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Clínica MédicaPneumologia

Pneumonia adquirida na comunidade

O diagnóstico quase sempre vem pronto na vinheta: febre, tosse, crepitações e a consolidação na radiografia. O que a prova cobra é a decisão seguinte — casa, enfermaria ou UTI — e o antibiótico que sai de cada uma dessas três portas.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 45 anos, previamente hígido, procura o pronto-atendimento com febre de 39°C, tosse produtiva com expectoração amarelada e dor pleurítica no hemitórax direito iniciados há 2 dias. Exame: PA 120x76 mmHg, FC 96 bpm, FR 22 ipm, SatO2 95%, estertores crepitantes e aumento do frêmito toracovocal na base direita. Radiografia mostra consolidação em lobo inferior direito. Qual é o agente etiológico mais provável?

02

Como esse tema cai

Pneumonia adquirida na comunidade cai muito, e cai quase sempre no mesmo formato. A questão não pergunta qual é o diagnóstico: ela entrega o diagnóstico pronto — febre, tosse produtiva, crepitações numa base, consolidação na radiografia — e cobra a decisão seguinte, que é onde este paciente vai ser tratado. Repare no que a vinheta dá de graça: idade, nível de consciência, frequência respiratória, pressão arterial e ureia. Esses cinco dados não estão lá por acaso. São exatamente os cinco itens de um escore, e a questão quer que você o calcule.

Este capítulo trata do adulto. PAC na infância tem tema próprio, com outra régua — a taquipneia por faixa etária da OMS, o tiragem subcostal, a dose de amoxicilina por peso — e nada daquilo se transporta para cá. A exacerbação de DPOC também tem capítulo próprio nesta apostila; aqui ela aparece só nos dois papéis em que decide alguma coisa: como diagnóstico diferencial da dispneia febril e como comorbidade que muda o esquema antibiótico do paciente ambulatorial.

Duas réguas convivem no Brasil, e vale saber de onde cada uma vem. A PAC do adulto não tem PCDT — ao contrário de asma e DPOC. O documento nacional de referência é o da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, de 2018, e é dele que saem os protocolos estaduais e municipais do SUS. Lá fora, a referência é a diretriz conjunta da ATS e da IDSA, de 2019. Em 2025 saiu uma atualização assinada só pela ATS, que a IDSA se recusou a endossar: ela encurtou a duração do tratamento e reverteu a posição sobre corticoide, mas não encostou nos escores de gravidade nem na definição de PAC grave. Tudo isso está mapeado no bloco de divergências.

03

O que muda decisão

O diagnóstico vem pronto — e é isso que libera a vinheta para cobrar outra coisa

PAC é a infecção aguda do parênquima pulmonar adquirida fora do ambiente hospitalar. O diagnóstico é clínico somado à imagem: sintomas respiratórios agudos com febre, mais um infiltrado novo na radiografia de tórax. Nenhum achado isolado fecha nada — nem a crepitação, nem a febre, nem a leucocitose —, e é justamente por isso que a questão entrega o pacote inteiro logo no primeiro parágrafo. Quando o enunciado dá a consolidação na radiografia, ele está dizendo: o diagnóstico não é o problema, siga adiante.

A radiografia de tórax segue sendo o exame de referência. A atualização de 2025 abriu uma porta nova ao sugerir o ultrassom pulmonar como alternativa diagnóstica aceitável em serviços onde exista competência técnica formalmente demonstrada e protocolo padronizado — recomendação condicional, com evidência de baixa qualidade. Guarde a ressalva junto com a recomendação: ela é a metade da frase que a questão costuma esconder.

A investigação etiológica é onde mais se erra por excesso. A recomendação brasileira é clara: exame para identificar o agente só em PAC grave, em quem não responde à terapia empírica inicial e em internado em UTI. No paciente ambulatorial com PAC não grave, não se investiga etiologia. A diretriz americana chega ao mesmo lugar por outro caminho e com recomendação forte: nada de hemocultura nem de cultura de escarro no ambulatório; no internado, colhe-se quando há PAC grave, quando há fator de risco para MRSA ou Pseudomonas, ou quando houve internação com antibiótico parenteral nos últimos 90 dias. Antígeno urinário fica reservado ao doente grave. A lógica é sempre a mesma: só se colhe cultura quando o resultado tem chance real de mudar a conduta — em geral, para descalonar um espectro que foi ampliado.

Procalcitonina não decide se o antibiótico começa. A recomendação americana é forte, com evidência moderada: em adulto com PAC clinicamente suspeita e confirmada radiograficamente, o antibiótico empírico começa independentemente do valor inicial da procalcitonina. O documento brasileiro trabalha os biomarcadores como ferramenta complementar, útil no diagnóstico e sobretudo no acompanhamento da resposta, mas insiste que nenhum deles pode ser critério isolado para estabelecer ou modificar conduta. Há um número de acompanhamento que vale guardar: proteína C reativa que não cai 50% do valor inicial até o terceiro dia de tratamento e permanece acima de 75 mg/L identifica maior risco de morte em 30 dias.

Duas condutas fecham a avaliação inicial. Se o teste para influenza é positivo em paciente internado com PAC, entra oseltamivir independentemente do tempo de doença — recomendação forte —, e o antibacteriano entra junto, porque coinfecção bacteriana é comum e não se descarta clinicamente. E, no outro extremo do tratamento, não se pede radiografia de controle de rotina em quem resolveu os sintomas: recomendação forte, com evidência de baixa qualidade. A imagem demora semanas a limpar, e o filme de controle só serve para gerar internação prolongada e tomografia desnecessária.

Dois detalhes ampliados lado a lado. À esquerda, alvéolos normais, de paredes finas e cheios de ar, envolvidos por uma rede de capilares. À direita, os mesmos alvéolos preenchidos por exsudato denso e células inflamatórias, com as paredes espessadas, enquanto o bronquíolo terminal continua aberto e cheio de ar, atravessando o tecido consolidado. Ao fundo, o contorno simplificado de um tórax com um lobo inferior preenchido.
A pneumonia enche o alvéolo e deixa a via aérea aberta. Daí vem toda a semiologia da consolidação: tecido sólido conduz som melhor que ar, e por isso o frêmito aumenta, o murmúrio vira som bronquial e o ar dentro do brônquio aparece como broncograma aéreo na radiografia — o oposto do derrame pleural, que afasta o pulmão da parede e abafa tudo. E daí vem também a hipoxemia precoce: o sangue segue passando por um alvéolo que já não ventila.

CURB-65: cinco itens, cinco pontos, três destinos

O CURB-65 é o escore que o Brasil usa para decidir sítio de tratamento, e o nome é a lista de itens em inglês. Confusão mental — definida com rigor como pontuação igual ou menor que 8 no abbreviated mental test, o que na prática da vinheta aparece como desorientação nova. Ureia acima de 50 mg/dL. Frequência respiratória acima de 30 incursões por minuto. Blood pressure, isto é, pressão arterial sistólica abaixo de 90 mmHg ou diastólica abaixo de 60 mmHg — repare que basta uma das duas. E idade igual ou maior que 65 anos. Cada item vale 1 ponto, o total vai de 0 a 5.

As faixas e o que cada uma manda fazer, com a mortalidade que as acompanha no documento brasileiro. De 0 a 1 ponto: mortalidade baixa, 1,5%, candidato ao tratamento ambulatorial. Exatamente 2 pontos: mortalidade intermediária, 9,2%, considerar tratamento hospitalar. De 3 a 5 pontos: mortalidade alta, 22%, tratamento hospitalar e manejo como PAC grave — e, dentro dessa faixa, 4 ou 5 pontos pedem avaliação de terapia intensiva.

Há uma armadilha de unidade escondida no U, e ela separa quem decorou de quem entendeu. A régua original do CURB-65 é ureia acima de 7 mmol/L; a SBPT publica o corte convertido como ureia acima de 50 mg/dL, e é esse o número que o enunciado brasileiro cobra, porque laboratório brasileiro dosa ureia. Já o critério menor de PAC grave da diretriz americana é escrito como uremia com nitrogênio ureico igual ou maior que 20 mg/dL — e nitrogênio ureico não é ureia. O BUN mede só o nitrogênio; a ureia mede a molécula inteira, e a razão entre elas é 2,14. BUN de 20 mg/dL corresponde a ureia de cerca de 43 mg/dL. São dois exames diferentes com nomes parecidos, e trocá-los muda o ponto.

