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Clínica MédicaPneumologia

Tromboembolismo pulmonar

A prova não pergunta o diagnóstico — pergunta a ordem. Antes de confirmar, quem manda é a probabilidade pré-teste; depois de confirmar, quem manda é a classe de risco. E as duas réguas nacionais são de sociedade: não há PCDT do Ministério da Saúde para o TEP.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 58 anos, em pós-operatório de artroplastia de quadril, apresenta dispneia súbita e dor pleurítica. PA 96x60 mmHg, FC 122 bpm, FR 32 ipm, SatO2 88% em ar ambiente. O ECG mostra taquicardia sinusal, padrão S1Q3T3 e inversão de onda T em V1-V3. A angiotomografia confirma tromboembolismo pulmonar com sinais de disfunção de ventrículo direito, porém a paciente mantém pressão arterial acima de 90 mmHg. Como se classifica o risco e qual a conduta inicial mais adequada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo é sobre o pulmão. A perna que inchou — escore de Wells para trombose venosa profunda, ultrassom com compressão, dose de enoxaparina, tempo de tratamento por cenário — tem endereço próprio, no capítulo de Trombose venosa profunda; a prevenção do evento, com Caprini, Pádua e intervalo para o neuroeixo, está no capítulo de Profilaxia de tromboembolismo venoso. Aqui a pergunta é a dispneia súbita: como confirmar, como graduar a gravidade e o que a gravidade autoriza.

A prova quase nunca pergunta o diagnóstico. Pergunta a ordem. E a ordem tem dois eixos que não se misturam. Antes de confirmar, o eixo é a probabilidade pré-teste: ela decide se o paciente merece D-dímero ou imagem, e o mesmo resultado de D-dímero significa coisas opostas em faixas diferentes. Depois de confirmar, o eixo muda: passa a ser a classe de risco de morte precoce, montada com escore clínico, imagem do ventrículo direito e troponina — e é ela, não o tamanho do trombo na tomografia, que separa quem só anticoagula de quem recebe trombolítico.

As réguas nacionais são duas, e nenhuma delas é do Ministério da Saúde. O tratamento tem diretriz própria da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, publicada em 2025 com metodologia grade, e é ela quem diz o que se recomenda e com que força. O diagnóstico por imagem tem a Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022, assinada em conjunto pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e pela Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear. A própria diretriz de 2025 registra o vazio: não há protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde para o manejo do tromboembolismo pulmonar, e a incorporação dos anticoagulantes orais diretos no sistema público acontece de forma heterogênea, secretaria estadual por secretaria estadual. Quando a banca escreve 'segundo as diretrizes brasileiras', é de documento de sociedade que ela está falando.

O tamanho do problema no Brasil está no sistema de informações hospitalares. Entre 2008 e 2019, a taxa de internação por tromboembolismo pulmonar subiu de 2,57 para 4,44 por 100 mil habitantes — cerca de 1,7 vez, com variação percentual média anual de 5,6% —, enquanto a letalidade hospitalar caiu de 21,21% para 17,11%. Dezoito unidades da federação tiveram aumento na taxa de internação, o que o estudo registra como 66,67% — fração que só fecha com 27 unidades, isto é, contando o Distrito Federal; sete (25,93%) tiveram queda na letalidade. Internar mais e matar menos é exatamente o que se espera quando o diagnóstico melhora: casos menos graves, que antes passavam despercebidos, entram na conta.

03

O que muda decisão

O quadro clínico não fecha nem afasta nada

Dispneia, dor torácica, hemoptise, síncope, pré-síncope: os sinais do tromboembolismo pulmonar são inespecíficos, e a diretriz brasileira de 2022 acrescenta que o quadro pode ser assintomático e descoberto por acaso. Não existe achado isolado que confirme ou exclua o diagnóstico — e é dessa inutilidade do exame clínico isolado que nasce todo o algoritmo.

Dois números orientam a leitura da vinheta. A síncope aparece em cerca de 17% dos casos e se associa a alta prevalência de instabilidade hemodinâmica e falência de ventrículo direito: síncope no enunciado é sinal de gravidade, não de diagnóstico. E a instabilidade hemodinâmica em si é infrequente — quando existe, indica comprometimento maciço da circulação pulmonar.

O tromboembolismo venoso é a terceira síndrome cardiovascular aguda em prevalência, atrás do infarto agudo do miocárdio e do acidente vascular encefálico, com incidência de tromboembolismo pulmonar entre 38 e 99 casos por 100 mil pessoas ao ano. É comum o bastante para estar em qualquer diferencial de dispneia aguda, e grave o bastante para que o erro de não pensar nele custe caro.

A consequência prática é uma só, e organiza tudo o que vem depois: some um modelo de predição antes de pedir qualquer exame. O que muda de acordo com a probabilidade pré-teste não é o exame — é o significado do resultado dele.

Wells e Genebra: a conta que decide qual exame o paciente merece

O modelo de Wells para tromboembolismo pulmonar tem sete itens, e os pesos não são iguais. Valem 3 pontos os sinais clínicos de trombose venosa profunda e o julgamento de que um diagnóstico alternativo é menos provável que o tromboembolismo. Valem 1,5 ponto a frequência cardíaca acima de 100 bpm, a imobilização ou cirurgia recente e o antecedente de tromboembolismo pulmonar ou trombose venosa profunda. Valem 1 ponto a hemoptise e o câncer. O teto é 12,5 pontos. O corte que a diretriz brasileira reproduz é dicotômico: acima de 4 pontos, tromboembolismo provável; 4 pontos ou menos, improvável.

Repare em quem manda no escore. Os dois itens de maior peso são justamente os dois mais dependentes de julgamento — reconhecer sinais clínicos de trombose na perna e decidir se um diagnóstico alternativo é menos provável. Juntos valem 6 dos 12,5 pontos possíveis, quase metade do teto, e nenhum deles se mede com aparelho. Uma pneumonia bem descrita no enunciado, com febre, tosse produtiva e consolidação na radiografia, tira 3 pontos do paciente sem que nenhum dado objetivo tenha mudado.

O modelo de Genebra revisado existe para fugir dessa subjetividade: todos os seus itens são objetivos, colhidos da história e do exame. Na versão original ele soma até 22 pontos, com pesos que vão de 1 (idade acima de 65 anos) a 5 (frequência cardíaca de 95 bpm ou mais). Na versão simplificada, cada item vale 1 ponto, exceto a frequência de 95 bpm ou mais, que vale 2 — teto de 9 pontos. E ele traz explicitamente as duas leituras: em três níveis (baixo, intermediário, alto) e em dois níveis (improvável, provável).

A troca tem preço. Numa metanálise de 11 estudos reproduzida pela diretriz brasileira, o escore de Wells teve sensibilidade de 63,8% a 79,3% e especificidade de 48,8% a 90%, com área sob a curva de 0,778; o de Genebra teve sensibilidade de 55,3% a 73,6% e especificidade de 48,8% a 90,0%, com área sob a curva de 0,693. Objetividade custou desempenho. Nenhum dos dois chega perto de dispensar exame — e não é essa a função deles: a função é dizer qual exame vem primeiro.

PERC: os oito critérios que evitam até o D-dímero

Há um degrau antes do D-dímero, e ele cai em prova como alternativa aparentemente ousada. Em 2004, Kline e colaboradores propuseram uma regra de bloco com oito variáveis binárias, os critérios de exclusão de tromboembolismo pulmonar (PERC): idade abaixo de 50 anos, pulso abaixo de 100 bpm, saturação arterial de oxigênio acima de 94%, ausência de edema unilateral de membro inferior, ausência de hemoptise, ausência de trauma ou cirurgia recentes, ausência de tromboembolismo pulmonar ou trombose venosa profunda prévios e ausência de uso de estrogênio exógeno.

