Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Antibioticoprofilaxia cirúrgica

A prova não pergunta se antibiótico previne infecção: entrega uma cirurgia e cobra seis decisões numéricas — classe da ferida, indicação, droga e dose, minuto da administração, repique e quando parar.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 30 anos, vítima de ferimento por projétil de arma de fogo em abdome há 2 horas, é levado à laparotomia exploradora de urgência. No intraoperatório, evidencia-se perfuração de alça de intestino delgado com extravasamento de conteúdo entérico e contaminação da cavidade peritoneal, sem coleção purulenta franca ou peritonite estabelecida. Segundo a classificação de feridas operatórias do CDC (National Research Council), esta ferida é classificada como:

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Como esse tema cai

Este capítulo é sobre prevenir. A infecção de sítio cirúrgico que já apareceu no quinto dia — ferida quente, drenando secreção, abrindo — tem capítulo próprio nesta apostila, junto com a deiscência: lá a pergunta é abrir, drenar, colher cultura e escolher o antibiótico terapêutico. Aqui a pergunta é a dose que deveria ter entrado na veia quarenta minutos antes da incisão. Da infecção, este capítulo usa só o que a decisão de prevenir exige: quanto cada tipo de ferida costuma infectar e qual microbiota vai infectá-la.

O eixo é uma frase, e ela é sempre a mesma: dada esta cirurgia, o antimicrobiano entra ou não entra; se entra, qual droga, em que dose, em que minuto, com quantas repetições dentro da sala e até quando. São seis campos, todos com resposta numérica, e nenhum deles é opinião. O candidato costuma acertar dois — o nome da droga e o fato de que existe uma janela — e errar os outros quatro, que são exatamente os que a questão bem feita cobra.

Um aviso que muda a forma de estudar: aqui, diferente da tromboprofilaxia, o Brasil tem documento oficial, e tem mais de um. A Portaria MS nº 2.616/1998 define por norma federal as quatro classes de ferida. O Caderno 4 da Anvisa (2017) traz um capítulo inteiro de prevenção de infecção cirúrgica e um anexo com droga, dose, repique e duração por sítio operatório. O Protocolo de Prevenção de ISC da Anvisa (2025) é o documento mais recente e é dele que saem os números que valem hoje. E o Protocolo para Cirurgia Segura do Ministério da Saúde (2013) coloca a pergunta na pausa cirúrgica: o antimicrobiano foi feito nos últimos 60 minutos? Quando a banca escolhe um recorte brasileiro, é nesses quatro papéis que ela está.

As cinco perguntas que se repetem: em que classe está esta ferida, se há indicação de profilaxia nessa classe, qual droga e dose para este sítio (e o que muda com o peso e com a alergia), quantos minutos antes e se precisa repetir, e quando a profilaxia acaba. Todas as cinco têm resposta com número.

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O que muda decisão

O que a profilaxia faz: concentração tecidual no momento do corte

Profilaxia cirúrgica não é 'cobrir o paciente' por alguns dias. É garantir que, no instante em que o bisturi abre a pele, já exista concentração bactericida da droga no soro e no tecido que vai ser incisado. Tudo o que este capítulo discute — o minuto da dose, o repique, o teto de duração — é consequência dessa única definição. Se a concentração está lá na hora do corte, a profilaxia foi feita; se não está, ela não vira profilaxia por ser mantida três dias depois.

A segunda definição que organiza o resto: a infecção pós-operatória é causada, em regra, pela microbiota do próprio paciente. É por isso que a droga se escolhe pelo sítio, e não pela gravidade do doente. Pele significa cocos gram-positivos, e cefazolina resolve. Cólon significa gram-negativos e anaeróbios, e cefazolina sozinha não resolve. Trato biliar, trato urinário, orofaringe e vagina têm cada um a sua flora, e a tabela de escolha é a tradução direta disso.

Vale guardar a magnitude, porque ela justifica o rigor. A infecção de sítio cirúrgico é a complicação mais comum do ato cirúrgico e ocorre em cerca de 3% a 20% dos procedimentos. No Brasil ela aparece em terceiro lugar no conjunto das infecções relacionadas à assistência à saúde. Prolonga a internação em média de sete a onze dias, aumenta reinternação e reoperação — e até 60% delas são evitáveis com as medidas que já estão escritas nos guias. Esse é o argumento de por que a prova cobra tanto o tema: quase tudo aqui é processo, não sorte.

Terceira definição, e a que mais evita erro de prova: a profilaxia antimicrobiana é um item de um pacote, não o pacote inteiro. Antibiótico no minuto certo com tricotomia feita de lâmina na véspera, sala aberta, paciente a 34 graus e glicemia de 260 é profilaxia mal feita. Há uma seção inteira adiante sobre as medidas que não são antibiótico — e é comum a questão trocar o eixo justamente ali, oferecendo quatro alternativas de antibiótico e uma de normotermia.

As quatro classes de ferida — e quem classifica, e quando

A classificação por potencial de contaminação é norma federal no Brasil desde a Portaria MS nº 2.616/1998, e o primeiro detalhe é processual: a classificação é feita no final do Ato cirúrgico, pelo cirurgião. Não é decidida na indicação, no consultório nem pela CCIH depois. Isso não é burocracia — é o reconhecimento de que o que define a classe é o que aconteceu dentro da barriga, não o que estava escrito no mapa cirúrgico.

Cirurgia limpa, no texto da portaria, é a realizada em tecidos estéreis ou passíveis de descontaminação, na ausência de processo infeccioso e inflamatório local ou falhas técnicas grosseiras, eletiva, com cicatrização de primeira intenção e sem drenagem aberta, e sem penetração nos tratos digestivo, respiratório ou urinário. Herniorrafia sem abertura de víscera, tireoidectomia, mastectomia, artroplastia, craniotomia eletiva: limpas. Taxa esperada de infecção de 1% a 5% pelo Anexo VII da Anvisa; as séries clássicas trabalham com 1% a 2%.

potencialmente contaminada — o que a literatura internacional chama de limpa-contaminada — é a realizada em tecidos colonizados por flora pouco numerosa ou de difícil descontaminação, sem processo infeccioso e com falhas técnicas discretas, com penetração nos tratos digestivo, respiratório ou urinário sem contaminação significativa. Dois enquadramentos brasileiros derrubam candidato aqui: cirurgia com drenagem aberta entra nesta categoria pela letra da portaria, e o trauma atendido em menos de 6 horas sem contaminação importante também. Colecistectomia eletiva, gastrectomia, histerectomia, ressecção pulmonar: potencialmente contaminadas. Taxa de 3% a 11%.

contaminada é a realizada em tecidos recentemente traumatizados e abertos, colonizados por flora abundante e de descontaminação difícil ou impossível, e também toda aquela em que houve falha técnica grosseira, na ausência de supuração. A portaria acrescenta: inflamação aguda na incisão, cicatrização por segunda intenção, grande contaminação a partir do tubo digestivo, e — este é o item que costuma decidir a questão — obstrução biliar ou urinária. O Anexo VII da Anvisa acrescenta o trauma com mais de 6 horas entre o acidente e o atendimento. Taxa de 10% a 17%.

infectada (suja) é toda intervenção realizada em qualquer tecido ou órgão na presença de processo infeccioso, com supuração local, e/ou tecido necrótico. Apendicite perfurada com peritonite, abscesso drenado, víscera perfurada com peritonite fecal, fasciíte necrotizante. O Anexo VII da Anvisa não estipula uma taxa para esta classe; a referência histórica de Cruse e Foord trabalha com cerca de 40%. E o ponto que interessa à decisão: aqui não existe profilaxia — existe tratamento, e ele é assunto da próxima seção.