Um detalhe aritmético que a questão adora: um único ponto pode vir só da idade. Um senhor de 82 anos, lúcido, com frequência respiratória de 22, pressão de 130 por 80 e ureia de 38 mg/dL tem CURB-65 igual a 1 — faixa ambulatorial pelo escore, apesar da idade. E o inverso também acontece: um paciente de 40 anos confuso, com frequência de 34 e pressão de 86 por 54, chega a 3 pontos sem ter idade nenhuma a somar. O escore mede fisiologia, não impressão.

O que o CURB-65 não faz: ele não avalia comorbidade. Alcoolismo, insuficiência cardíaca, hepatopatia e neoplasia não entram na conta, e é essa a limitação que o próprio documento brasileiro registra ao dizer que o valor preditivo negativo do CURB-65 fica um pouco abaixo do PSI. Em troca, ele se aplica em dez segundos, à beira do leito, com uma pergunta, um relógio, um esfigmomanômetro e um exame de sangue. É por esse motivo — simplicidade e aplicabilidade imediata — que ele venceu na prática brasileira.

CRB-65: o escore que existe porque a UBS não tem laboratório

Tire a ureia do CURB-65 e sobra o CRB-65: confusão mental, frequência respiratória acima de 30, pressão sistólica abaixo de 90 ou diastólica abaixo de 60, e idade igual ou maior que 65 anos. Quatro itens, total de 0 a 4. A razão de existir está escrita na diretriz: ele é útil em ambientes onde exames laboratoriais não estão disponíveis, como a atenção primária. Numa unidade básica sem coleta, o CURB-65 é inaplicável — e um escore que exige um exame que ninguém vai colher não estratifica ninguém.

As faixas mudam, e mudam para o lado mais conservador. Zero ponto: mortalidade 1,2%, candidato a tratamento ambulatorial. De 1 a 2 pontos: mortalidade 8,15%, avaliar tratamento hospitalar. De 3 a 4 pontos: mortalidade 31%, hospitalização urgente. Compare com o CURB-65, em que 1 ponto ainda é faixa ambulatorial: no CRB-65, 1 ponto já tira o paciente da alta automática.

Isso está explícito no texto brasileiro, e é o trecho que a prova de atenção primária cobra. Considera-se tratamento ambulatorial na ausência de indicação socioeconômica de internação, de comorbidade descompensada, de hipoxemia, de impossibilidade de uso de medicação por via oral e na ausência de pelo menos 2 pontos no CURB-65 — ou de pelo menos 1 ponto no CRB-65, ou de mais de 70 pontos no PSI. Três réguas, três limiares diferentes para a mesma decisão, e o do CRB-65 é o mais baixo dos três.

A lógica do limiar mais baixo é direta: o escore perdeu um item, então perdeu informação, e o erro foi deslocado para o lado seguro. Na prática, o paciente com CRB-65 de 1 ponto — o caso mais comum, em que o ponto é apenas a idade — não vai obrigatoriamente para o hospital; ele passa a exigir uma avaliação explícita de sítio, que inclui olhar a oximetria, a comorbidade e a rede de apoio em casa. Avaliar tratamento hospitalar não é sinônimo de internar, e a diferença entre esses dois verbos costuma ser a diferença entre duas alternativas da questão.

O escore não interna sozinho — e não dá alta sozinho

Escore nenhum tem a palavra final, e as duas diretrizes dizem isso com todas as letras. A americana recomenda, com força e evidência moderada, usar o escore em conjunto com o julgamento clínico para decidir hospitalização. A brasileira lista, ao lado da pontuação, os fatores que internam por conta própria: viabilidade do uso de medicação por via oral, comorbidades associadas, fatores psicossociais e características socioeconômicas que indiquem vulnerabilidade do indivíduo.

Há um número explícito no meio dessa lista, e é o mais cobrado dos vetos. A oximetria deve ser sempre avaliada, e saturação de oxigênio abaixo de 92% deve indicar internação. Não importa que o CURB-65 seja 0: hipoxemia interna. Esse é o detalhe que transforma a questão fácil em questão de dois passos — o enunciado dá um escore baixo e enfia a SpO2 de 88% no meio do exame físico, para ver quem lê o exame inteiro.

A lista completa dos vetos que derrubam a alta, mesmo com escore baixo: hipoxemia; doença associada descompensada — a insuficiência cardíaca que descompensou, o diabetes em cetoacidose, a cirrose que ascitou; impossibilidade de ingestão oral de medicamento, seja por vômito, seja por rebaixamento; e a indicação socioeconômica de internação, que é o eufemismo para o paciente que mora sozinho, mora longe, não tem como comprar o antibiótico ou não tem quem o traga de volta se piorar.

A regra prática que resume o bloco inteiro, e que funciona em qualquer alternativa: escore alto interna sozinho; escore baixo não dá alta sozinho. A pontuação é condição suficiente para hospitalizar, nunca condição suficiente para mandar para casa. Uma questão que apresenta CURB-65 de 3 pontos e pergunta o destino é uma questão de uma linha. Uma que apresenta CURB-65 de 0 ou 1 está, quase sempre, escondendo um veto em algum lugar do exame físico ou da história social.

Quem vai para a UTI: um critério maior ou três menores

A decisão de terapia intensiva tem régua própria, e não é o CURB-65 — que se presta a separar casa de hospital, não enfermaria de UTI. A régua é o conjunto de critérios da ATS e da IDSA, e a regra de leitura é uma frase só: um critério maior, ou três ou mais critérios menores, indica cuidados intensivos.

Os critérios maiores são dois, e cada um vale sozinho: choque séptico com necessidade de vasopressor, e insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica. Repare que ambos são definidos pela intervenção, não pelo número — não é a pressão baixa, é a pressão baixa que exigiu droga vasoativa; não é a hipoxemia, é a hipoxemia que exigiu ventilador. Quem preenche qualquer um dos dois vai direto para a UTI, sem contagem nenhuma.

Os critérios menores, na lista completa da diretriz americana de 2019, são nove: frequência respiratória igual ou maior que 30 incursões por minuto; relação PaO2/FiO2 igual ou menor que 250; infiltrados multilobares; confusão ou desorientação; uremia, com nitrogênio ureico igual ou maior que 20 mg/dL; leucopenia abaixo de 4.000 células por microlitro; plaquetopenia abaixo de 100.000 por microlitro; hipotermia, com temperatura central abaixo de 36 °C; e hipotensão que exija ressuscitação volêmica agressiva. Três deles bastam.

O quadro que o documento brasileiro publica é mais curto, e isso importa quando a questão cita a fonte. A SBPT reproduz uma versão declaradamente simplificada, com os mesmos dois critérios maiores e apenas seis menores: frequência respiratória acima de 30, confusão mental, PaO2/FiO2 abaixo de 250, ureia igual ou maior que 50 mg/dL, infiltrados multilobares e pressão sistólica abaixo de 90 mmHg. Saíram da lista brasileira a leucopenia, a plaquetopenia e a hipotermia. A regra de contagem é idêntica — um maior ou três menores —, mas a tabela curta tem menos casas para preencher, e um paciente com leucopenia e hipotermia pode somar três pelo texto americano e apenas um pelo brasileiro.

Vale saber o quanto essa régua acerta, porque isso muda o peso do resultado negativo. Na ausência de critério maior, a presença de três ou mais menores prediz admissão em UTI com sensibilidade de 56% e especificidade de 91%. Traduzindo: quem preenche vai, com pouca chance de estar indo à toa; quem não preenche não está liberado, porque quase metade dos que acabam precisando de UTI não preenchia o corte na chegada. É exatamente o motivo pelo qual a diretriz manda usar os critérios menores em conjunto com o julgamento clínico e reavaliar de perto nas primeiras horas.

Dois outros escores aparecem no documento brasileiro e costumam entrar como distrator. O SCAP tem critérios maiores com pesos — pH abaixo de 7,30 vale 13 pontos e pressão sistólica abaixo de 90 mmHg vale 11 — e pontuação igual ou maior que 10 prediz maior risco de ventilação mecânica e de droga vasoativa. O SMART-COP soma pressão sistólica abaixo de 90, envolvimento multilobar, albumina abaixo de 3,5 g/dL, frequência respiratória, taquicardia, confusão, oxigenação e pH. Ambos foram desenhados para prever o desfecho grave, não para triar ambulatório — se aparecerem numa alternativa sobre alta para casa, estão fora de lugar.