PERC-negativo significa cumprir os oito. E aí está a armadilha: o paciente PERC-negativo não faz D-dímero. A lógica é aritmética — abaixo de uma probabilidade pré-teste de cerca de 1,8%, um D-dímero positivo obrigaria a uma angiotomografia cujo balanço entre benefício e risco já é desfavorável. Pedir o exame é criar o problema que ele deveria resolver.

A regra tem uma condição de uso que a banca costuma omitir de propósito: ela foi aplicada a pacientes já julgados de baixa probabilidade clínica, definida no estudo original como menos de 15% pela impressão clínica empírica. PERC não substitui o escore — ele vem depois do escore, e só na faixa baixa. Aplicar PERC a quem tem Wells alto é usar a régua errada.

O NICE formula a mesma condição em uma frase: se a suspeita clínica de tromboembolismo pulmonar for baixa com base na impressão clínica geral — história, exame físico e investigações iniciais como eletrocardiograma ou radiografia de tórax — e outros diagnósticos forem plausíveis, considerar o uso dos critérios PERC para decidir se alguma investigação adicional é necessária (recomendação 1.1.16). Repare que a porta de entrada é a impressão clínica do médico, e não um ponto de corte numérico.

A diretriz brasileira de 2022 coloca a regra ao lado das outras duas na sua recomendação de maior força: a indicação dos métodos de imagem deve se basear na condição hemodinâmica e na probabilidade pré-teste, com aplicação de regras validadas — Wells, Genebra, PERC — associadas ao D-dímero, com o objetivo de evitar o uso desnecessário dos métodos de imagem (classe I, nível de evidência A).

D-dímero: sensível, e nada específico

O ensaio quantitativo de D-dímero pelo método rápido de ELISA tem sensibilidade próxima de 95% e especificidade de 40%. É um teste de exclusão, e só. Ele sobe em infarto agudo do miocárdio, acidente vascular encefálico, inflamação, câncer ativo e gravidez — e a especificidade despenca com a idade, chegando a apenas 10% no idoso. Traduzindo: no paciente de 80 anos, nove em cada dez resultados positivos não são tromboembolismo.

Daí a correção formal que cai em prova. Acima dos 50 anos, o ponto de corte deixa de ser fixo e passa a ser a idade em anos multiplicada por 10, em microgramas por litro: 780 µg/L aos 78 anos. A diretriz brasileira registra que essa estratégia parece tão segura quanto o corte padrão para afastar o diagnóstico, e que ela foi incorporada como recomendação na diretriz europeia de 2019. O ajuste ganha especificidade sem perder sensibilidade — mas continua sendo um refinamento do corte de exclusão, e não uma licença para usar o exame em quem tem probabilidade alta.

O motivo de não pedir D-dímero na probabilidade alta tem duas metades, e a segunda é a que passa batido. A primeira: com prevalência alta na faixa, um resultado negativo não derruba o risco o suficiente para mandar o paciente para casa. A segunda: um resultado positivo também não muda nada, porque um D-dímero quantitativo positivo não modifica a probabilidade pré-teste e é clinicamente inútil isolado. Exame que não muda conduta em nenhum dos dois desfechos possíveis não se pede.

Do outro lado da régua, o D-dímero negativo em quem tem baixa probabilidade é uma alta segura: o risco de desenvolver tromboembolismo pulmonar em três meses, nesses pacientes não tratados, fica abaixo de 1%. É o único ponto do algoritmo em que a investigação termina sem nenhuma imagem.

Angiotomografia: o exame de escolha, e o que o laudo precisa dizer

A angiotomografia de artérias pulmonares é o método de imagem de escolha para o diagnóstico do tromboembolismo pulmonar agudo, e a diretriz brasileira grava duas regras de leitura com força máxima. O diagnóstico deve ser rejeitado em paciente com probabilidade baixa ou intermediária e angiotomografia negativa (classe I, nível A). E deve ser aceito em paciente com probabilidade intermediária ou alta e angiotomografia mostrando trombos em ramos segmentares ou proximais (classe I, nível B). Repare no que ficou de fora dessa segunda frase: o trombo subsegmentar isolado não está coberto por ela — e a própria diretriz lista o sobrediagnóstico de trombos subsegmentares, de significado clínico incerto, entre as desvantagens do método.

O desempenho que sustenta a escolha vem do estudo Pioped II, na leitura que a diretriz brasileira reproduz: associada à angiotomografia venosa de membros inferiores, a angiotomografia pulmonar teve valor preditivo positivo de 96% nos pacientes de alta probabilidade clínica e valor preditivo negativo de 97% nos de baixa probabilidade; na probabilidade intermediária, os dois valores foram de 92%. É a mesma lição de sempre, agora do lado da imagem: o mesmo exame significa coisas diferentes conforme a probabilidade que veio antes.

A tomografia entrega mais do que o trombo. Ela avalia aorta, parênquima, parede torácica e espaço pleural, e permite diagnósticos alternativos em até dois terços dos casos em que se suspeitou de tromboembolismo — dissecção de aorta, pneumotórax, pneumonia, câncer de pulmão. Esse é um argumento real a favor dela na sala de emergência, e não aparece em nenhuma tabela de sensibilidade.

Há um dado prognóstico dentro do exame diagnóstico, e ele é pergunta de prova. O aumento das cavidades direitas com relação entre ventrículo direito e ventrículo esquerdo maior que 1,0 associa-se a mortalidade ligada ao tromboembolismo agudo cinco vezes maior, e a diretriz brasileira o considera critério tomográfico de disfunção ventricular direita e marcador de pior prognóstico mesmo em pacientes clinicamente classificados como de baixo risco (classe IIa, nível B). Ou seja: o laudo da angiotomografia entra na estratificação de risco, não só no diagnóstico.

Duas fronteiras completam o quadro. A angiotomografia venosa dos membros inferiores não é recomendada, pela alta exposição à radiação ionizante, e deve ser substituída pela ultrassonografia vascular para avaliar trombose venosa profunda (classe III, nível B). E a angiorressonância só se justifica em centros de referência ou quando os outros métodos estão contraindicados: no estudo Pioped III, até 25% dos exames foram tecnicamente inadequados; considerados só os adequados, a sensibilidade foi de 78% e a especificidade de 99%; associada à angiorressonância venosa, a sensibilidade subiu para 92% com especificidade de 96%, mas a taxa de exames inadequados chegou a 52%.

Dois cortes axiais de angiotomografia: à esquerda, êmbolo em sela na bifurcação pulmonar; à direita, ventrículo direito maior que o esquerdo com septo interventricular retificado.
A mesma angiotomografia responde a duas perguntas em níveis diferentes: a falha de enchimento na bifurcação pulmonar faz o diagnóstico; a relação VD/VE maior que 1 e o septo retificado indicam sobrecarga ventricular direita e ajudam na estratificação de risco.

Cintilografia V/Q: onde ela ganha — e a briga dentro do documento nacional

A cintilografia pulmonar de ventilação e perfusão é a alternativa clássica, e o documento brasileiro reúne números que explicam por que ela não é apenas um plano B. Comparado à angiografia pulmonar, o estudo de perfusão isolado teve sensibilidade de 86% e especificidade de 93%; com os critérios Pisaped aplicados à população do Pioped II, a sensibilidade ponderada foi de 82% e a especificidade ponderada, de 96%. Na forma de SPECT, estudos com mais de 5 mil casos mostraram valor preditivo negativo de 97% a 99%, sensibilidade de 96% a 99% e especificidade de 96% a 98% — com menos de 3% de exames inconclusivos, a menor taxa entre os métodos.

A comparação direta entre as duas formas de aquisição é o argumento técnico central: numa mesma série, as imagens planas tiveram sensibilidade de 76% e especificidade de 85%, contra sensibilidade de 97% e especificidade de 91% do SPECT. E a leitura mudou de filosofia: a interpretação probabilística é considerada obsoleta, a interpretação deve ser holística e o critério fundamental para o diagnóstico é a presença de discordância entre ventilação e perfusão em mais de um subsegmento.

