Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Resposta metabólica ao trauma: o relógio separa as fases

A prova deste tema entrega sempre os mesmos três pares de dados — tempo desde a lesão, hemodinâmica e metabolismo — e pede o rótulo da fase. O vocabulário que ela cobra saiu de uma descrição de 1930 e as duas diretrizes vigentes já não o usam: falam em fase aguda, pós-aguda e de recuperação. Este capítulo mantém os dois idiomas lado a lado, mostra por que a glicemia sobe com insulina normal, e faz a conta do balanço nitrogenado que nenhuma das duas diretrizes reproduz.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 32 anos, previamente hígido, é internado após fratura fechada de fêmur em acidente automobilístico. Nas primeiras 24 horas de pós-trauma, o cirurgião discute com a equipe a resposta metabólica sistêmica esperada nesse período inicial. Segundo o modelo clássico das fases da resposta ao trauma descrito por Cuthbertson, essa fase precoce é caracterizada por hipovolemia relativa, hipoperfusão tecidual, redução do metabolismo e queda do gasto energético, com hipotermia e prioridade na preservação da volemia. Qual é a denominação dessa fase inicial da resposta metabólica ao trauma?

02

Como esse tema cai

A questão deste tema quase nunca pede o diagnóstico, e quase sempre pede a fase. A vinheta chega montada com três pares de dados e o candidato só precisa lê-los na ordem certa: quanto tempo se passou desde a lesão, como está a hemodinâmica e o que dizem o gasto energético e o balanço nitrogenado. O rótulo metabólico vem depois desses três, nunca antes.

O relógio é o dado que resolve a maioria das questões, e ele costuma estar na primeira linha do enunciado. Primeira hora, primeiro dia, terceiro dia, quinto dia: a prova escreve o tempo por extenso porque é ele que separa a fase inicial da fase que vem depois da ressuscitação. Quando o tempo e a hemodinâmica concordam, o resto do enunciado é confirmação.

O segundo tipo de questão troca a fase pelo mecanismo. Ela mostra hiperglicemia num paciente sem diabetes, informa que a insulina está normal ou alta e pergunta por quê. Essa pergunta tem uma resposta só, e ela não é falta de insulina: é resistência periférica somada a produção hepática aumentada, ambas empurradas pelos hormônios contrarregulatórios e pelas citocinas.

O terceiro tipo é o de conduta nutricional, e é onde as duas diretrizes vigentes divergem em número. Ele pergunta quando começar, por que via, quanto ofertar e o que esperar do balanço nitrogenado. A resposta que a prova quer sobre esse último ponto é contraintuitiva e vale ser decorada: enquanto o estímulo inflamatório persiste, a nutrição atenua o catabolismo sem revertê-lo.

03

O que muda decisão

Duas marés, e uma terceira fase que veio depois

A descrição nasceu de uma observação simples feita em pacientes com fratura de osso longo: depois da lesão, a perda urinária de nitrogênio aumenta. Do nome do autor a prova tirou o rótulo das fases, e da metáfora da maré tirou os dois termos que aparecem nas alternativas em inglês e em português — ebb, o refluxo, e flow, o fluxo.

A revisão de metabolismo pós-traumático descreve a resposta em três fases: fase de refluxo, com queda do metabolismo na fase inicial de choque; fase de fluxo, catabólica; e fase anabólica, quando a perda tecidual passa a ser reposta por nova síntese. A terceira não estava na formulação original de duas fases e é descrita como o período tardio da fase de fluxo, o que explica por que algumas alternativas escrevem fase de fluxo anabólica e outras escrevem apenas fase anabólica para a mesma coisa.

Há uma segunda nomenclatura circulando nas provas, e ela não é sinônimo. A transição do estado catabólico para o anabólico recebeu o nome de fase de retirada corticoide, e o termo pertence a outra descrição, organizada em quatro etapas. Uma alternativa que fale em fase adrenérgico-corticoide está usando esse outro vocabulário, e quem tenta encaixá-la como fase inicial do modelo de duas marés erra por confundir as duas escolas.

Vale registrar o que as diretrizes atuais fizeram com esse vocabulário: abandonaram-no. Nem a diretriz brasileira de terapia nutricional no paciente grave nem a europeia de nutrição em terapia intensiva usam refluxo, fluxo ou o nome do autor em qualquer recomendação. As duas falam em fase aguda inicial, fase pós-aguda e fase de recuperação. A prova de residência continua cobrando o vocabulário antigo, e a conduta continua escrita no novo — o capítulo precisa dos dois.

A tradução entre os dois idiomas não é perfeita, e é isso que torna a leitura das diretrizes escorregadia para quem estudou pela nomenclatura clássica. A fase de refluxo corresponde ao trecho mais precoce da fase aguda, aquele em que a ressuscitação ainda está em curso e em que as diretrizes simplesmente não mandam nutrir. A fase de fluxo catabólica ocupa o resto da fase aguda e entra pela fase pós-aguda adentro, e é nela que quase toda a prescrição acontece. A fase anabólica é a fase de recuperação. O ponto de corte que as diretrizes usam para virar a chave não é um achado clínico e sim uma data: o quarto dia.

Essa escolha de datar em vez de descrever tem uma consequência prática que a prova explora. O quarto dia é um marcador de conveniência, não um evento fisiológico, e o próprio texto brasileiro qualifica a virada com a condição de que o paciente já esteja fora da fase aguda inicial. Um politraumatizado ainda febril e hipermetabólico no quinto dia não passou para a fase seguinte só porque o calendário virou, e é exatamente esse o paciente que as vinhetas usam para separar quem decorou a data de quem entendeu a fase.

O relógio decide, e a hemodinâmica confirma

A fase de refluxo se instala nas primeiras horas após a lesão, com duração descrita de 24 a 48 horas. Ela é o período do choque: queda do débito cardíaco, queda do consumo de oxigênio, queda da temperatura corporal, vasoconstrição periférica e redução da excreção urinária de nitrogênio. O objetivo fisiológico é preservar volemia e restabelecer perfusão, e por isso o gasto energético cai em vez de subir.

Há um achado dessa fase que engana quem estuda pela metade: a glicemia já sobe no refluxo. Ela sobe por descarga adrenérgica e por consumo do glicogênio hepático, que sustenta a produção por apenas 12 a 24 horas. Hiperglicemia, portanto, não distingue as duas fases. O que distingue é o consumo de oxigênio: reduzido no refluxo, aumentado no fluxo.

A fase de fluxo vem depois da ressuscitação, tipicamente a partir de 24 a 48 horas, e é hiperdinâmica e hipermetabólica: febre, taquicardia, débito cardíaco elevado, gasto energético de repouso aumentado e balanço nitrogenado negativo. A janela em que essa resposta, se intensa ou prolongada, passa a destruir tecido próprio é descrita entre o segundo e o sétimo dia. Uma vinheta de terceiro ou quarto dia de pós-operatório, febril e sem foco infeccioso identificável, está nesse trecho.

