilha), e que essa combinação é o tratamento preferencial, por sua maior eficácia. As demais entram como opções à combinação: bupropiona isolada, reposição isolada, ou bupropiona associada a uma reposição isolada. A reposição isolada fica reservada a quem tem contraindicação a uma das formas de liberação e não pode usar bupropiona.

A bupropiona ganha uma indicação preferencial própria: contraindicação à reposição de nicotina, ou paciente com transtorno psiquiátrico como depressão e esquizofrenia — e, nesse caso, com avaliação por profissional médico, de preferência especialista em saúde mental. A dose máxima recomendada é de 300 mg por dia, dividida em duas tomadas, e o medicamento é sujeito a prescrição e controle especial pela portaria de substâncias controladas.

O adesivo tem dois esquemas, e a prova gosta de trocá-los. Para quem fuma mais de vinte cigarros por dia: 21 mg a cada 24 horas nas semanas 1 a 4, 14 mg nas semanas 5 a 8 e 7 mg nas semanas 9 a 12, num total de doze semanas. Para escore de cinco a sete, ou consumo de dez a vinte cigarros por dia com primeiro cigarro nos primeiros trinta minutos: 14 mg nas semanas 1 a 4 e 7 mg nas semanas 5 a 8, num total de oito semanas. A goma vai de um tablete a cada uma a duas horas nas primeiras quatro semanas, afrouxando até uma a cada quatro a oito horas, com máximo de quinze unidades ao dia.

Há uma assimetria administrativa que o próprio relatório federal registra e que explica muita coisa da rede: a bupropiona exige prescrição médica; o adesivo pode ser dispensado sem ela. Em municípios sem médico, o adesivo continua disponível e a bupropiona não. É por isso que, nos dados de dispensação, o número de pacientes em adesivo supera o de pacientes em bupropiona, ainda que a bupropiona seja a alternativa mais barata.

Vareniclina: eficácia comparativa, acesso e decisão compartilhada

Aqui está a habilidade que este capítulo existe para treinar. Quando um estudo diz que uma droga é superior, a frase está incompleta até que o comparador seja nomeado. E quando o mesmo medicamento é medido contra dois comparadores diferentes, o resultado pode trocar de lado do neutro sem que nada tenha mudado na farmacologia.

Comece pela vareniclina, no relatório federal que a avaliou. Contra placebo, para cessação de seis meses ou mais, risco relativo de 2,24 (IC 95% 2,06 a 2,43), em 27 ensaios e 12.625 participantes, com qualidade de evidência alta. Contra bupropiona, aos seis meses, 1,39 (1,25 a 1,54). Contra reposição de nicotina isolada, aos seis meses, 1,25 (1,14 a 1,37). Três comparadores, três vitórias.

Contra a combinação de reposição de nicotina, a comparação indireta devolve razão de chances de 1,06 (0,75 a 1,48) — o intervalo atravessa o neutro, e não há diferença. O ensaio de comparação direta com 1.086 tabagistas confirma: abstinência em seis meses de 26,8% com a combinação e 23,6% com a vareniclina, estatisticamente semelhantes. A mesma droga que ganha de três adversários empata com o quarto — e o quarto é justamente o que a rede pública brasileira já entrega.

Duas metades espelhadas sobre uma régua comum de medidas de efeito, com linha tracejada no valor 1; em cada metade, o mesmo medicamento aparece de um lado e de outro do neutro conforme o comparador.
A mesma droga, dois comparadores, lados opostos do neutro: o efeito é propriedade do par, não do medicamento.

A bupropiona faz o caminho espelhado, e é a metade mais elegante do argumento. No perfil de evidência do protocolo clínico, bupropiona contra reposição isolada dá risco relativo de 1,03 (0,92 a 1,14) em doze ensaios, certeza moderada: nenhuma diferença. Bupropiona contra a combinação de reposição0,74 (0,55 a 0,98) em dois ensaios, certeza alta: inferior, e significativamente. O ponto sai de cima da linha e vai para baixo dela, e o que mudou entre as duas leituras não foi a droga nem o desfecho nem o seguimento, foi o adversário. Quando se pergunta por que a combinação é preferencial, a resposta está no terceiro perfil: combinação contra reposição isolada, 1,25 (1,15 a 1,36), catorze ensaios, 11.356 participantes, certeza alta.