O antibiótico sai da porta em que o paciente entrou

Decidido o sítio, o esquema empírico é consequência quase automática — e é por isso que errar o sítio erra a questão inteira. No ambulatorial sem comorbidade, sem uso recente de antibiótico, sem fator de risco para resistência e sem alergia, a proposta brasileira é monoterapia: amoxicilina, isolada ou com clavulanato, por 7 dias, ou um macrolídeo — azitromicina por 3 a 5 dias, claritromicina por 7. Nesse grupo, a orientação é evitar fluoroquinolona, por causa do alerta de eventos adversos graves emitido pela agência regulatória americana; a quinolona fica guardada para quem tem fator de risco, doença mais grave ou nenhuma outra opção. Entre os macrolídeos, a azitromicina é preferida no portador de DPOC, por ser mais ativa in vitro contra a maioria das cepas de Haemophilus influenzae.

A diretriz americana escreve o mesmo grupo com dose e com uma condicional relevante: amoxicilina 1 g de 8 em 8 horas, recomendação forte com evidência moderada, ou doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas, condicional. Macrolídeo em monoterapia só onde a resistência local do pneumococo for menor que 25% — e nos Estados Unidos ela passa de 30%, o que na prática tirou o macrolídeo isolado da primeira linha americana. No Brasil o cenário é outro: o levantamento nacional citado pela SBPT encontrou resistência do pneumococo à eritromicina em 17,2% do total de amostras, e os dados mais recentes indicam que a resistência à penicilina não deve ser preocupação nos casos menos graves.

No ambulatorial com comorbidade, com uso recente de antibiótico ou com doença mais grave, a monoterapia sai de cena: entra β-lactâmico associado a macrolídeo, por 5 a 7 dias. Em caso de alergia a essas classes, fluoroquinolona respiratória — moxifloxacino, levofloxacino ou gemifloxacino — pelo mesmo período. As comorbidades que mudam o grupo são as de sempre: DPOC, doença hepática ou renal, câncer, diabetes, insuficiência cardíaca, alcoolismo e imunossupressão. Uso de antibiótico nos três meses anteriores conta como fator de risco isolado.

Na enfermaria, duas rotas equivalentes. Cefalosporina de terceira geração — ceftriaxona ou cefotaxima — ou ampicilina com sulbactam, associadas a um macrolídeo, por 7 a 10 dias; ou fluoroquinolona respiratória em monoterapia, por 5 a 7 dias. O β-lactâmico isolado só é aceitável se houver exclusão confirmada de Legionella. Monoterapia com macrolídeo não está indicada no internado brasileiro, pela prevalência de resistência do pneumococo à classe.

Na UTI, a terapia combinada deixa de ser opção e vira regra. A recomendação é explícita: terapia combinada para todo paciente com PAC grave com indicação de admissão em UTI, porque reduz mortalidade, administrada o mais precocemente possível, preferencialmente com um macrolídeo e um β-lactâmico, ambos por via endovenosa, por 7 a 14 dias. A alternativa é cefalosporina de terceira geração com quinolona respiratória. O racional está nos números: em revisão sistemática com quase 10 mil pacientes com PAC grave, o macrolídeo no esquema associou-se a redução relativa de 18% e redução absoluta de 3% na mortalidade; e a terapia combinada aumenta a chance de o esquema inicial ser adequado, que é a variável independentemente associada à sobrevida.

Duas travas que a prova cobra sempre. Ciprofloxacino não trata PAC comunitária — é quinolona de segunda geração, sem ação confiável contra pneumococo e outros Gram-positivos, e vê-lo numa alternativa de PAC é sinal de distrator. E monoterapia na UTI está errada mesmo quando a droga escolhida é excelente: uma quinolona respiratória isolada, por mais amplo que seja o espectro, contraria a recomendação de combinação na PAC grave.

As doses da tabela brasileira, para não ter de reconstruir na hora: amoxicilina com clavulanato 875/125 mg por via oral de 8 em 8 horas; ampicilina com sulbactam 1,5 a 3 g endovenosa de 6 em 6 ou 8 em 8 horas; azitromicina 500 mg uma vez ao dia, oral ou endovenosa; claritromicina 500 mg de 12 em 12 horas; ceftriaxona 1 g endovenosa de 12 em 12 horas; cefotaxima 1 a 2 g de 8 em 8 horas; levofloxacino 750 mg uma vez ao dia; moxifloxacino 400 mg uma vez ao dia; piperacilina com tazobactam 4 g/0,5 g de 6 em 6 ou 8 em 8 horas.

Atípicos: quando a cobertura entra e quando ela é opcional

Atípicos, neste contexto, são Mycoplasma pneumoniae, Chlamydophila pneumoniae e Legionella — agentes que não respondem a β-lactâmico e exigem macrolídeo, tetraciclina ou quinolona. Cobri-los de rotina no caso leve é uma das controvérsias vivas do tema, e o documento brasileiro trata assim, com essas palavras: a cobertura antibiótica para patógenos atípicos nos casos de PAC de menor gravidade ainda é controversa, e vários estudos não mostraram vantagens com essa conduta.

As escolas se dividem geograficamente, e isso ajuda a ler o enunciado. As orientações britânicas, europeias e da Associação Latino-Americana do Tórax dão menos peso aos atípicos nos casos leves, não recomendam cobri-los de saída e promovem a amoxicilina como primeira escolha, deixando o macrolídeo como alternativa. As orientações americanas historicamente defendem cobrir atípicos e pneumococo desde o início, sugerindo macrolídeo ou doxiciclina quando não há suspeita de resistência.

Onde a cobertura deixa de ser opcional: no ambulatorial com comorbidade ou fator de risco, em que o macrolídeo entra somado ao β-lactâmico; na enfermaria, em que o β-lactâmico isolado só passa com Legionella confirmadamente excluída; e na UTI, em que a combinação é obrigatória e o macrolídeo é o parceiro preferido. Ou seja, a controvérsia é inteira do caso leve — a partir do momento em que o paciente interna, a discussão acaba.

O argumento que sustenta a posição mais enxuta é o da epidemiologia: a incidência de Legionella na PAC não grave é baixa, e em estudos que investigaram sistematicamente essa indicação a monoterapia com β-lactâmico não foi inferior à combinação de β-lactâmico com macrolídeo nem à monoterapia com fluoroquinolona. O achado da investigação mudava a dose, não o desfecho. Um estudo cruzado comparando β-lactâmico isolado, β-lactâmico com macrolídeo e as novas fluoroquinolonas não mostrou inferioridade do β-lactâmico isolado na mortalidade em 90 dias na PAC não grave.

Duração, troca para via oral e alta: a régua é a estabilidade, não o calendário

A recomendação brasileira separa por gravidade. PAC de baixa gravidade em tratamento ambulatorial: monoterapia por 5 dias. PAC de moderada a alta gravidade: 7 a 10 dias com os esquemas discutidos, podendo estender até 14 dias a critério do médico assistente. O quadro de esquemas detalha por linha — amoxicilina 7 dias, azitromicina 3 a 5, claritromicina 7, β-lactâmico com macrolídeo no ambulatorial 5 a 7, enfermaria 7 a 10, quinolona em monoterapia 5 a 7, UTI 7 a 14.

A diretriz americana de 2019 tem uma formulação diferente e mais elegante, e é dela que sai a frase que a prova gosta: a duração deve ser guiada por uma medida validada de estabilidade clínica, e o antibiótico é mantido até o paciente atingir a estabilidade e por nunca menos que 5 dias no total. Recomendação forte, evidência moderada. Cinco dias é piso, não é alvo.

Estabilidade clínica tem definição fechada, e ela cabe numa linha: resolução das alterações de sinais vitais — frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial, saturação de oxigênio e temperatura —, capacidade de se alimentar e mentação normal. São sete itens, todos de beira de leito, nenhum deles laboratorial. Nenhum exame precisa ser repetido para declarar estabilidade.

A consequência prática é a pegadinha mais rentável do tema. Atingida a estabilidade, o paciente troca a via endovenosa pela oral e recebe alta no mesmo dia, completando o tempo total em casa. Não existe período obrigatório de observação depois da troca de via, não existe exigência de completar dias de endovenoso, e não existe radiografia de controle antes de liberar. Cada um desses três rituais aparece como alternativa errada em questão de conduta hospitalar, e todos os três prolongam internação sem benefício demonstrado.

A atualização de 2025 puxou a duração para baixo mais uma vez, com três recomendações separadas por gravidade: no ambulatorial clinicamente estável e no internado com PAC não grave clinicamente estável, menos de 5 dias, com mínimo de 3, ambas condicionais e com evidência de baixa qualidade; no internado com PAC grave já estável, 5 dias ou mais, esta com recomendação forte e consenso unânime do painel. A condição comum às três é a avaliação diária de estabilidade clínica — sem ela, o encurtamento não se sustenta. A divergência entre 7 a 10 dias, mínimo de 5 e mínimo de 3 está no bloco de divergências, com as datas.