As vantagens que a diretriz lista para a cintilografia são práticas e brasileiras: baixa exposição à radiação, possibilidade de realização em gestantes, radiofármaco que não prejudica a função renal, alta acurácia, avaliação de tromboembolismo crônico e de resolução do quadro agudo — e o fato de ser procedimento coberto pelo SUS e pelo rol da ANS. A desvantagem também é brasileira: disponibilidade limitada, contra uma angiotomografia que roda 24 horas em regime de plantão.

É aqui que o documento nacional discorda de si mesmo. O capítulo de radiologia afirma que a angiotomografia é o método de escolha e que ela pode ser substituída pela cintilografia nos casos de alergia grave ao iodo, gestação ou insuficiência renal grave — isto é, cintilografia como exceção. O capítulo de medicina nuclear, no mesmo documento, conclui que a cintilografia V/Q é fortemente recomendada no diagnóstico, que não existem dados robustos sustentando a superioridade da angiotomografia, e que, quando as duas modalidades estiverem disponíveis, a cintilografia com aquisição SPECT deve ser recomendada. O bloco de divergências deste capítulo destrincha as duas posições e o que cada uma cobra na prova.

O paciente instável: o ecocardiograma à beira do leito vem antes

Quando há instabilidade hemodinâmica, o algoritmo inverte. O ecocardiograma deixa de ser dispensável e passa a ser obrigatório: em todos os pacientes com suspeita clínica de tromboembolismo pulmonar e instabilidade, ele é exame obrigatório, porque detecta com segurança as alterações de cavidades direitas que traduzem o aumento súbito e grave da pós-carga do ventrículo direito. E o exame normal, nesse cenário, elimina em definitivo a hipótese de embolia pulmonar maciça.

O fluxograma do documento nacional para o instável é curto e vale decorar. Ecocardiograma à beira do leito. Sem disfunção de ventrículo direito: investigar outras causas de hipotensão e choque. Com disfunção: se a angiotomografia ou a cintilografia estiverem imediatamente disponíveis, faz-se o exame e trata-se conforme o resultado; se não estiverem, trata-se como paciente de alto risco. E trombo em câmaras direitas visto no eco fecha o caminho: trata-se como alto risco, sem esperar outra imagem.

Esse é o único achado ecocardiográfico patognomônico de tromboembolismo — trombo móvel em cavidades direitas, tronco ou ramos da artéria pulmonar. Ele se associa a alta mortalidade precoce e é raro: ocorre em apenas 4% dos casos de embolia pulmonar em geral, chegando a 18% de prevalência entre os pacientes com tromboembolismo internados em unidade de terapia intensiva.

O contraste com o paciente estável é a pegadinha simétrica. Nele, o ecocardiograma não é exame obrigatório na rotina diagnóstica: o valor preditivo negativo fica entre 40% e 50% e o resultado normal não exclui tromboembolismo pulmonar. Ele serve para prognóstico — a ausência de alterações de tamanho ou função do ventrículo direito indica bom prognóstico — e para o diferencial de dispneia aguda. Alternativa que manda pedir ecocardiograma para diagnosticar tromboembolismo em paciente estável está errada por definição.

As quatro classes de risco: escore clínico, imagem e troponina

Confirmado o diagnóstico, a pergunta muda: qual é o risco de morte hospitalar ou em até 30 dias? A resposta se monta com três informações — um escore clínico, a função do ventrículo direito na imagem e a troponina — e o primeiro degrau é binário: existe instabilidade hemodinâmica?

A definição de instabilidade que a diretriz brasileira de 2025 usa tem três portas, e basta uma. Choque obstrutivo: pressão arterial sistólica abaixo de 90 mmHg ou necessidade de vasopressor para manter a sistólica em 90 mmHg ou mais, apesar de volemia adequada, somado a sinais de disfunção orgânica (rebaixamento do nível de consciência, pele fria e pegajosa, oligoanúria e/ou elevação do lactato sérico). Ou hipotensão persistente: sistólica abaixo de 90 mmHg, ou queda de 40 mmHg em relação à pressão habitual do paciente, por mais de 15 minutos, e não relacionada a arritmia, hipovolemia, sepse ou parada cardiorrespiratória. Quem preenche é alto risco, e não precisa de mais nenhum escore.

O escore clínico é o Pulmonary Embolism Severity Index. Na versão original ele soma a idade em anos a dez pesos: sexo masculino +10, câncer +30, insuficiência cardíaca crônica +10, doença pulmonar crônica +10, frequência cardíaca de 110 bpm ou mais +20, pressão sistólica abaixo de 100 mmHg +30, frequência respiratória acima de 30 irpm +20, temperatura abaixo de 36 °C +20, alteração do estado mental +60 e saturação arterial de oxigênio abaixo de 90% +20. As classes vão de I (65 pontos ou menos) a V (acima de 125). Repare no peso da demografia: um homem de 90 anos sem nenhuma outra alteração já soma 100 pontos — 90 pela idade e 10 pelo sexo —, o que o coloca na classe III mesmo assintomático. É um escore desenhado para separar quem pode ir para casa, não para medir a carga do trombo.

A versão simplificada tem seis itens de 1 ponto cada: idade acima de 80 anos, câncer, doença cardiopulmonar crônica, frequência cardíaca de 110 bpm ou mais, pressão sistólica abaixo de 100 mmHg e saturação abaixo de 90%. Teto de 6 pontos. Zero ponto é baixo risco; 1 ponto ou mais é alto risco. As duas versões entram no algoritmo pela mesma porta: PESI I ou II equivale a PESI simplificado igual a zero.

Com isso, as quatro classes se fecham. baixo risco: sem instabilidade, PESI I-II ou simplificado zero, e — se os biomarcadores foram dosados — troponina e peptídeo natriurético negativos, sem sinais de sobrecarga ventricular direita na angiotomografia ou no ecocardiograma. intermediário baixo: PESI III-V ou simplificado 1 ou mais, com sobrecarga de ventrículo direito demonstrada por biomarcador ou por imagem — apenas um dos dois, e a régua europeia de 2019 que a diretriz brasileira adota é explícita ao incluir aqui também o paciente em que nenhum dos dois é positivo. intermediário alto: os dois positivos ao mesmo tempo, biomarcador E imagem, em paciente ainda hemodinamicamente estável. alto risco: choque obstrutivo ou hipotensão persistente.

O intermediário alto é a classe que a prova ama, porque é onde a conduta se decide na margem. A diretriz brasileira registra que cerca de 9% desses pacientes evoluem desfavoravelmente e que a mortalidade em 30 dias é o dobro da de pacientes sem sinais de disfunção ventricular direita. Quando a decisão terapêutica fica no fio, outros parâmetros entram na avaliação individual: escores de prognóstico como Bova e TELOS, idade, hipotensão relativa, sinais de hipoperfusão (lactato, creatinina e transaminases elevadas), trombose venosa profunda concomitante, trombo livre em cavidades direitas ao ecocardiograma, refluxo de contraste para veias hepáticas ou trombo em tronco e ramos principais na angiotomografia, necessidade de maior aporte de oxigênio, comorbidade grave e risco de sangramento.

Tratar: seis recomendações brasileiras, cada uma com sua força

A diretriz de 2025 respondeu a seis perguntas estruturadas e graduou cada resposta pelo sistema grade. Ler a força junto com a recomendação é metade do capítulo, porque a força é o que a banca usa para montar o distrator.

Duas recomendações são fortes. A primeira: para o paciente com tromboembolismo pulmonar estável, ou depois de estabilizado, o tratamento é anticoagulante oral de ação direta por pelo menos 3 a 6 meses — recomendação forte, moderada qualidade de evidência. A metanálise não mostrou diferença em recorrência nem em mortalidade contra a varfarina, mas mostrou menos sangramento maior (diferença de risco −0,01; IC 95% −0,01 a −0,00; p < 0,001) e menos sangramento não maior (−0,03; IC 95% −0,05 a −0,01; p = 0,003). O ganho dos orais diretos, aqui, é de segurança e de logística — não de eficácia.