A aritmética dos dois documentos fecha e vale guardar como sanidade: o relatório dá 1,25 para vareniclina contra reposição isolada e o protocolo dá 1,25 para combinação contra reposição isolada, de modo que o empate entre as duas, com razão de chances de 1,06, é consequência e não surpresa. A alternativa que afirma superioridade da vareniclina sobre a combinação erra por não ter feito essa passagem.

Sobre segurança, o mesmo relatório é sóbrio: comparada ao placebo, a vareniclina aumentou náusea, insônia, sonhos anormais, cefaleia e fadiga, reduziu ansiedade, e mostrou risco 25% maior do desfecho composto de eventos adversos sérios (RR 1,25; IC 95% 1,04 a 1,49). Depressão, ideação suicida, tentativa de suicídio, eventos neuropsiquiátricos graves, eventos cardíacos graves e morte avaliados isoladamente não mostraram diferença. O composto sobe; os componentes duros, não.

Por que a vareniclina não entrou no SUS

O relatório federal não parou na eficácia: construiu uma avaliação econômica completa, com horizonte de vida inteira, perspectiva do sistema público, desconto de 3% ao ano, desfecho em anos de vida ajustados por qualidade e simulação de Monte Carlo com 10.000 repetições de coortes de 3.000 pacientes. É um modelo sério. E o veredito dele cabe numa linha de tabela.

No caso-base, vareniclina e combinação de reposição de nicotina alcançam a mesma efetividade — 15,45 anos ajustados por qualidade cada uma —, e a vareniclina custa mais. Quanto mais? A coluna de custo incremental do quadro diz R$ 40,66 por paciente, e a subtração dos custos totais impressos na mesma linha (38.744,82 menos 38.704,16) confirma o valor ao centavo. É por essa diferença, acumulada ao longo de toda a vida de um paciente, que a tecnologia é declarada dominada.

A prosa que apresenta a tabela escreve outro número: custo incremental médio de R$ 40,96. Trinta centavos de diferença, um algarismo trocado, e a dominância vale igual nos dois casos. Registre-se como proveniência, não como acusação — serve para lembrar que, quando texto e quadro discordam, quem decide é a aritmética da própria tabela.

Quatro barras horizontais de custo de tratamento contra uma linha tracejada no valor de 600 reais; apenas a barra da vareniclina ultrapassa a linha.
As quatro alternativas na largura real do próprio quadro de preços do relatório, contra o limiar em que a decisão vira.

Agora o ponto que este capítulo quer que fique. O resultado não mora na modelagem; mora no comparador. Teste-o contra o quadro de preços do próprio relatório: tratamento completo de vareniclina, R$ 727,17; adesivo, R$ 132,90; goma, média de 405 unidades a R$ 0,91, o que dá R$ 368,55; bupropiona, R$ 29,70. A combinação preferencial custa, portanto, R$ 501,45 — e a vareniclina é R$ 225,72 mais cara na aquisição, mais de cinco vezes a diferença que o modelo de vida inteira reporta.

O próprio relatório mostra o quanto essa margem é frágil. A análise de sensibilidade que varia o número de gomas consumidas de 250 a 810 no tratamento inteiro move o custo incremental da vareniclina de R$ 52,64 para R$ 10,46: quanto mais goma o paciente mastiga, mais perto do empate. E há um limiar explícito: abaixo de R$ 600 a vareniclina deixa de ser dominada e passa a custar menos por paciente que a combinação. Uma redução de 17,5% no preço de tabela inverte a conclusão inteira.

Falta o achado que fecha o argumento, e ele está numa tabela de logística, não de estatística. O comparador que venceu é adesivo somado a goma. Na estimativa de dispensação do ano de referência, o relatório registra 6.963.026 adesivos de 21 mg, 5.843.320 de 14 mg, 5.182.464 de 7 mg, 18.265.500 comprimidos de bupropiona — e goma de nicotina de 2 mg: zero unidades. O documento acrescenta que a goma representa menos de 2% da reposição dispensada e que, por isso, não foi substituída pela vareniclina em nenhum cenário orçamentário. Ou seja: a conclusão de que a vareniclina é dominada exige que praticamente todo paciente receba as duas formas de liberação, e a forma rápida teve compra nula no ano que serviu de base.

