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Sepse cirúrgica e controle do foco
Choque séptico e manejo da sepse cirúrgica (Surviving Sepsis)
Na sepse cirúrgica o antibiótico compra tempo e o suporte compra pressão — quem trata é o procedimento. A prova entrega um paciente séptico com foco anatômico e cobra três decisões: onde está o foco, por qual via ele se controla e dentro de quantas horas.
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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem, 68 anos, hipertenso, é admitido no pronto-socorro com dor abdominal difusa e febre há 2 dias, após quadro de diverticulite complicada. Ao exame: torporoso, PA 78/44 mmHg, FC 124 bpm, FR 28 ipm, SatO2 93% em ar ambiente, T 38,9 °C, extremidades frias e tempo de enchimento capilar de 4 segundos. Abdome difusamente doloroso com descompressão positiva. Exames: lactato 4,8 mmol/L (VR < 2,0), leucócitos 22.000/mm³ (VR 4.000–11.000), creatinina 2,1 mg/dL (VR 0,6–1,2). Iniciada ressuscitação volêmica com 30 mL/kg de cristaloide em 1 hora e antibioticoterapia de amplo espectro. Após a expansão, persiste com PA média de 58 mmHg. Assinale a conduta correta neste momento.
Como esse tema cai
Sepse cirúrgica é a sepse cujo foco tem endereço: uma coleção, uma alça perfurada, uma via biliar obstruída, um tecido morto, um cateter colonizado. A diferença não é semântica. Na pneumonia, o antimicrobiano chega ao foco pelo sangue e trata. Numa coleção de 8 cm, ele circula ao redor: dentro do abscesso o pH é baixo, não há oxigênio, não há vascularização e a carga bacteriana é grande demais para qualquer esquema. Enquanto o foco continuar lá, tudo o que se faz é suporte com nome de tratamento.
Reconhecer a sepse, cravar o rótulo e disparar as primeiras medidas — o que colher, o que infundir e em que prazo — é assunto do capítulo de sepse e choque séptico, na clínica médica. Separar hipotensão séptica de cardiogênica, obstrutiva ou hipovolêmica é assunto do capítulo dos quatro tipos de choque, nesta mesma apostila. Este capítulo começa depois: o paciente já foi rotulado, já está sendo ressuscitado, e ainda vai morrer se o foco continuar onde está.
O nome técnico do que vem aqui é controle do foco: o conjunto de medidas que elimina a fonte da infecção e desmonta o ambiente que favorece o crescimento bacteriano. Em cirurgia de emergência ele se decompõe em quatro atos — drenar coleção, desbridar tecido morto e retirar dispositivo, descomprimir cavidade ou víscera sob pressão, e restaurar anatomia e função. Uma questão de sepse cirúrgica é quase sempre a pergunta de qual desses quatro atos o paciente da vinheta precisa, por qual via e com que pressa.
O que muda decisão
Por que a sepse cirúrgica é um problema de relógio cirúrgico
Três características separam o foco cirúrgico do foco clínico. A primeira é a barreira: pus, tecido necrótico, fibrina e corpo estranho formam um compartimento em que o antimicrobiano não alcança concentração útil e em que a defesa do hospedeiro não entra. A segunda é a carga: uma coleção tem ordens de grandeza mais bactérias do que um parênquima infectado, e nenhum esquema empírico foi desenhado para essa aritmética. A terceira é a continuidade: quando a fonte é uma perfuração ou uma anastomose que vaza, a cavidade está sendo recontaminada agora, e cada hora de espera repõe o que o suporte tira.
É por isso que a sepse cirúrgica inverte um hábito clínico. Em quase toda emergência a sequência é otimizar e depois intervir. Aqui, passado certo ponto, otimizar é a causa da morte: o paciente que não sobe a pressão é frequentemente o paciente que só vai subir depois que a fonte de contaminação sair. Ressuscitação e controle do foco não são etapas em fila — a ressuscitação acompanha o paciente até dentro da sala e continua durante o procedimento.
Os dois números que dimensionam isso são observacionais, e ambos vêm da mesma direção. Numa série de perfuração do trato gastrointestinal com choque séptico, a sobrevida foi nula quando a operação passou de 6 horas. Em perfuração gastroduodenal, cada hora adicional de atraso até o controle operatório do foco se associou a um acréscimo de 6% na mortalidade. Nenhum ensaio randomizou pacientes para operar cedo ou tarde, e nenhum vai randomizar — a evidência do prazo é, e vai continuar sendo, de coorte.
O corolário fecha o raciocínio pelo outro lado: se o controle do foco é o tratamento, então falha do controle do foco é falha de tratamento, não infecção resistente. Peritonite que persiste 48 horas depois da intervenção é a definição prática de controle inadequado. O que a literatura mais antiga chamava de peritonite terciária costuma ser, na inspeção honesta, um foco que continuou lá.
Os quatro atos, e a graduação da pressa
Controlar o foco é executar um dos quatro atos, às vezes mais de um. Drenagem retira a coleção — por cateter percutâneo, por incisão, por endoscopia ou pela cavidade aberta. Desbridamento retira o que já não é tecido: necrose, fibrina, material infectado, e também o dispositivo, porque cateter, prótese e stent infectados são corpo estranho colonizado. Descompressão alivia a víscera ou a cavidade sob pressão: via biliar obstruída, via urinária obstruída, alça em risco, abdome com hipertensão. Restauração devolve anatomia e função: ressecar o segmento perfurado, derivar o trânsito, fechar a comunicação que não devia existir.
A pressa tem três graus, e reconhecer o grau é metade da resposta. Emergente é o procedimento que não admite adiamento porque o distúrbio fisiológico é grave e a fonte é contínua: perfuração com peritonite difusa, infecção necrosante de partes moles, isquemia intestinal, obstrução urinária infectada. Urgente admite adiamento de 1 a 24 horas desde que a ressuscitação e o antimicrobiano estejam correndo: a maior parte dos abscessos, a colangite que não está em choque, o empiema. Adiado é a exceção legítima: em necrose pancreática infectada, esperar a demarcação e escalonar do dreno para a necrosectomia é a estratégia sustentada, não hesitação.
A pergunta operacional que resolve a maior parte das vinhetas é uma só, e vale a pena decorá-la nesta forma: existe neste paciente alguma coisa que possa ser drenada, retirada ou desobstruída? Se existe, ela é o tratamento, e todo o resto é apoio. Se não existe, o caso provavelmente não é cirúrgico e voltou para o território do capítulo de sepse.
Entre os quatro atos, a descompressão é o menos lembrado e o que menos admite espera. A urossepse obstrutiva é o caso puro: rim infectado atrás de um cálculo impactado é uma coleção sob pressão, e nenhuma droga esteriliza sistema fechado. A diretriz europeia de urologia lista o controle do foco entre as recomendações de força forte na urossepse, com três verbos — remover corpo estranho, desobstruir e drenar abscesso. A desobstrução se faz por cateter ureteral duplo J, por via endoscópica, ou por nefrostomia percutânea, conforme a anatomia e a disponibilidade; as duas resolvem. E o tratamento definitivo do cálculo fica para outro tempo, depois de resolvida a sepse — manipular via infectada e obstruída no meio do quadro séptico piora o paciente. A duração do antimicrobiano na urossepse é de 7 a 10 dias, prolongada em quem responde devagar.
O prazo: 6 a 12 horas, e as duas leituras do número
A meta operacional é controlar o foco em 6 a 12 horas depois do diagnóstico, e ela cobre a maioria dos casos. As duas pontas dessa faixa não são arbitrárias: 12 horas é o teto para o paciente que está sendo ressuscitado com sucesso e cuja fonte não é maciça; 6 horas é o alvo quando há choque com fonte contínua, porque é exatamente aí que os dados de atraso mostram queda abrupta de sobrevida.
A consequência prática mais cobrada é sobre o exame de imagem. Um exame que confirma o que já está decidido consome a janela sem mudar a conduta. Paciente com peritonite difusa ao exame físico e instabilidade não precisa de tomografia para ir à sala — precisa de sala. O mesmo raciocínio vale na suspeita alta de infecção necrosante de partes moles, em que a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia. Imagem é para decidir onde e como, e não para adiar o se.
O outro lado do prazo é igualmente cobrado: existem focos em que a espera é a conduta correta. A necrose pancreática infectada é o exemplo canônico — a abordagem escalonada começa pelo antimicrobiano, passa por dreno percutâneo ou endoscópico e só chega à necrosectomia quando ela é inevitável, preferindo o tecido demarcado ao tecido em transição. Reconhecer o foco 'adiado' é tão avaliado quanto reconhecer o emergente, e as alternativas de prova costumam misturar os dois cenários de propósito.
Vale registrar o que sustenta cada número. A diretriz internacional de sepse não crava prazo: recomenda que a intervenção seja realizada assim que for medicamente e logisticamente praticável depois do diagnóstico, observando que estudos menores sugerem vantagem entre 6 e 12 horas e que os dados são limitados para fixar uma hora. A diretriz cirúrgica de controle do foco pega a mesma evidência e a transforma em meta gerenciável: 6 a 12 horas. As duas dizem a mesma coisa em registros diferentes — uma escreve para quem faz recomendação, a outra para quem organiza um plantão.
Achar o foco: o exame que fecha e o exame que atrasa
A história vale mais do que qualquer exame no primeiro minuto, porque ela lista os focos possíveis. Cirurgia recente e qual — anastomose, prótese, drenagem. Procedimento endoscópico ou percutâneo nos últimos dias. Cateter venoso central, cateter vesical de demora, duplo J, dreno de tórax. Diabetes, cirrose, imunossupressão, uso recente de antimicrobiano. Cada um desses itens nomeia um foco candidato e uma via de controle.
No abdome, a tomografia com contraste endovenoso é o exame de maior rendimento: mostra coleção, gás extraluminal, realce de parede, líquido livre, pneumatose, e mapeia a janela de acesso para o dreno. Ela tem três limites que a prova cobra. Paciente instável não vai ao tomógrafo. Deiscência precoce de anastomose pode dar imagem ambígua ou pobre, e tomografia normal em paciente com quadro clínico convincente não afasta vazamento. E na parede abdominal ou nos membros, achado de imagem sugestivo de infecção necrosante não substitui a exploração cirúrgica, que é ao mesmo tempo o exame confirmatório e o tratamento.
Fora do abdome, os exames que decidem são baratos. Ultrassonografia à beira do leito responde por via biliar dilatada e por hidronefrose, que são dois focos de controle imediato. Radiografia e ultrassonografia de tórax separam derrame simples de empiema loculado. Ecocardiograma entra quando o cateter ou a válvula é o suspeito. E a ferida operatória só é examinada de verdade com o curativo aberto — ferida avaliada por cima do curativo é ferida não examinada.
Quando o paciente não melhora e nenhum foco aparece, a conduta não é aumentar espectro: é repetir a busca. Reexaminar da cabeça aos pés, revisar cada dispositivo, repetir a imagem com intervalo (coleções levam horas a dias para se organizar e ficar visíveis) e, no paciente que continua deteriorando com abdome duvidoso, considerar a laparotomia exploradora. A decisão de abrir para ver continua existindo, e ela é mais defensável do que o terceiro escalonamento de antimicrobiano.
Percutâneo ou cirurgia: os critérios que decidem
A drenagem percutânea guiada por imagem mudou o manejo da infecção intra-abdominal e é a primeira escolha na maior parte dos abscessos. O que a habilita não é o diagnóstico, é a geometria: coleção única (ou duas bem separadas), bem delimitada, com conteúdo líquido, com trajeto seguro que não atravessa alça, vaso ou pleura, em paciente estável, e — o critério que mais decide questão — sem fonte contínua alimentando a coleção.
O tamanho dá o primeiro corte, e o número operacional vem da doença mais estudada, o abscesso diverticular: abaixo de 4 a 5 cm, o antimicrobiano isolado costuma resolver no paciente estável; acima de 4 a 5 cm, com janela de acesso, entra a drenagem percutânea acompanhada de antimicrobiano por 3 a 5 dias. Tamanho, porém, nunca é critério isolado: um abscesso de 4 cm em paciente que piora é para drenar, e um de 7 cm interalças sem janela segura é para operar.
Empurram para a cirurgia: coleções múltiplas ou loculadas, conteúdo espesso ou fecaloide que não passa por cateter fino, ausência de janela, peritonite difusa, isquemia intestinal, instabilidade hemodinâmica e fonte contínua. Esse último item é o mais mal compreendido: dreno esvazia coleção, mas não sutura alça perfurada nem repara anastomose que continua vazando. Diante de fonte contínua com contaminação difusa, o dreno é um adiamento com aparência de conduta.
A regra de menos invasivo primeiro é boa e tem uma exceção cara. No paciente instável, o procedimento menos invasivo que não resolve consome exatamente a janela em que o resolutivo funcionaria. Por isso a decisão vem com uma data de verificação: depois de drenar, os sinais e as disfunções devem regredir em 48 a 72 horas. Débito que cessa cedo demais, febre que não cede, dreno com conteúdo entérico ou tomografia de controle com coleção residual significam que o passo seguinte é reintervir — reposicionar, acrescentar dreno ou operar —, e não trocar de antimicrobiano.

Damage control na sepse abdominal: peritoneostomia e a segunda operação
Quando o paciente chega à sala em instabilidade grave com infecção intra-abdominal difusa, a operação completa é a operação errada. A conduta é damage control: procedimento curto, contaminação interrompida (ressecar o segmento roto, grampear as extremidades, lavar), nenhuma reconstrução, fechamento temporário da parede e transferência imediata para a terapia intensiva, onde se corrige a fisiologia. A reconstrução — anastomose ou estoma — fica para a reabordagem, em geral em 24 a 48 horas, com o paciente aquecido, perfundido e com coagulação recuperada.
Abdome aberto, ou peritoneostomia, é deixar a aponeurose deliberadamente sem aproximação, com um curativo de fechamento temporário, hoje quase sempre com terapia por pressão negativa. Os argumentos a favor são três: evitar e tratar a hipertensão intra-abdominal e a síndrome compartimental, remover continuamente secreção e mediadores, e facilitar reabordagens. Os argumentos contra são igualmente concretos: fístula enteroatmosférica, perda de domicílio da cavidade, hérnia ventral grande, mais dias de terapia intensiva e mais dias de ventilação.
A pergunta que separa duas decisões parecidas é: quem manda na segunda operação? Na estratégia programada, a reabordagem acontece por calendário, a cada 36 a 48 horas, até a cavidade estar limpa. Na estratégia sob demanda, o paciente é quem convoca: reopera quem deteriora, quem não melhora ou quem mostra coleção nova na imagem. O ensaio randomizado holandês de 2007 comparou as duas em 232 pacientes com peritonite grave e não encontrou diferença de mortalidade (36% na programada contra 29% sob demanda, p = 0,22), com menos reoperações, menos tempo de terapia intensiva (7 contra 11 dias) e custo 23% menor no braço sob demanda.
Isso não elimina a reabordagem planejada — ela continua sendo parte do desenho quando a primeira operação foi deliberadamente incompleta, que é o caso do damage control e o da infecção necrosante de partes moles. A diferença é conceitual e cai em prova: no damage control, a segunda operação é a continuação da primeira; na peritonite do paciente que já foi operado por completo, a segunda operação é um resgate, e o gatilho é clínico.
O contraponto brasileiro é útil porque mede a prática real. Numa série de 75 laparotomias por sepse abdominal grave em hospital universitário brasileiro, 40 pacientes foram conduzidos com abdome aberto e terapia por pressão negativa e 35 com fechamento primário: a mortalidade global foi de 55% e as curvas de sobrevida não diferiram (log-rank p = 0,43). Os autores registram que a escolha da técnica seguiu preferência do cirurgião e não protocolo — o que é a leitura correta do resultado. Peritoneostomia é ferramenta para indicação específica, não estratégia que melhore desfecho por si.
Colangite: a obstrução é o foco e o prazo é da drenagem
A colangite aguda é o exemplo mais limpo de sepse por obstrução: a via biliar obstruída se enche de bactérias sob pressão e passa a lançá-las na circulação. Antimicrobiano em via biliar obstruída trata a bacteremia e não trata a fonte, porque a droga não vence a pressão dentro do ducto. Descomprimir é o tratamento.
A tríade de Charcot — febre, icterícia e dor no hipocôndrio direito — é o achado clássico e é específica, mas está presente numa minoria dos casos, o que explica por que os critérios modernos não dependem dela. A pêntade de Reynolds acrescenta hipotensão e alteração do nível de consciência e descreve a colangite grave. Os critérios de Tóquio organizam o diagnóstico em três eixos: inflamação sistêmica (febre acima de 38 °C ou calafrio, leucócitos abaixo de 4.000 ou acima de 10.000/mm³, proteína C reativa de 1 mg/dL ou mais), colestase (bilirrubina total de 2 mg/dL ou mais, fosfatase alcalina, gama-GT, AST ou ALT acima de 1,5 vez o limite superior) e imagem (dilatação da via biliar mais evidência da causa: cálculo, estenose, stent). Suspeita exige um item de inflamação mais um de colestase ou de imagem; diagnóstico definitivo exige um item de cada eixo.
A gravidade define o relógio. Grau III (grave) é a colangite com disfunção orgânica, e os cortes são explícitos: hipotensão que exige dopamina em 5 µg/kg/min ou mais, ou noradrenalina em qualquer dose; rebaixamento de consciência; relação PaO2/FiO2 abaixo de 300; oligúria ou creatinina acima de 2,0 mg/dL; INR acima de 1,5; plaquetas abaixo de 100.000/mm³. Grau II (moderada) é a que reúne dois destes cinco marcadores, sem disfunção instalada: leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 4.000/mm³, febre de 39 °C ou mais, idade de 75 anos ou mais, bilirrubina total de 5 mg/dL ou mais, e hipoalbuminemia. Grau I (leve) é o resto. E o prazo sai direto do grau: no grau I, tratamento inicial, com drenagem se não houver resposta nas primeiras 24 horas; no grau II, drenagem precoce, dentro de 24 horas — no estudo multicêntrico do Japão e de Taiwan, drenar a colangite moderada nesse prazo reduziu a mortalidade de 3,4% para 1,7% (p = 0,0172), sem diferença nas formas leve e grave; no grau III, drenagem de emergência assim que o paciente estiver hemodinamicamente estável, com o suporte de órgãos correndo em paralelo.
A via preferencial é endoscópica: colangiopancreatografia retrógrada com papilotomia e retirada do cálculo, ou colocação de stent quando a desobstrução completa não é possível no ato. A drenagem transhepática percutânea entra quando a via endoscópica falha ou é inviável, tipicamente por anatomia alterada por cirurgia prévia. A drenagem cirúrgica ficou como última alternativa. Depois de controlado o foco, o antimicrobiano é curto: 3 a 5 dias contados da drenagem adequada.
Um detalhe de sequência que a prova gosta: na colangite por coledocolitíase, a via biliar vem primeiro e a vesícula depois. Colecistectomia no mesmo tempo da colangite grave é operação de grande porte em paciente séptico, quando existe um procedimento menor que já controla o foco. A colecistectomia é feita na mesma internação, depois da recuperação — e vale não confundir esse cenário com o da colecistite aguda, em que a colecistectomia precoce, em até 7 dias do início dos sintomas, é o próprio controle do foco.
Fasciíte necrotizante: o diagnóstico é clínico e o tratamento é a sala
A infecção necrosante de partes moles progride ao longo da fáscia, poupando a pele nas primeiras horas — e é essa dissociação que gera o achado mais importante: dor desproporcional ao que se vê. O paciente parece pior do que o exame local sugere. Somam-se edema que ultrapassa os limites do eritema, endurecimento lenhoso, bolhas de conteúdo escuro ou hemorrágico, áreas de anestesia cutânea (os nervos superficiais foram destruídos), toxemia sistêmica e, principalmente, progressão em horas. Marcar o limite do eritema à caneta na admissão é o teste mais barato do plantão: se o limite foi ultrapassado antes da reavaliação, o diagnóstico está praticamente feito.
Crepitação e necrose franca da pele são achados tardios e pouco sensíveis. Esperar por eles é esperar demais. O mesmo vale para a ausência de resposta ao antimicrobiano: celulite que piora sob tratamento adequado, sobretudo em diabético, deve ser tratada como necrosante até que a exploração diga o contrário.