Indicação por classe, e as exceções da cirurgia limpa

A regra base é curta. Ferida limpa: profilaxia não indicada de rotina — a taxa de infecção já é de 1% a 5% e o benefício não paga a exposição desnecessária, o risco de resistência e o custo. potencialmente contaminada: indicada, e é a indicação clássica. contaminada: indicada, ainda como profilaxia, com o mesmo teto curto de duração. infectada: não é profilaxia. É tratamento, e a duração passa a ser a da infecção, não a do procedimento.

Essa última linha é a armadilha mais barata e mais repetida do tema, e a Anvisa a escreve com todas as letras no Caderno 4: se uma infecção for identificada durante a cirurgia, o antimicrobiano terá cunho terapêutico e deverá ser reformulado de acordo com a infecção encontrada, estendendo-se até quando estiver clinicamente indicado. Traduzindo para a vinheta: apendicite perfurada com pus na cavidade não recebe 'profilaxia por 24 horas'; recebe antibioticoterapia, com duração definida pela evolução clínica.

As exceções da cirurgia limpa são o outro lado, e são quatro famílias. Primeira: implante de prótese ou corpo estranho permanente — artroplastia, tela de hérnia, prótese mamária, enxerto vascular, gerador de marca-passo. Segunda: cirurgia cardíaca. Terceira: neurocirurgia, incluindo craniotomia eletiva e derivação liquórica. Quarta: cirurgia limpa em que uma infecção, ainda que rara, seria catastrófica ou de resgate quase impossível. O raciocínio comum às quatro não é o número de bactérias — é a consequência: em material implantado, um inóculo mínimo forma biofilme, o antibiótico não penetra e a solução acaba sendo remover a prótese.

Existe ainda uma quinta rota, que é por fator de risco do paciente, e o Anexo V da Anvisa a exemplifica na herniorrafia: baixo risco, profilaxia opcional; alto risco, cefazolina 2 g. E define alto risco com critérios que a vinheta costuma plantar — hérnia volumosa, duração prevista maior que 2 horas, idade acima de 65 anos, diabetes, neoplasia, imunossupressão, obesidade com IMC acima de 30 e desnutrição. Quando o enunciado enche o parágrafo de comorbidades numa cirurgia limpa, está sinalizando essa rota.

O relógio: 60 minutos, e as duas drogas que fogem da regra

A dose vai até 60 minutos antes da incisão. O Caderno 4 da Anvisa escreve a janela como 'de 0 a 60 minutos'; o Protocolo de ISC de 2025 escreve 'até 60 minutos'; e o Protocolo para Cirurgia Segura do Ministério da Saúde transforma o número em processo, mandando o condutor da lista de verificação perguntar em voz alta, na pausa antes da incisão, se o antimicrobiano foi administrado nos últimos 60 minutos. Na prática hospitalar isso significa: na indução anestésica, não na prescrição da enfermaria da véspera.

Duas classes fogem da regra por motivo farmacocinético, não por capricho: vancomicina e fluoroquinolonas precisam de infusão lenta, e por isso a infusão deve ser iniciada entre 60 e 120 minutos antes da incisão (o Caderno 4 de 2017 escreve 1 a 2 horas). Vancomicina empurrada em bolus para 'ganhar tempo' provoca a reação de infusão rápida e ainda assim pode não ter atingido o pico tecidual no momento do corte. É o erro de horário mais elegante que uma questão pode plantar.

Duas regras de exceção completam o relógio. Com torniquete, a dose inteira precisa estar infundida antes de insuflar o manguito — depois disso, nada do que corre na veia chega ao membro isquemiado. E na cesariana, a profilaxia é feita antes da incisão da pele, e não após o clampeamento do cordão: essa é uma das poucas recomendações do CDC com categoria ia e evidência de alta qualidade, e inverteu uma prática antiga que adiava a dose por medo de mascarar sepse neonatal.

A OMS aceita janela um pouco mais larga: administração dentro de 120 minutos antes da incisão, considerando a meia-vida do antibiótico (recomendação forte, evidência moderada). Não é contradição com os 60 minutos brasileiros — é um teto mais permissivo para um documento global que precisa acomodar realidades logísticas muito diferentes. Numa questão de prova brasileira, o número operacional é 60 minutos; a alternativa que diz 'até 2 horas antes' costuma estar ali para testar se o candidato conhece a exceção da vancomicina.

Linha do tempo horizontal: bolsa de soro com o antibiótico à esquerda, faixa clara até o bisturi que marca a incisão, gota de repique no meio do trajeto e sutura fechada no fim, onde a linha termina.
A profilaxia tem começo e fim na mesma sala: a dose entra na faixa antes da incisão, repete se a cirurgia se estende, e acaba quando a incisão é fechada.

Repique intraoperatório: duas meias-vidas, contadas da dose

A regra brasileira é a mesma nos dois documentos da Anvisa e é fácil de decorar porque é farmacocinética pura: em cirurgias prolongadas, repete-se a dose após um intervalo igual a duas vezes A meia-vida do antimicrobiano, contado A partir do início da infusão da primeira dose. Não do início da cirurgia, não da incisão: da dose. Cirurgia que atrasou duas horas para começar já consumiu duas horas do relógio do antibiótico.

Traduzindo em números que a prova cobra: cefazolina tem meia-vida de 1,2 a 2,2 horas e repique a cada 4 horas — e é exatamente por isso que o Anexo V da Anvisa imprime '1 g de 4/4 h' no intraoperatório da maioria das cirurgias. Cefoxitina tem meia-vida de 0,7 a 1,1 hora e repique a cada 2 horas. Clindamicina, a cada 6 horas. Já ceftriaxona, com meia-vida de 5,4 a 10,9 horas, e metronidazol não precisam de repique em cirurgia de duração habitual — e alternativa que manda repicar ceftriaxona de 4 em 4 horas é distrator.

Existe um segundo gatilho de repique que a maioria dos alunos desconhece porque ele não está nos documentos brasileiros: perda sanguínea acima de 1.500 mL. Ele vem das diretrizes americanas de profilaxia cirúrgica, e a lógica é óbvia — a droga saiu junto com o sangue e com o volume reposto. Numa vinheta de cirurgia hemorrágica com sangramento estimado em 2 litros, a resposta pode ser repicar mesmo que a cirurgia ainda não tenha completado quatro horas.

E há duas situações em que não se repica: droga de meia-vida longa, pelo motivo acima, e paciente com insuficiência renal, em que a meia-vida está prolongada e a dose adicional só acrescenta toxicidade. O caso oposto — queimadura extensa, com meia-vida encurtada — puxa para o outro lado. Registre também um vazio honesto: o CDC de 2017 classificou o repique intraoperatório como questão não resolvida, por falta de ensaios randomizados; quem sustenta o intervalo é a farmacocinética e o consenso, não um estudo de desfecho.

Duração: por que a profilaxia acaba na sala cirúrgica

O Caderno 4 da Anvisa é direto: na maioria das cirurgias, uma única dose antes da incisão é suficiente. O Protocolo de ISC de 2025 vai além e escreve, no quadro do pré-operatório, a instrução de descontinuar o antimicrobiano após O fechamento incisional, na sala cirúrgica. O CDC de 2017 diz a mesma coisa com a força máxima do documento (categoria ia, alta qualidade): em cirurgia limpa e potencialmente contaminada, não administrar doses adicionais depois que a incisão está fechada — mesmo na presença de dreno. A OMS recomenda contra o prolongamento da profilaxia após o término da operação.

O motivo é que o benefício acaba quando a ferida fecha, mas o dano continua: prolongar profilaxia não reduziu infecção em nenhum dos cenários testados e aumentou seleção de resistência. O dado mais citado vem de uma coorte de 2.641 pacientes de revascularização miocárdica: estender a profilaxia além de 48 horas não reduziu ISC (OR 1,2; IC95% 0,8-1,6) e aumentou o risco de aquisição de bactérias resistentes (OR 1,6; IC95% 1,1-2,6). Some a isso infecção por Clostridioides difficile, custo e nefrotoxicidade, e o balanço fica claro.