A magnitude não é a mesma para toda lesão. O aumento da taxa metabólica descrito após trauma é da ordem de 20% a 25%, e no pós-operatório os estudos posteriores confirmaram elevação de 15% a 30%. O tamanho da resposta acompanha a gravidade da lesão, o que dá sentido clínico à pergunta de prova que compara uma fratura fechada isolada a uma queimadura extensa.

A saída do catabolismo tem prazo próprio, e ele depende de quanto foi a lesão. Após cirurgia eletiva não complicada a transição para o anabolismo ocorre em cerca de 3 a 8 dias; após trauma grave e sepse, leva semanas. Clinicamente o período coincide com o início da diurese e com a volta do apetite, e laboratorialmente com a queda da excreção de nitrogênio.

A hiperglicemia com insulina normal ou alta

O motor da fase de fluxo são os hormônios contrarregulatórios — cortisol, catecolaminas e glucagon — em sinergia com as citocinas pró-inflamatórias. Cortisol e glucagon aumentam a gliconeogênese hepática e a proteólise; as catecolaminas aumentam a glicogenólise e freiam a secreção de insulina; e o conjunto reduz a captação muscular de glicose. O resultado tem dois componentes somados: resistência periférica à insulina e produção hepática aumentada de glicose.

Daí a armadilha favorita do tema. A insulina do paciente está normal ou elevada e a glicemia sobe assim mesmo, porque o problema não é oferta de hormônio e sim resposta ao hormônio. Qualquer alternativa que proponha deficiência absoluta de insulina, destruição autoimune de células beta ou queda dos contrarregulatórios está invertendo o mecanismo. O fenômeno recebeu nomes que a prova usa como sinônimo: diabetes do trauma, diabetes da lesão, hiperglicemia de estresse.

A produção endógena de glicose nessa fase é grande o bastante para atrapalhar quem calcula oferta. A produção esplâncnica de glicose sobe de 50% a 60% no paciente séptico e de 50% a 100% no queimado, e o aumento não é completamente suprimido por glicose e insulina exógenas — ao contrário do que acontece no jejum simples, em que a oferta desliga a gliconeogênese. Essa é a razão fisiológica pela qual ofertar caloria cheia logo no começo empilha caloria sobre caloria.

O substrato lipídico segue a mesma lógica. A lipólise aumenta já no refluxo e continua no fluxo, mas a cetogênese hepática é freada pela insulina alta; a taxa de cetogênese após trauma é inversamente proporcional à gravidade da lesão. Isso separa o paciente traumatizado do paciente em jejum puro, que ceta. Quem espera corpos cetônicos como fonte preferencial num grande queimado está aplicando a fisiologia errada.

O balanço nitrogenado, e a conta que não fecha

O balanço nitrogenado é a diferença entre o nitrogênio que entra pela dieta e o que sai. Na forma clássica ele se escreve como o nitrogênio ingerido, obtido dividindo a proteína ofertada por 6,25, menos a excreção urinária de nitrogênio ureico, menos uma constante de perdas insensíveis, pela pele, pelas fezes e pelo nitrogênio urinário não ureico. Essa constante costuma ser tomada como 4 gramas por dia, e a convenção importa: adotar 2 em vez de 4 desloca a fronteira em exatos 2 gramas de nitrogênio, o mesmo efeito de tirar 12,5 gramas de proteína da prescrição.

Nenhuma das duas diretrizes vigentes reproduz essa fórmula. As duas mandam monitorar o balanço nitrogenado — a brasileira o cita no seguimento do traumatizado, do queimado e do obeso crítico — e nenhuma diz como calculá-lo. É um vão real das fontes, e ele tem a mesma forma do vão de vocabulário descrito acima: o documento nomeia o parâmetro, manda usá-lo, e deixa de fora a definição operacional. Quem estuda apenas pela diretriz chega à prova sabendo que o parâmetro existe e sem saber montá-lo, e é justamente a montagem que a questão de cálculo cobra.

O mesmo vale para a excreção. As diretrizes falam em perdas nitrogenadas e em nitrogênio urinário sem fixar se o valor a usar é o nitrogênio ureico urinário ou o nitrogênio urinário total, que é maior. Como a constante de perdas insensíveis existe precisamente para cobrir a diferença entre um e outro, somar a constante a um total já completo conta a mesma perda duas vezes. Na prova, o enunciado que pede o cálculo sempre informa qual dos dois está dando, e a instrução do enunciado prevalece sobre qualquer convenção decorada.

A conta explica sozinha por que o balanço não fecha. Num paciente de 70 kg recebendo 1,2 grama de proteína por quilo, entram 84 gramas de proteína, isto é, 13,44 gramas de nitrogênio; descontada a constante de 4, o balanço só chega a zero se a excreção urinária ficar abaixo de 9,44 gramas por dia. Com a oferta de 1,3, o limite sobe para 10,56. Um traumatizado grave em plena fase de fluxo excreta bem mais que isso, e é por isso que a resposta correta da questão de conduta é sempre a mesma: a nutrição atenua a perda, mas não anula o balanço negativo enquanto o estímulo persiste.

Vale medir o tamanho do que se perde. Um grama de nitrogênio equivale a 6,25 gramas de proteína e, pela composição do tecido úmido, a cerca de 25 gramas de massa magra. Um paciente que excreta 15 gramas de nitrogênio ureico por dia perde, somada a constante, o equivalente a 475 gramas de massa magra por dia — perto de 3,3 kg em sete dias de fase de fluxo. É esse número que dá sentido à urgência do suporte precoce e ao uso da ureia urinária como parâmetro de seguimento.

No sentido inverso, a mesma conta dá a escala do que a recuperação consegue. Um balanço nitrogenado positivo máximo da ordem de 4 gramas por dia corresponde a cerca de 25 gramas de proteína sintetizada e a um ganho aproximado de 100 gramas de massa por dia. Recuperar em ganho o que se perdeu em uma semana de catabolismo leva, portanto, muito mais que uma semana — e a assimetria entre a velocidade de perder e a de repor é o argumento clínico do capítulo inteiro.

A faixa em que a régua escolhida inverte o sinal

A pergunta que fecha o assunto é quanto a escolha da diretriz realmente muda o desfecho da conta. Ela tem resposta exata, porque o espaço é pequeno o bastante para ser varrido inteiro: basta fixar o peso em 70 kg, percorrer a excreção urinária de nitrogênio ureico de 4 a 26 gramas por dia e avaliar as quatro ofertas proteicas que as duas diretrizes autorizam — 1,2 e 1,3 grama por quilo nos tetos conservadores, 2,0 e 2,5 na oferta ampliada da fase de recuperação do trauma.