MRSA e Pseudomonas: o que morreu junto com a sigla HCAP

Em 2005 e 2007 criou-se a categoria de pneumonia associada a cuidados de saúde, a HCAP, que agrupava quem vinha de casa de repouso, de hemodiálise, de serviço de curativo ou de internação recente, e mandava ampliar o espectro empiricamente para MRSA e Pseudomonas com base nesse critério epidemiológico. A ideia era razoável e o efeito foi ruim: ampliou-se espectro em massa, em população de baixo risco real, com toxicidade e pressão de seleção proporcionais.

A diretriz de 2019 encerrou a categoria, com recomendação forte e evidência moderada: abandonar a categorização prévia de pneumonia associada a cuidados de saúde para orientar a seleção de cobertura antibiótica ampliada. No lugar dela ficaram fatores de risco locais validados, que são poucos e específicos — isolamento prévio do agente, especialmente em amostra respiratória, e hospitalização com uso de antibiótico parenteral nos últimos 90 dias. Quando a cobertura ampliada entra, colhem-se culturas exatamente para poder descalonar; em PAC não grave, o teste nasal rápido para MRSA ajuda a retirar a vancomicina precocemente.

O documento brasileiro é de 2018, um ano anterior, e ainda descreve o grupo de risco pela via antiga — pacientes com contato prévio com serviço de assistência à saúde, incluindo assistência domiciliar, diálise, serviços ambulatoriais de cuidado de feridas crônicas e casas de repouso, nos quais MRSA, enterobactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido e Pseudomonas multirresistente aparecem com frequência, mesmo depois de longos períodos sem internação, apenas por colonização persistente. Os fatores de risco que lista são mais amplos: internação em até 90 dias, uso de antibiótico em 90 dias, imunossupressão, uso de bloqueador gástrico, alimentação enteral, hemodiálise e colonização prévia por bactéria multirresistente ou MRSA nasal.

Quando a cobertura é indicada, os esquemas alvo-específicos da tabela brasileira são: para MRSA adquirido na comunidade, clindamicina, linezolida ou vancomicina, por 7 a 21 dias; para MRSA em geral, linezolida ou vancomicina; para enterobactéria produtora de betalactamase de espectro estendido, ertapenem, por 7 a 14 dias; para Pseudomonas, fluoroquinolona antipseudomonas, piperacilina com tazobactam, meropenem ou polimixina B, em monoterapia ou combinação, por 10 a 14 dias.

O retrato clínico do MRSA comunitário vale guardar porque é o gatilho legítimo para lembrar dele numa vinheta: pneumonia necrosante de evolução rápida, em paciente hígido, podendo estar associada a lesão cutânea ou à prática de esportes coletivos. Não é a procedência institucional que o sugere — é a agressividade do quadro.

O pacote de suporte: corticoide, aspiração e vacina

Corticoide adjuvante é o item que mais se mexeu nos últimos anos, e as três posições estão vivas em provas diferentes. O documento brasileiro de 2018 conclui que o uso na PAC grave se mostrou seguro e benéfico em desfechos clínicos importantes, ressalva que faltam estudos confirmando impacto sobre mortalidade, e orienta priorizar quem tem maior inflamação sistêmica — com a proteína C reativa como marcador para selecionar —, sem extrapolar para PAC de menor gravidade ou ambulatorial. A diretriz de 2019 recomenda não usar corticoide de rotina: recomendação forte, com evidência de alta qualidade, na PAC não grave, e recomendação condicional, com evidência moderada, na PAC grave. A atualização de 2025 inverteu o sinal na PAC grave e passou a sugerir corticoide sistêmico no paciente hospitalizado com PAC grave, recomendação condicional com 94% de consenso, excluindo pneumonia por influenza, e reforçou a recomendação forte contra o uso na PAC não grave hospitalizada. Está detalhado no bloco de divergências.

Na suspeita de pneumonia aspirativa, a recomendação americana é sugerir não acrescentar cobertura anaeróbia de rotina, salvo suspeita de abscesso pulmonar ou empiema — condicional, com evidência de muito baixa qualidade. O documento brasileiro separa dois cenários: na pneumonia aspirativa, quinolona ou cefalosporina de terceira geração por 7 a 10 dias; e na aspiração de conteúdo gástrico, pneumonia necrosante, abscesso pulmonar ou doença periodontal grave, β-lactâmico com inibidor de betalactamase, piperacilina com tazobactam, clindamicina ou moxifloxacino, por 7 a 21 dias. A diferença entre as duas listas é o anaeróbio: ele entra pela complicação, não pelo mecanismo.

Vacinação é parte do manejo, não assunto de outro capítulo. A recomendação brasileira dedica seção própria à vacina anti-influenza e à antipneumocócica, pelo mesmo motivo pelo qual o oseltamivir entra no internado com influenza: a relação entre infecção por influenza e pneumonia bacteriana secundária é forte, e a vacinação reduz intensidade de sintomas, necessidade de hospitalização e mortalidade em portadores de doença crônica. Numa questão de conduta ambulatorial completa, a orientação vacinal na alta é frequentemente a alternativa que fecha o caso.

04

Casa, enfermaria ou UTI

O caminho completo da decisão de sítio, que é o eixo do tema. Os cards abaixo abrem as quatro faixas do CURB-65 com o destino e a mortalidade de cada uma; a tabela fecha com o esquema antibiótico que sai de cada porta. Lembre da assimetria em toda a leitura: a pontuação alta interna sozinha, a pontuação baixa nunca dá alta sozinha.

  1. 1Confirme a PAC: quadro respiratório agudo com febre mais infiltrado novo na radiografia de tórax. Onde houver competência técnica formalmente demonstrada, o ultrassom pulmonar é alternativa aceitável à radiografia.
  2. 2Meça o que pontua, ainda na primeira avaliação: nível de consciência, frequência respiratória, pressão arterial, idade e ureia. Meça também a saturação de oxigênio — ela não pontua no escore, mas interna por conta própria.
  3. 3Some o CURB-65: confusão mental, ureia acima de 50 mg/dL, frequência respiratória acima de 30, pressão sistólica abaixo de 90 ou diastólica abaixo de 60, idade igual ou maior que 65 anos. Um ponto cada, de 0 a 5. Sem laboratório disponível, use o CRB-65, sem a ureia, e desloque o limiar: ali 1 ponto já pede avaliação de tratamento hospitalar.
  4. 4Antes de liberar qualquer paciente de faixa baixa, cheque os vetos: saturação abaixo de 92%, comorbidade descompensada, impossibilidade de usar medicação por via oral, e vulnerabilidade socioeconômica ou psicossocial. Qualquer um deles interna, com escore 0 ou 1.
  5. 5Se o paciente interna, aplique a segunda régua, que é outra: um critério maior — choque séptico com vasopressor ou insuficiência respiratória com ventilação mecânica — manda para a UTI direto; na ausência deles, conte os critérios menores e admita em terapia intensiva a partir de três.
  6. 6Prescreva pelo sítio, não pela impressão de gravidade. Ambulatorial sem comorbidade: monoterapia. Ambulatorial com comorbidade: β-lactâmico mais macrolídeo. Enfermaria: β-lactâmico mais macrolídeo, ou quinolona respiratória isolada. UTI: combinação obrigatória, de preferência β-lactâmico mais macrolídeo, ambos endovenosos.
  7. 7Só investigue etiologia se o resultado puder mudar a conduta: PAC grave, falha da terapia empírica inicial ou internação em UTI. Nada de hemocultura nem de cultura de escarro no ambulatorial. Procalcitonina não decide se o antibiótico começa.
  8. 8Amplie o espectro para MRSA ou Pseudomonas apenas com fator de risco validado — isolamento prévio do agente em amostra respiratória, ou internação com antibiótico parenteral nos últimos 90 dias. Procedência de instituição de longa permanência, isolada, não é mais critério.
  9. 9Reavalie a estabilidade clínica diariamente: sinais vitais normalizados, capaz de se alimentar, mentação normal. Atingida a estabilidade e cumprido o tempo mínimo, troque para via oral e dê alta no mesmo dia, sem observação adicional e sem radiografia de controle.

