Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Avaliação pré-operatória

A prova nunca pergunta se o paciente está "liberado". Entrega um paciente, uma cirurgia e uma lista de medicamentos de uso contínuo, e cobra três decisões: em que faixa de risco ele está, qual exame mudaria a conduta — e o que se suspende, com o prazo.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 68 anos, hipertenso e diabético, é encaminhado para colecistectomia eletiva por colelitíase sintomática. Refere que sobe dois lances de escada sem parar e caminha em terreno plano por várias quadras sem dispneia ou dor torácica, embora sinta cansaço leve ao final. Nega angina, síncope ou ortopneia. Exame físico e ECG de repouso sem alterações. O cirurgião questiona a necessidade de investigação cardiológica adicional antes do procedimento. Com base na estratificação de risco cardiovascular perioperatório, qual é a conduta mais adequada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo é sobre a consulta que acontece antes da cirurgia, e sobre a única pergunta que ela responde: operar, otimizar ou adiar. A profilaxia de tromboembolismo venoso tem capítulo próprio nesta apostila, e é lá que estão Caprini, Pádua, as doses de heparina, a ponte de anticoagulante e o intervalo para o neuroeixo — aqui o anticoagulante aparece em uma linha só, para dizer que a decisão sobre ele mora naquele capítulo. A antibioticoprofilaxia cirúrgica, com as classes de ferida, o horário da dose e a droga por sítio, também é assunto de outro capítulo.

Comece desfazendo a palavra errada. "Liberar" o paciente não é um ato médico, e nenhum documento sério usa esse verbo. A avaliação pré-operatória produz três coisas: uma estimativa de risco, uma lista de medidas para reduzi-lo e — quando é o caso — um prazo. Quem escreve "sem contraindicação cardiológica" e assina não estratificou nada; quem escreve "risco intermediário pelo RCRI, manter betabloqueador e estatina, troponina e eletrocardiograma no primeiro e no segundo pós-operatório" fez o trabalho. A prova cobra o segundo texto.

Vale saber de onde vêm os números, porque isso muda a forma de estudar. Não existe protocolo federal brasileiro de avaliação pré-operatória: o Ministério da Saúde padroniza a segurança dentro da sala pelo Protocolo para Cirurgia Segura, e a Resolução CFM nº 2.174/2017 torna a avaliação pré-anestésica obrigatória e coloca a decisão com o anestesiologista, mas quem define risco, exame e suspensão de droga é sociedade de especialidade. No Brasil, a Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024 é a fonte principal — e é dela que sai quase todo número deste capítulo.

As cinco perguntas que se repetem na prova são: existe alguma condição cardíaca que trava a cirurgia hoje; qual o risco intrínseco desta operação; o paciente sobe dois lances de escada; quanto vale o índice de risco; e o que se faz com cada caixa de remédio que ele trouxe de casa. As cinco têm resposta objetiva, e três delas têm número.

03

O que muda decisão

Três saídas, não uma: operar, otimizar, adiar

O fluxograma central da diretriz brasileira de 2024 tem quatro perguntas em série, e cada uma pode encerrar a avaliação. Primeira: a cirurgia é de urgência ou emergência? Se é, o paciente vai direto para a sala, e o papel do avaliador se restringe a sugerir monitorização e medidas de proteção no intra e no pós-operatório. A diretriz é explícita: em emergência, não se recomenda solicitar nenhum exame complementar que atrase a cirurgia. Pedir prova funcional de isquemia para quem tem uma víscera perfurada não é zelo, é iatrogenia de agenda.

Segunda pergunta: existe condição cardiovascular grave ou instável? Se existe, a saída é adiar e estabilizar. Terceira: a cirurgia é de risco intermediário ou alto? Se não é — se é uma operação de risco intrínseco baixo em paciente clinicamente estável —, opera-se diretamente, sem investigação adicional. Só quem passa por essas três portas chega à quarta, que é aplicar um índice de risco e decidir o que fazer com o resultado.

Repare no que essa arquitetura implica. A investigação complementar não é o começo da avaliação: é o fim de um funil, e a maior parte dos pacientes nunca chega lá. O erro clássico do candidato — e do plantonista — é inverter a ordem: pedir o pacote de exames primeiro e só depois pensar no paciente. A diretriz coloca entre seus objetivos, com todas as letras, reduzir o custo com exames desnecessários.

Há uma quarta saída que não aparece no fluxograma e cai na prova mesmo assim: a cirurgia tempo-dependente. Operações oncológicas não são urgências, mas o adiamento piora o prognóstico da doença de base. A diretriz brasileira recomenda, para esses casos, discussão multidisciplinar e escolha individualizada — e diz de forma direta que procedimentos tempo-dependentes não devem ser postergados para avaliação invasiva em paciente assintomático. Uma alternativa que manda "adiar a colectomia por câncer para fazer cateterismo" num paciente sem sintomas está fora do que a diretriz sustenta.

Passo 1: as condições que travam a cirurgia eletiva

A Tabela 2 da diretriz brasileira lista as condições cardiovasculares graves ou instáveis. Em cirurgia eletiva, a estabilização delas tem prioridade sobre a operação, que deve ser adiada e reconsiderada apenas depois da compensação clínica. São onze: síndrome coronariana aguda; doenças instáveis da aorta torácica; edema agudo dos pulmões; choque cardiogênico; insuficiência cardíaca em classe funcional III ou IV da NYHA; angina em classe funcional III ou IV da CCS; estenose aórtica ou mitral importante sintomática; bradiarritmias ou taquiarritmias graves, como bloqueio atrioventricular total e taquicardia ventricular; fibrilação atrial de alta resposta ventricular com frequência acima de 120 bpm; hipertensão arterial não controlada acima de 180 por 110 mmHg; e hipertensão arterial pulmonar sintomática.

Duas dessas merecem detalhe porque a prova gosta delas. A pressão arterial: a recomendação formal é adiar cirurgias eletivas de alto risco se a sistólica for maior ou igual a 180 mmHg ou a diastólica maior ou igual a 110 mmHg — recomendação Classe I, nível de evidência C. Não é "adiar tudo" com 160 por 100; e a diretriz cerca essa frase pelo outro lado com uma ênfase incomum: a hipotensão é o que aparece nos estudos mais robustos como fator de mau prognóstico. Perseguir pressão baixa na véspera para "deixar o paciente bem" produz exatamente o desfecho que se queria evitar.

A insuficiência cardíaca: descompensada em classe III ou IV, adia-se até compensar (Classe I). E há um prazo próprio para a insuficiência cardíaca de início recente cujo tratamento ainda não foi otimizado — a cirurgia eletiva deve ser adiada no mínimo 3 meses, para permitir o uso das medicações em doses adequadas. Esse é um número que quase ninguém decora e que resolve a questão sozinho.

Uma nota de leitura da tabela: pacientes com essas condições que estão estáveis e já otimizados não são proibidos de operar. A diretriz pede que se analise a relação risco-benefício da intervenção. Estenose aórtica importante mas assintomática, ou insuficiência cardíaca classe II bem tratada, não caem na lista de trava — caem na conta do índice de risco.

Passo 2: o risco é da cirurgia antes de ser do paciente

O risco intrínseco do procedimento é definido pelo tipo e pela duração da operação, sem levar em conta as características clínicas de quem vai ser operado. Ele reflete estresse hemodinâmico, perda de sangue e de fluidos e tempo. A classificação usada na diretriz brasileira é a europeia, e mede a probabilidade de morte cardiovascular, infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral em 30 dias: risco baixo abaixo de 1%, intermediário de 1 a 5%, alto acima de 5%.

A consequência prática vem antes de qualquer exame: paciente clinicamente estável, sem condição cardíaca de alto risco, que vai fazer procedimento de risco intrínseco baixo, pode ser encaminhado sem avaliação adicional. Não é economia — é a leitura correta de uma probabilidade pré-teste baixa. É por isso que exame de rotina nessa população faz mais mal do que bem: em terreno de baixa prevalência, o valor preditivo positivo despenca e o que sobra é o falso-positivo que cancela a cirurgia.

Alguns pares da tabela costumam aparecer em alternativa e vale ter na ponta da língua, porque são contraintuitivos. Carótida assintomática é risco baixo; endarterectomia de carótida sintomática é intermediário; angioplastia de carótida sintomática é alto. Ortopédica menor, como menisco, é baixo; ortopédica ou neurológica maior, como coluna e quadril, é alto. Colecistectomia e hérnia hiatal são intermediárias — não baixas. Ressecção transuretral de próstata é urológica menor, risco baixo; cistectomia total é alto. Transplante renal é intermediário; transplante hepático e pulmonar são altos.

E há a variável que não é do paciente nem do procedimento: o grau de urgência. Operações de urgência e emergência se associam a mais complicações cardiovasculares, e a diretriz separa as duas — na urgência ainda há tempo hábil para otimizar terapêutica e para um ecocardiograma transtorácico, quando indicado, mas não para prova funcional de isquemia, cujo resultado não mudará a conduta porque a cirurgia não pode ser adiada para tratar coronária.

Passo 3: dois lances de escada

Capacidade funcional se mede em equivalentes metabólicos, os METs. O corte é 4. Abaixo de 4 METs — ou, o que a diretriz brasileira trata como equivalente prático, incapacidade de subir dois lances de escada —, o paciente tem maior chance de complicação perioperatória. A recomendação é Classe I, nível de evidência B, e a forma de aferir é a anamnese: determinar a capacidade funcional de pacientes em programação de operação de risco intermediário ou alto, baseando-se na habilidade de subir dois lances de escada.