A segunda recomendação forte, e a única com alta qualidade de evidência de toda a diretriz: no tromboembolismo não provocado que já completou pelo menos 3 meses de tratamento, recomenda-se anticoagulação estendida, por tempo indeterminado. A metanálise mostrou menos recorrência (−0,07; IC 95% −0,10 a −0,04; p < 0,001) e menos morte (−0,01; IC 95% −0,01 a −0,00; p = 0,02), sem aumento de sangramento maior (0,00; IC 95% −0,00 a 0,01; p = 0,14) e com mais sangramentos não maiores (0,03; IC 95% 0,01 a 0,06; p = 0,01). O contraponto está nos comentários: quem teve fator de risco transitório maior — cirurgia sob anestesia geral com mais de 30 minutos, trauma ou fratura, internação prolongada com restrição de mobilidade por mais de três dias — pode descontinuar após 3 meses, com baixo risco de recorrência.

As outras quatro são condicionais, e a qualidade da evidência varia de moderada a muito baixa. No paciente oncológico, sugere-se anticoagulante oral direto (condicional, baixa qualidade): a recorrência foi menor com os orais diretos (−0,03; IC 95% −0,05 a −0,01; p < 0,001) e o sangramento maior não diferiu, mas o sangramento não maior foi mais frequente com eles (0,03; IC 95% 0,01 a 0,05; p = 0,001) — quer dizer, o desfecho de segurança que sobrou favorece a heparina de baixo peso molecular. Isso importa no paciente com lesão anatômica não controlada em trato gastrintestinal ou geniturinário, onde rivaroxabana e edoxabana mostraram mais sangramento; a apixabana se mostrou tão eficaz e segura quanto a dalteparina independentemente do sítio primário.

O tratamento domiciliar do tromboembolismo de baixo risco é sugerido, com muito baixa qualidade de evidência, e a diretriz condiciona a premissas explícitas: suporte social, compreensão da doença e das complicações, garantia do uso adequado das medicações, reconhecimento dos efeitos colaterais, acesso rápido ao serviço de saúde em caso de necessidade e preferência do paciente — sendo aceitável, como alternativa, uma internação de menor duração. Os três ensaios da metanálise não mostraram diferença em recorrência, morte ou sangramento entre tratar em casa e internar.

As duas recomendações sobre trombólise sistêmica caminham em direções opostas, e a diferença entre elas é a espinha do tema. No risco intermediário alto, sugere-se não utilizar trombólise farmacológica sistêmica (condicional, moderada qualidade): em sete ensaios randomizados, não houve diferença em recorrência nem em mortalidade, o sangramento maior não diferiu de forma estatisticamente significante e o sangramento não maior tendeu a ser mais frequente com o fibrinolítico (0,13; IC 95% −0,00 a 0,26; p = 0,06). No alto risco, sugere-se trombólise sistêmica — condicional, muito baixa qualidade de evidência.

Vale saber de onde vem essa última. Pelos critérios de seleção da diretriz, sobrou um único estudo: oito pacientes com tromboembolismo agudo e instabilidade hemodinâmica, quatro randomizados para estreptoquinase periférica e quatro para heparina não fracionada, interrompido precocemente pelo comitê de ética diante do desfecho desfavorável no grupo controle. Os quatro do grupo heparina morreram na internação; três necropsias mostraram tromboembolismo maciço e infarto de ventrículo direito sem obstrução coronariana importante. Os quatro que receberam estreptoquinase foram seguidos por dois anos, sem hipertensão pulmonar, sem recorrência e sem sangramento. A situação mais urgente do capítulo é a que tem a evidência mais frágil — e isso é conteúdo, não curiosidade.

Duas notas de execução fecham o bloco. Existem estratégias para reduzir o sangramento quando a reperfusão é necessária: alteplase em dose reduzida, 50 mg em 2 horas por acesso periférico, comparada ao esquema padrão de 100 mg em 2 horas, com eficácia semelhante segundo alguns estudos, além da trombólise dirigida por cateter. E a embolectomia pulmonar por cateter tem indicação atual restrita a pacientes com instabilidade hemodinâmica que tenham contraindicação à trombólise farmacológica ou que não tenham respondido a ela. O risco de sangramento grave é maior em mulheres com mais de 75 anos, e isso pesa na decisão do intermediário alto.

Onde o anticoagulante oral direto não entra — e onde o SUS não chega

Os orais diretos são a primeira opção, mas têm três territórios proibidos e um limitado. Síndrome antifosfolípide: a anticoagulação é com varfarina, e a recomendação se apoia num estudo de rivaroxabana contra varfarina em pacientes triplo-positivos — anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-β2-glicoproteína I — interrompido precocemente pelo aumento de eventos trombóticos e de sangramentos no braço da rivaroxabana. Gestação e lactação: heparina de baixo peso molecular. Insuficiência renal grave, com clearance de creatinina de 30 mL/min ou menos: evitam-se os orais diretos, com exceção da apixabana, que pode ser usada; a varfarina também é alternativa. Já a disfunção renal não grave, com clearance acima de 30 mL/min, e a obesidade não impedem o uso.

Quando a anticoagulação estendida for recomendada, a diretriz manda incluir a pesquisa de anticorpos antifosfolípides na avaliação de um grupo específico: pacientes jovens, abaixo de 50 anos, trombose em sítio incomum, tromboses recorrentes, história de perda gestacional tardia, de pré-eclâmpsia ou eclâmpsia, ou de síndrome HELLP. O resultado importa porque muda a droga — tira o paciente do oral direto e o coloca na varfarina.

E há a distância entre o que a diretriz recomenda e o que a farmácia entrega, que banca de concurso público explora. Não existe protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde para o manejo do tromboembolismo pulmonar, e a incorporação dos anticoagulantes orais diretos para essa indicação no sistema público acontece de forma heterogênea, de acordo com as secretarias estaduais de saúde. Na prática, o esquema convencional — heparina de baixo peso molecular ou não fracionada, seguida de varfarina com alvo de INR entre 2 e 3 — continua sendo a resposta disponível em boa parte da rede, mesmo onde a recomendação de sociedade é o oral direto.

04

Da suspeita à classe de risco: as réguas em ordem

Duas perguntas, duas réguas, e elas não se misturam. Antes de confirmar o diagnóstico, o eixo é a probabilidade pré-teste — é ela que decide entre D-dímero e imagem, e o bloco PERC entra antes de tudo na faixa baixa. Depois de confirmado, o eixo passa a ser o risco de morte precoce, e os cards abaixo mostram a única escala verdadeiramente ordinal do tema: as quatro classes, montadas com instabilidade hemodinâmica, escore clínico, ventrículo direito na imagem e troponina. As tabelas trazem, em ordem, os dois escores de probabilidade, o bloco PERC, o PESI nas duas versões, o cruzamento que define as classes e as seis recomendações de tratamento com o grau e a qualidade da evidência de cada uma.