Um segundo desencontro fica sem reconciliação, e vale anotá-lo como tal. O texto declara que o número de pacientes em bupropiona foi obtido dividindo os comprimidos dispensados por 165, que é o total de um tratamento de doze semanas. A tabela imprime 101.475 pacientes. A divisão declarada daria 110.700; o número impresso corresponde a uma divisão por 180. A itemização fecha — 232.100 em adesivo mais 101.475 em bupropiona somam exatamente os 333.575 do total —, e a corroboração externa citada, 309.393 pacientes atendidos com medicamento em 2016, acomoda os dois valores. O que não fecha é o divisor declarado contra o divisor executado.

Como ler recomendações diferentes sem confundir eficácia e incorporação

Se o modelo brasileiro nega a vareniclina, por que ela é rotina em outros sistemas públicos? A resposta está no mesmo relatório, na seção que resume outras agências de avaliação, e ela não desmente nada do que veio antes.

O instituto britânico recomendou a incorporação da vareniclina como opção para adultos que desejam parar de fumar, preferencialmente prescrita dentro de um programa de apoio comportamental. O consórcio escocês incorporou-a para dependência de nicotina em adultos, também como componente de um programa de apoio. A agência australiana recomendou de forma semelhante, com aconselhamento concomitante em programa abrangente.

A agência canadense é a exceção interessante: não recomendou nem rejeitou. Concluiu que a segurança e a eficácia da vareniclina em combinação com outros tratamentos precisam ser melhor estudadas, apontou limitação de validade externa — os ensaios avaliaram tabagistas sem comorbidade associada, que podem não representar quem procura tratamento — e pediu confirmação por estudos independentes da indústria farmacêutica, com seguimento longo.

Reunidas, essas posições dizem a mesma coisa que o modelo brasileiro. Nenhuma das três agências que incorporaram comparou a vareniclina com a combinação de reposição de nicotina; todas a compararam com o cuidado disponível nos seus sistemas. O Brasil já tinha a combinação no protocolo, e por isso perguntou outra coisa. A divergência não é sobre a droga, e sim sobre o que estava na prateleira quando cada um perguntou.

Para a prova, a consequência é limpa: a alternativa que afirma que a vareniclina não funciona está errada, e a que afirma que ela deveria entrar no SUS por ser mais eficaz que a combinação também. O enunciado brasileiro pede a conduta brasileira, que é a combinação somada ao aconselhamento estruturado.

O que o protocolo vigente oferece e quando encaminhar

Vale um parágrafo sobre quem pediu o quê, porque a cadeia aqui não segue o roteiro habitual das avaliações de tecnologia. O demandante não é o fabricante. Quem pediu a avaliação da vareniclina foi a Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional de Câncer, órgão do Ministério da Saúde — e o relatório foi elaborado pelo núcleo de avaliação de tecnologias do mesmo instituto. O Estado pediu, o Estado avaliou, e a recomendação saiu contrária ao produto da indústria.

O fabricante aparece uma vez só no relatório, na consulta pública, como uma das duas pessoas jurídicas entre oito contribuições técnico-científicas — a outra é a Associação Médica Brasileira. Somaram-se 39 contribuições de experiência ou opinião, a maioria discordante da recomendação preliminar, quase todas do Sudeste. O plenário registrou no mesmo documento que nenhum dado de eficácia, segurança, custo-efetividade ou impacto orçamentário comparando vareniclina com a combinação de reposição foi apresentado para contra-argumentar. A comparação que decidiria era exatamente a que faltou.

O fecho é institucional. O relatório de 2019 justifica a negativa dizendo que o modelo brasileiro já preconiza e disponibiliza reposição de nicotina e bupropiona — isto é, usa o protocolo clínico como fonte do comparador. O protocolo clínico publicado no ano seguinte devolve a cortesia: entre as sete perguntas estruturadas que ele decidiu responder, a vareniclina não foi considerada, textualmente porque o medicamento havia sido avaliado e não recomendado pela comissão, conforme o relatório nº 468 e a portaria que dele decorreu. Cada documento aponta para o outro como razão de não reabrir a questão.

Isso não é acusação de má-fé; é descrição de um circuito fechado, com porta de saída escrita na própria portaria: a matéria pode ser submetida a novo processo de avaliação caso sejam apresentados fatos novos.