O dreno merece parágrafo próprio porque é a justificativa hospitalar mais comum para prolongar, e a única frase que o desmente está no protocolo brasileiro de 2025, no quadro do pós-operatório: não há indicação da manutenção da profilaxia antimicrobiana até a retirada de drenos ou cateteres. Dreno não é infecção e não é indicação. O CDC repete o ponto especificamente para artroplastia. Numa questão, 'manter cefazolina enquanto o dreno estiver posicionado' é alternativa errada com fonte brasileira e americana convergindo.

Onde então entram as '24 horas' que todo mundo repete? Elas são um teto, não uma meta. O Caderno 4 escreve que a profilaxia não deve ser estendida por mais de 24 horas; o protocolo de 2025 escreve que o tempo de antimicrobiano profilático não deve exceder 24 horas após o procedimento; e as diretrizes americanas dizem que a duração deve ser menor que 24 horas para a maioria dos procedimentos. Ler o teto como se fosse prescrição — 'então faço 24 horas' — é o erro que mantém a prática hospitalar brasileira desalinhada da recomendação. A única exceção formalizada é a cirurgia cardiotorácica, com até 48 horas, e o próprio documento americano registra que essa duração é consenso de especialistas, sem evidência que a sustente.

A droga por sítio: cefazolina e as quatro exceções que importam

cefazolina é o padrão porque reúne quatro atributos: cobre os cocos gram-positivos da pele, que causam a maior parte das ISC; tem meia-vida curta e previsível, o que torna o repique programável; é barata; e é segura. Ela é a resposta certa na cirurgia limpa com implante, na ortopédica, na cardíaca (aqui a cefuroxima aparece como alternativa), na ginecológica, na mama, na cesariana e na maior parte da cirurgia gastroduodenal e biliar. Quando a alternativa oferece uma cefalosporina de terceira ou quarta geração para uma cirurgia limpa, ela está errada por espectro excessivo, não por eficácia.

A primeira exceção é o cólon E O reto, onde a flora é gram-negativa e anaeróbia: o esquema é cefoxitina 2 g isolada, ou cefazolina 2 g associada a metronidazol 500 mg — e, nesta cirurgia, acrescenta-se o preparo oral, com o esquema que o Anexo V da Anvisa imprime: neomicina 1 g mais metronidazol 500 mg por via oral às 13 h, às 14 h e às 23 h da véspera. Apendicectomia não complicada segue a mesma lógica anaeróbia.

A segunda é o trato biliar, e o ponto de prova não é a droga, é a indicação. Colecistectomia laparoscópica eletiva de baixo risco não recebe profilaxia nenhuma. Recebe se for de alto risco, e a Anvisa lista quais: colangiografia intraoperatória, vazamento de bile, conversão para aberta, colecistite ou pancreatite aguda, icterícia, gravidez, imunossupressão e inserção de prótese. Colecistectomia aberta recebe cefazolina 2 g, só no intraoperatório. E lembre-se de que obstrução biliar reclassifica a ferida como contaminada.

A terceira é a urologia, onde a regra brasileira antecede a droga: os procedimentos urológicos devem ser realizados somente com urocultura negativa; se não for possível esterilizar a urina, a profilaxia é orientada pelo resultado da urocultura pré-procedimento. Na biópsia transretal de próstata o esquema é oral e escalonado — ciprofloxacino 500 mg 12 horas antes, 1 g duas horas antes e 500 mg 12 horas depois. A quarta exceção é a neurocirurgia, em que a craniotomia sem implantação de corpo estranho recebe cefuroxima 1,5 g apenas no intraoperatório, com repique de 750 mg de 4 em 4 horas.

Na ginecologia a droga é cefazolina 2 g na indução, com repique de 1 g de 4 em 4 horas e sem manutenção no pós-operatório — histerectomia abdominal ou vaginal, ooforectomia, miomectomia, perineoplastia, cistocele, retocele e uretrocistopexia entram todas na mesma linha. Na ortopedia, a cirurgia geral usa cefazolina 2 g e a artroplastia primária usa cefuroxima 1,5 g, com cefazolina 2 g como segunda escolha; a revisão de artroplastia é a única situação em que o documento brasileiro admite 48 horas, e com a ressalva expressa de reavaliar depois das culturas.

Dose, peso e alergia — os três ajustes que decidem questão

A dose de indução da cefazolina no adulto é 2 g, e não 1 g. Esse é o primeiro ajuste, e ele já está incorporado nas tabelas brasileiras. O segundo é o peso: as diretrizes americanas recomendam 3 g para quem pesa 120 kg ou mais, e justificam os 2 g a partir de 80 kg. A Anvisa não imprime esses limiares no texto geral — manda 'ajustar a dose para pacientes obesos' —, mas os aplica na prática: na cirurgia bariátrica, a dose de indução é 3 g de cefazolina (ou 3 g de cefoxitina quando há manipulação de alças).

O motivo do ajuste é volume de distribuição, não gravidade: no obeso, a mesma dose gera concentração tecidual menor, e estudos de cirurgia bariátrica mostraram que 1 g de cefazolina é insuficiente. Numa vinheta com peso explícito acima de 120 kg, a alternativa com 2 g está ali para ser descartada. Vale o simétrico: profilaxia em dose única geralmente não precisa de ajuste para disfunção renal ou hepática, porque o problema do rim é acúmulo com doses repetidas.

O terceiro ajuste é a alergia A betalactâmico. A Anvisa oferece clindamicina 600 mg IV de 6 em 6 horas ou vancomicina 15 mg/kg IV de 12 em 12 horas para cobertura de gram-positivos; se houver necessidade de cobrir gram-negativos, ciprofloxacino 400 mg IV ou gentamicina 240 mg IV. As diretrizes americanas usam clindamicina 900 mg ou vancomicina 15 mg/kg, associadas a aminoglicosídeo, aztreonam ou fluoroquinolona quando o sítio exige gram-negativo, e metronidazol mais aminoglicosídeo ou fluoroquinolona nos sítios com anaeróbios.

Duas travas sobre vancomicina, porque ela é a alternativa mais escolhida e a mais mal usada. Primeira: vancomicina não é droga profilática de rotina — a Anvisa a lista explicitamente entre as abordagens não recomendadas, e o motivo é seleção de resistência. Ela se justifica em colonização conhecida por MRSA ou taxa institucional elevada, não em 'paciente grave'. Segunda: se for usada, ela obedece à janela de 60 a 120 minutos antes da incisão, e não à de 60 minutos. Trocar cefazolina por vancomicina sem trocar o horário é fazer duas coisas erradas de uma vez.

As medidas que não são antibiótico — e caem tanto quanto ele

tricotomia. A regra brasileira tem quatro partes, e a prova cobra as quatro: só quando os pelos interferirem diretamente na incisão ou na adesão do curativo; fora da sala cirúrgica; no dia da cirurgia, até 2 horas antes, de preferência imediatamente antes do encaminhamento; e com tricotomizador elétrico de lâmina descartável. O procedimento operacional padrão do protocolo de 2025 é explícito: é proibido o uso de lâminas ou barbeadores manuais, pelo risco de microtraumas cutâneos. Essa é a explicação inteira de por que a lâmina é pior — ela não remove mais bactérias, ela cria portas de entrada, e quanto mais cedo é feita, mais tempo essas microlesões têm para colonizar. A OMS é ainda mais dura: o melhor é não remover pelo nenhum.