Isso significa que a pergunta mais barata de toda a avaliação pré-operatória é uma pergunta, e não um exame. Um estudo recente citado pela diretriz mostrou que pacientes que referem, na consulta, ser capazes de subir dois lances de escada tiveram menor taxa de eventos cardiovasculares pós-operatórios; e a estimativa da capacidade funcional somada ao índice de risco previu eventos melhor do que o índice sozinho. A escada é barata e informativa; o ecocardiograma de repouso, caro e mudo sobre isso.

As faixas da diretriz americana de 2024 completam a escala: capacidade ruim é menos de 4 METs ou escore DASI de 34 ou menos; moderada a boa é de 4 a 10 METs; excelente é acima de 10 METs. Para calibrar com atividade concreta: caminhar devagar em casa fica abaixo de 4; subir um lance de escada, caminhar em passo rápido no plano ou fazer trabalho doméstico pesado ficam em torno de 4; correr, nadar e jogar futebol passam de 10. Repare no que mudou de 2014 para 2024 no lado americano: antes, capacidade excelente acima de 10 METs dispensava teste com imagem por recomendação Classe 2a; hoje a recomendação de dispensar cobre também a faixa de 4 a 10 METs.

A armadilha do MET está na direção oposta da que o candidato imagina. Baixa capacidade funcional não serve só para pedir exame — ela também degrada a acurácia dos índices de risco. Quem não atinge o limiar de esforço necessário para sentir angina pode ser assintomático por sedentarismo, não por ausência de doença. Por isso a diretriz brasileira admite complementar a avaliação com testes para doença coronária e insuficiência cardíaca em paciente de baixa capacidade funcional antes de cirurgia de alto risco intrínseco, mesmo que o índice tenha devolvido risco baixo ou intermediário, quando há fatores de risco cardiovascular.

Paciente idoso ao pé de dois lances de escada ligados por um patamar, com um marcador no alto do segundo lance.
Dois lances de escada equivalem a 4 METs. É a pergunta mais barata da consulta pré-operatória e a que mais muda conduta — e é recomendação Classe I na diretriz brasileira de 2024.

Passo 4: o índice — e por que a diretriz brasileira tirou as porcentagens

A diretriz brasileira de 2024 não preconiza um algoritmo específico. Ela recomenda que, excluídas as condições graves ou instáveis, se calcule o risco por um dos índices disponíveis, conforme a preferência do avaliador — e destaca dois pela praticidade e pela acurácia: o RCRI, o índice de risco cardíaco revisado, também chamado escore de Lee, e o mais recente AUB-HAS2. O RCRI é o preferido no fluxograma central, com troca para o VSG-CRI quando a operação é vascular arterial.

O RCRI tem seis variáveis, todas de peso igual: história de doença coronária, história de insuficiência cardíaca, história de doença cerebrovascular, diabetes em uso de insulina, creatinina pré-operatória acima de 2,0 mg/dL e cirurgia intraperitoneal, intratorácica ou vascular suprainguinal. Um detalhe que resolve questão: os critérios de doença coronária no RCRI são história de infarto agudo do miocárdio, prova funcional positiva, presença de angina, uso de nitrato ou onda Q no eletrocardiograma — a onda Q sozinha pontua.

Agora a parte que mudou e que quase ninguém sabe. Na edição anterior da diretriz, as classes do RCRI vinham com porcentagens: 0,4% para a Classe I (nenhuma variável), 0,9% para a Classe II (uma), 7% para a Classe III (duas) e 11% para a Classe IV (três a seis). Estudos mais recentes mostraram que essas estimativas estavam desatualizadas e eram mais altas na prática — a diretriz europeia de 2022 publicou 4%, 6%, 10% e 15% para as mesmas classes. Como esses números variam muito com o país e a população, os autores brasileiros de 2024 optaram por uma classificação semiquantitativa e deixaram de especificar valores absolutos nos relatórios de risco: risco baixo é RCRI 0 ou 1 (Classes I e II), intermediário é RCRI 2 (Classe III), alto é RCRI de 3 a 6 (Classe IV).

O AUB-HAS2 também soma seis variáveis de peso igual: histórico de doença cardíaca, sintomas de doença cardíaca (angina ou dispneia), idade de 75 anos ou mais, hemoglobina abaixo de 12 g/dL, cirurgia vascular arterial e cirurgia de emergência. As faixas são 0 a 1 (baixo), 2 a 3 (intermediário) e 4 a 6 (alto). Ele ainda não foi validado na população brasileira, e mede desfecho diferente do RCRI: o RCRI, validado no Brasil, estima infarto, edema agudo dos pulmões, bloqueio atrioventricular total e parada cardiorrespiratória em 30 dias; o AUB-HAS2 estima infarto, acidente vascular encefálico ou óbito no mesmo prazo.

Para cirurgia vascular arterial existe motivo técnico para trocar de índice: o RCRI perde a capacidade de discriminar classes e subestima eventos nessa população, notadamente na correção de aneurisma de aorta abdominal. Nesses casos a diretriz recomenda o VSG-CRI, que é o único dos três com pontuação ponderada — idade de 80 anos ou mais vale 4, de 70 a 79 vale 3, de 60 a 69 vale 2; doença coronária, insuficiência cardíaca, DPOC e creatinina acima de 1,8 mg/dL valem 2 cada; tabagismo, diabetes em uso de insulina e uso crônico de betabloqueador valem 1 cada; e revascularização miocárdica prévia vale menos 1. As faixas: 0 a 4 baixo, 5 a 6 intermediário, 7 ou mais alto.

Sobre o escore brasileiro: existe, chama-se EMAPO, foi desenvolvido e validado no Brasil, e a diretriz de 2024 o cita entre os índices validados, ao lado do índice do American College of Physicians e da calculadora do American College of Surgeons (ACS NSQIP, com 21 variáveis clínicas e oito desfechos). Mas o índice que o fluxograma da diretriz brasileira coloca em uso preferencial é o RCRI. Se a questão disser "segundo a diretriz brasileira de 2024" e oferecer alternativas com escores diferentes, o RCRI é o que o fluxograma nomeia. E uma limitação que a própria diretriz faz questão de registrar: nenhum desses índices contempla o risco de tromboembolismo venoso, que tem avaliação dedicada — o assunto do primeiro capítulo desta apostila.

ASA: o que ela mede e o que ela não mede

A classificação de estado físico da American Society of Anesthesiologists é a linguagem do anestesiologista, e é outra coisa. Ela descreve a gravidade sistêmica do paciente em seis classes, sem olhar para o procedimento, sem somar pontos e sem prever um desfecho específico. É subjetiva por construção: dois avaliadores podem discordar sobre um mesmo paciente.

O que a asa prediz: ela se correlaciona com morbimortalidade perioperatória global e é usada em praticamente todo estudo de anestesia como variável de ajuste. O que ela não prediz: risco cardiovascular específico — não substitui o RCRI, não dispensa a estratificação e não define quem precisa de troponina no pós-operatório. Por isso a própria asa diz que a classificação, sozinha, não estima risco: ela é usada em conjunto com outros fatores, como o tipo de cirurgia, a fragilidade e o grau de descondicionamento.

Dois detalhes de prova. O primeiro é o sufixo E: acrescentado à classe, indica cirurgia de emergência, definida como aquela em que o adiamento do tratamento resultaria em ameaça significativamente maior à vida ou a um membro. Um paciente hígido operado de apendicite aguda é asa I-E, não asa II. O segundo é a fronteira entre III e IV, que costuma ser o alvo: infarto, acidente vascular cerebral, ataque isquêmico transitório ou implante de stent há mais de 3 meses colocam o paciente em asa III; os mesmos eventos há menos de 3 meses, em asa IV. É o prazo de 3 meses que separa as duas classes, não a gravidade do evento em si.

Sobre fragilidade, que é o conceito que a asa não captura e a diretriz de 2024 incorporou: a fragilidade deve ser avaliada rotineiramente em idosos submetidos a cirurgia de risco intermediário ou alto (Classe IIa, nível B) e deve ser mensurada com instrumento específico (Classe IIa, nível C) — porque a impressão subjetiva do médico é sistematicamente enviesada por idade avançada, múltiplas doenças, baixo peso e uso de dispositivo de marcha, levando a supor fragilidade onde ela não existe. No Brasil, a prevalência de fragilidade é de 9% entre pessoas de 50 anos ou mais na comunidade e 16% acima dos 65 anos.

Que exame vale a pena — e o exame de rotina que não vale

Comece pelo eletrocardiograma, que é o exame mais pedido e o mais mal pedido. Ele tem indicação Classe I em quatro situações: história ou exame físico sugestivos de doença cardiovascular; operações de risco intrínseco intermediário ou alto; pacientes classificados como de risco intermediário ou alto pelos algoritmos; e presença de diabetes. Tem indicação Classe IIa em obesos e em idade superior a 40 anos. E tem um número que explica o problema: cerca de 50% dos indivíduos acima de 40 anos têm alguma alteração eletrocardiográfica, com baixo poder preditivo de complicação. O principal papel do eletrocardiograma pré-operatório, diz a diretriz, é fornecer um traçado basal para comparação caso se suspeite de evento no pós-operatório.

O ecocardiograma de repouso não é exame de rotina. Tem Classe I em quatro cenários: insuficiência cardíaca ou sintomas sugestivos com cirurgia de risco intermediário ou alto, sem avaliação no último ano ou com piora clínica; valvopatia moderada a importante conhecida ou suspeita, com cirurgia de risco intermediário ou alto e sem avaliação nos últimos 6 a 12 meses ou com piora; transplante hepático; e portador de prótese valvar sintomático com cirurgia de risco intermediário ou alto. E tem uma recomendação Classe III explícita: rotina em assintomático, sem suspeita de insuficiência cardíaca ou valvopatia moderada a grave, submetido a cirurgia de risco intermediário ou baixo. O motivo não é custo: vários estudos sugerem que o uso mais liberal aumenta o tempo de internação sem benefício clínico.