O escore LRINEC é o ponto em que a prova costuma armar a armadilha. Ele soma seis variáveis laboratoriais de rotina, cada uma com seu corte — proteína C reativa acima de 150 mg/L, leucócitos acima de 15.000/µL, hemoglobina abaixo de 13,5 g/dL, sódio abaixo de 135 mmol/L, creatinina acima de 1,6 mg/dL e glicemia acima de 180 mg/dL —, e usa 6 pontos como limiar de suspeita. Com 8 pontos ou mais, o risco de infecção necrosante fica em torno de 75%. O problema aparece quando o escore sai da população em que foi derivado: na metanálise de 23 estudos reproduzida pelo consenso cirúrgico, o corte de 6 pontos ou mais teve sensibilidade de 68,2% e especificidade de 84,8%, e o corte de 8 pontos ou mais, sensibilidade de 40,8% e especificidade de 94,9%. Traduzindo o primeiro número: cerca de um terço das infecções necrosantes pontua abaixo de 6.
A leitura correta desses números é assimétrica, e vale para qualquer escore com esse perfil: valor alto acrescenta informação, valor baixo não retira nada. Escore de 2 pontos num paciente com dor desproporcional e progressão em horas não afasta coisa alguma — e o consenso cirúrgico escreve isso como recomendação graduada (1B): pela baixa sensibilidade, o LRINEC não deve ser usado para afastar infecção necrosante de partes moles. Na mesma linha vêm as outras duas recomendações que fecham o tema: infecção de partes moles rapidamente progressiva deve sempre ser presumida necrosante (1C), e exames de imagem não devem atrasar a avaliação nem a intervenção cirúrgica (1A).
O tratamento é o desbridamento cirúrgico imediato e amplo, até encontrar tecido viável que sangra. A exploração confirma o diagnóstico no ato: fáscia que se descola sem resistência ao dedo, ausência de sangramento e líquido acinzentado e turvo. A operação econômica é a que obriga a terceira: a margem tem de ser generosa. Reinspeção programada em 12 a 24 horas, e tantas quantas forem necessárias enquanto houver progressão; amputação quando o membro for a fonte irrecuperável. O atraso além de 12 horas se associa a mortalidade maior.
O antimicrobiano acompanha e não substitui: esquema endovenoso de amplo espectro cobrindo gram-positivos (incluindo estafilococo resistente à meticilina conforme o cenário), gram-negativos e anaeróbios, somado a um inibidor de síntese proteica — clindamicina é o mais usado — pela supressão da produção de toxina, com descalonamento após a cultura e duração de 7 a 14 dias. A gangrena de Fournier é a mesma doença no períneo, com o mesmo raciocínio e a mesma pressa, e o diabetes é o fator predisponente mais frequente nas duas apresentações.

Antimicrobiano no foco abdominal: amplo no começo, estreito cedo, curto depois
A cobertura empírica da infecção intra-abdominal mira sempre o mesmo par: bacilos gram-negativos entéricos e anaeróbios. O que muda o esquema não é o órgão, é o cenário. Infecção comunitária em paciente sem gravidade e sem exposição prévia admite espectro moderado. Infecção comunitária grave, com choque, e infecção associada à assistência — pós-operatória, em internado, em quem usou antimicrobiano nos últimos meses — pedem espectro ampliado, com atividade antipseudomonas, e obrigam a considerar enterococo e Candida, que são frequentes exatamente nesse subgrupo e raros no outro. O esquema concreto segue o mapa microbiológico e a orientação do controle de infecção da instituição, que conhece o perfil local.
O descalonamento é a segunda metade da conduta e é onde a maioria dos serviços falha: assim que a cultura e o antibiograma voltam, o espectro estreita. Manter esquema de amplo espectro depois que ele deixou de ser necessário não protege ninguém — seleciona resistência, aumenta toxicidade e prolonga internação.
A duração, depois de controle adequado do foco, é curta e tem números. O ensaio STOP-IT randomizou 518 pacientes com infecção intra-abdominal complicada e controle do foco obtido entre um curso fixo de cerca de 4 dias e antimicrobiano mantido até 2 dias depois da resolução de febre, leucocitose e íleo, com teto de 10 dias: o desfecho composto de infecção de sítio cirúrgico, infecção intra-abdominal recorrente e morte foi semelhante nos dois braços, com metade do tempo de exposição no braço curto. As recomendações cirúrgicas por sítio dizem o mesmo em outra forma: 3 a 5 dias para a maioria das infecções intra-abdominais complicadas, 4 a 7 dias na apendicite complicada, 3 a 5 dias na colangite, 1 a 4 dias na colecistite complicada, e nenhum antimicrobiano pós-operatório na apendicite e na colecistite não complicadas em que a ressecção foi completa.
A trava vale mais do que qualquer um desses números: a contagem só começa quando o foco foi controlado. Curso curto é conduta para quem teve controle adequado e está melhorando. Em paciente com coleção residual, dreno com débito entérico ou febre que reaparece, a pergunta não é quantos dias de antimicrobiano — é o que ainda precisa ser drenado, retirado ou desobstruído. Prolongar antimicrobiano em foco não controlado é a forma mais comum de adiar uma operação necessária.
Febre no pós-operatório: o dia sugere o foco, a taquicardia dá a hora
Nas primeiras 48 horas, a explicação mais frequente da febre é a própria resposta inflamatória ao trauma cirúrgico, e a maior parte desses casos não é infecção. Existem duas exceções cirúrgicas, e elas são a razão de a ferida ser examinada com o curativo aberto mesmo nesse período: a infecção de ferida por estreptococo do grupo A e a por clostrídio aparecem nas primeiras 24 a 48 horas e são necrosantes. Dor desproporcional na ferida, secreção acinzentada e fina, edema que avança e crepitação levam à sala, não ao antimicrobiano oral.
Do 3º ao 5º dia, o território é dos dispositivos e do pulmão: pneumonia, infecção urinária associada a cateter vesical, flebite e infecção de cateter venoso. A conduta que rende é inventariar dispositivos e retirar o que não é necessário — cateter que não tem indicação é foco esperando a vez.
Do 5º ao 7º dia entram a infecção de sítio cirúrgico e a deiscência de anastomose, e é aqui que a prova concentra os casos. O sinal mais útil não é a febre: é a taquicardia persistente que não cede com analgesia, o íleo que volta depois de já ter havido trânsito, a fibrilação atrial nova, a confusão em idoso, a dor abdominal que piora em vez de melhorar e o dreno que muda de aspecto — turvo, entérico, fecaloide. Em pós-operatório de anastomose, esse conjunto é vazamento até prova em contrário. Paciente estável vai à tomografia com contraste; paciente com peritonite difusa ou instabilidade vai direto à sala.
Depois do 7º dia, as suspeitas são abscesso de órgão ou cavidade, infecção de cateter, colite por Clostridioides difficile, tromboembolismo venoso e febre por droga. A pergunta de sempre continua valendo: existe alguma coisa a drenar, retirar ou desobstruir?
A classificação brasileira da infecção de sítio cirúrgico organiza a conduta melhor do que parece. A nota técnica da Anvisa conta a vigilância a partir do dia da cirurgia e a fixa em 30 dias, subindo a 90 dias numa lista fechada de procedimentos: implante de prótese mamária, prótese primária de quadril, prótese primária de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata. E separa três planos — incisional superficial (pele e subcutâneo), incisional profunda (fáscia e músculo) e de órgão ou cavidade —, com a regra de computar sempre o mais profundo entre os que fecharem critério. Os dois primeiros são um problema de ferida, e ferida infectada se trata abrindo, drenando e desbridando: antimicrobiano isolado não trata coleção de parede, e só entra quando há celulite extensa, sinais sistêmicos ou implante. O terceiro plano é o abscesso profundo, e cai integralmente nos critérios de drenagem percutânea contra cirurgia da seção anterior. Um detalhe que a prova gosta: se o paciente volta ao centro cirúrgico para nova abordagem no mesmo sítio, o período de vigilância recomeça do zero.
Foco por sítio: o achado que denuncia, a via que resolve e o prazo
Toda questão de sepse cirúrgica tem a mesma anatomia: o enunciado descreve um paciente séptico, esconde no meio dos dados um achado que aponta o sítio, e as alternativas oferecem vias de controle diferentes. Quem reconhece o sítio acerta o resto. Antes das tabelas, o caminho que vale para qualquer foco.
- 1Paciente séptico: pergunte, antes de qualquer outra coisa, se existe foco removível — coleção, alça perfurada, via obstruída, tecido morto, dispositivo. Se existir, ele é o tratamento e o resto é apoio.
- 2Cronometre a partir do diagnóstico: a meta é controlar o foco em 6 a 12 horas, e no choque com fonte contínua o alvo é 6.
- 3Procure o foco com o exame que cabe no relógio: tomografia com contraste no abdome, ultrassonografia à beira do leito para via biliar e rim, exploração cirúrgica direta quando a suspeita de infecção necrosante de partes moles é alta.
- 4Escolha a via pela coleção, não pela preferência: única, delimitada, líquida, com janela e sem fonte contínua vai de percutâneo; múltipla, espessa, sem janela, com peritonite difusa, isquemia ou instabilidade vai de cirurgia.
- 5Instabilidade grave com infecção intra-abdominal difusa: damage control — operação curta, contaminação interrompida, sem reconstrução, abdome temporariamente fechado, reconstrução em 24 a 48 horas.
- 6Antimicrobiano empírico amplo, dirigido ao sítio e ao cenário (comunitário ou associado à assistência), descalonado assim que a cultura permitir.
- 7Confira se o controle foi adequado: sinais e disfunções devem regredir em 48 a 72 horas. Peritonite que persiste 48 horas depois da intervenção é controle inadequado, não infecção resistente.
- 8Controle inadequado: reintervir — repetir a imagem, reposicionar ou acrescentar dreno, reoperar. Trocar o antimicrobiano sem reintervir é a troca errada.
Colangite grau I (leve)
Colangite que não preenche critérios de moderada nem de grave: sem disfunção orgânica e sem os marcadores de risco. Tratamento inicial com antimicrobiano e suporte; a drenagem biliar entra se não houver resposta em 24 horas. É o único grau em que esperar é conduta.
Colangite grau II (moderada)
Reúne dois destes cinco marcadores, sem disfunção orgânica instalada: leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 4.000/mm³, febre de 39 °C ou mais, idade de 75 anos ou mais, bilirrubina total de 5 mg/dL ou mais, hipoalbuminemia. Drenagem biliar precoce, dentro de 24 horas, por via endoscópica ou percutânea transhepática — nesse prazo a mortalidade caiu de 3,4% para 1,7%.
Colangite grau III (grave)
Colangite com disfunção orgânica — cardiovascular, neurológica, respiratória, renal, hepática ou hematológica. É a pêntade de Reynolds do lado clínico. Drenagem biliar de emergência, assim que o paciente estiver hemodinamicamente estável, com o suporte correndo em paralelo e não antes.
| Foco | O achado que denuncia | Via de controle | Prazo |
|---|---|---|---|
| Peritonite difusa por perfuração de víscera oca | Dor súbita e generalizada, abdome em tábua, descompressão brusca dolorosa difusa, pneumoperitônio, sepse que não responde ao suporte | Cirurgia: interromper a fonte (ressecção, sutura, derivação) e lavar a cavidade. Contaminação fecal difusa em paciente instável termina em damage control | Emergente — o alvo se aproxima de 6 horas quando há choque |
| Abscesso intra-abdominal | Febre em picos e dor localizada dias depois de cirurgia, apendicite ou diverticulite; coleção com realce periférico, às vezes com gás, na tomografia | Drenagem percutânea guiada por imagem se única, delimitada, líquida e com janela; cirurgia se múltipla, espessa, inacessível ou com fonte contínua | Urgente — dentro de 24 horas; imediata se há choque |
| Deiscência de anastomose | 5º ao 7º dia: taquicardia que não cede com analgesia, íleo que volta, fibrilação atrial nova, dreno turvo ou fecaloide, dor que piora em vez de melhorar | Peritonite difusa ou instabilidade: reoperação com desmontagem da anastomose e derivação. Vazamento contido em paciente estável: dreno percutâneo e antimicrobiano | Emergente quando há peritonite difusa ou instabilidade |
| Colangite aguda obstrutiva | Tríade de Charcot (febre, icterícia, dor no hipocôndrio direito); pêntade de Reynolds no grave; colestase laboratorial com via biliar dilatada | Drenagem biliar por colangiopancreatografia retrógrada endoscópica; via transhepática percutânea quando a endoscópica falha ou é inviável | Grau I: drenagem se não responder nas primeiras 24 h. Grau II: dentro de 24 h. Grau III: emergência, assim que estabilizar |
| Isquemia mesentérica | Dor desproporcional ao exame abdominal, fibrilação atrial ou doença arterial conhecida, acidose sem outra explicação, distensão e peritonite tardias | Angiotomografia e laparotomia: ressecar o necrosado, revascularizar quando cabível, second look programado em 24 a 48 horas | Emergente |
| Infecção de sítio cirúrgico | Ferida com dor, hiperemia, endurecimento e drenagem purulenta. Nas primeiras 48 horas, dor desproporcional com secreção acinzentada aponta estreptococo do grupo A ou clostrídio | Abrir a incisão, drenar e desbridar. Antimicrobiano só com celulite extensa, sinais sistêmicos ou implante. Órgão-espaço segue a regra do abscesso | Imediata na suspeita de infecção necrosante; no mesmo dia nas demais |
| Fasciíte necrotizante e gangrena de Fournier | Dor desproporcional, edema além do eritema, bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea, toxemia, progressão em horas. Crepitação é achado tardio | Desbridamento cirúrgico amplo até tecido viável, com reinspeções programadas em 12 a 24 horas; amputação quando o membro é a fonte irrecuperável | Emergente — atraso além de 12 horas se associa a mortalidade maior |
| Infecção de corrente sanguínea associada a cateter | Febre e calafrio ao infundir pelo cateter, sinais no óstio ou no túnel, hemocultura do cateter positivando antes da periférica | Retirar o cateter — dispositivo infectado é corpo estranho colonizado. Tentativa de manutenção só em situação selecionada, com agente de baixa virulência e sem sinais graves | Imediata na sepse grave, tunelite, trombose séptica ou agente agressivo |
| Urossepse obstrutiva | Sepse com hidronefrose, cálculo impactado ou pionefrose; dor lombar, e piora apesar de antimicrobiano adequado | Desobstruir: cateter duplo J por via endoscópica ou nefrostomia percutânea. O tratamento do cálculo fica para depois, em outro tempo | Emergente |
| Empiema pleural | Febre persistente na pneumonia tratada, derrame septado ou espesso, líquido purulento com pH e glicose baixos | Drenagem torácica; toracoscopia quando septado; decorticação na fase organizada | Urgente — dentro de 24 horas |
Percutâneo ou cirurgia: o que empurra para cada lado
| Critério | Favorece drenagem percutânea | Favorece cirurgia |
|---|---|---|
| Tamanho da coleção | Acima de 4 a 5 cm é drenável; abaixo disso, antimicrobiano isolado costuma bastar em paciente estável (no abscesso diverticular, o número operacional é 5 cm) | Tamanho isolado não indica cirurgia — indica quando vem acompanhado dos critérios abaixo |
| Número e distribuição | Coleção única, ou duas bem separadas e ambas acessíveis | Coleções múltiplas, loculadas ou espalhadas pela cavidade |
| Janela de acesso | Trajeto seguro, sem atravessar alça, vaso ou pleura | Sem janela segura; coleção interalças ou de acesso obrigatoriamente transvisceral |
| Conteúdo | Líquido, que passa por cateter fino | Espesso, fecaloide, com debris ou tecido necrótico |
| Fonte | Fonte já resolvida ou contida: abscesso residual, coleção pós-operatória delimitada, plastrão | Fonte contínua: alça perfurada, anastomose que vaza, isquemia intestinal, necrose em curso |
| Peritônio | Coleção localizada, sem irritação peritoneal difusa | Peritonite difusa ao exame físico |
| Estado do paciente | Estável, com margem para esperar resposta em 48 a 72 horas | Instável, ou com disfunção que progride durante a observação |
| Resultado da primeira tentativa | Débito adequado, febre cedendo, disfunções regredindo | Sem melhora em 48 a 72 horas depois do dreno — o passo seguinte é reintervir, não trocar de antimicrobiano |
Febre no pós-operatório: o dia e o que ele sugere
| Período | O que pensar primeiro | O que fazer |
|---|---|---|
| Primeiras 48 horas | Resposta inflamatória ao próprio trauma cirúrgico, na maioria das vezes. Duas exceções cirúrgicas: infecção de ferida por estreptococo do grupo A e por clostrídio | Examinar a ferida com o curativo aberto. Dor desproporcional, secreção acinzentada ou crepitação levam à sala |
| 3º ao 5º dia | Pneumonia, infecção urinária associada a cateter vesical, flebite e infecção de cateter venoso | Inventariar dispositivos e retirar o que não é necessário; imagem de tórax e culturas dirigidas |
| 5º ao 7º dia | Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de anastomose | Tomografia com contraste no paciente estável. Peritonite difusa ou instabilidade vai direto à reoperação |
| Depois do 7º dia | Abscesso de órgão ou cavidade, infecção de cateter, colite por Clostridioides difficile, tromboembolismo venoso, febre por droga | Tomografia à procura de coleção, e a pergunta de sempre: existe algo a drenar, retirar ou desobstruir? |
Duração do antimicrobiano depois do controle do foco
| Situação | Duração | A trava |
|---|---|---|
| Apendicite ou colecistite não complicada, com ressecção completa | Nenhum antimicrobiano no pós-operatório | O que curou foi a ressecção — prolongar não acrescenta |
| Infecção intra-abdominal complicada, com controle adequado | 3 a 5 dias; curso fixo de cerca de 4 dias mostrou desfecho semelhante ao antimicrobiano guiado por sinais clínicos | A contagem só começa quando o foco foi controlado |
| Apendicite complicada (perfuração, abscesso) | 4 a 7 dias | Coleção residual não se trata com dias a mais: trata-se com dreno |
| Colangite, após drenagem adequada | 3 a 5 dias | Sem drenagem da via biliar, não existe curso curto |
| Colecistite complicada | 1 a 4 dias após a colecistectomia | A vesícula fora é o controle do foco |
| Infecção necrosante de partes moles | 7 a 14 dias | O antimicrobiano acompanha o desbridamento; ele não substitui a sala |
| Controle do foco inadequado ou não obtido | Não é questão de duração | Reintervir. Prolongar antimicrobiano em foco não controlado seleciona resistência e adia a operação |
O relógio do antimicrobiano só começa quando o foco foi controlado. Sepse que não melhora sob antimicrobiano adequado, em paciente com foco cirúrgico, é foco não controlado até prova em contrário — e essa prova é uma imagem, não um esquema novo.
Peritonite que persiste 48 horas depois da intervenção é a definição prática de controle inadequado. O que a literatura antiga chamava de peritonite terciária é, na maior parte das vezes, um foco que continuou lá.
Fonte contínua não fecha com dreno. Cateter percutâneo esvazia coleção; ele não sutura alça perfurada nem repara anastomose que continua vazando.
Menos invasivo primeiro é boa regra com uma exceção cara: no paciente instável, o procedimento menos invasivo que não resolve consome exatamente a janela em que o resolutivo funcionaria.
Sinais de infecção ou de doença sistêmica que persistem além de 5 a 7 dias de tratamento exigem investigação diagnóstica para decidir se cabe nova intervenção cirúrgica ou percutânea. A persistência é um pedido de imagem e de procedimento, não de troca de esquema.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Diretriz cirúrgica de controle do foco (2023)
Fixa uma meta operacional: 6 a 12 horas depois do diagnóstico são suficientes para a maioria dos casos, dentro de uma graduação em emergente (imediato), urgente (adiamento de 1 a 24 horas tolerável sob ressuscitação e antimicrobiano) e adiado. Os dados que sustentam o limite inferior são observacionais: sobrevida nula quando a operação passou de 6 horas na perfuração digestiva com choque séptico, e acréscimo de 6% na mortalidade por hora de atraso na perfuração gastroduodenal.
Coccolini F, Sartelli M, Sawyer R, et al. Source control in emergency general surgery: WSES, GAIS, SIS-E, SIS-A guidelines. World J Emerg Surg. 2023;18(1)
Diretriz internacional de sepse (2021)
Não fixa número de horas. A formulação é que a intervenção de controle do foco seja realizada assim que for medicamente e logisticamente praticável depois do diagnóstico, com o registro, no próprio texto, de que estudos menores sugerem vantagem quando o controle ocorre entre 6 e 12 horas e de que os dados são limitados para emitir uma recomendação de prazo.
Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063-e1143
O foco em que esperar é a conduta
Na necrose pancreática infectada, a abordagem escalonada adia deliberadamente a intervenção definitiva: antimicrobiano primeiro, depois dreno percutâneo ou endoscópico, e necrosectomia minimamente invasiva ou aberta apenas quando necessária, preferindo o tecido demarcado. Nesse sítio, operar cedo é a conduta pior.