  1. 11. Pergunte primeiro se o paciente está instável. Choque obstrutivo ou hipotensão persistente muda o algoritmo inteiro: ecocardiograma à beira do leito, e não D-dímero.
  2. 22. No estável, some o escore ANTES de pedir exame. Wells acima de 4 pontos é tromboembolismo provável; 4 ou menos, improvável. Genebra revisado dá a mesma leitura em dois níveis, com itens objetivos.
  3. 33. Na probabilidade baixa, considere os oito critérios PERC antes até do D-dímero — todos cumpridos, a investigação para ali.
  4. 44. Probabilidade baixa (ou improvável) sem PERC negativo: D-dímero, com corte ajustado pela idade acima dos 50 anos (idade × 10 µg/L). Negativo, encerra sem imagem: o risco residual em 3 meses fica abaixo de 1%.
  5. 55. D-dímero positivo, ou probabilidade alta desde o início: angiotomografia de artérias pulmonares — cintilografia V/Q na alergia grave ao iodo, na insuficiência renal grave e na gestante.
  6. 66. Confirmado, estratifique: PESI (ou PESI simplificado) + função do ventrículo direito na imagem + troponina. Quatro classes, e é a classe que decide a conduta — não o tamanho do trombo.
  7. 77. Trate pela classe: anticoagulante oral direto por pelo menos 3 a 6 meses em todo mundo estável; domicílio só no baixo risco com premissas cumpridas; trombólise sistêmica no alto risco; no intermediário alto, monitorar e não trombolisar de rotina.

Baixo risco

Sem instabilidade hemodinâmica. PESI I ou II, ou PESI simplificado igual a zero. Se os biomarcadores foram dosados, troponina e peptídeo natriurético negativos, e sem sinais de sobrecarga do ventrículo direito na angiotomografia ou no ecocardiograma. É o único grupo em que a diretriz brasileira sugere tratamento domiciliar — condicional, muito baixa qualidade de evidência, e apenas se as premissas de suporte e de acesso ao serviço estiverem garantidas.

Intermediário baixo

Sem instabilidade. PESI III a V, ou PESI simplificado igual ou maior que 1. Sobrecarga do ventrículo direito demonstrada por apenas UM dos dois marcadores — biomarcador ou imagem — ou por nenhum deles. Anticoagulação plena, sem reperfusão. É a classe em que a maioria dos pacientes estáveis com escore ruim acaba caindo.

Intermediário alto

Sem instabilidade, apesar da sobrecarga: PESI III a V, ou simplificado igual ou maior que 1, com disfunção do ventrículo direito na imagem E troponina elevada — os DOIS positivos. Cerca de 9% evoluem desfavoravelmente e a mortalidade em 30 dias é o dobro. A diretriz brasileira sugere NÃO trombolisar de rotina (condicional, moderada qualidade) e monitorar; a fibrinólise fica para casos selecionados.

Alto risco

Choque obstrutivo (sistólica abaixo de 90 mmHg ou vasopressor para manter 90 mmHg, apesar de volemia adequada, com disfunção orgânica) ou hipotensão persistente (sistólica abaixo de 90 mmHg, ou queda de 40 mmHg da habitual, por mais de 15 minutos, sem outra causa). Nenhum escore é necessário: a instabilidade já classifica. A diretriz brasileira sugere trombólise sistêmica — condicional, muito baixa qualidade de evidência.

Modelo de Wells para tromboembolismo pulmonar

VariávelPontos
Sinais clínicos de trombose venosa profunda3
Diagnóstico alternativo menos provável que tromboembolismo pulmonar3
Frequência cardíaca acima de 100 bpm1,5
Imobilização ou cirurgia recente1,5
Tromboembolismo pulmonar ou trombose venosa profunda prévios1,5
Hemoptise1
Câncer1
Teto do escore12,5
Leitura em dois níveisAcima de 4 pontos: provável. 4 pontos ou menos: improvável

Modelo de Genebra revisado: original e simplificado

VariávelOriginalSimplificado
Tromboembolismo pulmonar ou trombose venosa profunda prévios31
Frequência cardíaca de 75 a 94 bpm31
Frequência cardíaca de 95 bpm ou mais52
Cirurgia ou fratura há 1 mês ou menos21
Hemoptise21
Câncer ativo21
Dor unilateral em membro inferior31
Dor à palpação do trajeto venoso profundo com edema unilateral41
Idade acima de 65 anos11
Teto do escore229
Três níveis — baixo0 a 30 a 1
Três níveis — intermediário4 a 102 a 4
Três níveis — alto11 ou mais5 ou mais
Dois níveis — improvável0 a 50 a 2
Dois níveis — provável6 ou mais3 ou mais

PERC: os oito critérios (todos cumpridos = PERC negativo, e nem D-dímero se pede)

CritérioCondição para ser cumprido
IdadeAbaixo de 50 anos
PulsoAbaixo de 100 bpm
Saturação arterial de oxigênioAcima de 94%
Edema de membro inferiorAusente, ou não unilateral
HemoptiseAusente
Trauma ou cirurgia recentesAusentes
Tromboembolismo pulmonar ou trombose venosa profunda préviosAusentes
Estrogênio exógenoSem uso
Condição de aplicaçãoSó em paciente já julgado de BAIXA probabilidade clínica (menos de 15% pela impressão clínica no estudo original)

PESI e PESI simplificado

ParâmetroPESI originalPESI simplificado
IdadeIdade em anos1 ponto se acima de 80 anos
Sexo masculino+10
Câncer+301 ponto
Insuficiência cardíaca crônica+101 ponto (doença cardiopulmonar crônica)
Doença pulmonar crônica+101 ponto (doença cardiopulmonar crônica)
Frequência cardíaca de 110 bpm ou mais+201 ponto
Pressão sistólica abaixo de 100 mmHg+301 ponto
Frequência respiratória acima de 30 irpm+20
Temperatura abaixo de 36 °C+20
Alteração do estado mental+60
Saturação arterial de oxigênio abaixo de 90%+201 ponto
FaixasClasse I: 65 ou menos · II: 66 a 85 · III: 86 a 105 · IV: 106 a 125 · V: acima de 1250 ponto: baixo risco · 1 ponto ou mais: alto risco (teto 6)

As quatro classes de risco de morte hospitalar ou em até 30 dias

ClasseInstabilidade hemodinâmicaPESI III-V ou simplificado ≥ 1Disfunção de VD na imagemTroponina elevadaO que muda
AltoSimNão é necessário avaliarSimNão é necessário avaliarTrombólise sistêmica sugerida (condicional, muito baixa qualidade)
Intermediário altoNãoSimSimSimAnticoagulação plena e monitorização; trombólise de rotina NÃO sugerida (condicional, moderada qualidade)
Intermediário baixoNãoSimApenas um dos dois positivo — ou nenhumApenas um dos dois positivo — ou nenhumAnticoagulação plena, internado
BaixoNãoNãoNãoAvaliação opcional; se avaliada, negativaTratamento domiciliar sugerido, se as premissas de suporte e acesso estiverem cumpridas

As seis recomendações da diretriz brasileira de 2025, com grau e qualidade

PerguntaRecomendaçãoGrauQualidade da evidência
Anticoagulação domiciliar contra hospitalização no TEP de baixo riscoSugerimos tratamento domiciliar para quem atende às premissas de acesso garantido ao serviço de saúdeCondicionalMuito baixa
Oral direto contra heparina de baixo peso no TEP com câncerSugerimos tratamento com anticoagulante oral diretoCondicionalBaixa
Anticoagulação estendida contra placebo ou aspirina no TEP não provocado, após 3 mesesRecomendamos anticoagulação estendida, por tempo indeterminadoForteAlta
Oral direto por 3 a 6 meses contra esquema convencional (heparina seguida de varfarina)Recomendamos tratamento com oral direto por pelo menos 3 a 6 mesesForteModerada
Trombólise sistêmica contra anticoagulação isolada no risco intermediário altoSugerimos NÃO utilizar trombólise farmacológica sistêmicaCondicionalModerada
Trombólise sistêmica contra anticoagulação isolada no alto riscoSugerimos trombólise farmacológica sistêmicaCondicionalMuito baixa

Os pesos do escore de Wells usados aqui — 3, 1,5 e 1, com corte dicotômico em 4 pontos — são os que a diretriz brasileira reproduz e os mesmos que o NICE adota na sua leitura de dois níveis. O nome da versão varia entre documentos; o que identifica a régua em jogo é o CORTE declarado, não o rótulo.