Os testes de isquemia são o território das recomendações fracas. O teste ergométrico é Classe IIb — e apenas em paciente de baixa capacidade funcional, de risco intermediário ou alto, indo para cirurgia de risco intermediário ou alto, quando o resultado puder mudar a conduta. Tem Classe III em cirurgia de baixo risco e em paciente de baixo risco indo para cirurgia de risco baixo ou intermediário. A prova funcional com imagem — cintilografia de perfusão ou ecocardiograma de estresse — sobe para Classe IIa na mesma população de baixa capacidade funcional e risco intermediário ou alto quando puder mudar a conduta, é Classe IIb em assintomáticos com doença coronária conhecida ou alta probabilidade, e Classe III como rotina em baixo risco.

Guarde a frase que a diretriz repete de três formas diferentes, porque ela é o critério de todo o bloco: pedir prova funcional exige cautela porque o exame gera propensão a revascularizar antes da cirurgia não cardíaca, estratégia que não demonstrou superioridade em ensaios randomizados e que ainda atrasa a operação pelo tempo mínimo de dupla antiagregação. O exame que não muda a conduta não é neutro — ele tem custo, gera falso-positivo, adia cirurgia e produz procedimento desnecessário.

A cineangiocoronariografia não é recomendada rotineiramente e não substitui os testes não invasivos. As indicações são as mesmas de fora do contexto pré-operatório: síndrome coronariana aguda de alto risco (Classe I) e isquemia extensa em prova funcional (Classe I). É Classe III em paciente estável submetido a cirurgia de baixo risco. A angiotomografia de coronárias também não é recomendada de rotina para estratificação pré-operatória, e a diretriz nomeia o motivo com franqueza: o receio da geração excessiva de angioplastias "preventivas".

Os biomarcadores são a novidade que inverte a lógica. O BNP ou NT-proBNP pré-operatório tem recomendação Classe I em pacientes com mais de 65 anos, ou entre 45 e 64 anos com doença cardiovascular estabelecida ou fator de risco (diabetes, hipertensão, doença coronária, obesidade, fibrilação atrial). Valores pré-operatórios de BNP acima de 92 pg/mL ou NT-proBNP acima de 300 pg/mL triplicam o risco de morte ou infarto não fatal em 30 dias. Quanto à troponina, a diretriz brasileira recomenda monitorização sistemática com eletrocardiograma e troponina no pré-operatório e uma vez ao dia por 48 horas em pacientes de risco intermediário ou alto pelos algoritmos — porque 80 a 90% das alterações ocorrem até o segundo pós-operatório e a injúria miocárdica após cirurgia não cardíaca costuma ser assintomática. E há o limite explícito: não há evidência para troponina de rotina em paciente sem fatores de risco ou em Classe I do RCRI submetido a procedimento de menor complexidade.

Jejum: o número mudou e a enfermaria não foi avisada

As horas de jejum dependem do que foi ingerido, e não existe mais um número único. Alimento gorduroso ou carne: 8 horas. Refeição leve: 6 horas. Leite não humano e outros líquidos não claros: 6 horas. Leite materno: 4 horas. Líquidos claros, exceto álcool: 2 horas. Líquido claro inclui água, sucos sem polpa, bebidas gaseificadas, chá e café sem leite.

A regra de 8 horas para tudo é a herança de uma época em que se supunha que restringir a ingestão sempre reduzia o volume gástrico. A prática moderna equilibra o estômago vazio contra os efeitos deletérios do jejum prolongado, que não são desconforto apenas: resistência à insulina pós-operatória, marcadores inflamatórios exagerados, aumento do catabolismo e desidratação — e desidratação produz hipotensão mais pronunciada na indução, que é o mecanismo de lesão que a diretriz cardiológica pede para evitar durante todo o perioperatório. Jejum de 12 horas não é zelo, é dano documentado.

Três detalhes operacionais que aparecem em vinheta. A goma de mascar não atrasa a anestesia — a menos que tenha sido engolida, e aí conta como alimento sólido. As medicações de rotina devem ser tomadas no dia da cirurgia com água ou líquido claro, idealmente mais de duas horas antes do procedimento programado; isto é, manter a medicação e respeitar o jejum não são objetivos em conflito. E a dieta enteral por sonda é tratada como refeição gordurosa, porque a fórmula tem carboidrato, proteína e gordura: interrompe-se 8 horas antes em paciente não intubado ou com traqueostomia sem balonete.

As diretrizes genéricas de jejum valem para quem não tem condição que afete o esvaziamento gástrico ou o risco de aspiração. Gestante em trabalho de parto, grande hérnia de hiato, esofagectomia com tração gástrica — e, hoje, paciente em uso de análogo de GLP-1 — saem da tabela genérica e podem exigir jejum prolongado ou período de dieta líquida clara. A ultrassonografia gástrica à beira do leito entrou como ferramenta auxiliar nesses casos: ver sólido ou grande volume gástrico é informação útil, mas um exame negativo não exclui risco e não deveria mudar a conduta em quem se suspeita não ter jejuado.

A medicação de uso contínuo: o que entra na sala com o paciente

Betabloqueador: mantém. Quem usa cronicamente deve ter a medicação mantida no perioperatório — Classe I, nível B. E a recomendação simétrica é uma contraindicação formal: introduzir betabloqueador em quem não usava, dentro do intervalo de 7 dias que antecedem o procedimento, é Classe III, nível B. A história por trás desses dois números está na seção de divergências, e vale ler.

Estatina: mantém, e em um cenário até se inicia. Manter em quem já usa é Classe I nível B. Em cirurgia vascular arterial, o uso é Classe I nível A — e a diretriz dá o esquema: atorvastatina 20 mg introduzida, de preferência, 2 semanas antes do procedimento e mantida por 30 dias, com ajuste posterior para a meta individual de LDL. Em cirurgia não vascular, quem tem indicação clínica de estatina por doença associada (coronária, cerebrovascular, arterial periférica, diabetes) deve usá-la independentemente do contexto perioperatório — Classe IIa.

Anti-hipertensivos, exceto os do parágrafo anterior: a diretriz brasileira de 2024 dá a mesma recomendação Classe I, nível C, para três classes — antagonistas do sistema renina-angiotensina-aldosterona (IECA e BRA), bloqueadores de canal de cálcio e diuréticos: podem ter a medicação mantida no perioperatório, sendo a suspensão permitida em casos selecionados. O diurético, inclusive administrado no dia da cirurgia, mostrou-se seguro, sem aumento de hipotensão nem de necessidade de vasopressor. A clonidina é diferente e mais rígida: quem usa cronicamente deve manter (Classe I, nível B), pelo risco de rebote — mas introduzir clonidina para reduzir eventos cardiovasculares não se faz, porque estudos maiores mostraram aumento de parada cardíaca não fatal, bradicardia e hipotensão.

Antiagregante em monoterapia: aqui a distinção que decide a questão é prevenção primária contra secundária. Na prevenção primária, o AAS deve ser suspenso 7 dias antes da operação não cardíaca e não reintroduzido no pós-operatório — Classe I, nível A, sustentado pelo POISE-2, que avaliou 10.010 pacientes, 70% deles em prevenção primária. Na prevenção secundária, o AAS deve ser mantido a 100 mg por dia durante todo o perioperatório (Classe I, nível A), pelo risco de rebote e de eventos aterotrombóticos. As exceções são duas: neurocirurgia, onde qualquer sangramento mínimo pode ser catastrófico, e ressecção transuretral de próstata, que não permite hemostasia direta — nesses dois, suspende-se 7 dias. Com a técnica de green light laser, a ressecção transuretral pode manter o AAS; e biópsia transretal de próstata não exige suspensão.

Os inibidores de P2Y12 em monoterapia têm prazos próprios: clopidogrel pode ser mantido em procedimento de baixo risco de sangramento, como intervenção dermatológica, e deve ser suspenso 5 dias antes em risco moderado ou alto; ticagrelor, 5 dias; prasugrel, 7 dias. Todas essas são Classe IIb, nível C — a diretriz é explícita ao dizer que as evidências do AAS não podem ser extrapoladas para o clopidogrel.

Em dupla antiagregação, o esquema é fixo e sobe de força: manter o AAS a 100 mg durante todo o perioperatório (Classe I, nível A), exceto em neurocirurgia ou procedimento de risco hemorrágico proibitivo, e suspender clopidogrel e ticagrelor 5 dias antes e prasugrel 7 dias antes (Classe I, nível B). Se a dupla antiagregação precisar ser interrompida antes do tempo mínimo, a cirurgia deve ser feita em centro com suporte multidisciplinar e retaguarda hemodinâmica (Classe I). Duas recomendações completam o quadro e costumam virar distrator: cirurgia de baixo risco de sangramento pode ser feita na vigência da dupla antiagregação quando faz menos de 3 meses da angioplastia (Classe IIa); e ponte com heparina de baixo peso molecular para substituir antiagregante é Classe III, nível B — não se faz. A ponte de antiagregante que a diretriz admite, em risco trombótico muito elevado (menos de 1 mês de intervenção coronária percutânea com interrupção da dupla antiagregação), é com tirofiban (Classe IIb).

Anticoagulante de uso crônico: quem usa varfarina ou anticoagulante oral direto e vai operar tem manejo próprio — suspensão, avaliação do risco tromboembólico e decisão sobre ponte. Isso está no capítulo de profilaxia de tromboembolismo venoso desta apostila, com os prazos e o quadro de quem faz e quem não faz ponte. Aqui basta reter a moldura da diretriz americana de 2024: a ponte de anticoagulante oral deve ser usada seletivamente, apenas nos pacientes de maior risco trombótico, e não está indicada na maioria dos casos.