CURB-65 de 0 a 1 — tratamento em casa

Mortalidade baixa, 1,5%. Candidato ao tratamento ambulatorial com monoterapia. Atenção ao caso mais comum desta faixa: o idoso cujo único ponto é a idade. O escore libera, mas a alta só sai depois de checar oximetria, comorbidade descompensada, tolerância à via oral e condições de retorno. No CRB-65 a faixa equivalente é mais estreita — apenas 0 ponto, com mortalidade de 1,2%.

CURB-65 de 2 — considerar tratamento hospitalar

Mortalidade intermediária, 9,2%. A faixa é de decisão, não de automatismo: o texto brasileiro diz considerar tratamento hospitalar, e a mesma pontuação aparece como o limiar acima do qual o tratamento ambulatorial deixa de ser a escolha natural. Na prática, é a faixa em que a comorbidade, a oximetria e a rede de apoio decidem — e é a faixa que rende as questões mais bem construídas.

CURB-65 de 3 — tratamento hospitalar, como PAC grave

Mortalidade alta, 22% na faixa de 3 a 5 pontos. Aqui a internação deixa de ser discussão e o paciente passa a ser manejado como PAC grave: antibiótico endovenoso, investigação etiológica indicada e avaliação formal dos critérios de terapia intensiva. Três pontos não mandam para a UTI por si — quem manda é a outra régua, a dos critérios maiores e menores.

CURB-65 de 4 a 5 — avaliar terapia intensiva

Mesma faixa de mortalidade alta, 22%, com um acréscimo explícito no documento brasileiro: 4 a 5 pontos pedem avaliação de UTI. Avaliar é a palavra certa — quem decide a admissão é a régua da ATS e da IDSA, um critério maior ou três menores. Na UTI, a terapia combinada deixa de ser preferência e vira regra, de preferência β-lactâmico com macrolídeo, ambos endovenosos.

Onde o paciente vaiQuem cai aquiEsquema empírico e duração (SBPT 2018)O detalhe que a questão testa
CasaCURB-65 de 0 a 1 (ou CRB-65 igual a 0), sem comorbidade, sem uso recente de antibiótico, sem fator de risco para resistência e sem nenhum dos vetos de internaçãoMonoterapia: amoxicilina, isolada ou com clavulanato, 7 dias; ou azitromicina 3 a 5 dias; ou claritromicina 7 diasEvitar fluoroquinolona neste grupo, pelo alerta regulatório de eventos adversos graves. A azitromicina é a preferida no portador de DPOC, por melhor atividade contra Haemophilus influenzae.
Casa, com esquema ampliadoMesma faixa de escore, mas com comorbidade (DPOC, doença hepática ou renal, câncer, diabetes, insuficiência cardíaca, alcoolismo, imunossupressão), uso de antibiótico nos últimos três meses ou doença mais graveβ-lactâmico associado a macrolídeo, 5 a 7 dias. Em caso de alergia às duas classes, fluoroquinolona respiratória (moxifloxacino, levofloxacino ou gemifloxacino), 5 a 7 diasA comorbidade não muda o sítio, muda o espectro. É aqui que a cobertura de atípicos deixa de ser controversa e passa a ser recomendada.
EnfermariaCURB-65 igual a 2 com fatores que pesem para internar, CURB-65 igual ou maior que 3, ou qualquer paciente com veto de internação — hipoxemia, comorbidade descompensada, intolerância à via oral, vulnerabilidade socialCeftriaxona ou cefotaxima ou ampicilina com sulbactam, associadas a um macrolídeo, 7 a 10 dias; ou fluoroquinolona respiratória em monoterapia, 5 a 7 diasβ-lactâmico isolado só com Legionella confirmadamente excluída. Monoterapia com macrolídeo não se aplica ao internado brasileiro, pela resistência do pneumococo à classe.
UTIUm critério maior — choque séptico com vasopressor ou insuficiência respiratória com ventilação mecânica —, ou três ou mais critérios menoresTerapia combinada obrigatória: cefalosporina de terceira geração ou ampicilina com sulbactam mais macrolídeo, ambos endovenosos, 7 a 14 dias; alternativa, cefalosporina de terceira geração mais quinolona respiratóriaMonoterapia é erro mesmo com droga de amplo espectro. O macrolídeo no esquema associou-se a redução relativa de 18% e absoluta de 3% na mortalidade da PAC grave.

Os critérios de terapia intensiva não servem para decidir tratamento ambulatorial — o próprio documento que os publica diz isso e remete ao PSI ou ao CURB-65 para essa decisão. São duas perguntas distintas com duas réguas distintas: uma separa casa de hospital, a outra separa enfermaria de UTI.

O quadro brasileiro de critérios menores é uma versão declaradamente simplificada, com seis itens: frequência respiratória acima de 30, confusão mental, PaO2/FiO2 abaixo de 250, ureia igual ou maior que 50 mg/dL, infiltrados multilobares e pressão sistólica abaixo de 90 mmHg. A lista americana de 2019 tem nove — acrescenta leucopenia abaixo de 4.000, plaquetopenia abaixo de 100.000 e hipotermia abaixo de 36 °C. A regra de contagem é a mesma, mas o mesmo paciente pode somar três pela lista longa e menos pela curta.

Cuidado com a unidade da ureia. O CURB-65 brasileiro usa ureia acima de 50 mg/dL; o critério menor americano usa nitrogênio ureico igual ou maior que 20 mg/dL, que é outro exame. A razão entre ureia e nitrogênio ureico é 2,14, de modo que BUN de 20 mg/dL equivale a ureia de cerca de 43 mg/dL. Enunciado brasileiro dá ureia — some com o corte de 50.

Ciprofloxacino não entra em PAC comunitária: é quinolona de segunda geração, sem ação confiável contra pneumococo. Numa lista de alternativas, ele quase sempre é distrator.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual escore de gravidade guia a decisão de hospitalizar: CURB-65 ou PSI/PORT

CURB-65 e CRB-65 como instrumentos de escolha na prática brasileira — SBPT, 2018

O documento brasileiro apresenta os dois escores lado a lado, com os quadros do PSI e as figuras do CURB-65 e do CRB-65, e reconhece a validação de ambos. Registra que a maior limitação do CURB-65 é não incluir comorbidades — alcoolismo, insuficiência cardíaca ou hepática, neoplasia —, o que deixa seu valor preditivo negativo de mortalidade um pouco abaixo do PSI. E registra o que o compensa: simplicidade, aplicabilidade imediata e facilidade de uso, em ambiente hospitalar ou não. Do PSI, aponta a fragilidade oposta: por ponderar muito idade e comorbidade, pode subestimar a gravidade em paciente jovem sem doença associada, além de exigir 20 variáveis e, na prática, calculadora on-line. O limiar operacional que o texto fixa para reconsiderar o tratamento ambulatorial é de pelo menos 2 pontos no CURB-65, ou pelo menos 1 no CRB-65, ou mais de 70 pontos no PSI.

Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Recomendações para o manejo da pneumonia adquirida na comunidade — 2018. J Bras Pneumol. 2018;44(5):405-423, Quadros 1 e 2 e Figuras 1 e 2

PSI preferencialmente ao CURB-65, com recomendação forte — ATS/IDSA, 2019

A diretriz americana recomenda usar uma regra de predição clínica validada para prognóstico em conjunto com o julgamento clínico, preferencialmente o Pneumonia Severity Index em vez do CURB-65 — recomendação forte, com evidência de qualidade moderada. O argumento é de desempenho: o PSI tem maior poder discriminatório para mortalidade e produz menos falso-positivo de gravidade, o que se traduz em menos internação desnecessária. O painel considera a complexidade do cálculo um custo aceitável, dada a disponibilidade de calculadoras integradas ao prontuário eletrônico.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official ATS/IDSA Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67

Na prova

O recorte se identifica pelas próprias alternativas antes de qualquer outra coisa. Se as opções trazem faixas de 0 a 5 pontos com destino de tratamento, a questão está escrita no mundo do CURB-65; se trazem classes de risco de I a V com faixas de pontuação em dezenas, está no mundo do PSI. O segundo sinal é o cenário: enunciado de UBS, de unidade de pronto-atendimento do SUS ou de atenção primária sem laboratório está no terreno do CRB-65, que existe exatamente para esse ambiente; enunciado de centro terciário com prontuário eletrônico e menção nominal à ATS ou à IDSA abre espaço para o PSI. O terceiro sinal é o dado ofertado: vinheta que informa albumina, hematócrito, sódio, glicose e derrame pleural está entregando variáveis que só o PSI usa; vinheta que informa apenas consciência, frequência respiratória, pressão, idade e ureia está entregando o CURB-65 inteiro e nada além dele. Vale a régua geral: prova oficial do MEC tende a conduta SUS, e a conduta SUS aqui é escrita sobre o documento brasileiro; outras bancas dependem do que as alternativas revelam. Registre os anos e a natureza da diferença — o Brasil não considera o PSI inferior, e sim menos exequível: 20 variáveis contra 5 é uma restrição de disponibilidade de exame e de tempo de beira de leito, não uma discordância sobre acurácia.