Recaída e falha: o que fazer quando o paciente volta a fumar

Recaída é regra, não exceção, e o protocolo dedica um item a ela. O tabagista que recaiu recebe incentivo para tratar de novo, valorizando as tentativas anteriores, e há liberdade explícita para manter ou trocar o medicamento: independentemente do fármaco usado antes, ele continua apresentando eficácia superior ao placebo num novo tratamento. O que orienta a escolha são os eventos adversos da tentativa anterior, porque deles depende a adesão.

O vocabulário também é cobrado. O desfecho esperado é a cessação total, isto é, a interrupção do uso da nicotina em qualquer de suas formas — reduzir não conta. A falha terapêutica é definida como o não alcance da cessação ao final do tratamento, e não como voltar a fumar no meio do caminho.

Fechando o arco: o tratamento vive na atenção primária, com abordagem comportamental em grupo como formato preferencial, farmacoterapia acrescentada quando o grau de dependência justifica, e um ano de acompanhamento. A pergunta que o candidato deve levar para a estação e para a prova não é qual é o melhor remédio para parar de fumar. É a mesma pergunta que decidiu a política nacional inteira: melhor do que o quê?

04

A régua do SUS: quem recebe o quê, e por quê

Todo tabagista atendido no SUS entra no protocolo. A decisão que sobra é se, além do aconselhamento estruturado, o paciente recebe medicamento — e qual. O fluxo abaixo é a sequência que o protocolo clínico do tabagismo desenha, e as tabelas trazem o esquema posológico e as medidas de efeito que sustentam a ordem de preferência.

  1. 1Todo contato: abordagem mínima em três minutos (perguntar e avaliar, aconselhar, preparar) ou básica em três a cinco minutos, que acrescenta o acompanhar.
  2. 2Disposto a parar nos próximos trinta dias? Se não, estimular a pensar e retomar no contato seguinte; se sim, marcar data e seguir.
  3. 3Avaliação inicial: história tabágica, histórico patológico, escore de Fagerström e estágio de motivação.
  4. 4Aconselhamento estruturado para todos: quatro sessões semanais, duas quinzenais e sessões mensais abertas até completar um ano.
  5. 5Aconselhamento isolado é preferencial se houver ao menos um destes: escore de quatro ou menos, até cinco cigarros por dia, primeiro cigarro uma hora ou mais após acordar, ou ausência de sintomas de abstinência.
  6. 6Caso contrário, somar farmacoterapia: reposição de nicotina combinada (forma lenta mais rápida) é a preferencial.
  7. 7Contraindicação à nicotina, ou depressão e esquizofrenia: bupropiona, com avaliação médica e preferência por especialista em saúde mental.
  8. 8Gestante, nutriz e menor de dezoito anos: aconselhamento estruturado, sem farmacoterapia.
  9. 9Recaída: retratar, mantendo ou trocando o medicamento conforme os eventos adversos da tentativa anterior.

Farmacoterapia disponível no SUS: esquema e lugar na fila

AlternativaEsquemaPosição no protocolo
Adesivo mais goma ou pastilha (reposição combinada)Forma lenta transdérmica somada a forma rápida oral, nas doses de cada apresentaçãoTratamento preferencial, por maior eficácia
Adesivo de nicotina, esquema longo21 mg/24 h nas semanas 1 a 4; 14 mg nas semanas 5 a 8; 7 mg nas semanas 9 a 12 (doze semanas)Para quem fuma mais de vinte cigarros por dia
Adesivo de nicotina, esquema curto14 mg/24 h nas semanas 1 a 4; 7 mg nas semanas 5 a 8 (oito semanas)Escore de cinco a sete, ou dez a vinte cigarros por dia com primeiro cigarro em até trinta minutos
Goma de nicotina1 tablete a cada 1 a 2 h nas semanas 1 a 4; a cada 2 a 4 h nas semanas 5 a 8; a cada 4 a 8 h nas semanas 9 a 12; máximo de 15 ao diaForma rápida da combinação; também usável isolada
Cloridrato de bupropiona150 mg/dia nos três primeiros dias, depois 300 mg/dia em duas tomadas, até doze semanas; acima de 65 anos, 150 mg pela manhãOpção à combinação; preferencial se houver contraindicação à nicotina, depressão ou esquizofrenia
Vareniclina0,5 mg/dia nos dias 1 a 3; 0,5 mg duas vezes ao dia nos dias 4 a 7; 1 mg duas vezes ao dia até completar doze semanasRegistrada no país e não incorporada ao SUS pela portaria de 2019

