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Clínica MédicaPneumologia

Insuficiência respiratória aguda e oxigenoterapia

Diferenciar falência hipoxêmica de ventilatória, prescrever oxigênio por alvo, escalar o suporte sem atrasar a intubação e aplicar ventilação protetora quando houver SDRA.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 34 anos, previamente hígida, é internada com pneumonia comunitária grave. Após 5 dias de antibiótico, mantém febre e piora respiratória, evoluindo com PA 90x55 mmHg, FC 118 bpm, FR 32 ipm, SatO2 86% em máscara não reavente. Intubada, apresenta: relação PaO2/FiO2 de 140, infiltrados bilaterais difusos ao RX de tórax, sem sinais de sobrecarga volêmica ou disfunção cardíaca ao ecocardiograma. Além do tratamento da causa de base, qual estratégia ventilatória está MAIS associada à redução de mortalidade nesta condição?

02

Como esse tema cai

Este capítulo não é sobre a causa. Asma, DPOC, pneumonia, tromboembolismo e edema agudo de pulmão têm tratamento próprio e capítulo próprio. Aqui o objeto é a falência em si e o oxigênio — o que todos esses pacientes recebem enquanto o tratamento específico faz efeito, e o que decide se eles chegam inteiros até lá.

Três decisões organizam tudo. A primeira é se a insuficiência é hipoxêmica ou ventilatória, porque a segunda não se resolve com mais fração inspirada de oxigênio. A segunda é qual faixa de saturação perseguir, porque ela não é a mesma para todo mundo e 'quanto mais alta melhor' é errado. A terceira é em que degrau da escada de suporte o paciente entra, e em que momento subir mais um degrau deixa de ser cuidado e vira atraso.

A régua brasileira desses três pontos está espalhada em lugares pouco óbvios. Não existe protocolo clínico do Ministério da Saúde dedicado à insuficiência respiratória aguda do adulto: os números de beira de leito de cada dispositivo — fluxo, FiO2, para quem serve — estão nos Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, e as recomendações de suporte ventilatório vêm da AMIB com a SBPT, publicadas em 2013 e atualizadas em 2024. A prescrição de oxigênio por faixa-alvo de saturação é onde o documento internacional ainda tem mais detalhe, e é dele que saem os 94 a 98% e os 88 a 92%.

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O que muda decisão

Dois números fecham o diagnóstico, e o segundo não vale sozinho

Insuficiência respiratória hipoxêmica é PaO2 abaixo de 60 mmHg respirando ar ambiente. O corte não é arbitrário: 60 mmHg é o ombro da curva de dissociação da hemoglobina, o ponto em torno do qual a saturação está por volta de 90%. Acima dele, perder PaO2 custa pouca saturação; abaixo dele, cada milímetro de mercúrio perdido derruba a saturação depressa. É por isso que a faixa-alvo mais baixa que se admite para qualquer paciente começa em 88% e não em 80%.

Insuficiência respiratória ventilatória é PaCO2 acima de 45 mmHg — mas a hipercapnia sozinha não diz que o quadro é agudo. O retentor crônico de CO2 caminha pela rua com PaCO2 de 65 mmHg e pH de 7,38, porque o rim teve meses para reter bicarbonato e compensar. O que marca o agudo é o pH. O documento britânico opera exatamente com esse par: PaCO2 acima de 45 mmHg com pH abaixo de 7,35 caracteriza a falência hipercápnica com acidose respiratória, e é essa combinação que indica ventilação não invasiva quando persiste depois de 30 minutos de tratamento medicamentoso padrão.

O bicarbonato completa a leitura e diz há quanto tempo. Acidemia com bicarbonato alto é retentor crônico que descompensou. Acidemia com bicarbonato normal é retenção aguda que ainda não teve tempo de ser compensada — intoxicação por opioide, crise miastênica, fadiga muscular numa crise asmática. A conduta imediata é a mesma nos dois casos; o prognóstico e a causa não são.

Tipo 1 e tipo 2 não são graus da mesma coisa

A insuficiência tipo 1 é do pulmão que não troca: o ar entra, o sangue passa, e o oxigênio não atravessa. Pneumonia, edema pulmonar, SDRA, tromboembolismo. A insuficiência tipo 2 é da bomba que não move ar: comando respiratório deprimido, nervo lesado, músculo fraco ou exausto, caixa torácica que não expande, via aérea superior obstruída. São falências de aparelhos diferentes.

A consequência prática é o que a prova cobra. No tipo 2, aumentar a FiO2 não resolve nada — você normaliza a oximetria e o paciente continua acidótico, porque o problema nunca foi a oferta de oxigênio, foi a remoção de gás carbônico. Quem corrige o tipo 2 é ventilação: pressão positiva não invasiva ou tubo. O oxímetro tranquiliza e a gasometria desmente.

Há o caso misto, que é o mais comum na emergência. Exacerbação grave de DPOC e crise asmática grave começam hipoxêmicas e viram hipercápnicas quando a musculatura cansa. Na asma isso tem uma tradução clássica: o asmático em crise hiperventila e deveria estar hipocápnico. PaCO2 'normal' no meio de uma crise grave não é melhora, é o paciente que parou de conseguir hiperventilar.