A varredura devolve três regiões, e não um degrau. Abaixo de 10 gramas por dia de excreção, qualquer uma das quatro ofertas zera o balanço: o paciente não está catabólico o suficiente para que a escolha importe. Acima de 24 gramas por dia, nenhuma das quatro zera — nem a mais agressiva das duas diretrizes, a de 2,5 grama por quilo. Entre esses dois extremos existe uma faixa de exatamente quinze valores inteiros, de 10 a 24 gramas por dia, em que a régua adotada inverte o sinal do balanço.

Cada oferta tem sua fronteira, e as quatro são calculáveis de cabeça uma vez entendida a fórmula. A oferta de 1,2 grama por quilo zera em excreção de 9,44 gramas por dia; a de 1,3 zera em 10,56; a de 2,0 zera em 18,40; e a de 2,5 zera em 24,00 gramas exatos. A distância entre a primeira e a última fronteira, 14,56 gramas de nitrogênio por dia, é o tamanho total do que a decisão de diretriz consegue comprar — e ela corresponde, pela conversão de 25 gramas de massa por grama de nitrogênio, a cerca de 364 gramas de massa magra por dia.

As três regiões têm leituras clínicas diferentes e é isso que a torna útil à beira do leito. Na região de baixo, discutir qual diretriz seguir é discussão vazia, porque as duas chegam ao mesmo lugar. Na região de cima, a discussão também é vazia, mas pelo motivo oposto: nenhuma oferta disponível resolve, e insistir em subir a proteína é trocar um problema por outro sem ganhar balanço. É só na faixa do meio que a escolha muda o sinal, e é exatamente ali que a vinheta de prova coloca o paciente.

Reta numérica de excreção urinária de nitrogênio ureico de 4 a 26 gramas por dia, num paciente de 70 quilos, dividida em três faixas. Marcas em 9,44, 10,56, 18,40 e 24,00 gramas correspondem às ofertas de 1,2, 1,3, 2,0 e 2,5 grama de proteína por quilo. À esquerda de 10 todas as ofertas zeram o balanço; entre 10 e 24 a escolha inverte o sinal; acima de 24 nenhuma zera. Uma seta liga 9,44 a 24,00, distância de 14,56 gramas.
Abaixo de 10 g de nitrogênio ureico por dia as quatro ofertas proteicas zeram o balanço e acima de 24 nenhuma zera: só nos quinze valores inteiros do meio a diretriz escolhida inverte o sinal.

A varredura também produz um resultado que serve de aviso contra decorar fronteiras. Percorrendo os pesos de 40,0 a 100,0 quilos de 0,1 em 0,1 — 601 pesos ao todo — e mantendo a oferta em 1,2 grama por quilo, existe um único peso, 62,5 quilos, em que o balanço zera exatamente sobre um valor inteiro de excreção, que é 8 gramas por dia. Nos outros 600 a fronteira cai em número quebrado. A conta é direta: 1,2 vezes 62,5 dá 75 gramas de proteína, que divididos por 6,25 dão 12 gramas de nitrogênio, iguais aos 8 de excreção somados aos 4 da constante.

No peso mais comum das vinhetas o resultado é o oposto, e vale como treino de atenção. Em 70 quilos com 1,2 grama por quilo, uma excreção de 9 gramas por dia dá balanço de 0,44 positivo e uma de 10 gramas dá 0,56 negativo: um único grama de excreção inverte o sinal, e nenhum dos dois valores cai sobre o zero. Quem arredonda a fronteira de 9,44 para 9 ou para 10 troca o sinal do resultado em metade dos casos, o que num item de cálculo é a diferença entre acertar e errar.

O que a nutrição faz, e o que ela não faz

As duas diretrizes concordam no essencial e é o essencial que a prova cobra. A via preferencial é a enteral, não a parenteral. O início é precoce: a diretriz brasileira recomenda começar nas primeiras 24 a 48 horas após a admissão do traumatizado, assim que a estabilidade hemodinâmica for atingida, e atribui a essa recomendação nível de evidência moderado — o mais alto do capítulo de trauma. A europeia recomenda nutrição enteral precoce dentro de 48 horas quando a via oral não é possível, com grau B e consenso forte de 100%.

Estabilidade hemodinâmica antes de nutrição é a ordem, e ela mapeia exatamente sobre as fases. Nutrir durante o refluxo, com o paciente ainda hipotenso e hipoperfundido, é oferecer substrato a um organismo que reduziu o consumo de oxigênio. A janela de início se abre quando a ressuscitação termina, que é também quando a fase de fluxo começa.

As metas do começo são deliberadamente baixas, e por um motivo fisiológico já enunciado: na fase aguda o paciente produz energia endógena em quantidade relevante, de modo que a oferta plena se soma a ela em vez de substituí-la. A diretriz brasileira manda iniciar com 15 a 20 kcal/kg e progredir para 25 a 30 kcal/kg entre o quarto e o sétimo dia, já na fase pós-aguda. Havendo calorimetria indireta, oferta de 50% a 70% do gasto aferido na fase inicial, subindo para 100% após o quarto dia.

Do lado proteico, a diretriz brasileira recomenda até 1,2 grama por quilo por dia na fase inicial, aproximadamente até o quarto dia, e evolução para 1,3 a 2 gramas por quilo depois disso. No capítulo de trauma ela vai além: na fase de recuperação, oferta calórica que pode alcançar 40 kcal/kg por dia e necessidade proteica de até 2,0 a 2,5 gramas por quilo, justificando o acréscimo pelo hipermetabolismo mais prolongado e pela perda muscular mais intensa do traumatizado. O nível de evidência que ela declara para esse item é baixo.

O que não funciona também é matéria de prova. Superalimentar não reverte catabolismo e cobra caro: hiperglicemia, esteatose hepática e hipercapnia. Jejuar agrava a perda de massa magra. Meta glicêmica muito estreita não elimina a resposta catabólica e aumenta hipoglicemia. E imunonutrientes no trauma são um caso de recomendação fraca com texto honesto, tratado no bloco de divergências: a diretriz brasileira sugere considerar fórmulas com glutamina e, no próprio texto de apoio, registra uma metanálise que não encontrou diferença.

Os dois denominadores do mesmo setenta por cento

O documento europeu enuncia o teto de 70% duas vezes, com comparadores diferentes, e a diferença não é descuido de redação. Numa das recomendações a oferta deve ficar abaixo de 70% da necessidade estimada, e ali o denominador é o resultado de uma equação preditiva. Na outra, a oferta não deve exceder 70% do gasto energético, e ali o denominador é o gasto medido por calorimetria indireta. Mesmo número, duas bases de cálculo, e por isso dois resultados.