banho E antissepsia da pele. Banho de corpo inteiro com água e sabão na noite anterior ou na manhã da cirurgia serve para todo mundo — o CDC recomenda com categoria Ib, sabão comum ou antisséptico. Banho com clorexidina degermante a 4%, cerca de 2 horas antes, fica reservado às cirurgias de grande porte, com prótese ou implante, neurocirurgias e cardíacas. Já a antissepsia do campo é onde há resposta única: degermação seguida de solução alcoólica de clorexidina a 2%, com PVPI alcoólico a 10% apenas quando a clorexidina estiver contraindicada. O CDC dá categoria ia à base alcoólica. Em recém-nascido, clorexidina alcoólica a 2%, exceto no prematuro com menos de 28 semanas, que usa clorexidina aquosa; tintura de iodo em neonato é para evitar, pelo efeito tireoidiano.

normotermia E glicemia. Manter a temperatura acima de 35,5 graus no perioperatório é a instrução dos dois documentos da Anvisa, com aquecimento ativo quando necessário e monitorização registrada — e o indicador do protocolo de 2025 define normotermia como acima de 36,0 graus. Hipotermia intraoperatória aumenta infecção, sangramento e eventos cardíacos, e o CDC classifica a normotermia como recomendação forte de alta qualidade. Na glicemia, o alvo brasileiro atual é 110 a 150 mg/dL no intraoperatório e por 24 a 48 horas depois, em pacientes com E sem diabetes; o CDC aceita a meta mais larga de menos de 200 mg/dL, e o Caderno 4 de 2017 trabalhava com menos de 180 mg/dL. Todas apontam para o mesmo lugar: hiperglicemia perioperatória é fator de risco modificável, e o controle vale também para quem não é diabético.

O que não fazer. O Caderno 4 da Anvisa lista quatro abordagens explicitamente não recomendadas: vancomicina como droga profilática de rotina, adiar a cirurgia para prover nutrição parenteral, e uso de rotina de suturas e de curativos impregnados com antissépticos. Acrescente a recomendação do CDC de não aplicar antimicrobiano tópico — pomada, solução ou pó — sobre a incisão cirúrgica. E acrescente uma medida de organização que quase nunca é lembrada: internar no dia da cirurgia ou na véspera, com exceção de preparo de cólon e desnutrição, porque internação pré-operatória longa troca a flora do paciente pela flora do hospital.

Duas medidas fecham a lista. descolonização: em procedimentos de alto risco — implantes, ortopédicas, cardíacas — investiga-se o portador nasal de Staphylococcus aureus e, se positivo, aplica-se mupirocina nasal duas vezes ao dia por 5 dias com banho de clorexidina a 4% por 5 dias; a OMS dá recomendação forte a essa conduta em cirurgia cardiotorácica e ortopédica com portador conhecido. E FiO2: a suplementação de oxigênio no perioperatório é medida de prevenção reconhecida pelos três documentos, mas o número e a força mudaram entre 2016 e hoje — está no bloco de divergências.

Preparo de cólon: o que a evidência sustenta hoje

A posição operacional, hoje, no documento brasileiro mais recente: nas cirurgias com preparo de cólon, realiza-se a profilaxia antimicrobiana oral associada ao preparo mecânico, mantendo-se a profilaxia intravenosa até 60 minutos antes da incisão. É o que o Protocolo de Prevenção de ISC da Anvisa de 2025 escreve no quadro de medidas por tipo de procedimento, e a justificativa que ele dá é reduzir a carga bacteriana do cólon.

A OMS chega ao mesmo destino por dois caminhos com forças diferentes, e a diferença importa para a prova: antibiótico oral combinado ao preparo mecânico é recomendação condicional, com evidência de qualidade moderada; preparo mecânico isolado, sem antibiótico oral, é recomendação forte contra. Ou seja: o que a evidência derrubou não foi o preparo — foi o preparo sozinho. Quem lembra apenas que 'o preparo de cólon caiu' erra a metade da pergunta.

O esquema oral brasileiro está no Anexo V da Anvisa: neomicina 1 g mais metronidazol 500 mg por via oral às 13 h, às 14 h e às 23 h da véspera da cirurgia, com a cefoxitina intravenosa mantida. Repare que o mesmo Anexo, de 2017, classifica o preparo mecânico como 'opcional' — e é aí que mora a divergência registrada no bloco seguinte, junto com o ensaio que contesta o combinado inteiro.

04

As quatro classes de ferida e a conduta de cada uma

A classificação por potencial de contaminação é uma escala ordinal de verdade: da limpa à infectada, o risco de infecção cresce, e com ele muda a conduta. Os cards abaixo vão do menor ao maior risco, com a definição da Portaria MS nº 2.616/1998, a taxa esperada e o que fazer em cada faixa. A tabela seguinte cruza o outro eixo — o sítio operado —, com droga, dose de indução, repique e duração, que é a parte que a questão cobra em números.

  1. 11. Classifique a ferida. Limpa, potencialmente contaminada, contaminada ou infectada — pela Portaria MS nº 2.616/1998, no FINAL do ato cirúrgico e pelo cirurgião. Drenagem aberta puxa para potencialmente contaminada; obstrução biliar ou urinária puxa para contaminada; supuração ou tecido necrótico já é infectada.
  2. 22. Decida se há indicação. Limpa: não, de rotina — salvo prótese ou implante, cirurgia cardíaca, neurocirurgia ou paciente de alto risco. Potencialmente contaminada e contaminada: sim. Infectada: não é profilaxia, é tratamento, com duração da infecção.
  3. 33. Escolha a droga pelo SÍTIO, não pela gravidade. Pele significa cefazolina; cólon e reto significam cobertura anaeróbia (cefoxitina, ou cefazolina com metronidazol); biliar, urológico e ginecológico têm linha própria na tabela.
  4. 44. Ajuste a dose pelo PESO antes de assinar. Cefazolina 2 g é a dose do adulto; 3 g a partir de 120 kg. Dose única não costuma exigir ajuste renal ou hepático.
  5. 55. Acerte o relógio: até 60 minutos antes da incisão. Vancomicina e fluoroquinolona: iniciar a infusão de 60 a 120 minutos antes. Com torniquete, dose inteira infundida ANTES de insuflar. Na cesariana, antes da incisão da pele.
  6. 66. Programe o repique: duas meias-vidas contadas do INÍCIO DA INFUSÃO da primeira dose — cefazolina de 4/4 h, cefoxitina de 2/2 h, clindamicina de 6/6 h. Repique também se a perda sanguínea passar de 1.500 mL. Não repique droga de meia-vida longa nem em insuficiência renal.
  7. 77. Escreva o TÉRMINO na prescrição: descontinuar no fechamento da incisão, na sala. O teto absoluto é 24 horas (48 h apenas na cardiotorácica, por consenso). Dreno não prolonga profilaxia.
  8. 88. Feche o pacote não antimicrobiano: tricotomia só se necessária, fora da sala, com tricotomizador e nunca lâmina; banho pré-operatório; clorexidina ALCOÓLICA a 2% no campo; temperatura acima de 35,5 graus; glicemia de 110 a 150 mg/dL.

Limpa

Tecidos estéreis ou passíveis de descontaminação, sem infecção nem inflamação local, eletiva, cicatrização de primeira intenção, sem drenagem aberta e sem abrir trato digestivo, respiratório ou urinário. Taxa esperada de 1% a 5%. Profilaxia NÃO indicada de rotina — só com prótese ou implante, cirurgia cardíaca, neurocirurgia ou paciente de alto risco.

Potencialmente contaminada

Tecidos colonizados por flora pouco numerosa ou de difícil descontaminação, sem infecção, com falhas técnicas discretas e penetração nos tratos digestivo, respiratório ou urinário SEM contaminação significativa. Cirurgia com drenagem aberta entra aqui. Taxa de 3% a 11%. Profilaxia INDICADA — é a indicação clássica.

Contaminada

Tecidos recentemente traumatizados e abertos, flora abundante, descontaminação difícil ou impossível; falha técnica grosseira sem supuração; inflamação aguda na incisão; grande contaminação a partir do tubo digestivo; obstrução biliar ou urinária. Taxa de 10% a 17%. Profilaxia INDICADA, com o mesmo teto curto de duração.