Diabetes: o alvo brasileiro para liberar a cirurgia eletiva é glicemia entre 120 e 180 mg/dL, com HbA1c até a faixa de 8 a 9% considerada aceitável pelo protocolo institucional; a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes trabalha com HbA1c desejável abaixo de 8%, glicemia de internação entre 100 e 180 mg/dL e adiamento da cirurgia eletiva se a glicemia capilar no dia estiver acima de 250 mg/dL. Quanto às drogas: metformina suspensa apenas no dia da cirurgia, com reintrodução após o procedimento; sulfonilureias e glinidas suspensas 24 horas antes, pelo risco de hipoglicemia em jejum; inibidores de DPP-4 mantidos; insulina basal reduzida em 20 a 30% a partir da noite anterior (50% se dose alta) e insulina prandial de dose fixa suspensa durante o jejum, mantendo-se apenas a correção.

Duas classes novas mudaram a consulta pré-operatória nos últimos anos e ainda não estão na diretriz cardiológica brasileira: a de 2024 não define prazo perioperatório para inibidores de SGLT2 e não menciona análogos de GLP-1. Os inibidores de SGLT2 (dapagliflozina, empagliflozina) devem ser suspensos 3 a 4 dias antes, para reduzir o risco de cetoacidose euglicêmica e de acidose metabólica perioperatória — número em que a diretriz americana de 2024 (Classe 1, com canagliflozina, dapagliflozina e empagliflozina em 3 dias ou mais e ertugliflozina em 4 dias ou mais), a europeia de 2022 (Classe IIa, pelo menos 3 dias antes de cirurgia de risco intermediário ou alto) e a Sociedade Brasileira de Diabetes convergem. Os análogos de GLP-1 não têm essa convergência, e o assunto está na seção de divergências.

Adiar: os prazos que a prova cobra

Depois de intervenção coronária percutânea eletiva, o intervalo até a cirurgia não cardíaca segue quatro faixas na diretriz brasileira de 2024: 6 meses ou mais é Classe I, nível A; entre 3 e 6 meses é Classe IIa; entre 30 dias e 3 meses é Classe IIb; menos de 30 dias é Classe III — não se faz.

Quando a intervenção percutânea foi feita por síndrome coronariana aguda, todas as faixas dobram no eixo do tempo: 12 meses ou mais é Classe I, nível A; entre 6 e 12 meses é Classe IIa; entre 30 dias e 6 meses é Classe IIb; menos de 30 dias é Classe III.

Repare no recorte, porque ele é o detalhe que separa quem leu a diretriz de 2024 de quem decorou um esquema antigo: os Quadros 22 e 23 organizam o prazo pela indicação da angioplastia — eletiva contra síndrome coronariana aguda —, e não pelo tipo de stent. A leitura por tipo de stent continua viva no corpo americano, cujo material de 2024 trabalha com pelo menos 30 dias após stent metálico convencional, 6 meses após stent farmacológico implantado por doença coronária crônica e 12 meses quando o stent farmacológico foi implantado por síndrome coronariana aguda ou anatomia complexa — números que, repare, caem quase em cima das faixas brasileiras quando se traduz a indicação. Se uma alternativa oferecer prazo por tipo de stent, ela está falando pelo recorte americano; se oferecer prazo por indicação, pelo brasileiro.

Infarto sem revascularização: o prazo que circula na literatura americana é adiar a cirurgia eletiva por mais de 60 dias após o infarto tratado sem intervenção coronária. A diretriz brasileira de 2024 não traz esse número isolado — nela, a síndrome coronariana aguda é condição grave/instável, o que já trava a cirurgia eletiva, e o prazo aparece atrelado à angioplastia.

Revascularização miocárdica cirúrgica: não há estudo específico e não existe tempo mínimo estabelecido. A diretriz brasileira usa como referência o tempo de recuperação física após uma operação cardíaca, cerca de 30 dias, com avaliação individualizada. E há a moldura maior, que vale para o tema inteiro: a revascularização profilática antes de cirurgia não cardíaca não demonstrou benefício em paciente com doença coronária estável, e as indicações de revascularizar no pré-operatório são idênticas às de fora do contexto perioperatório.

Insuficiência cardíaca: descompensada em classe III ou IV, adiar até compensar; de início recente e ainda não otimizada, adiar no mínimo 3 meses. E a instrução de manejo que acompanha: todas as medicações de uso crônico devem ser mantidas e reintroduzidas o mais precocemente possível no pós-operatório — se a via oral não estiver disponível, considerar sonda nasoenteral ou via venosa.

O que é, no Brasil, a consulta pré-anestésica

A avaliação pré-anestésica é instrumento obrigatório de avaliação clínica do risco anestésico, regulamentada pela Resolução CFM nº 2.174/2017. Fora das situações de urgência e emergência, é indispensável conhecer com antecedência as condições clínicas do paciente, e cabe ao médico anestesiologista decidir sobre a realização ou não do ato anestésico. Duas consequências práticas: em eletiva, a consulta deve idealmente acontecer em consultório, antes da admissão hospitalar; e o anestesiologista que avalia pode não ser o que administra a anestesia.

Essa é a razão institucional pela qual o parecer pré-operatório precisa ser escrito de forma útil. Quem recebe o documento tem poder de veto e não estava na consulta. "Risco intermediário pelo RCRI (2 pontos: diabetes em insulina e cirurgia intraperitoneal), capacidade funcional acima de 4 METs, betabloqueador e estatina mantidos, AAS de prevenção secundária mantido, troponina e eletrocardiograma no primeiro e no segundo pós-operatório" é um parecer que sobrevive à troca de plantonista. "Sem contraindicação" não é.

Dentro da sala, quem padroniza é o Protocolo para Cirurgia Segura do Ministério da Saúde e da Anvisa, aprovado pela Portaria GM/MS nº 1.377/2013. A Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica tem três momentos, e eles caem: antes da indução anestésica, com a presença do anestesiologista e da equipe de enfermagem, confirmando identificação do paciente, sítio cirúrgico, procedimento e consentimento; antes da incisão cirúrgica, a pausa cirúrgica, em que cada membro da equipe se apresenta pelo nome e função e se confirma verbalmente paciente, procedimento e sítio corretos; e antes de o paciente sair da sala. A lista tem um condutor único, e é ele quem pergunta em voz alta, na pausa, se o antimicrobiano profilático foi administrado nos 60 minutos anteriores à incisão — o assunto do capítulo de antibioticoprofilaxia desta apostila.

Uma última: a diretriz de 2024 pede bochecho de 15 mL de clorexidina a 0,2% (mais efetiva) ou iodopovidona a 5% por 30 a 60 segundos antes de procedimento odontológico e também no pré-operatório de operações de risco intermediário ou alto, visando reduzir a ocorrência de sepse. É um detalhe pequeno, gratuito e que já apareceu em prova como alternativa aparentemente absurda.

04

O funil da avaliação pré-operatória, e o que se faz com cada caixa de remédio

O fluxo abaixo é o fluxograma central da diretriz brasileira de 2024, na ordem em que ele encerra a avaliação — cada passo pode ser o último. Os cards trazem a classificação ASA, que é a escala do anestesiologista e não substitui o índice de risco. A tabela principal é a de medicação de uso contínuo, que é onde a questão bem feita mora; as três seguintes trazem o risco por tipo de operação, o jejum por tipo de conteúdo e a régua de pedir ou não pedir exame.

  1. 11. É urgência ou emergência? Se é emergência, vá direto para a cirurgia — nenhum exame que atrase o procedimento. Em urgência há tempo para otimizar terapêutica e para ecocardiograma quando indicado, mas não para prova funcional de isquemia.
  2. 22. Há condição cardiovascular grave ou instável (Tabela 2: síndrome coronariana aguda, edema agudo, choque, IC classe III/IV, angina III/IV, estenose aórtica ou mitral importante sintomática, arritmia grave, FA acima de 120 bpm, PA acima de 180 por 110 mmHg, hipertensão pulmonar sintomática)? Se há, adie a eletiva e estabilize.
  3. 33. A cirurgia é de risco intrínseco intermediário ou alto? Se é de baixo risco e o paciente está estável, opere direto — sem exame adicional.
  4. 44. Determine a capacidade funcional pela anamnese: o paciente sobe dois lances de escada (4 METs)? Registre a resposta no parecer.
  5. 55. Aplique o índice: RCRI (troque para VSG-CRI se for vascular arterial) ou AUB-HAS2. Faixas do RCRI: 0-1 baixo, 2 intermediário, 3-6 alto.
  6. 66. Baixo risco: opere. Intermediário ou alto: troponina e eletrocardiograma basais, otimizar a farmacoproteção e — só se mudar a conduta — prova funcional, ecocardiograma ou BNP conforme os Quadros 4, 6 e 29.
  7. 77. Reveja a lista de medicamentos ANTES de assinar: o que mantém, o que suspende e em que dia. É o item mais esquecido do parecer e o mais cobrado na prova.
  8. 88. No pós-operatório de risco intermediário ou alto: eletrocardiograma e troponina uma vez ao dia por 48 horas — 80 a 90% das alterações aparecem até o segundo dia.

ASA I — paciente hígido

Sem doença orgânica, bioquímica ou psiquiátrica. Não fumante, sem consumo de álcool ou consumo mínimo. É a classe de referência: qualquer doença sistêmica, ainda que leve e controlada, já sai daqui.