Cinco mecanismos de hipoxemia, e só um não responde ao oxigênio

Os mecanismos são cinco: hipoventilação alveolar, distúrbio da relação ventilação-perfusão, shunt, distúrbio de difusão e redução da fração de oxigênio inspirada (altitude, ambiente confinado, gás deslocado). A pressão alveolar de oxigênio é o que amarra os dois primeiros: PAO2 é a FiO2 multiplicada pela pressão barométrica menos a pressão de vapor d'água, descontada a PaCO2 dividida pelo quociente respiratório. Ao nível do mar, respirando ar, isso é aproximadamente 150 menos PaCO2 sobre 0,8.

Na hipoventilação pura, a PaCO2 sobe e a fórmula derruba a PAO2 sem que a membrana alveolocapilar tenha qualquer defeito. Por isso a hipoxemia da hipoventilação corrige com muito pouco oxigênio suplementar — e por isso ela é uma armadilha: o oxímetro melhora, o CO2 continua subindo e nada foi tratado.

No shunt, o sangue atravessa pulmão que não está ventilado de forma alguma: alvéolo cheio de pus, de água, de sangue, ou colabado. Nenhuma FiO2 chega ali, porque o problema não é a concentração do gás, é a ausência de gás. Hipoxemia que não corrige mesmo com fração inspirada alta é shunt, e o que trata shunt é abrir o alvéolo — pressão positiva ao final da expiração, drenagem, tratamento da causa. O distúrbio de ventilação-perfusão, que é o mecanismo mais frequente, fica no meio do caminho: responde bem a oxigênio suplementar modesto.

PaO2/FiO2: o número que classifica, e o denominador que quase nunca se tem

A relação PaO2/FiO2 é a PaO2 em milímetros de mercúrio dividida pela fração inspirada em decimal. Em ar ambiente, uma PaO2 de 60 mmHg dá 60 dividido por 0,21, ou seja, 286. É esse número que estratifica a SDRA na definição de Berlim, reproduzida pelas Recomendações brasileiras de 2013: leve entre 201 e 300, moderada entre 101 e 200, grave igual ou abaixo de 100 — todas exigindo PEEP ou CPAP de pelo menos 5 cmH2O, opacidades bilaterais, início dentro de uma semana e edema não explicado por insuficiência cardíaca ou sobrecarga de volume.

O detalhe que derruba candidato é o denominador. Em cateter nasal a FiO2 não é conhecida: o documento britânico afirma expressamente que a fração entregue por cânula nasal não pode ser prevista e, portanto, não pode ser usada onde um cálculo depende dela. As tabelas que convertem litros por minuto em porcentagem servem para orientar a prescrição, não para virar denominador de classificação. Quem entrega uma fração utilizável é a máscara de Venturi, pelo diluidor, e o ventilador, pelo ajuste.

Existe uma consequência clínica além da prova: relação PaO2/FiO2 calculada sobre um denominador inventado subestima ou superestima a gravidade e pode mandar para a enfermaria quem deveria estar na terapia intensiva. Quando o número vai decidir alguma coisa, colhe-se a gasometria com o paciente num dispositivo de fração conhecida.

SDRA depois do diagnóstico: ventilar protegendo o pulmão

Classificar a SDRA pela relação PaO2/FiO2 é apenas a entrada. Depois que o paciente está intubado, a conduta que muda desfecho é limitar a lesão induzida pelo ventilador. O volume corrente deve começar em cerca de 6 mL/kg de peso predito, calculado por sexo e altura — nunca pelo peso real do paciente obeso — e pode ser ajustado entre 4 e 8 mL/kg para manter segurança e sincronia. A pressão de platô deve permanecer abaixo de 30 cmH2O; pressão de distensão, a diferença entre platô e PEEP, ajuda a reconhecer excesso de estresse, mas não substitui esses dois alvos.

A PEEP é titulada conforme gravidade, recrutabilidade, oxigenação e repercussão hemodinâmica. Na SDRA moderada ou grave costuma-se usar estratégia de PEEP mais alta, evitando manobras agressivas de recrutamento de rotina. A meta de saturação não é normalizar a gasometria a qualquer preço: a orientação brasileira trabalha em torno de 92% a 96%, com a menor FiO2 capaz de manter a faixa. Hipercapnia permissiva pode ser aceita quando necessária para proteger o pulmão, desde que não haja contraindicação importante e o pH seja acompanhado.

Na SDRA moderada a grave com PaO2/FiO2 abaixo de aproximadamente 150, apesar de ventilação protetora, a prona precoce por sessões prolongadas — em geral 12 a 16 horas por dia — reduz mortalidade quando executada por equipe treinada. Bloqueio neuromuscular não é rotina para todo paciente: cabe por período curto quando hipoxemia, assincronia ou esforço respiratório impedem a estratégia protetora. Depois que o choque está controlado, a estratégia de fluidos deve ser conservadora para reduzir edema pulmonar.

Se a hipoxemia permanecer refratária, a sequência é conferir tubo e circuito, excluir pneumotórax e obstrução, otimizar PEEP e posição prona, corrigir assincronia e tratar a causa. Óxido nítrico inalatório pode funcionar como resgate transitório, sem benefício rotineiro de mortalidade. A ECMO venovenosa deve ser discutida precocemente com centro experiente quando a hipoxemia ou a acidose hipercápnica persistem apesar da ventilação protetora, prona e demais medidas convencionais — o encaminhamento não pode começar somente depois que todas as pontes já falharam.

Fluxograma da ventilação protetora e do escalonamento da SDRA, do volume corrente baixo à posição prona e à avaliação de ECMO.
SDRA: primeiro proteger o pulmão; depois escalar. Peso predito, pressão de platô, PEEP, prona e avaliação precoce de refratariedade formam uma sequência, não medidas isoladas.

