Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Distúrbios hidroeletrolíticos no cirúrgico: o piloro divide o distúrbio

Distúrbios hidroeletrolíticos e acidobásicos no cirúrgico

Hiponatremia, calemia e a escolha entre salina e balanceada têm capítulo próprio em Clínica Médica. O que é de cirurgia — e quase ninguém estuda — é que o paciente não perde 'eletrólito': ele perde um líquido com composição conhecida, por um orifício conhecido. Suco gástrico é ácido clorídrico e dá alcalose; tudo o que sai abaixo do piloro é rico em bicarbonato e dá acidose. Em cima dessa divisão se organizam a sonda de alto débito, a fístula, a ileostomia, o terceiro espaço que não conta na balança e a hiponatremia que a própria prescrição de pós-operatório fabrica.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Terceiro dia de pós-operatório de gastrectomia. Paciente em jejum, recebendo 3.000 mL/dia de soro glicosado a 5%, com dor controlada por morfina e náusea intermitente. Sódio de 128 mEq/L, sem edema, sem sinais de hipovolemia, diurese de 1.100 mL/dia. Qual a explicação mais provável e a conduta inicial?

02

Como esse tema cai

Este capítulo não repete os distúrbios eletrolíticos que já têm capítulo próprio nesta coleção. Hiponatremia e sua correção, hipo e hipercalemia, cálcio, magnésio e fósforo, e a escolha entre salina e solução balanceada na expansão são assunto de Clínica Médica e estão lá. O que sobra — e é o que a banca cobra de cirurgia — é a pergunta que nenhum deles responde: o paciente cirúrgico não perde eletrólito no abstrato, ele perde um líquido específico, por um orifício específico, com uma composição conhecida. Repor sem saber o que saiu é a origem da maior parte dos distúrbios que aparecem na visita da manhã.

A régua de organização é anatômica e cabe numa frase: o piloro divide o distúrbio. Perda intensa acima dele leva a alcalose metabólica hipoclorêmica, porque o que se perde é ácido clorídrico. Perda de secreções distais ao piloro leva ao contrário, acidose metabólica, porque bile, suco pancreático e conteúdo do delgado são ricos em bicarbonato. Sonda nasogástrica de alto débito, ileostomia, fístula, dreno e vômito de obstrução alta se organizam todos por essa divisão — e a conduta muda de lado com ela.

A régua brasileira aqui é mista. A composição dos líquidos digestivos e a noção de terceiro espaço vêm da literatura acadêmica nacional de cirurgia; a definição de débito da fístula vem do Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira com o Conselho Federal de Medicina; o volume de cristaloide no perioperatório é do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, pela Diretriz acerto; e o que existe para prescrever está na Rename 2024, toda no Componente Básico da Assistência Farmacêutica. A régua de débito da ostomia é a exceção: ela é estrangeira, e o capítulo diz isso onde ela aparece.

03

O que muda decisão

Oito litros por dia atravessam a luz — e você só vê os 150 mL das fezes

O tubo digestivo do adulto secreta, em 24 horas, cerca de oito litros de líquido: 1,5 L de saliva, 2,5 L de suco gástrico, 500 mL de bile, 700 mL de suco pancreático e 3 L de secreção intestinal, somando 8,2 L. Desse volume, apenas 100 a 200 mL saem nas fezes. A diferença — praticamente oito litros por dia — é reabsorvida ao longo do intestino, e é essa reabsorção silenciosa que mantém o balanço de quem come e evacua normalmente.

A consequência prática é a razão de ser deste capítulo. Qualquer coisa que interrompa a reabsorção, ou que desvie o líquido para fora antes que ele seja reabsorvido, coloca em risco um volume que é maior que o extracelular inteiro. Perdas digestivas extraordinárias podem chegar a mais de seis litros por dia — o suficiente para desidratar um adulto em horas — em cenários que a prova adora: diarreia profusa, fístula digestiva, vômito, aspiração por sonda nasogástrica, íleo adinâmico e obstrução intestinal.

Note o item mais traiçoeiro dessa lista: o íleo adinâmico e a obstrução não fazem o líquido sair do corpo. Ele fica na luz intestinal, estagnado, e do ponto de vista da circulação isso é indistinguível de tê-lo perdido — é perda interna de líquido isotônico. O paciente com abdome distendido e sem drenagem nenhuma pode estar tão hipovolêmico quanto o que vomitou três litros; a diferença é que o primeiro não tem nada para você medir na bolsa.

O piloro divide o distúrbio: cloreto acima, bicarbonato abaixo

Cada secreção digestiva tem uma composição própria, e é ela que determina o distúrbio. O suco gástrico é o único ácido: cerca de 60 mEq/L de sódio, 10 de potássio, 100 de cloreto e apenas 8 de bicarbonato. É pobre em base e riquíssimo em cloreto — porque o que ele contém, e a tabela não mostra, é hidrogênio. Perder suco gástrico em quantidade é perder ácido clorídrico, e o resultado é alcalose metabólica hipoclorêmica.

Abaixo do piloro tudo se inverte. A bile tem 146 mEq/L de sódio e 40 de bicarbonato; o suco pancreático tem 140 de sódio e é a secreção mais alcalina do corpo; o conteúdo do delgado fica em torno de 110 de sódio com 30 de bicarbonato, e a secreção ileal em 120 de sódio, 15 de potássio, 105 de cloreto e 20 de bicarbonato. Perder qualquer uma delas em volume é perder base — e o resultado é acidose metabólica.

Daí a régua que resolve metade das questões do tema sem nenhuma conta: identifique o orifício. Vômito de estenose pilórica, sonda nasogástrica de alto débito, obstrução alta — alcalose, e o cloreto e o potássio caem junto. Fístula duodenal, biliar ou pancreática, ileostomia de alto débito, drenagem de delgado, diarreia de intestino curto — acidose, e o bicarbonato cai. Uma fístula colônica alta ou uma ileostomia proximal drenam o suficiente para acidificar; uma colostomia distal, quase nunca.