PERC não é escore: é bloco. Não se soma nada — ou os oito critérios estão cumpridos, ou a regra não se aplica. E ela só vale dentro da faixa de baixa probabilidade.

O ajuste do D-dímero pela idade (idade × 10 µg/L acima dos 50 anos) refina o corte de EXCLUSÃO. Ele não autoriza usar o exame em quem tem probabilidade alta, onde nem o resultado negativo nem o positivo mudam o destino do paciente.

Relação entre ventrículo direito e ventrículo esquerdo maior que 1,0 na angiotomografia conta como critério de disfunção ventricular direita e marcador de pior prognóstico — inclusive em quem o escore clínico classificou como baixo risco (classe IIa, nível B).

Ecocardiograma normal NÃO exclui tromboembolismo pulmonar no paciente estável (valor preditivo negativo de 40% a 50%). No paciente INSTÁVEL, ao contrário, o exame normal elimina em definitivo a hipótese de embolia pulmonar maciça.

A angiotomografia venosa dos membros inferiores não é recomendada pela alta exposição à radiação e deve ser substituída pela ultrassonografia vascular (classe III, nível B).

As doses, os esquemas de ataque dos orais diretos, a regra de sobreposição da varfarina e a duração por cenário estão detalhadas no capítulo de Trombose venosa profunda; aqui entra só o que a classe de risco do TEP muda nessa escolha.

A diretriz de 2025 responde apenas ao TRATAMENTO FARMACOLÓGICO. O algoritmo diagnóstico, os escores de probabilidade e a escolha do método de imagem vêm da Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022 — e os dois documentos não conversam em todos os pontos, como mostra o bloco de divergências.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Até onde vai o D-dímero: o que fazer com a probabilidade clínica MODERADA

Moderada vai direto à imagem — Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso, 2022

O fluxograma diagnóstico do documento nacional para o paciente sem repercussão hemodinâmica abre em dois ramos e usa a leitura em TRÊS níveis: apenas a probabilidade BAIXA passa pelo D-dímero (negativo exclui, positivo segue para imagem); as probabilidades MODERADA e ALTA vão diretamente para angiotomografia, cintilografia V/Q SPECT ou planar.

Albricker ACL, Freire CMV, Santos SN, et al. Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857, Quadro 5.

Tudo que não é 'provável' passa pelo D-dímero — NICE, guideline NG158

O NICE usa a leitura em DOIS níveis do Wells. Acima de 4 pontos, tromboembolismo provável: angiotomografia imediata, com anticoagulação interina se o exame não puder ser feito de imediato (recomendações 1.1.17 e 1.1.18). Com 4 pontos ou menos, improvável: D-dímero, de preferência com resultado em até 4 horas, e imagem apenas se ele vier positivo (recomendação 1.1.21). Quem tem 4 pontos ou menos é 'improvável' nessa leitura e vai ao D-dímero, ainda que o avaliador descreva a probabilidade clínica como moderada.

National Institute for Health and Care Excellence. Venous thromboembolic diseases: diagnosis, management and thrombophilia testing. NICE guideline NG158. Londres, 2020, recomendações 1.1.17, 1.1.18 e 1.1.21.

Na prova

A divergência só decide questão numa faixa estreita, e é justamente ali que a banca gosta de colocar o paciente: o estável que o enunciado chama de probabilidade MODERADA e cujo Wells não passa de 4 pontos. Nele, o fluxograma brasileiro manda direto à imagem e o NICE manda dosar o D-dímero primeiro. Nos extremos as duas réguas concordam: probabilidade baixa começa pelo D-dímero nas duas, e Wells acima de 4 vai direto à imagem nas duas. Reconhece-se o recorte pelo vocabulário: enunciado que fala em 'baixa, moderada ou alta probabilidade' está usando a leitura de três níveis do documento brasileiro; enunciado que fala em 'TEP provável' e 'TEP improvável' está na leitura de dois níveis. Duas pistas adicionais entregam o recorte do NICE: menção a prazo para o resultado do D-dímero (4 horas) ou a anticoagulação interina enquanto se espera o exame. E há um ponto em que os dois documentos concordam sem exceção — probabilidade alta não recebe D-dímero em régua nenhuma; alternativa que mande dosar D-dímero em paciente de alta probabilidade está errada sob qualquer leitura.

Angiotomografia ou cintilografia SPECT quando as duas estão disponíveis

Angiotomografia é o método de escolha; cintilografia é a exceção — capítulo de radiologia da Diretriz Conjunta de 2022

A recomendação do bloco de imagem seccional afirma que a angiotomografia é o método de imagem de escolha para o diagnóstico do tromboembolismo pulmonar agudo, podendo ser substituída pela cintilografia V/Q nos casos de alergia grave ao iodo ou em situações especiais como gestantes e pacientes com insuficiência renal grave. Na prática, o texto justifica a preferência pela rapidez de execução e pela disponibilidade 24 horas em regime de plantão.

Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857, item 6.9 (Angiotomografia, angio-RM e angiografia pulmonar), recomendação b.

Quando as duas estão disponíveis, a cintilografia SPECT deve ser recomendada — capítulo de medicina nuclear da MESMA diretriz

O bloco de medicina nuclear conclui que a cintilografia pulmonar V/Q é fortemente recomendada no diagnóstico do tromboembolismo, com grande acurácia mesmo na presença de DPOC e pneumonia, e registra que não existem dados científicos robustos que sustentem a superioridade da angiotomografia sobre a cintilografia. Afirma ainda que, quando ambas as modalidades estão disponíveis, a cintilografia com aquisição SPECT — de preferência SPECT/CT — deve ser recomendada, por não ter contraindicações, ter menor taxa de exames inconclusivos (abaixo de 3%) e expor menos a mama feminina à radiação.

Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857, item 7 (Cintilografia pulmonar), acurácia diagnóstica e conclusões 7.1.14.

Na prova

As duas posições estão dentro do MESMO documento nacional, escritas por sociedades diferentes que o assinam em conjunto — e a prova costuma cobrar a primeira, porque é a que descreve o mundo real da emergência brasileira. Quando o enunciado pergunta 'qual o exame de escolha para o diagnóstico de TEP agudo', a resposta esperada é angiotomografia. A cintilografia vira resposta certa quando o enunciado planta uma das barreiras: alergia grave ao contraste iodado, insuficiência renal grave, gestação, ou a necessidade de avaliar tromboembolismo crônico e resolução do quadro. Enunciado que menciona SPECT ou SPECT/CT nominalmente, ou que compara taxas de exames inconclusivos, está no terreno do capítulo de medicina nuclear.

Trombólise sistêmica no paciente estável com disfunção de ventrículo direito

Sugerimos não utilizar — recomendação CONDICIONAL, que deixa a porta aberta a casos selecionados — SBPT, 2025

Para pacientes com tromboembolismo de risco intermediário alto, a diretriz brasileira sugere não utilizar trombólise farmacológica sistêmica: recomendação condicional, com moderada qualidade de evidência. Os comentários da própria diretriz, porém, registram que a fibrinólise pode ser benéfica em casos selecionados, no contexto de sobrecarga ventricular direita com estabilidade hemodinâmica, e listam os parâmetros adicionais que pesam nessa decisão individual — escores Bova e TELOS, sinais de hipoperfusão, trombo livre em cavidades direitas, trombo em tronco ou ramos principais.

Amado VM, Fernandes CJCS, Salibe-Filho W, et al. Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar. J Bras Pneumol. 2025;51(2):e20240314, pergunta 5 e Quadro 4.

Não oferecer, sem ressalva de subgrupo — NICE, guideline NG158

O NICE separa as duas situações em recomendações consecutivas e opostas: considerar trombólise farmacológica sistêmica em pessoas com tromboembolismo pulmonar e instabilidade hemodinâmica (1.6.2); e não oferecer trombólise farmacológica sistêmica a pessoas com tromboembolismo pulmonar e estabilidade hemodinâmica (1.6.3). A formulação negativa não abre exceção para o subgrupo com disfunção ventricular direita.