Quando ampliar o espectro empírico para MRSA e Pseudomonas

Grupo de risco definido por contato com serviço de assistência à saúde — SBPT, 2018

O texto brasileiro descreve um grupo de pacientes com contato prévio com serviços de assistência à saúde — assistência domiciliar, diálise, serviços ambulatoriais de cuidado de feridas crônicas, casas de repouso — nos quais MRSA, enterobactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido e Pseudomonas multirresistentes aparecem como agentes frequentes, mesmo após longos períodos sem internação, por colonização persistente. Lista como fatores de risco: internação em até 90 dias, uso de antibiótico nos últimos 90 dias, imunossupressão, uso de bloqueador gástrico, alimentação enteral, hemodiálise e colonização intestinal prévia por bactéria multirresistente ou MRSA nasal.

Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Recomendações para o manejo da PAC — 2018. J Bras Pneumol. 2018;44(5):405-423, seção de terapia alvo-específica e Quadro 5

Categoria de pneumonia associada a cuidados de saúde abandonada, com cobertura por fator de risco local validado — ATS/IDSA, 2019

A diretriz recomenda abandonar a categorização prévia de pneumonia associada a cuidados de saúde para orientar a seleção de cobertura antibiótica ampliada — recomendação forte, com evidência de qualidade moderada. A cobertura empírica de MRSA ou Pseudomonas passa a depender de fatores de risco localmente validados, essencialmente dois: isolamento prévio do agente, sobretudo em amostra respiratória, e hospitalização com uso de antibiótico parenteral nos últimos 90 dias. Quando a cobertura ampliada é iniciada, recomenda-se colher culturas para permitir a descalonação, e em PAC não grave o rastreio nasal rápido para MRSA pode orientar a retirada precoce da vancomicina. O motivo declarado da mudança é o excesso de espectro gerado pelo critério epidemiológico anterior, em população de baixo risco real.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. ATS/IDSA Clinical Practice Guideline on Community-acquired Pneumonia. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67

Na prova

Aqui a diferença é de data e de direção do movimento, e ela é identificável no vocabulário. Enunciado ou alternativa que use a expressão pneumonia associada a cuidados de saúde, ou a sigla em inglês, está escrito no mundo anterior a 2019 — e nesse mundo a procedência institucional basta para ampliar o espectro. Enunciado que descreva o paciente pela história microbiológica, citando isolamento prévio de MRSA ou de Pseudomonas em cultura respiratória, ou internação com antibiótico endovenoso nos últimos 90 dias, está no mundo pós-2019. Um segundo sinal está nas alternativas: se alguma delas oferece vancomicina somada a piperacilina com tazobactam para um paciente cujo único fator é vir de casa de repouso, essa opção só faz sentido no documento antigo — e a existência dela no rol denuncia o recorte da questão. Registre os anos: a categoria foi criada em 2005 e 2007, o documento brasileiro é de 2018 e ainda descreve o grupo de risco pela via ampla, e o abandono formal vem da diretriz de 2019. A diferença não é de qualidade técnica entre os documentos: é o intervalo de um ano entre duas publicações, com a brasileira anterior à revisão que aposentou a categoria.

Por quantos dias tratar a PAC

Cinco dias no caso leve, 7 a 10 dias na PAC moderada a grave, até 14 a critério clínico — SBPT, 2018

A recomendação brasileira separa por gravidade e fixa faixas: PAC de baixa gravidade em tratamento ambulatorial, monoterapia por 5 dias; PAC de moderada a alta gravidade, 7 a 10 dias, podendo ser estendida até 14 dias a critério do médico assistente. O quadro de esquemas detalha por linha de tratamento — enfermaria 7 a 10 dias, quinolona respiratória em monoterapia 5 a 7 dias, UTI 7 a 14 dias.

Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Recomendações para o manejo da PAC — 2018. J Bras Pneumol. 2018;44(5):405-423, Quadro 5 e seção sobre duração do tratamento

Mínimo de cinco dias, com a duração guiada por estabilidade clínica — ATS/IDSA, 2019

A duração deve ser guiada por uma medida validada de estabilidade clínica — resolução das alterações de sinais vitais, capacidade de se alimentar e mentação normal —, e o antibiótico é mantido até que o paciente atinja a estabilidade e por não menos que 5 dias no total. Recomendação forte, com evidência de qualidade moderada. O piso é de 5 dias; o teto é definido pelo paciente, não pelo calendário.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. ATS/IDSA Clinical Practice Guideline on Community-acquired Pneumonia. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67

Menos de cinco dias, com mínimo de três, no paciente estável não grave — ATS, atualização de 2025

A atualização assinada pela ATS encurtou a duração em duas das três situações. No paciente ambulatorial clinicamente estável e no internado com PAC não grave clinicamente estável, sugere-se menos de 5 dias de antibiótico, com mínimo de 3 — ambas recomendações condicionais, com evidência de baixa qualidade. No internado com PAC grave que atingiu estabilidade, mantém-se 5 dias ou mais, esta com recomendação forte e consenso unânime do painel. Todas as três exigem avaliação diária de estabilidade clínica. A IDSA não endossou esta atualização, por discordância em outro domínio — o do antibiótico em paciente com teste viral respiratório positivo — e mantém a diretriz de 2019 como referência para seus membros.

Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia: An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24; e IDSA Position Statement: Why IDSA Did Not Endorse the Community-Acquired Pneumonia Guidelines 2025 Update. Clin Infect Dis. 2025

Na prova

Três documentos, três números, e o sinal está no que a vinheta descreve no momento da pergunta. Se o enunciado detalha os sinais vitais do dia e pergunta quando suspender, está trabalhando com duração guiada por estabilidade — o mundo de 2019 e de 2025. Se apenas diz que o paciente tem PAC e pergunta por quantos dias tratar, sem descrever evolução, está pedindo a faixa fixa, que no material brasileiro é 5 dias no leve e 7 a 10 dias no moderado a grave. Menção nominal a uma sociedade resolve na hora: a SBPT publica faixas, a diretriz de 2019 publica um piso de 5 dias, e a atualização de 2025 é a única que autoriza terminar antes de 5 dias, sempre com o mínimo de 3 e sempre no paciente estável não grave. Um distrator que ofereça 3 dias só existe no mundo de 2025; um que ofereça 14 dias para PAC leve não existe em nenhum dos três. Registre os anos e a natureza do movimento: a direção do tempo é sempre de encurtamento, e o encurtamento acompanha a difusão de critérios objetivos de estabilidade — não é discordância sobre eficácia, é uma década de estudos de não-inferioridade chegando ao texto.

Corticoide sistêmico adjuvante na PAC grave

Seguro e benéfico na PAC grave, priorizando quem tem maior inflamação sistêmica — SBPT, 2018

O documento brasileiro conclui que o uso de corticoide na PAC grave se mostrou tanto seguro quanto benéfico em diversos desfechos clínicos importantes, com meta-análises sugerindo redução de mortalidade sobretudo no subgrupo de apresentação mais grave, embora ressalve que novos estudos são necessários para confirmar esse impacto. Orienta evitar o uso indiscriminado e priorizar indivíduos com maior propensão a benefício, isto é, com maior grau de inflamação sistêmica, apontando a proteína C reativa como biomarcador útil para essa seleção. Registra explicitamente que essas indicações não devem ser extrapoladas para pacientes com PAC de menor gravidade e em tratamento ambulatorial.

Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Recomendações para o manejo da PAC — 2018. J Bras Pneumol. 2018;44(5):405-423, seção sobre corticoide como tratamento adjuvante

Não usar de rotina, nem na PAC não grave nem na grave — ATS/IDSA, 2019

A diretriz recomenda não usar corticosteroides de rotina em adultos com PAC não grave — recomendação forte, com evidência de alta qualidade — e sugere não usar de rotina em adultos com PAC grave — recomendação condicional, com evidência de qualidade moderada. O painel considerou que os estudos anteriores com resultado favorável apresentavam limitações metodológicas que não sustentavam a incorporação.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. ATS/IDSA Clinical Practice Guideline on Community-acquired Pneumonia. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67

Sugerido no internado com PAC grave, exceto influenza — ATS, atualização de 2025

A atualização assinada pela ATS passou a sugerir corticoide sistêmico no paciente hospitalizado com PAC grave — recomendação condicional, com evidência de baixa qualidade e 94% de consenso do painel —, excluindo os casos de pneumonia por influenza. Os fatores que reforçam a indicação são o início precoce, nas primeiras 24 horas após o paciente preencher critérios de gravidade, a presença de insuficiência respiratória e biomarcadores inflamatórios elevados. Para o internado com PAC não grave, a atualização recomenda não administrar corticoide sistêmico, com recomendação forte e consenso unânime.

Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia: An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24

Na prova

As três posições concordam num ponto e é por ele que se começa a ler qualquer alternativa: ninguém defende corticoide em PAC leve ou ambulatorial — a posição contra, nesse subgrupo, é forte e unânime nos três documentos. A divergência vive inteira na PAC grave hospitalizada, e o sinal decisivo é a data citada. Enunciado que mencione a diretriz de 2019 está no texto que sugere não usar; enunciado que mencione atualização recente da ATS, ou que descreva o paciente com choque, insuficiência respiratória e proteína C reativa muito elevada nas primeiras horas, está no terreno em que o corticoide passou a ser sugerido. O documento brasileiro ocupa uma posição intermediária e antiga, de 2018: considera seguro e benéfico, mas condiciona à seleção de quem tem maior inflamação. Repare também na exceção que a atualização de 2025 carrega e que costuma ser o fiel da questão: pneumonia por influenza fica de fora da sugestão. E note a razão do descompasso — o intervalo entre 2019 e 2025 é o intervalo em que ensaios clínicos de corticoide em PAC grave amadureceram; a mudança é acúmulo de evidência nova, não revisão de opinião sobre a mesma evidência.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos, diabético tipo 2 em uso regular de metformina, procura o pronto-socorro com 4 dias de febre aferida de até 38,7 °C, tosse com expectoração amarelada e dispneia progressiva aos médios esforços. Nega vômitos e está aceitando líquidos. Mora com a esposa, a três quarteirões da unidade. Exame: orientado no tempo e no espaço, colaborativo; FR 26 irpm; PA 118/74 mmHg; FC 104 bpm; temperatura axilar 38,2 °C; SpO2 89% em ar ambiente; crepitações em terço médio e base do hemitórax direito, com frêmito toracovocal aumentado nessa região; sem edema de membros inferiores, sem turgência jugular, sem terceira bulha. Radiografia de tórax: consolidação em lobo inferior direito, com broncograma aéreo, sem derrame pleural. Laboratório: leucócitos 16.400/mm³ com 8% de bastões, plaquetas 232.000/mm³, ureia 62 mg/dL, creatinina 1,1 mg/dL, glicemia 186 mg/dL, sódio 138 mEq/L. Gasometria arterial em ar ambiente: pH 7,44; PaO2 58 mmHg; PaCO2 33 mmHg; bicarbonato 22 mEq/L.
achado
Quadro respiratório agudo febril com consolidação nova na radiografia: PAC confirmada. O frêmito aumentado e o broncograma aéreo são a assinatura da consolidação — via aérea pérvia dentro de um parênquima preenchido —, e afastam derrame pleural como causa do achado. O diagnóstico está fechado no primeiro parágrafo, o que sinaliza que a questão é de decisão de sítio.
achado
CURB-65, item a item. Confusão mental: ausente, o paciente está orientado e colaborativo — 0. Ureia 62 mg/dL, acima do corte de 50 — 1 ponto. Frequência respiratória 26, abaixo do corte de 30 — 0. Pressão 118 por 74, acima dos dois cortes — 0. Idade 68 anos, igual ou maior que 65 — 1 ponto. Total: 2 pontos, faixa de mortalidade intermediária, 9,2%, com orientação de considerar tratamento hospitalar.
achado
A oximetria resolve a hesitação da faixa de 2 pontos. SpO2 de 89% em ar ambiente está abaixo do corte de 92% que, isoladamente, indica internação — e a gasometria confirma com PaO2 de 58 mmHg. Não é preciso ponderar rede de apoio nem distância: a hipoxemia interna sozinha, e internaria mesmo que o escore fosse 0.
achado
Contagem dos critérios de terapia intensiva, que é a régua seguinte e independente. Critérios maiores: não há choque séptico com vasopressor nem insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica — nenhum. Critérios menores presentes: ureia igual ou maior que 50 mg/dL, um. Frequência respiratória de 26 não atinge 30; a consolidação é unilobar; não há confusão; a pressão não exigiu ressuscitação agressiva; leucócitos e plaquetas estão acima dos cortes de leucopenia e plaquetopenia; a temperatura está elevada, não abaixo de 36 °C. Um critério menor apenas, contra o corte de três: enfermaria, não UTI.
conduta
Internação em enfermaria, com oxigênio suplementar titulado pela oximetria e hidratação. Antibiótico empírico de enfermaria: ceftriaxona 1 g endovenosa de 12 em 12 horas associada a azitromicina 500 mg ao dia, por 7 a 10 dias. A alternativa equivalente seria fluoroquinolona respiratória em monoterapia por 5 a 7 dias. Não se usa β-lactâmico isolado sem excluir Legionella, e monoterapia com macrolídeo não se aplica ao internado.
conduta
Investigação etiológica: aqui ela é discutível, porque o paciente não preenche PAC grave. Pelo texto brasileiro, colhe-se em PAC grave, em falha da terapia empírica ou em internado em UTI — nenhum dos três se aplica. Pelo texto americano, hemocultura e cultura de escarro entram no internado com PAC grave, com fator de risco para MRSA ou Pseudomonas, ou com internação e antibiótico parenteral nos últimos 90 dias. O diabetes não é, por si, gatilho de cultura nem de ampliação de espectro.
conduta
Plano de alta desde o primeiro dia: reavaliar diariamente frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão, saturação, temperatura, aceitação alimentar e nível de consciência. Normalizados esses sete itens e cumprido o mínimo de 5 dias, troca-se para via oral e o paciente vai para casa no mesmo dia, completando o tempo em domicílio. Não se prolonga o endovenoso para completar dias, não se observa 48 horas após a troca de via e não se pede radiografia de controle para liberar.
07

