Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Sepse cirúrgica e controle do foco

Choque séptico e manejo da sepse cirúrgica (Surviving Sepsis)

Na sepse cirúrgica o antibiótico compra tempo e o suporte compra pressão — quem trata é o procedimento. A prova entrega um paciente séptico com foco anatômico e cobra três decisões: onde está o foco, por qual via ele se controla e dentro de quantas horas.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 68 anos, hipertenso, é admitido no pronto-socorro com dor abdominal difusa e febre há 2 dias, após quadro de diverticulite complicada. Ao exame: torporoso, PA 78/44 mmHg, FC 124 bpm, FR 28 ipm, SatO2 93% em ar ambiente, T 38,9 °C, extremidades frias e tempo de enchimento capilar de 4 segundos. Abdome difusamente doloroso com descompressão positiva. Exames: lactato 4,8 mmol/L (VR < 2,0), leucócitos 22.000/mm³ (VR 4.000–11.000), creatinina 2,1 mg/dL (VR 0,6–1,2). Iniciada ressuscitação volêmica com 30 mL/kg de cristaloide em 1 hora e antibioticoterapia de amplo espectro. Após a expansão, persiste com PA média de 58 mmHg. Assinale a conduta correta neste momento.

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Como esse tema cai

Sepse cirúrgica é a sepse cujo foco tem endereço: uma coleção, uma alça perfurada, uma via biliar obstruída, um tecido morto, um cateter colonizado. A diferença não é semântica. Na pneumonia, o antimicrobiano chega ao foco pelo sangue e trata. Numa coleção de 8 cm, ele circula ao redor: dentro do abscesso o pH é baixo, não há oxigênio, não há vascularização e a carga bacteriana é grande demais para qualquer esquema. Enquanto o foco continuar lá, tudo o que se faz é suporte com nome de tratamento.

Reconhecer a sepse, cravar o rótulo e disparar as primeiras medidas — o que colher, o que infundir e em que prazo — é assunto do capítulo de sepse e choque séptico, na clínica médica. Separar hipotensão séptica de cardiogênica, obstrutiva ou hipovolêmica é assunto do capítulo dos quatro tipos de choque, nesta mesma apostila. Este capítulo começa depois: o paciente já foi rotulado, já está sendo ressuscitado, e ainda vai morrer se o foco continuar onde está.

O nome técnico do que vem aqui é controle do foco: o conjunto de medidas que elimina a fonte da infecção e desmonta o ambiente que favorece o crescimento bacteriano. Em cirurgia de emergência ele se decompõe em quatro atos — drenar coleção, desbridar tecido morto e retirar dispositivo, descomprimir cavidade ou víscera sob pressão, e restaurar anatomia e função. Uma questão de sepse cirúrgica é quase sempre a pergunta de qual desses quatro atos o paciente da vinheta precisa, por qual via e com que pressa.

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O que muda decisão

Por que a sepse cirúrgica é um problema de relógio cirúrgico

Três características separam o foco cirúrgico do foco clínico. A primeira é a barreira: pus, tecido necrótico, fibrina e corpo estranho formam um compartimento em que o antimicrobiano não alcança concentração útil e em que a defesa do hospedeiro não entra. A segunda é a carga: uma coleção tem ordens de grandeza mais bactérias do que um parênquima infectado, e nenhum esquema empírico foi desenhado para essa aritmética. A terceira é a continuidade: quando a fonte é uma perfuração ou uma anastomose que vaza, a cavidade está sendo recontaminada agora, e cada hora de espera repõe o que o suporte tira.

É por isso que a sepse cirúrgica inverte um hábito clínico. Em quase toda emergência a sequência é otimizar e depois intervir. Aqui, passado certo ponto, otimizar é a causa da morte: o paciente que não sobe a pressão é frequentemente o paciente que só vai subir depois que a fonte de contaminação sair. Ressuscitação e controle do foco não são etapas em fila — a ressuscitação acompanha o paciente até dentro da sala e continua durante o procedimento.

Os dois números que dimensionam isso são observacionais, e ambos vêm da mesma direção. Numa série de perfuração do trato gastrointestinal com choque séptico, a sobrevida foi nula quando a operação passou de 6 horas. Em perfuração gastroduodenal, cada hora adicional de atraso até o controle operatório do foco se associou a um acréscimo de 6% na mortalidade. Nenhum ensaio randomizou pacientes para operar cedo ou tarde, e nenhum vai randomizar — a evidência do prazo é, e vai continuar sendo, de coorte.

O corolário fecha o raciocínio pelo outro lado: se o controle do foco é o tratamento, então falha do controle do foco é falha de tratamento, não infecção resistente. Peritonite que persiste 48 horas depois da intervenção é a definição prática de controle inadequado. O que a literatura mais antiga chamava de peritonite terciária costuma ser, na inspeção honesta, um foco que continuou lá.

Os quatro atos, e a graduação da pressa

Controlar o foco é executar um dos quatro atos, às vezes mais de um. Drenagem retira a coleção — por cateter percutâneo, por incisão, por endoscopia ou pela cavidade aberta. Desbridamento retira o que já não é tecido: necrose, fibrina, material infectado, e também o dispositivo, porque cateter, prótese e stent infectados são corpo estranho colonizado. Descompressão alivia a víscera ou a cavidade sob pressão: via biliar obstruída, via urinária obstruída, alça em risco, abdome com hipertensão. Restauração devolve anatomia e função: ressecar o segmento perfurado, derivar o trânsito, fechar a comunicação que não devia existir.

A pressa tem três graus, e reconhecer o grau é metade da resposta. Emergente é o procedimento que não admite adiamento porque o distúrbio fisiológico é grave e a fonte é contínua: perfuração com peritonite difusa, infecção necrosante de partes moles, isquemia intestinal, obstrução urinária infectada. Urgente admite adiamento de 1 a 24 horas desde que a ressuscitação e o antimicrobiano estejam correndo: a maior parte dos abscessos, a colangite que não está em choque, o empiema. Adiado é a exceção legítima: em necrose pancreática infectada, esperar a demarcação e escalonar do dreno para a necrosectomia é a estratégia sustentada, não hesitação.

A pergunta operacional que resolve a maior parte das vinhetas é uma só, e vale a pena decorá-la nesta forma: existe neste paciente alguma coisa que possa ser drenada, retirada ou desobstruída? Se existe, ela é o tratamento, e todo o resto é apoio. Se não existe, o caso provavelmente não é cirúrgico e voltou para o território do capítulo de sepse.

Entre os quatro atos, a descompressão é o menos lembrado e o que menos admite espera. A urossepse obstrutiva é o caso puro: rim infectado atrás de um cálculo impactado é uma coleção sob pressão, e nenhuma droga esteriliza sistema fechado. A diretriz europeia de urologia lista o controle do foco entre as recomendações de força forte na urossepse, com três verbos — remover corpo estranho, desobstruir e drenar abscesso. A desobstrução se faz por cateter ureteral duplo J, por via endoscópica, ou por nefrostomia percutânea, conforme a anatomia e a disponibilidade; as duas resolvem. E o tratamento definitivo do cálculo fica para outro tempo, depois de resolvida a sepse — manipular via infectada e obstruída no meio do quadro séptico piora o paciente. A duração do antimicrobiano na urossepse é de 7 a 10 dias, prolongada em quem responde devagar.

O prazo: 6 a 12 horas, e as duas leituras do número

A meta operacional é controlar o foco em 6 a 12 horas depois do diagnóstico, e ela cobre a maioria dos casos. As duas pontas dessa faixa não são arbitrárias: 12 horas é o teto para o paciente que está sendo ressuscitado com sucesso e cuja fonte não é maciça; 6 horas é o alvo quando há choque com fonte contínua, porque é exatamente aí que os dados de atraso mostram queda abrupta de sobrevida.