Recomendações por sítio da diretriz de controle do foco de 2023 (necrose pancreática: manejo inicialmente não cirúrgico e estratégia escalonada)
Na prova
O recorte aparece no cenário e nas alternativas. Enunciado de perfuração de víscera oca com choque instalado trabalha com a janela curta, e as alternativas tipicamente contrastam levar à sala agora contra completar a ressuscitação e reavaliar em algumas horas — o distrator de reavaliação só existe porque o número maior existe em algum documento. Enunciado de necrose pancreática infectada em paciente estável trabalha com o oposto, e ali a alternativa que escalona do dreno para a necrosectomia é a que descreve a estratégia das fontes. Repare também no registro do documento citado: texto de sociedade de terapia intensiva tende a falar em praticabilidade médica e logística, texto de sociedade cirúrgica tende a falar em faixa de horas. Anos: formulação sem prazo em 2021, meta de 6 a 12 horas em 2023, sobre a mesma evidência observacional.
Ensaio randomizado holandês (2007)
232 pacientes com peritonite confirmada na laparotomia índice e APACHE II acima de 11, randomizados entre relaparotomia programada a cada 36 a 48 horas e reoperação apenas por demanda. Mortalidade de 36% no braço programado contra 29% no braço sob demanda, sem diferença estatística (p = 0,22). O braço sob demanda teve menos reoperações, menos tempo de terapia intensiva (7 contra 11 dias, p = 0,001) e custo hospitalar 23% menor.
van Ruler O, Mahler CW, Boer KR, et al. Comparison of on-demand vs planned relaparotomy strategy in patients with severe peritonitis: a randomized trial. JAMA. 2007;298(8):865-872
Diretriz cirúrgica de controle do foco (2023)
Mantém o damage control com abdome aberto e reabordagem planejada quando há instabilidade hemodinâmica grave com infecção intra-abdominal difusa, independentemente da classe do paciente. Nesse desenho a primeira operação é deliberadamente incompleta e a segunda faz parte do plano — situação diferente da reoperação de resgate em paciente já operado por completo.
Coccolini F, et al. Source control in emergency general surgery. World J Emerg Surg. 2023;18(1)
Série brasileira do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (2024)
75 laparotomias por sepse abdominal grave em hospital universitário brasileiro: 40 conduzidas com abdome aberto e terapia por pressão negativa, 35 com fechamento primário. Mortalidade global de 55% e curvas de sobrevida sem diferença estatística (log-rank p = 0,43). Os autores registram que a escolha da técnica seguiu preferência do cirurgião, e não protocolo, e pedem padronização.
Abdome aberto ou fechado pós-laparotomia para controle de sepse de foco intra-abdominal severa: uma análise de sobrevivência. Rev Col Bras Cir. 2024 (doi 10.1590/0100-6991e-20243595)
Na prova
Duas perguntas parecidas exigem eixos diferentes, e o enunciado sinaliza qual é qual. Se o cenário é um paciente que não melhora depois da laparotomia índice — deterioração clínica, disfunção que progride, coleção nova na tomografia —, o eixo é reoperar guiado pelo paciente, e a alternativa que agenda reabordagens por calendário foi construída sobre a estratégia programada, testada em 2007 sem ganho de mortalidade. Se o cenário é o fim da primeira operação, com instabilidade grave e contaminação fecal difusa dentro da sala, o eixo é damage control, e ali a segunda operação já está planejada. Um enunciado que cita peritoneostomia como se ela melhorasse desfecho por si contrasta com o dado brasileiro de 2024. Anos: ensaio em 2007, diretriz em 2023, série nacional em 2024.
Ensaio STOP-IT (2015)
518 pacientes com infecção intra-abdominal complicada e controle do foco obtido, randomizados entre curso fixo de cerca de 4 dias e antimicrobiano mantido até 2 dias depois da resolução de febre, leucocitose e íleo, com teto de 10 dias. O desfecho composto de infecção de sítio cirúrgico, infecção intra-abdominal recorrente e morte foi semelhante nos dois braços, com metade do tempo de exposição no braço curto.
Sawyer RG, Claridge JA, Nathens AB, et al. Trial of short-course antimicrobial therapy for intraabdominal infection. N Engl J Med. 2015;372(21):1996-2005
Diretriz cirúrgica de controle do foco (2023)
Traduz o mesmo achado em cursos curtos por sítio depois de controle adequado: 3 a 5 dias na maioria das infecções intra-abdominais complicadas e na colangite, 1 a 4 dias na colecistite complicada, 4 a 7 dias na apendicite complicada, nenhum antimicrobiano pós-operatório na apendicite e na colecistite não complicadas com ressecção completa — e amplo espectro suspenso assim que deixa de ser necessário.
Coccolini F, et al. Source control in emergency general surgery. World J Emerg Surg. 2023;18(1)
Ensaio DURAPOP (2018)
249 pacientes de terapia intensiva com infecção intra-abdominal pós-operatória, randomizados no 8º dia entre interromper o antimicrobiano e mantê-lo até o 15º. A mortalidade em 45 dias foi de 11% no braço de 8 dias contra 15% no de 15 dias (p = 0,43), sem diferença em tempo de internação, emergência de bactérias multirresistentes ou reoperação — mas com mais drenagens subsequentes entre o 8º e o 45º dia no braço curto (p = 0,041). O ponto que importa é o tamanho do curso curto testado: 8 dias, o dobro do curso fixo do ensaio de 2015, num subgrupo mais grave e já operado.
Montravers P, Tubach F, Lescot T, et al. Short-course antibiotic therapy for critically ill patients treated for postoperative intra-abdominal infection: the DURAPOP randomised clinical trial. Intensive Care Med. 2018;44(3):300-310
Na prova
O que define o recorte é uma frase que costuma passar despercebida no enunciado: se o controle do foco foi adequado. Com o foco controlado e o paciente melhorando, o eixo é curso curto, e as alternativas de 10 ou 14 dias existem para pegar quem conta os dias pelo calendário. Quando o enunciado descreve coleção residual, dreno com débito entérico ou febre que reaparece, todas as alternativas que discutem número de dias compartilham a mesma premissa falsa, e o eixo real da questão é a reintervenção. Vale reparar no cenário: enunciado de apendicectomia não complicada em hospital do SUS costuma cobrar que não há antimicrobiano pós-operatório, enquanto enunciado de terapia intensiva com paciente grave abre espaço para a duração guiada. Repare também no cenário: enunciado de enfermaria, com foco controlado e paciente melhorando, é o mundo do curso fixo de 4 dias; enunciado de terapia intensiva com peritonite pós-operatória é o mundo em que o braço curto testado tinha 8 dias, e ali a alternativa de 4 dias não corresponde ao que foi medido. Anos e números: 4 dias fixos no ensaio de 2015, 8 dias no de 2018, cursos por sítio nas recomendações de 2023.
Derivação original do escore (2004)
Escore construído a partir de seis variáveis laboratoriais de rotina — proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicose — para distinguir a infecção necrosante das demais infecções graves de partes moles, com 6 pontos como limiar de suspeita. É o instrumento que o próprio consenso cirúrgico reproduz, e nele 8 pontos ou mais correspondem a um risco de cerca de 75% de infecção necrosante: no sentido positivo, o escore carrega informação real e serve para elevar a suspeita em quadro ainda pouco definido.
Wong CH, Khin LW, Heng KS, Tan KC, Low CO. The LRINEC score. Crit Care Med. 2004;32(7):1535-1541 — estrutura, cortes e o risco acima de 8 pontos reproduzidos no consenso WSES/SIS-E de 2018
Acurácia medida fora da derivação
Reunidos 23 estudos, o corte de 6 pontos ou mais teve sensibilidade de 68,2% e especificidade de 84,8%; o corte de 8 pontos ou mais, sensibilidade de 40,8% e especificidade de 94,9%. Sobre esses números o consenso escreve a recomendação 1B: pela baixa sensibilidade, o LRINEC não deve ser usado para afastar infecção necrosante. A conclusão é assimétrica — valor alto acrescenta, valor baixo não retira.
2018 WSES/SIS-E consensus conference: recommendations for the management of skin and soft-tissue infections. World J Emerg Surg. 2018;13. doi:10.1186/s13017-018-0219-9 (metanálise de 23 estudos reproduzida no documento)
Consenso cirúrgico de emergência (2018)
O diagnóstico da infecção necrosante de partes moles é primariamente clínico: infecção de partes moles rapidamente progressiva deve sempre ser presumida necrosante (1C); exames de imagem não devem atrasar a avaliação nem a intervenção cirúrgica (1A); e o controle cirúrgico do foco deve ocorrer o mais cedo possível, no máximo dentro das primeiras 12 horas da admissão (1B). Na dúvida, a conduta descrita é a incisão profunda até a fáscia, que é ao mesmo tempo o exame que confirma e o começo do tratamento.
2018 WSES/SIS-E consensus conference: recommendations for the management of skin and soft-tissue infections. World J Emerg Surg. 2018;13. doi:10.1186/s13017-018-0219-9
Na prova
O escore aparece de dois jeitos. Quando o enunciado pede os componentes ou o ponto de corte, o eixo é memória do instrumento, e a questão vive no mundo da derivação de 2004. Quando o enunciado descreve dor desproporcional com progressão em horas e coloca calcular o escore ao lado de levar à exploração cirúrgica, o eixo passou a ser o valor do escore — e a presença de um distrator laboratorial nas alternativas denuncia o recorte, porque ele só é construível sobre a baixa sensibilidade. Note ainda o vocabulário: enunciado que trata o escore como triagem pertence ao primeiro mundo; enunciado que fala em suspeita clínica alta pertence ao segundo. Anos e números juntos: derivação em 2004, em que 8 pontos ou mais indicam risco de cerca de 75%; acurácia sintetizada em 23 estudos, com sensibilidade de 68,2% no corte de 6 e de 40,8% no corte de 8; e a posição graduada do consenso cirúrgico de 2018, de que valor baixo não afasta.
Caso resolvido
- o dia
- Sexto dia de pós-operatório de anastomose colorretal é a janela clássica da deiscência, que costuma se declarar entre o 5º e o 7º dia. A febre é o dado menos informativo do conjunto.
- o sinal que vale mais que a febre
- Taquicardia persistente que não cede com analgesia, íleo que retorna depois de já ter havido trânsito e dreno que mudou de aspecto para turvo e fecaloide. Em pós-operatório de anastomose, essa combinação é vazamento até prova em contrário.
- o foco
- O foco é anatômico e contínuo: uma anastomose que segue despejando conteúdo entérico na cavidade. Nenhum antimicrobiano interrompe isso, e o dreno pélvico está apenas testemunhando o vazamento, não controlando.
- o exame, e o limite dele
- Tomografia de abdome e pelve com contraste confirmaria e mapearia — mas descompressão brusca dolorosa difusa já descreve peritonite difusa, e a pressão só responde em parte ao volume. Paciente com peritonite difusa e instabilidade vai à sala; a imagem não pode consumir a janela.
- a via de controle
- Peritonite difusa com fonte contínua não é caso de drenagem percutânea. É reoperação: desmontar a anastomose, ressecar o segmento comprometido, lavar a cavidade e derivar o trânsito em colostomia terminal. Refazer anastomose no meio da peritonite é repetir o problema.
- o prazo
- A meta é controlar o foco em 6 a 12 horas do diagnóstico, e com hipotensão que só responde parcialmente o alvo se aproxima de 6. Ressuscitação e antimicrobiano correm em paralelo, dentro da sala, e não antes dela.
- como a operação termina
- Se o paciente estiver instável com contaminação fecal difusa, a operação termina curta: fonte interrompida, cavidade lavada, sem reconstrução, abdome temporariamente fechado, terapia intensiva e reabordagem planejada em 24 a 48 horas. Se estiver estável depois do controle da fonte, fecha-se com a colostomia pronta.
- antimicrobiano
- Esquema empírico amplo com atividade contra gram-negativos entéricos e anaeróbios, ampliado por se tratar de infecção pós-operatória, associada à assistência, com atenção a enterococo e Candida nesse subgrupo. Descalonar quando a cultura voltar. Com controle adequado, a duração é curta — da ordem de 4 dias, contados a partir do controle e não da primeira cirurgia.
- conferir se deu certo
- Sinais e disfunções devem regredir em 48 a 72 horas. Peritonite que persiste 48 horas depois da reoperação é controle inadequado: a resposta é nova imagem e nova intervenção, não um antimicrobiano diferente.
Agora feche você
- o quadro
- Infecção de partes moles com dor desproporcional, edema que ultrapassa o eritema, bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea e progressão visível em 90 minutos, numa diabética que já falhou com antimicrobiano oral. A ausência de crepitação não conta a favor: crepitação é achado tardio.
- o laboratório
- Proteína C reativa muito alta, leucocitose, sódio baixo, creatinina e glicemia elevadas: os valores compõem um escore LRINEC alto. Vale registrar o que isso muda — e o que não mudaria se o escore viesse baixo.
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Escalonar o antimicrobiano em vez de reintervir Atrai porque parece ação: o paciente não melhora, então troca-se por algo mais forte. Mas em foco cirúrgico não controlado, nenhum espectro alcança o interior de uma coleção. Sepse que não melhora sob antimicrobiano adequado é foco não controlado até prova em contrário, e essa prova é uma imagem seguida de uma intervenção.
- 2Levar ao tomógrafo o paciente que já tem indicação cirúrgica A imagem dá conforto e é quase sempre a conduta certa — exceto quando o exame físico já fechou o caso. Peritonite difusa com instabilidade, ou suspeita alta de infecção necrosante, vão à sala. Imagem serve para decidir onde e como, não para adiar o se, e o tempo que ela consome sai da janela de 6 a 12 horas.
- 3Usar LRINEC baixo para afastar fasciíte necrotizante No corte de 6 pontos, a sensibilidade medida fora da derivação foi de 68,2%: cerca de um terço das infecções necrosantes fica abaixo do limiar. Escore baixo em paciente com dor desproporcional e progressão em horas não afasta nada, e o consenso cirúrgico diz isso com todas as letras. É a armadilha mais bem construída do tema porque parece rigor: usar um número em vez de uma impressão.
- 4Contar os dias de antimicrobiano a partir da operação, sem checar se o foco foi controlado Curso de 4 dias é conduta para quem teve controle adequado. Em paciente com coleção residual ou dreno com débito entérico, discutir duração é discutir a pergunta errada — e prolongar o esquema seleciona resistência enquanto a operação necessária espera.
- 5Esperar o paciente estabilizar para operar quem só estabiliza com o foco fora Vem do hábito correto de otimizar antes de intervir, que vale em quase toda a medicina. Na sepse cirúrgica com fonte contínua, a ressuscitação acompanha o paciente até dentro da sala: a hipotensão que não sobe costuma ser exatamente a que só vai subir depois que a contaminação parar.
- 6Achar que dreno percutâneo resolve fonte contínua O cateter esvazia coleção, e isso o torna a escolha certa em abscesso delimitado. Ele não sutura alça perfurada nem repara anastomose que continua vazando. Escolher o menos invasivo quando ele não resolve custa a janela em que o resolutivo funcionaria.
- 7Atribuir a taquicardia do pós-operatório à dor ou à febre É a explicação mais confortável e a mais perigosa entre o 5º e o 7º dia. Frequência que não cede com analgesia adequada, íleo que retorna, fibrilação atrial nova e dreno que muda de aspecto formam o quadro do vazamento de anastomose antes que a febre alta apareça.
- 8Refazer anastomose no meio da peritonite difusa Atrai pelo bom motivo de poupar o paciente de um estoma. Só que anastomose feita em campo contaminado, com paciente séptico e má perfusão esplâncnica, é a próxima deiscência — e a segunda reoperação é sempre pior que a primeira. Em contaminação difusa com instabilidade, o trânsito se deriva.
Correta: no choque séptico com hipotensão persistente após ressuscitação volêmica adequada (30 mL/kg), a Surviving Sepsis Campaign recomenda noradrenalina como vasopressor de primeira escolha, com alvo de PA média ≥ 65 mmHg — exatamente o cenário do paciente, que mantém PAM 58 após a expansão. Novo bolus fixo de 30 mL/kg às cegas não é recomendado após a ressuscitação inicial já realizada com hipotensão refratária — o passo é vasopressor, guiado por marcadores de perfusão. Dopamina foi rebaixada (associada a maior risco de arritmias) e não é primeira linha. Dobutamina é inotrópico, indicada em disfunção miocárdica/hipoperfusão apesar de PAM adequada, não para corrigir hipotensão isoladamente. Corticoide (hidrocortisona) só entra no choque refratário à noradrenalina em dose crescente, não como medida inicial isolada.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Mulher, 55 anos, diabética, é atendida com dor lombar, disúria e febre há 3 dias, evoluindo com prostração. Ao exame: PA 96/60 mmHg, FC 112 bpm, FR 24 ipm, T 39,2 °C, Glasgow 14, dor à punho-percussão lombar à direita. Suspeita-se de pielonefrite com sepse de origem urinária. Exames iniciais: leucócitos 19.500/mm³ (VR 4.000–11.000), creatinina 1,6 mg/dL (VR 0,6–1,2). Considerando o pacote inicial ("bundle") de 1 hora da Surviving Sepsis Campaign, qual medida deve ser realizada ANTES do início da antibioticoterapia empírica?
Correta: o bundle de 1 hora orienta coletar hemoculturas ANTES da antibioticoterapia, desde que isso não atrase significativamente o início do antibiótico (idealmente na 1ª hora). Coletar antes preserva o rendimento microbiológico sem retardar o tratamento. Vasopressor só é indicado se houver hipotensão persistente após volume — a paciente ainda não preenche esse critério e não é passo prévio ao antibiótico. A TC pode ser necessária para controle do foco, mas não deve preceder/atrasar o antibiótico na sepse. Não há indicação de transfusão (sem anemia sintomática/sangramento descritos). Aguardar urocultura atrasaria o antibiótico empírico, contrariando a recomendação de administração precoce.
Homem, 60 anos, no 3º dia de pós-operatório de laparotomia por perfuração de víscera oca, evolui com febre, taquicardia e piora do estado geral. Ao exame: PA 82/50 mmHg, FC 120 bpm, FR 26 ipm, T 38,8 °C. Lactato 3,5 mmol/L (VR < 2,0). É reconhecido quadro de sepse de foco abdominal com hipoperfusão. Segundo a Surviving Sepsis Campaign, qual é o fluido de escolha para a ressuscitação volêmica inicial?
Correta: a Surviving Sepsis Campaign recomenda cristaloides (soro fisiológico ou soluções balanceadas como Ringer lactato) como fluido de primeira escolha na ressuscitação inicial da sepse/choque séptico, tipicamente 30 mL/kg nas primeiras horas. Albumina pode ser considerada como adjuvante quando há necessidade de grandes volumes de cristaloide, não como primeira escolha. Amidos (hidroxietil) são contraindicados na sepse por aumento de lesão renal e mortalidade. Hemácias não são expansor volêmico de primeira linha — a transfusão segue gatilho restritivo (Hb ~7 g/dL). Soro glicosado 5% distribui-se amplamente pelos compartimentos e não é fluido de ressuscitação volêmica.
Homem, 67 anos, diabético, em pós-operatório de retossigmoidectomia por neoplasia há 5 dias, evolui com dor abdominal intensa, distensão, febre de 39 °C e drenagem de líquido entérico turvo pelo dreno abdominal. Exame: PA 82/50 mmHg, FC 128 bpm, FR 26 ipm, extremidades frias e tempo de enchimento capilar lentificado. Lactato 4,8 mmol/L (VR < 2), leucócitos 22.000/mm³ (VR 4.000–11.000). A tomografia mostra grande quantidade de líquido livre com pneumoperitônio e borramento difuso, compatível com deiscência de anastomose e peritonite fecal difusa. Qual é a conduta cirúrgica mais apropriada neste momento?
Correta: Peritonite fecal difusa por deiscência de anastomose em paciente com choque séptico (hipotensão, taquicardia, lactato elevado, hipoperfusão) exige controle de foco cirúrgico urgente: laparotomia com lavagem exaustiva da cavidade e desfazimento da anastomose com derivação/ostomia proximal (controle de danos), evitando nova anastomose em campo contaminado e instável. Drenagem percutânea serve para abscesso organizado localizado, não para peritonite fecal difusa com deiscência. Refazer anastomose primária em cavidade com peritonite fecal e paciente séptico tem alta taxa de nova deiscência — contraindicado; a regra é derivar. Manejo conservador não controla o foco fecal em curso e leva a óbito. Apenas trocar dreno não resolve a contaminação difusa da cavidade nem a fonte fecal.