Duas ressalvas honestas antes de decorar. A tabela de composição é um mapa de ordem de grandeza, não uma razão estequiométrica: os valores foram compilados de estados de secreção diferentes e a linha do pâncreas, por exemplo, traz cloreto e bicarbonato que na fisiologia variam em sentido inverso e não coexistem numa amostra. E o sódio é o menos discriminante dos quatro: com exceção da saliva e do conteúdo cecal, todas as secreções trazem sódio entre 110 e 146 mEq/L, ou seja, próximo ao do plasma. Por isso a perda digestiva é, em regra, uma perda isotônica de volume — o que separa uma da outra é o cloreto e o bicarbonato, não o sódio.

Tubo digestivo estilizado dividido ao meio por uma linha vertical no piloro; à esquerda, uma seta de saída do estômago com três pontos cheios; à direita, uma seta de saída do intestino com três anéis vazados, espelhando a primeira.
O piloro divide o distúrbio: a perda de um lado leva embora ácido e cloreto, e a do outro leva embora bicarbonato. O mesmo volume perdido produz alcalose acima e acidose abaixo.

A alcalose do adulto cirúrgico: sonda de alto débito e obstrução alta

O cenário clássico é a estenose pilórica do adulto — por úlcera péptica pré-pilórica ou duodenal cicatrizada — e o seu equivalente moderno, a sonda nasogástrica que drena 1,5 a 2 litros por dia num paciente obstruído. O laboratório é sempre o mesmo tripé: bicarbonato alto, cloreto baixo, potássio baixo. O cloreto cai porque saiu pela sonda; o potássio cai por duas vias somadas, a perda direta no suco gástrico e o hiperaldosteronismo secundário à hipovolemia, que troca sódio por potássio e por hidrogênio no túbulo.

É por isso que a alcalose do cirúrgico é chamada de salino-responsiva, e é por isso que o tratamento não tem nada de sofisticado: solução salina isotônica com cloreto de potássio. Repor o volume desliga a aldosterona; repor o cloreto devolve ao rim o ânion de que ele precisa para excretar bicarbonato. Sem cloreto, o rim não consegue eliminar o excesso de base por mais volume que receba — o cloreto é o reagente limitante da correção, e essa é a frase que a questão quer ver.

Duas armadilhas de conduta moram aqui. A primeira é prescrever bicarbonato ou acetazolamida para um paciente alcalótico e hipovolêmico: o problema não é falta de ácido, é falta de cloreto e de volume. A segunda é corrigir o potássio sem corrigir o cloreto — a hipocalemia da alcalose é refratária enquanto o cloreto estiver baixo, porque o túbulo continua trocando potássio por sódio para reter volume. O exame que separa a alcalose que responde a salina da que não responde é o cloreto urinário, e não o sódio urinário: na alcalose por vômito, a bicarbonatúria arrasta sódio junto e o sódio urinário mente sobre o estado de volume.

A criança com estenose hipertrófica de piloro é a mesma fisiologia, com a acidúria paradoxal como pergunta favorita — e tem capítulo próprio na apostila de Cirurgia Pediátrica. No adulto, a diferença é que a obstrução alta quase nunca é uma emergência cirúrgica imediata: corrigir o distúrbio vem antes de operar, porque a alcalose grave deprime o estímulo ventilatório e aumenta o risco anestésico.

Terceiro espaço: a perda que não sai do corpo e não conta na balança

Terceiro espaço é o nome dado a um sequestro interno de água, eletrólitos e proteína, isotônico com o plasma ou ligeiramente hipotônico, que se forma na área traumática ou cirúrgica: edema do peritônio e do mesentério, ascite, derrame pleural, sucos digestivos estagnados nas alças. Ele pode corresponder a vários litros — na peritonite generalizada por úlcera perfurada, na pancreatite aguda, na obstrução intestinal e nas grandes dissecções.

A propriedade que importa é esta: o líquido sequestrado não participa das trocas e não tem valor volêmico. Ele está dentro do paciente, entra no peso, entra no balanço hídrico como se estivesse retido — e ainda assim o paciente está hipovolêmico. Um balanço acumulado positivo de quatro litros pode conviver com oligúria e taquicardia, e um raciocínio que confie apenas no balanço vai concluir, erradamente, que o paciente está hiperidratado e vai restringir líquido em quem está com o intravascular vazio.

A segunda metade da história é a que derruba mais gente na enfermaria: o terceiro espaço é provisório. Quando o paciente estabiliza e o espaço regride, o líquido sequestrado volta para a circulação numa auto-infusão que ninguém prescreveu. Se a função renal não der conta de eliminá-lo, ele vira edema intersticial e pode chegar a insuficiência respiratória. O paciente que precisou de volume no primeiro dia é o mesmo que, no terceiro, precisa que você Pare — e reconhecer a virada é um item de prova, não um detalhe de rotina.

A água que o pós-operatório retém sozinho

A resposta orgânica ao trauma cirúrgico inclui, obrigatoriamente, liberação de hormônio antidiurético e de aldosterona: a queda do volume extracelular efetivo estimula renina, angiotensina e aldosterona por um lado, e a queda de pressão no átrio esquerdo estimula o hormônio antidiurético por outro. O resultado combinado é retenção de água e de sódio, e é uma resposta útil — ela restabelece a volemia. Mas ela não desliga porque a osmolalidade está normal: o estímulo aqui é de volume, não de tonicidade, e a dor, a náusea, o vômito e o opioide o mantêm ligado por dias.

Junte isso à prescrição e você tem a hiponatremia mais comum do hospital, que é iatrogênica. Soro glicosado a 5% é água livre: a glicose é metabolizada e sobra água destilada. Prescrito em volume a um paciente cujo hormônio antidiurético está ligado por motivo cirúrgico, ele não sai — fica, e dilui. O sódio de 128 do terceiro dia de pós-operatório raramente é uma doença nova; na maioria das vezes é a soma de um estímulo antidiurético fisiológico com um líquido de manutenção hipotônico.