A consequência prática mais cobrada é sobre o exame de imagem. Um exame que confirma o que já está decidido consome a janela sem mudar a conduta. Paciente com peritonite difusa ao exame físico e instabilidade não precisa de tomografia para ir à sala — precisa de sala. O mesmo raciocínio vale na suspeita alta de infecção necrosante de partes moles, em que a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia. Imagem é para decidir onde e como, e não para adiar o se.

O outro lado do prazo é igualmente cobrado: existem focos em que a espera é a conduta correta. A necrose pancreática infectada é o exemplo canônico — a abordagem escalonada começa pelo antimicrobiano, passa por dreno percutâneo ou endoscópico e só chega à necrosectomia quando ela é inevitável, preferindo o tecido demarcado ao tecido em transição. Reconhecer o foco 'adiado' é tão avaliado quanto reconhecer o emergente, e as alternativas de prova costumam misturar os dois cenários de propósito.

Vale registrar o que sustenta cada número. A diretriz internacional de sepse não crava prazo: recomenda que a intervenção seja realizada assim que for medicamente e logisticamente praticável depois do diagnóstico, observando que estudos menores sugerem vantagem entre 6 e 12 horas e que os dados são limitados para fixar uma hora. A diretriz cirúrgica de controle do foco pega a mesma evidência e a transforma em meta gerenciável: 6 a 12 horas. As duas dizem a mesma coisa em registros diferentes — uma escreve para quem faz recomendação, a outra para quem organiza um plantão.

Achar o foco: o exame que fecha e o exame que atrasa

A história vale mais do que qualquer exame no primeiro minuto, porque ela lista os focos possíveis. Cirurgia recente e qual — anastomose, prótese, drenagem. Procedimento endoscópico ou percutâneo nos últimos dias. Cateter venoso central, cateter vesical de demora, duplo J, dreno de tórax. Diabetes, cirrose, imunossupressão, uso recente de antimicrobiano. Cada um desses itens nomeia um foco candidato e uma via de controle.

No abdome, a tomografia com contraste endovenoso é o exame de maior rendimento: mostra coleção, gás extraluminal, realce de parede, líquido livre, pneumatose, e mapeia a janela de acesso para o dreno. Ela tem três limites que a prova cobra. Paciente instável não vai ao tomógrafo. Deiscência precoce de anastomose pode dar imagem ambígua ou pobre, e tomografia normal em paciente com quadro clínico convincente não afasta vazamento. E na parede abdominal ou nos membros, achado de imagem sugestivo de infecção necrosante não substitui a exploração cirúrgica, que é ao mesmo tempo o exame confirmatório e o tratamento.

Fora do abdome, os exames que decidem são baratos. Ultrassonografia à beira do leito responde por via biliar dilatada e por hidronefrose, que são dois focos de controle imediato. Radiografia e ultrassonografia de tórax separam derrame simples de empiema loculado. Ecocardiograma entra quando o cateter ou a válvula é o suspeito. E a ferida operatória só é examinada de verdade com o curativo aberto — ferida avaliada por cima do curativo é ferida não examinada.

Quando o paciente não melhora e nenhum foco aparece, a conduta não é aumentar espectro: é repetir a busca. Reexaminar da cabeça aos pés, revisar cada dispositivo, repetir a imagem com intervalo (coleções levam horas a dias para se organizar e ficar visíveis) e, no paciente que continua deteriorando com abdome duvidoso, considerar a laparotomia exploradora. A decisão de abrir para ver continua existindo, e ela é mais defensável do que o terceiro escalonamento de antimicrobiano.

Percutâneo ou cirurgia: os critérios que decidem

A drenagem percutânea guiada por imagem mudou o manejo da infecção intra-abdominal e é a primeira escolha na maior parte dos abscessos. O que a habilita não é o diagnóstico, é a geometria: coleção única (ou duas bem separadas), bem delimitada, com conteúdo líquido, com trajeto seguro que não atravessa alça, vaso ou pleura, em paciente estável, e — o critério que mais decide questão — sem fonte contínua alimentando a coleção.

O tamanho dá o primeiro corte, e o número operacional vem da doença mais estudada, o abscesso diverticular: abaixo de 4 a 5 cm, o antimicrobiano isolado costuma resolver no paciente estável; acima de 4 a 5 cm, com janela de acesso, entra a drenagem percutânea acompanhada de antimicrobiano por 3 a 5 dias. Tamanho, porém, nunca é critério isolado: um abscesso de 4 cm em paciente que piora é para drenar, e um de 7 cm interalças sem janela segura é para operar.

Empurram para a cirurgia: coleções múltiplas ou loculadas, conteúdo espesso ou fecaloide que não passa por cateter fino, ausência de janela, peritonite difusa, isquemia intestinal, instabilidade hemodinâmica e fonte contínua. Esse último item é o mais mal compreendido: dreno esvazia coleção, mas não sutura alça perfurada nem repara anastomose que continua vazando. Diante de fonte contínua com contaminação difusa, o dreno é um adiamento com aparência de conduta.

A regra de menos invasivo primeiro é boa e tem uma exceção cara. No paciente instável, o procedimento menos invasivo que não resolve consome exatamente a janela em que o resolutivo funcionaria. Por isso a decisão vem com uma data de verificação: depois de drenar, os sinais e as disfunções devem regredir em 48 a 72 horas. Débito que cessa cedo demais, febre que não cede, dreno com conteúdo entérico ou tomografia de controle com coleção residual significam que o passo seguinte é reintervir — reposicionar, acrescentar dreno ou operar —, e não trocar de antimicrobiano.

Cateter tipo pigtail saindo do flanco direito sob curativo transparente, com bolsa coletora de líquido turvo ao lado do leito e sonda de ultrassonografia sobre uma bandeja.
Coleção única, delimitada, com conteúdo líquido e janela segura: a drenagem percutânea resolve sem abrir o abdome. Fonte contínua — alça perfurada, anastomose que vaza — não fecha com dreno.

Damage control na sepse abdominal: peritoneostomia e a segunda operação

Quando o paciente chega à sala em instabilidade grave com infecção intra-abdominal difusa, a operação completa é a operação errada. A conduta é damage control: procedimento curto, contaminação interrompida (ressecar o segmento roto, grampear as extremidades, lavar), nenhuma reconstrução, fechamento temporário da parede e transferência imediata para a terapia intensiva, onde se corrige a fisiologia. A reconstrução — anastomose ou estoma — fica para a reabordagem, em geral em 24 a 48 horas, com o paciente aquecido, perfundido e com coagulação recuperada.

Abdome aberto, ou peritoneostomia, é deixar a aponeurose deliberadamente sem aproximação, com um curativo de fechamento temporário, hoje quase sempre com terapia por pressão negativa. Os argumentos a favor são três: evitar e tratar a hipertensão intra-abdominal e a síndrome compartimental, remover continuamente secreção e mediadores, e facilitar reabordagens. Os argumentos contra são igualmente concretos: fístula enteroatmosférica, perda de domicílio da cavidade, hérnia ventral grande, mais dias de terapia intensiva e mais dias de ventilação.

A pergunta que separa duas decisões parecidas é: quem manda na segunda operação? Na estratégia programada, a reabordagem acontece por calendário, a cada 36 a 48 horas, até a cavidade estar limpa. Na estratégia sob demanda, o paciente é quem convoca: reopera quem deteriora, quem não melhora ou quem mostra coleção nova na imagem. O ensaio randomizado holandês de 2007 comparou as duas em 232 pacientes com peritonite grave e não encontrou diferença de mortalidade (36% na programada contra 29% sob demanda, p = 0,22), com menos reoperações, menos tempo de terapia intensiva (7 contra 11 dias) e custo 23% menor no braço sob demanda.

Isso não elimina a reabordagem planejada — ela continua sendo parte do desenho quando a primeira operação foi deliberadamente incompleta, que é o caso do damage control e o da infecção necrosante de partes moles. A diferença é conceitual e cai em prova: no damage control, a segunda operação é a continuação da primeira; na peritonite do paciente que já foi operado por completo, a segunda operação é um resgate, e o gatilho é clínico.