Mulher, 68 anos, no 3º dia de pós-operatório de colectomia por neoplasia de cólon, evolui com febre e piora do estado geral. Ao exame: sonolenta, PA 78/44 mmHg, FC 122 bpm, FR 26 ipm, SatO2 94% em ar ambiente, T 38,9 °C. Abdome distendido, difusamente doloroso, com sinais de irritação peritoneal. Lactato arterial 4,2 mmol/L (VR < 2). É iniciada ressuscitação com cristaloide 30 mL/kg EV em 1 hora, ao fim da qual mantém PA 82/46 mmHg (PAM 58 mmHg) e lactato 3,8 mmol/L. Qual a conduta hemodinâmica mais apropriada neste momento?
A paciente preenche critério de choque séptico (Sepsis-3): hipotensão com necessidade de vasopressor para manter PAM ≥ 65 mmHg e lactato > 2 mmol/L apesar de ressuscitação volêmica adequada. CORRETA: o vasopressor de primeira linha no choque séptico é a noradrenalina, indicada quando a PAM permanece < 65 mmHg após reposição inicial. Errada: já recebeu 30 mL/kg; novos bolus às cegas, sem avaliar responsividade a fluidos, retardam a correção da hipotensão e favorecem congestão — a diretriz prioriza iniciar vasopressor. Errada: dobutamina é inotrópico, reservado à disfunção miocárdica/baixo débito com PAM já corrigida, não à hipotensão vasodilatadora. Errada: dopamina não é recomendada (maior arritmogenicidade, sem vantagem de mortalidade). Errada: a meta transfusional na sepse é restritiva (Hb ≥ 7 g/dL), não 10 g/dL.
Homem, 55 anos, diabético, admitido com peritonite difusa por perfuração de úlcera gástrica (pneumoperitônio ao RX de tórax). Na 1ª hora foram colhidas hemoculturas e lactato, iniciados antibiótico de amplo espectro (piperacilina-tazobactam) e cristaloide 30 mL/kg; por hipotensão persistente, iniciou-se noradrenalina. Após 6 horas em UTI, mantém PAM 68 mmHg com noradrenalina 0,3 mcg/kg/min, lactato em queda (de 4,5 para 2,8 mmol/L), mas persiste taquicárdico (FC 116 bpm) e febril (T 38,7 °C). Além do suporte já instituído, qual medida é INDISPENSÁVEL para o controle da sepse?
Trata-se de sepse de foco cirúrgico (víscera oca perfurada). CORRETA: o Surviving Sepsis Campaign determina controle do foco o mais precocemente possível (idealmente em 6–12 h) sempre que exequível; antibiótico e suporte hemodinâmico NÃO substituem o controle mecânico da fonte de contaminação peritoneal. Errada: não há evidência de infecção fúngica; antifúngico empírico não é rotina nesse contexto. Errada: vasopressina, quando indicada, é adicionada à noradrenalina (poupadora de catecolamina), não a substitui — e o paciente está com PAM adequada. Errada: corticoide é adjuvante no choque refratário com necessidade crescente de vasopressor, não terapia 'definitiva', e o quadro hemodinâmico está melhorando. Errada: lactato em queda e PAM na meta — novo bolus sem responsividade só acrescenta risco de sobrecarga.
Homem, 72 anos, com colelitíase conhecida, chega ao pronto-socorro com dor no hipocôndrio direito, ictíerncia, febre alta e confusão mental iniciada há poucas horas. PA 90/58 mmHg, FC 112 bpm, FR 24 ipm, SatO2 95%, T 39,2 °C. Exame: Murphy positivo, Glasgow 14. Hipótese de colangite aguda com sepse de foco biliar; exames laboratoriais em coleta. Segundo o pacote de 1 hora do Surviving Sepsis, qual conjunto de medidas deve ser priorizado?
O pacote de 1 hora ('hour-1 bundle') prevê: dosar lactato (repetir se > 2), colher hemoculturas ANTES do antibiótico, administrar antibiótico de amplo espectro EV, iniciar cristaloide 30 mL/kg na presença de hipotensão ou lactato ≥ 4 mmol/L e usar vasopressor se persistir hipotensão durante/após os fluidos para PAM ≥ 65 mmHg. CORRETA: reúne esses elementos. Errada: o antibiótico não deve ser retardado à espera de culturas na sepse/choque. Errada: paciente com sepse e disfunção orgânica (confusão) exige antibiótico EV, não VO nem 'observar'. Errada: exame de imagem não pode atrasar antibiótico e ressuscitação. Errada: vasopressor é reservado à hipotensão refratária após (ou durante) a reposição volêmica, não antes dela.
Homem, 68 anos, no 2º dia de pós-operatório de colectomia por neoplasia, evolui com prostração e febre. PA 82/48 mmHg, FC 118 bpm, FR 26 ipm, SatO2 94% em ar ambiente, T 38,9 °C. Exame: distensão e dor abdominal difusa, extremidades mal perfundidas, diurese de 15 mL/h. Lactato arterial 4,2 mmol/L (VR < 2,0) e leucócitos 21.000/mm³ (VR 4.000–11.000). Suspeita-se de deiscência de anastomose com sepse de foco abdominal. Qual é a conduta inicial imediata mais adequada?
O quadro (hipotensão + lactato 4,2 mmol/L + foco infeccioso) caracteriza hipoperfusão sepse-induzida. A Surviving Sepsis Campaign recomenda, no pacote inicial, ressuscitação com cristaloide 30 mL/kg nas primeiras 3 horas guiada por reavaliação dinâmica — resposta Correta: a anemia não é o mecanismo do choque; transfundir para Hb > 10 não é rotina e não corrige a hipoperfusão. Vasopressor está indicado só após (ou concomitante à) reposição volêmica quando persiste hipotensão; iniciá-lo antes de qualquer fluido é precoce. Restringir fluidos e dar diurético na oligúria por hipoperfusão é conduta invertida e perigosa — a oligúria é pré-renal por hipovolemia relativa. Dobutamina é inotrópico para disfunção miocárdica/baixo débito, não a droga da fase inicial de ressuscitação do choque séptico distributivo.
Mulher, 60 anos, com colangite aguda e choque séptico, é admitida na UTI. Após ressuscitação volêmica adequada com cristaloide (30 mL/kg) e início de antibioticoterapia de amplo espectro, mantém PA 80/50 mmHg, com pressão arterial média de 56 mmHg e sinais de má perfusão. Qual é o vasopressor de primeira escolha para atingir a meta pressórica?
A noradrenalina é o vasopressor de primeira linha no choque séptico (Surviving Sepsis Campaign), com meta de PAM ≥ 65 mmHg — resposta correta. A dopamina foi abandonada como primeira escolha por maior risco de arritmias e mortalidade em subgrupos. A dobutamina é inotrópico, indicada em disfunção miocárdica/baixo débito, não como vasopressor de primeira linha. A vasopressina é agente de segunda linha, associada à noradrenalina para reduzir a dose desta ou quando a meta não é atingida. A adrenalina é reservada como segunda/terceira linha (refratariedade), com mais efeitos adversos metabólicos e cardíacos.
Homem, 45 anos, previamente hígido, chega ao pronto-socorro com dor abdominal intensa há 12 horas e piora súbita. PA 84/50 mmHg, FC 126 bpm, FR 28 ipm, SatO2 93%, T 39,2 °C. Abdome em tábua, com descompressão dolorosa difusa. Lactato 5,0 mmol/L (VR < 2,0). Recebe cristaloides, noradrenalina e antibiótico de amplo espectro na primeira hora. TC de abdome mostra diverticulite perfurada com pneumoperitônio e peritonite difusa. Uma hora depois, permanece hipotenso e taquicárdico apesar das medidas. Qual é a conduta prioritária neste momento?
Na sepse cirúrgica, o controle do foco é pilar do tratamento e deve ser o mais precoce possível (idealmente nas primeiras 6–12 h) — na peritonite difusa por víscera perfurada, isso significa laparotomia urgente (ex.: Hartmann), resposta Correta: Antibiótico e ressuscitação sem eliminar a fonte não revertem o choque. Ampliar antibiótico e esperar 48 h retarda o controle do foco em paciente instável — conduta insuficiente e perigosa. Aguardar 'estabilização completa' é engano: o foco não controlado é a causa da instabilidade; a ressuscitação corre em paralelo, mas não se posterga a cirurgia indefinidamente. Drenagem percutânea isolada serve a abscessos localizados/contidos, não à peritonite difusa com perfuração livre. Corticoide em dose de estresse é adjuvante no choque refratário a vasopressor, jamais tratamento definitivo do foco cirúrgico.
Homem, 62 anos, no 1º dia de pós-operatório de laparotomia com sigmoidectomia a Hartmann por diverticulite perfurada com peritonite fecal (Hinchey IV), evolui na UTI com hipotensão. Recebeu antibioticoterapia de amplo espectro na 1ª hora do diagnóstico e ressuscitação com 30 mL/kg de cristaloide nas primeiras 3 horas; o controle do foco cirúrgico já foi realizado. Mantém-se: PA 76/44 mmHg (PAM ≈ 55 mmHg), FC 124 bpm, FR 30 ipm, SatO2 94% em cateter, T 38,7 °C. Lactato 4,3 mmol/L (VR < 2). Iniciada noradrenalina, titulada progressivamente até 0,5 mcg/kg/min, com PAM persistindo em 58 mmHg. Ecocardiograma à beira-leito mostra função sistólica do VE preservada e VCI não colabável. Qual é a próxima conduta mais adequada para o controle hemodinâmico, segundo a Surviving Sepsis Campaign?
Correta: Trata-se de choque séptico de foco cirúrgico (peritonite fecal) com foco já controlado, volume adequado (30 mL/kg) e vasopressor em curso, mas PAM ainda < 65 mmHg sob noradrenalina em dose crescente. A Surviving Sepsis Campaign recomenda, quando a PAM-alvo não é atingida apenas com noradrenalina, ADICIONAR vasopressina (até ~0,03 U/min) em vez de continuar escalonando a noradrenalina, poupando a dose de catecolamina e reduzindo eventos arrítmicos. Erra: escalonar noradrenalina isoladamente é justamente o que a diretriz sugere evitar quando já se atinge faixa de dose moderada-alta; a vasopressina deve ser somada. Erra: dobutamina se reserva à disfunção miocárdica/baixo débito com hipoperfusão persistente apesar de volume e PAM adequados — aqui a função sistólica está preservada. Erra já foi feita ressuscitação com 30 mL/kg e a VCI não colabável sugere que fluido adicional em bôlus fixo, sem avaliação de responsividade, traz risco de sobrecarga sem benefício. Erra na sequência: a hidrocortisona (200 mg/dia) é indicada no choque refratário com necessidade CONTÍNUA de vasopressor apesar de noradrenalina E vasopressina, não como primeira medida antes de otimizar o esquema vasopressor.
Homem de 58 anos encontra-se no 3º dia de pós-operatório de colectomia por diverticulite complicada, internado em enfermaria de hospital do SUS. Evolui com febre de 39 °C, FC 122 bpm, FR 26 irpm e PA 82x48 mmHg. Recebeu ressuscitação volêmica com 30 mL/kg de Ringer lactato na primeira hora, porém mantém pressão arterial média de 58 mmHg, com oligúria. O lactato arterial é de 4,2 mmol/L. Foram coletadas hemoculturas e iniciado antibiótico de amplo espectro. Considerando o diagnóstico de choque séptico de foco abdominal, qual a conduta mais apropriada para atingir uma pressão arterial média ≥ 65 mmHg?
Trata-se de choque séptico (hipotensão persistente com necessidade de vasopressor e lactato > 2 mmol/L apesar de ressuscitação volêmica adequada). Pela Surviving Sepsis Campaign, a noradrenalina é o vasopressor de primeira escolha, com alvo de PAM ≥ 65 mmHg. A dopamina foi abandonada como primeira linha por maior risco de arritmias e mortalidade. Insistir apenas em volume, com o paciente já em choque refratário a 30 mL/kg e lactato elevado, retarda o suporte e agrava a hipoperfusão. A dobutamina é inotrópico, indicada em disfunção miocárdica/baixo débito com PAM já corrigida, não para elevar a pressão.
Mulher de 45 anos chega à UPA com dor em hipocôndrio direito, icterícia, febre alta com calafrios e sonolência. Ao exame: PA 88x50 mmHg, FC 118 bpm, FR 24 irpm, Tax 39,1 °C e confusão mental. A hipótese é de colangite aguda com sepse de origem biliar. A equipe reconhece a necessidade de aplicar o pacote (bundle) da primeira hora preconizado pela campanha de sobrevivência à sepse. Qual das opções reúne corretamente as medidas iniciais que devem ser executadas na primeira hora de atendimento?
O pacote da primeira hora da Surviving Sepsis Campaign inclui: dosar lactato, coletar hemoculturas antes dos antibióticos, iniciar antibiótico de amplo espectro precocemente, iniciar cristaloide 30 mL/kg diante de hipotensão ou lactato ≥ 4 mmol/L e usar vasopressor (noradrenalina) para PAM ≥ 65 mmHg se houver hipotensão refratária ao volume. Adiar o antibiótico esperando cultura aumenta a mortalidade. Corticoide não é medida inicial (reservado ao choque refratário a vasopressor) e transfusão não é primeira medida. Restringir volume e usar diurético na sepse hipotensa agrava a hipoperfusão.
Homem de 62 anos está no 5º dia de pós-operatório de laparotomia por úlcera péptica perfurada. Apesar de antibioticoterapia de amplo espectro há 72 horas, noradrenalina e ressuscitação volêmica adequada, permanece em choque séptico, febril, taquicárdico e com leucocitose em ascensão. A tomografia de abdome evidencia coleção líquida organizada de cerca de 8 cm, com bolhas de gás em loja subfrênica direita. Além de manter o suporte hemodinâmico e o esquema antimicrobiano, qual é a conduta essencial para o controle da sepse cirúrgica deste paciente?
Na sepse cirúrgica, o controle do foco (source control) é imperativo: uma coleção/abscesso não drenado perpetua o choque mesmo com antibiótico e suporte otimizados. A conduta essencial é drenar/abordar a coleção subfrênica, por via percutânea ou cirúrgica, o mais precocemente possível. Apenas trocar o antibiótico e esperar mantém o foco ativo e é potencialmente fatal. Suspender o antibiótico em paciente em choque séptico com foco documentado é inaceitável. A imunoglobulina IV não tem indicação estabelecida no choque séptico e não substitui o controle do foco.
Homem de 62 anos, hipertenso, encontra-se no 4º dia de pós-operatório de colectomia esquerda por neoplasia, internado na enfermaria de um hospital geral do SUS. Evolui há 12 horas com dor abdominal difusa, febre e queda do débito urinário. Ao exame: confuso, temperatura axilar de 38,9 °C, frequência cardíaca de 128 bpm, frequência respiratória de 30 irpm, pressão arterial de 78 x 42 mmHg, extremidades quentes, abdome distendido e difusamente doloroso, com descompressão brusca dolorosa. Exames: leucócitos 21.400/mm³ com 12% de bastões, lactato arterial 4,8 mmol/L, creatinina 2,3 mg/dL. Recebeu, na última hora, 30 mL/kg de solução cristaloide, mantendo pressão arterial média de 54 mmHg. Já foram colhidas hemoculturas e iniciado antibiótico de amplo espectro.
Trata-se de choque séptico (hipotensão persistente após ressuscitação volêmica adequada, com necessidade de vasopressor e lactato > 2 mmol/L) por peritonite secundária a provável deiscência de anastomose. As diretrizes do Surviving Sepsis Campaign determinam vasopressor precoce — noradrenalina é a droga de primeira escolha — para atingir PAM ≥ 65 mmHg quando a hipotensão não responde à volemia, associado ao controle do foco (source control) o mais rápido possível, idealmente nas primeiras 6-12 horas: aqui, laparotomia de urgência. A alternativa que propõe apenas mais volume é inadequada: o paciente já recebeu ressuscitação inicial e permanece hipotenso — sobrecarga hídrica aumenta a mortalidade e não trata o foco. A dobutamina é inotrópico, indicado apenas em disfunção miocárdica com hipoperfusão persistente após vasopressor, e o quadro de extremidades quentes indica choque distributivo; além disso, adiar a cirurgia por exame de imagem em peritonite difusa clinicamente evidente atrasa o controle do foco e a nefropatia por contraste agrava a lesão renal. O corticosteroide é terapia adjuvante, considerada apenas no choque refratário a vasopressor, nunca como medida inicial isolada.
Mulher de 55 anos, diabética, chega à unidade de pronto atendimento com dor em hipocôndrio direito, febre de 39 °C e vômitos há dois dias. Ao exame: sonolenta, mucosas desidratadas, frequência cardíaca de 122 bpm, frequência respiratória de 28 irpm, pressão arterial de 84 x 50 mmHg, sinal de Murphy positivo e icterícia leve. O médico plantonista suspeita de sepse de foco biliar e decide aplicar o pacote de medidas da primeira hora preconizado pelas diretrizes internacionais de sepse, adotadas pelo Instituto Latino-Americano de Sepse e pelo Ministério da Saúde nos protocolos de resposta rápida.
O pacote da primeira hora (hour-1 bundle) do Surviving Sepsis Campaign, incorporado aos protocolos de sepse do SUS, prevê: dosagem do lactato, coleta de hemoculturas antes do início do antimicrobiano, administração de antibiótico de amplo espectro por via endovenosa e ressuscitação com cristaloide 30 mL/kg em hipotensão ou lactato ≥ 4 mmol/L, além de vasopressor se a hipotensão persistir. A opção com antibiótico oral está errada: na sepse a via é endovenosa, pela absorção enteral imprevisível e pela necessidade de pico sérico rápido; restringir fluidos na hipotensão também contraria a diretriz. Transfusão de hemácias não faz parte do pacote (só indicada com hemoglobina < 7 g/dL, na ausência de sangramento ativo) e corticosteroide não é medida inicial. Iniciar vasopressor antes da expansão volêmica inverte a sequência preconizada — a noradrenalina entra quando a hipotensão persiste apesar do volume — e o lactato não deve ser postergado por exame de imagem.
Homem de 62 anos, hipertenso e diabético tipo 2, está internado em enfermaria de hospital geral no 3º dia de pós-operatório de laparotomia com sigmoidectomia a Hartmann por diverticulite perfurada. Evolui com piora clínica nas últimas 6 horas: febre de 38,9 °C, confusão mental leve e distensão abdominal. Ao exame: regular estado geral, PA 78/44 mmHg, FC 124 bpm, FR 28 irpm, SpO2 93% em ar ambiente, extremidades frias e tempo de enchimento capilar de 4 segundos; abdome distendido, doloroso difusamente, com saída de secreção turva pelo dreno de cavidade. Exames: leucócitos 21.400/mm3 com 12% de bastões, creatinina 2,3 mg/dL, lactato arterial 4,8 mmol/L. Recebeu 30 mL/kg de solução cristaloide em 1 hora, sem melhora pressórica, e mantém diurese de 0,2 mL/kg/h.
O paciente preenche critérios de choque séptico: infecção (foco abdominal evidente, com secreção turva pelo dreno), disfunção orgânica (confusão, oligúria, creatinina elevada) e hipotensão persistente após 30 mL/kg de cristaloide, com lactato > 2 mmol/L. As diretrizes do Surviving Sepsis Campaign determinam iniciar vasopressor (noradrenalina é a primeira escolha) para PAM ≥ 65 mmHg quando a hipotensão persiste durante ou após a ressuscitação volêmica, além do controle do foco no menor tempo possível — na sepse cirúrgica, o antibiótico não substitui a drenagem/reabordagem. A alternativa que propõe apenas volume e transfusão erra porque o paciente já não responde a fluidos e a sobrecarga hídrica aumenta a mortalidade. A que descreve 'sepse sem disfunção hemodinâmica' contraria os dados vitais e ainda usa corticoide como primeira linha (só é considerado no choque refratário a vasopressor). A última erra em dois pontos: dopamina não é vasopressor de escolha (mais arritmias e maior mortalidade) e 'dose renal' não existe como conduta validada, além de postergar o controle do foco, que é justamente o determinante de sobrevida.
Mulher de 68 anos, previamente hígida, é atendida em unidade de pronto atendimento com dor em hipocôndrio direito, febre de 38,5 °C e icterícia iniciadas há 2 dias. Ao exame: lúcida e orientada, PA 108/70 mmHg (PAM 82 mmHg), FC 106 bpm, FR 24 irpm, SpO2 95% em ar ambiente, icterícia 2+/4+, dor à palpação em hipocôndrio direito sem descompressão dolorosa. Exames: leucócitos 18.900/mm3, bilirrubina total 6,4 mg/dL (direta 4,9), fosfatase alcalina e gama-GT elevadas, creatinina 1,6 mg/dL (basal 0,8), lactato arterial 4,1 mmol/L. Ultrassonografia mostra colédoco de 12 mm com imagem sugestiva de cálculo e vesícula com múltiplos cálculos. A paciente está normotensa e não recebeu vasopressor.