A leitura da conduta segue daí, e é contraintuitiva. Nesse paciente, a resposta certa quase nunca é dar mais água ou salina hipertônica: é parar o hipotônico e deixar a diurese aquosa acontecer quando o estímulo desligar. E há uma consequência inversa que a banca também explora: assim que a causa da retenção se resolve — a dor é controlada, o volume é restaurado, o vômito cessa —, o hormônio antidiurético desliga e o sódio pode subir depressa demais sozinho. A correção da hiponatremia e os seus limites de velocidade são assunto do capítulo de Distúrbios do sódio; aqui o que se cobra é reconhecer a causa cirúrgica e não fabricá-la.

Ostomia e fístula: quanto sai, o que sai, e por que beber água piora

Na fístula digestiva, o Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira com o Conselho Federal de Medicina fixa a régua brasileira em duas faixas: baixo débito abaixo de 500 mL por dia, alto débito acima de 500 mL. A esmagadora maioria das fístulas nasce de deiscência de anastomose — cerca de 80% —, entre o 4º e o 10º dia de pós-operatório. E as três causas de morte listadas pelo documento dizem em que ordem pensar: desnutrição, desequilíbrio hidroeletrolítico e sepse. O documento é explícito ao chamar de imperativo o controle diário de três coisas juntas: o débito da fístula, o débito urinário e os eletrólitos.

Na ileostomia a régua é estrangeira, porque não há documento nacional que a fixe. O débito habitual de uma ileostomia fica entre 500 e 1000 mL/dia; acima disso as definições divergem e estão no bloco de divergências. O que não divergem são as consequências: o paciente perde por dia 90 a 120 mEq de sódio e 10 a 20 mEq de potássio pelo estoma, entre 30% e 71% dos que desenvolvem alto débito evoluem com insuficiência renal aguda por desidratação, e a janela de maior risco é entre o 3º e o 8º dia de pós-operatório — exatamente quando o paciente já foi de alta ou está de saída.

Daí a orientação mais contraintuitiva do capítulo, e a que mais aparece em questão de conduta: no alto débito de ostomia, restringe-se a ingestão de líquido, para 500 a 1000 mL por dia, e proíbe-se justamente o que o senso comum manda oferecer — água pura, chá, café e suco de fruta. Bebida hipotônica no intestino curto puxa sódio do plasma para a luz e aumenta o débito; quem repõe com água piora a hiponatremia que estava tentando tratar. O líquido oferecido tem de ser uma solução de reidratação com sódio e glicose, que é o sal para reidratação oral que a Rename lista no Componente Básico, e não água.

O restante do arsenal segue a mesma lógica de reduzir o volume que passa: loperamida antes das refeições e à noite, e inibidor de bomba de prótons para diminuir o volume de secreção gástrica que chega ao estoma. E vale a nota de micronutriente que a diretriz brasileira registra: fístula de alto débito proximal ao íleo exige vitamina B12 por via parenteral, porque o sítio de absorção ficou fora do trânsito.

O que existe para prescrever: a farmácia do SUS em miliequivalentes

A Rename 2024 lista, todas no Componente Básico da Assistência Farmacêutica, as soluções com que este capítulo se resolve. Salina isotônica, cloreto de sódio 9 mg/mL (0,9%), equivalente a 0,154 mEq/mL — ou seja, 154 mEq de sódio e 154 de cloreto por litro. Cloreto de sódio 20%, 200 mg/mL, equivalente a 3,4 mEq/mL, que é o concentrado de onde se acrescenta sódio. Cloreto de potássio 19,1%, 191 mg/mL, equivalente a 2,56 mEq/mL. Bicarbonato de sódio 8,4%, 84 mg/mL, equivalente a 1 mEq/mL. Sulfato de magnésio a 10% (0,81 mEq/mL) e a 50% (4,05 mEq/mL). Glicose a 5%, 10% e 50%. E o sal para reidratação oral.

Vale entender de onde vêm esses rótulos, porque a prova gosta de pedir a conta. O bicarbonato é apresentado a 8,4% precisamente porque essa concentração é molar: 84 mg de bicarbonato de sódio dividido pela sua massa molar de 84 dá 1 mmol, e como o sódio é monovalente, 1 mEq por mililitro. Pela mesma aritmética, 191 dividido por 74,55 dá 2,56, e 200 dividido por 58,44 dá 3,42. Quem sabe a massa molar não precisa decorar o miliequivalente.

A solução ringer + lactato é o caso em que a Rename descreve o produto por massa de cada sal — lactato de sódio 3 mg/mL, cloreto de sódio 6 mg/mL, cloreto de potássio 0,3 mg/mL e cloreto de cálcio 0,2 mg/mL. Convertidos, esses quatro sais dão sódio de aproximadamente 130 mEq/L, potássio 4, cálcio 2,7, cloreto 109 e lactato 27 — o rótulo clássico do ringer lactato, com cloreto dentro da faixa do plasma. A comparação entre ele e a salina, e o que os ensaios brasileiros e internacionais dizem sobre a escolha, é assunto do capítulo de Reposição volêmica e fluidoterapia.

Uma observação de segurança que atravessa toda a lista: nenhuma dessas apresentações concentradas — cloreto de sódio a 20%, cloreto de potássio a 19,1%, bicarbonato a 8,4% — se administra pura. Elas são aditivos de diluição, e o cloreto de potássio concentrado por via intravenosa direta é letal.