O contraponto brasileiro é útil porque mede a prática real. Numa série de 75 laparotomias por sepse abdominal grave em hospital universitário brasileiro, 40 pacientes foram conduzidos com abdome aberto e terapia por pressão negativa e 35 com fechamento primário: a mortalidade global foi de 55% e as curvas de sobrevida não diferiram (log-rank p = 0,43). Os autores registram que a escolha da técnica seguiu preferência do cirurgião e não protocolo — o que é a leitura correta do resultado. Peritoneostomia é ferramenta para indicação específica, não estratégia que melhore desfecho por si.

Colangite: a obstrução é o foco e o prazo é da drenagem

A colangite aguda é o exemplo mais limpo de sepse por obstrução: a via biliar obstruída se enche de bactérias sob pressão e passa a lançá-las na circulação. Antimicrobiano em via biliar obstruída trata a bacteremia e não trata a fonte, porque a droga não vence a pressão dentro do ducto. Descomprimir é o tratamento.

A tríade de Charcot — febre, icterícia e dor no hipocôndrio direito — é o achado clássico e é específica, mas está presente numa minoria dos casos, o que explica por que os critérios modernos não dependem dela. A pêntade de Reynolds acrescenta hipotensão e alteração do nível de consciência e descreve a colangite grave. Os critérios de Tóquio organizam o diagnóstico em três eixos: inflamação sistêmica (febre acima de 38 °C ou calafrio, leucócitos abaixo de 4.000 ou acima de 10.000/mm³, proteína C reativa de 1 mg/dL ou mais), colestase (bilirrubina total de 2 mg/dL ou mais, fosfatase alcalina, gama-GT, AST ou ALT acima de 1,5 vez o limite superior) e imagem (dilatação da via biliar mais evidência da causa: cálculo, estenose, stent). Suspeita exige um item de inflamação mais um de colestase ou de imagem; diagnóstico definitivo exige um item de cada eixo.

A gravidade define o relógio. Grau III (grave) é a colangite com disfunção orgânica, e os cortes são explícitos: hipotensão que exige dopamina em 5 µg/kg/min ou mais, ou noradrenalina em qualquer dose; rebaixamento de consciência; relação PaO2/FiO2 abaixo de 300; oligúria ou creatinina acima de 2,0 mg/dL; INR acima de 1,5; plaquetas abaixo de 100.000/mm³. Grau II (moderada) é a que reúne dois destes cinco marcadores, sem disfunção instalada: leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 4.000/mm³, febre de 39 °C ou mais, idade de 75 anos ou mais, bilirrubina total de 5 mg/dL ou mais, e hipoalbuminemia. Grau I (leve) é o resto. E o prazo sai direto do grau: no grau I, tratamento inicial, com drenagem se não houver resposta nas primeiras 24 horas; no grau II, drenagem precoce, dentro de 24 horas — no estudo multicêntrico do Japão e de Taiwan, drenar a colangite moderada nesse prazo reduziu a mortalidade de 3,4% para 1,7% (p = 0,0172), sem diferença nas formas leve e grave; no grau III, drenagem de emergência assim que o paciente estiver hemodinamicamente estável, com o suporte de órgãos correndo em paralelo.

A via preferencial é endoscópica: colangiopancreatografia retrógrada com papilotomia e retirada do cálculo, ou colocação de stent quando a desobstrução completa não é possível no ato. A drenagem transhepática percutânea entra quando a via endoscópica falha ou é inviável, tipicamente por anatomia alterada por cirurgia prévia. A drenagem cirúrgica ficou como última alternativa. Depois de controlado o foco, o antimicrobiano é curto: 3 a 5 dias contados da drenagem adequada.

Um detalhe de sequência que a prova gosta: na colangite por coledocolitíase, a via biliar vem primeiro e a vesícula depois. Colecistectomia no mesmo tempo da colangite grave é operação de grande porte em paciente séptico, quando existe um procedimento menor que já controla o foco. A colecistectomia é feita na mesma internação, depois da recuperação — e vale não confundir esse cenário com o da colecistite aguda, em que a colecistectomia precoce, em até 7 dias do início dos sintomas, é o próprio controle do foco.

Fasciíte necrotizante: o diagnóstico é clínico e o tratamento é a sala

A infecção necrosante de partes moles progride ao longo da fáscia, poupando a pele nas primeiras horas — e é essa dissociação que gera o achado mais importante: dor desproporcional ao que se vê. O paciente parece pior do que o exame local sugere. Somam-se edema que ultrapassa os limites do eritema, endurecimento lenhoso, bolhas de conteúdo escuro ou hemorrágico, áreas de anestesia cutânea (os nervos superficiais foram destruídos), toxemia sistêmica e, principalmente, progressão em horas. Marcar o limite do eritema à caneta na admissão é o teste mais barato do plantão: se o limite foi ultrapassado antes da reavaliação, o diagnóstico está praticamente feito.

Crepitação e necrose franca da pele são achados tardios e pouco sensíveis. Esperar por eles é esperar demais. O mesmo vale para a ausência de resposta ao antimicrobiano: celulite que piora sob tratamento adequado, sobretudo em diabético, deve ser tratada como necrosante até que a exploração diga o contrário.

O escore LRINEC é o ponto em que a prova costuma armar a armadilha. Ele soma seis variáveis laboratoriais de rotina, cada uma com seu corte — proteína C reativa acima de 150 mg/L, leucócitos acima de 15.000/µL, hemoglobina abaixo de 13,5 g/dL, sódio abaixo de 135 mmol/L, creatinina acima de 1,6 mg/dL e glicemia acima de 180 mg/dL —, e usa 6 pontos como limiar de suspeita. Com 8 pontos ou mais, o risco de infecção necrosante fica em torno de 75%. O problema aparece quando o escore sai da população em que foi derivado: na metanálise de 23 estudos reproduzida pelo consenso cirúrgico, o corte de 6 pontos ou mais teve sensibilidade de 68,2% e especificidade de 84,8%, e o corte de 8 pontos ou mais, sensibilidade de 40,8% e especificidade de 94,9%. Traduzindo o primeiro número: cerca de um terço das infecções necrosantes pontua abaixo de 6.

A leitura correta desses números é assimétrica, e vale para qualquer escore com esse perfil: valor alto acrescenta informação, valor baixo não retira nada. Escore de 2 pontos num paciente com dor desproporcional e progressão em horas não afasta coisa alguma — e o consenso cirúrgico escreve isso como recomendação graduada (1B): pela baixa sensibilidade, o LRINEC não deve ser usado para afastar infecção necrosante de partes moles. Na mesma linha vêm as outras duas recomendações que fecham o tema: infecção de partes moles rapidamente progressiva deve sempre ser presumida necrosante (1C), e exames de imagem não devem atrasar a avaliação nem a intervenção cirúrgica (1A).

O tratamento é o desbridamento cirúrgico imediato e amplo, até encontrar tecido viável que sangra. A exploração confirma o diagnóstico no ato: fáscia que se descola sem resistência ao dedo, ausência de sangramento e líquido acinzentado e turvo. A operação econômica é a que obriga a terceira: a margem tem de ser generosa. Reinspeção programada em 12 a 24 horas, e tantas quantas forem necessárias enquanto houver progressão; amputação quando o membro for a fonte irrecuperável. O atraso além de 12 horas se associa a mortalidade maior.

O antimicrobiano acompanha e não substitui: esquema endovenoso de amplo espectro cobrindo gram-positivos (incluindo estafilococo resistente à meticilina conforme o cenário), gram-negativos e anaeróbios, somado a um inibidor de síntese proteica — clindamicina é o mais usado — pela supressão da produção de toxina, com descalonamento após a cultura e duração de 7 a 14 dias. A gangrena de Fournier é a mesma doença no períneo, com o mesmo raciocínio e a mesma pressa, e o diabetes é o fator predisponente mais frequente nas duas apresentações.