A distinção tem consequência aritmética direta. Pela rota da equação, o próprio documento sugere estimar por valores simples baseados no peso, da ordem de 20 a 25 kcal/kg por dia; setenta por cento disso é uma oferta de 14 a 17,5 kcal/kg por dia, e esse é o teto que a rota autoriza. Pela rota da calorimetria, o denominador é o que o aparelho mediu naquele paciente naquele dia, e não um número de tabela.

A diferença entre as duas rotas cresce justamente no paciente deste capítulo, e é possível dimensioná-la com os números já apresentados. A elevação da taxa metabólica descrita após trauma é de 20% a 25%, e a equação baseada em peso não sabe disso: ela devolve o mesmo 20 a 25 kcal/kg para o traumatizado hipermetabólico e para quem não é. Aplicando aquela elevação sobre a mesma base, o gasto medido de um paciente em plena fase de fluxo ficaria entre 24 e 31,25 kcal/kg, e setenta por cento disso é uma oferta entre 16,8 e 21,875 kcal/kg por dia.

O resultado explica a divergência das duas diretrizes em vez de apenas constatá-la. A rota da equação para em 17,5 kcal/kg; a rota da calorimetria, no mesmo paciente hipermetabólico, chegaria a 21,875 — uma diferença de 4,375 kcal/kg por dia no teto. E os 20 kcal/kg que a diretriz brasileira admite como limite superior da fase inicial caem dentro dessa segunda faixa, e não dentro da primeira. A régua brasileira, que é expressa em kcal/kg e não em porcentagem, comporta-se como se estivesse supondo o paciente hipermetabólico que a equação preditiva ignora.

Do ponto de vista da prova, o sinal está sempre na unidade em que o enunciado escreve o dado. Enunciado que informa calorimetria indireta disponível e dá o gasto medido em quilocalorias está pedindo a aplicação do teto sobre aquele valor. Enunciado que informa a ausência de calorimetria e dá peso está pedindo a rota da equação, com o teto mais baixo. Enunciado que dá diretamente kcal/kg está na régua brasileira. Confundir as três é o que produz respostas que diferem entre si por centenas de quilocalorias sem que o candidato perceba.

As quinhentas e vinte e cinco quilocalorias que somem numa leitura

O erro de leitura mais caro do tema é curto de enunciar: tomar os 20 a 25 kcal/kg por dia do documento europeu como alvo de oferta, quando eles são a estimativa do gasto, isto é, o denominador sobre o qual o teto de setenta por cento incide. Quem comete esse erro não está prescrevendo uma dose um pouco maior: está entregando cem por cento do estimado onde a recomendação pedia menos de setenta, o que equivale a multiplicar a oferta pretendida por dez sétimos, ou cerca de 1,43 vez.

Em números de beira de leito, num paciente de 70 quilos, o teto correto da rota da equação é de 980 a 1225 quilocalorias por dia. A leitura equivocada entrega de 1400 a 1750. No topo da faixa a diferença é de 7,5 kcal/kg por dia, ou seja, 525 quilocalorias por dia, e ao longo de uma semana de fase aguda acumula 3675 quilocalorias entregues a mais do que a recomendação previa.

O paciente em que isso acontece é identificável, e é sempre o mesmo. É aquele internado em serviço sem calorimetria indireta, entre o primeiro e o quarto dia depois de um trauma ou de uma cirurgia de grande porte, já hemodinamicamente estável e portanto elegível para começar a nutrição, com a equipe calculando a meta por peso porque não há outro jeito. É o cenário mais comum do país, e não uma exceção de enunciado.

O que acontece com esse paciente é previsível pela fisiologia da fase de fluxo já descrita. A produção endógena de glicose está aumentada e não é suprimida pela oferta exógena, a resistência periférica à insulina está instalada e a captação muscular está reduzida. As quilocalorias excedentes, portanto, não substituem a produção própria: somam-se a ela. A glicemia sobe acima do que subiria, a necessidade de insulina cresce, e aparecem os três efeitos que a própria diretriz brasileira lista para a superalimentação — hiperglicemia, esteatose hepática e hipercapnia.

A hipercapnia merece nota porque é a que menos se associa a nutrição na cabeça do candidato. Excesso de substrato aumenta a produção de gás carbônico, e num paciente com contusão pulmonar ou em desmame ventilatório isso se traduz em mais trabalho respiratório para eliminar o mesmo excedente. A superalimentação, nesse cenário, não é apenas ineficaz contra o catabolismo: ela compete com o objetivo de tirar o paciente do ventilador. É por isso que a alternativa que propõe parenteral hipercalórica como primeira escolha está sempre errada nesse tipo de questão.

Albumina caindo não é desnutrição instalando

A queda progressiva da albumina aparece nas vinhetas como marcador da fase catabólica, e está correta nesse papel. O erro mora um passo adiante, quando o candidato lê a albumina baixa como medida do estado nutricional e conclui que o paciente desnutriu em três dias.

A diretriz brasileira é explícita: albumina, pré-albumina e transferrina são proteínas de fase aguda negativas e caem tanto mais quanto maior for a resposta inflamatória ao trauma cirúrgico; não refletem o estado nutricional quando dosadas na vigência de estresse metabólico e não devem ser usadas para esse fim no pós-operatório. O que elas medem, ali, é intensidade de resposta inflamatória.

O contraste com o balanço nitrogenado fecha a seção. A albumina cai por redistribuição e por reprogramação da síntese hepática, e demora a subir mesmo quando o paciente já melhorou; a excreção de nitrogênio acompanha o catabolismo em tempo real e cai quando ele cede. Para seguir a fase, o parâmetro é o nitrogênio. Para estimar risco antes da cirurgia, a albumina volta a ter valor prognóstico — é o mesmo exame com duas leituras diferentes, separadas pelo momento em que foi colhido.

04

Do enunciado à fase, e da fase à prescrição

São três perguntas com três caminhos. A primeira é em que fase o paciente está, e ela se resolve pelo relógio confirmado pela hemodinâmica — nunca pela glicemia, que está alta nas duas primeiras fases. A segunda é por que a glicemia subiu, e ela tem resposta única: resistência periférica somada a produção hepática aumentada, sob comando dos contrarregulatórios e das citocinas. A terceira é quanto ofertar, e é a única em que as duas diretrizes vigentes divergem em número — divergem, aliás, em unidades diferentes, o que exige converter antes de comparar.

o relogio decide a faserefluxo/ebbfluxo/flow catabolicaanabolica0h24-48hd2-d7d3-8 eletiva . semanas se graveconsumo de O2reduzidoaumentadonormalizadebito cardiacobaixoaltonormaltemperaturahipotermiafebrenormalN urinarioreduzidomuito altocaiglicemiaja altaaltanormalizaa glicemia sobe nas DUAS primeiras: nao separa fasequem separa e o consumo de O2 (e o debito)alta metabolica apos trauma: +20% a 25%

As três fases, linha por linha

A fase de refluxo ocupa as primeiras horas, com duração descrita de 24 a 48 horas, e é hipodinâmica: débito cardíaco baixo, consumo de oxigênio reduzido, hipotermia, vasoconstrição e queda da excreção urinária de nitrogênio. A fase de fluxo se instala depois da ressuscitação e é hiperdinâmica e hipermetabólica: febre, taquicardia, débito cardíaco elevado, gasto energético de repouso aumentado e balanço nitrogenado negativo, com a janela de dano tecidual descrita entre o segundo e o sétimo dia. A fase anabólica chega em 3 a 8 dias após cirurgia eletiva não complicada e leva semanas após trauma grave ou sepse. O detalhe que decide questão: a hiperglicemia existe nas duas primeiras — adrenérgica e por glicogenólise no refluxo, por resistência insulínica no fluxo — de modo que ela não serve como discriminador. Quem separa é o consumo de oxigênio, reduzido numa e aumentado na outra.