O mesmo desfecho, comparadores diferentes: o que muda de lado

ComparaçãoMedida aos seis mesesLeitura
Vareniclina contra placeboRR 2,24 (IC 95% 2,06 a 2,43); 27 ensaios, 12.625 participantesSuperior, evidência de qualidade alta
Vareniclina contra bupropionaRR 1,39 (1,25 a 1,54)Superior
Vareniclina contra reposição isoladaRR 1,25 (1,14 a 1,37)Superior
Vareniclina contra reposição combinadaOR 1,06 (0,75 a 1,48); ensaio direto com 1.086 pacientes: 23,6% contra 26,8%Sem diferença — é esta comparação que decide no Brasil
Bupropiona contra reposição isoladaRR 1,03 (0,92 a 1,14); 12 ensaios, certeza moderadaSem diferença
Bupropiona contra reposição combinadaRR 0,74 (0,55 a 0,98); 2 ensaios, certeza altaInferior — mesma droga, outro lado do neutro
Reposição combinada contra reposição isoladaRR 1,25 (1,15 a 1,36); 14 ensaios, 11.356 participantes, certeza altaSuperior — a razão de a combinação ser preferencial

A dominância que negou a vareniclina significa mesma efetividade com custo maior, e não menor eficácia: no caso-base, as duas alternativas alcançam 15,45 anos de vida ajustados por qualidade, e a diferença de custo por paciente é de R$ 40,66 ao longo de toda a vida.

A razão de custo-efetividade de R$ 2.106,32 por ano ajustado por qualidade, citada no resumo do relatório, é da reposição combinada contra a bupropiona em monoterapia. Não existe razão incremental entre vareniclina e reposição combinada, porque alternativa dominada não gera razão.

No modelo econômico, o risco relativo atribuído à reposição combinada foi pressuposto igual ao da vareniclina, 2,24 (2,06 a 2,43), por nota de rodapé da tabela de parâmetros. O empate de efetividade é entrada do modelo, não saída dele — e é dele que a dominância decorre.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Em que escore de Fagerström a farmacoterapia passa a ser indicada

Acima de seis pontos

O protocolo clínico do tabagismo escreve que o escore indica que o tabagista poderá experimentar sintomas desconfortáveis da síndrome de abstinência quando o resultado for acima de seis pontos — apesar de a legenda do mesmo quadro já classificar seis como dependência elevada.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo, Portaria Conjunta nº 10/2020, quadro do teste de Fagerström

De seis a dez pontos

O relatório de recomendação da vareniclina, ao estimar a fração de fumantes pesados no Brasil para o impacto orçamentário, define a categoria como escore de seis a dez e a dimensiona em cerca de 20% dos pacientes em tratamento.

Relatório de Recomendação nº 468/2019, seção de impacto orçamentário

De cinco a sete pontos, para o esquema curto de adesivo

A tabela de posologias reproduzida do próprio protocolo abre a segunda modalidade de adesivo para escore de cinco a sete, somado a consumo de dez a vinte cigarros por dia e primeiro cigarro nos primeiros trinta minutos após acordar.

Relatório de Recomendação nº 468/2019, tabela de posologias, atribuída ao protocolo do Ministério da Saúde

Na prova

O avaliador quase nunca cobra o corte solto; cobra o critério inverso, que é unívoco nos dois documentos: aconselhamento isolado é preferencial com escore de quatro ou menos, até cinco cigarros por dia, primeiro cigarro uma hora ou mais após acordar ou ausência de sintomas de abstinência. Se a vinheta descreve primeiro cigarro em cinco minutos e vinte e cinco cigarros por dia, ela já colocou o paciente fora dessa faixa, e a discussão sobre onde exatamente começa o seis deixa de importar.

Qual é a primeira linha farmacológica do tratamento do tabagismo no SUS

Reposição de nicotina e bupropiona, em pé de igualdade

O relatório de 2019 descreve o modelo brasileiro dizendo que os medicamentos considerados de primeira linha e utilizados no SUS são a reposição de nicotina e o cloridrato de bupropiona, e que a escolha entre eles depende da avaliação individual, da posologia e da facilidade de administração, em comum acordo com o paciente.