A faixa-alvo: 94 a 98% para quase todo mundo, 88 a 92% para quem retém CO2

O documento britânico organiza a oxigenoterapia em torno de uma ideia simples: oxigênio se prescreve por faixa-alvo de saturação, e não por litros. Para o adulto agudamente doente sem risco de falência hipercápnica, a faixa é 94 a 98%. Para quem tem risco de reter CO2, a faixa é 88 a 92% enquanto a gasometria não chega.

Quem entra na faixa mais baixa: DPOC conhecida, obesidade mórbida, fibrose cística, deformidade de caixa torácica, doença neuromuscular e bronquiectasia com obstrução fixa ao fluxo aéreo. A recomendação tem grau A para a DPOC e grau D para as demais — ou seja, para o DPOC isso é evidência de ensaio, para os outros é fisiologia e bom senso.

A exceção importa tanto quanto a regra. No doente crítico — trauma grave, sepse, choque, anafilaxia, pós-parada — o início é máscara com reservatório em alto fluxo mirando 94 a 98%, e isso vale também para quem tem fator de risco para hipercapnia, até que a gasometria volte. Segurar oxigênio de um DPOC em choque mata antes que a hipercapnia apareça.

E há uma faixa brasileira mais estreita, para outro paciente: AMIB e SBPT, no documento de 2024, orientam ajustar PEEP e FiO2 mirando SpO2 de 92 a 96% no paciente sob suporte ventilatório, em todas as categorias de gravidade da SDRA. Não é contradição com os 94 a 98% — é outra população e outro momento, e o bloco de divergências detalha como o enunciado revela qual dos dois está em jogo.

Uma última frase que o documento britânico repete e que resolve muita questão: oxigênio é tratamento para hipoxemia, não para dispneia. O paciente dispneico sem hipoxemia não melhora com oxigênio.

Baixo fluxo estima, alto fluxo entrega

Cateter nasal, máscara facial simples e máscara com reservatório são dispositivos de baixo fluxo. Eles ofertam uma quantidade fixa de oxigênio por minuto, e o paciente completa cada inspiração puxando ar ambiente pelas bordas. A fração que ele de fato inspira depende de quanto e de quão rápido ele respira: os mesmos 3 L/min entregam frações diferentes num paciente tranquilo e num paciente a 35 incursões por minuto. A tabela do protocolo do SAMU 192 traduz isso em estimativa — cerca de quatro pontos percentuais acima dos 21% do ar por litro ofertado, do 21 a 24% em 1 L/min até 41 a 44% em 6 L/min.

A máscara de Venturi é a exceção da série. O jato de oxigênio arrasta uma proporção fixa de ar ambiente pelas janelas do diluidor, e é o diluidor que define a fração — não o fluxômetro. Aumentar o fluxo numa Venturi não aumenta a concentração entregue; o fluxo maior serve para acompanhar o paciente que respira rápido, e o documento britânico manda elevá-lo acima do mínimo impresso quando a frequência respiratória passa de 30. É o dispositivo de quem precisa de dose controlada, e por isso o protocolo do SAMU o indica justamente na hipoxemia sugestiva de DPOC.

Duas armadilhas de material fecham a seção. Máscara facial simples abaixo de 5 L/min reinala CO2 dentro da própria máscara — se o paciente precisa de pouco oxigênio, o dispositivo certo é o cateter nasal, não a máscara com o fluxômetro baixo. E a máscara com reservatório só entrega alta concentração enquanto a bolsa permanece insuflada, o que exige fluxo alto: com fluxo baixo, o reservatório colaba e a máscara vira uma máscara simples cara.

Quatro dispositivos de oxigenoterapia lado a lado: cateter nasal tipo óculos, máscara facial simples, máscara não reinalante com reservatório insuflado e máscara de Venturi com o diluidor acoplado.
Os três primeiros são de baixo fluxo: o paciente completa cada inspiração com ar ambiente e a fração resultante varia com o padrão respiratório. A Venturi é a única da série que entrega uma fração fixa, definida pelo diluidor e não pelo fluxômetro.

Por que o oxigênio em excesso faz o DPOC reter CO2

A explicação que a maioria dos livros carrega — perda do estímulo hipóxico — não é a principal. O documento britânico lista seis mecanismos em ordem de importância e coloca em primeiro lugar a piora da relação ventilação-perfusão: a fração inspirada alta reverte a vasoconstrição pulmonar hipóxica, e o sangue que estava sendo desviado de unidades mal ventiladas volta a perfundi-las. Essas unidades oxigenam razoavelmente, mas continuam mal ventiladas e com PACO2 alta, e o CO2 sobe.

O estímulo respiratório vem em segundo, e é pequeno: acima de uma PaO2 de 60 mmHg a ventilação praticamente não se reduz mais, e acima de 100 mmHg o estímulo carotídeo já está atenuado — só que a PaCO2 continua subindo. Em terceiro vem o efeito Haldane, porque a hemoglobina oxigenada carrega menos CO2. Em quarto, a atelectasia de absorção, que começa a aparecer já com frações de 30 a 50%.

Duas condutas saem daí. A primeira é encarar a máscara com reservatório a 12 L/min num DPOC agudizado como um ato terapêutico com dose, e não como um gesto neutro de acolhimento. A segunda é o que fazer quando a hipercapnia já se instalou por excesso de oxigênio: reduzir até o mínimo que sustente 88 a 92% — máscara de Venturi de 24 ou 28%, ou cateter nasal a 1 a 2 L/min — e nunca desligar de uma vez. A retirada abrupta provoca hipoxemia de rebote que derruba a saturação abaixo de onde ela estava antes de o oxigênio começar.