BN = proteina/6,25 - (NUU + 4) . 70 kgNUU (g/dia)toda dose zeraaqui a regua escolhida MUDA o sinalnada4102426oferta proteicazera o balanco se o NUU ficar abaixo de1,2 g/kg (fase inicial, ate D4)9,441,3 g/kg (teto europeu na UTI)10,562,0 g/kg (recuperacao, trauma)18,402,5 g/kg (recuperacao, trauma)24,001 g de N = 6,25 g de proteina = ~25 g de massa magra

O balanço nitrogenado, e onde a régua muda o sinal

O balanço é o nitrogênio ingerido, que é a proteína ofertada dividida por 6,25, menos a excreção urinária de nitrogênio ureico, menos a constante de perdas insensíveis, habitualmente tomada como 4 gramas por dia. Num paciente de 70 kg, a oferta de 1,2 grama por quilo só zera o balanço se a excreção ficar abaixo de 9,44 gramas por dia; com 1,3, abaixo de 10,56; com 2,0, abaixo de 18,40; e com 2,5, abaixo de 24,00 exatos. Varrendo a excreção de 4 a 26 gramas por dia, existe uma faixa de quinze valores inteiros, de 10 a 24, em que a dose escolhida inverte o sinal do balanço. Abaixo de 10 qualquer uma das quatro ofertas zera; acima de 24 nenhuma zera, nem a mais agressiva das duas diretrizes. Essa última frase é a prova aritmética do que a questão de conduta cobra: a nutrição atenua, não reverte.

alvo calorico da fase inicial: duas unidadesescala: kcal/kg/dia ENTREGUES12141517,52022ESPEN: 70% de 20-25= 14 a 17,5BRASPEN: 15 a 20 (ja e o alvo)acordo: 15 a 17,5so BRASPEN20-25 kcal/kg no ESPEN e o DENOMINADOR, nao o alvoler errado = 100% do gasto: ate +525 kcal/dia num 70 kg

Duas réguas, duas unidades

A diretriz brasileira dá o alvo calórico inicial já pronto, em 15 a 20 kcal/kg por dia. A europeia dá um teto relativo: não exceder 70% do gasto energético, e, na ausência de calorimetria, estimar o gasto por equações simples da ordem de 20 a 25 kcal/kg por dia. Convertendo, o alvo europeu entregue é 70% de 20 a 25, ou seja, 14 a 17,5 kcal/kg por dia. As duas concordam entre 15 e 17,5, e divergem na faixa de 17,5 a 20, que a brasileira autoriza e a europeia não. O erro de leitura mais caro é tomar os 20 a 25 kcal/kg do documento europeu como alvo: eles são o denominador, a estimativa do gasto. Entregá-los é ofertar 100% em vez de 70%, o que num paciente de 70 kg significa até 525 kcal a mais por dia.

Balanço nitrogenado por oferta proteica e excreção — paciente de 70 kg, constante de perdas insensíveis de 4 g/dia

Excreção de N ureico (g/dia)1,2 g/kg1,3 g/kg2,0 g/kg2,5 g/kgA régua muda o sinal?
8+1,44+2,56+10,40+16,00Não — todas zeram
9+0,44+1,56+9,40+15,00Não — todas zeram
10−0,56+0,56+8,40+14,00Sim — começa aqui
12−2,56−1,44+6,40+12,00Sim
16−6,56−5,44+2,40+8,00Sim
18−8,56−7,44+0,40+6,00Sim
19−9,56−8,44−0,60+5,00Sim — 2,0 g/kg já não basta
20−10,56−9,44−1,60+4,00Sim
24−14,56−13,44−5,600,00Sim — último valor
25−15,56−14,44−6,60−1,00Não — nenhuma zera

Alvo calórico da fase inicial: a mesma regra de 70% sobre denominadores diferentes, e a leitura que erra

RotaDenominadorTeto de ofertaEm 70 kg
Equação preditiva, sem calorimetria20 a 25 kcal/kg estimados14 a 17,5 kcal/kg980 a 1225 kcal/dia
Calorimetria, paciente hipermetabólicogasto medido, 20% a 25% acima da base16,8 a 21,875 kcal/kg1176 a 1531 kcal/dia
Régua brasileira, fase inicialnão usa denominador relativo15 a 20 kcal/kg1050 a 1400 kcal/dia
Leitura equivocada do documento europeutoma o denominador como alvo20 a 25 kcal/kg1400 a 1750 kcal/dia

A ordem de leitura da vinheta é tempo, hemodinâmica, metabolismo. Invertê-la é o que faz o candidato marcar fase de fluxo num paciente de primeira hora só porque a glicemia veio alta.

Hipotermia no enunciado é dado de fase, e não apenas de exposição. No refluxo ela acompanha a queda do consumo de oxigênio; num paciente de terceiro dia, febril, ela não teria lugar.

A constante de perdas insensíveis não é consenso entre os textos. Trocar 4 por 2 desloca a fronteira em exatos 2 gramas de nitrogênio, o equivalente a 12,5 gramas de proteína — quando o enunciado der a fórmula, use a dele.

O teto de 70% aparece duas vezes no documento europeu com comparadores diferentes: abaixo de 70% quando a necessidade é estimada por equação, e não excedendo 70% quando o gasto é medido por calorimetria. Não é contradição, são denominadores distintos.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanta proteína na recuperação do traumatizado

Até 2,0 a 2,5 g/kg na fase de recuperação do trauma

Nas fases precoces as metas seguem as do paciente crítico em geral, alcançadas progressivamente; ao longo da fase de recuperação o plano é reajustado para oferta calórica que pode alcançar 40 kcal/kg por dia e necessidade proteica de até 2,0 a 2,5 gramas por quilo. A justificativa declarada é que o hipermetabolismo do traumatizado é mais prolongado e a perda muscular mais intensa que a do crítico médio. O mesmo documento fixa, para o crítico em geral, até 1,2 g/kg na fase inicial e 1,3 a 2 g/kg após o quarto dia.

Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023, item 14.2 (nível de evidência: baixo)

Sem sustentação acima de 1,3 g/kg na doença crítica

Durante a doença crítica, 1,3 grama de equivalentes proteicos por quilo por dia pode ser entregue progressivamente. O comentário é explícito ao dizer que não há sustentação para recomendar doses mais altas que 1,3 g/kg por dia, exceto para ganho de massa muscular em pacientes individuais, e que doses médias, nem baixas nem altas, associam-se aos melhores desfechos. O ensaio de maior porte sobre dose proteica não encontrou diferença global e registrou mortalidade aumentada entre os pacientes com injúria renal aguda sorteados para oferta proteica alta.

ESPEN practical and partially revised guideline: Clinical nutrition in the intensive care unit, 2023, recomendação 25 / R22 (grau 0, consenso forte de 92%)

Na prova

Os escopos não são o mesmo, e o enunciado diz qual está em jogo. O número europeu governa a doença crítica em geral, com o freio vindo de um ensaio em que o dano apareceu no subgrupo renal; o número brasileiro é específico da fase de recuperação do traumatizado e vem declarado com nível de evidência baixo pela própria diretriz. Quando a vinheta trouxer paciente de terapia intensiva sem qualificar o mecanismo, ou trouxer injúria renal aguda, o recorte é o do teto conservador. Quando trouxer politraumatizado ou grande queimado já fora da fase aguda, com hipermetabolismo prolongado explicitado, o recorte é o da oferta ampliada. Reconhecer a fase e a comorbidade renal, e não decorar um número único, é o que a questão está medindo.

Quanta caloria na fase inicial, e em que unidade

15 a 20 kcal/kg entregues, progredindo entre o quarto e o sétimo dia

A recomendação é iniciar com oferta energética mais baixa, cerca de 15 a 20 kcal/kg, e progredir para 25 a 30 kcal/kg entre o quarto e o sétimo dia, nos pacientes já em fase pós-aguda ou de recuperação. Havendo calorimetria indireta, ofertar entre 50% e 70% do gasto aferido na fase inicial e progredir para 100% após o quarto dia. O número está expresso na unidade em que se prescreve.

Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023, item 3.2 (nível de evidência: baixo)

Não exceder 70% do gasto energético na fase aguda inicial

Nutrição hipocalórica, não excedendo 70% do gasto energético, deve ser administrada na fase aguda inicial; e, quando a necessidade for estimada por equação preditiva em vez de medida, a oferta abaixo de 70% do estimado deve ser preferida à isocalórica durante a primeira semana de terapia intensiva, com risco relativo de 0,92 e intervalo de confiança de 95% entre 0,86 e 0,99. Na ausência de calorimetria, de consumo de oxigênio ou de produção de gás carbônico, o documento sugere estimar por equações simples da ordem de 20 a 25 kcal/kg por dia — número que é a base do cálculo, não a oferta.

ESPEN practical and partially revised guideline, 2023, recomendações 22 e 23 / R19 e R17 (grau B, consenso forte de 95% e 100%)

Na prova

A divergência aqui é menor do que parece e some quase toda na conversão. Setenta por cento de 20 a 25 dá 14 a 17,5 kcal/kg por dia, faixa que se sobrepõe à brasileira entre 15 e 17,5; sobra uma faixa de 2,5 kcal/kg, de 17,5 a 20, autorizada por uma e não pela outra. O sinal no enunciado é a unidade: quando a questão der porcentagem do gasto energético, ela está na régua europeia e cobra o teto de 70%; quando der kcal/kg direto, está na brasileira e cobra a faixa de 15 a 20 no começo, com progressão entre o quarto e o sétimo dia. O que nenhuma das duas aceita é oferta plena na primeira fase, e é isso que a alternativa de superalimentação sempre viola.

Glutamina e imunonutrientes no traumatizado

Devem ser consideradas, com benefício potencial em cicatrização e no traumatismo cranioencefálico

As fórmulas com glutamina ou outros imunonutrientes devem ser consideradas no trauma, com potencial benefício em cicatrização e desfecho em alguns subgrupos, como por exemplo no traumatismo cranioencefálico. O mesmo documento registra, no subgrupo de queimados, benefício da glutamina enteral em redução de mortalidade e de tempo de internação hospitalar, ressalvando que o estudo que deu força a essa associação tem grupo pequeno e foi desenhado para avaliar prevenção de infecções, e não mortalidade.

Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023, item 14.2 (nível de evidência: baixo)

O texto de apoio da própria diretriz cita metanálise sem diferença em nenhum desfecho

Em metanálise de 8 estudos randomizados e controlados envolvendo 372 pacientes com trauma, o uso de fórmulas imunomoduladoras não mostrou diferença em infecções, tempo de internação hospitalar ou mortalidade em comparação com controles que receberam fórmulas enterais padrão, com destaque para a heterogeneidade entre os estudos. A diretriz acrescenta que a indicação permanece controversa por se respaldar em estudos de pequeno número amostral e que o nível ideal e a combinação ideal desses agentes ainda não foram determinados.

Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023, texto de fundamentação do item 14.2

Na prova

A divergência aqui é interna a um único documento, e reconhecer isso vale mais que decorar um lado. A recomendação usa o verbo considerar, não recomendar, e vem declarada com nível de evidência baixo justamente porque o texto que a sustenta cita um resultado nulo em 372 pacientes. O recorte do avaliador aparece no subgrupo que o enunciado escolhe: quando a vinheta traz traumatismo cranioencefálico ou grande queimado, ela está no terreno em que a diretriz admite benefício potencial; quando traz politraumatizado genérico, está no terreno da metanálise sem diferença. Alternativa que afirme benefício estabelecido em mortalidade para o traumatizado em geral é falsa sob qualquer das duas leituras, e é o distrator mais frequente do tema.