Ler a gasometria do abdome cirúrgico: qual acidose manda operar

No abdome agudo, a acidose metabólica tem três origens que exigem condutas opostas, e separá-las é o que a questão pede. A primeira é a acidose láctica por hipoperfusão ou isquemia — a que manda ao centro cirúrgico. A segunda é a acidose por perda de bicarbonato, de fístula alta, diarreia ou drenagem de delgado, que se corrige repondo volume e base pela reposição da perda. A terceira é a acidose hiperclorêmica que a própria ressuscitação fabricou: cada litro de salina isotônica entrega cerca de 50 mEq de cloreto a mais do que o plasma tem, e o excesso de cloreto produz acidose metabólica de ânion-gap normal. Essa não se trata — reconhece-se, para não confundir com piora clínica.

A ferramenta que separa a primeira das outras duas é o ânion-gap, definido como sódio menos a soma de cloreto e bicarbonato, com faixa normal de 4 a 12. Acidose com ânion-gap alto no abdome cirúrgico aponta para ácido acrescentado, tipicamente lactato; acidose com ânion-gap normal aponta para base perdida ou para cloreto acrescentado, e o cloreto sérico separa as duas — hipercloremia depois de vários litros de salina denuncia a origem iatrogênica. Vale a advertência que o capítulo de Abdome agudo desenvolve: lactato normal não afasta isquemia mesentérica, porque a elevação acompanha a necrose já instalada.

O caso mais capcioso é o distúrbio misto, e ele é típico do obstruído. O paciente que vomita há dois dias e tem sonda de alto débito está construindo alcalose; se uma alça estrangulou, está construindo acidose láctica ao mesmo tempo. Os dois se cancelam no pH, e a gasometria pode voltar com pH quase normal num paciente que está indo para a mesa. Ler só o pH nesse cenário é o erro; ler o bicarbonato, o cloreto e o ânion-gap juntos é o que denuncia que há dois distúrbios somados.

Um último recado sobre método. A leitura por bicarbonato e ânion-gap descrita aqui é a tradicional; existe uma abordagem alternativa, quantitativa, e a divergência entre elas está no bloco próprio. Para a prova de residência, o essencial é que a tradicional é a que os enunciados usam — e que ela pede o ânion-gap corrigido quando a albumina está baixa, o que no cirúrgico grave é a regra, e não a exceção.

04

A composição do que sai, e o que se prescreve em resposta

Três quadros resolvem a maior parte das questões do tema. O primeiro é a composição eletrolítica e o volume diário de cada secreção digestiva — é dele que sai a divisão pelo piloro. O segundo traduz cada cena cirúrgica no distúrbio esperado e na reposição de primeira linha. O terceiro mostra o que existe para prescrever no SUS, com a aritmética que confirma cada rótulo.

  1. 1Passo 0 — Pergunte por onde está saindo, antes de pedir qualquer exame. Sonda, dreno, estoma, fístula, vômito, diarreia: cada um tem uma composição diferente e um distúrbio previsível. Sem essa pergunta, a gasometria vira adivinhação.
  2. 2Passo 1 — Localize a perda em relação ao PILORO. Acima dele, espere alcalose hipoclorêmica e hipocalêmica. Abaixo dele, espere acidose por perda de bicarbonato. É a divisão que organiza todo o resto.
  3. 3Passo 2 — MEÇA o que saiu, em volume, todo dia. O documento brasileiro de fístula chama de imperativo o controle diário de três coisas juntas: débito da fístula, débito urinário e eletrólitos. Débito estimado a olho é a origem da reposição errada.
  4. 4Passo 3 — Reponha a perda com um líquido de composição parecida com o que saiu, em volume igual ao medido, e MANTENHA essa reposição separada da manutenção e da expansão. Um frasco genérico que tenta fazer as três coisas não acerta nenhuma.
  5. 5Passo 4 — Antes de concluir hiperidratação pelo balanço acumulado, procure terceiro espaço. Balanço positivo com oligúria, taquicardia e má perfusão é hipovolemia com líquido sequestrado — e restringir líquido nessa hora piora.
  6. 6Passo 5 — E depois procure a virada. Quando o sequestro regride, a auto-infusão devolve os litros de uma vez. O paciente que precisou de volume no primeiro dia pode precisar de freio no terceiro.
  7. 7Passo 6 — Diante de hiponatremia no pós-operatório, olhe a PRESCRIÇÃO antes de investigar doença. Hormônio antidiurético ligado por dor, náusea, opioide ou pelo próprio trauma, somado a líquido hipotônico, explica a maioria dos casos. Suspender o hipotônico costuma ser a conduta.
  8. 8Passo 7 — Na gasometria, separe as três acidoses: a láctica manda operar, a por perda de bicarbonato manda repor, a hiperclorêmica você fabricou. E desconfie de pH normal no obstruído — alcalose de sonda somada a acidose de alça estrangulada se cancelam no pH e não no bicarbonato.

Acima do piloro: alcalose

Sonda nasogástrica de alto débito, vômito de obstrução alta, estenose pilórica do adulto. Sai ácido clorídrico. Laboratório: bicarbonato alto, cloreto baixo, potássio baixo. Trate com salina isotônica e cloreto de potássio — o cloreto é o reagente que falta ao rim para excretar o bicarbonato.

Abaixo do piloro: acidose

Fístula duodenal, biliar ou pancreática, ileostomia de alto débito, drenagem de delgado, intestino curto. Sai bicarbonato. Laboratório: bicarbonato baixo com ânion-gap normal e hipercloremia relativa. Repõe-se volume, base e potássio conforme a perda medida.

Terceiro espaço: sequestro interno

Peritonite, pancreatite, obstrução, grande dissecção. O líquido não sai do corpo: fica sequestrado, isotônico, sem valor volêmico. O balanço acumulado fica positivo e o paciente segue hipovolêmico — e, quando o espaço regride, a auto-infusão devolve tudo de uma vez.

Pós-operatório: água retida

Dor, náusea, opioide e o próprio trauma mantêm o hormônio antidiurético ligado por dias, sem que a osmolalidade mande. Soro glicosado a 5% é água livre: nesse paciente ela não sai. O sódio de 128 do 3º dia costuma ser a prescrição, não uma doença nova.