Coxa com placa violácea de limites imprecisos, duas bolhas hemorrágicas e edema que ultrapassa a área avermelhada, com o limite anterior do eritema marcado na pele.
Edema além do eritema, bolhas hemorrágicas e progressão visível em horas. O limite marcado na pele é o teste mais barato do plantão — e o que decide a ida à sala.

Antimicrobiano no foco abdominal: amplo no começo, estreito cedo, curto depois

A cobertura empírica da infecção intra-abdominal mira sempre o mesmo par: bacilos gram-negativos entéricos e anaeróbios. O que muda o esquema não é o órgão, é o cenário. Infecção comunitária em paciente sem gravidade e sem exposição prévia admite espectro moderado. Infecção comunitária grave, com choque, e infecção associada à assistência — pós-operatória, em internado, em quem usou antimicrobiano nos últimos meses — pedem espectro ampliado, com atividade antipseudomonas, e obrigam a considerar enterococo e Candida, que são frequentes exatamente nesse subgrupo e raros no outro. O esquema concreto segue o mapa microbiológico e a orientação do controle de infecção da instituição, que conhece o perfil local.

O descalonamento é a segunda metade da conduta e é onde a maioria dos serviços falha: assim que a cultura e o antibiograma voltam, o espectro estreita. Manter esquema de amplo espectro depois que ele deixou de ser necessário não protege ninguém — seleciona resistência, aumenta toxicidade e prolonga internação.

A duração, depois de controle adequado do foco, é curta e tem números. O ensaio STOP-IT randomizou 518 pacientes com infecção intra-abdominal complicada e controle do foco obtido entre um curso fixo de cerca de 4 dias e antimicrobiano mantido até 2 dias depois da resolução de febre, leucocitose e íleo, com teto de 10 dias: o desfecho composto de infecção de sítio cirúrgico, infecção intra-abdominal recorrente e morte foi semelhante nos dois braços, com metade do tempo de exposição no braço curto. As recomendações cirúrgicas por sítio dizem o mesmo em outra forma: 3 a 5 dias para a maioria das infecções intra-abdominais complicadas, 4 a 7 dias na apendicite complicada, 3 a 5 dias na colangite, 1 a 4 dias na colecistite complicada, e nenhum antimicrobiano pós-operatório na apendicite e na colecistite não complicadas em que a ressecção foi completa.

A trava vale mais do que qualquer um desses números: a contagem só começa quando o foco foi controlado. Curso curto é conduta para quem teve controle adequado e está melhorando. Em paciente com coleção residual, dreno com débito entérico ou febre que reaparece, a pergunta não é quantos dias de antimicrobiano — é o que ainda precisa ser drenado, retirado ou desobstruído. Prolongar antimicrobiano em foco não controlado é a forma mais comum de adiar uma operação necessária.

Febre no pós-operatório: o dia sugere o foco, a taquicardia dá a hora

Nas primeiras 48 horas, a explicação mais frequente da febre é a própria resposta inflamatória ao trauma cirúrgico, e a maior parte desses casos não é infecção. Existem duas exceções cirúrgicas, e elas são a razão de a ferida ser examinada com o curativo aberto mesmo nesse período: a infecção de ferida por estreptococo do grupo A e a por clostrídio aparecem nas primeiras 24 a 48 horas e são necrosantes. Dor desproporcional na ferida, secreção acinzentada e fina, edema que avança e crepitação levam à sala, não ao antimicrobiano oral.

Do 3º ao 5º dia, o território é dos dispositivos e do pulmão: pneumonia, infecção urinária associada a cateter vesical, flebite e infecção de cateter venoso. A conduta que rende é inventariar dispositivos e retirar o que não é necessário — cateter que não tem indicação é foco esperando a vez.

Do 5º ao 7º dia entram a infecção de sítio cirúrgico e a deiscência de anastomose, e é aqui que a prova concentra os casos. O sinal mais útil não é a febre: é a taquicardia persistente que não cede com analgesia, o íleo que volta depois de já ter havido trânsito, a fibrilação atrial nova, a confusão em idoso, a dor abdominal que piora em vez de melhorar e o dreno que muda de aspecto — turvo, entérico, fecaloide. Em pós-operatório de anastomose, esse conjunto é vazamento até prova em contrário. Paciente estável vai à tomografia com contraste; paciente com peritonite difusa ou instabilidade vai direto à sala.

Depois do 7º dia, as suspeitas são abscesso de órgão ou cavidade, infecção de cateter, colite por Clostridioides difficile, tromboembolismo venoso e febre por droga. A pergunta de sempre continua valendo: existe alguma coisa a drenar, retirar ou desobstruir?

A classificação brasileira da infecção de sítio cirúrgico organiza a conduta melhor do que parece. A nota técnica da Anvisa conta a vigilância a partir do dia da cirurgia e a fixa em 30 dias, subindo a 90 dias numa lista fechada de procedimentos: implante de prótese mamária, prótese primária de quadril, prótese primária de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata. E separa três planos — incisional superficial (pele e subcutâneo), incisional profunda (fáscia e músculo) e de órgão ou cavidade —, com a regra de computar sempre o mais profundo entre os que fecharem critério. Os dois primeiros são um problema de ferida, e ferida infectada se trata abrindo, drenando e desbridando: antimicrobiano isolado não trata coleção de parede, e só entra quando há celulite extensa, sinais sistêmicos ou implante. O terceiro plano é o abscesso profundo, e cai integralmente nos critérios de drenagem percutânea contra cirurgia da seção anterior. Um detalhe que a prova gosta: se o paciente volta ao centro cirúrgico para nova abordagem no mesmo sítio, o período de vigilância recomeça do zero.

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Foco por sítio: o achado que denuncia, a via que resolve e o prazo

Toda questão de sepse cirúrgica tem a mesma anatomia: o enunciado descreve um paciente séptico, esconde no meio dos dados um achado que aponta o sítio, e as alternativas oferecem vias de controle diferentes. Quem reconhece o sítio acerta o resto. Antes das tabelas, o caminho que vale para qualquer foco.

  1. 1Paciente séptico: pergunte, antes de qualquer outra coisa, se existe foco removível — coleção, alça perfurada, via obstruída, tecido morto, dispositivo. Se existir, ele é o tratamento e o resto é apoio.
  2. 2Cronometre a partir do diagnóstico: a meta é controlar o foco em 6 a 12 horas, e no choque com fonte contínua o alvo é 6.
  3. 3Procure o foco com o exame que cabe no relógio: tomografia com contraste no abdome, ultrassonografia à beira do leito para via biliar e rim, exploração cirúrgica direta quando a suspeita de infecção necrosante de partes moles é alta.
  4. 4Escolha a via pela coleção, não pela preferência: única, delimitada, líquida, com janela e sem fonte contínua vai de percutâneo; múltipla, espessa, sem janela, com peritonite difusa, isquemia ou instabilidade vai de cirurgia.
  5. 5Instabilidade grave com infecção intra-abdominal difusa: damage control — operação curta, contaminação interrompida, sem reconstrução, abdome temporariamente fechado, reconstrução em 24 a 48 horas.
  6. 6Antimicrobiano empírico amplo, dirigido ao sítio e ao cenário (comunitário ou associado à assistência), descalonado assim que a cultura permitir.
  7. 7Confira se o controle foi adequado: sinais e disfunções devem regredir em 48 a 72 horas. Peritonite que persiste 48 horas depois da intervenção é controle inadequado, não infecção resistente.
  8. 8Controle inadequado: reintervir — repetir a imagem, reposicionar ou acrescentar dreno, reoperar. Trocar o antimicrobiano sem reintervir é a troca errada.

Colangite grau I (leve)

Colangite que não preenche critérios de moderada nem de grave: sem disfunção orgânica e sem os marcadores de risco. Tratamento inicial com antimicrobiano e suporte; a drenagem biliar entra se não houver resposta em 24 horas. É o único grau em que esperar é conduta.