ASA II — doença sistêmica leve

Doença leve, sem limitação funcional substantiva. Exemplos: tabagista atual, etilista social, gestante, obesidade com IMC entre 30 e 40, diabetes ou hipertensão bem controlados, doença pulmonar leve.

ASA III — doença sistêmica grave

Limitação funcional substantiva; uma ou mais doenças moderadas a graves. Exemplos: diabetes ou hipertensão mal controlados, DPOC, IMC de 40 ou mais, hepatite ativa, dependência de álcool, marca-passo, queda moderada da fração de ejeção, doença renal em diálise regular, e infarto, AVC, AIT ou stent há MAIS de 3 meses.

ASA IV — ameaça constante à vida

Doença sistêmica grave que é ameaça constante à vida. Exemplos: infarto, AVC, AIT ou stent há MENOS de 3 meses, isquemia miocárdica em curso, disfunção valvar grave, queda importante da fração de ejeção, sepse, coagulação intravascular disseminada, doença renal terminal sem diálise regular.

ASA V — moribundo

Paciente moribundo, que não se espera que sobreviva sem a operação. Exemplos: aneurisma roto de aorta abdominal ou torácica, trauma maciço, hemorragia intracraniana com efeito de massa, isquemia intestinal com cardiopatia significativa ou disfunção de múltiplos órgãos.

ASA VI — morte encefálica, doador

Paciente com morte encefálica declarada, cujos órgãos serão removidos para doação. É categoria à parte, não uma gradação de gravidade: não descreve risco anestésico do paciente, descreve o cenário.

Medicação de uso contínuo: manter, suspender e o prazo

Droga / classeCondutaPrazoFonte e detalhe que decide a questão
Betabloqueador em uso crônicoManterTodo o perioperatórioSBC 2024, Classe I nível B. Suspender expõe a rebote
Betabloqueador em quem NÃO usavaNão introduzirContraindicado nos 7 dias que antecedem a cirurgiaSBC 2024, Classe III nível B — a lição do POISE
Estatina em uso crônicoManterTodo o perioperatórioSBC 2024, Classe I nível B
Estatina em cirurgia vascular arterialIntroduzir se ainda não usaAtorvastatina 20 mg, de preferência 2 semanas antes, mantida por 30 diasSBC 2024, Classe I nível A — o único cenário em que se INICIA droga no pré-operatório
IECA / BRAManter, com suspensão permitida em casos selecionadosSe suspender, reintroduzir o quanto antesSBC 2024, Classe I nível C. BRA suspenso e não reintroduzido em 2 dias associou-se a mais mortalidade
Bloqueador de canal de cálcio e diuréticoManter, com suspensão permitida em casos selecionadosDiurético é seguro inclusive no dia da cirurgiaSBC 2024, Classe I nível C
ClonidinaManterTodo o perioperatórioSBC 2024, Classe I nível B (rebote). Introduzir para reduzir eventos: não — aumenta parada não fatal, bradicardia e hipotensão
AAS — prevenção primáriaSuspender e não reintroduzir7 dias antesSBC 2024, Classe I nível A (POISE-2, 10.010 pacientes)
AAS — prevenção secundáriaManter 100 mg/diaTodo o perioperatórioSBC 2024, Classe I nível A. Exceções: neurocirurgia e RTU de próstata, suspender 7 dias
Clopidogrel em monoterapiaManter em baixo risco de sangramento; suspender em risco moderado/alto5 dias antesSBC 2024, Classe IIb nível C. Evidência do AAS não se extrapola para o clopidogrel
Ticagrelor / prasugrelSuspenderTicagrelor 5 dias; prasugrel 7 diasSBC 2024 — IIb em monoterapia, Classe I nível B dentro da dupla antiagregação
Dupla antiagregação após stentManter o AAS e suspender o inibidor de P2Y12Cirurgia eletiva ideal 6 meses após angioplastia eletiva; 12 meses se a angioplastia foi por síndrome coronariana agudaSBC 2024, Quadros 21 a 23. Ponte com heparina de baixo peso molecular: Classe III
Anticoagulante oral (varfarina, DOAC)Manejo próprio, com avaliação de risco tromboembólicoVer o capítulo de profilaxia de tromboembolismo venoso desta apostilaACC/AHA 2024: ponte apenas nos de maior risco trombótico, não na maioria
MetforminaSuspenderApenas no dia da cirurgia; reintroduzir após o procedimentoSBD (leitura secundária)
Sulfonilureia e glinidaSuspender24 horas antesSBD (leitura secundária) — risco de hipoglicemia no jejum
Inibidor de DPP-4ManterSBD (leitura secundária)
Inibidor de SGLT2 (dapagliflozina, empagliflozina)Suspender3 a 4 dias antesACC/AHA 2024 Classe 1 (3 dias; ertugliflozina 4); ESC 2022 Classe IIa; SBD converge. Motivo: cetoacidose euglicêmica. A SBC 2024 não trata do tema
Análogo de GLP-1 (semaglutida, liraglutida, tirzepatida)Ver divergência — as sociedades não convergemDe 1 dia a 21 dias conforme a fonte, ou nenhum dia com dieta líquida clara por 24 hSBD contra ASA 2023 contra orientação multissociedade 2024. Motivo comum: esvaziamento gástrico lento e risco de aspiração
Insulina basalReduzir a dose20 a 30% desde a noite anterior (50% se dose alta)SBD (leitura secundária)
Insulina prandial de dose fixaSuspender durante o jejumManter apenas o esquema de correçãoSBD (leitura secundária)

Risco cardiovascular por tipo de operação (SBC 2024, Tabela 3)

FaixaRisco de evento em 30 diasExemplos
BaixoAbaixo de 1%Mama; procedimentos dentários; tireoide; ocular; ginecológica menor; ortopédica menor (menisco); reconstrutiva; superficial; urológica menor (ressecção transuretral de próstata); videotoracoscopia menor; carótida assintomática
Intermediário1 a 5%Endarterectomia de carótida sintomática; angioplastia arterial periférica; aneurisma de aorta endovascular; cabeça e pescoço; intraperitoneal (colecistectomia, hérnia hiatal, esplenectomia); intratorácica não maior; transplante renal; urológica e ginecológica maiores
AltoAcima de 5%Aorta e vascular maior; revascularização periférica aberta por isquemia aguda ou amputação; angioplastia de carótida sintomática; ressecção adrenal; pancreática; fígado e vias biliares; esofagectomia; neurológica ou ortopédica maior (coluna, quadril); pneumectomia; transplante pulmonar; transplante hepático; cistectomia total; reparo de perfuração intestinal

Jejum pré-operatório por tipo de conteúdo

O que foi ingeridoJejumObservação
Líquidos claros (água, suco sem polpa, bebida gaseificada, chá e café sem leite; exceto álcool)2 horasÉ também o prazo em que a medicação de rotina pode ser tomada com água — idealmente mais de 2 h antes
Leite materno4 horasLeite materno ordenhado segue a regra do leite não humano: 6 horas
Leite não humano, fórmula e outros líquidos não claros6 horasFórmula tem carboidrato, proteína e gordura
Refeição leve6 horasTorrada e líquido claro, por exemplo
Alimento gorduroso, frito ou carne8 horasDieta enteral por sonda conta como refeição gordurosa: 8 horas em paciente não intubado
Goma de mascarNão atrasa a anestesiaExceto se engolida — aí conta como alimento sólido

Pedir ou não pedir: exames cardíacos pré-operatórios (SBC 2024, Figura 1 e Quadros 3 a 7 e 29)

ExameQuando pedirQuando NÃO pedir
EletrocardiogramaClasse I: história ou exame físico sugestivos de doença cardiovascular; operação de risco intermediário ou alto; paciente de risco intermediário ou alto pelos algoritmos; diabetes. Classe IIa: obesos; idade acima de 40 anosNão há recomendação Classe III formal, mas cerca de 50% dos maiores de 40 anos têm alguma alteração, com baixo poder preditivo — o valor do exame é ser traçado basal para comparação
Ecocardiograma de repousoClasse I: insuficiência cardíaca ou sintomas com cirurgia de risco intermediário/alto sem avaliação no último ano ou com piora; valvopatia moderada/importante sem avaliação em 6 a 12 meses; transplante hepático; prótese valvar sintomática. Classe IIb: assintomático em cirurgia de alto riscoClasse III: rotina em assintomático, sem suspeita de insuficiência cardíaca ou valvopatia moderada a grave, em cirurgia de risco intermediário ou baixo
Teste ergométricoClasse IIb: baixa capacidade funcional, risco intermediário/alto, cirurgia intermediária/alta, quando puder mudar a condutaClasse III: cirurgia de baixo risco; paciente de baixo risco em cirurgia de risco baixo ou intermediário
Cintilografia ou eco de estresseClasse IIa: baixa capacidade funcional, risco intermediário/alto, cirurgia intermediária/alta, quando puder mudar a conduta. Classe IIb: assintomático com doença coronária conhecida ou alta probabilidadeClasse III: rotina em paciente de baixo risco ou em procedimento de baixo risco intrínseco
CineangiocoronariografiaClasse I: síndrome coronariana aguda de alto risco; isquemia extensa em prova funcionalClasse III: paciente estável em cirurgia de baixo risco. Não substitui o teste não invasivo e não deve atrasar cirurgia tempo-dependente
BNP / NT-proBNPClasse I: idade acima de 65 anos, ou 45 a 64 anos com doença cardiovascular estabelecida ou fator de risco (diabetes, hipertensão, doença coronária, obesidade, fibrilação atrial)Não há ponto de corte definido para conduta; BNP acima de 92 pg/mL ou NT-proBNP acima de 300 pg/mL triplicam o risco de morte ou infarto em 30 dias
TroponinaPré-operatório e 1×/dia por 48 h em paciente de risco intermediário ou alto pelos algoritmos. ACC/AHA 2024: 24 e 48 h em doença cardiovascular conhecida, sintomática ou 65 anos ou mais com fatores de risco em cirurgia de risco elevado (Classe 2b)Sem evidência para troponina de rotina em paciente sem fatores de risco ou em Classe I do RCRI submetido a procedimento de menor complexidade
Angiotomografia de coronáriasNão é recomendada de rotina para estratificação pré-operatóriaO motivo nomeado pela diretriz é o receio da geração excessiva de angioplastias preventivas

Nenhum dos índices desta tabela contempla o risco de tromboembolismo venoso — a diretriz brasileira registra a lacuna e remete a avaliação dedicada, que é o assunto do primeiro capítulo desta apostila.