National Institute for Health and Care Excellence. Venous thromboembolic diseases: diagnosis, management and thrombophilia testing. NICE guideline NG158. Londres, 2020, recomendações 1.6.2 e 1.6.3.

Na prova

É a diferença entre 'sugerimos não fazer' e 'não faça'. Nas duas réguas, a alternativa que manda trombolisar de ROTINA o paciente estável de risco intermediário alto está errada — esse é o ponto que a prova cobra em nove de cada dez vezes. A divergência aparece na alternativa mais sofisticada, aquela que diz 'considerar fibrinólise em casos selecionados, avaliando risco de sangramento': ela é compatível com a régua brasileira e incompatível com a do NICE. Enunciado que descreve deterioração progressiva, hipotensão relativa, lactato subindo ou trombo em tronco arterial pulmonar está montando o caso selecionado; enunciado que só informa 'estável, com disfunção de VD e troponina alterada' está pedindo anticoagulação plena e monitorização. E cuidado com a assimetria de força: no ALTO risco a mesma diretriz brasileira sugere trombolisar, e essa recomendação é condicional com qualidade de evidência MUITO BAIXA — a urgência maior tem a evidência menor.

Qual imagem pedir na gestante com suspeita de tromboembolismo pulmonar

As duas podem ser usadas; com radiografia alterada, prossegue-se com angiotomografia (classe IIa, nível C) — capítulo de radiologia da Diretriz Conjunta de 2022

A recomendação do bloco de imagem seccional afirma que, nas pacientes gestantes, tanto a angiotomografia quanto a cintilografia V/Q podem ser usadas, porque com as técnicas modernas ambos os métodos causam pouca exposição materna e fetal à radiação ionizante. Nos casos com radiografia de tórax normal, qualquer um dos dois; nos casos com radiografia alterada, a recomendação é prosseguir com angiotomografia.

Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857, item 6.9, recomendação f.

Cintilografia é a escolha preferencial, e só a fase de perfusão — capítulo de medicina nuclear da MESMA diretriz

O bloco de medicina nuclear afirma que a cintilografia pulmonar tem sido considerada a escolha preferencial sobre outros métodos em casos de gravidez, pela menor exposição da mama, e detalha o protocolo: na gestante, inicia-se apenas com o estudo perfusional e atividade reduzida do radiofármaco; se normal, essa fase já exclui o tromboembolismo. O número que sustenta a posição é a dose absorvida pela mama materna — de 8,6 a 44 mSv na angiotomografia contra menos de 1 mSv na cintilografia de perfusão isolada, sem tomografia nem estudo inalatório. As doses fetais, essas sim, são baixas e similares nos dois métodos.

Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857, itens 7.1.4 (indicações por limitação da angiotomografia) e 7.1.5 (protocolo).

Na prova

O ponto de atrito não é o feto — é a mama da gestante, e os dois capítulos do mesmo documento pesam essa dose de forma diferente. Feita a conta com os números do próprio texto, a mama materna recebe da angiotomografia entre nove e mais de quarenta vezes a dose da cintilografia de perfusão isolada. Enunciado que traz radiografia de tórax ALTERADA na gestante aponta para a angiotomografia, com classe e nível declarados; enunciado que traz radiografia normal e pergunta pelo método de menor exposição, ou que menciona a mama, aponta para a cintilografia apenas com fase de perfusão. E vale reter o detalhe do protocolo: na gestante omite-se a fase de ventilação, porque o estudo inalatório costuma ser normal na mulher jovem e acrescenta radiação sem acrescentar informação.

06

Caso resolvido

Mulher de 68 anos chega ao pronto-socorro com dispneia de início súbito há 6 horas e dor torácica ventilatório-dependente. Fez artroplastia de joelho direito há 3 semanas e ficou acamada por 10 dias. Nega hemoptise e nega câncer. Ao exame: consciente e orientada, frequência cardíaca 118 bpm, pressão arterial 126/78 mmHg, frequência respiratória 26 irpm, saturação em ar ambiente 91%, temperatura 36,8 °C. Panturrilha direita com 3 cm a mais que a esquerda, dolorosa à palpação. Ausculta pulmonar sem alterações; radiografia de tórax sem consolidações. Nenhum diagnóstico alternativo se impõe.
escore antes do exame
Some o Wells antes de qualquer pedido. Sinais clínicos de trombose venosa profunda: 3. Diagnóstico alternativo menos provável que tromboembolismo pulmonar: 3. Frequência cardíaca acima de 100 bpm: 1,5. Imobilização ou cirurgia recente: 1,5. Sem hemoptise, sem câncer, sem evento prévio. Total de 9 pontos — acima de 4, tromboembolismo PROVÁVEL. Não se dosa D-dímero aqui: nem o negativo daria alta, nem o positivo mudaria o destino.
imagem
Angiotomografia de artérias pulmonares, o método de escolha. Ela é positiva: falhas de enchimento em ramos lobares e segmentares bilaterais, com relação entre ventrículo direito e ventrículo esquerdo de 1,3. Como a probabilidade era alta e há trombo em ramos segmentares e proximais, o diagnóstico está aceito pela régua brasileira com recomendação de classe I e nível de evidência B. A relação ventricular acima de 1,0 não é detalhe de laudo: já entra na estratificação como critério tomográfico de disfunção ventricular direita.
classe de risco
Primeiro degrau: não há instabilidade — pressão 126/78 mmHg, sem vasopressor, sem sinais de hipoperfusão. Segundo degrau: PESI simplificado. Idade acima de 80? Não. Câncer? Não. Doença cardiopulmonar crônica? Não. Frequência cardíaca de 110 bpm ou mais? Sim, 1 ponto. Sistólica abaixo de 100 mmHg? Não. Saturação abaixo de 90%? Não — está em 91%. Total: 1 ponto, que já a tira do baixo risco. Terceiro degrau: a imagem mostra disfunção de ventrículo direito; falta a troponina.
o que a troponina decide
Se a troponina vier NEGATIVA, apenas um dos dois marcadores está positivo: risco INTERMEDIÁRIO BAIXO. Se vier elevada, os dois estão positivos em paciente ainda estável: risco INTERMEDIÁRIO ALTO — o grupo em que cerca de 9% evoluem mal e a mortalidade em 30 dias dobra. Note que a conduta imediata não muda entre as duas classes: anticoagulação plena e internação nas duas. O que muda é a intensidade da monitorização e a disposição de considerar reperfusão se ela deteriorar.
tratamento e duração
Anticoagulante oral direto por pelo menos 3 a 6 meses — recomendação forte, moderada qualidade de evidência —, respeitando a fase de ataque da molécula escolhida. Trombólise sistêmica não está indicada: a diretriz brasileira sugere não utilizá-la no risco intermediário alto. E a duração já está decidida pela história: dez dias acamada após artroplastia recente preenchem a definição de fator de risco transitório MAIOR — restrição de mobilidade por mais de três dias —, de modo que esta paciente pode descontinuar após 3 meses, com baixo risco de recorrência. Se o mesmo quadro tivesse aparecido sem gatilho nenhum, a resposta seria anticoagulação estendida por tempo indeterminado — a única recomendação forte com alta qualidade de evidência da diretriz.
07