Cânula nasal de alto fluxo: o degrau que existe entre a máscara e a VNI

A cânula nasal de alto fluxo entrega gás aquecido e umidificado por prongas nasais largas, com fluxo que chega a 60 L/min e fração ajustável de 21 a 100%. Três efeitos explicam o ganho: como o fluxo ofertado supera o fluxo inspiratório do paciente, a fração entregue é de fato a fração ajustada; o fluxo alto lava o CO2 do espaço morto das vias aéreas superiores; e o sistema gera pressão positiva modesta — cerca de 7 cmH2O a 50 L/min em voluntários, segundo o documento britânico.

AMIB e SBPT, em 2024, colocam a cânula de alto fluxo como possível primeira opção de suporte respiratório na hipoxemia leve a moderada com estabilidade hemodinâmica, e também após a extubação, isolada ou associada à VNI, em pacientes de alto risco de reintubação. É a posição mais atual entre as fontes brasileiras.

Falta o contexto de rede. A cânula de alto fluxo exige blender, umidificador aquecido e circuito próprio; a máscara com reservatório existe em qualquer sala de emergência do país, e a de alto fluxo não. Quando a vinheta se passa numa UPA, numa unidade básica ou dentro de uma ambulância, a escada que existe de verdade vai do cateter à máscara e da máscara à VNI.

VNI: onde a recomendação é forte, e onde ela mata pelo atraso

Duas indicações têm recomendação forte nas Recomendações brasileiras de 2013, com número. Na DPOC agudizada, a VNI reduz a necessidade de intubação com risco relativo de 0,41 e a mortalidade com risco relativo de 0,52. No edema agudo de pulmão cardiogênico, reduz a intubação com risco relativo de 0,53 e a mortalidade hospitalar com risco relativo de 0,60, aplicada como CPAP de 5 a 10 cmH2O ou como dois níveis de pressão com EPAP de 5 a 10 e IPAP até 15 cmH2O. Fora desse par, o texto brasileiro trabalha com sugestões: crise asmática moderada e acentuada, pneumonia adquirida na comunidade grave com insuficiência hipoxêmica sobretudo no portador de DPOC, e SDRA leve.

As contraindicações absolutas são duas: necessidade de intubação de emergência e parada cardíaca ou respiratória. As relativas são incapacidade de cooperar ou de proteger a via aérea, secreções abundantes, rebaixamento do nível de consciência — com exceção explícita da acidose hipercápnica da DPOC —, falências orgânicas não respiratórias com instabilidade, cirurgia facial ou neurológica, trauma ou deformidade facial, alto risco de aspiração, obstrução de via aérea superior e anastomose esofágica recente.

A janela é curta e objetiva. A VNI é monitorada à beira do leito por 0,5 a 2 horas, e sucesso significa queda da frequência respiratória, aumento do volume corrente, melhora do nível de consciência, redução do uso de musculatura acessória, aumento da PaO2 ou da SpO2 e queda da PaCO2 sem distensão abdominal significativa. Espera-se sucesso em cerca de 75% dos hipercápnicos e em torno de 50% dos hipoxêmicos — metade, no segundo grupo, vai precisar de tubo de qualquer forma.

Há um lugar em que o texto brasileiro recomenda evitar a VNI: como resgate depois que a insuficiência respiratória pós-extubação já se instalou. Imediatamente após a extubação, em paciente de risco, ela é recomendada de forma profilática; depois que o quadro se instalou, o uso curativo apenas atrasa a reintubação.

Quando intubar

Não existe um número único. O gatilho mais confiável é o relógio combinado com a resposta: pacientes que deterioram ou que não melhoram dentro da janela de 0,5 a 2 horas devem ser intubados imediatamente, pelo risco de perda da proteção da via aérea inferior e de parada respiratória. Adiar depois disso é a decisão que os dois documentos brasileiros mais insistem em desencorajar.

Somam-se as situações em que a VNI está contraindicada de partida: necessidade de intubação de emergência, parada, instabilidade hemodinâmica, incapacidade de proteger a via aérea. Sobre o rebaixamento de consciência, o grupo brasileiro de 2024 precisou votar se manteria uma pontuação igual ou menor que 8 na escala de coma de Glasgow como consideração para intubar, e 65% ficaram a favor de manter esse ponto de corte — a votação apertada é a própria mensagem de que se trata de um limiar de preocupação, não de uma ordem automática.

E há os sinais de exaustão, que não aparecem em nenhuma tabela de gasometria: movimento paradoxal toracoabdominal, silêncio num tórax que sibilava, bradipneia em quem estava taquipneico, sudorese e queda do nível de consciência. Quando esses aparecem, a gasometria confirma o que o exame já disse — e ela não precisa voltar para a decisão ser tomada.

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A escada do suporte respiratório: do cateter ao tubo

A sequência abaixo vale para o adulto com insuficiência respiratória aguda de qualquer causa, enquanto o tratamento específico da doença de base corre em paralelo. Cada degrau tem um alvo e um prazo de reavaliação; o erro que mais custa não é escolher o degrau errado, é ficar parado num degrau que já falhou.