Colangite grau II (moderada)

Reúne dois destes cinco marcadores, sem disfunção orgânica instalada: leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 4.000/mm³, febre de 39 °C ou mais, idade de 75 anos ou mais, bilirrubina total de 5 mg/dL ou mais, hipoalbuminemia. Drenagem biliar precoce, dentro de 24 horas, por via endoscópica ou percutânea transhepática — nesse prazo a mortalidade caiu de 3,4% para 1,7%.

Colangite grau III (grave)

Colangite com disfunção orgânica — cardiovascular, neurológica, respiratória, renal, hepática ou hematológica. É a pêntade de Reynolds do lado clínico. Drenagem biliar de emergência, assim que o paciente estiver hemodinamicamente estável, com o suporte correndo em paralelo e não antes.

FocoO achado que denunciaVia de controlePrazo
Peritonite difusa por perfuração de víscera ocaDor súbita e generalizada, abdome em tábua, descompressão brusca dolorosa difusa, pneumoperitônio, sepse que não responde ao suporteCirurgia: interromper a fonte (ressecção, sutura, derivação) e lavar a cavidade. Contaminação fecal difusa em paciente instável termina em damage controlEmergente — o alvo se aproxima de 6 horas quando há choque
Abscesso intra-abdominalFebre em picos e dor localizada dias depois de cirurgia, apendicite ou diverticulite; coleção com realce periférico, às vezes com gás, na tomografiaDrenagem percutânea guiada por imagem se única, delimitada, líquida e com janela; cirurgia se múltipla, espessa, inacessível ou com fonte contínuaUrgente — dentro de 24 horas; imediata se há choque
Deiscência de anastomose5º ao 7º dia: taquicardia que não cede com analgesia, íleo que volta, fibrilação atrial nova, dreno turvo ou fecaloide, dor que piora em vez de melhorarPeritonite difusa ou instabilidade: reoperação com desmontagem da anastomose e derivação. Vazamento contido em paciente estável: dreno percutâneo e antimicrobianoEmergente quando há peritonite difusa ou instabilidade
Colangite aguda obstrutivaTríade de Charcot (febre, icterícia, dor no hipocôndrio direito); pêntade de Reynolds no grave; colestase laboratorial com via biliar dilatadaDrenagem biliar por colangiopancreatografia retrógrada endoscópica; via transhepática percutânea quando a endoscópica falha ou é inviávelGrau I: drenagem se não responder nas primeiras 24 h. Grau II: dentro de 24 h. Grau III: emergência, assim que estabilizar
Isquemia mesentéricaDor desproporcional ao exame abdominal, fibrilação atrial ou doença arterial conhecida, acidose sem outra explicação, distensão e peritonite tardiasAngiotomografia e laparotomia: ressecar o necrosado, revascularizar quando cabível, second look programado em 24 a 48 horasEmergente
Infecção de sítio cirúrgicoFerida com dor, hiperemia, endurecimento e drenagem purulenta. Nas primeiras 48 horas, dor desproporcional com secreção acinzentada aponta estreptococo do grupo A ou clostrídioAbrir a incisão, drenar e desbridar. Antimicrobiano só com celulite extensa, sinais sistêmicos ou implante. Órgão-espaço segue a regra do abscessoImediata na suspeita de infecção necrosante; no mesmo dia nas demais
Fasciíte necrotizante e gangrena de FournierDor desproporcional, edema além do eritema, bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea, toxemia, progressão em horas. Crepitação é achado tardioDesbridamento cirúrgico amplo até tecido viável, com reinspeções programadas em 12 a 24 horas; amputação quando o membro é a fonte irrecuperávelEmergente — atraso além de 12 horas se associa a mortalidade maior
Infecção de corrente sanguínea associada a cateterFebre e calafrio ao infundir pelo cateter, sinais no óstio ou no túnel, hemocultura do cateter positivando antes da periféricaRetirar o cateter — dispositivo infectado é corpo estranho colonizado. Tentativa de manutenção só em situação selecionada, com agente de baixa virulência e sem sinais gravesImediata na sepse grave, tunelite, trombose séptica ou agente agressivo
Urossepse obstrutivaSepse com hidronefrose, cálculo impactado ou pionefrose; dor lombar, e piora apesar de antimicrobiano adequadoDesobstruir: cateter duplo J por via endoscópica ou nefrostomia percutânea. O tratamento do cálculo fica para depois, em outro tempoEmergente
Empiema pleuralFebre persistente na pneumonia tratada, derrame septado ou espesso, líquido purulento com pH e glicose baixosDrenagem torácica; toracoscopia quando septado; decorticação na fase organizadaUrgente — dentro de 24 horas

Percutâneo ou cirurgia: o que empurra para cada lado

CritérioFavorece drenagem percutâneaFavorece cirurgia
Tamanho da coleçãoAcima de 4 a 5 cm é drenável; abaixo disso, antimicrobiano isolado costuma bastar em paciente estável (no abscesso diverticular, o número operacional é 5 cm)Tamanho isolado não indica cirurgia — indica quando vem acompanhado dos critérios abaixo
Número e distribuiçãoColeção única, ou duas bem separadas e ambas acessíveisColeções múltiplas, loculadas ou espalhadas pela cavidade
Janela de acessoTrajeto seguro, sem atravessar alça, vaso ou pleuraSem janela segura; coleção interalças ou de acesso obrigatoriamente transvisceral
ConteúdoLíquido, que passa por cateter finoEspesso, fecaloide, com debris ou tecido necrótico
FonteFonte já resolvida ou contida: abscesso residual, coleção pós-operatória delimitada, plastrãoFonte contínua: alça perfurada, anastomose que vaza, isquemia intestinal, necrose em curso
PeritônioColeção localizada, sem irritação peritoneal difusaPeritonite difusa ao exame físico
Estado do pacienteEstável, com margem para esperar resposta em 48 a 72 horasInstável, ou com disfunção que progride durante a observação
Resultado da primeira tentativaDébito adequado, febre cedendo, disfunções regredindoSem melhora em 48 a 72 horas depois do dreno — o passo seguinte é reintervir, não trocar de antimicrobiano

Febre no pós-operatório: o dia e o que ele sugere

PeríodoO que pensar primeiroO que fazer
Primeiras 48 horasResposta inflamatória ao próprio trauma cirúrgico, na maioria das vezes. Duas exceções cirúrgicas: infecção de ferida por estreptococo do grupo A e por clostrídioExaminar a ferida com o curativo aberto. Dor desproporcional, secreção acinzentada ou crepitação levam à sala
3º ao 5º diaPneumonia, infecção urinária associada a cateter vesical, flebite e infecção de cateter venosoInventariar dispositivos e retirar o que não é necessário; imagem de tórax e culturas dirigidas
5º ao 7º diaInfecção de sítio cirúrgico e deiscência de anastomoseTomografia com contraste no paciente estável. Peritonite difusa ou instabilidade vai direto à reoperação
Depois do 7º diaAbscesso de órgão ou cavidade, infecção de cateter, colite por Clostridioides difficile, tromboembolismo venoso, febre por drogaTomografia à procura de coleção, e a pergunta de sempre: existe algo a drenar, retirar ou desobstruir?

Duração do antimicrobiano depois do controle do foco

SituaçãoDuraçãoA trava
Apendicite ou colecistite não complicada, com ressecção completaNenhum antimicrobiano no pós-operatórioO que curou foi a ressecção — prolongar não acrescenta
Infecção intra-abdominal complicada, com controle adequado3 a 5 dias; curso fixo de cerca de 4 dias mostrou desfecho semelhante ao antimicrobiano guiado por sinais clínicosA contagem só começa quando o foco foi controlado
Apendicite complicada (perfuração, abscesso)4 a 7 diasColeção residual não se trata com dias a mais: trata-se com dreno
Colangite, após drenagem adequada3 a 5 diasSem drenagem da via biliar, não existe curso curto
Colecistite complicada1 a 4 dias após a colecistectomiaA vesícula fora é o controle do foco
Infecção necrosante de partes moles7 a 14 diasO antimicrobiano acompanha o desbridamento; ele não substitui a sala
Controle do foco inadequado ou não obtidoNão é questão de duraçãoReintervir. Prolongar antimicrobiano em foco não controlado seleciona resistência e adia a operação

O relógio do antimicrobiano só começa quando o foco foi controlado. Sepse que não melhora sob antimicrobiano adequado, em paciente com foco cirúrgico, é foco não controlado até prova em contrário — e essa prova é uma imagem, não um esquema novo.