06

Caso resolvido

Homem de 28 anos, 70 kg, motociclista, colidiu em alta velocidade há cerca de uma hora. Chega sonolento, com pele fria e pegajosa, pressão arterial de 85 por 50 mmHg, frequência cardíaca de 128, frequência respiratória de 24, saturação de 94% em ar ambiente, temperatura axilar de 35,4 graus e diurese reduzida. A avaliação inicial mostra hipotensão por perda volêmica, com débito cardíaco e consumo de oxigênio diminuídos. A glicemia capilar é de 148 mg/dL e ele não tem diabetes. Após a ressuscitação e a laparotomia, evolui em terapia intensiva; no terceiro dia, sem foco infeccioso identificável, está com temperatura de 38,5 graus, frequência cardíaca de 112, débito cardíaco elevado, gasto energético de repouso aumentado, glicemia de 182 mg/dL, insulinemia normal, nitrogênio ureico urinário de 16 gramas em 24 horas e albumina em queda progressiva.
Datar antes de rotular
A primeira leitura é o relógio: cerca de uma hora de lesão. Esse dado sozinho já põe o paciente na fase de refluxo, cuja duração descrita vai até 24 a 48 horas. A hemodinâmica confirma sem ambiguidade — hipotensão, extremidades frias, débito cardíaco e consumo de oxigênio diminuídos, temperatura de 35,4 graus. Só depois de fixar a fase é que os demais dados são interpretados.
Não deixar a glicemia mover o diagnóstico
A glicemia de 148 num paciente sem diabetes é esperada nessa fase e vem da descarga adrenérgica somada à glicogenólise hepática, que sustenta a produção por 12 a 24 horas. Ela não indica hipermetabolismo. Se a hiperglicemia fosse tomada como marcador de fase, este paciente seria classificado como fluxo, contra a hipotermia, o baixo débito e o consumo de oxigênio reduzido — os três dados que mandam.
Reconhecer a virada no terceiro dia
No terceiro dia tudo inverteu: febre, taquicardia, débito cardíaco elevado e gasto energético de repouso aumentado. É a fase de fluxo catabólica, que se instala após a ressuscitação, tipicamente a partir de 24 a 48 horas, e cuja janela de dano tecidual é descrita entre o segundo e o sétimo dia. A ausência de foco infeccioso identificável é parte do quadro, não uma lacuna da investigação.
Explicar a glicemia pelo mecanismo certo
A insulinemia normal com glicemia de 182 elimina a hipótese de deficiência. O que existe é resistência periférica à insulina somada a gliconeogênese e glicogenólise hepáticas aumentadas, sob comando de cortisol, catecolaminas e glucagon em sinergia com as citocinas pró-inflamatórias. É o quadro que a literatura chama de diabetes do trauma.
Fazer a conta do nitrogênio
Suponha oferta enteral de 84 gramas de proteína por dia, que é 1,2 grama por quilo neste paciente de 70 kg. O nitrogênio ingerido é 84 dividido por 6,25, ou 13,44 gramas. As perdas são os 16 gramas de nitrogênio ureico urinário mais a constante de 4, totalizando 20. O balanço é de 6,56 gramas negativos por dia. Para zerá-lo com essa oferta, a excreção precisaria estar abaixo de 9,44 gramas por dia.
Perguntar se aumentar a oferta resolveria
Com 1,3 grama por quilo, o limite de excreção que ainda permitiria zerar seria de 10,56 gramas por dia, e este paciente excreta 16. Seria preciso chegar a 2,0 gramas por quilo, cujo limite é 18,40, para o balanço virar positivo com essa excreção. O ponto pedagógico é que a decisão de subir a oferta não se toma para fechar a conta, e sim de acordo com a fase e as comorbidades — enquanto o estímulo inflamatório persiste, a nutrição atenua a perda sem anulá-la.
Traduzir a perda em massa
Perder 20 gramas de nitrogênio por dia equivale a 125 gramas de proteína, e pela composição do tecido úmido a cerca de 500 gramas de massa magra por dia. Uma semana nesse ritmo é da ordem de 3,5 quilos de massa magra. É esse número, e não a albumina, que dimensiona o problema.
Ler a albumina como o que ela é
A queda progressiva da albumina em três dias não é desnutrição instalada. Albumina, pré-albumina e transferrina são proteínas de fase aguda negativas e caem em proporção à resposta inflamatória ao trauma cirúrgico; a diretriz brasileira desaconselha usá-las como marcador de estado nutricional no pós-operatório. O parâmetro que segue a fase em tempo real é a excreção de nitrogênio.
Prescrever pelo que as duas diretrizes concordam
Via enteral, iniciada nas primeiras 24 a 48 horas depois de atingida a estabilidade hemodinâmica, com metas alcançadas progressivamente: começar por 15 a 20 kcal/kg e até 1,2 grama de proteína por quilo, subindo a partir do quarto dia. Nada de meta plena na fase aguda, nada de parenteral como primeira escolha e nada de jejum. A ampliação para 2,0 a 2,5 gramas por quilo pertence à fase de recuperação, não ao terceiro dia.
07