SecreçãoSódio (mEq/L)Potássio (mEq/L)Cloreto (mEq/L)Bicarbonato (mEq/L)Volume/dia (mL)
Salivar352635151.500
Gástrica601010082.500
Biliar146510040500
Pancreática140575120700
Intestinal (delgado)110510030
Ileal1201510520
Cecal802045
Intestinal (total)3.000

Qual orifício, qual distúrbio, qual reposição

CenaO que saiDistúrbio esperadoReposição de primeira linha
Sonda nasogástrica de alto débito, vômito de obstrução alta, estenose pilóricaSuco gástrico: cloreto 100, potássio 10, bicarbonato 8Alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmicaSalina isotônica com cloreto de potássio, mililitro por mililitro do que saiu
Fístula ou drenagem biliar e pancreáticaBile e suco pancreático: sódio 140-146, bicarbonato 40-120Acidose metabólica com ânion-gap normal e depleção de volumeSolução isotônica, com base e potássio guiados pela medida diária
Fístula de delgado e ileostomia de alto débitoConteúdo ileal: sódio 120, potássio 15, cloreto 105, bicarbonato 20; 90-120 mEq de sódio por diaAcidose metabólica, hiponatremia, hipocalemia, hipomagnesemia e injúria renal agudaSolução isotônica; por via oral, sal de reidratação com sódio e glicose — nunca água pura
Íleo adinâmico e obstrução sem drenagem externaNada sai: o isotônico fica estagnado na luzHipovolemia sem perda mensurável; distúrbio ácido-base depende do nível da alçaExpansão isotônica guiada por perfusão e diurese, não pelo balanço escrito
Peritonite, pancreatite, grande dissecçãoPerda interna isotônica para o terceiro espaçoHipovolemia com balanço acumulado positivo; oligúriaExpansão isotônica na fase de sequestro e freio ativo na fase de reabsorção
Ressuscitação com vários litros de salinaNada sai — entra cloreto em excessoAcidose metabólica hiperclorêmica de ânion-gap normalNenhuma: reconhecer para não confundir com piora clínica

O que existe na Rename 2024 — e de onde vem o miliequivalente do rótulo

ApresentaçãoRótulo oficialConta que confirmaComponente de financiamento
Cloreto de sódio 0,9% (9 mg/mL)0,154 mEq/mL9 ÷ 58,44 = 0,154 — logo 154 mEq/L de sódio e de cloretoBásico
Cloreto de sódio 20% (200 mg/mL)3,4 mEq/mL200 ÷ 58,44 = 3,42Básico
Cloreto de potássio 19,1% (191 mg/mL)2,56 mEq/mL191 ÷ 74,55 = 2,562Básico
Bicarbonato de sódio 8,4% (84 mg/mL)1 mEq/mL84 ÷ 84,01 = 1,000 — a concentração é molar de propósitoBásico
Sulfato de magnésio 10% e 50%0,81 e 4,05 mEq/mL de magnésio100 ÷ 246,47 = 0,406 mmol, ou 0,81 mEq (sal hepta-hidratado)Básico
Solução ringer + lactatoDescrita por massa dos quatro saisConvertida: sódio ≈ 130, potássio 4, cálcio 2,7, cloreto 109, lactato 27 mEq/LBásico
Sais para reidratação oralCloreto de sódio, glicose anidra, cloreto de potássio, citrato de sódioÉ a via oral do alto débito de ostomiaBásico

A tabela de composição das secreções é um mapa de ordem de grandeza, não uma razão estequiométrica: os valores foram compilados de estados de secreção diferentes. Na linha do pâncreas, cloreto e bicarbonato variam em sentido inverso na fisiologia e os dois valores impressos não coexistem numa amostra. Use a tabela para a direção — ácida acima, alcalina abaixo — e para os volumes.

A coluna de volume é deliberadamente vazia nas linhas de intestino: o documento dá um único valor de 3.000 mL para o conjunto, e não por segmento. Somados, os cinco volumes declarados dão 8,2 litros por dia, e o mesmo documento registra que só 100 a 200 mL saem nas fezes.

O sódio quase não discrimina: fora saliva e conteúdo cecal, todas as secreções trazem sódio entre 110 e 146 mEq/L. Quem separa uma perda da outra é o cloreto e o bicarbonato. Por isso a perda digestiva é, em regra, perda ISOTÔNICA de volume.

Na alcalose do cirúrgico, o exame que separa a salino-responsiva da salino-resistente é o CLORETO urinário, não o sódio urinário. Na alcalose por vômito, a bicarbonatúria arrasta sódio e o sódio urinário mente sobre o estado de volume.

A régua de fístula usada aqui é a do Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira com o Conselho Federal de Medicina, de duas faixas: baixo abaixo de 500 mL/dia, alto acima. O capítulo de complicações pós-operatórias desta mesma apostila trabalha com três faixas, vindas de outra fonte, em que 200 a 500 mL é a faixa do meio. As duas concordam no corte de 500 para o alto débito.

Nenhuma das apresentações concentradas da Rename se administra pura. Cloreto de sódio a 20%, cloreto de potássio a 19,1% e bicarbonato a 8,4% são aditivos de diluição, e cloreto de potássio concentrado em veia direta é letal.

O ânion-gap normal de 4 a 12 e a fórmula sódio menos cloreto mais bicarbonato são os mesmos do capítulo de cetoacidose diabética. No cirúrgico grave, a hipoalbuminemia é a regra e o ânion-gap precisa ser corrigido, sob pena de mascarar ânions não medidos.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanto cristaloide dar no perioperatório — compensar o terceiro espaço ou evitar a sobrecarga

Escola do compartimento (literatura acadêmica de cirurgia, 2008)

A hidratação sustentada, com água e sal nos períodos pré, intra e pós-operatório, é apresentada como o método de eleição para as grandes cirurgias, principalmente quando as perdas para o terceiro espaço são significantes. Como não é possível estimar com precisão a perda por exposição de vísceras nem a perda interna, infunde-se de 2 a 10 mL de solução salina por quilo por hora de cirurgia, com alvo de volume urinário horário entre 30 e 60 mL e sem elevação significante da pressão venosa central.