  1. 1Meça a saturação e defina a faixa-alvo antes de abrir o fluxômetro: 94 a 98% para o adulto agudamente doente, 88 a 92% para quem tem risco de falência hipercápnica (DPOC, obesidade mórbida, fibrose cística, deformidade torácica, doença neuromuscular, bronquiectasia com obstrução fixa).
  2. 2Doente crítico — trauma grave, sepse, choque, anafilaxia, pós-parada — começa com máscara com reservatório em alto fluxo mirando 94 a 98%, inclusive se for retentor de CO2; a gasometria corrige o alvo depois.
  3. 3Nos demais, comece pelo cateter nasal e suba o fluxo até alcançar a faixa. Se não alcançar, troque de dispositivo em vez de forçar o fluxo; se a saturação estiver abaixo de 85%, comece já pela máscara com reservatório e reduza depois.
  4. 4Colha gasometria arterial: é o único jeito de separar o tipo 1 do tipo 2 e de enxergar a acidose respiratória, que a oximetria não mostra.
  5. 5PaCO2 acima de 45 mmHg com pH abaixo de 7,35 que persiste após o tratamento medicamentoso padrão: ventilação não invasiva. Hipoxemia sem hipercapnia que não cede na máscara: cânula nasal de alto fluxo ou VNI, conforme o que o serviço tem.
  6. 6Reavalie em 0,5 a 2 horas pelos critérios objetivos — frequência respiratória, volume corrente, consciência, musculatura acessória, PaO2 e PaCO2. Melhorou, siga e reavalie de novo; não melhorou ou piorou, intube.

Oxigênio de baixo fluxo

Cateter nasal, máscara simples ou máscara com reservatório. Ofertam oxigênio; quem completa a inspiração é o ar ambiente. Corrigem hipoxemia por distúrbio de ventilação-perfusão e por hipoventilação, não corrigem shunt e não removem CO2.

Cânula nasal de alto fluxo

Gás aquecido e umidificado até 60 L/min, fração ajustável de 21 a 100%. O fluxo supera o inspiratório do paciente, lava o CO2 do espaço morto e gera pressão positiva modesta. Primeira opção sugerida por AMIB e SBPT na hipoxemia leve a moderada com estabilidade hemodinâmica.

Ventilação não invasiva

Pressão inspiratória para ventilar e pressão expiratória para manter alvéolo aberto, por interface facial. Recomendação forte na DPOC agudizada e no edema agudo de pulmão cardiogênico. Reavaliação obrigatória em 0,5 a 2 horas.

Ventilação invasiva

Via aérea definitiva quando a VNI está contraindicada, quando o paciente deteriora ou não melhora na janela, quando perde a proteção da via aérea ou quando há instabilidade hemodinâmica. O risco não é intubar, é intubar tarde.

DispositivoFluxoFiO2Para quem
Cateter nasal tipo óculos1 a 6 L/min21 a 44% (estimada; cerca de 4 pontos por litro)Desconforto leve, paciente consciente, necessidade de baixo fluxo; também é o dispositivo do retentor de CO2 a 1 a 2 L/min
Máscara facial simples5 a 10 L/min40 a 60% (estimada)Insuficiência tipo 1 sem risco de hipercapnia; nunca abaixo de 5 L/min, sob risco de reinalação de CO2
Máscara facial não reinalante com reservatório10 a 15 L/min60 a 100% (estimada; ver nota)Doente crítico, saturação abaixo de 85%, enquanto a gasometria não chega — inclusive no retentor de CO2 em choque
Máscara de Venturi4 a 12 L/min conforme o diluidor24 a 50% (fixa, definida pelo diluidor)Hipoxemia que exige dose controlada, tipicamente DPOC; único dispositivo de baixo fluxo com fração conhecida
Cânula nasal de alto fluxoaté 60 L/min21 a 100% (ajustada e entregue)Hipoxemia leve a moderada com estabilidade hemodinâmica; pós-extubação em alto risco de reintubação

Cateter nasal: fluxo e FiO2 estimada (protocolo AP14, SAMU 192)

FluxoFiO2 estimada
1 L/min21 a 24%
2 L/min25 a 28%
3 L/min29 a 32%
4 L/min33 a 36%
5 L/min37 a 40%
6 L/min41 a 44%

Máscara de Venturi: diluidor, concentração e fluxo (protocolo AP16, SAMU 192)

DiluidorConcentração de oxigênioFluxo
Azul24%4 L/min
Amarelo28%4 L/min
Branco31%6 L/min
Verde35%8 L/min
Vermelho40%8 L/min
Laranja50%12 L/min

Ventilação não invasiva: força da orientação brasileira por cenário

CenárioOrientação (AMIB/SBPT)O que sustenta
Exacerbação aguda da DPOCRecomendaçãoRisco relativo de intubação 0,41 e de mortalidade 0,52
Edema agudo de pulmão cardiogênicoRecomendaçãoRisco relativo de intubação 0,53 e de mortalidade hospitalar 0,60; CPAP 5 a 10 cmH2O ou EPAP 5 a 10 com IPAP até 15
Profilaxia imediata pós-extubação em paciente de riscoRecomendaçãoEvita insuficiência respiratória aguda e reintubação
Crise asmática moderada a acentuadaSugestãoMelhora da obstrução ao fluxo e do esforço respiratório, junto do tratamento medicamentoso
Pneumonia adquirida na comunidade grave com hipoxemiaSugestãoSobretudo no portador de DPOC, com meta de sucesso em 0,5 a 2 horas
SDRA leve a moderadaConsideração (2024)Em locais selecionados e com monitoramento rigoroso, para não atrasar a intubação
Resgate da insuficiência respiratória pós-extubação já instaladaRecomendação de evitarO uso curativo nessa situação atrasa a reintubação

O protocolo AP15 do SAMU 192 traz, na mesma página, dois fluxos diferentes para a máscara com reservatório: o passo do procedimento manda regular entre 6 e 10 L/min, e a tabela logo abaixo vai de 6 a 15 L/min, atribuindo 95 a 100% à faixa de 10 a 15. O valor que fecha com a própria tabela do documento — e com a exigência física de manter o reservatório insuflado — é 10 a 15 L/min. Abaixo disso a bolsa colaba e a máscara deixa de entregar alta concentração.