Infectada (suja)

Qualquer tecido ou órgão operado na presença de processo infeccioso com supuração local e/ou tecido necrótico. Taxa em torno de 40% na referência histórica. Aqui NÃO existe profilaxia: o antimicrobiano tem cunho terapêutico, é reformulado conforme a infecção encontrada e dura o que a infecção exigir.

Sítio cirúrgicoAntimicrobiano e dose na induçãoRepique intraoperatórioDuraçãoDetalhe que decide a questão
Limpa com prótese ou implante (ortopédica geral)Cefazolina 2 g IV1 g de 4/4 hFechamento da incisão; teto de 24 hÉ a exceção que torna a profilaxia obrigatória em ferida limpa — biofilme em material implantado
Artroplastia primáriaCefuroxima 1,5 g IV (cefazolina 2 g como 2ª escolha)750 mg de 6/6 hAté 24 hRevisão de artroplastia é a única linha brasileira com 48 h, e com reavaliação após as culturas
Neurocirurgia (craniotomia sem corpo estranho)Cefuroxima 1,5 g IV750 mg de 4/4 hSó intraoperatórioCirurgia limpa que recebe profilaxia pela consequência da infecção, não pela contaminação
Mama e ginecológica (histerectomia abdominal ou vaginal)Cefazolina 2 g IV1 g de 4/4 hSó intraoperatórioSem manutenção no pós-operatório — o Anexo V escreve 'não indicado' para a coluna pós-op
CesarianaCefazolina IVConforme duraçãoDose únicaANTES da incisão da pele, não após o clampeamento do cordão (CDC, categoria IA)
BariátricaCefazolina 3 g IV (sem manipulação de alças); cefoxitina 3 g IV (com manipulação)Cefazolina 1 g de 4/4 h; cefoxitina 1 g de 2/2 hAté 24 hA dose de 3 g é o ajuste por peso já embutido na tabela brasileira; na gastrectomia a indução é de 2 g
Biliar — colecistectomia abertaCefazolina 2 g IV1 g de 4/4 hSó intraoperatórioObstrução biliar reclassifica a ferida como CONTAMINADA
Biliar — colecistectomia laparoscópica eletivaBaixo risco: NENHUM. Alto risco: cefazolina 2 g IV1 g de 4/4 hAté 24 h no alto riscoAlto risco = colangiografia intraoperatória, vazamento de bile, conversão, colecistite ou pancreatite aguda, icterícia, gravidez, imunossupressão, prótese
Cólon e retoCefoxitina 2 g IV, ou cefazolina 2 g + metronidazol 500 mg IVCefoxitina 1 g de 2/2 hAté 24 hAcrescentar preparo ORAL: neomicina 1 g + metronidazol 500 mg VO às 13 h, 14 h e 23 h da véspera
Hérnia da parede abdominalBaixo risco: opcional. Alto risco: cefazolina 2 g IV1 g de 4/4 hSó intraoperatórioAlto risco = hérnia volumosa, duração prevista > 2 h, idade > 65 anos, diabetes, neoplasia, imunossupressão, IMC > 30, desnutrição
UrológicaSó com UROCULTURA NEGATIVA. Biópsia transretal de próstata: ciprofloxacino 500 mg VO 12 h antes, 1 g 2 h antesNão se aplica24 h (esquema oral completo)Se a urina não puder ser esterilizada, a profilaxia é orientada pela urocultura pré-procedimento
Alergia a betalactâmico (qualquer sítio)Clindamicina 600 a 900 mg IV, ou vancomicina 15 mg/kg IVClindamicina de 6/6 hMesma do sítioSe o sítio exige gram-negativo, associar ciprofloxacino 400 mg IV ou gentamicina 240 mg IV; vancomicina começa 60 a 120 min antes

O repique se conta do INÍCIO DA INFUSÃO DA PRIMEIRA DOSE, não do início da cirurgia. Cirurgia que atrasou duas horas para começar já gastou duas horas do relógio do antibiótico — e a dose adicional pode ser necessária logo no primeiro tempo cirúrgico.

Segundo gatilho de repique, ausente dos documentos brasileiros e presente no americano: perda sanguínea acima de 1.500 mL. Vale mesmo que a cirurgia ainda não tenha atingido o intervalo por tempo.

As 24 horas são TETO, não meta. Os dois documentos da Anvisa escrevem 'não deve exceder' e 'não deve ser estendida por mais de'; o protocolo de 2025 manda descontinuar no fechamento da incisão. Ler o teto como prescrição é a origem da prática de manter antibiótico por um dia inteiro sem indicação.

Sobre normotermia, os dois números da Anvisa não são contraditórios: acima de 35,5 graus é o piso de ação no intraoperatório, e o indicador de qualidade do protocolo de 2025 define normotermia como acima de 36,0 graus. Na dúvida de uma questão, o alvo é normotermia com aquecimento ativo, não um decimal.

Glicemia perioperatória: 110 a 150 mg/dL é o alvo brasileiro atual (Anvisa 2025), menos de 180 mg/dL era o do Caderno 4 de 2017 e menos de 200 mg/dL é o do CDC. Todas valem para pacientes com E sem diabetes, e nenhuma sustenta controle intensivo abaixo de 110.

Divergência pequena mas real sobre fio de sutura: o Caderno 4 da Anvisa lista o uso de rotina de suturas impregnadas com antissépticos entre as abordagens NÃO recomendadas, enquanto o CDC de 2017 sugere CONSIDERAR fio revestido de triclosan (categoria II, recomendação fraca). Nenhum dos dois manda usar de rotina.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Preparo de cólon na colectomia eletiva: mecânico, mecânico com antibiótico oral, ou nenhum

Preparo mecânico ASSOCIADO a antibiótico oral (Anvisa 2025 e OMS 2018)

O Protocolo de Prevenção de ISC da Anvisa de 2025 determina, para cirurgias com preparo de cólon, realizar profilaxia antimicrobiana oral associada ao preparo mecânico, mantendo a profilaxia intravenosa até 60 minutos antes da incisão, com a justificativa de reduzir a carga bacteriana. A OMS sustenta o mesmo destino com duas forças diferentes: o antibiótico oral combinado ao preparo mecânico é recomendação condicional com evidência moderada, e o preparo mecânico ISOLADO, sem antibiótico oral, recebe recomendação FORTE contra. O que a evidência derrubou foi o preparo sozinho, não a combinação.

Anvisa, Protocolo de Prevenção de ISC (2025), Quadro 2 — medidas específicas por tipo de procedimento; WHO, Global guidelines for the prevention of SSI, 2ª ed. (2018), recomendações sobre mechanical bowel preparation and oral antibiotics

Preparo mecânico OPCIONAL, com descontaminação oral (Anvisa 2017)

O Anexo V do Caderno 4 da Anvisa, de 2017, escreve na linha do cólon: preparo mecânico OPCIONAL; descontaminação oral com neomicina 1 g mais metronidazol 500 mg por via oral às 13 h, às 14 h e às 23 h da véspera; e cefoxitina 2 g intravenosa na indução. É o documento brasileiro que separa explicitamente as duas coisas: o antibiótico oral é a parte que ele mantém, e o preparo mecânico é a parte que ele deixa a critério.

Anvisa, Caderno 4 — Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde, 2ª ed. (2017), Anexo V, tabela de cirurgia gastrointestinal

Nenhum preparo (ensaio MOBILE, 2019)

Ensaio randomizado multicêntrico com 396 pacientes de colectomia eletiva comparou preparo mecânico com neomicina 2 g e metronidazol 2 g contra nenhum preparo. Infecção de sítio cirúrgico em 30 dias: 7% (13/196) com preparo combinado contra 11% (21/200) sem preparo nenhum — OR 1,65, IC95% 0,80-3,40, p = 0,17. Deiscência anastomótica de 4% nos dois braços. Os autores concluíram que o preparo combinado não reduziu ISC nem a morbidade global e propuseram reconsiderar a recomendação de uso rotineiro.