O ponto-chave é distinguir sepse com hipoperfusão de choque séptico. Pela definição do Sepsis-3/Surviving Sepsis, choque séptico exige necessidade de vasopressor para manter PAM ≥ 65 mmHg APÓS ressuscitação volêmica adequada, associada a lactato > 2 mmol/L. A paciente está normotensa (PAM 82 mmHg) e ainda não recebeu volume: tem sepse de foco biliar com hipoperfusão (lactato 4,1 e disfunção renal aguda), o que já indica ressuscitação com 30 mL/kg de cristaloide, hemoculturas antes do antibiótico, antimicrobiano de amplo espectro na primeira hora e — por ser sepse cirúrgica — controle do foco com drenagem biliar de urgência (CPRE com papilotomia e retirada do cálculo). Iniciar noradrenalina em paciente normotensa que sequer recebeu volume é precipitado e não corresponde à definição de choque. Tratar como colangite não complicada ignora a disfunção orgânica e o lactato, e colangite com obstrução é emergência, não caso eletivo. Suspender/postergar antibiótico para 'não mascarar' a hemocultura é erro grave: coleta-se a hemocultura e administra-se o antibiótico na primeira hora, pois cada hora de atraso aumenta a mortalidade.
Homem de 34 anos chega à unidade de pronto atendimento com dor abdominal difusa há 3 dias, iniciada em região periumbilical e depois localizada em fossa ilíaca direita, além de febre e vômitos. Ao exame: PA 92/58 mmHg, FC 118 bpm, FR 26 irpm, temperatura axilar 39,1 °C, abdome tenso com descompressão brusca dolorosa difusa e ruídos hidroaéreos diminuídos. Leucócitos 23.000/mm3 com desvio à esquerda. A hipótese é de apendicite aguda perfurada com peritonite difusa e sepse, e o paciente aguarda vaga para o centro cirúrgico. De acordo com as diretrizes do Surviving Sepsis Campaign, adotadas pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Latino-Americano de Sepse, qual é a conduta correta na primeira hora de atendimento?
A alternativa correta reproduz o pacote da primeira hora ('hora de ouro') do Surviving Sepsis Campaign, incorporado aos protocolos brasileiros de sepse: dosar lactato, coletar hemoculturas ANTES do antibiótico (desde que isso não atrase o início além de 45 minutos), administrar antimicrobiano de amplo espectro por via endovenosa na primeira hora e iniciar cristaloide 30 mL/kg diante de hipotensão ou lactato ≥ 4 mmol/L — somados, na sepse cirúrgica, ao controle precoce do foco. Aguardar hemocultura e tomografia para iniciar o antibiótico é erro clássico: cada hora de atraso aumenta a mortalidade, e o exame de imagem não deve postergar o tratamento em paciente com peritonite difusa evidente. Corticoide não é medida inicial (só se cogita no choque refratário a vasopressor) e plasma fresco não tem indicação sem coagulopatia com sangramento. Antibiótico por via oral é inadequado em paciente séptico com peritonite e vômitos, e adiar lactato/hemoculturas até a hipotensão refratária inverte a lógica do reconhecimento precoce da sepse.
Homem de 64 anos chega à UPA com dor em hipocôndrio direito há dois dias, febre e icterícia progressiva. Ao exame: sonolento, PA 82/48 mmHg, FC 124 bpm, FR 26 irpm, Tax 39,1 °C, SpO2 94% em ar ambiente. Lactato arterial de 4,6 mmol/L. Ultrassonografia à beira do leito mostra dilatação de vias biliares e coledocolitíase. Diante do quadro de choque séptico de foco biliar, qual é a conduta imediata, ainda dentro da primeira hora de atendimento?
O pacote da primeira hora do Surviving Sepsis Campaign, adotado nos protocolos de sepse do SUS, exige: dosar lactato, coletar hemoculturas ANTES do antibiótico (sem atrasá-lo), iniciar antimicrobiano de amplo espectro na primeira hora e infundir 30 mL/kg de cristaloide na hipotensão ou lactato ≥ 4 mmol/L, além de planejar o controle do foco (drenagem biliar). A primeira alternativa é errada porque atrasar o antibiótico no choque séptico aumenta a mortalidade a cada hora. A segunda inverte a sequência: o vasopressor entra quando há refratariedade ao volume, e nunca se adia o antibiótico. A quarta ignora que a drenagem é complementar, não substitui a antibioticoterapia e a ressuscitação.
Mulher de 58 anos, no 3º dia de pós-operatório de colectomia esquerda por neoplasia, internada em enfermaria de hospital geral do SUS, evolui com febre, taquicardia e queda do débito urinário. PA 78/44 mmHg, FC 130 bpm, FR 28 irpm, Tax 38,8 °C. Lactato 3,8 mmol/L. Recebeu 30 mL/kg de Ringer lactato em uma hora e mantém PAM de 55 mmHg. Hemoculturas colhidas e antibiótico de amplo espectro já iniciado. Qual a conduta mais adequada neste momento?
A paciente tem choque séptico fluido-refratário (hipotensão persistente após 30 mL/kg): a recomendação é iniciar noradrenalina, vasopressor de primeira linha, com alvo de PAM ≥ 65 mmHg, podendo ser iniciada em acesso periférico calibroso para não atrasar a droga, e simultaneamente buscar o foco (deiscência/abscesso) com imagem, já que o controle do foco é parte da terapêutica. A primeira alternativa perpetua a hipoperfusão e o excesso de volume piora desfechos; após o bolus inicial, a reposição deve ser guiada por responsividade a fluidos. A albumina é, no máximo, adjuvante em pacientes que já receberam grandes volumes, jamais o passo que substitui o vasopressor. A dopamina foi abandonada como primeira escolha por maior risco de arritmias e mortalidade, e a 'dose renal' não tem benefício comprovado.
Homem de 70 anos é atendido em UPA com dor abdominal difusa há 12 horas. Exame: abdome em tábua, descompressão dolorosa generalizada, PA 76/40 mmHg mesmo após 30 mL/kg de cristaloide, FC 138 bpm, lactato 5,2 mmol/L. Foram iniciados antibiótico de amplo espectro e noradrenalina. Tomografia evidencia perfuração de divertículo do sigmoide com pneumoperitônio e líquido fecaloide difuso. A unidade não dispõe de centro cirúrgico. Qual a conduta correta?
Peritonite fecal difusa por perfuração diverticular é foco cirúrgico não drenável: o Surviving Sepsis Campaign recomenda controle do foco tão logo seja clínica e logisticamente viável, idealmente dentro de 6 a 12 horas do diagnóstico, com ressuscitação ocorrendo em paralelo, e não antes. A pegadinha está em esperar estabilizar para operar — no choque séptico de foco cirúrgico, a cirurgia é parte da estabilização, e a conduta correta na UPA sem centro cirúrgico é a regulação imediata com suporte no transporte. Manter antibiótico e vasopressor por 24 a 48 horas aguardando a normalização do lactato retarda o controle do foco, e o lactato não normalizará enquanto a fonte persistir. A drenagem percutânea só cabe em abscesso localizado, não em peritonite fecaloide difusa. A hidrocortisona é adjuvante no choque refratário com vasopressor em curso, mas jamais justifica adiar a laparotomia.
Homem, 62 anos, atendido na UPA no 4º dia de pós-operatório de apendicectomia por apendicite complicada. Está febril (39 °C), taquicárdico (FC 122 bpm), taquipneico (FR 26 irpm) e hipotenso (PA 84/50 mmHg). Lactato sérico de 3,8 mmol/L. Firma-se o diagnóstico de sepse de foco abdominal. Qual conduta deve ser priorizada na primeira hora de atendimento?
O pacote da primeira hora do Surviving Sepsis prevê coleta de culturas (sem atrasar o antibiótico), antibioticoterapia empírica de amplo espectro em até 1 h e reposição com cristaloide 30 mL/kg. Errada porque adiar o antibiótico aguardando cultura aumenta a mortalidade. Errada porque o vasopressor entra durante/após a expansão volêmica inicial, não antes. Errada porque corticoide não é medida inicial, ficando reservado ao choque refratário.
Mulher, 58 anos, com colangite aguda e sepse de foco biliar, em observação na UPA. Após reposição volêmica adequada com 30 mL/kg de cristaloide, mantém PA 82/48 mmHg (PAM 59 mmHg), com lactato em ascensão e sinais de má perfusão periférica. Qual o próximo passo no manejo hemodinâmico?
Trata-se de choque séptico refratário à volemia: a droga vasopressora de primeira linha é a noradrenalina, com alvo de PAM ≥ 65 mmHg. Errada porque volume adicional sem meta hemodinâmica gera sobrecarga e é deletério. Errada porque a dobutamina é inotrópico, reservada à disfunção miocárdica com baixo débito, não vasopressor de primeira escolha. Errada porque a dopamina em "dose renal" foi abandonada, sem benefício comprovado e com mais arritmias.
Homem, 45 anos, com peritonite secundária por perfuração de víscera oca, submetido a laparotomia com controle do foco. Na UTI, mantém-se em choque séptico: apesar de reposição volêmica adequada e noradrenalina em doses crescentes (0,5 mcg/kg/min), persiste com PAM 58 mmHg e hipoperfusão. Qual medida adjuvante é recomendada nesse cenário de choque refratário?
No choque séptico refratário — necessidade crescente de vasopressor para manter a PAM — o Surviving Sepsis recomenda corticoide adjuvante: hidrocortisona 200 mg/dia. Errada porque a dobutamina só se justifica diante de disfunção miocárdica com débito baixo, não de rotina. Errada porque a meta transfusional é restritiva (Hb ≥ 7 g/dL), não 10. Errada porque a dopamina não substitui a noradrenalina e associa-se a mais arritmias e maior mortalidade.
Homem de 62 anos encontra-se no 3º dia de pós-operatório de colectomia esquerda por adenocarcinoma. Evolui com febre (38,9 °C), taquipneia (FR 28 irpm), confusão mental e dor abdominal difusa. Antecedentes: hipertensão em uso de losartana. Exame físico: PA 78×46 mmHg, FC 122 bpm, abdome distendido com descompressão brusca dolorosa. Após ressuscitação com 30 mL/kg de cristaloide, mantém PAM de 58 mmHg, necessitando de noradrenalina para sustentar PAM ≥ 65 mmHg. Gasometria arterial: lactato de 4,2 mmol/L (referência < 2). Segundo os critérios do Sepsis-3, adotados pela campanha Surviving Sepsis, o quadro atual do paciente é classificado como
Pelo Sepsis-3 (base da Surviving Sepsis Campaign), choque séptico = sepse + necessidade de vasopressor para manter PAM ≥ 65 mmHg + lactato > 2 mmol/L, apesar de ressuscitação volêmica adequada — exatamente o quadro descrito (noradrenalina + lactato 4,2 após 30 mL/kg). Classificar o quadro como sepse sem choque é errado: a persistência de hipotensão dependente de vasopressor com hiperlactatemia define choque. SIRS deixou de definir sepse no Sepsis-3 e não classifica gravidade. O contexto é infeccioso (peritonite pós-operatória) e a hipotensão persiste após reposição, afastando hipovolemia pura.
Mulher de 58 anos, diabética, está no 5º dia de pós-operatório de gastrectomia subtotal com reconstrução em Y de Roux. Apresenta febre (38,7 °C), taquicardia (FC 118 bpm), FR 26 irpm e dor abdominal em piora. Exames: leucócitos 19.500/mm³ com 12% de bastões; PCR 28 mg/dL; creatinina 1,9 mg/dL (basal 0,9); lactato 3,1 mmol/L. Recebeu 30 mL/kg de Ringer lactato, hemoculturas foram coletadas e iniciou-se piperacilina-tazobactam na primeira hora. Tomografia de abdome evidencia coleção líquida com gás perianastomótica de 8 cm, compatível com fístula da anastomose. PA atual: 100×60 mmHg em ar ambiente. Além da manutenção do suporte, a conduta mais adequada é
A Surviving Sepsis Campaign recomenda controle do foco (source control) o mais precocemente possível — idealmente em até 6–12 horas — em sepse de origem cirúrgica com foco drenável, como a coleção perianastomótica com gás; antibiótico sozinho não trata foco fechado. Escalar antimicrobianos sem drenar o foco não resolve a fonte e a associação empírica de antifúngico não está indicada neste momento. Postergar a drenagem por 48–72 horas contraria a diretriz e aumenta mortalidade. O manejo conservador da fístula só cabe após controle da sepse — aqui há coleção infectada com disfunção orgânica (creatinina 1,9; lactato 3,1).
Homem de 45 anos foi submetido a laparotomia com rafia de úlcera duodenal perfurada e lavagem da cavidade há 18 horas. Na UTI, evolui com choque séptico: em uso de noradrenalina em dose progressiva, atualmente 0,6 µg/kg/min, mantendo PAM de 60 mmHg. Recebeu ressuscitação volêmica guiada por metas dinâmicas, com resposta a fluido negativa (variação de pressão de pulso de 6%). Ecocardiograma à beira-leito: função biventricular preservada, veia cava inferior sem colapso. Lactato em queda lenta (4,8 → 3,9 mmol/L); diurese 0,4 mL/kg/h. Culturas em andamento, antibioticoterapia adequada em curso e foco controlado. Segundo a Surviving Sepsis Campaign, o próximo passo mais adequado no suporte hemodinâmico é
Com noradrenalina em dose crescente (0,6 µg/kg/min) e PAM ainda < 65 mmHg, a Surviving Sepsis recomenda associar vasopressina (até 0,03 U/min) como segundo vasopressor e iniciar hidrocortisona 200 mg/dia EV no choque séptico com necessidade persistente/escalonante de vasopressor — paciente já está euvolêmico, com foco controlado e antibiótico adequado. Novo bolus maciço é deletério: a fluido-responsividade é negativa (VPP 6%, cava sem colapso), e sobrecarga hídrica piora desfechos. Dobutamina é reservada à hipoperfusão persistente com disfunção miocárdica/débito baixo, ausente aqui (função biventricular preservada). Adrenalina é alternativa de terceira linha ou adjuvante, não substituta da noradrenalina neste momento, e o corticosteroide já está indicado agora.
Homem de 62 anos, no 3º dia de pós-operatório de colecistectomia por colecistite aguda, evolui com febre de 39°C, calafrios e prostração. Ao exame: PA 86/52 mmHg, FC 122 bpm, FR 28 irpm, SpO2 94% em ar ambiente, Glasgow 14, extremidades quentes e tempo de enchimento capilar de 3 segundos. Exames: leucócitos 19.500/mm³ com 12% de bastões e lactato arterial 3,4 mmol/L (VR < 2). Reconhecido o quadro como sepse de foco abdominal, assinale a conduta prioritária a ser instituída na primeira hora.
Quadro de sepse com hipoperfusão (lactato > 2 e hipotensão) exige o pacote da primeira hora da Surviving Sepsis Campaign: medir lactato, colher hemoculturas ANTES do antibiótico, iniciar antimicrobiano de amplo espectro precocemente e infundir 30 mL/kg de cristaloide na hipotensão/hiperlactatemia. O antibiótico não deve ser adiado — colhem-se as culturas em paralelo, sem atrasar a droga. Vasopressor é indicado após (ou concomitante à) ressuscitação volêmica adequada, não antes dela. Imagem para controle de foco não precede a ressuscitação inicial.
Mulher de 55 anos, pós-operatório de laparotomia por peritonite fecal secundária a perfuração diverticular, está na UTI. Após ressuscitação com 30 mL/kg de cristaloide, mantém PA 82/48 mmHg (PAM 59), lactato 4,2 mmol/L e débito urinário 0,3 mL/kg/h. Foi iniciada noradrenalina, titulada até 0,5 mcg/kg/min, com PAM ainda em 60 mmHg. O foco já foi controlado cirurgicamente e a antibioticoterapia de amplo espectro está em curso. Segundo a Surviving Sepsis Campaign, qual a próxima medida mais adequada?
Choque séptico refratário à noradrenalina em dose ascendente (~0,25–0,5 mcg/kg/min): a recomendação é acrescentar vasopressina (0,01–0,03 U/min) como segundo vasopressor para atingir PAM ≥ 65 mmHg e poupar catecolamina, considerando hidrocortisona 200 mg/dia se persistir a dependência. A dopamina é desencorajada por maior risco arrítmico, não é substituta da noradrenalina. Novos bolus indiscriminados sem avaliar responsividade a volume causam sobrecarga; após ressuscitação inicial, guia-se por parâmetros dinâmicos. Dobutamina é inotrópico para disfunção miocárdica/baixo débito, não a droga de escolha para elevar a PAM.
Homem de 68 anos, 5º dia de pós-operatório de colectomia esquerda com anastomose primária, apresenta dor abdominal difusa, febre de 38,8°C, PA 90/56 mmHg, FC 115 bpm e lactato 3,0 mmol/L. Ao exame, abdome distendido e doloroso com descompressão brusca dolorosa e saída de líquido entérico pelo dreno. A tomografia evidencia deiscência da anastomose com peritonite fecal e coleção. Já em ressuscitação volêmica e antibiótico de amplo espectro há 2 horas, mantém instabilidade hemodinâmica. Qual a conduta determinante para o controle da sepse?
Sepse por deiscência de anastomose com peritonite fecal difusa exige controle de foco cirúrgico o mais precoce possível (idealmente < 6–12 h): reabordagem com lavagem da cavidade e desvio do trânsito por colostomia — antibiótico e fluidos não controlam a fonte contínua de contaminação. Drenagem percutânea serve a coleção localizada/abscesso, não a peritonite fecal difusa com instabilidade. Adiar a reoperação por 48 h em paciente instável aumenta a mortalidade. Prótese endoluminal não tem papel no manejo agudo da deiscência com peritonite generalizada.
Homem de 68 anos está no 4º dia de pós-operatório de colectomia esquerda por neoplasia. Evolui com dor abdominal difusa, calafrios e queda do débito urinário. Ao exame: Glasgow 14, PA 82/44 mmHg, FC 126 bpm, FR 28 irpm, Tax 38,9 °C, SpO2 93% em ar ambiente, abdome distendido e doloroso à descompressão. Exames: leucócitos 21.400/mm³ com 12% de bastões, lactato arterial 4,1 mmol/L (VR < 2,0), creatinina 2,1 mg/dL. Considerando o pacote inicial preconizado pela campanha Surviving Sepsis, assinale a conduta adequada na primeira hora.
O paciente tem choque séptico de foco abdominal pós-operatório (hipotensão + lactato > 2 após foco infeccioso). O pacote de 1 hora da Surviving Sepsis prevê dosar lactato, coletar culturas ANTES do antimicrobiano (sem atrasá-lo), administrar antibiótico de amplo espectro e infundir 30 mL/kg de cristaloide na hipotensão/hiperlactatemia — alternativa correta. Aguardar a hemocultura para antibiotizar aumenta a mortalidade a cada hora de atraso. Noradrenalina não substitui a ressuscitação volêmica inicial; é indicada durante ou após a expansão, com alvo de PAM ≥ 65 mmHg. A tomografia é necessária para o controle do foco, mas não pode retardar antibiótico e volume.
Mulher de 59 anos, diabética, foi submetida a laparotomia com rafia de úlcera duodenal perfurada e lavagem da cavidade há 8 horas. Permanece em UTI, sedada e em ventilação mecânica, tendo recebido 35 mL/kg de cristaloide balanceado e antimicrobiano de amplo espectro. Há 6 horas mantém noradrenalina 0,5 mcg/kg/min associada a vasopressina 0,03 U/min, com PAM 62 mmHg. Ecocardiograma à beira do leito: fração de ejeção 60%, veia cava inferior pouco colapsável. Lactato 3,4 mmol/L, em queda. Qual é a conduta adicional recomendada neste momento?
Trata-se de choque séptico com necessidade sustentada de vasopressor apesar de ressuscitação volêmica adequada e controle de foco realizado. A Surviving Sepsis sugere corticoide em choque séptico com dose de noradrenalina ≥ 0,25 mcg/kg/min mantida por ao menos 4 horas — hidrocortisona 200 mg/dia IV, o que se aplica exatamente ao caso. A dobutamina só é indicada quando há disfunção miocárdica ou hipoperfusão persistente com débito cardíaco baixo, o que a fração de ejeção de 60% afasta. Novos bolus fixos de volume, com cava pouco colapsável e lactato em queda, geram sobrecarga hídrica sem benefício. A transfusão em sepse segue estratégia restritiva, com gatilho de hemoglobina em torno de 7 g/dL.