As porcentagens do RCRI saíram da diretriz brasileira de 2024 de propósito. As antigas (0,4%, 0,9%, 7% e 11%) foram consideradas desatualizadas; a diretriz europeia de 2022 publicou 4%, 6%, 10% e 15%; a brasileira adotou classificação semiquantitativa e não especifica valores absolutos no relatório de risco. Alternativa que oferece porcentagem exata do RCRI está citando um dos dois documentos, não a diretriz brasileira atual.

Duas metas brasileiras de glicemia convivem e não são a mesma: o protocolo institucional lido libera a cirurgia com glicemia entre 120 e 180 mg/dL e aceita HbA1c na faixa de 8 a 9%; a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes trabalha com HbA1c desejável abaixo de 8%, glicemia de internação entre 100 e 180 mg/dL e adiamento se a glicemia capilar no dia estiver acima de 250 mg/dL. Os números da SBD aqui são leitura de segunda mão.

O sufixo E na classificação ASA marca emergência — situação em que o adiamento aumentaria significativamente a ameaça à vida ou a um membro. Paciente hígido operado de apendicite é ASA I-E.

A diretriz brasileira de 2024 pede bochecho de 15 mL de clorexidina a 0,2% ou iodopovidona a 5% por 30 a 60 segundos antes de procedimento odontológico e no pré-operatório de operações de risco intermediário ou alto, para reduzir sepse.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Iniciar betabloqueador antes da cirurgia — a curva que subiu e desceu

Iniciar reduz eventos — os estudos pioneiros, 1996 em diante

A própria diretriz brasileira data o início do interesse pelo tema em 1996, com o trabalho de Mangano, que observou redução de complicações cardiovasculares em pacientes que receberam atenolol por via venosa no pré-operatório imediato. A leitura que sobreviveu ao tempo é mais estreita e continua sustentada: o benefício do betabloqueador é diretamente proporcional ao risco cardíaco individual, evidenciado nos pacientes de alto risco e ausente nos de baixo risco; e quando iniciados com antecedência de pelo menos 1 semana, os betabloqueadores reduziram mortalidade a longo prazo em cirurgia vascular.

Mangano et al. (1996) e estudos de estratificação por risco individual, citados na Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da SBC – 2024, item 4.1.1

Não iniciar às vésperas — POISE (2008) e a Classe III brasileira

O POISE avaliou succinato de metoprolol de liberação prolongada em pacientes de alto risco ou com doença aterosclerótica estabelecida: houve redução de infarto, mas com aumento de acidente vascular encefálico e de mortalidade total, provavelmente por bradicardia e hipotensão. A crítica que a diretriz brasileira faz ao desenho é o que virou regra prática: o metoprolol foi introduzido 2 a 4 horas antes do procedimento e podia chegar a 400 mg por dia, sem tempo hábil para titulação. Daí a recomendação Classe III, nível B: introduzir betabloqueador em quem não usava é contraindicado no intervalo de até 7 dias da cirurgia.

Estudo POISE, reproduzido no item 4.1.1 e no Quadro 18 da Diretriz da SBC – 2024; e a diretriz ACC/AHA de 2024, que traz Classe 3 para betabloqueador de rotina na prevenção de fibrilação atrial pós-operatória

Na prova

As duas posições não competem pelo mesmo paciente — competem pelo mesmo relógio. Onde elas concordam totalmente é em manter quem já usa (Classe I em qualquer documento), e o distrator mais comum do tema é justamente "suspender o betabloqueador na véspera para evitar bradicardia". Sinais do recorte: enunciado que descreve o paciente já em uso crônico da droga está no terreno da manutenção; enunciado que descreve a consulta pré-anestésica de véspera, com o paciente virgem de tratamento e um índice de risco alto na mão, está testando o prazo de 7 dias. Uma alternativa que oferece "iniciar metoprolol na indução" ou "atenolol venoso na sala" reproduz o desenho de 1996 e do POISE, e denuncia que a questão foi escrita para cobrar exatamente essa cronologia. Se a vinheta mencionar cirurgia vascular e um intervalo de semanas até a operação, ela abre espaço para o cenário em que o início antecipado tem sustentação.

IECA e BRA na manhã da cirurgia: manter ou suspender

Manter, com suspensão permitida em casos selecionados — SBC 2024

A diretriz brasileira dá recomendação Classe I, nível C: pacientes em uso crônico de antagonistas do sistema renina-angiotensina-aldosterona podem ter a medicação mantida no perioperatório, sendo a suspensão permitida em casos selecionados. O texto reconhece resultados conflitantes — grandes análises retrospectivas não encontraram diferença em hipotensão, ressuscitação volêmica ou mortalidade em 30 dias, e a descontinuação no dia da cirurgia não aumentou hipertensão pré-intervenção nem cancelamentos. A ressalva com número é a do outro lado: BRA suspenso e não reintroduzido dentro de 2 dias após a cirurgia associou-se a aumento de mortalidade.

Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da SBC – 2024, item 3.2.4.1 e Quadro 10

Suspender no dia da cirurgia em quem não tem insuficiência cardíaca — ESC 2022

A diretriz europeia de 2022 considera que a suspensão dos inibidores do sistema renina-angiotensina no dia da cirurgia não cardíaca deve ser considerada para prevenir hipotensão perioperatória em pacientes sem insuficiência cardíaca, com classe de recomendação IIa; em pacientes com insuficiência cardíaca, manter o tratamento pode ser considerado. O argumento é o mecanismo: bloqueio do eixo somado a anestesia produz vasoplegia, e a hipotensão intraoperatória é preditora independente de lesão miocárdica, renal e cerebral.

ESC 2022, diretriz de avaliação e manejo cardiovascular em cirurgia não cardíaca (Halvorsen et al., Eur Heart J 2022) — posição citada aqui por material secundário, não por leitura do original

Suspender não melhora o desfecho — STOP-or-NOT (2024)

Ensaio randomizado com 2.222 pacientes em cerca de 40 centros franceses, comparando manter o inibidor do sistema renina-angiotensina até o dia da cirurgia maior eletiva contra suspendê-lo 48 horas antes. O desfecho composto de mortalidade por todas as causas e complicações maiores em 28 dias foi idêntico: 22% nos dois braços. A hipotensão intraoperatória foi mais frequente e mais prolongada no braço que manteve a droga (54% contra 41%), sem que isso se traduzisse em pior desfecho clínico. A Diretriz da SBC de 2024 já citava este ensaio, então em andamento, como o estudo que traria evidência adicional ao tema.

Legrand M et al., Stop-or-Not Randomized Clinical Trial, JAMA 2024 — números aqui reproduzidos de resumos do American College of Cardiology e do British Journal of Anaesthesia

Na prova

O ponto em que os três documentos convergem é o único fato duro do tema, e é dele que a questão bem feita vive: se a droga for suspensa, ela tem de voltar cedo — a demora de mais de 2 dias na reintrodução é o que tem sinal de mortalidade. Sinais do recorte no enunciado: menção nominal à diretriz brasileira ou cenário de consulta pré-anestésica no SUS aponta o corpo brasileiro, que permite manter; menção à sociedade europeia, ou vinheta que enfatiza vasoplegia, sangramento previsto e labilidade pressórica, aponta o corpo europeu, que considera suspender em quem não tem insuficiência cardíaca; e vinheta que descreve hipotensão intraoperatória sem desfecho pior está reproduzindo o achado do ensaio de 2024. Um distrator que oferece "suspender e reintroduzir na alta hospitalar" é o que nenhum dos três sustenta.

Análogo de GLP-1 e jejum: por quantos dias suspender

Segurar uma dose — American Society of Anesthesiologists, 2023

A orientação da sociedade americana de anestesiologia, de 2023, foi a primeira a padronizar prazo: segurar a formulação de uso diário no dia do procedimento e a formulação de uso semanal 1 semana antes. O raciocínio é de intervalo de dose, não de meia-vida — pular a administração imediatamente anterior ao procedimento.

American Society of Anesthesiologists, orientação de 2023 sobre agonistas do receptor de GLP-1, reproduzida na orientação multissociedade de 2024

Suspender por múltiplas meias-vidas — Sociedade Brasileira de Diabetes

A diretriz brasileira de diabetes escalona a suspensão pela farmacocinética de cada molécula, e chega a prazos muito mais longos: lixisenatida 1 dia, liraglutida 2 dias, dulaglutida e tirzepatida 15 dias, semaglutida 21 dias — em procedimentos com sedação ou anestesia geral, pelo risco potencial de aspiração gástrica. É a posição mais restritiva das três, e a única que separa droga a droga.