Koskenvuo L et al. MOBILE trial. Lancet. 2019;394(10201):840-848

Na prova

A cronologia denuncia o recorte: o preparo mecânico foi rotina por décadas, caiu quando testado isoladamente, e voltou nos anos 2010 já colado ao antibiótico oral. Quando o enunciado cita nominalmente Anvisa, protocolo institucional brasileiro ou cenário de SUS, o mundo é o do documento de 2025, com preparo mecânico mais antibiótico oral. Quando o enunciado cita a OMS, atenção à assimetria de força: a recomendação condicional é a favor do combinado, e a FORTE é contra o mecânico isolado — alternativa que ofereça só manitol ou só polietilenoglicol, sem antibiótico oral, está do lado que a OMS recomenda contra. Quando o enunciado se apoia em ensaio randomizado, cita ano recente ou usa vocabulário de recuperação acelerada, aparece a posição de nenhum preparo. E olhe as alternativas: se uma delas oferece antibiótico oral SEM preparo mecânico, a questão está testando se o candidato sabe que os dois componentes são discutidos separadamente.

Duração: encerrar no fechamento da incisão ou completar 24 horas

Encerrar na sala, no fechamento da incisão (Anvisa 2025, CDC 2017, OMS)

O protocolo brasileiro de 2025 instrui, no quadro pré-operatório, descontinuar o antimicrobiano após o fechamento incisional, na sala cirúrgica, e acrescenta no quadro pós-operatório que não há indicação de manter a profilaxia até a retirada de drenos ou cateteres. O CDC dá a essa conduta a categoria IA com evidência de alta qualidade: em cirurgia limpa e potencialmente contaminada, não administrar doses adicionais depois que a incisão está fechada, mesmo na presença de dreno. A OMS recomenda contra o prolongamento da profilaxia após o término da operação.

Anvisa, Protocolo de Prevenção de ISC (2025), Quadros 4 e 6; CDC/HICPAC, Guideline for the Prevention of SSI (2017), recomendação 1E; WHO, Global guidelines for the prevention of SSI (2016/2018)

Teto de 24 horas, com esquema pós-operatório escrito (Anvisa 2017 e 2025)

O Caderno 4 da Anvisa escreve que a profilaxia antibiótica não deve ser estendida por mais de 24 horas, e o Anexo V do mesmo caderno imprime, na coluna de pós-operatório, esquemas de 24 horas para bariátrica, gastrectomia, cólon e ortopédica geral — e de 48 horas na revisão de artroplastia. O protocolo de 2025 mantém o teto: o tempo de antimicrobiano profilático não deve exceder 24 horas após o procedimento. As duas posições convivem dentro do mesmo órgão, e é dessa convivência que nasce a prática hospitalar de completar o dia.

Anvisa, Caderno 4 (2017), item 5.1.8 e Anexo V; Anvisa, Protocolo de Prevenção de ISC (2025), Quadro 6

Até 48 horas na cardiotorácica, por consenso e sem evidência (ASHP/IDSA/SIS/SHEA, 2013)

As diretrizes americanas fixam duração menor que 24 horas para a maioria dos procedimentos e registram a cardiotorácica como área controversa: a duração de até 48 horas foi aceita sem evidência que a sustente, e a recomendação do painel é consenso de especialistas. O próprio documento cita a coorte de 2.641 pacientes de revascularização miocárdica em que estender além de 48 horas não reduziu ISC (OR 1,2; IC95% 0,8-1,6) e aumentou aquisição de bactérias resistentes (OR 1,6; IC95% 1,1-2,6).

Bratzler DW et al. ASHP/IDSA/SIS/SHEA clinical practice guidelines for antimicrobial prophylaxis in surgery. Am J Health-Syst Pharm. 2013;70:195-283, seção Duration

Na prova

Repare que aqui a divergência não é entre países: é entre o teto e a meta, e ela mora dentro dos próprios documentos brasileiros. Enunciado que descreve conduta em sala cirúrgica, cita o protocolo de 2025, ou traz um dreno na vinheta está no mundo do encerramento no fechamento — dreno como justificativa para manter antibiótico é o distrator mais recorrente do tema, e as três fontes o desmentem. Enunciado que pede a duração MÁXIMA aceitável, ou que reproduz a coluna de pós-operatório de uma tabela institucional, está no mundo das 24 horas. Cirurgia cardíaca no enunciado é o único cenário em que 48 horas aparece como alternativa defensável, e ainda assim rotulada como consenso. Um sinal útil nas alternativas: se uma delas fala em manter a profilaxia até a retirada do dreno e outra em suspender ao fechar a incisão, a questão está justamente medindo esta divergência.

Fração inspirada de oxigênio alta no intraoperatório

FiO2 de 80% no intraoperatório (OMS — forte em 2016, condicional desde 2018)

A OMS recomendou que pacientes adultos submetidos a anestesia geral com intubação traqueal recebessem fração inspirada de oxigênio de 80% no intraoperatório para reduzir infecção de sítio cirúrgico. Entre 2017 e 2018 a própria OMS reavaliou a evidência, atualizando a revisão sistemática de efetividade e encomendando uma revisão independente sobre eventos adversos potencialmente associados, e decidiu REBAIXAR a força da recomendação de forte para condicional na 2ª edição, de dezembro de 2018.

WHO, Global guidelines for the prevention of surgical site infection, 2ª ed. (2018), seção de métodos e revisão da recomendação sobre perioperative oxygenation

Oxigênio suplementar durante a cirurgia e após a extubação (CDC, 2017)

O CDC recomenda, com categoria IA e evidência de qualidade moderada, administrar FiO2 aumentada durante a cirurgia E no pós-operatório imediato após a extubação, em pacientes com função pulmonar normal sob anestesia geral com intubação, junto com normotermia e reposição volêmica adequada para otimizar a entrega tecidual de oxigênio. Mas o mesmo documento registra 'sem recomendação' para FiO2 alta administrada APENAS no intraoperatório (6A) e para oxigênio por máscara facial ou cateter nasal (6C e 6D). Ou seja: o CDC não repete o número da OMS, e condiciona o benefício à janela que inclui o pós-extubação.

CDC/HICPAC, Guideline for the Prevention of SSI (2017), recomendações 6A, 6B, 6C e 6D

Contestação metodológica (revisões de anestesiologia, 2017-2019)

A crítica não nega o efeito, discute a base. A metanálise de 2019 que sustentou a manutenção da recomendação encontrou menor incidência de ISC com FiO2 alta em intubados (RR 0,80; IC95% 0,64-0,99), mas incluiu um grande ensaio de anestesiologia desenhado para testar óxido nitroso, no qual o braço de FiO2 baixa recebia óxido nitroso e o de FiO2 alta recebia nitrogênio — e esse ensaio sozinho representou mais de um terço da população somada. Some-se a preocupação, levantada por autores da fisiologia respiratória, com atelectasia e com espécies reativas de oxigênio em FiO2 elevada. É por esse conjunto que a OMS rebaixou a força.

Literatura de anestesiologia sobre segurança e efetividade de FiO2 de 80% versus 30-35% (revisões sistemáticas de 2018 e 2019) citada na reavaliação da OMS

Na prova

Este é o item em que a data do documento decide tudo, então repare no ano citado no enunciado. Questão que menciona a OMS e pede um NÚMERO está atrás dos 80%; questão que menciona a OMS e pede a FORÇA da recomendação depende da edição — forte em 2016, condicional a partir de dezembro de 2018. Questão de recorte americano tende a falar em 'oxigênio suplementar perioperatório' sem número fixo e inclui o pós-extubação. E há um marcador de vocabulário útil: alternativa que fala em oxigênio por máscara facial ou por cateter nasal está no território em que o CDC declara explicitamente não ter recomendação — o que a torna frágil como resposta em qualquer recorte.