Homem de 47 anos, obeso e diabético, procura a emergência com dor intensa e desproporcional em coxa direita iniciada há 36 horas, após pequeno ferimento local. Ao exame: PA 88/50 mmHg, FC 132 bpm, Tax 39,2 °C, confusão mental, edema tenso da coxa com bolhas de conteúdo acinzentado, crepitação à palpação e área de anestesia cutânea. Exames: leucócitos 26.000/mm³, creatinina 2,4 mg/dL, PCR 320 mg/L, lactato 4,8 mmol/L. Já foram iniciados cristaloide, noradrenalina e antimicrobiano de amplo espectro. Qual é o próximo passo determinante para o desfecho?
O quadro é de infecção necrosante de partes moles com choque séptico: dor desproporcional, bolhas, crepitação, anestesia cutânea e disfunção orgânica. Na sepse cirúrgica, o controle de foco é intervenção que deve ocorrer o mais precocemente possível (idealmente nas primeiras 6 a 12 horas) e, na fasciíte necrosante, o desbridamento cirúrgico imediato é o principal determinante de sobrevida — alternativa correta. A ressonância tem boa acurácia, mas o diagnóstico aqui é clínico e o exame apenas atrasaria a cirurgia. Tratamento clínico isolado é inaceitável, pois a necrose progride em horas. A oxigenoterapia hiperbárica é, no máximo, adjuvante após o desbridamento.
Sobre o prazo do controle do foco na sepse de origem cirúrgica, assinale a alternativa que expressa a meta operacional recomendada pelas diretrizes cirúrgicas de controle do foco.
A diretriz cirúrgica de controle do foco fixa a meta de 6 a 12 horas depois do diagnóstico como suficiente para a maioria dos casos, com graduação em emergente, urgente (adiamento de 1 a 24 horas tolerável sob ressuscitação) e adiado. O limite inferior vem de dados observacionais: sobrevida nula quando a operação passou de 6 horas na perfuração digestiva com choque e acréscimo de 6% na mortalidade por hora na perfuração gastroduodenal. A opção de 72 horas confunde o prazo do antimicrobiano com o do procedimento. Exigir normalização hemodinâmica antes de operar inverte a lógica: o paciente com fonte contínua muitas vezes só estabiliza depois que a contaminação para. E 30 minutos para todos os sítios ignora que existem focos, como a necrose pancreática infectada, em que adiar é a conduta correta.
Mulher de 55 anos chega com febre, calafrios, dor lombar direita e PA 88 x 52 mmHg. A tomografia sem contraste mostra cálculo ureteral direito de 9 mm com hidronefrose importante e borramento da gordura perirrenal. Está em uso de antimicrobiano endovenoso há 4 horas, sem melhora. Qual é a prioridade?
Urossepse com obstrução é sepse por foco descomprimível: enquanto a via urinária estiver obstruída, o sistema coletor infectado sob pressão continua alimentando a bacteremia, e o antimicrobiano não resolve — o que explica a ausência de melhora após 4 horas. A prioridade é a desobstrução imediata, por cateter duplo J ou nefrostomia percutânea, ficando o tratamento do cálculo para um segundo tempo, com o paciente recuperado. Litotripsia extracorpórea em rim infectado e obstruído não drena e pode piorar o quadro. Ureterolitotripsia no mesmo tempo prolonga um procedimento em paciente séptico e aumenta a manipulação de sistema infectado sob pressão. Esperar 24 horas contraria a própria lógica do controle do foco, que aqui é emergente.
Homem de 49 anos, diabético, com dor intensa na perna esquerda há 20 horas, desproporcional ao exame local, com edema que ultrapassa os limites do eritema e uma bolha de conteúdo escuro. Está taquicárdico e prostrado. Não há crepitação. O escore LRINEC calculado é de 4 pontos. Qual é a conduta?
O diagnóstico de infecção necrosante de partes moles é primariamente clínico, e o quadro descrito (dor desproporcional, edema além do eritema, bolha hemorrágica, toxemia em diabético) já basta para indicar a exploração. O escore LRINEC não sustenta a decisão de não operar: na síntese de 23 estudos, o corte de 6 pontos ou mais teve sensibilidade de 68,2% e especificidade de 84,8%, e o de 8 pontos ou mais, sensibilidade de 40,8% e especificidade de 94,9% — cerca de um terço das infecções necrosantes pontua abaixo de 6, de modo que valor alto acrescenta e valor baixo não retira. O consenso cirúrgico escreve isso como recomendação graduada: pela baixa sensibilidade, o escore não deve ser usado para afastar o diagnóstico. Por isso usar o escore para afastar o diagnóstico, ou para adiar a decisão por mais 12 horas, é errado. A ausência de crepitação também não conta a favor: é achado tardio. A imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia quando a suspeita é alta, e aspirar bolha para cultura troca o exame definitivo — a exploração — por um resultado que chega tarde. O atraso além de 12 horas se associa a mortalidade maior.
Homem de 74 anos chega com febre de 39 °C, icterícia, dor no hipocôndrio direito, confusão mental e PA 84 x 50 mmHg, necessitando de droga vasoativa. Bilirrubina total de 8,2 mg/dL e ultrassonografia com colédoco de 12 mm e cálculo distal. Qual é a conduta quanto ao controle do foco?
O quadro é colangite aguda grave (grau III): tríade de Charcot somada a hipotensão e alteração do nível de consciência, ou seja, pêntade de Reynolds, com disfunção orgânica instalada. Nesse grau, a drenagem biliar é de emergência, feita assim que o paciente estiver hemodinamicamente estável e com o suporte correndo em paralelo, e não depois de completar dias de antimicrobiano. A via preferencial é endoscópica; a transhepática percutânea entra quando a endoscópica falha ou é inviável. Antibiótico isolado não vence a pressão dentro do ducto obstruído. Colecistectomia com exploração da via biliar em vigência de choque é operação de grande porte quando existe procedimento menor que controla o foco; a vesícula é tratada depois, na mesma internação. O prazo de até 48 horas é o da colangite moderada, não da grave. A derivação cirúrgica ficou como última alternativa.
Paciente submetido a laparotomia por perfuração de delgado, com ressecção do segmento roto, anastomose primária e lavagem da cavidade. Evolui sem febre, com trânsito intestinal recuperado e sem sinais de coleção. Quanto à duração da antibioticoterapia após o controle adequado do foco, qual é a conduta sustentada pela evidência?
O ensaio STOP-IT randomizou 518 pacientes com infecção intra-abdominal complicada e controle do foco obtido entre curso fixo de cerca de 4 dias e antimicrobiano mantido até 2 dias após a resolução de febre, leucocitose e íleo (teto de 10 dias), com desfecho composto de infecção de sítio cirúrgico, infecção recorrente e morte semelhante nos dois braços. As diretrizes cirúrgicas traduzem isso em 3 a 5 dias para a maioria das infecções intra-abdominais complicadas. Cursos fixos de 14 dias e a manutenção até normalização de marcadores prolongam exposição sem ganho demonstrado. Amarrar a duração à retirada de dreno confunde dispositivo com foco. Suspender imediatamente é a conduta da apendicite e da colecistite NÃO complicadas com ressecção completa, não da perfuração de delgado com contaminação estabelecida. A trava geral: a contagem só começa quando o foco foi controlado.
Homem de 41 anos, no 2º dia de pós-operatório de herniorrafia inguinal, apresenta febre de 38,9 °C e dor intensa na ferida operatória, desproporcional ao esperado. Ao abrir o curativo, há edema que se estende para a parede abdominal, pele com áreas acinzentadas e saída de secreção fina, turva e de odor fétido pela incisão. FC 118 bpm, PA 104 x 62 mmHg. Qual é a conduta?
A febre nas primeiras 48 horas de pós-operatório é, na maioria das vezes, resposta inflamatória ao trauma cirúrgico — mas há duas exceções cirúrgicas que aparecem exatamente nessa janela: a infecção de ferida por estreptococo do grupo A e a por clostrídio, ambas necrosantes. Dor desproporcional, secreção fina e acinzentada, pele com áreas de necrose e edema que avança para além da incisão descrevem esse cenário, e a conduta é abrir a ferida e explorar cirurgicamente com desbridamento, associando antimicrobiano endovenoso de amplo espectro. Observar ou tratar com antimicrobiano oral perde a janela em uma infecção que progride em horas. Imagem não deve atrasar a exploração quando a suspeita clínica é alta. Curativo tópico não controla foco: coleção e tecido necrótico se tratam abrindo, drenando e desbridando.
Mulher de 62 anos, com diverticulite aguda, mantém dor em fossa ilíaca esquerda e febre no 3º dia de antibioticoterapia endovenosa. Está lúcida, com PA 124 x 76 mmHg e FC 92 bpm. A tomografia mostra abscesso pericólico único, de 6 cm, com conteúdo líquido homogêneo e janela de acesso segura pelo flanco esquerdo, sem pneumoperitônio e sem líquido livre difuso. Qual é a conduta mais adequada?
A coleção é única, líquida, delimitada, com janela segura, em paciente estável e sem fonte contínua: essa é exatamente a geometria que habilita a drenagem percutânea guiada por imagem. O corte de tamanho no abscesso diverticular é de 4 a 5 cm: abaixo dele, o antimicrobiano isolado costuma bastar no paciente estável; acima, drena-se, com 3 a 5 dias de antimicrobiano depois. Manter apenas antimicrobiano numa coleção de 6 cm que já falhou em 3 dias repete o que não funcionou. Ressecção de urgência é conduta para peritonite difusa ou instabilidade, que não estão presentes. Lavagem laparoscópica sem tratar a coleção não controla o foco. E trocar de esquema é a armadilha clássica: nenhum espectro alcança o interior de um abscesso. A conduta se completa com a verificação em 48 a 72 horas — sem melhora, reintervém-se.
Homem de 68 anos, no 6º dia de pós-operatório de retossigmoidectomia com anastomose colorretal, apresenta nas últimas 12 horas parada de eliminação de flatos, distensão abdominal e frequência cardíaca entre 118 e 130 bpm apesar de analgesia adequada. Temperatura axilar de 38,2 °C. PA 96 x 58 mmHg, com resposta apenas parcial à infusão de cristaloide. Ao exame, abdome difusamente doloroso, com descompressão brusca dolorosa em ambos os quadrantes inferiores. O dreno pélvico drenou 150 mL de líquido turvo, de odor fecaloide, nas últimas 6 horas. Qual é a conduta?
O quadro é deiscência de anastomose colorretal na janela clássica (5º ao 7º dia), com peritonite difusa e hipotensão que responde apenas em parte ao volume. Trata-se de fonte contínua com contaminação difusa: o único tratamento é interromper a fonte cirurgicamente, e a meta de controle do foco é de 6 a 12 horas do diagnóstico, aproximando-se de 6 quando há choque. Ampliar antimicrobiano não alcança a cavidade que continua sendo contaminada. Aguardar imagem consome a janela em paciente cujo exame físico já descreve peritonite difusa com instabilidade. Drenagem percutânea esvazia coleção mas não repara anastomose que vaza — é adiamento com aparência de conduta. Nutrição parenteral não tem papel no controle do foco em peritonite difusa. Refazer a anastomose em campo contaminado seria a próxima deiscência: deriva-se o trânsito.
Homem de 48 anos está na terceira semana de pancreatite aguda grave, com necrose pancreática e peripancreática já demarcada, e agora apresenta febre, leucocitose e gás no interior da coleção à tomografia. Está estável, com noradrenalina em dose baixa, sem peritonite difusa e com janela de acesso para punção. Qual a conduta de controle do foco mais adequada?
Nem todo foco cirúrgico é emergente, e a necrose pancreática infectada é o exemplo canônico do foco adiado: a abordagem escalonada começa pelo antimicrobiano, passa por dreno percutâneo ou endoscópico e só chega à necrosectomia quando ela se torna inevitável, preferindo o tecido demarcado ao tecido em transição. Necrosectomia aberta de imediato queima esse degrau e aumenta a morbidade; antimicrobiano isolado deixa a coleção sob pressão, e droga nenhuma esteriliza compartimento fechado; a peritoneostomia com reabordagens programadas é desenho de peritonite difusa e de operação deliberadamente incompleta; e esperar mais três semanas com infecção documentada confunde adiamento estratégico com inércia.
Mulher de 57 anos teve abscesso subfrênico de 8 cm drenado por cateter percutâneo há 72 horas, com antimicrobiano de amplo espectro desde então. Mantém febre de 38,7 °C, leucocitose em ascensão e necessidade crescente de noradrenalina. O débito pelo cateter cessou no segundo dia. A tomografia de controle mostra coleção residual de 6 cm, com o cateter fora da cavidade da coleção. Qual a conduta?
Depois de drenar, os sinais e as disfunções devem regredir em 48 a 72 horas; débito que cessa cedo demais, febre que não cede e coleção residual na imagem dizem que o controle do foco falhou — e falha de controle do foco é falha de tratamento, não infecção resistente. O passo seguinte é reintervir, reposicionando o cateter, acrescentando dreno ou operando, e não trocar de droga: prolongar ou ampliar antimicrobiano em foco não controlado é a forma mais comum de adiar uma operação necessária. Manter o esquema e o cateter perde outra janela; retirar o cateter deixa a coleção sem saída; e corticoide não substitui a remoção mecânica do que está infectado.
Mulher de 78 anos chega com febre de 39,2 °C, dor no hipocôndrio direito e icterícia. Bilirrubina total de 6,1 mg/dL, leucócitos de 18.400/mm³, albumina de 2,8 g/dL. Está lúcida, com pressão arterial de 128 por 76 mmHg sem vasopressor, relação PaO2/FiO2 de 380, creatinina de 1,0 mg/dL, plaquetas de 210.000/mm³ e INR de 1,1. A ultrassonografia mostra colédoco dilatado com cálculo distal. Qual o grau da colangite e o prazo da drenagem?
A gravidade define o relógio da drenagem. Não há disfunção orgânica — pressão sustentada sem vasopressor, consciência preservada, relação de oxigenação acima de 300, creatinina abaixo de 2,0 mg/dL, INR abaixo de 1,5 e plaquetas acima de 100.000/mm³ —, o que afasta a forma grave; e a paciente reúne os cinco marcadores da forma moderada: idade de 75 anos ou mais, febre de 39 °C ou mais, leucócitos acima de 12.000/mm³, bilirrubina total de 5 mg/dL ou mais e hipoalbuminemia. Nessa faixa a drenagem em até 24 horas reduziu a mortalidade no estudo multicêntrico que a mediu. Tratar como leve adia a descompressão de quem tem cinco marcadores; a drenagem de emergência é a régua da forma grave; adiar por 7 dias mantém a via obstruída; e a colecistectomia precoce é o controle do foco da colecistite — na colangite por coledocolitíase a via biliar vem primeiro e a vesícula depois.
Em qual situação a laparotomia sob demanda é preferível à relaparotomia programada no manejo da peritonite grave?
A comparação entre reoperar de forma programada e reoperar sob demanda mostrou que a estratégia programada não melhora a mortalidade e resulta em mais reoperações, mais consumo de recursos e mais complicações relacionadas ao abdome aberto. O padrão atual é reoperar guiado pela evolução clínica e por imagem, o que exige vigilância disciplinada e limiar baixo. O erro conceitual do distrator é presumir que lavagem repetida trata sepse: quem trata é o controle do foco, e lavar sem foco novo apenas agride.
Sobre o conceito de controle do foco na sepse de origem abdominal, qual afirmativa está correta?
Controle do foco significa remover ou drenar o material infectado, e o tempo é o determinante de mortalidade que o médico controla: quanto mais cedo, melhor, com meta habitual dentro de 6 a 12 horas. A opção pela via menos invasiva e eficaz — em geral a drenagem percutânea — é o que permite antecipar o procedimento no doente instável, e por isso a cirurgia aberta não é automaticamente superior. Esperar estabilização completa é armadilha lógica no choque séptico: o paciente não estabiliza enquanto o foco drena toxina. E o antibiótico, por mais adequado que seja, não penetra coleção sob pressão; culturas devem ser colhidas antes da primeira dose desde que isso não a atrase.
Paciente com peritonite secundária por perfuração de sigmoide chega com PA 84x50 mmHg, lactato 5,0 mmol/L e sinais de má perfusão. Qual a sequência inicial correta?
No choque séptico de origem abdominal, a mortalidade sobe a cada hora de atraso do antibiótico e do controle do foco: o pacote inicial reúne cristaloide em torno de 30 mL/kg, coleta de culturas sem retardar a droga, antimicrobiano de amplo espectro na primeira hora, medida seriada de lactato e vasopressor quando a pressão não responde ao volume, com a cirurgia idealmente nas primeiras seis a doze horas. Esperar culturas para iniciar antibiótico é a inversão mais perigosa da sequência. Postergar a decisão cirúrgica por seis horas de observação, com foco já definido, contraria o princípio do controle precoce. Vasopressor sem volume trata o número e não a perfusão, e operar sem antibiótico deixa a bacteremia sem cobertura no momento de maior manipulação.
Qual é a duração recomendada da antibioticoterapia após controle adequado do foco em infecção intra-abdominal complicada, em paciente que responde bem?
Depois que o foco está drenado ou ressecado e o paciente responde, cursos curtos — em torno de quatro dias — produzem os mesmos desfechos que cursos longos, com menos resistência, menos infecção por Clostridioides difficile e menos toxicidade. Prolongar por quatorze dias sem critério é o hábito que a evidência desmontou. Vinte e quatro horas é o esquema de infecção intra-abdominal não complicada, com foco removido por completo, e fica curto aqui. Guiar-se pela normalização da proteína C reativa ou pela permanência do dreno cria tratamentos intermináveis, porque nenhum dos dois marca o fim da infecção.
Qual é a principal vantagem da drenagem percutânea sobre a abordagem cirúrgica no tratamento de abscessos intra-abdominais únicos e acessíveis?
A drenagem percutânea resolve a coleção com pouca agressão e, sobretudo, permite esfriar o processo para operar depois — quando existir indicação — com paciente compensado, campo menos hostil e maior chance de anastomose primária em vez de estoma. Ela não substitui o antibiótico, que segue sendo parte do tratamento, e não trata a doença de base, como o divertículo ou o tumor. Também não é infalível: coleções multiloculadas, com conteúdo espesso ou debris, e as de difícil acesso são justamente as que mais falham e acabam na sala.
Qual é o princípio central do manejo da sepse de origem cirúrgica, além de antibiótico precoce e suporte hemodinâmico?
Sem controle do foco, nenhum antibiótico resolve sepse cirúrgica: a fonte precisa ser drenada, desbridada, derivada ou ressecada, e o intervalo até essa medida é determinante do desfecho. Corticoide em dose alta não é padrão e fica restrito ao choque refratário a vasopressor. Antibioticoterapia prolongada de rotina não substitui o controle do foco e ainda seleciona resistência — com foco controlado, cursos curtos bastam. Restrição hídrica na fase de ressuscitação agrava a hipoperfusão. Laparotomia para todo séptico ignora que muitos focos são resolvidos por drenagem percutânea ou endoscópica, com menor morbidade.
No paciente com peritonite difusa por apendicite perfurada, hipotenso e taquicárdico, qual é a sequência de manejo correta?
A ressuscitação e o antibiótico correm em paralelo com o preparo cirúrgico: na peritonite difusa com sepse, o controle do foco não deve ser adiado, porque a fonte que alimenta o choque só se resolve na sala. Postergar a operação até a estabilização completa é o erro conceitual mais grave, pois em foco não controlado a estabilidade não se sustenta. A drenagem percutânea serve a coleções localizadas, não à contaminação difusa da cavidade.
Sobre o controle do foco infeccioso na sepse de origem abdominal, qual afirmativa é correta?
Controle do foco é a remoção física da fonte — drenagem de coleção, ressecção ou reparo do órgão perfurado, retirada de dispositivo infectado — e deve ocorrer o mais cedo possível, em geral nas primeiras 6 a 12 horas. A ideia de que o antibiótico adequado compra tempo é justamente a armadilha: nenhum antimicrobiano esteriliza uma cavidade que continua sendo contaminada. Exigir lactato normalizado antes de operar inverte causa e efeito, pois o lactato só cai quando a fonte é retirada.
Segundo os pacotes de tratamento da sepse, qual o prazo recomendado para a administração de antimicrobiano empírico no paciente com choque séptico de origem abdominal?
No choque séptico o antimicrobiano empírico deve ser administrado na primeira hora, e cada hora de atraso associa-se a aumento de mortalidade. Condicionar a droga à coleta completa de culturas engana porque as hemoculturas devem sim ser colhidas antes, mas sem que isso atrase o antibiótico além do razoável. Aguardar tomografia ou Gram do líquido peritoneal inverte a ordem: a terapia empírica precede a identificação precisa do agente e do foco.
Paciente com choque séptico de foco abdominal, pressão arterial 82/50 mmHg e lactato 4,2 mmol/L. Qual a conduta inicial de ressuscitação volêmica recomendada?