Ceneviva R, Vicente YAMVA. Equilíbrio hidroeletrolítico e hidratação no paciente cirúrgico. Medicina (Ribeirão Preto), 41(3):287-300, 2008.

Colégio Brasileiro de Cirurgiões, Diretriz ACERTO (2017)

Recomenda evitar sobrecarga na administração de líquidos endovenosos no perioperatório, com soroterapia mais criteriosa — alvo-dirigida — ou mesmo restritiva, em especial quanto a soluções cristaloides com elevado teor de sódio. Registra que, quanto maior o volume de cristaloide infundido no dia da operação, maior o período de íleo pós-operatório, maior a intolerância à dieta precoce e maior o tempo de internação.

Diretriz ACERTO de intervenções nutricionais no perioperatório em cirurgia geral eletiva. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 44(6):633-648, 2017.

Na prova

A diferença é de época, e o enunciado a entrega pelo vocabulário. Enunciado que fala em 'compensar as perdas para o terceiro espaço', em mL/kg/h de salina e em pressão venosa central como alvo está no recorte clássico do compartimento. Enunciado que fala em protocolo multimodal de recuperação, terapia alvo-dirigida, íleo pós-operatório e tempo de internação está no recorte da diretriz de sociedade de 2017. As duas concordam que o terceiro espaço existe e que a hipovolemia é danosa; divergem sobre a margem de segurança do excesso.

A partir de quanto uma ostomia é de alto débito

Corte por volume em 48 horas

Definição usada em série de 687 estomas acompanhada por cinco anos, que considera alto débito quando o volume excede 2.000 mL em mais de 48 horas. Nessa série, a incidência de alto débito precoce foi de 16%.

Baker et al., reproduzido em Arenas Villafranca JJ et al. Ostomías de alto débito: detección y abordaje. Nutrición Hospitalaria, 30(6):1391-1396, 2014.

Corte por volume mantido por dias

Outros estudos definem alto débito como volumes maiores que 1.000 a 1.200 mL mantidos durante 3 a 5 dias — corte mais baixo, com exigência de persistência. A mesma revisão registra que não há definição consensual e que um alto débito autolimitado é esperado logo depois da cirurgia.

Arenas Villafranca JJ et al. Ostomías de alto débito: detección y abordaje. Nutrición Hospitalaria, 30(6):1391-1396, 2014, seção 'Concepto de alto débito'.

Na prova

Enunciado que traz um número isolado de 24 horas e pede rótulo está usando o corte alto; enunciado que descreve quatro ou cinco dias de débito em torno de 1.200 mL está usando o corte baixo. Como a régua é estrangeira e não consensual, questão brasileira raramente cobra o número: cobra a CONSEQUÊNCIA — desidratação, hiponatremia, hipocalemia, hipomagnesemia e injúria renal aguda — e a conduta de restringir líquido hipotônico.

Como qualificar a acidose metabólica do paciente grave

Abordagem quantitativa de Stewart-Fencl-Figge

Sustenta que a abordagem tradicional de Henderson-Hasselbalch falha em analisar os mecanismos da acidose metabólica e tem muitas variáveis que interferem no resultado. O método de Stewart-Fencl-Figge, que soma eletrólitos, lactato e albumina à gasometria, permitiria detectar anormalidades metabólicas mistas e estimar a magnitude de cada componente.

Barbosa MBG, Alves CAD, Queiroz Filho H. Avaliação da acidose metabólica em pacientes graves. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 18(4):380-384, 2006.

Ânion-gap corrigido como substituto suficiente

Coorte de 84 pacientes graves encontrou correlação muito forte e boa concordância entre o ânion-gap corrigido para albumina, fosfato e lactato e o íon gap forte na população geral, com r² de 0,94, viés de 1,40 e limites de concordância de -0,75 a 3,57, mantendo o desempenho no subgrupo com excesso de bases abaixo de -2 mEq/L — o que dispensa a máquina completa do método quantitativo para estimar ânions não medidos.

Zampieri FG et al. Ânion gap corrigido para albumina, fosfato e lactato é um bom preditor de íon gap forte em pacientes enfermos graves. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 25(3):205-211, 2013.

Na prova

Prova de residência trabalha com a abordagem tradicional: pH, pCO2, bicarbonato e ânion-gap. Enunciado que oferece diferença de íons fortes, íon gap forte ou ânion não medido está pedindo o vocabulário quantitativo e costuma vir de banca de terapia intensiva. O ponto de encontro entre as duas escolas, e o que vale levar para a sala, é a correção do ânion-gap pela albumina no paciente grave.