Profilaxia em cirurgia limpa SEM prótese

Não indicada de rotina — a conduta consagrada

A taxa de infecção da ferida limpa é de 1% a 5%, e sobre uma base tão baixa o benefício absoluto de antibiotizar todo mundo é pequeno diante da exposição, do custo e da pressão de seleção. É por isso que as tabelas brasileiras trazem 'não indicado' em cirurgia limpa sem lesão de mucosa na cabeça e pescoço, 'opcional' na hérnia de baixo risco e 'não indicado' na colecistectomia laparoscópica eletiva de baixo risco. A profilaxia entra na limpa por consequência da infecção — implante, coração, sistema nervoso central —, não por probabilidade.

Anvisa, Caderno 4 (2017), Anexo V — linhas de cabeça e pescoço, hérnia e via biliar laparoscópica

Há benefício demonstrado mesmo na limpa (registro da própria Anvisa)

O mesmo Caderno 4, na abertura da seção de profilaxia antimicrobiana, abre a porta com uma frase própria: deve-se ter indicação apropriada para o uso de antimicrobianos, POIS ENSAIOS CLÍNICOS SUGEREM BENEFÍCIOS MESMO EM CIRURGIAS LIMPAS, nas quais não se indicava profilaxia. É um registro explícito de que a regra clássica de não antibiotizar a limpa foi sendo relativizada pela evidência, sem que o documento converta isso em recomendação de rotina.

Anvisa, Caderno 4 (2017), item 5.1.8, primeira recomendação da seção de profilaxia antimicrobiana

Depende do fator de risco do paciente, não da classe

A terceira posição desloca a decisão da ferida para o doente, e o Anexo V a operacionaliza na herniorrafia: baixo risco, opcional; alto risco, cefazolina 2 g intravenosa. E define alto risco por hérnia volumosa, duração prevista maior que 2 horas, idade acima de 65 anos, diabetes, neoplasia, imunossupressão, obesidade com IMC acima de 30 e desnutrição. Pela mesma lógica, o Caderno 4 lista obesidade, diabetes, tabagismo e imunossupressão como fatores de risco que modificam a conduta perioperatória.

Anvisa, Caderno 4 (2017), Anexo V — linha de hérnia; e item 5.1.6, fatores de risco

Na prova

O enunciado entrega o recorte pela quantidade de comorbidade que ele descreve. Vinheta curta, paciente hígido, cirurgia limpa pequena e eletiva: o mundo é o da conduta consagrada, e a alternativa que prescreve cefazolina de rotina está sobrando. Vinheta que gasta três linhas descrevendo idade, IMC, diabetes, tabagismo e duração prevista da cirurgia mudou de posição de propósito — está pedindo a rota do fator de risco. E quando a alternativa oferece prótese, tela, enxerto vascular ou implante em qualquer forma, saiu da divergência: aí a indicação é firme nas três posições, e o que está sendo testado é se o candidato reconhece a exceção do material implantado.

06

Caso resolvido

Homem de 64 anos, 128 kg, IMC de 41 kg/m², com adenocarcinoma de cólon esquerdo, internado para colectomia esquerda aberta eletiva com duração prevista de 4 horas e meia. Diabético em uso de metformina, tabagista. Sem alergia medicamentosa conhecida, creatinina 1,0 mg/dL. A cirurgia está marcada para as 8 horas da manhã. O residente pergunta o que prescrever para a véspera e o que pedir ao anestesista na indução.
classe da ferida
Potencialmente contaminada. Há penetração no trato digestivo sem contaminação significativa, em cirurgia eletiva e sem processo infeccioso. Taxa esperada de infecção de 3% a 11%. Formalmente, a classificação será registrada pelo cirurgião ao fim do ato — se houver extravasamento de conteúdo fecal, ela sobe para contaminada.
indicação
Indicada. Ferida potencialmente contaminada é a indicação clássica de profilaxia, e este paciente ainda acumula obesidade, diabetes, tabagismo e neoplasia, que aumentam o risco basal.
preparo da véspera
Preparo mecânico do cólon ASSOCIADO a antibiótico oral, conforme o protocolo brasileiro de 2025 — e o esquema oral do Anexo V da Anvisa é neomicina 1 g mais metronidazol 500 mg por via oral às 13 h, às 14 h e às 23 h da véspera. Preparo mecânico sozinho é a única combinação que a OMS recomenda contra, com recomendação forte. Banho de corpo inteiro com água e sabão na noite anterior ou na manhã.
droga, dose e peso
O sítio exige cobertura de gram-negativos e anaeróbios: cefoxitina 2 g IV, ou cefazolina associada a metronidazol 500 mg IV. Optando pela cefazolina, entra o ajuste por peso — com 128 kg, a dose é 3 g, e não 2 g. A profilaxia intravenosa não substitui o preparo oral: as duas coisas coexistem nesta cirurgia.
relógio
Infundir até 60 minutos antes da incisão, ou seja, na indução anestésica por volta das 7h30, e não na enfermaria da véspera. Na pausa cirúrgica, a lista de verificação vai perguntar em voz alta se o antimicrobiano foi feito nos últimos 60 minutos.
repique
Com cefazolina, repique de 4 em 4 horas contadas do INÍCIO DA INFUSÃO da primeira dose: numa cirurgia de 4 horas e meia iniciada às 8 h, com dose às 7h30, a segunda dose cai por volta das 11h30, ainda dentro da sala. Com cefoxitina, o intervalo seria de 2 em 2 horas. O metronidazol não precisa de repique. Se a perda sanguínea passar de 1.500 mL, repique independentemente do relógio.
duração
Descontinuar após o fechamento da incisão, ainda na sala cirúrgica. Se o serviço seguir a coluna de pós-operatório da tabela da Anvisa, o TETO é 24 horas — nunca mais do que isso, e a presença de dreno abdominal não autoriza estender.
o resto do pacote
Tricotomia só se os pelos interferirem, fora da sala, com tricotomizador elétrico, até 2 horas antes — nunca lâmina. Campo com clorexidina alcoólica a 2% após degermação. Temperatura acima de 35,5 graus com aquecimento ativo. Glicemia entre 110 e 150 mg/dL no intraoperatório e nas 24 a 48 horas seguintes, o que neste diabético exige protocolo, não observação.
07