A estimativa de FiO2 da máscara com reservatório também difere entre as fontes: 60 a 90% a 15 L/min no documento britânico, 95 a 100% a 10 a 15 L/min no protocolo do Ministério. A causa é vedação: nenhuma máscara facial é estanque, e o ar que o paciente puxa pelas bordas dilui o que vem do reservatório. Por isso a coluna da tabela principal traz a faixa larga.

Aumentar o fluxo de oxigênio numa máscara de Venturi não aumenta a concentração entregue — quem fixa a fração é o diluidor. O fluxo maior serve para acompanhar quem respira rápido, e o documento britânico orienta elevá-lo acima do mínimo impresso na peça quando a frequência respiratória passa de 30.

O fluxo mínimo de cada diluidor Venturi vem impresso na própria peça e varia com o fabricante: o protocolo do SAMU pede 4 L/min no diluidor azul de 24%, enquanto o documento britânico trabalha com 2 a 3 L/min na mesma concentração. Vale o que está escrito no diluidor que está na mão.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A faixa-alvo de saturação no adulto agudamente doente

94 a 98%, com 88 a 92% para quem tem risco de hipercapnia — British Thoracic Society, 2017

Oxigênio é prescrito por faixa-alvo, e a faixa padrão do adulto agudamente doente é 94 a 98%. Só desce para 88 a 92% quem tem fator de risco para falência hipercápnica, e mesmo esses voltam para 94 a 98% se a gasometria mostrar PaCO2 normal e não houver história de ventilação prévia. O grau de evidência declarado é A para a DPOC e D para as demais condições.

BTS guideline for oxygen use in adults in healthcare and emergency settings. Thorax. 2017;72(Suppl 1):ii1-ii90.

92 a 96% no paciente sob suporte ventilatório — AMIB e SBPT, 2024

O ajuste de PEEP e FiO2 é individualizado mirando SpO2 de 92 a 96%, e a mesma faixa é sugerida para a SDRA em todas as categorias de gravidade e para o início do suporte respiratório na COVID-19. O teto de 96% incorpora o risco de hiperóxia no paciente crítico, que os ensaios de oxigênio conservador publicados depois de 2017 puseram em discussão.

Orientações práticas de ventilação mecânica baseadas em evidências: sugestões de duas sociedades médicas brasileiras. J Bras Pneumol. 2025;51(1):e20240255 (documento de 2024).

Na prova

Os dois documentos não falam do mesmo paciente nem do mesmo ano. Um prescreve oxigênio em enfermaria, emergência e pré-hospitalar; o outro ajusta ventilador em terapia intensiva, sete anos depois. O enunciado revela qual corpo está em jogo: se aparece oximetria de chegada, escolha de dispositivo e a expressão faixa-alvo, com um distrator de 88 a 92%, o cenário é o da prescrição de oxigênio; se aparecem PEEP, FiO2 em decimal, pressão de platô ou relação PaO2/FiO2 nas alternativas, o cenário é o do paciente sob suporte ventilatório. Vale a régua geral de que a prova oficial do MEC tende à conduta do SUS, e o vocabulário dos protocolos brasileiros aparece antes do vocabulário britânico nesses enunciados.

O limiar de PaO2/FiO2 que desaconselha a VNI na SDRA

Evitar abaixo de 140, somado a SAPS II acima de 35 — AMIB e SBPT, 2013

A recomendação é evitar VNI na SDRA grave pela alta taxa de falência respiratória e de necessidade de intubação, especialmente em pacientes com relação PaO2/FiO2 abaixo de 140 e SAPS II acima de 35. Na SDRA leve, a VNI é sugerida com meta de sucesso observada em 0,5 a 2 horas.

Recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013. Parte I. Rev Bras Ter Intensiva. 2014;26(2):89-121.

Não usar abaixo de 100 — AMIB e SBPT, 2024

A consideração passa a ser não usar VNI em casos graves de SDRA com PaO2/FiO2 abaixo de 100 mmHg, e a VNI pode ser realizada na SDRA leve a moderada em locais selecionados, com monitoramento clínico rigoroso da resposta para não atrasar a intubação em caso de falha. O escore de gravidade saiu do critério.

Orientações práticas de ventilação mecânica baseadas em evidências: sugestões de duas sociedades médicas brasileiras. J Bras Pneumol. 2025;51(1):e20240255 (documento de 2024).

Na prova

São as mesmas duas sociedades brasileiras com onze anos de diferença, e a zona entre 100 e 140 mudou de 'evitar' para 'possível sob vigilância estreita'. A causa é de data e de desenho: o critério de 2013 vinha de séries em que a falência da VNI se concentrava nos mais graves por dois eixos (troca gasosa e escore), e o texto de 2024 ficou só com a troca gasosa, depois da experiência acumulada na pandemia. Um enunciado que cita as Recomendações de 2013, que fornece SAPS II ou que fala em SDRA grave sem mencionar cânula de alto fluxo trabalha no corpo antigo; um que oferece cânula nasal de alto fluxo entre as alternativas, ou que se localiza depois de 2020, trabalha no corpo novo.