Relatório de Recomendação nº 468/2019, seção de tratamento recomendado

A combinação de duas formas de nicotina é a preferencial

O protocolo publicado no ano seguinte hierarquiza: a reposição que combina forma lenta e forma rápida é o tratamento preferencial, por sua maior eficácia, e bupropiona isolada, reposição isolada e bupropiona somada a uma reposição isolada passam a ser opções oferecidas à combinação.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo, Portaria Conjunta nº 10/2020, item de tratamento medicamentoso

Na prova

Questão escrita a partir de material anterior a 2020 trata as duas classes como equivalentes; questão escrita a partir do protocolo vigente espera a combinação como preferencial. O desempate é a data e o documento citados no enunciado. Quando o enunciado invoca o protocolo do Ministério da Saúde sem data, a resposta é a hierarquia atual, porque é a única em vigor.

A vareniclina deve ser oferecida no sistema público

Deve, como opção dentro de programa de apoio comportamental

O instituto britânico, o consórcio escocês e a agência australiana recomendaram a incorporação da vareniclina para adultos que desejam parar de fumar, todos condicionando o uso a apoio comportamental concomitante. Nenhuma dessas avaliações usou a combinação de duas formas de nicotina como comparador.

Relatório de Recomendação nº 468/2019, seção de avaliação por outras agências

Não deve, por ser dominada pela combinação já ofertada

A comissão nacional deliberou pela não incorporação em 3 de julho de 2019, e a decisão foi publicada pela portaria de 24 de julho: sem evidência de superioridade sobre a combinação de duas formas de reposição, e com custo médio por paciente maior para a mesma efetividade, a tecnologia é alternativa dominada.

Relatório de Recomendação nº 468/2019 e Portaria nº 41/SCTIE/MS, de 24 de julho de 2019

Sem posição, por limitação da evidência disponível

A agência canadense concluiu que eficácia e segurança da vareniclina em combinação com outros tratamentos precisam ser melhor estudadas, apontou que os ensaios avaliaram tabagistas sem comorbidade e pediu confirmação por estudos independentes da indústria farmacêutica, com desfecho de longo prazo.

Relatório de Recomendação nº 468/2019, seção de avaliação por outras agências

Na prova

Enunciado que pede a conduta na rede pública brasileira quer a combinação somada ao aconselhamento estruturado, e a alternativa que oferece vareniclina é distratora por indisponibilidade, não por ineficácia. Enunciado de farmacologia que pergunta pelo agonista parcial do receptor nicotínico alfa-4 beta-2 quer a vareniclina como resposta farmacológica, mesmo não estando no SUS. Ler qual das duas perguntas foi feita é o que separa o candidato treinado.

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Caso resolvido

Homem de 46 anos procura a unidade básica dizendo que quer parar de fumar. Fuma cerca de 25 cigarros por dia há 25 anos e acende o primeiro nos primeiros cinco minutos após acordar. Já tentou parar duas vezes por conta própria e recaiu na primeira semana, com irritabilidade intensa. Hipertenso em uso de losartana, sem outras comorbidades, sem história de convulsão, sem transtorno psiquiátrico conhecido. Exame físico normal, pressão de 132 por 84. Diz que topa marcar uma data para as próximas duas semanas.
Classificar o pedido
O paciente veio por vontade própria e está disposto a parar dentro de trinta dias. Isso o coloca direto na etapa de preparação: marcar a data, explicar os sintomas de abstinência e combinar estratégias para a fissura. A abordagem que cabe aqui é a básica, com acompanhamento previsto, e não a mínima.
Medir a dependência
Primeiro cigarro em cinco minutos vale 3 pontos; 21 a 30 cigarros por dia vale 2. Só essas duas respostas somam 5, e o relato de irritabilidade intensa nas tentativas anteriores sugere pontuação adicional. O escore cai na faixa de dependência elevada, e nenhum dos quatro critérios de aconselhamento isolado se aplica: fuma muito mais de cinco cigarros, acende bem antes de uma hora e tem sintomas de abstinência.
Definir o esqueleto do tratamento
Aconselhamento estruturado para todos, sem exceção: quatro sessões semanais, duas quinzenais e sessões mensais abertas até completar um ano. É sobre essa base que a medicação entra, e não o contrário.
Escolher a farmacoterapia
Grau de dependência elevado, sem contraindicação à nicotina e sem transtorno psiquiátrico: a preferencial é a reposição combinada. Como fuma mais de vinte cigarros por dia, o adesivo segue o esquema longo — 21 mg por 24 horas nas semanas 1 a 4, 14 mg nas semanas 5 a 8, 7 mg nas semanas 9 a 12 — somado à forma rápida, com a goma de 2 mg no máximo de quinze unidades ao dia.
Descartar o que a vinheta convida a fazer
A hipertensão em uso de losartana não contraindica a reposição de nicotina no protocolo, e não é motivo para trocar por bupropiona. Vareniclina não está disponível no SUS. Encaminhar ao pneumologista antes de tratar contraria a lógica do programa, que é de atenção primária. Espirometria não faz parte do diagnóstico de dependência, ainda que possa ser pedida por outra indicação.
Combinar o retorno
O retorno mais importante é o da fase crítica, nas primeiras semanas após a data marcada, porque é quando a recaída acontece. Se ele recair, o tratamento se repete: existe liberdade para manter ou trocar o medicamento, orientada pelos eventos adversos da tentativa anterior.
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Agora feche você