Sociedade Brasileira de Diabetes, capítulo de rastreio e controle da hiperglicemia no perioperatório (edições 2023 e 2025) — números reproduzidos de resumo secundário, não do documento original

Não suspender de rotina, mudar a dieta — orientação multissociedade, 2024

O documento conjunto de 2024, assinado por anestesiologia, gastroenterologia, cirurgia bariátrica, cirurgia endoscópica e cuidado perioperatório do obeso, deslocou o eixo: em vez de suspender rotineiramente, decisão compartilhada, com dieta líquida clara por pelo menos 24 horas antes quando se suspeita clinicamente de esvaziamento gástrico lento. Identifica os de maior risco — fase de escalonamento de dose, dose alta, formulação semanal, sintomas gastrintestinais (náusea, vômito, dor abdominal, constipação) — e oferece saídas de segurança em vez de cancelamento: ultrassonografia gástrica à beira do leito e indução em sequência rápida. O próprio documento se declara orientação, não diretriz baseada em evidência, e chama o prazo de suspensão de incerto.

Multisociety clinical practice guidance for the safe use of GLP-1 receptor agonists in the perioperative period (ASA, AGA, ASMBS, ISPCOP, SAGES), 2024

Na prova

Antes de tudo, um fato verificável que vale como bússola: a diretriz cardiológica brasileira de 2024 não menciona análogos de GLP-1 — quem estuda perioperatório só por ela não encontra o tema. Sinais do recorte: enunciado datado ou que cite a sociedade de anestesiologia americana está no mundo de 2023, com prazo de 1 dia ou 1 semana conforme a formulação; enunciado que cite a sociedade brasileira de diabetes, ou que ofereça alternativas com prazos longos e diferentes por molécula (15 dias, 21 dias), está no mundo da farmacocinética; enunciado que descreva jejum cumprido, ausência de sintomas gastrintestinais e discussão sobre cancelar ou não o procedimento está no mundo de 2024, cujas saídas são dieta líquida clara, ultrassonografia gástrica e sequência rápida. O que todas as posições sustentam, e o que uma alternativa não pode contrariar, é o mecanismo: esvaziamento gástrico lento produz conteúdo gástrico residual apesar do jejum, e o desfecho temido é a aspiração.

Exames de rotina em paciente hígido para cirurgia de baixo risco

Nenhum exame sem indicação clínica — protocolo brasileiro e Choosing Wisely Brasil

O protocolo de avaliação pré-anestésica lido é categórico: em conformidade com a sociedade americana e a brasileira de anestesiologia, a necessidade de propedêutica laboratorial ou imaginológica é individualizada conforme história clínica, cirúrgica e anestésica, porte cirúrgico, farmacoterapia e abordagem anestésica proposta — e a propedêutica de rotina NÃO está indicada. A iniciativa Choosing Wisely Brasil sustenta o mesmo para os exames laboratoriais clássicos do pacote pré-operatório (hemoglobina, tempo de protrombina, TTPA, bioquímica e urina), com o argumento de que testar assintomáticos desperdiça recurso, adia e cancela cirurgias e ainda adiciona exames e intervenções potencialmente danosos na busca por uma liberação. A diretriz cardiológica de 2024 dá a versão cardiológica dessa posição em quatro recomendações Classe III.

Protocolo Clínico Setorial PRT.UBC.336 do HC-UFMG/Ebserh (seção Exames Complementares); Choosing Wisely Brasil / SBPC-ML; Diretriz da SBC – 2024, Quadros 4 a 7

Bateria mínima por idade e porte — a mesma diretriz, pelo outro lado

Os mesmos documentos que recusam a rotina publicam gatilhos que operam como rotina na prática. A diretriz cardiológica de 2024 dá Classe IIa ao eletrocardiograma por idade acima de 40 anos e por obesidade — sem exigir sintoma. O protocolo institucional indica eletrocardiograma acima dos 40 anos, radiografia de tórax acima dos 50, hemograma em extremos de idade e em cirurgia de médio ou grande porte, e coagulograma em cirurgia de médio ou grande porte. A vantagem dessa forma é auditável: idade e porte estão no prontuário, ao contrário de "suspeita clínica", que depende de quem examinou.

Diretriz da SBC – 2024, Quadro 3 (ECG Classe IIa para idade acima de 40 anos e obesos); Protocolo PRT.UBC.336, seção Propedêutica em situações clínicas frequentes

Na prova

As duas posições não discordam sobre a ciência — discordam sobre o que é operacionalizável. A segunda converte "indicação clínica" em proxies que a instituição consegue verificar (idade, porte, comorbidade nomeada), e é por isso que o hospital exibe uma lista que parece rotina mesmo citando o documento que proíbe rotina. A causa da lista, quando ela vai além dos gatilhos, é administrativa e de gestão de risco jurídico, e não científica: pela Resolução CFM nº 2.174/2017 quem decide sobre realizar o ato anestésico é o anestesiologista, e a bateria existe para que a cirurgia não seja cancelada na porta. Sinais do recorte no enunciado: vinheta que descreve paciente jovem, hígido, assintomático, para procedimento de baixo risco, e pergunta "quais exames solicitar", cobra a posição do não pedir — e a alternativa correta costuma ser a mais curta da lista. Vinheta que entrega idade, IMC, diabetes ou porte cirúrgico explicitamente está entregando o gatilho, e aí o exame tem indicação nomeada. Um distrator frequente é oferecer coagulograma "porque vai operar": sem história de sangramento anormal, hepatopatia, nefropatia, uso de anticoagulante ou cirurgia de risco hemorrágico, ele não tem gatilho em nenhuma das duas posições.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos, hipertenso e diabético em uso de insulina NPH, com creatinina de 2,4 mg/dL e infarto prévio há 4 anos, tratado clinicamente. Vai ser submetido a colectomia direita por adenocarcinoma, eletiva, marcada para daqui a 3 semanas. Sobe dois lances de escada sem parar. Sem angina, sem dispneia, sem edema. Pressão arterial de 148 por 88 mmHg. Medicações: losartana, hidroclorotiazida, metoprolol, atorvastatina, AAS 100 mg, metformina, insulina NPH e dapagliflozina. Traz um ecocardiograma de 8 meses atrás com fração de ejeção de 58% e um pacote de exames pedido pelo cirurgião.
passo 1 — urgência?
Não é urgência nem emergência, mas é cirurgia tempo-dependente: operação oncológica adiada compromete o prognóstico da doença de base. Isso não muda a estratificação, muda o limiar para postergar — a diretriz brasileira pede discussão multidisciplinar e afirma que procedimento tempo-dependente não deve ser postergado para avaliação invasiva em paciente assintomático.
passo 2 — condição grave/instável?
Nenhuma. Sem síndrome coronariana aguda, sem insuficiência cardíaca classe III/IV, sem angina III/IV, sem arritmia grave. A pressão de 148 por 88 mmHg não alcança o corte de 180 por 110 mmHg que adiaria cirurgia eletiva de alto risco. A cirurgia segue.
passo 3 — risco da operação
Colectomia é cirurgia intraperitoneal. Pela Tabela 3, intraperitoneal é risco intermediário — 1 a 5% de morte cardiovascular, infarto ou acidente vascular cerebral em 30 dias. Não é de baixo risco, portanto o funil continua.
passo 4 — capacidade funcional
Sobe dois lances de escada: 4 METs ou mais. Registrar isso no parecer é obrigatório (Classe I, nível B) e tem consequência — capacidade funcional preservada retira o gatilho principal para prova funcional de isquemia, que é Classe IIa apenas em BAIXA capacidade funcional.
passo 5 — o índice
RCRI: doença coronária (infarto prévio) = 1; diabetes em uso de insulina = 1; creatinina acima de 2,0 mg/dL = 1; cirurgia intraperitoneal = 1. Total 4 pontos, Classe IV — risco ALTO pela classificação semiquantitativa brasileira (3 a 6 variáveis). Não há insuficiência cardíaca nem doença cerebrovascular.
que exame pedir
Eletrocardiograma: Classe I por três motivos independentes (diabetes, cirurgia de risco intermediário, paciente de risco alto pelos algoritmos). BNP ou NT-proBNP: Classe I, por ter mais de 65 anos. Troponina basal e depois uma vez ao dia por 48 horas no pós-operatório: recomendado por ser risco alto. Ecocardiograma: NÃO — o de 8 meses atrás é normal, ele não tem insuficiência cardíaca conhecida nem suspeita, e a indicação Classe I exige ausência de avaliação no último ano ou piora clínica. Prova funcional de isquemia: NÃO — capacidade funcional preservada, assintomático, e a diretriz é explícita quanto a não postergar cirurgia oncológica para investigação invasiva.
as caixas de remédio
Metoprolol: manter (Classe I). Atorvastatina: manter (Classe I) — e ele já usa, então não há o que introduzir. Losartana e hidroclorotiazida: podem ser mantidas (Classe I, nível C), com suspensão permitida em casos selecionados; se suspensas, reintroduzir em até 2 dias. AAS 100 mg: prevenção secundária (infarto prévio) — manter durante todo o perioperatório. Metformina: suspender apenas no dia da cirurgia. Insulina NPH: reduzir 20 a 30% desde a noite anterior. Dapagliflozina: SUSPENDER 3 a 4 dias antes, por risco de cetoacidose euglicêmica — é o item que mais escapa, porque a diretriz cardiológica brasileira não trata dele.
o parecer
"Risco cardiovascular ALTO — RCRI 4 (doença coronária, diabetes em insulina, creatinina acima de 2,0, cirurgia intraperitoneal). Capacidade funcional acima de 4 METs. Sem condição cardiovascular instável. Solicitados ECG e NT-proBNP; ecocardiograma e prova funcional sem indicação. Manter betabloqueador, estatina e AAS; losartana e diurético mantidos com atenção à volemia. Suspender dapagliflozina 3 a 4 dias antes e metformina no dia; NPH reduzida em 30% na véspera. Jejum: 8 h para sólidos, líquidos claros liberados até 2 h antes, medicações da manhã com água. Pós-operatório: ECG e troponina diários por 48 h." Repare no tamanho: é um parecer, não um carimbo.
07