Quando começar oxigênio na exacerbação da DPOC, e com qual alvo

Somente se SpO2 abaixo de 90%, a 1 a 3 L/min, com cautela — Ministério da Saúde, protocolo AC23 do SAMU 192, 2016

O protocolo de exacerbação da DPOC no adulto manda corrigir a hipoxemia oferecendo oxigênio suplementar com cautela se a saturação estiver abaixo de 90%, a 1 a 3 L/min, junto do broncodilatador. É um número único de gatilho, executável por uma equipe sem gasometria dentro de uma ambulância.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2. ed. Brasília, 2016 (protocolo AC23).

Faixa-alvo de 88 a 92%, começando por Venturi de 24 ou 28% — British Thoracic Society, 2017

Antes da gasometria, usar Venturi de 24% a 2 a 3 L/min, ou de 28% a 4 L/min, ou cateter nasal a 1 a 2 L/min, mirando 88 a 92%; reduzir se a saturação passar de 92% e aumentar se cair abaixo de 88%. A faixa se ajusta para 94 a 98% se a gasometria mostrar PaCO2 normal e não houver história de ventilação prévia.

BTS guideline for oxygen use in adults in healthcare and emergency settings. Thorax. 2017;72(Suppl 1):ii1-ii90.

Na prova

A divergência é de desenho e de cenário da ferramenta, não de evidência: os 90% do protocolo brasileiro caem dentro da faixa britânica, e na prática os dois quase se encontram. Só que um limiar e uma faixa se comportam de modo diferente no paciente que chega já com saturação de 97% em oxigênio: a faixa manda reduzir, o limiar não diz nada. Pista no enunciado: cena pré-hospitalar ou de UPA, alternativas em litros por minuto e vocabulário de protocolo do SAMU indicam o corpo brasileiro; gasometria arterial no enunciado, alternativas em porcentagem de Venturi e a expressão faixa-alvo indicam o corpo britânico. O próprio documento do SAMU tem uma folga interna aqui: o protocolo de procedimento da máscara de Venturi usa saturação de 94% como gatilho genérico, enquanto o protocolo clínico específico da DPOC usa 90% — em vinheta de DPOC, o específico é o que governa.

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Caso resolvido

Homem de 68 anos, DPOC, tabagista de 50 anos-maço, levado à emergência pela família por piora da dispneia e escarro purulento há três dias. Chegou de ambulância com máscara facial não reinalante a 12 L/min. Está sonolento, responde ao chamado, FR 22, FC 104, PA 148x86 mmHg, SpO2 99%. Gasometria arterial na chegada: pH 7,21, PaCO2 82 mmHg, PaO2 128 mmHg, HCO3 32 mEq/L.
achado
Saturação de 99% em máscara com reservatório num paciente com DPOC. A oximetria está ótima e é exatamente esse o problema: a faixa-alvo desse paciente é 88 a 92%, e ele está muito acima dela.
leitura da gasometria
pH 7,21 com PaCO2 82 e bicarbonato 32: acidose respiratória aguda sobreposta a retenção crônica. O bicarbonato alto mostra a compensação renal construída ao longo de meses; o pH baixo mostra que o CO2 subiu rápido demais para essa compensação acompanhar. É insuficiência respiratória tipo 2 agudizada.
mecanismo
A fração inspirada alta reverteu a vasoconstrição pulmonar hipóxica e devolveu perfusão a unidades mal ventiladas: elas oxigenam bem e não lavam CO2. Esse é o mecanismo que o documento britânico coloca em primeiro lugar, acima da queda do estímulo respiratório — que existe, mas contribui pouco.
conduta com o oxigênio
Reduzir até o mínimo que sustente 88 a 92%: máscara de Venturi de 24 ou 28%, ou cateter nasal a 1 a 2 L/min. Nunca desligar de uma vez — a retirada abrupta provoca hipoxemia de rebote que derruba a saturação abaixo do valor de partida.
conduta ventilatória
Broncodilatador e corticoide, e ventilação não invasiva com dois níveis de pressão, porque a acidose respiratória persiste. O rebaixamento por acidose hipercápnica na DPOC é a exceção explícita da lista de contraindicações relativas: ele não impede a VNI.
janela
Reavaliar entre 0,5 e 2 horas. Queda da frequência respiratória, melhora do nível de consciência e queda da PaCO2 sem distensão abdominal indicam sucesso, esperado em cerca de 75% dos hipercápnicos. Se a consciência não melhorar nesse intervalo, intubar.
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Agora feche você