Mulher de 31 anos, gestante de 22 semanas, informa no pré-natal que fuma 12 cigarros por dia desde os 19 anos e acende o primeiro cerca de vinte minutos depois de acordar. Diz que reduziu de vinte para doze ao saber da gravidez e que gostaria de parar de vez, mas tem medo de engordar. Não tem comorbidades, nega transtorno psiquiátrico e não usa medicamento algum. Pressão de 108 por 68, altura uterina e batimentos fetais compatíveis com a idade gestacional.
Passo 1
Some os pontos que a vinheta já entrega no escore de dependência e diga em que faixa da legenda essa paciente cai.
Passo 2
Verifique se algum dos quatro critérios de aconselhamento isolado se aplica a ela, considerando quantidade, horário do primeiro cigarro e sintomas de abstinência.
Passo 3
Decida se o escore obtido basta para indicar farmacoterapia nesta paciente, e nomeie a regra que resolve a questão antes do escore.
Passo 4
Escreva a conduta completa, incluindo a estrutura e a duração do acompanhamento, e diga o que muda quando ela deixar de amamentar.
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar dominada como sinônimo de ineficaz Alternativa dominada, em avaliação econômica, quer dizer efetividade igual ou menor com custo maior. No caso-base do relatório, vareniclina e reposição combinada empatam em 15,45 anos de vida ajustados por qualidade; a vareniclina custa R$ 40,66 a mais por paciente. Dizer que a vareniclina não funciona contradiz o mesmo relatório, que a mostra superior ao placebo com risco relativo de 2,24.
  2. 2Prescrever farmacoterapia para a gestante fumante A vinheta descreve gestante de vinte e poucos anos, dez cigarros por dia, primeiro cigarro logo ao acordar, e o candidato treinado no escore prescreve adesivo. O protocolo nacional é direto: gestantes e nutrizes devem tentar parar sem tratamento medicamentoso, por falta de evidências suficientes de eficácia e segurança, recebendo aconselhamento estruturado, cujo benefício é observado ao fim da gestação e a longo prazo.
  3. 3Confundir abordagem mínima com abordagem básica As duas são curtas e servem para o mesmo momento, mas só a básica prevê acompanhamento. A mínima é perguntar e avaliar, aconselhar e preparar, em cerca de três minutos; a básica acrescenta o acompanhar e leva de três a cinco minutos, sendo a mais recomendada das duas justamente por prever o retorno na fase crítica da abstinência.
  4. 4Achar que a bupropiona sai da farmácia sem receita É o inverso, e o relatório federal usa esse fato para explicar a distribuição real do tratamento: a bupropiona exige prescrição médica e controle especial, enquanto o adesivo de nicotina pode ser dispensado sem prescrição. Em município sem médico, sobra o adesivo — razão pela qual o número de pacientes em adesivo supera o de pacientes na alternativa mais barata.
  5. 5Ler superioridade sem perguntar contra quem A bupropiona empata com a reposição isolada (RR 1,03; 0,92 a 1,14) e perde para a reposição combinada (RR 0,74; 0,55 a 0,98). São dois resultados da mesma droga, no mesmo desfecho, no mesmo seguimento, em lados opostos do neutro. Toda vez que uma alternativa afirmar que algo é mais eficaz, o candidato precisa localizar o comparador antes de julgar.
  6. 6Parar a farmacoterapia e achar que o tratamento acabou Os esquemas medicamentosos duram oito ou doze semanas; o tratamento preconizado dura doze meses, com duas sessões quinzenais depois das quatro semanais e sessões mensais abertas de prevenção de recaída até completar um ano. Alternativa que encerra o acompanhamento junto com o último adesivo está trocando o remédio pelo tratamento.
  7. 7Oferecer aconselhamento isolado ao paciente psiquiátrico Parece a conduta conservadora e é a errada. Para fumantes em tratamento e reabilitação de dependência de álcool e outras drogas, o protocolo registra que inexiste evidência de eficácia do aconselhamento isolado, e indica farmacoterapia combinada ao aconselhamento estruturado, em ambiente hospitalar, ambulatorial ou de reabilitação.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O modelo dos 5 As (Ask/perguntar, Advise/aconselhar, Assess/avaliar, Assist/auxiliar, Arrange/acompanhar) é a abordagem breve estruturada recomendada para cessação do tabagismo na APS. A entrevista motivacional é uma técnica complementar, mas não é o acrônimo descrito. ABCDE é protocolo de atendimento ao trauma. O método clínico centrado na pessoa é um referencial de comunicação/consulta, não um roteiro de cessação em cinco passos. A escala de Fagerström mede o grau de dependência à nicotina, não é um modelo de aconselhamento.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Tabagismo é doença codificada como transtorno mental e comportamental devido ao uso de fumo, diagnosticada pelo relato do paciente com três ou mais critérios em doze meses, sem nenhum exame complementar. Todo tabagista atendido no SUS entra no protocolo; só sai da farmacoterapia quem tem contraindicação ou recusa informada. O grau de dependência é medido pelo teste de Fagerström, seis perguntas e escore de zero a dez, e o critério positivo do protocolo é o inverso do que se decora: aconselhamento isolado é preferencial com escore de quatro ou menos, até cinco cigarros por dia, primeiro cigarro uma hora ou mais após acordar ou ausência de sintomas de abstinência. Fora disso, soma-se farmacoterapia, e a preferencial é a reposição de nicotina que combina forma lenta e forma rápida. Bupropiona é a opção para contraindicação à nicotina, depressão ou esquizofrenia, com dose máxima de 300 mg ao dia e 150 mg pela manhã acima de 65 anos. Gestante, nutriz e menor de dezoito anos recebem aconselhamento sem medicamento. O tratamento inteiro dura doze meses.