Agora feche você

Homem de 61 anos, tabagista de 30 maços-ano, sem outras comorbidades conhecidas, trazido ao pronto-socorro pela filha por 5 dias de febre e tosse, com piora acentuada nas últimas 12 horas e confusão iniciada hoje. A filha relata que ele não reconheceu o endereço de casa e não sabia informar o dia. Exame na admissão: desorientado no tempo e no espaço, mas sem déficit focal e sem rigidez de nuca; FR 34 irpm com uso de musculatura acessória; PA 104/68 mmHg; FC 118 bpm; temperatura axilar 38,9 °C; SpO2 88% em máscara não reinalante — recebe FiO2 estimada de 0,5, com PaO2 de 105 mmHg na gasometria colhida em seguida. Ausculta com crepitações difusas em base esquerda e em todo o hemitórax direito. Sem uso de droga vasoativa até o momento e sem indicação imediata de intubação, mantendo drive respiratório preservado. Laboratório: leucócitos 21.000/mm³, plaquetas 148.000/mm³, ureia 58 mg/dL, creatinina 1,4 mg/dL, lactato 2,1 mmol/L. Radiografia de tórax: consolidações em lobo inferior esquerdo e em lobos médio e inferior direitos. Sem internação prévia, sem uso de antibiótico no último ano e sem isolamento anterior de qualquer germe.
achado
PAC confirmada, com envolvimento de mais de um lobo em ambos os hemitórax. A confusão é nova, sem déficit focal e sem sinal meníngeo, no contexto de infecção respiratória com hipoxemia — encefalopatia da doença aguda, não um segundo diagnóstico neurológico. Ela conta como item de escore e como critério de gravidade.
achado
CURB-65: confusão presente, 1 ponto; ureia 58 mg/dL, acima de 50, 1 ponto; frequência respiratória 34, acima de 30, 1 ponto; pressão 104 por 68, acima dos dois cortes, 0; idade 61 anos, abaixo de 65, 0. Total 3 pontos — faixa de mortalidade alta, 22%, com indicação de tratamento hospitalar e manejo como PAC grave.
achado
Relação PaO2/FiO2: 105 dividido por 0,5 resulta em 210, abaixo do corte de 250. É um dos critérios menores, e o dado foi ofertado justamente para ser calculado — a saturação de 88% sob máscara já sinalizava que a troca gasosa estava ruim apesar do oxigênio ofertado.
achado
Critérios maiores de PAC grave: ausentes. Não há choque séptico com necessidade de vasopressor — a pressão está acima de 90 mmHg de sistólica e não houve droga vasoativa — nem insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica no momento. A decisão, portanto, depende inteiramente da contagem dos menores.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Usar os critérios de UTI para decidir se o paciente vai para casa São réguas diferentes para perguntas diferentes. O CURB-65 e o PSI separam tratamento domiciliar de hospitalar; os critérios maiores e menores da ATS e da IDSA separam enfermaria de terapia intensiva e não se prestam à avaliação de paciente ambulatorial — o próprio documento que os publica diz isso e remete ao PSI ou ao CURB-65 para essa decisão. Um paciente que não preenche nenhum critério menor não está, por isso, liberado para casa.
  2. 2Trocar ureia por nitrogênio ureico na hora de somar o ponto O CURB-65 brasileiro pontua com ureia acima de 50 mg/dL; o critério menor de PAC grave da diretriz americana é escrito com nitrogênio ureico igual ou maior que 20 mg/dL. São exames diferentes: o BUN mede só o nitrogênio, a ureia mede a molécula inteira, e a razão entre eles é 2,14 — BUN de 20 mg/dL equivale a ureia de cerca de 43 mg/dL. Quem aplica o corte de 50 sobre um BUN deixa de pontuar quase todo mundo; quem aplica o corte de 20 sobre uma ureia pontua quase todo mundo.
  3. 3Dar alta a quem tem escore baixo sem olhar a oximetria É a pegadinha mais rentável do tema e a mais fácil de evitar. Saturação de oxigênio abaixo de 92% deve indicar internação, com qualquer pontuação. A oximetria não entra no CURB-65 nem no CRB-65, e é exatamente por isso que o enunciado a esconde no meio do exame físico de um paciente com escore 0 ou 1. Ao lado dela, os outros vetos: comorbidade descompensada, impossibilidade de uso de medicação por via oral e vulnerabilidade socioeconômica.
  4. 4Prescrever ciprofloxacino, ou macrolídeo isolado, para PAC O ciprofloxacino é quinolona de segunda geração e não tem ação confiável contra pneumococo e outros Gram-positivos — não trata PAC comunitária, e sua presença numa alternativa costuma ser distrator. Já o macrolídeo em monoterapia tem lugar apenas no ambulatorial sem comorbidade; no internado brasileiro ele não se aplica, pela prevalência de resistência do pneumococo à classe, que o levantamento nacional citado pela SBPT estimou em 17,2% das amostras.
  5. 5Fazer monoterapia na PAC grave porque a droga escolhida é de amplo espectro Na PAC com indicação de UTI a terapia combinada é a recomendação, e o argumento não é espectro, é mortalidade: o macrolídeo no esquema associou-se a redução relativa de 18% e absoluta de 3% na mortalidade, e a combinação aumenta a chance de o esquema inicial ser adequado, que é o que se associa independentemente à sobrevida. Uma quinolona respiratória isolada, por mais ampla que seja, contraria a recomendação nesse cenário.
  6. 6Segurar o paciente estável no hospital para completar dias de endovenoso A régua de alta é a estabilidade clínica: sinais vitais normalizados, capacidade de se alimentar e mentação normal. Atingida a estabilidade e cumprido o tempo mínimo, troca-se para via oral e o paciente recebe alta no mesmo dia, completando o tratamento em casa. Não existe período obrigatório de observação após a troca de via, nem exigência de completar o total por via endovenosa.
  7. 7Pedir radiografia de controle antes de liberar A recomendação é forte contra a imagem de seguimento de rotina em quem teve resolução dos sintomas. O infiltrado leva semanas para limpar e a persistência radiológica em paciente assintomático não indica falha terapêutica nem prolonga antibiótico — só gera internação estendida e exames em cascata. Rastreio de câncer de pulmão, quando indicado, segue critério próprio e independente.
  8. 8Ampliar o espectro porque o paciente veio de casa de repouso A categoria de pneumonia associada a cuidados de saúde foi abandonada, com recomendação forte, justamente porque o critério epidemiológico ampliava espectro em massa numa população de baixo risco real. O que sobrou é específico: isolamento prévio de MRSA ou Pseudomonas, sobretudo em amostra respiratória, e hospitalização com antibiótico parenteral nos últimos 90 dias. Procedência institucional, sozinha, não indica vancomicina nem cobertura antipseudomonas.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O Streptococcus pneumoniae é o agente mais comum de pneumonia adquirida na comunidade típica, com consolidação lobar, febre alta e dor pleurítica. Mycoplasma causa pneumonia atípica, mais em jovens, com quadro arrastado e radiografia intersticial. Legionella associa-se a sintomas gastrointestinais, hiponatremia e exposição a água/ar-condicionado. Pseudomonas é agente de pacientes com bronquiectasias/DPOC grave ou hospitalares. S. aureus é mais frequente pós-influenza ou em usuários de drogas endovenosas.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a questão os usa. CURB-65: confusão mental, ureia acima de 50 mg/dL, frequência respiratória acima de 30, sistólica abaixo de 90 ou diastólica abaixo de 60, idade igual ou maior que 65 — 1 ponto cada. Faixas: 0 a 1 ambulatorial, mortalidade 1,5%; 2 considerar hospitalar, 9,2%; 3 a 5 hospitalar como PAC grave, 22%, e 4 a 5 avaliam UTI. CRB-65, sem ureia: 0 ambulatorial, 1,2%; 1 a 2 avaliar hospitalar, 8,15%; 3 a 4 hospitalização urgente, 31%. Veto que interna com qualquer escore: SpO2 abaixo de 92%. UTI: um critério maior — choque séptico com vasopressor ou insuficiência respiratória com ventilação mecânica — ou três dos nove menores (FR igual ou maior que 30; PaO2/FiO2 igual ou menor que 250; infiltrados multilobares; confusão; BUN igual ou maior que 20 mg/dL; leucócitos abaixo de 4.000; plaquetas abaixo de 100.000; temperatura abaixo de 36 °C; hipotensão exigindo ressuscitação agressiva) — o quadro brasileiro simplificado traz só seis, sem leucopenia, plaquetopenia e hipotermia. Antibiótico: ambulatorial sem comorbidade, amoxicilina 7 dias ou azitromicina 3 a 5; com comorbidade, β-lactâmico mais macrolídeo 5 a 7; enfermaria, ceftriaxona mais macrolídeo 7 a 10, ou quinolona respiratória isolada 5 a 7; UTI, combinação endovenosa obrigatória 7 a 14. Alta: sinais vitais normalizados, come e está lúcido, mínimo de 5 dias, troca para via oral e alta no mesmo dia.

em 30 dias

As quatro divergências e o que cada uma exige. A do escore, entre o CURB-65 que o Brasil usa por exequibilidade e o PSI que a diretriz de 2019 recomenda fortemente por acurácia — identifique pelo formato das alternativas, faixas de 0 a 5 contra classes de I a V, e pelas variáveis que a vinheta oferta. A do espectro ampliado, entre o grupo de risco por contato com serviço de saúde, do texto brasileiro de 2018, e o abandono formal da categoria em 2019, que deixou só isolamento prévio do agente e internação com antibiótico parenteral em 90 dias. A da duração, entre 7 a 10 dias da faixa brasileira, o piso de 5 dias atrelado à estabilidade de 2019, e o teto de menos de 5 dias, com mínimo de 3, da atualização de 2025. E a do corticoide, em que os três documentos concordam contra o uso na PAC leve e divergem na PAC grave — benéfico com seleção pela inflamação em 2018, não usar de rotina em 2019, sugerido com exceção para influenza em 2025. Revise junto o que sustenta cada decisão: a assimetria do escore, que interna sozinho mas nunca dá alta sozinho; a especificidade de 91% contra sensibilidade de 56% dos critérios menores, que explica por que o resultado negativo não libera ninguém; e o motivo de a IDSA não ter endossado a atualização de 2025, que é o antibiótico no paciente com teste viral positivo, não a duração nem o corticoide.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 68 anos, diabético, com 4 dias de febre, tosse produtiva e dispneia; consolidação em lobo inferior direito, ureia de 62 mg/dL e SpO2 de 89% em ar ambiente — pronto-socorro de clínica médica — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Pneumonia adquirida na comunidade — Preparatório para provas | OsceLabs