Agora feche você

Mulher de 59 anos, obesa (IMC 38 kg/m²), diabética tipo 2 em uso de semaglutida semanal e metformina, hipertensa em uso de enalapril. Angioplastia com stent farmacológico há 4 meses, por angina estável, em uso de AAS 100 mg e clopidogrel. Vai ser submetida a colecistectomia videolaparoscópica eletiva por colelitíase sintomática, sem colecistite. Sobe dois lances de escada com esforço, mas sobe. Assintomática do ponto de vista cardiovascular desde o procedimento. O cirurgião marcou para daqui a 10 dias e pede "liberação".
risco da operação
Colecistectomia é intraperitoneal: risco intermediário (1 a 5%) pela Tabela 3 da diretriz brasileira. E, para o outro eixo da decisão, é procedimento de risco de sangramento não desprezível, mas não proibitivo.
o índice
RCRI: doença coronária (stent e angina prévia) = 1; cirurgia intraperitoneal = 1. Diabetes conta apenas se em uso de INSULINA, e ela não usa. Sem insuficiência cardíaca, sem doença cerebrovascular, creatinina normal. Total 2 pontos: Classe III, risco INTERMEDIÁRIO.
o achado que domina o caso
Faz 4 meses da angioplastia. Pelo Quadro 22, cirurgia não cardíaca após intervenção coronária percutânea ELETIVA: 6 meses ou mais é Classe I; entre 3 e 6 meses é Classe IIa. Ela está na faixa de 3 a 6 meses, e a operação é eletiva por colelitíase sintomática não complicada — há espaço para escolher a data.
os dois remédios que exigem decisão
Dupla antiagregação em curso, e um análogo de GLP-1 semanal em paciente obesa que vai receber anestesia geral. Cada um tem regra própria e prazo próprio, e nenhum dos dois é resolvido com "suspender tudo uma semana antes".
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Escrever "liberado, sem contraindicação cardiológica" O produto da avaliação não é uma autorização, é uma estimativa de risco com uma lista de medidas e, às vezes, um prazo. A diretriz brasileira coloca entre seus objetivos reduzir o custo com exames desnecessários e uniformizar a estratificação — nada disso cabe num carimbo. Na prova, a alternativa que apenas libera ou apenas contraindica costuma ser a única que não contém nenhuma conduta, e é por aí que se identifica.
  2. 2Pedir o pacote de exames antes de olhar o paciente A investigação complementar é o FIM de um funil de quatro perguntas — urgência, condição instável, risco da cirurgia, capacidade funcional e índice —, não o começo. Ecocardiograma de rotina em assintomático para cirurgia de risco intermediário ou baixo é Classe III; prova funcional de rotina em baixo risco é Classe III; cineangiocoronariografia em paciente estável para cirurgia de baixo risco é Classe III. O exame que não muda a conduta gera falso-positivo, cancela cirurgia e produz angioplastia preventiva sem benefício demonstrado.
  3. 3Contar o diabetes no RCRI sem checar a insulina A variável do índice de Lee é diabetes EM USO DE INSULINA, não diabetes. Do mesmo modo, a creatinina só pontua acima de 2,0 mg/dL, e o critério de doença coronária inclui algo que parece pequeno e pontua igual: onda Q no eletrocardiograma, prova funcional positiva ou uso de nitrato. Contar mal um item desloca o paciente uma faixa inteira, e a faixa é o que decide troponina no pós-operatório.
  4. 4Usar a ASA como se fosse índice de risco cardiovascular A ASA descreve a gravidade sistêmica do paciente, é subjetiva e não olha para o procedimento. Ela não substitui o RCRI, não define quem precisa de BNP nem de troponina seriada, e não estima risco sozinha nem segundo a própria sociedade que a criou. O detalhe que a prova adora é a fronteira III/IV: infarto, AVC, AIT ou stent há mais de 3 meses é ASA III; há menos de 3 meses, ASA IV.
  5. 5Suspender o betabloqueador na véspera — ou iniciar um As duas pontas erram na mesma questão. Quem usa cronicamente mantém (Classe I, nível B), porque a suspensão expõe a rebote. Quem não usava não deve iniciar dentro dos 7 dias que antecedem a cirurgia (Classe III, nível B), pela lição do POISE: menos infarto, mais acidente vascular encefálico e mais morte, com metoprolol começado 2 a 4 horas antes em doses que chegavam a 400 mg por dia.
  6. 6Suspender o AAS de todo mundo A pergunta é para que ele serve. Prevenção primária: suspender 7 dias antes e não reintroduzir (Classe I, nível A). Prevenção secundária: manter 100 mg por dia durante todo o perioperatório (Classe I, nível A), com duas exceções — neurocirurgia e ressecção transuretral de próstata. Uma alternativa que suspende o AAS de um paciente com stent para uma colecistectomia inverte a recomendação mais forte do bloco.
  7. 7Prescrever jejum de 8 horas para tudo São cinco números, não um: 8 horas para gorduroso ou carne, 6 para refeição leve, 6 para leite não humano e líquidos não claros, 4 para leite materno, 2 para líquidos claros. Jejum prolongado desnecessário produz resistência à insulina, catabolismo e desidratação — e desidratação vira hipotensão na indução, exatamente o que a diretriz cardiológica pede para evitar durante todo o perioperatório.
  8. 8Esquecer as duas classes novas do diabético Inibidor de SGLT2 se suspende 3 a 4 dias antes, por cetoacidose euglicêmica — recomendação Classe 1 na diretriz americana de 2024, Classe IIa na europeia de 2022 e presente na diretriz brasileira de diabetes. Análogo de GLP-1 atrasa o esvaziamento gástrico e tem prazos que divergem entre sociedades. A diretriz cardiológica brasileira de 2024 não trata de nenhuma das duas classes — quem estudou só por ela vai passar direto pelas duas caixas que mais mudaram a consulta pré-operatória.
  9. 9Marcar cirurgia eletiva logo depois do stent Menos de 30 dias após intervenção coronária percutânea é Classe III em qualquer indicação. Após angioplastia eletiva, 6 meses ou mais é Classe I; após angioplastia por síndrome coronariana aguda, 12 meses ou mais é Classe I. E a saída de emergência não é ponte com heparina de baixo peso molecular, que é Classe III nesse papel — em risco trombótico muito elevado, a ponte admitida é com tirofiban (Classe IIb).
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Na avaliação perioperatória (diretrizes ACC/AHA e da SBC), após estimar o risco pelo tipo de cirurgia e comorbidades, avalia-se a capacidade funcional. Um paciente que sobe dois lances de escada ou caminha em plano sem sintomas limitantes tem capacidade funcional ≥ 4 MET, o que permite prosseguir sem testes não invasivos adicionais, independentemente de fatores de risco estáveis. Testes de isquemia induzível só se justificam quando a capacidade funcional é baixa/desconhecida (< 4 MET) E o resultado mudaria a conduta; aqui a capacidade é boa. Cateterismo é invasivo e reservado a indicações próprias (SCA, angina instável), não como rastreio pré-operatório. Colecistectomia eletiva é cirurgia de risco intermediário-baixo e o paciente está estável — não há contraindicação.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: as quatro perguntas do fluxograma na ordem em que encerram a avaliação; as seis variáveis do RCRI com as três faixas (0-1, 2, 3-6); as cinco horas de jejum por tipo de conteúdo; e a coluna "mantém" contra a coluna "suspende" da tabela de medicação, com o prazo de cada uma que se suspende — AAS de prevenção primária, clopidogrel, ticagrelor, prasugrel, inibidor de SGLT2, sulfonilureia, metformina. Depois recite os quatro números de adiamento: 30 dias (piso absoluto após angioplastia), 6 meses (angioplastia eletiva), 12 meses (angioplastia por síndrome coronariana aguda) e 3 meses (insuficiência cardíaca de início recente ainda não otimizada).

em 30 dias

Pegue três vinhetas de perioperatório de provas anteriores e, antes de olhar as alternativas, escreva cinco linhas para cada uma: condição instável (sim ou não), risco da cirurgia pela Tabela 3, capacidade funcional em METs, pontuação do RCRI com a faixa, e a lista de medicações separada em mantém e suspende com o prazo. Só então leia as opções. Depois confira onde errou: se foi na conta do índice (quase sempre por contar diabetes sem insulina ou creatinina abaixo de 2,0), na faixa de risco da operação, no exame que não tinha indicação ou no prazo de uma droga. Feche revisando as quatro divergências do capítulo e, em cada uma, o ponto em que as posições CONVERGEM — é ele que a alternativa correta costuma respeitar.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 72 anos vem à consulta pré-anestésica para prótese total de quadril eletiva, marcada para daqui a 5 semanas. Hipertenso e diabético em uso de insulina, com doença renal crônica (creatinina 2,3 mg/dL) e acidente vascular cerebral isquêmico há 3 anos, sem sequela motora. Refere que sobe um lance de escada e precisa parar. Usa metoprolol, enalapril, sinvastatina, AAS 100 mg, insulina NPH e empagliflozina; parou de fumar há 6 meses. Traz um eletrocardiograma de hoje com onda Q em parede inferior, que ele desconhecia. Faça a avaliação: verifique se há condição que trave a cirurgia, classifique o risco da operação, some o índice de risco, decida quais exames complementares têm indicação e quais não têm, e diga o que fazer com cada medicação, com o prazo. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Avaliação pré-operatória — Preparatório para provas | OsceLabs