O pacote inicial prevê 30 mL/kg de cristaloide nas primeiras horas diante de hipotensão ou hiperlactatemia, seguido de reavaliação dinâmica da resposta e início de vasopressor se a pressão não sustentar. A albumina não é primeira escolha e entra como adjuvante em pacientes que exigem grandes volumes. Os amidos foram abandonados por lesão renal e mortalidade aumentada, e a transfusão liberal para alvo de 10 g/dL foi substituída por estratégia restritiva.
Paciente no 8º dia de pós-operatório de gastrectomia apresenta febre persistente de 38,8 °C, dor no hipocôndrio esquerdo e leucocitose. A tomografia mostra coleção subfrênica esquerda de 8 cm, com paredes definidas, sem pneumoperitônio livre nem sinais de peritonite difusa. O paciente está estável. Qual é a conduta?
O princípio do controle de foco é drenar a coleção pela via menos agressiva que resolva, e em abscesso único, bem delimitado e acessível, em paciente estável, a drenagem percutânea guiada por imagem tem eficácia comparável à cirurgia com muito menos morbidade. Antibiótico isolado é o distrator mais escolhido e falha em coleções desse tamanho, porque a droga não penetra adequadamente a cavidade abscedada. Punção única sem cateter costuma resultar em recidiva. E reoperar de imediato fica reservado a peritonite difusa, coleções múltiplas ou falha da drenagem percutânea.
Sobre o controle do foco infeccioso na sepse de origem cirúrgica, é correto afirmar que:
Sem remover ou drenar a fonte, nenhum antibiótico estabiliza o paciente de forma duradoura, e o princípio é escolher o procedimento menos invasivo capaz de resolver o problema. Esperar estabilização completa engana porque em muitos casos o paciente só estabiliza depois que o foco é controlado — a ressuscitação corre junto com a intervenção, não antes dela. Hemocultura negativa é comum e não afasta a necessidade de drenar.
Homem de 74 anos, no oitavo dia após gastrectomia, apresenta hipotensão, taquicardia, confusão e lactato elevado, com tomografia mostrando coleção intra-abdominal de 10 cm com gás. Qual a prioridade?
Em sepse de origem cirúrgica, o antimicrobiano e o volume sustentam o paciente, mas quem muda a mortalidade é a retirada da fonte, e o tempo até o controle do foco é uma das variáveis mais fortes do desfecho; coleção volumosa com gás deve ser drenada, por punção guiada quando a anatomia permite ou por cirurgia quando não. Confiar apenas no antibiótico e reavaliar dias depois é o comportamento que transforma sepse em choque refratário. Corticoide tem lugar restrito ao choque com vasopressor em dose elevada, e nutrição, embora importante, não é prioridade da primeira hora. Hemoderivados seguem indicação específica.
Paciente reoperado por peritonite persistente após ressecção de sigmoide perfurado, no 9º dia, apresenta culturas do líquido peritoneal com Candida albicans e Enterococcus faecium, em uso prévio de carbapenêmico. Esse quadro caracteriza:
Infecção peritoneal que persiste ou recorre após tratamento adequado da peritonite secundária, com germes selecionados pelo uso prévio de antimicrobianos, define a forma terciária, de alta mortalidade e resposta imune exaurida. Chamar de contaminação engana e priva o paciente de tratamento antifúngico e de nova avaliação do foco. A peritonite primária é a do cirrótico, monobacteriana e sem fonte cirúrgica.
Sobre o conceito de controle do foco (source control) na peritonite secundária, é correto afirmar que:
O conceito é anatômico e mecânico: sem eliminar a fonte, o antibiótico apenas atrasa o desfecho. Cada hora de retardo em peritonite com sepse aumenta a mortalidade, e por isso a ressuscitação corre em paralelo à intervenção. Reduzir o conceito à lavagem engana porque volume de soro não substitui a remoção da causa, e lavagens exaustivas podem disseminar a contaminação.
Paciente com peritonite secundária por perfuração colônica é submetido a controle do foco. Sobre a duração da antibioticoterapia após controle adequado da fonte infecciosa, a orientação atual é:
Com a fonte controlada, prolongar o antibiótico não melhora desfecho e aumenta resistência e infecção por germes oportunistas — os estudos de duração fixa curta mostraram equivalência com esquemas prolongados. Guiar-se pela normalização de marcadores inflamatórios engana porque eles demoram a cair mesmo em paciente curado. Suspender de imediato ignora a bacteremia e a contaminação já ocorridas.
Sobre a coleta de culturas do líquido peritoneal na peritonite secundária adquirida na comunidade, é correto afirmar que:
A cultura orienta o descalonamento e identifica resistência em pacientes que não podem errar o esquema, e a amostra deve ser de líquido ou tecido, não de superfície. O empírico começa antes do resultado, guiado pela epidemiologia local. Coletar depois de iniciar antibiótico engana porque reduz muito a chance de crescimento e perde a informação.
Paciente no quarto dia de pós-operatório apresenta febre. Qual investigação inicial é mais adequada para orientar a busca do foco?
A febre pós-operatória se investiga com exame clínico dirigido aos focos mais prováveis conforme o dia, avaliando ferida operatória, pulmões, acessos vasculares, trato urinário e membros inferiores, complementado por exames orientados pelos achados. Tomografia de corpo inteiro para todos gera exposição e custo sem melhorar o rendimento diagnóstico. Trocar antibiótico sem investigar seleciona resistência e mascara o foco. Considerar toda febre benigna é o erro que atrasa o diagnóstico de deiscência e abscesso. Solicitar apenas hemograma e esperar três dias perde a janela em que o controle do foco é mais simples.
Qual sinal deve levantar suspeita de complicação cirúrgica, e não de resposta inflamatória fisiológica, no pós-operatório?
A resposta fisiológica ao trauma cirúrgico tem curva previsível, com pico precoce e queda a partir do terceiro dia; o que denuncia complicação é a taquicardia persistente apesar de analgesia e reposição, somada a marcadores que voltam a subir depois do terceiro dia. Febre baixa nas primeiras horas, leucocitose discreta no primeiro dia, pico transitório de proteína C reativa com queda subsequente e dor incisional em melhora compõem a evolução esperada. Acompanhar a tendência, e não o valor isolado de um único dia, é o que permite reconhecer cedo a deiscência e o abscesso.
Paciente no sexto dia após colectomia apresenta febre de 39 graus, frequência respiratória de 26 incursões por minuto, pressão arterial de 88 por 50 mmHg apesar de reposição volêmica, lactato de 4,2 mmol/L e tomografia com coleção pélvica de 9 cm. Qual a conduta prioritária?
O quadro configura choque séptico de foco abdominal, e o tratamento tem três pilares simultâneos: antibiótico o mais precocemente possível, ressuscitação hemodinâmica guiada por perfusão e, sobretudo, controle do foco, que na sepse cirúrgica é a medida que define o desfecho. Ajustar analgesia e observar deixa a fonte ativa. Corticoide em dose alta como imunomodulação não corrige a infecção e tem papel restrito ao choque refratário a vasopressor. Nutrição parenteral não é prioridade na hora do controle do foco. Repetir imagem em 48 horas quando a coleção já foi documentada apenas atrasa a drenagem.
Paciente com sepse de foco abdominal por abscesso intracavitário. Qual é o princípio terapêutico central?
Sem drenar ou remover o foco, nenhum esquema antimicrobiano controla a sepse cirúrgica, e o controle deve ser feito o mais precocemente possível, junto com antibiótico nas primeiras horas e ressuscitação adequada. Aguardar culturas engana quem busca terapia dirigida, mas o atraso do antibiótico aumenta a mortalidade a cada hora, e as coletas são feitas sem retardar a primeira dose.
Homem de 62 anos, no segundo dia após gastrectomia, apresenta temperatura de 38,1 graus, frequência cardíaca de 96 bpm, leucócitos de 13.000 e proteína C reativa de 120 mg/L, com abdome pouco doloroso, sem taquipneia, sem hipotensão e com diurese adequada. Qual a interpretação mais provável?
Febre baixa, leucocitose discreta e elevação de marcadores inflamatórios nas primeiras 48 horas refletem a resposta metabólica ao trauma cirúrgico, deflagrada pela lesão tecidual, e não necessariamente infecção; o que orienta a conduta é a evolução dos parâmetros ao longo dos dias. Reoperar nesse ponto, sem disfunção nem foco identificado, expõe o paciente a risco desnecessário. Reação transfusional tardia cursa com hemólise e queda de hemoglobina. Tromboembolismo produz taquipneia, hipoxemia e dor pleurítica. Infecção profunda de sítio cirúrgico se manifesta mais tardiamente, geralmente a partir do quinto dia, com piora e não com estabilidade.
No paciente cirúrgico com resposta inflamatória sistêmica, qual marcador tende a ser mais útil para distinguir infecção bacteriana de resposta inflamatória estéril?
A procalcitonina sobe de forma mais específica na infecção bacteriana e sua cinética ajuda a distinguir infecção de inflamação estéril e a guiar a suspensão de antibiótico, sempre lida junto da evolução clínica e nunca isoladamente. A velocidade de hemossedimentação é lenta e inespecífica. Plaquetas caem em sepse, mas também em consumo, hemodiluição e drogas. A desidrogenase láctica reflete lesão celular difusa sem especificidade. Ferritina é reagente de fase aguda que sobe em qualquer inflamação. Nenhum marcador substitui o exame clínico seriado e a busca ativa do foco.
Qual é o esquema antimicrobiano empírico adequado para peritonite fecal comunitária?
A flora colônica é polimicrobiana e dominada por enterobactérias e anaeróbios, com destaque para Escherichia coli e Bacteroides fragilis, e o esquema empírico deve cobrir os dois grupos. Em infecção associada a cuidados de saúde, uso prévio de antimicrobianos ou gravidade extrema, amplia-se o espectro e se considera cobertura para enterococo e para leveduras, especialmente quando há perfuração de trato gastrointestinal alto ou imunossupressão. Dispensar o antimicrobiano após a cirurgia é erro grave, embora a duração deva ser curta quando o controle do foco é adequado, evitando cursos prolongados desnecessários.
Qual conjunto de medidas iniciais é prioritário no paciente com sepse de origem abdominal por peritonite fecal?
O pacote inicial da sepse é conhecido e sensível ao tempo: culturas antes do antimicrobiano quando isso não atrasa, antibiótico de amplo espectro na primeira hora, ressuscitação com cristaloide guiada por parâmetros de perfusão, vasopressor quando a pressão não responde e, sobretudo, controle do foco no menor tempo possível, já que cada hora de atraso piora a mortalidade. Corticoide tem papel restrito ao choque com necessidade elevada de vasopressor. Nutrição é importante, porém não pertence à primeira hora, e hemoderivados seguem indicações específicas e não precedem o antimicrobiano.
Paciente com queimadura de 50% da superfície corporal, no 9º dia de internação, apresenta piora clínica com hipotermia, intolerância à dieta enteral, hiperglicemia de difícil controle, plaquetopenia e confusão mental. A ferida apresenta mudança de coloração para tom escuro-esverdeado com conversão de áreas superficiais em profundas. A hipótese principal é:
No grande queimado, a sepse costuma se manifestar de forma atípica: hipotermia em vez de febre, intolerância alimentar, descontrole glicêmico e plaquetopenia, somados à conversão da ferida para maior profundidade e mudança de coloração. Atribuir tudo à resposta metabólica esperada engana e atrasa o controle do foco, que aqui é a própria ferida e exige desbridamento.
Paciente com sepse de foco abdominal recebe antibiotico empirico. Qual medida melhora o desfecho de forma mais consistente alem da escolha correta do antimicrobiano?
Nenhum antimicrobiano compensa um foco nao controlado: colecoes, abscessos, tecidos necroticos e dispositivos infectados precisam ser drenados ou removidos, e o atraso nesse controle e um dos principais determinantes de mortalidade na sepse abdominal. Dobrar a dose sem base farmacocinetica aumenta toxicidade, embora ajustes por peso, funcao renal e concentracao alvo sejam legitimos. Associar tres classes amplia efeitos adversos e resistencia sem ganho comprovado na maioria dos cenarios. Corticoide se reserva ao choque septico refratario a vasopressor. Trocar antibiotico a cada 48 horas por precaucao, sem dados clinicos ou microbiologicos, e conduta erratica que impede avaliar resposta.
Homem de 58 anos com peritonite por perfuração de alça permanece com pressão arterial média de 55 mmHg em uso de noradrenalina em dose elevada e vasopressina, com volume adequado e antibiótico de amplo espectro há 12 horas. Qual a medida mais importante nesse momento?
Sem controle da fonte, nenhuma amina e nenhum antibiótico revertem o choque distributivo, e a demora na abordagem cirúrgica é a causa mais frequente de refratariedade em foco abdominal. Escalonar as doses engana quem responde ao número da pressão, mas o vasopressor apenas compra tempo enquanto o pus continua alimentando a resposta inflamatória.
Em paciente com sepse de foco abdominal por coleção infectada, qual princípio deve orientar a conduta cirúrgica?
Controle de foco precoce e proporcional é o eixo da sepse cirúrgica: drena-se ou desvia-se o necessário para interromper a fonte, deixando reconstruções para um segundo tempo, quando o paciente estiver compensado — é a lógica da cirurgia de controle de danos. Esperar a estabilização completa antes de drenar é o erro que perpetua o choque, porque o paciente só estabiliza depois que a fonte é controlada.
Paciente crítico com choque séptico de foco abdominal e candidemia recebe expansão volêmica e noradrenalina. Sobre o controle do foco nesse cenário, qual afirmativa está correta?
Controle do foco é princípio da sepse e vale igualmente na infecção fúngica: coleções drenadas, tecido necrótico removido e dispositivos infectados retirados, porque nenhuma droga esteriliza pus sob pressão ou biofilme aderido a um cateter. Preservar o acesso venoso engana porque perder o cateter em paciente crítico realmente é um problema prático, mas o biofilme de Candida mantém a fungemia e a solução é obter novo acesso, não conviver com o foco. Adiar o controle por dias contraria a lógica de reduzir carga infecciosa o quanto antes.
Homem de 70 anos, sem internação recente e sem uso prévio de antimicrobianos, apresenta choque séptico por peritonite secundária a diverticulite perfurada adquirida na comunidade. Qual esquema empírico é adequado?
A peritonite secundária é polimicrobiana e exige cobertura simultânea de bacilos gram-negativos entéricos e anaeróbios, papel bem cumprido por um betalactâmico com inibidor de betalactamase ou pela associação de cefalosporina de terceira geração com metronidazol. Esquema de pneumonia comunitária é o distrator de quem escolhe antibiótico pela gravidade e não pelo foco. Oxacilina cobre estafilococo de pele, e cefazolina isolada tem espectro insuficiente para o abdome. Quinolona isolada deixa anaeróbio descoberto e tem resistência crescente entre enterobactérias. Antifúngico empírico fica reservado a perfuração de trato gastrointestinal alto, imunossupressão ou infecção associada a cuidados de saúde.
Tomografia de abdome de paciente em choque séptico revela abscesso intracavitário de 8 cm com perfuração de divertículo bloqueada. O paciente está em uso de antibiótico adequado há 6 horas e mantém necessidade de noradrenalina. Qual é a conduta?
Antimicrobiano não penetra coleção e não substitui o controle do foco: na sepse de origem abdominal com coleção drenável, a intervenção deve ocorrer o mais rápido possível, idealmente dentro das primeiras horas após o diagnóstico, pela via menos invasiva capaz de resolver. Esperar estabilização completa é o erro conceitual mais caro nesse cenário, porque o paciente só estabiliza depois que o foco é controlado. Trocar antibiótico sem drenar apenas amplia o espectro sobre um problema mecânico. Aguardar febre por dias ou negativação de cultura posterga a única medida que interrompe a fonte da inflamação.
Paciente com sepse por pielonefrite obstrutiva por cálculo ureteral apresenta febre, hipotensão e hidronefrose. Qual é a conduta além do antibiótico e do suporte?
A pielonefrite obstruída é uma emergência urológica: sem drenagem, o antibiótico não alcança adequadamente o sistema coletor infectado e o paciente evolui para choque, de modo que a desobstrução urgente por cateter ureteral ou nefrostomia é o controle de foco. Litotripsia em vigência de infecção é contraindicada e pode agravar a sepse, sendo o distrator que confunde tratamento do cálculo com tratamento da urgência. Aguardar eliminação espontânea ou tratar ambulatorialmente ignora a gravidade e retarda a única medida que resolve a obstrução.
Homem de 55 anos é internado com quadro de sepse abdominal por peritonite secundária a perfuração de víscera oca. Após a laparotomia com controle do foco, a equipe discute a antibioticoterapia. Considerando os princípios do tratamento da infecção intra-abdominal complicada, qual afirmação está correta?
Na infecção intra-abdominal complicada, o controle do foco é a intervenção decisiva, e o antibiótico é adjuvante, devendo ser ajustado por cultura e mantido por período curto após o controle adequado. Antibiótico não substitui a drenagem ou a correção cirúrgica do foco. Cursos prolongados de rotina aumentam toxicidade e resistência sem benefício. A escolha empírica depende do sítio da perfuração, da flora esperada e do perfil local de resistência.
Homem de 66 anos chega ao pronto-socorro com dor abdominal difusa, febre e confusão. Ao exame, temperatura axilar de 38,9 °C, frequência cardíaca de 126 bpm, pressão arterial de 84 x 50 mmHg, frequência respiratória de 28 irpm, abdome com defesa difusa e descompressão dolorosa. Lactato de 4,5 mmol/L e leucócitos de 24.000/mm³. A tomografia mostra pneumoperitônio e líquido livre difuso. Foram iniciados cristaloide e antibiótico de amplo espectro na primeira hora. A conduta subsequente prioritária é:
Na sepse de origem abdominal com perfuração e peritonite difusa, a antibioticoterapia e a ressuscitação são fundamentais, mas o determinante da sobrevida é o controle precoce do foco, que deve ocorrer o mais rápido possível, idealmente nas primeiras horas. Aguardar 24 horas de antibiótico mantém a fonte de contaminação ativa. Repetir tomografias em paciente com diagnóstico já estabelecido apenas atrasa a cirurgia. Suporte intensivo isolado, sem controle do foco, tem mortalidade muito elevada nesse cenário.
Homem de 58 anos chega ao pronto-socorro com dor abdominal difusa, febre e vômitos há 2 dias. Ao exame apresenta PA 82x48 mmHg, FC 132 bpm, FR 28 ipm, temperatura axilar 38,9 °C, confusão mental, abdome com defesa involuntária difusa e descompressão dolorosa, e extremidades frias. Os exames mostram lactato de 5,2 mmol/L, leucocitose de 24.000/mm³ e a tomografia evidencia pneumoperitônio com líquido livre difuso. Já foram colhidas culturas e iniciados cristaloide e antibiótico de amplo espectro. A conduta prioritária agora é:
Na sepse abdominal por perfuração, o controle cirúrgico do foco é intervenção com impacto direto na mortalidade e deve ocorrer o mais precocemente possível, em paralelo à ressuscitação, antibioticoterapia e suporte hemodinâmico. Esperar estabilização completa antes de operar é conceito ultrapassado, pois a fonte séptica mantém o choque. Adiar a cirurgia por 48 horas mantendo apenas antibiótico e vasopressor aumenta a mortalidade. Drenagem percutânea de líquido difuso por perfuração não substitui o controle cirúrgico da fonte.
Homem de 47 anos está no décimo dia de internação em unidade de queimados, com queimaduras em 45% da superfície corporal. Vinha estável, em dieta enteral plena. Nas últimas 24 horas apresentou intolerância à dieta com resíduo gástrico elevado, confusão mental nova, queda da diurese e necessidade crescente de volume. Temperatura de 35,4 °C, FC 138 bpm, FR 30 irpm, plaquetas em queda de 210.000 para 96.000/mm³ e glicemias em elevação apesar de dieta estável. As feridas mudaram de aspecto, com áreas escurecidas. Qual é a conduta adequada?
O grande queimado é sistemicamente inflamado desde o início, de modo que a sepse se manifesta por mudanças de tendência — hipotermia, intolerância à dieta, trombocitopenia, hiperglicemia, confusão e piora do aspecto da ferida — e não pelos critérios habituais: a conduta é coletar culturas, iniciar antimicrobiano de amplo espectro e reavaliar cirurgicamente o foco. Esperar febre alta atrasa o tratamento, pois a hipotermia é comum nesses pacientes. Atribuir tudo à resposta inflamatória esperada ignora a deterioração multissistêmica. Trocar a via nutricional não trata a infecção e a nutrição enteral deve ser preservada sempre que possível.