06

Caso resolvido

Homem de 62 anos, 70 kg, com laparotomia por úlcera perfurada há oito anos, chega ao pronto-socorro com vômitos há três dias, parada de eliminação de gases e fezes e distensão abdominal. Abdome timpânico, doloroso difusamente, SEM sinais de irritação peritoneal; ruídos hidroaéreos aumentados de timbre metálico. Passada sonda nasogástrica, drenaram 1.800 mL de conteúdo gástrico em 24 horas. Pressão arterial 96 x 62 mmHg, frequência cardíaca 108 bpm, mucosas secas, diurese de 320 mL em 24 horas. Laboratório: sódio 134, potássio 2,9, cloreto 88, ureia 78 mg/dL, creatinina 1,6 mg/dL (basal 0,9). Gasometria: pH 7,49, pCO2 46 mmHg, bicarbonato 34 mEq/L. Cloreto urinário 8 mEq/L. Tomografia mostra obstrução ALTA de delgado, em jejuno proximal, por brida, sem sinal de sofrimento de alça.
achado
Alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica por perda gástrica. A perda tem endereço: 1.800 mL por dia de conteúdo gástrico, com cerca de 100 mEq/L de cloreto e 10 de potássio, mais o hidrogênio que a tabela não mostra. É a assinatura da perda ACIMA do piloro — e é por isso que a altura da obstrução importa: numa obstrução distal o aspirado é bilioso, carrega bicarbonato junto e o distúrbio resultante é menos puro.
ancoragem
O ânion-gap fecha em 12 — 134 menos a soma de 88 e 34 —, ou seja, está na faixa normal. Não há ácido acrescentado, e isso conversa com a ausência de irritação peritoneal e com a tomografia sem sofrimento de alça. Um ânion-gap alargado aqui mudaria a conversa inteira.
coerência
A gasometria é internamente consistente: com bicarbonato de 34, a compensação respiratória esperada eleva a pCO2 para perto de 46, e é o que se lê. Alcalose metabólica com pCO2 de 30 seria um segundo distúrbio, não uma compensação.
o exame que decide
Cloreto urinário de 8 mEq/L classifica a alcalose como salino-responsiva. Repare que o sódio urinário não serviria: na alcalose por vômito, o bicarbonato filtrado arrasta sódio para a urina e o sódio urinário mente sobre o estado de volume.
conduta
Salina isotônica com cloreto de potássio, em volume que reponha o déficit E acompanhe o débito medido da sonda, mililitro por mililitro. Repor o volume desliga a aldosterona; repor o cloreto devolve ao rim o ânion necessário para excretar o excesso de bicarbonato. O potássio só para quando o cloreto voltar.
o que NÃO fazer
Não entram bicarbonato, acetazolamida nem ácido clorídrico endovenoso — o problema é falta de cloreto e de volume, não excesso de base gerado. E a operação da brida não é a primeira coisa: neste paciente, sem sinal de estrangulamento, corrigir o distúrbio vem antes, porque alcalose grave deprime o estímulo ventilatório e aumenta o risco anestésico. A decisão de quando operar a obstrução tem capítulo próprio; o que este cobra é o que precisa estar corrigido antes da indução.
07

Agora feche você

Mulher de 58 anos, 62 kg, no 5º dia de pós-operatório de colectomia com ileostomia terminal por neoplasia. Nas últimas 60 horas o estoma drenou em média 2.400 mL por dia. Refere muita sede e conta que, orientada a 'se hidratar bem', vem bebendo cerca de três litros por dia entre água, chá e suco de laranja. Pressão arterial 100 x 64 mmHg, frequência cardíaca 104 bpm, turgor diminuído, diurese de 400 mL em 24 horas. Laboratório: sódio 128, potássio 3,1, cloreto 100, magnésio 1,3 mg/dL, creatinina 1,9 mg/dL (basal 0,8). Gasometria: pH 7,33, pCO2 33 mmHg, bicarbonato 17 mEq/L. Abdome sem peritonite, ferida limpa, sem febre.
Classifique o débito e nomeie o distúrbio
2.400 mL por dia mantidos por mais de 48 horas cabe em qualquer das duas definições de alto débito que circulam. E o ânion-gap fecha em 11 — 128 menos a soma de 100 e 17 —, ou seja, acidose metabólica de ânion-gap NORMAL: base perdida, não ácido acrescentado. É a assinatura da perda abaixo do piloro.
Faça a conta da perda e explique por que a água piorou
Com sódio ileal em torno de 120 mEq/L, 2,4 litros por dia significam cerca de 290 mEq de sódio perdidos em 24 horas — mais que o dobro do que se ingere num dia comum. Contra isso, a paciente vem oferecendo três litros de líquido praticamente sem sódio, que o intestino curto não absorve e que ainda puxa sódio do plasma para a luz.
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Onde a banca derruba