Peritonite que persiste 48 horas depois da intervenção é a definição prática de controle inadequado. O que a literatura antiga chamava de peritonite terciária é, na maior parte das vezes, um foco que continuou lá.

Fonte contínua não fecha com dreno. Cateter percutâneo esvazia coleção; ele não sutura alça perfurada nem repara anastomose que continua vazando.

Menos invasivo primeiro é boa regra com uma exceção cara: no paciente instável, o procedimento menos invasivo que não resolve consome exatamente a janela em que o resolutivo funcionaria.

Sinais de infecção ou de doença sistêmica que persistem além de 5 a 7 dias de tratamento exigem investigação diagnóstica para decidir se cabe nova intervenção cirúrgica ou percutânea. A persistência é um pedido de imagem e de procedimento, não de troca de esquema.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O prazo do controle do foco: 6 horas, 12 horas, ou prazo nenhum?

Diretriz cirúrgica de controle do foco (2023)

Fixa uma meta operacional: 6 a 12 horas depois do diagnóstico são suficientes para a maioria dos casos, dentro de uma graduação em emergente (imediato), urgente (adiamento de 1 a 24 horas tolerável sob ressuscitação e antimicrobiano) e adiado. Os dados que sustentam o limite inferior são observacionais: sobrevida nula quando a operação passou de 6 horas na perfuração digestiva com choque séptico, e acréscimo de 6% na mortalidade por hora de atraso na perfuração gastroduodenal.

Coccolini F, Sartelli M, Sawyer R, et al. Source control in emergency general surgery: WSES, GAIS, SIS-E, SIS-A guidelines. World J Emerg Surg. 2023;18(1)

Diretriz internacional de sepse (2021)

Não fixa número de horas. A formulação é que a intervenção de controle do foco seja realizada assim que for medicamente e logisticamente praticável depois do diagnóstico, com o registro, no próprio texto, de que estudos menores sugerem vantagem quando o controle ocorre entre 6 e 12 horas e de que os dados são limitados para emitir uma recomendação de prazo.

Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063-e1143

O foco em que esperar é a conduta

Na necrose pancreática infectada, a abordagem escalonada adia deliberadamente a intervenção definitiva: antimicrobiano primeiro, depois dreno percutâneo ou endoscópico, e necrosectomia minimamente invasiva ou aberta apenas quando necessária, preferindo o tecido demarcado. Nesse sítio, operar cedo é a conduta pior.

Recomendações por sítio da diretriz de controle do foco de 2023 (necrose pancreática: manejo inicialmente não cirúrgico e estratégia escalonada)

Na prova

O recorte aparece no cenário e nas alternativas. Enunciado de perfuração de víscera oca com choque instalado trabalha com a janela curta, e as alternativas tipicamente contrastam levar à sala agora contra completar a ressuscitação e reavaliar em algumas horas — o distrator de reavaliação só existe porque o número maior existe em algum documento. Enunciado de necrose pancreática infectada em paciente estável trabalha com o oposto, e ali a alternativa que escalona do dreno para a necrosectomia é a que descreve a estratégia das fontes. Repare também no registro do documento citado: texto de sociedade de terapia intensiva tende a falar em praticabilidade médica e logística, texto de sociedade cirúrgica tende a falar em faixa de horas. Anos: formulação sem prazo em 2021, meta de 6 a 12 horas em 2023, sobre a mesma evidência observacional.

Relaparotomia programada ou por demanda na peritonite grave?

Ensaio randomizado holandês (2007)

232 pacientes com peritonite confirmada na laparotomia índice e APACHE II acima de 11, randomizados entre relaparotomia programada a cada 36 a 48 horas e reoperação apenas por demanda. Mortalidade de 36% no braço programado contra 29% no braço sob demanda, sem diferença estatística (p = 0,22). O braço sob demanda teve menos reoperações, menos tempo de terapia intensiva (7 contra 11 dias, p = 0,001) e custo hospitalar 23% menor.

van Ruler O, Mahler CW, Boer KR, et al. Comparison of on-demand vs planned relaparotomy strategy in patients with severe peritonitis: a randomized trial. JAMA. 2007;298(8):865-872

Diretriz cirúrgica de controle do foco (2023)

Mantém o damage control com abdome aberto e reabordagem planejada quando há instabilidade hemodinâmica grave com infecção intra-abdominal difusa, independentemente da classe do paciente. Nesse desenho a primeira operação é deliberadamente incompleta e a segunda faz parte do plano — situação diferente da reoperação de resgate em paciente já operado por completo.

Coccolini F, et al. Source control in emergency general surgery. World J Emerg Surg. 2023;18(1)

Série brasileira do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (2024)

75 laparotomias por sepse abdominal grave em hospital universitário brasileiro: 40 conduzidas com abdome aberto e terapia por pressão negativa, 35 com fechamento primário. Mortalidade global de 55% e curvas de sobrevida sem diferença estatística (log-rank p = 0,43). Os autores registram que a escolha da técnica seguiu preferência do cirurgião, e não protocolo, e pedem padronização.

Abdome aberto ou fechado pós-laparotomia para controle de sepse de foco intra-abdominal severa: uma análise de sobrevivência. Rev Col Bras Cir. 2024 (doi 10.1590/0100-6991e-20243595)

Na prova

Duas perguntas parecidas exigem eixos diferentes, e o enunciado sinaliza qual é qual. Se o cenário é um paciente que não melhora depois da laparotomia índice — deterioração clínica, disfunção que progride, coleção nova na tomografia —, o eixo é reoperar guiado pelo paciente, e a alternativa que agenda reabordagens por calendário foi construída sobre a estratégia programada, testada em 2007 sem ganho de mortalidade. Se o cenário é o fim da primeira operação, com instabilidade grave e contaminação fecal difusa dentro da sala, o eixo é damage control, e ali a segunda operação já está planejada. Um enunciado que cita peritoneostomia como se ela melhorasse desfecho por si contrasta com o dado brasileiro de 2024. Anos: ensaio em 2007, diretriz em 2023, série nacional em 2024.

Duração do antimicrobiano depois do controle do foco: curso fixo curto ou guiado pela resposta clínica?

Ensaio STOP-IT (2015)

518 pacientes com infecção intra-abdominal complicada e controle do foco obtido, randomizados entre curso fixo de cerca de 4 dias e antimicrobiano mantido até 2 dias depois da resolução de febre, leucocitose e íleo, com teto de 10 dias. O desfecho composto de infecção de sítio cirúrgico, infecção intra-abdominal recorrente e morte foi semelhante nos dois braços, com metade do tempo de exposição no braço curto.

Sawyer RG, Claridge JA, Nathens AB, et al. Trial of short-course antimicrobial therapy for intraabdominal infection. N Engl J Med. 2015;372(21):1996-2005

Diretriz cirúrgica de controle do foco (2023)

Traduz o mesmo achado em cursos curtos por sítio depois de controle adequado: 3 a 5 dias na maioria das infecções intra-abdominais complicadas e na colangite, 1 a 4 dias na colecistite complicada, 4 a 7 dias na apendicite complicada, nenhum antimicrobiano pós-operatório na apendicite e na colecistite não complicadas com ressecção completa — e amplo espectro suspenso assim que deixa de ser necessário.