Uma mulher de 68 anos está internada em terapia intensiva há 12 dias após laparotomia por peritonite fecal, tendo sido submetida a duas reoperações com lavagem da cavidade. Mantém febre, leucocitose e disfunção orgânica, e as culturas do líquido peritoneal isolam Candida albicans e Enterococcus faecium resistente. A tomografia não mostra coleção drenável nem deiscência de anastomose. Ela permanece em ventilação mecânica, com noradrenalina em dose baixa, creatinina de 2,4 mg/dL e leucometria de 21.000, sem melhora após ajustes antimicrobianos. Qual é a caracterização correta desse quadro?
Infecção peritoneal persistente após tratamento adequado da peritonite secundária, com flora oportunista como fungos e enterococos resistentes e sem foco cirúrgico corrigível, define peritonite terciária, condição de alta mortalidade que exige suporte, ajuste antimicrobiano guiado e reavaliação criteriosa da indicação de reintervenção. Peritonite primária ocorre sem solução de continuidade do trato digestivo, tipicamente em cirróticos. Reoperar sem foco identificado costuma agravar o quadro. Ignorar o achado microbiológico diante de disfunção orgânica é conduta inadequada.
Um homem de 62 anos chega ao pronto-socorro com dor abdominal difusa, vômitos e febre há 12 horas. Está com pressão arterial de 82x48 mmHg, frequência cardíaca de 126 bpm, frequência respiratória de 28 irpm, confuso, com lactato de 4,8 mmol/L e abdome em tábua. A radiografia mostra pneumoperitônio volumoso. O acesso venoso foi obtido e as culturas foram colhidas. Ele é hipertenso, usa anti-inflamatórios com frequência para dor articular e tem dispepsia crônica de longa data, nunca investigada por endoscopia. Qual é a sequência correta de condutas?
Na sepse de foco abdominal com pneumoperitônio, o pacote da primeira hora inclui ressuscitação volêmica, coleta de culturas e antibiótico de amplo espectro, seguidos do controle cirúrgico do foco o mais precocemente possível, pois o atraso na cirurgia é determinante independente de mortalidade. Esperar a normalização de lactato e pressão sem controlar o foco perpetua o choque. Realizar tomografia antes das medidas iniciais atrasa terapias tempo-dependentes, sobretudo com diagnóstico já estabelecido pela radiografia. Vasopressor isolado sem cirurgia não resolve a fonte da sepse.
Mulher, 37 anos, com quadro de dor abdominal, febre e vômitos há 3 dias, evoluindo com hipotensão. PA 86/50 mmHg, FC 128 bpm, FR 28 ipm, T 39,0 °C, SatO2 94%. Abdome doloroso difusamente com defesa. Lactato 3,6 mmol/L (VR < 2,0); leucócitos 19.000/mm³ (VR 4.000–11.000); creatinina 1,9 mg/dL (VR 0,6–1,1). Tomografia: coleção intracavitária de 8 cm com bolhas de gás e espessamento de alça. Quais as medidas iniciais prioritárias na primeira hora?
No choque séptico de foco abdominal, o pacote da primeira hora inclui coleta de hemoculturas antes do antibiótico, administração precoce de antimicrobiano de amplo espectro, ressuscitação volêmica com cristaloide e medida do lactato, além do planejamento do controle do foco, que aqui é a coleção com gás. Antibiótico oral com reavaliação em 24 horas é inadequado diante de hipotensão e hiperlactatemia. Corticoide em dose alta não é medida principal, ficando reservado ao choque refratário a volume e vasopressor. A transfusão é guiada por limiar de hemoglobina e não faz parte das medidas iniciais indiscriminadas. Coloides sintéticos aumentam lesão renal e mortalidade em sepse, e o cristaloide é o fluido de escolha.
Mulher, 27 anos, com dor abdominal difusa e febre há 3 dias, apresenta piora com vômitos e distensão. PA 96/58 mmHg, FC 122 bpm, T 38,9 °C. Está no décimo quinto dia de pós-operatório de cesariana. O abdome apresenta defesa difusa com descompressão dolorosa. Leucócitos 21.000/mm³ (VR 4.000–11.000). A tomografia mostra coleções múltiplas interalças, com bolhas de gás, líquido livre difuso e alças com paredes espessadas, sem janela segura para punção percutânea das coleções. Qual a conduta indicada?
Peritonite difusa com coleções múltiplas interalças, gás e ausência de janela segura para punção, em paciente séptica, tem indicação de laparotomia com lavagem, drenagem e controle da fonte infecciosa. A antibioticoterapia isolada não drena coleções múltiplas nem controla o foco. Forçar a punção percutânea sem janela segura acarreta risco elevado de lesão de alça e de fístula. Observar por 72 horas em paciente com sinais de sepse e peritonite difusa retarda o controle do foco e aumenta a mortalidade. A paracentese de alívio remove líquido, mas não trata coleções organizadas nem a fonte da contaminação.
Mulher, 58 anos, submetida a colectomia por diverticulite perfurada há 5 dias, com drenagem adequada da cavidade e controle do foco confirmado por tomografia. Encontra-se afebril há 48 horas, sem leucocitose, alimentando-se por via oral e sem necessidade de droga vasoativa. PA 124x76 mmHg, FC 76 bpm, T 36,5 °C. Recebe antimicrobiano endovenoso desde a operação. Sobre a duração da antibioticoterapia na infecção intra-abdominal, é correto afirmar que:
É correto que um curso curto, da ordem de quatro dias após o controle adequado do foco, é suficiente: ensaios clínicos mostraram equivalência entre esquema fixo curto e tratamento guiado pela resolução dos sinais inflamatórios, com menos exposição a resistência. Manter até a alta transforma tempo de internação em critério biológico, o que não se sustenta. Exigir 21 dias em toda peritonite secundária é excesso sem respaldo. Condicionar a suspensão a três hemoculturas negativas confunde bacteremia com infecção de sítio. Afirmar que o tempo independe do controle do foco contraria o princípio de que sem drenagem nenhum esquema funciona.
Homem, 64 anos, submetido a três laparotomias por peritonite fecal, mantém-se em terapia intensiva com noradrenalina em dose crescente, febre de 38,7 °C e leucócitos de 22.100/mm³ (VR 4.000–11.000). A tomografia realizada hoje mostra coleção organizada de 8 cm no espaço subfrênico esquerdo, acessível por via percutânea, e nenhuma outra alteração. PA 94x56 mmHg com droga, FC 116 bpm, lactato 3,4 mmol/L (VR até 2,0). Qual a conduta indicada?
A drenagem percutânea guiada por imagem é a conduta indicada: existe um foco único, organizado e acessível, e a estratégia atual de controle de foco privilegia a via menos invasiva capaz de resolvê-lo, especialmente em paciente instável. A relaparotomia programada em intervalos fixos não demonstrou superioridade sobre a reoperação por demanda e aumenta complicações. Trocar apenas o antimicrobiano sem drenar deixa o foco intacto. Aguardar 72 horas em paciente com dose crescente de vasopressor retarda um controle inadiável. A laparostomia sem abordar a coleção não resolve a fonte da sepse.
Homem, 63 anos, apresenta dor abdominal difusa há 18 horas, com piora progressiva, vômitos e febre. PA 88x52 mmHg, FC 126 bpm, FR 28 ipm, T 38,9 graus Celsius. O abdome está em tábua, com descompressão brusca dolorosa generalizada e ruídos hidroaéreos ausentes. Lactato 4,2 mmol/L (VR 0,5-2,2); leucócitos 23.000/mm3 (VR 4.000-11.000). A tomografia mostra pneumoperitônio e líquido livre difuso. Qual a conduta prioritária?
A ressuscitação com antibiótico precoce seguida de laparotomia para controle do foco é a prioridade na peritonite secundária com sepse, evidenciada por abdome em tábua, pneumoperitônio, hipotensão e hiperlactatemia. A antibioticoterapia isolada não controla contaminação contínua da cavidade e permite progressão para choque refratário. A drenagem percutânea é adequada para abscessos localizados, não para peritonite difusa por perfuração. A nutrição parenteral com jejum não trata a origem do quadro. A colonoscopia na vigência de perfuração agrava a contaminação por insuflação e é formalmente contraindicada.
Mulher, 66 anos, admitida com dor abdominal e febre há 2 dias, apresenta PA 82x48 mmHg, FC 128 bpm, FR 30 ipm, T 39,2 graus Celsius, SatO2 93%. Está sonolenta, com abdome doloroso difusamente. Lactato 4,6 mmol/L (VR 0,5-2,2); leucócitos 24.000/mm3 (VR 4.000-11.000); creatinina 2,1 mg/dL (VR 0,6-1,3). A tomografia identifica coleção intra-abdominal com gás de permeio. Sobre o manejo inicial, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação de que a antibioticoterapia deve aguardar as culturas é incorreta e responde à questão, pois no choque séptico cada hora de atraso aumenta a mortalidade, devendo o antimicrobiano ser administrado na primeira hora. A coleta de hemoculturas antes do antibiótico, quando não atrasa o tratamento, é recomendação correta. A ressuscitação volêmica precoce com cristaloide é pilar do manejo inicial. O controle do foco, aqui uma coleção com gás, deve ocorrer tão logo o doente permita. A reavaliação do lactato como marcador de resposta à ressuscitação também é conduta correta.
Homem, 43 anos, admitido 20 horas após ferimento abdominal por arma branca, com peritonite difusa. Submetido a laparotomia, encontra-se perfuração de íleo com peritonite purulenta generalizada e fibrina em toda a cavidade. Está com PA 96/58 mmHg, FC 126 bpm, T 38,9 °C, leucócitos de 22.000/mm3 (VR 4.000–11.000) e lactato de 3,6 mmol/L (VR 0,5–2,2). Qual a conduta indicada quanto à antibioticoterapia?
Na peritonite secundária estabelecida com controle adequado do foco, o tratamento antibiótico curto, de quatro a sete dias, é o padrão atual, conforme demonstrado em ensaios que compararam esquemas fixos e prolongados. Manter apenas profilaxia de 24 horas é insuficiente diante de infecção intra-abdominal instalada. Prolongar por 21 dias sem critério clínico seleciona resistência e aumenta eventos adversos. Dose única pré-operatória cabe a cirurgia limpa ou contaminação mínima. Aguardar cultura para iniciar antibiótico em paciente séptico é conduta inaceitável.
Homem, 58 anos, com diverticulite complicada e peritonite purulenta difusa, apresenta-se séptico. Exame: T 38,8 °C, FC 128 bpm, PA 86x50 mmHg após 2.000 mL de cristaloide, FR 30 ipm, abdome em tábua com descompressão dolorosa difusa. Lactato de 4,8 mmol/L; leucócitos de 22.000/mm³. Tomografia mostra pneumoperitônio e líquido livre em todos os quadrantes, sem coleção única passível de drenagem percutânea. Qual a conduta prioritária?
Peritonite difusa com pneumoperitônio e sepse com hipoperfusão exige controle cirúrgico do foco em caráter de urgência, realizado em paralelo à ressuscitação volêmica, ao vasopressor quando necessário e à antibioticoterapia de amplo espectro precoce, pois o atraso do controle de foco é determinante independente de mortalidade. A antibioticoterapia isolada não resolve contaminação difusa da cavidade. A drenagem percutânea é adequada para coleções únicas e bem delimitadas, expressamente ausentes. A colonoscopia em peritonite com perfuração é contraindicada, pois a insuflação agrava a contaminação. Aguardar 48 horas de estabilização em paciente séptico com foco não controlado é conduta associada a mortalidade elevada.
Homem, 52 anos, submetido a cirurgia por peritonite secundária a perfuração de sigmoide, com controle de foco adequado. No quarto dia de pós-operatório está afebril há 48 horas. Exame: FC 78 bpm, PA 126x78 mmHg, FR 16 ipm, abdome flácido e indolor, ruídos hidroaéreos presentes, ferida limpa. Leucócitos normalizaram para 9.200/mm³; tolerando dieta oral e sem sinais de coleção residual à imagem. Qual a conduta correta quanto à antibioticoterapia?
Com controle de foco adequado e resolução dos sinais clínicos e laboratoriais de infecção, cursos curtos de antibiótico, em torno de quatro dias após o controle da fonte, mostraram-se equivalentes a cursos prolongados na infecção intra-abdominal complicada, reduzindo exposição, resistência e efeitos adversos. Manter 21 dias independentemente da evolução contraria a evidência e amplia a toxicidade. Trocar para espectro mais amplo em paciente que evolui bem é escalonamento injustificado. Condicionar a suspensão à normalização das imagens é erro conceitual, pois alterações radiológicas residuais persistem além da resolução clínica. O antifúngico profilático não é indicado em peritonite secundária comunitária sem fatores de risco específicos.
Mulher, 62 anos, no quarto dia após laparotomia por peritonite, mantém febre, taquicardia e necessidade crescente de vasopressor, apesar de antibiótico de amplo espectro adequado e das culturas iniciais dirigidas. Exame: T 38,7 °C, FC 124 bpm, PA 88x52 mmHg com noradrenalina em elevação, abdome distendido e doloroso. Leucócitos em ascensão; lactato de 4,0 mmol/L; tomografia mostra coleções múltiplas não drenadas. Qual a conduta mais adequada?
Falha na resolução da sepse abdominal, com deterioração hemodinâmica e coleções não drenadas à imagem, indica controle inadequado do foco, e nenhuma escolha antimicrobiana compensa a permanência de material infectado não drenado; a conduta é reabordagem cirúrgica ou drenagem percutânea conforme a anatomia das coleções. Manter o mesmo esquema com reavaliação tardia perpetua a sepse. Ampliar o espectro antimicrobiano sem abordar o foco não corrige a causa da falha. O corticoide em dose alta não substitui o controle do foco e pode ser considerado apenas como adjuvante no choque refratário. Suspender antimicrobianos em paciente séptica para colher culturas é conduta perigosa e inaceitável nesse contexto.
Homem, 59 anos, submetido a três laparotomias por peritonite secundária a perfuração colônica, mantém febre e disfunção orgânica após 18 dias de internação em terapia intensiva. Exame: T 38,2 °C, FC 112 bpm, PA 100x58 mmHg com noradrenalina, abdome com peristalse ausente. Culturas do líquido peritoneal isolam Enterococcus faecium e Candida albicans; tomografia sem coleções volumosas passíveis de drenagem. Qual a interpretação e a conduta mais adequadas?
Peritonite persistente ou recorrente após tratamento aparentemente adequado da peritonite secundária, em paciente crítico, com isolamento de germes de baixa virulência e oportunistas como enterococo e Candida, caracteriza peritonite terciária, associada a disfunção imunológica e alta mortalidade; o manejo combina cobertura antimicrobiana ajustada às culturas, incluindo antifúngico, suporte intensivo, otimização nutricional e reavaliação sistemática do controle do foco. Considerar contaminação e suspender antimicrobianos em paciente séptico é conduta perigosa. Tratar como peritonite secundária clássica apenas ampliando gram-negativos ignora o perfil microbiológico apresentado. Interpretar como infecção comunitária tardia com alta precoce é incompatível com disfunção orgânica em curso. Rotular como colonização sem repercussão contraria a febre e a necessidade de vasopressor.
Mulher, 63 anos, submetida a laparotomia por perfuração de sigmoide com peritonite fecal, encontra-se no segundo dia de pós-operatório em terapia intensiva. PA 112x68 mmHg sem vasopressor, FC 92 bpm, T 37,6 °C; abdome com dreno funcionante e ferida limpa. Leucócitos em queda, de 24.000 para 14.000/mm³; culturas do líquido peritoneal com Escherichia coli sensível. Qual a duração adequada da antibioticoterapia?
Após o controle adequado do foco na peritonite secundária, ensaios clínicos demonstraram que um curso curto de antibiótico, em torno de quatro a sete dias, tem eficácia equivalente a esquemas prolongados, com menor seleção de resistência. Guiar a duração pela normalização de todos os marcadores prolonga o tratamento sem benefício. Vinte e um dias são desnecessários na maioria dos casos. Suspender imediatamente após a cirurgia é insuficiente diante de contaminação fecal estabelecida. Vincular a duração à retirada dos drenos não tem respaldo em evidência.
Se há peritonite difusa e choque, qual fator torna inadequado escolher apenas observação de uma pequena coleção?

O estado fisiológico e a extensão da contaminação pesam mais que um tamanho isolado para decidir urgência do controle do foco.
Qual sinal indica possível hipoperfusão renal?

Redução da diurese durante choque exige avaliação de perfusão e função renal.
Por que antibiótico isolado pode ser insuficiente?

O tratamento deve incluir suporte e hemostasia/foco conforme o caso; fonte persistente pode impedir resolução com fármaco isolado.
Qual achado tomográfico indica perda de integridade da anastomose?

Saída de contraste do lúmen no local é um sinal direto de vazamento.
Qual interpretação une a deterioração sistêmica à tomografia?

Extravasamento junto à anastomose e deterioração sugerem deiscência com contaminação e necessidade de controle do foco.
Paciente com choque séptico abdominal necessita vasopressor, mas a obtenção de acesso venoso central está demorando. Há acesso periférico funcionante e equipe capaz de monitorar a infusão. Segundo a SSC de 2026, qual conduta é adequada?
A decisão exige protocolo local, avaliação do acesso e monitorização. A diretriz de 2026 não estabelece um único limite universal de duração, dose ou localização para todos os pacientes. Referências: SCCM/ESICM. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock, 2026 — https://www.sccm.org/clinical-resources/guidelines/guidelines/surviving-sepsis-campaign-international-guidelines-for-management-of-sepsis-and-septic-shock-2026
No tratamento de um adulto com sepse cirúrgica, é proposta vitamina C intravenosa em alta dose como adjuvante rotineiro para melhorar desfechos. Não há deficiência nutricional específica em discussão. Qual posição corresponde à SSC de 2026?
A recomendação trata da intervenção como terapia da sepse. Ela não elimina a avaliação nutricional e o tratamento de deficiências quando houver indicação própria. Referências: SCCM/ESICM. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock, 2026 — https://www.sccm.org/clinical-resources/guidelines/guidelines/surviving-sepsis-campaign-international-guidelines-for-management-of-sepsis-and-septic-shock-2026
Paciente no pós-operatório apresenta infecção suspeita e nova disfunção renal, mas qSOFA de zero. Um profissional propõe descartar sepse exclusivamente pelo escore. Segundo a Surviving Sepsis Campaign de 2026, como avaliar essa proposta?
A diretriz prefere outras ferramentas de triagem ao qSOFA isolado e reforça o caráter clínico do diagnóstico. Um resultado baixo não deve bloquear investigação e tratamento indicados. Referências: SCCM/ESICM. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock, 2026 — https://www.sccm.org/clinical-resources/guidelines/guidelines/surviving-sepsis-campaign-international-guidelines-for-management-of-sepsis-and-septic-shock-2026
Adulto com sepse apresenta febre, mas está confortável e não tem indicação neurológica ou outra necessidade específica de controle de temperatura. Propõe-se resfriamento e antitérmico exclusivamente para melhorar sobrevida. Segundo a SSC de 2026, qual orientação é adequada?
A SSC sugere contra terapia antitérmica apenas para melhorar desfechos clínicos. A ressalva inclui controle de sintomas e situações com indicação específica de manejo da temperatura. Referências: SCCM/ESICM. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock, 2026 — https://www.sccm.org/clinical-resources/guidelines/guidelines/surviving-sepsis-campaign-international-guidelines-for-management-of-sepsis-and-septic-shock-2026
Paciente com provável choque séptico de foco abdominal aguarda resultado de procalcitonina. A equipe já colheu culturas sem atraso relevante. Segundo a SSC de 2026, qual decisão sobre o início do antimicrobiano é adequada?
O uso de procalcitonina para ajudar a decidir interrupção em situações selecionadas não equivale a exigir seu resultado para iniciar antimicrobianos. Referências: SCCM/ESICM. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock, 2026 — https://www.sccm.org/clinical-resources/guidelines/guidelines/surviving-sepsis-campaign-international-guidelines-for-management-of-sepsis-and-septic-shock-2026
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Controle do foco = drenar, desbridar e retirar dispositivo, descomprimir, restaurar. Meta de 6 a 12 horas depois do diagnóstico; alvo de 6 no choque com fonte contínua. Coleção acima de 4 a 5 cm, única, líquida, com janela e sem fonte contínua: dreno percutâneo. Múltipla, espessa, sem janela, com peritonite difusa ou instabilidade: cirurgia. Colangite: no grau leve, drenagem se não houver resposta nas primeiras 24 horas; no moderado, drenagem precoce dentro de 24 horas; no grave, drenagem de emergência assim que estabilizar. Fasciíte: diagnóstico clínico, sala imediata, LRINEC baixo não afasta. Antimicrobiano após controle adequado: cerca de 4 dias (3 a 5), e o relógio só começa com o foco controlado.
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