Agora feche você

Mulher de 60 anos, 65 kg, vítima de queimadura em 35% da superfície corporal, está no quinto dia em terapia intensiva. Apresenta hipermetabolismo intenso, taquicardia e febre, com gasto energético de repouso elevado. Não há calorimetria indireta no serviço. O nitrogênio ureico urinário de 24 horas é de 19 gramas. A equipe de nutrição pergunta se é possível reverter completamente o balanço nitrogenado negativo aumentando o aporte proteico-calórico, e propõe passar direto para nutrição parenteral hipercalórica por considerar a via enteral insuficiente. A albumina está em 2,1 g/dL e alguém sugere usá-la como meta de resposta nutricional.
Nomeie a fase e diga com que dado
Diga em que fase a paciente está e cite os dois achados que sustentam a resposta, sem usar a febre isolada. Depois explique por que o quinto dia de um grande queimado não se comporta como o quinto dia de uma cirurgia eletiva não complicada, usando os prazos de transição de cada situação.
Responda à pergunta da equipe de nutrição
Responda se o aporte agressivo reverte o balanço negativo e justifique pelo mecanismo, não pela dose. Em seguida sustente a resposta com a aritmética: calcule, para 65 kg, qual excreção urinária de nitrogênio ainda permitiria zerar o balanço com 1,2 e com 2,5 grama de proteína por quilo, e compare com os 19 gramas medidos.
Decida a via e o momento
Diga se a proposta de parenteral hipercalórica como primeira escolha se sustenta e cite o que cada uma das duas diretrizes recomenda sobre via e prazo de início. Liste três complicações esperadas da superalimentação e diga por que jejuar seria pior que ofertar pouco.
Monte a oferta pelas duas réguas e compare
Sem calorimetria, calcule a oferta calórica diária em quilocalorias que resulta da régua brasileira da fase inicial e a que resulta da régua europeia, convertendo o teto relativo em kcal/kg antes de multiplicar pelo peso. Diga onde as duas concordam, onde divergem, e qual leitura equivocada do documento europeu produziria a maior oferta das três.
Recuse a meta errada e proponha a certa
Explique por que a albumina de 2,1 g/dL não serve como meta de resposta nutricional nesta paciente, nomeando a classe de proteína a que ela pertence nesse contexto. Proponha em seguida quais parâmetros seguir, incluindo o que a diretriz brasileira sugere para o seguimento do queimado, e diga em que situação a albumina volta a ter valor.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de fase de fluxo porque a glicemia está alta É o erro mais produtivo do tema, porque a hiperglicemia aparece nas duas primeiras fases. No refluxo ela vem da descarga adrenérgica e do consumo do glicogênio hepático, que sustenta a produção por apenas 12 a 24 horas; no fluxo, da resistência periférica com gliconeogênese aumentada. Uma vinheta de primeira hora, com extremidades frias, hipotensão, temperatura de 35 e poucos graus, consumo de oxigênio reduzido e glicemia de 148 é fase de refluxo apesar da glicemia, e não por causa dela. O discriminador é o consumo de oxigênio, e em segundo lugar o débito cardíaco.
  2. 2Ler o consumo de oxigênio como se fosse a saturação As vinhetas costumam trazer os dois, e eles se movem em direções independentes. Saturação de oxigênio é oximetria e pode estar em 94% num paciente com consumo de oxigênio despencando; consumo de oxigênio é a medida do quanto o organismo está queimando, e é ele que define hipo ou hipermetabolismo. Quando o enunciado dedicar uma frase inteira a informar que o consumo de oxigênio está reduzido, ele está entregando a fase.
  3. 3Explicar a hiperglicemia por falta de insulina O enunciado quase sempre informa que a insulinemia está normal ou elevada, e essa informação existe para eliminar as alternativas de deficiência. Destruição autoimune de células beta é fisiopatologia do diabetes tipo 1 e não é desencadeada por estresse cirúrgico. Alternativas que falem em queda dos hormônios contrarregulatórios, em excesso funcional de insulina com captação periférica aumentada, ou em bloqueio da lipólise, invertem todas o mecanismo: na fase de fluxo os contrarregulatórios estão altos e a lipólise está aumentada.
  4. 4Achar que aporte agressivo zera o balanço nitrogenado A aritmética diz que não. Enquanto a excreção urinária de nitrogênio ureico estiver acima de 24 gramas por dia num paciente de 70 kg, nem a oferta de 2,5 gramas de proteína por quilo zera o balanço; e acima de 10,56 já não basta o teto europeu de 1,3. O catabolismo é dirigido pela resposta neuroendócrino-inflamatória, e a oferta proteica compete com ele sem desligá-lo. A alternativa correta desse tipo de questão sempre contém o verbo atenuar, e as erradas contêm reverter, anular ou eliminar.
  5. 5Tomar 20 a 25 kcal/kg como alvo europeu No documento europeu esse intervalo é a estimativa do gasto energético para quando falta calorimetria, e a recomendação seguinte manda entregar menos de 70% dessa estimativa na primeira semana. Quem prescreve 20 a 25 kcal/kg acreditando seguir a régua europeia está entregando 100% do estimado. Num paciente de 70 kg a diferença chega a 525 kcal por dia, exatamente o tipo de superalimentação que a recomendação existe para evitar.
  6. 6Usar albumina como termômetro nutricional no pós-operatório Albumina, pré-albumina e transferrina são proteínas de fase aguda negativas: caem em proporção à resposta inflamatória ao trauma cirúrgico e não refletem estado nutricional quando dosadas sob estresse metabólico. A própria diretriz brasileira diz que não devem ser usadas com esse fim no pós-operatório, enquanto reconhece o valor prognóstico da albumina dosada no pré-operatório. É o mesmo exame com duas leituras, separadas pelo momento da coleta.
  7. 7Confundir a fase adrenérgico-corticoide com o refluxo A expressão pertence a outra descrição da resposta ao trauma, organizada em quatro etapas, na qual a passagem do catabolismo para o anabolismo é chamada de fase de retirada corticoide. Alternativas que misturem esse vocabulário com o das marés costumam ser distratores construídos exatamente para quem decorou palavras soltas. A fase inicial do modelo de duas marés chama-se refluxo, e nada mais.
  8. 8Adiar a nutrição até a fase anabólica É o oposto do que as duas diretrizes recomendam. A brasileira manda iniciar a via enteral nas primeiras 24 a 48 horas do traumatizado, assim que houver estabilidade hemodinâmica, com nível de evidência moderado; a europeia manda iniciar a enteral dentro de 48 horas quando a via oral não é possível, com grau B e consenso de 100%. O que se posterga é a meta plena, não o início. Jejum na fase catabólica agrava a perda de massa magra.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Cuthbertson descreveu duas grandes fases após o trauma: a fase de refluxo (ebb), imediata (primeiras ~24-48h), marcada por hipoperfusão, hipovolemia, queda do consumo de O2 e do gasto energético, hipotermia e prioridade na manutenção da volemia — exatamente o quadro descrito. A fase de fluxo (flow) catabólica vem DEPOIS do ebb, com hipermetabolismo, febre e balanço nitrogenado negativo — não corresponde ao período de baixo metabolismo descrito. A fase de fluxo anabólica é ainda mais tardia, de recuperação e ganho de massa. (D) "Fase adrenérgico-corticoide de recuperação" é terminologia de Moore, não a fase inicial de Cuthbertson. A fase anabólica tardia é o período de convalescença, oposto ao descrito.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as três fases na ordem, com o nome em português e em inglês, e de cada uma diga a duração, o que acontece com o consumo de oxigênio, com o débito cardíaco, com a temperatura e com a excreção urinária de nitrogênio. Diga em quais delas a glicemia está alta e por qual mecanismo em cada uma. Escreva a fórmula do balanço nitrogenado de memória e calcule-a para um paciente de 70 kg recebendo 1,2 grama de proteína por quilo com excreção de 16 gramas por dia. Por fim, diga o prazo e a via de início da nutrição no traumatizado segundo a diretriz brasileira, com o nível de evidência que ela declara.

em 30 dias

Reconstrua sem consultar a tabela das quatro ofertas proteicas com o limite de excreção que cada uma consegue compensar num paciente de 70 kg, e diga em que faixa de excreção a escolha da diretriz inverte o sinal do balanço. Converta o teto calórico europeu da fase aguda para kcal/kg e compare com a faixa brasileira, apontando os 2,5 kcal/kg de divergência e explicando qual erro de leitura transforma o denominador em alvo. Depois monte, para um mesmo paciente, duas prescrições que seriam corretas sob cada régua, e diga qual pergunta do enunciado faria você escolher uma ou outra. Termine explicando por que a albumina cai e por que a excreção de nitrogênio é o parâmetro que acompanha a fase.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 55 anos chega à emergência trazido pelo resgate após ferimento abdominal por arma branca ocorrido há cerca de quarenta minutos. Está pálido, taquicárdico, com extremidades frias e pressão limítrofe. Conduza a avaliação inicial, decida a ressuscitação e a indicação cirúrgica, e depois acompanhe a evolução no pós-operatório: identifique em que fase da resposta metabólica ele está a cada momento, explique a hiperglicemia que aparecer e defina quando, por que via e com que metas iniciar o suporte nutricional. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Resposta metabólica ao trauma: o relógio separa as fases — Preparatório para provas | OsceLabs