Coccolini F, et al. Source control in emergency general surgery. World J Emerg Surg. 2023;18(1)

Ensaio DURAPOP (2018)

249 pacientes de terapia intensiva com infecção intra-abdominal pós-operatória, randomizados no 8º dia entre interromper o antimicrobiano e mantê-lo até o 15º. A mortalidade em 45 dias foi de 11% no braço de 8 dias contra 15% no de 15 dias (p = 0,43), sem diferença em tempo de internação, emergência de bactérias multirresistentes ou reoperação — mas com mais drenagens subsequentes entre o 8º e o 45º dia no braço curto (p = 0,041). O ponto que importa é o tamanho do curso curto testado: 8 dias, o dobro do curso fixo do ensaio de 2015, num subgrupo mais grave e já operado.

Montravers P, Tubach F, Lescot T, et al. Short-course antibiotic therapy for critically ill patients treated for postoperative intra-abdominal infection: the DURAPOP randomised clinical trial. Intensive Care Med. 2018;44(3):300-310

Na prova

O que define o recorte é uma frase que costuma passar despercebida no enunciado: se o controle do foco foi adequado. Com o foco controlado e o paciente melhorando, o eixo é curso curto, e as alternativas de 10 ou 14 dias existem para pegar quem conta os dias pelo calendário. Quando o enunciado descreve coleção residual, dreno com débito entérico ou febre que reaparece, todas as alternativas que discutem número de dias compartilham a mesma premissa falsa, e o eixo real da questão é a reintervenção. Vale reparar no cenário: enunciado de apendicectomia não complicada em hospital do SUS costuma cobrar que não há antimicrobiano pós-operatório, enquanto enunciado de terapia intensiva com paciente grave abre espaço para a duração guiada. Repare também no cenário: enunciado de enfermaria, com foco controlado e paciente melhorando, é o mundo do curso fixo de 4 dias; enunciado de terapia intensiva com peritonite pós-operatória é o mundo em que o braço curto testado tinha 8 dias, e ali a alternativa de 4 dias não corresponde ao que foi medido. Anos e números: 4 dias fixos no ensaio de 2015, 8 dias no de 2018, cursos por sítio nas recomendações de 2023.

O LRINEC decide alguma coisa na fasciíte necrotizante?

Derivação original do escore (2004)

Escore construído a partir de seis variáveis laboratoriais de rotina — proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicose — para distinguir a infecção necrosante das demais infecções graves de partes moles, com 6 pontos como limiar de suspeita. É o instrumento que o próprio consenso cirúrgico reproduz, e nele 8 pontos ou mais correspondem a um risco de cerca de 75% de infecção necrosante: no sentido positivo, o escore carrega informação real e serve para elevar a suspeita em quadro ainda pouco definido.

Wong CH, Khin LW, Heng KS, Tan KC, Low CO. The LRINEC score. Crit Care Med. 2004;32(7):1535-1541 — estrutura, cortes e o risco acima de 8 pontos reproduzidos no consenso WSES/SIS-E de 2018

Acurácia medida fora da derivação

Reunidos 23 estudos, o corte de 6 pontos ou mais teve sensibilidade de 68,2% e especificidade de 84,8%; o corte de 8 pontos ou mais, sensibilidade de 40,8% e especificidade de 94,9%. Sobre esses números o consenso escreve a recomendação 1B: pela baixa sensibilidade, o LRINEC não deve ser usado para afastar infecção necrosante. A conclusão é assimétrica — valor alto acrescenta, valor baixo não retira.

2018 WSES/SIS-E consensus conference: recommendations for the management of skin and soft-tissue infections. World J Emerg Surg. 2018;13. doi:10.1186/s13017-018-0219-9 (metanálise de 23 estudos reproduzida no documento)

Consenso cirúrgico de emergência (2018)

O diagnóstico da infecção necrosante de partes moles é primariamente clínico: infecção de partes moles rapidamente progressiva deve sempre ser presumida necrosante (1C); exames de imagem não devem atrasar a avaliação nem a intervenção cirúrgica (1A); e o controle cirúrgico do foco deve ocorrer o mais cedo possível, no máximo dentro das primeiras 12 horas da admissão (1B). Na dúvida, a conduta descrita é a incisão profunda até a fáscia, que é ao mesmo tempo o exame que confirma e o começo do tratamento.

2018 WSES/SIS-E consensus conference: recommendations for the management of skin and soft-tissue infections. World J Emerg Surg. 2018;13. doi:10.1186/s13017-018-0219-9

Na prova

O escore aparece de dois jeitos. Quando o enunciado pede os componentes ou o ponto de corte, o eixo é memória do instrumento, e a questão vive no mundo da derivação de 2004. Quando o enunciado descreve dor desproporcional com progressão em horas e coloca calcular o escore ao lado de levar à exploração cirúrgica, o eixo passou a ser o valor do escore — e a presença de um distrator laboratorial nas alternativas denuncia o recorte, porque ele só é construível sobre a baixa sensibilidade. Note ainda o vocabulário: enunciado que trata o escore como triagem pertence ao primeiro mundo; enunciado que fala em suspeita clínica alta pertence ao segundo. Anos e números juntos: derivação em 2004, em que 8 pontos ou mais indicam risco de cerca de 75%; acurácia sintetizada em 23 estudos, com sensibilidade de 68,2% no corte de 6 e de 40,8% no corte de 8; e a posição graduada do consenso cirúrgico de 2018, de que valor baixo não afasta.

06

Caso resolvido

Homem de 68 anos, hipertenso, no 6º dia de pós-operatório de retossigmoidectomia com anastomose colorretal por adenocarcinoma. Vinha bem e iniciou dieta líquida no 4º dia. Nas últimas 12 horas parou de eliminar flatos, distendeu, e a enfermagem registra frequência cardíaca entre 118 e 130 bpm apesar de analgesia adequada. Temperatura axilar de 38,2 °C, PA 96 x 58 mmHg com resposta apenas parcial à infusão de cristaloide. Abdome distendido, doloroso de forma difusa, com descompressão brusca dolorosa nos quadrantes inferiores. O dreno pélvico drenou 150 mL de líquido turvo, de odor fecaloide, nas últimas 6 horas.
o dia
Sexto dia de pós-operatório de anastomose colorretal é a janela clássica da deiscência, que costuma se declarar entre o 5º e o 7º dia. A febre é o dado menos informativo do conjunto.
o sinal que vale mais que a febre
Taquicardia persistente que não cede com analgesia, íleo que retorna depois de já ter havido trânsito e dreno que mudou de aspecto para turvo e fecaloide. Em pós-operatório de anastomose, essa combinação é vazamento até prova em contrário.
o foco
O foco é anatômico e contínuo: uma anastomose que segue despejando conteúdo entérico na cavidade. Nenhum antimicrobiano interrompe isso, e o dreno pélvico está apenas testemunhando o vazamento, não controlando.
o exame, e o limite dele
Tomografia de abdome e pelve com contraste confirmaria e mapearia — mas descompressão brusca dolorosa difusa já descreve peritonite difusa, e a pressão só responde em parte ao volume. Paciente com peritonite difusa e instabilidade vai à sala; a imagem não pode consumir a janela.
a via de controle
Peritonite difusa com fonte contínua não é caso de drenagem percutânea. É reoperação: desmontar a anastomose, ressecar o segmento comprometido, lavar a cavidade e derivar o trânsito em colostomia terminal. Refazer anastomose no meio da peritonite é repetir o problema.
o prazo
A meta é controlar o foco em 6 a 12 horas do diagnóstico, e com hipotensão que só responde parcialmente o alvo se aproxima de 6. Ressuscitação e antimicrobiano correm em paralelo, dentro da sala, e não antes dela.
como a operação termina
Se o paciente estiver instável com contaminação fecal difusa, a operação termina curta: fonte interrompida, cavidade lavada, sem reconstrução, abdome temporariamente fechado, terapia intensiva e reabordagem planejada em 24 a 48 horas. Se estiver estável depois do controle da fonte, fecha-se com a colostomia pronta.
antimicrobiano
Esquema empírico amplo com atividade contra gram-negativos entéricos e anaeróbios, ampliado por se tratar de infecção pós-operatória, associada à assistência, com atenção a enterococo e Candida nesse subgrupo. Descalonar quando a cultura voltar. Com controle adequado, a duração é curta — da ordem de 4 dias, contados a partir do controle e não da primeira cirurgia.
conferir se deu certo
Sinais e disfunções devem regredir em 48 a 72 horas. Peritonite que persiste 48 horas depois da reoperação é controle inadequado: a resposta é nova imagem e nova intervenção, não um antimicrobiano diferente.
07