Agora feche você

Mulher de 71 anos, 62 kg, será submetida a artroplastia total de quadril eletiva às 8 horas, com uso de torniquete não previsto. Relata história de exantema difuso após amoxicilina na juventude, sem angioedema, broncoespasmo ou internação. Sem outras comorbidades, creatinina 0,9 mg/dL. A prescrição do plantonista traz: 'vancomicina 1 g IV na indução anestésica'; a enfermagem registrou tricotomia da região com lâmina descartável, feita na enfermaria na noite anterior; e há orientação de manter a vancomicina até a retirada do dreno de sucção, prevista para o terceiro dia.
classe e indicação
Ferida limpa — não há abertura de trato digestivo, respiratório ou urinário. Mas há IMPLANTE de prótese articular, e essa é uma das exceções que tornam a profilaxia obrigatória na cirurgia limpa: em material implantado, um inóculo mínimo forma biofilme e a solução acaba sendo remover a prótese.
achado que muda a droga
A alergia relatada é um exantema tardio, sem sinais de reação imediata grave. Vancomicina não é droga profilática de rotina — a Anvisa a lista entre as abordagens NÃO recomendadas, pelo risco de selecionar resistência —, e sua indicação em profilaxia é colonização conhecida por MRSA ou taxa institucional elevada, não 'história de alergia' genérica.
achado que muda o horário
Vancomicina precisa de infusão lenta: a infusão deve ser INICIADA entre 60 e 120 minutos antes da incisão, e não na indução. Prescrita 'na indução', ela não terá atingido concentração tecidual adequada no momento do corte — e, se houver torniquete, nada do que corre depois chega ao membro isquemiado.
achado que muda o preparo
Tricotomia com LÂMINA, na enfermaria, na noite anterior: três erros no mesmo registro. O protocolo brasileiro de 2025 proíbe expressamente lâminas e barbeadores manuais, pelo risco de microtraumas cutâneos, e exige tricotomizador elétrico, fora da sala cirúrgica, no dia da cirurgia e até 2 horas antes — quando indicada.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de profilaxia o que já é tratamento Apendicite perfurada com pus na cavidade, peritonite fecal, abscesso drenado: a ferida é INFECTADA, e a Anvisa escreve que infecção identificada durante a cirurgia converte o antimicrobiano em terapêutico, reformulado conforme o achado e mantido enquanto clinicamente indicado. A alternativa que oferece 'profilaxia por 24 horas' nesses cenários está errada por natureza da indicação, não por dose. O erro simétrico também aparece: prescrever 7 dias de antibiótico numa apendicite não complicada, que é potencialmente contaminada e recebe profilaxia curta.
  2. 2Classificar a ferida pelo que estava previsto, e não pelo que aconteceu A classificação é feita no FINAL do ato cirúrgico e pelo cirurgião, por norma federal. Uma colecistectomia eletiva é potencialmente contaminada; a mesma cirurgia com obstrução biliar é contaminada; e com vesícula gangrenada e pus, infectada. Dois enquadramentos brasileiros escapam de quem só decorou o esquema internacional: cirurgia com drenagem aberta é potencialmente contaminada, e trauma com mais de 6 horas entre o acidente e o atendimento é contaminado.
  3. 3Manter o antibiótico enquanto houver dreno É a justificativa hospitalar mais comum e a que tem a negativa mais explícita: o protocolo brasileiro de 2025 escreve que não há indicação de manutenção da profilaxia até a retirada de drenos ou cateteres, e o CDC dá categoria IA, com evidência de alta qualidade, à instrução de não administrar doses adicionais após o fechamento da incisão MESMO NA PRESENÇA DE DRENO. Dreno não é infecção, e antibiótico não impede que ele colonize.
  4. 4Ler as 24 horas como meta em vez de teto Os documentos escrevem 'não deve exceder' e 'não deve ser estendida por mais de' — e o Caderno 4 registra que, na maioria das cirurgias, uma única dose antes da incisão é suficiente. Transformar o limite superior em prescrição é o que sustenta a prática de completar o dia sem indicação, e é exatamente o que a questão testa quando oferece 'manter por 24 horas' ao lado de 'suspender ao fechar a incisão'. Cardiotorácica é a única exceção com 48 horas, e mesmo assim rotulada como consenso de especialistas sem evidência.
  5. 5Errar o relógio da vancomicina, ou o do torniquete Vancomicina e fluoroquinolonas precisam ter a INFUSÃO INICIADA de 60 a 120 minutos antes da incisão, porque a infusão é lenta; prescritas 'na indução', chegam atrasadas ao tecido. Com torniquete, a dose inteira precisa estar infundida antes de insuflar o manguito. E na cesariana, a dose vai ANTES da incisão da pele, e não após o clampeamento do cordão — recomendação de categoria IA do CDC que inverteu a prática antiga.
  6. 6Esquecer o repique — ou contá-lo do início da cirurgia O intervalo é de duas meias-vidas contadas do INÍCIO DA INFUSÃO DA PRIMEIRA DOSE, não do início do procedimento: cefazolina de 4 em 4 horas, cefoxitina de 2 em 2 horas, clindamicina de 6 em 6 horas. Cirurgia que atrasou duas horas para começar já queimou metade do intervalo. E existe o gatilho que quase ninguém lembra: perda sanguínea acima de 1.500 mL manda repicar mesmo antes do tempo. Do outro lado, ceftriaxona e metronidazol não se repicam por meia-vida longa, e paciente com insuficiência renal também não.
  7. 7Não ajustar a dose pelo peso Cefazolina em adulto é 2 g, não 1 g — e passa a 3 g a partir de 120 kg. A tabela brasileira já embute o ajuste ao prescrever 3 g na bariátrica. O motivo é volume de distribuição: no obeso, a mesma dose gera concentração tecidual menor. E vale a trava simétrica, que também é distrator: profilaxia em dose única em geral NÃO precisa de ajuste por disfunção renal ou hepática, porque o problema do rim é acúmulo com doses repetidas.
  8. 8Tratar a profilaxia como se ela fosse o pacote inteiro Antibiótico no minuto certo com tricotomia de lâmina na véspera, campo preparado com clorexidina aquosa, paciente a 34 graus e glicemia de 260 é profilaxia mal feita. Numa questão que apresenta quatro alternativas de antibiótico e uma de tricotomia, normotermia ou antissepsia alcoólica, a alternativa diferente costuma ser a certa — porque essas medidas têm recomendações fortes e são justamente as que a rotina hospitalar mais atropela.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a classificação do CDC/NRC define ferida CONTAMINADA como aquela com ferimento aberto recente e traumático, procedimentos com extravasamento maior de conteúdo do trato gastrointestinal, ou entrada no trato geniturinário/biliar com bile ou urina infectada, além de incisões com inflamação aguda não purulenta. O extravasamento significativo de conteúdo entérico durante a cirurgia, sem pus e sem infecção pré-estabelecida, caracteriza ferida contaminada. Classificar como limpa erra: ferida limpa é a eletiva, não traumática, sem inflamação e sem abertura de trato respiratório, digestivo ou geniturinário. Classificar como limpa-contaminada erra: essa categoria supõe abertura CONTROLADA desses tratos, sem extravasamento significativo — aqui houve derrame franco. Classificar como infectada (suja) erra: exigiria pus, víscera perfurada com infecção estabelecida/peritonite purulenta ou ferida traumática com tecido desvitalizado e retardo, e não há coleção purulenta nem peritonite estabelecida. 'Estéril' não é categoria da classificação.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: as quatro classes de ferida da Portaria MS nº 2.616/1998 com a definição de cada uma, a taxa esperada e a conduta — e quem classifica, e quando. Depois recite os seis números do relógio: 60 minutos (a maioria das drogas antes da incisão), 60 a 120 minutos (vancomicina e fluoroquinolona), 4 horas (repique da cefazolina), 2 horas (repique da cefoxitina), 1.500 mL (repique por perda sanguínea) e 24 horas (teto absoluto de duração). Feche escrevendo a dose de cefazolina em três pesos: 70 kg, 90 kg e 130 kg.

em 30 dias

Pegue três vinhetas de perioperatório de provas anteriores e, antes de olhar as alternativas, escreva seis linhas para cada uma: classe da ferida, se há indicação, droga e dose ajustada pelo peso, minuto da administração, se e quando repica, e quando encerra. Depois compare com o gabarito e identifique em qual dos seis campos você errou — porque a correção é diferente para cada um. Feche revisando as medidas que não são antibiótico: tricotomia (quando, onde, com quê), antissepsia alcoólica, normotermia acima de 35,5 graus, glicemia de 110 a 150 mg/dL, e o preparo de cólon com as três posições da divergência.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 58 anos, 134 kg, diabético em uso de insulina, será submetido a gastroplastia com derivação em Y de Roux amanhã às 7 horas. Tabagista de 30 anos-maço, parou há 10 dias por orientação da equipe. Refere 'alergia a penicilina' na infância, sem detalhes. A enfermaria pergunta se prescreve o antibiótico agora, o que fazer com os pelos do abdome, e por quantos dias a medicação segue depois. Conduza a decisão inteira: classifique a ferida, defina se há indicação, escolha droga e dose com o ajuste que o peso exige, fixe o horário da administração, diga se e quando haverá repique, estabeleça quando a profilaxia termina e liste as medidas não antimicrobianas que precisam entrar na mesma prescrição. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.