em 30 dias

A pergunta que organiza o tema é sempre superior a quê. A vareniclina vence placebo (RR 2,24), bupropiona (1,39) e reposição isolada (1,25), e empata com a reposição combinada (OR 1,06; 0,75 a 1,48), confirmado por ensaio direto com 1.086 pacientes. A bupropiona faz o percurso espelhado: empata com a reposição isolada (1,03) e perde para a combinada (0,74). A combinação supera a isolada (1,25), e é por isso que ela lidera. Sobre essa base, a avaliação econômica federal declarou a vareniclina dominada por diferença de R$ 40,66 por paciente ao longo da vida, com mesma efetividade — e o próprio relatório mostra que abaixo de R$ 600 de preço a dominância cai. Três agências estrangeiras incorporaram a vareniclina comparando-a com o cuidado dos seus sistemas, não com a combinação, e a agência canadense pediu estudos independentes da indústria. Na prova brasileira, a conduta é aconselhamento estruturado somado à reposição combinada; vareniclina é distratora por não estar incorporada, nunca por não funcionar.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 46 anos chega à unidade básica dizendo que quer parar de fumar e que já tentou duas vezes sozinho. Colha a história tabágica, meça o grau de dependência pelas perguntas certas e monte o tratamento que a rede pública oferece, com a estrutura de acompanhamento e a duração corretas. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Tabagismo: o comparador decidiu, não o remédio — Preparatório para provas | OsceLabs