Agora feche você

Mulher de 57 anos, diabética em uso de insulina, procura o pronto-socorro por dor na coxa direita iniciada há 36 horas, depois de uma escoriação em queda de bicicleta. Recebeu cefalexina ambulatorial há 24 horas e piorou. Ao exame: prostrada, FC 124 bpm, PA 100 x 60 mmHg, temperatura de 38,8 °C. A coxa direita está edemaciada da raiz ao joelho, com placa eritematoviolácea mal delimitada de cerca de 12 cm, duas bolhas de conteúdo escuro e uma área central em que ela não sente o toque. Refere dor intensa, desproporcional ao que se vê. O limite do eritema, marcado à caneta na admissão, foi ultrapassado em 90 minutos. Não há crepitação. Exames: leucócitos 21.400/mm³, proteína C reativa 240 mg/L, sódio 132 mEq/L, creatinina 1,9 mg/dL, glicemia 288 mg/dL, hemoglobina 11,8 g/dL.
o quadro
Infecção de partes moles com dor desproporcional, edema que ultrapassa o eritema, bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea e progressão visível em 90 minutos, numa diabética que já falhou com antimicrobiano oral. A ausência de crepitação não conta a favor: crepitação é achado tardio.
o laboratório
Proteína C reativa muito alta, leucocitose, sódio baixo, creatinina e glicemia elevadas: os valores compõem um escore LRINEC alto. Vale registrar o que isso muda — e o que não mudaria se o escore viesse baixo.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Escalonar o antimicrobiano em vez de reintervir Atrai porque parece ação: o paciente não melhora, então troca-se por algo mais forte. Mas em foco cirúrgico não controlado, nenhum espectro alcança o interior de uma coleção. Sepse que não melhora sob antimicrobiano adequado é foco não controlado até prova em contrário, e essa prova é uma imagem seguida de uma intervenção.
  2. 2Levar ao tomógrafo o paciente que já tem indicação cirúrgica A imagem dá conforto e é quase sempre a conduta certa — exceto quando o exame físico já fechou o caso. Peritonite difusa com instabilidade, ou suspeita alta de infecção necrosante, vão à sala. Imagem serve para decidir onde e como, não para adiar o se, e o tempo que ela consome sai da janela de 6 a 12 horas.
  3. 3Usar LRINEC baixo para afastar fasciíte necrotizante No corte de 6 pontos, a sensibilidade medida fora da derivação foi de 68,2%: cerca de um terço das infecções necrosantes fica abaixo do limiar. Escore baixo em paciente com dor desproporcional e progressão em horas não afasta nada, e o consenso cirúrgico diz isso com todas as letras. É a armadilha mais bem construída do tema porque parece rigor: usar um número em vez de uma impressão.
  4. 4Contar os dias de antimicrobiano a partir da operação, sem checar se o foco foi controlado Curso de 4 dias é conduta para quem teve controle adequado. Em paciente com coleção residual ou dreno com débito entérico, discutir duração é discutir a pergunta errada — e prolongar o esquema seleciona resistência enquanto a operação necessária espera.
  5. 5Esperar o paciente estabilizar para operar quem só estabiliza com o foco fora Vem do hábito correto de otimizar antes de intervir, que vale em quase toda a medicina. Na sepse cirúrgica com fonte contínua, a ressuscitação acompanha o paciente até dentro da sala: a hipotensão que não sobe costuma ser exatamente a que só vai subir depois que a contaminação parar.
  6. 6Achar que dreno percutâneo resolve fonte contínua O cateter esvazia coleção, e isso o torna a escolha certa em abscesso delimitado. Ele não sutura alça perfurada nem repara anastomose que continua vazando. Escolher o menos invasivo quando ele não resolve custa a janela em que o resolutivo funcionaria.
  7. 7Atribuir a taquicardia do pós-operatório à dor ou à febre É a explicação mais confortável e a mais perigosa entre o 5º e o 7º dia. Frequência que não cede com analgesia adequada, íleo que retorna, fibrilação atrial nova e dreno que muda de aspecto formam o quadro do vazamento de anastomose antes que a febre alta apareça.
  8. 8Refazer anastomose no meio da peritonite difusa Atrai pelo bom motivo de poupar o paciente de um estoma. Só que anastomose feita em campo contaminado, com paciente séptico e má perfusão esplâncnica, é a próxima deiscência — e a segunda reoperação é sempre pior que a primeira. Em contaminação difusa com instabilidade, o trânsito se deriva.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: no choque séptico com hipotensão persistente após ressuscitação volêmica adequada (30 mL/kg), a Surviving Sepsis Campaign recomenda noradrenalina como vasopressor de primeira escolha, com alvo de PA média ≥ 65 mmHg — exatamente o cenário do paciente, que mantém PAM 58 após a expansão. Novo bolus fixo de 30 mL/kg às cegas não é recomendado após a ressuscitação inicial já realizada com hipotensão refratária — o passo é vasopressor, guiado por marcadores de perfusão. Dopamina foi rebaixada (associada a maior risco de arritmias) e não é primeira linha. Dobutamina é inotrópico, indicada em disfunção miocárdica/hipoperfusão apesar de PAM adequada, não para corrigir hipotensão isoladamente. Corticoide (hidrocortisona) só entra no choque refratário à noradrenalina em dose crescente, não como medida inicial isolada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Controle do foco = drenar, desbridar e retirar dispositivo, descomprimir, restaurar. Meta de 6 a 12 horas depois do diagnóstico; alvo de 6 no choque com fonte contínua. Coleção acima de 4 a 5 cm, única, líquida, com janela e sem fonte contínua: dreno percutâneo. Múltipla, espessa, sem janela, com peritonite difusa ou instabilidade: cirurgia. Colangite: no grau leve, drenagem se não houver resposta nas primeiras 24 horas; no moderado, drenagem precoce dentro de 24 horas; no grave, drenagem de emergência assim que estabilizar. Fasciíte: diagnóstico clínico, sala imediata, LRINEC baixo não afasta. Antimicrobiano após controle adequado: cerca de 4 dias (3 a 5), e o relógio só começa com o foco controlado.

em 30 dias

Reconstrua os números com a fonte: 6% de acréscimo de mortalidade por hora de atraso na perfuração gastroduodenal e sobrevida nula além de 6 horas na perfuração com choque; 4 a 5 cm como corte operacional no abscesso diverticular, com 3 a 5 dias de antimicrobiano depois de drenado; 36% contra 29% de mortalidade entre relaparotomia programada e sob demanda, sem diferença estatística, com 11 contra 7 dias de terapia intensiva; 55% de mortalidade e ausência de diferença entre abdome aberto e fechado na série brasileira; sensibilidade do LRINEC de 68,2% e especificidade de 84,8% no corte de 6 pontos, contra 40,8% e 94,9% no corte de 8; 7 a 14 dias de antimicrobiano na infecção necrosante e 4 a 7 dias na apendicite complicada. E saiba dizer por que peritonite que persiste 48 horas depois da intervenção não é infecção resistente.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 71 anos, no 5º dia de pós-operatório de colectomia direita por neoplasia, é reavaliado na enfermaria por febre de 38,4 °C, taquicardia de 122 bpm que não cede com analgesia e íleo que voltou depois de dois dias eliminando flatos. O dreno abdominal mudou de aspecto nas últimas horas. Conduza a avaliação, decida se existe foco a controlar, escolha a via e defina o prazo. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Choque séptico e manejo da sepse cirúrgica – Sepse cirúrgica e controle do foco — Preparatório para provas | OsceLabs