Mulher de 54 anos, sem comorbidades, no quarto dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade em enfermaria. Piora da dispneia nas últimas seis horas. FR 32, FC 118, PA 112x70 mmHg, SpO2 88% em cateter nasal a 5 L/min, uso de musculatura acessória, consciente, cooperativa, tossindo com força. Trocada para máscara de Venturi a 50%, a gasometria mostra pH 7,46, PaCO2 30 mmHg, PaO2 78 mmHg. Radiografia com opacidades em dois lobos.
achado
Hipoxemia com hipocapnia e alcalose respiratória: insuficiência tipo 1 pura, com a paciente hiperventilando para compensar. Nada aqui sugere falência da bomba ventilatória.
por que a gasometria foi colhida na Venturi
Porque o cateter nasal não entrega fração conhecida, e nenhum cálculo que dependa do denominador se sustenta com ele. Na Venturi a fração é fixada pelo diluidor: PaO2 de 78 sobre FiO2 de 0,5 dá relação PaO2/FiO2 de 156.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Explicar a retenção de CO2 pela perda do estímulo hipóxico É a explicação que os livros repetem desde os anos 1960 e não é a principal. O documento britânico ordena seis mecanismos e põe a piora da relação ventilação-perfusão em primeiro lugar; o estímulo respiratório vem em segundo e contribui pouco, porque acima de PaO2 de 60 mmHg a ventilação praticamente não se reduz mais e a PaCO2 continua subindo. A frase atrai porque é curta e memorável, e tem consequência: quem acredita nela imagina que desligar o oxigênio resolve, e a retirada abrupta causa hipoxemia de rebote.
  2. 2Calcular a relação PaO2/FiO2 com o paciente em cateter nasal A fração entregue por um dispositivo de baixo fluxo não é previsível — depende do volume e da velocidade com que o paciente respira. O documento britânico afirma que ela não pode ser usada onde um cálculo dependa dela. As tabelas que convertem litros por minuto em porcentagem existem para orientar a prescrição, não para servir de denominador de classificação de gravidade.
  3. 3Aumentar o fluxo da máscara de Venturi para dar mais oxigênio O diluidor é quem fixa a fração; o fluxômetro só garante que o jato arraste ar suficiente. Subir o fluxo numa Venturi de 28% não a transforma numa de 40%. Quando o paciente respira acima de 30 incursões por minuto, o fluxo sobe acima do mínimo impresso — para acompanhar a demanda inspiratória, não para elevar a concentração.
  4. 4Ler PaCO2 normal na crise asmática grave como sinal de melhora O asmático em crise hiperventila e deveria estar hipocápnico. PaCO2 dentro da faixa de referência no meio de uma crise grave significa que ele parou de conseguir hiperventilar: é fadiga da musculatura respiratória, não resolução. Atrai porque o número está normal e o candidato lê normalidade como estabilidade.
  5. 5Dar oxigênio para dispneia sem hipoxemia Oxigênio é tratamento para hipoxemia, e não há efeito consistente sobre a sensação de falta de ar em quem não está hipoxêmico. Instalar cateter em quem tem saturação de 97% acalma a equipe, não trata o paciente, e adia a procura da causa da dispneia — que pode ser acidose metabólica, anemia, ansiedade ou embolia.
  6. 6Confiar na oximetria na intoxicação por monóxido de carbono A carboxi-hemoglobina é lida pelo oxímetro como hemoglobina saturada, e o aparelho mostra um número aparentemente normal enquanto o transporte de oxigênio está comprometido. A orientação britânica é mirar 100% com máscara com reservatório a 15 L/min, independentemente do que o oxímetro e a PaO2 mostrem.
  7. 7Segurar oxigênio do retentor de CO2 que chegou em choque É o erro espelhado do primeiro. No doente crítico — trauma grave, sepse, choque, anafilaxia, pós-parada — o alvo inicial é 94 a 98% com máscara com reservatório em alto fluxo, inclusive para quem tem fator de risco para hipercapnia, até a gasometria voltar. A hipóxia tecidual mata em minutos; a hipercapnia induzida por oxigênio leva mais tempo e é reversível reduzindo a dose.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é SDRA moderada (PaO2/FiO2 140, infiltrados bilaterais, sem origem cardiogênica). A ventilação protetora (volume corrente 6 mL/kg de peso predito, platô ≤ 30 cmH2O), tolerando hipercapnia permissiva, é a estratégia com redução comprovada de mortalidade (ARDSNet). Volume corrente alto (10-12 mL/kg) causa lesão induzida pela ventilação e aumenta mortalidade. FiO2 100% contínua gera toxicidade pelo oxigênio e não é meta. PEEP zero piora o colapso alveolar — a SDRA requer PEEP adequada. Hiperventilação com PaCO2 < 30 aumenta pressões e não é protetora.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reproduza sem consultar: os dois pares de números que definem cada tipo de insuficiência (PaO2 abaixo de 60 mmHg; PaCO2 acima de 45 mmHg com pH abaixo de 7,35), as duas faixas-alvo de saturação e quem tem direito à mais baixa, e a linha de fluxo e FiO2 dos cinco dispositivos da tabela principal.

em 30 dias

Pegue três gasometrias quaisquer e, para cada uma, responda em voz alta na ordem: é tipo 1 ou tipo 2; o bicarbonato diz agudo ou crônico agudizado; qual a faixa-alvo desse paciente; qual dispositivo entra; em quanto tempo você reavalia e por quais critérios. Depois releia só o bloco de divergências e diga, para cada uma, que pista no enunciado revelaria o recorte do avaliador.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 71 anos, DPOC em uso domiciliar de oxigênio, chega à emergência trazido da unidade básica com máscara facial não reinalante a 12 L/min por dispneia há dois dias. Está sonolento, responde à voz, SpO2 100%, FR 20, ausculta com sibilos difusos e murmúrio vesicular reduzido. A família conta que ele estava bem melhor da falta de ar depois que puseram a máscara. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Insuficiência respiratória aguda e oxigenoterapia — Preparatório para provas | OsceLabs