Agora feche você

Homem de 34 anos, previamente hígido, procura o pronto-socorro com dor torácica em pontada à esquerda, ventilatório-dependente, iniciada há 8 horas depois de um jogo de futebol. Nega dispneia em repouso, nega hemoptise, nega cirurgia, trauma ou imobilização, nega tromboembolismo prévio, nega câncer e não usa medicação alguma. Ao exame: frequência cardíaca 82 bpm, pressão arterial 124/76 mmHg, frequência respiratória 18 irpm, saturação em ar ambiente 98%, temperatura 36,5 °C, sem edema em membros inferiores. Radiografia de tórax normal. O plantonista considera a probabilidade clínica baixa, mas quer 'descartar tromboembolismo' e cogita solicitar D-dímero.
achado
Wells para tromboembolismo pulmonar: sem sinais clínicos de trombose venosa profunda (0), frequência cardíaca abaixo de 100 bpm (0), sem imobilização ou cirurgia recente (0), sem evento prévio (0), sem hemoptise (0), sem câncer (0). Resta o item de julgamento — e aqui a dor pleurítica após esforço em homem jovem hígido tem diagnósticos alternativos ao menos tão prováveis, o que não soma os 3 pontos. Escore baixo, tromboembolismo improvável.
o passo que evita o exame
08

Onde a banca derruba

  1. 1Dosar D-dímero em paciente com alta probabilidade clínica É o erro clássico do tema, e ele tem duas metades. Um resultado negativo não derruba o risco o bastante para dar alta numa faixa de prevalência alta; e um resultado positivo não modifica a probabilidade pré-teste, sendo clinicamente inútil isolado. O paciente vai para a imagem nos dois desfechos possíveis do exame — e exame que não muda conduta não se pede. A vinheta arma isso com um pós-operatório recente, uma perna assimétrica e uma taquicardia.
  2. 2Ler um D-dímero positivo no idoso como se fosse informação A especificidade do exame é de 40% na população geral e cai com a idade, chegando a apenas 10% no idoso. Nove em cada dez positivos, nessa faixa, não são tromboembolismo. O corte ajustado pela idade (idade em anos × 10 µg/L acima dos 50) existe para isso: 780 µg/L aos 78 anos, e não 500.
  3. 3Aplicar os critérios PERC fora da faixa de baixa probabilidade PERC foi construído e validado para pacientes JÁ julgados de baixa probabilidade clínica — menos de 15% pela impressão clínica no estudo original. Ele é um bloco de oito critérios binários, não um escore que se soma, e não serve para 'descartar' tromboembolismo em quem tem Wells alto. Usar a régua fora da faixa é o erro que a alternativa elegante esconde.
  4. 4Pedir ecocardiograma para DIAGNOSTICAR tromboembolismo no paciente estável No estável, o ecocardiograma não é exame obrigatório da rotina diagnóstica: o valor preditivo negativo fica entre 40% e 50% e o resultado normal não exclui o diagnóstico. Ele serve para prognóstico e para o diferencial de dispneia aguda. No INSTÁVEL a lógica se inverte — ali ele é obrigatório, e o exame normal elimina em definitivo a hipótese de embolia pulmonar maciça.
  5. 5Classificar a gravidade pelo tamanho do trombo na tomografia A classe de risco se monta com escore clínico, função do ventrículo direito e troponina. Um trombo grande em paciente sem instabilidade, com PESI simplificado zero e sem sobrecarga ventricular, continua sendo baixo risco. O que o laudo da angiotomografia acrescenta à estratificação é a relação entre ventrículo direito e esquerdo maior que 1,0 — não o calibre do ramo acometido.
  6. 6Trombolisar de rotina o paciente estável de risco intermediário alto A diretriz brasileira sugere NÃO utilizar trombólise sistêmica nesse grupo, com moderada qualidade de evidência: em sete ensaios randomizados não houve diferença em recorrência nem em mortalidade, e o sangramento não maior tendeu a ser mais frequente com o fibrinolítico. O que se faz é anticoagulação plena com monitorização, guardando a fibrinólise para casos selecionados que deteriorem.
  7. 7Achar que a recomendação de trombolisar o alto risco tem evidência forte Ela é condicional, com MUITO BAIXA qualidade de evidência. Pelos critérios de seleção da diretriz brasileira, restou um único ensaio randomizado: oito pacientes, quatro por braço, interrompido pelo comitê de ética porque os quatro do grupo heparina morreram. A conduta está certa; a base de evidência é frágil, e a prova pergunta exatamente isso quando oferece 'recomendação forte, alta qualidade' como alternativa.
  8. 8Manter o oral direto na síndrome antifosfolípide O diagnóstico de síndrome antifosfolípide muda a droga: a anticoagulação passa a ser com varfarina. O estudo que comparou rivaroxabana e varfarina em pacientes triplo-positivos foi interrompido precocemente pelo aumento de eventos trombóticos e de sangramentos no braço da rivaroxabana. As outras duas saídas dos orais diretos são gestação e lactação (heparina de baixo peso molecular) e insuficiência renal grave, com clearance de 30 mL/min ou menos — onde só a apixabana permanece possível, tendo a varfarina como alternativa.
  9. 9Suspender a anticoagulação aos 3 meses no evento não provocado É a única recomendação da diretriz brasileira que é FORTE e com ALTA qualidade de evidência: tromboembolismo não provocado que completou pelo menos 3 meses recebe anticoagulação estendida, por tempo indeterminado. Quem pode parar aos 3 meses é quem teve fator de risco transitório maior — cirurgia sob anestesia geral com mais de 30 minutos, trauma ou fratura, internação prolongada com restrição de mobilidade por mais de três dias.
  10. 10Tratar em casa qualquer paciente que o escore chamou de baixo risco A sugestão de tratamento domiciliar é condicional, com muito baixa qualidade de evidência, e vem amarrada a premissas: suporte social, compreensão da doença e das complicações, garantia do uso adequado das medicações, reconhecimento dos efeitos colaterais, acesso rápido ao serviço de saúde e preferência do paciente. Sem elas, a própria diretriz oferece a alternativa de uma internação de menor duração. A vinheta que descreve morador de zona rural sem transporte está pedindo internação curta, não alta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

TEP com disfunção de VD (S1Q3T3, inversão de T anterior, dilatação de VD na TC) mas sem hipotensão sustentada configura risco intermediário-alto; a conduta é anticoagulação plena com monitorização estreita, reservando trombólise de resgate se houver deterioração hemodinâmica. Trombólise/embolectomia imediatas são para o alto risco (choque/hipotensão persistente), que ela não apresenta. Baixo/intermediário-baixo risco não se aplicam por haver disfunção de VD. Alta imediata é inadequada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: os sete itens do escore de Wells para tromboembolismo pulmonar com o peso de cada um, o teto do escore e o corte dicotômico; os oito critérios PERC e a faixa de probabilidade em que a regra se aplica; a fórmula do corte de D-dímero ajustado pela idade e a partir de que idade ela vale; e os seis itens do PESI simplificado com o corte que separa baixo de alto risco. Depois responda em uma frase cada: por que não se pede D-dímero na probabilidade alta, e por que ecocardiograma normal significa coisas opostas no paciente estável e no instável.

em 30 dias

Monte do zero a tabela das quatro classes de risco, cruzando instabilidade hemodinâmica, PESI, disfunção de ventrículo direito na imagem e troponina — e diga o que cada classe autoriza. Em seguida recite as seis recomendações da diretriz brasileira de 2025 com o GRAU e a QUALIDADE de cada uma, e explique em voz alta por que a única recomendação forte com alta qualidade de evidência é a da anticoagulação estendida enquanto a trombólise no alto risco é condicional com evidência muito baixa. Feche com três decisões de fronteira: qual imagem pedir na gestante e por quê; o que muda quando o paciente tem câncer; e quem, entre os pacientes de baixo risco, ainda assim não vai para casa.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 71 anos é trazida ao pronto-socorro por dispneia súbita há 2 horas, com um episódio de síncope em casa. Pressão arterial 84/52 mmHg, frequência cardíaca 126 bpm, saturação 88% em ar ambiente, extremidades frias, lactato 4,1 mmol/L. Está internada há 5 dias por fratura de fêmur, aguardando cirurgia. Conduza: defina em que degrau da estratificação ela está, escolha o exame que vem primeiro nesse cenário e diga o que fazer se a tomografia não estiver imediatamente disponível. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Tromboembolismo pulmonar — Preparatório para provas | OsceLabs