  1. 1Repor tudo o que saiu com soro glicosado a 5% Atrai porque o paciente está em jejum e parece precisar de caloria e de água. Mas glicosado a 5% é água livre: a glicose é metabolizada e sobra água destilada. As perdas digestivas são isotônicas — repor isotônico com água livre desidrata o extracelular e dilui o sódio ao mesmo tempo. Em pós-operatório, com hormônio antidiurético ligado, essa água nem sequer é excretada.
  2. 2Prescrever bicarbonato para a alcalose... ou para o paciente com sonda de alto débito O paciente com sonda de alto débito não tem falta de ácido nem excesso de base gerado: ele tem falta de cloreto e de volume. A conduta é salina isotônica com cloreto de potássio. Alternativa que oferece bicarbonato, acetazolamida ou ácido clorídrico endovenoso nesse cenário está tratando um número, não um mecanismo.
  3. 3Corrigir o potássio sem corrigir o cloreto Na alcalose hipoclorêmica, a hipocalemia é sustentada pelo hiperaldosteronismo da hipovolemia, que troca sódio por potássio e por hidrogênio no túbulo. Enquanto o cloreto e o volume não voltarem, o potássio reposto continua sendo excretado. A questão costuma descrever hipocalemia 'refratária' — a resposta é o cloreto, não mais potássio.
  4. 4Achar que urina ácida afasta alcalose Na alcalose por vômito com hipovolemia, o rim prioriza o volume: retém sódio trocando por hidrogênio e produz urina ácida em paciente alcalótico. É a acidúria paradoxal. Alternativa que usa o pH urinário baixo para descartar a alcalose está invertendo o sinal.
  5. 5Restringir líquido porque o balanço acumulado está positivo No terceiro espaço, o líquido está dentro do paciente e fora da circulação: ele não tem valor volêmico. Balanço positivo com oligúria, taquicardia e má perfusão é hipovolemia, e restringir volume aí aprofunda a hipoperfusão. O balanço escrito subestima sistematicamente a perda interna.
  6. 6Manter a expansão depois que o terceiro espaço começou a regredir É o erro simétrico do anterior, e o mais frequente na enfermaria. A auto-infusão devolve os litros sequestrados de uma vez; se o rim não der conta, o líquido vira edema intersticial e pode chegar a insuficiência respiratória. Reconhecer a virada — diurese que retoma, distensão que cede — é parte da conduta.
  7. 7Oferecer água, chá ou suco ao paciente com ostomia de alto débito É a orientação que o senso comum manda dar e que piora o quadro. Bebida hipotônica no intestino curto puxa sódio do plasma para a luz e aumenta o débito, agravando a hiponatremia. A conduta é restringir a ingestão de líquidos a 500-1000 mL/dia e oferecer solução de reidratação com sódio e glicose no lugar da água.
  8. 8Ler só o pH no paciente obstruído Quem vomita há dois dias e tem sonda de alto débito está construindo alcalose; se houver alça estrangulada, está construindo acidose láctica ao mesmo tempo. Os dois se cancelam no pH, e a gasometria pode voltar quase normal num paciente que vai para a mesa. Bicarbonato, cloreto e ânion-gap juntos denunciam os dois distúrbios somados.
  9. 9Tratar a acidose hiperclorêmica que a ressuscitação fabricou Cada litro de salina isotônica entrega cerca de 50 mEq de cloreto acima do plasma, e o excesso produz acidose metabólica de ânion-gap normal. Ela aparece justamente quando o paciente melhorou. Alternativa que interpreta essa queda de bicarbonato como piora e escala a investigação, ou que prescreve bicarbonato para corrigi-la, cai na armadilha.
  10. 10Usar o ânion-gap bruto no cirúrgico grave A albumina é ânion, e no pós-operatório de grande porte ela está baixa quase sempre. Um ânion-gap 'normal' com albumina de 2,0 pode esconder ânions não medidos em quantidade relevante. Sem correção, o gap subestima — e é justamente o lactato oculto que se queria enxergar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor, náusea, opioide e o próprio trauma cirúrgico mantêm o hormônio antidiurético ligado por estímulo NÃO osmótico durante dias. Soro glicosado a 5% é água livre — a glicose é metabolizada e sobra água —, e essa água não é excretada enquanto o estímulo persistir: é a hiponatremia mais comum do hospital, e ela é iatrogênica. A conduta inicial é suspender o hipotônico. A síndrome perdedora de sal cursa com hipovolemia e poliúria, ausentes aqui, e salina hipertônica é reservada a hiponatremia sintomática grave. Insuficiência adrenal traria hipotensão, hipercalemia e hipoglicemia. A hipótese de depleção esbarra no exame: não há sinais de hipovolemia, e um bolus de dois litros trataria um problema que o paciente não tem. Pseudo-hiponatremia exige triglicérides ou proteína muito altos e não explica um caso construído em cima da prescrição.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória a divisão e os números. Oito litros por dia atravessam a luz (1,5 salivar + 2,5 gástrico + 0,5 biliar + 0,7 pancreático + 3,0 intestinal = 8,2) e só 100 a 200 mL saem nas fezes. Suco gástrico: sódio 60, potássio 10, cloreto 100, bicarbonato 8 — perde ácido clorídrico, dá ALCALOSE hipoclorêmica e hipocalêmica. Bile 146/5/100/40, pâncreas 140/5/75/120, ileal 120/15/105/20 — perdem base, dão ACIDOSE de ânion-gap normal. Fístula: baixo débito abaixo de 500 mL/dia, alto acima; 80% vêm de deiscência, entre o 4º e o 10º dia. Ostomia: habitual 500-1000 mL/dia, perda de 90-120 mEq de sódio; 30-71% de injúria renal aguda no alto débito; risco maior do 3º ao 8º dia; restringir líquido a 500-1000 mL e proibir hipotônico. Rename, tudo Componente Básico: salina 0,9% = 0,154 mEq/mL (154 mEq/L), NaCl 20% = 3,4, KCl 19,1% = 2,56, bicarbonato 8,4% = 1 mEq/mL. Ânion-gap = sódio − (cloreto + bicarbonato), normal de 4 a 12, e corrigido pela albumina no cirúrgico grave.

em 30 dias

Reveja os raciocínios, não as listas. Por que o piloro divide o distúrbio, e por que o sódio quase não discrimina entre as secreções — quem separa é o cloreto e o bicarbonato, e por isso a perda digestiva é isotônica. Por que a alcalose do cirúrgico é salino-responsiva e por que o exame que a classifica é o CLORETO urinário, e não o sódio urinário. Por que a hipocalemia dessa alcalose é refratária enquanto o cloreto não voltar. Por que o terceiro espaço faz o balanço acumulado mentir nas duas direções: positivo com hipovolemia na fase de sequestro, e sobrecarga na auto-infusão da regressão. Por que a hiponatremia do 3º dia de pós-operatório costuma ser a prescrição, e não uma doença — hormônio antidiurético ligado por dor, náusea, opioide e trauma, somado a líquido hipotônico. Por que oferecer água ao paciente com ostomia de alto débito piora o débito e a hiponatremia. E as três acidoses do abdome cirúrgico: a láctica manda operar, a por perda de bicarbonato manda repor, a hiperclorêmica você fabricou com salina. Feche simulando o caso resolvido: localizar o orifício, medir o débito, ancorar pelo ânion-gap, classificar pelo cloreto urinário, repor com composição parecida — e desconfiar de pH normal no obstruído.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 62 anos com obstrução de delgado por brida, vômitos há três dias e sonda nasogástrica drenando quase dois litros por dia. Chega hipotenso, oligúrico, com potássio de 2,9 e bicarbonato de 34. A estação cobra o que vem antes do bisturi: identificar de onde vem o distúrbio, escolher o líquido certo e explicar por que este paciente vai para a sala depois de corrigido, e não antes. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Distúrbios hidroeletrolíticos e acidobásicos no cirúrgico – Distúrbios hidroeletrolíticos no cirúrgico: o piloro divide o distúrbio — Preparatório para provas | OsceLabs