Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de ferida

A ferida que infecta e a parede que abre são o mesmo problema em dois tempos: a infecção do sítio cirúrgico é o fator de risco isolado mais forte para a deiscência da aponeurose. E a régua brasileira mudou em janeiro de 2026 — o período de vigilância deixou de depender do implante e passou a depender do procedimento, valendo igual para os três planos. Aqui a prova cobra número: em que plano, dentro de quantos dias, com que critério se notifica, quando o antibiótico entra e quando abrir a incisão basta.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 70 anos, desnutrida, tabagista com tosse crônica, no 7º dia de pós-operatório de laparotomia mediana. Refere sensação súbita de 'estalo' na ferida ao tossir e, em seguida, encharcamento do curativo por líquido rósseo/salmão. PA 130×80 mmHg, FC 88 bpm, T 36,9 °C, sem dor abdominal difusa. À inspeção, a ferida está sem hiperemia e sem saída de pus, e não há exposição de alças. Qual o próximo passo mais adequado?

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Como esse tema cai

Este capítulo é sobre a ferida depois que ela deu errado. A infecção de sítio cirúrgico que aparece no quinto dia — incisão quente, drenando secreção, bordas afastando — e a parede abdominal que se abre no nono, com ou sem víscera aparecendo. A prevenção, que é a dose de antimicrobiano quarenta minutos antes da incisão e a classificação da ferida em limpa, potencialmente contaminada, contaminada e infectada, tem capítulo próprio nesta apostila. Aqui a pergunta é outra: como se chama o que está acontecendo, dentro de que prazo isso ainda pertence à cirurgia, o que se faz com a incisão e quando o antibiótico entra.

As duas metades do capítulo não estão juntas por conveniência editorial. Elas estão juntas porque a infecção de ferida é o fator de risco isolado mais forte para a deiscência da aponeurose no primeiro modelo de risco construído e validado para a população cirúrgica geral: razão de chances ajustada de 6,43, à frente da ascite, da doença pulmonar crônica e da urgência. Quem trata mal a primeira encontra a segunda.

O Brasil tem documento próprio, e ele é oficial — e mudou. A Nota Técnica GVIMS/GGTES/Dire3/Anvisa nº 03/2026, de 2 de janeiro de 2026, é a régua vigente dos critérios diagnósticos, e ela redefiniu o período de vigilância: ele passou a depender do procedimento, e não da presença de implante. Quem estudou pelo manual de 2017 aprendeu a regra antiga, e a diferença aparece exatamente nas questões que trazem uma data. O Protocolo de Prevenção de ISC da Anvisa, de 2025, define a vigilância pós-alta e os indicadores. A régua do tratamento, que nenhum desses documentos escreve, vem da diretriz de infecções de pele e partes moles da Infectious Diseases Society of America, cujas recomendações 22 a 26 tratam especificamente do sítio cirúrgico.

O que a prova cobra tem cinco endereços. Primeiro, os três planos e os dois relógios: 30 ou 90 dias conforme o procedimento, com a contagem começando no dia da cirurgia. Segundo, o que não é infecção de sítio cirúrgico — e essa lista derruba mais candidato que a lista do que é. Terceiro, a conduta: abrir a incisão é o tratamento, o antibiótico é o adjuvante, e existem quatro números que autorizam esse adjuvante. Quarto, a deiscência da aponeurose, com seu dia característico e seu escore. Quinto, a diferença entre deiscência e evisceração, que muda a urgência da resposta.

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O que muda decisão

Três planos, uma regra de profundidade

A Anvisa classifica a infecção de sítio cirúrgico pelo plano anatômico acometido, e a figura dos critérios é uma escada de quatro degraus: pele, tecido celular subcutâneo, fáscia e músculos, órgão ou cavidade. A infecção incisional superficial fica em pele e tecido subcutâneo. A incisional profunda envolve tecidos moles profundos à incisão, isto é, fáscia e músculo. A de órgão ou cavidade envolve qualquer órgão ou cavidade mais profunda que fáscia e músculo, aberta ou manipulada durante a cirurgia — a precisão da redação vigente importa, porque é ela que impede classificar como órgão/cavidade uma coleção que ainda está no plano muscular.

A regra que resolve a maior parte das questões de classificação está numa nota de atenção logo abaixo dos quadros: caso a infecção envolva mais de um plano anatômico, reporte apenas o sítio de maior profundidade. Um abscesso intracavitário que drena pela incisão e produz secreção purulenta na pele não é duas infecções, nem é uma infecção superficial: é uma infecção de órgão/cavidade. O sentido é epidemiológico — a taxa mede o evento mais grave, não o número de planos por onde ele apareceu.

O dreno mudou de lado entre as duas versões do documento, e vale saber qual está sendo cobrada. O manual de 2017 advertia que a eliminação de secreção purulenta através de drenos não era necessariamente sinal de infecção de órgão/cavidade. A nota técnica de 2026 abre a lista de critérios de ISC de órgão/cavidade justamente com a drenagem purulenta de um dreno colocado no órgão ou espaço — dando como exemplos o sistema de drenagem de sucção fechado, o dreno aberto, o dreno de tubo em T e a drenagem guiada por tomografia. A régua vigente é a de 2026: pus saindo por dreno posicionado no órgão ou espaço operado fecha o critério.

Duas observações de atribuição atravessaram as duas versões e continuam valendo: osteomielite de esterno após cirurgia cardíaca e endoftalmite são infecções de órgão/cavidade, e em cirurgias endoscópicas com penetração de cavidade aplicam-se os mesmos critérios de órgão/cavidade. Outras duas só constam do manual de 2017, e é de lá que vêm: em cirurgia oftalmológica, a conjuntivite é definida como infecção incisional superficial; e toda infecção do trato urinário após cirurgia urológica é considerada infecção de sítio cirúrgico de órgão/cavidade.

Uma regra nova entrou em 2026 e resolve o caso da revascularização do miocárdio, que tem duas feridas: havendo mais de uma incisão, considera-se a ocorrência de infecção em todas as incisões. A nomenclatura acompanha — incisional primária é a identificada na incisão principal, e incisional secundária, a da incisão secundária, como a área doadora da safena. A regra do plano mais profundo continua valendo, mas dentro de cada incisão.

Corte da parede abdominal em quatro camadas — pele, tecido celular subcutâneo, fáscia com músculo, e cavidade — atravessadas por uma incisão vertical, com cada plano associado a um tipo de infecção de sítio cirúrgico.
A profundidade da coleção é o que nomeia a infecção — e quando ela ocupa mais de um plano, notifica-se apenas o mais profundo.

Os dois relógios: 30 ou 90 dias, e quem decide é o procedimento

Esta é a régua que mudou, e é a que separa quem estudou pelo documento vigente de quem estudou pelo anterior. Até 2017, o período de vigilância dependia da infecção: a incisional superficial tinha 30 dias sempre, e a profunda e a de órgão/cavidade subiam para 90 dias quando havia implante. A nota técnica de 2026 inverteu o eixo — o período depende do procedimento, e vale igual para os três planos. O próprio histórico de alterações do documento diz isso com todas as letras: a nota foi inserida nos três critérios para deixar claro que, independentemente de a infecção ser superficial, profunda ou de órgão/cavidade, o tempo de vigilância está relacionado ao procedimento e não à classificação da infecção. A tabela antiga, que aplicava os 90 dias só à profunda e à de órgão/cavidade, foi excluída.

São seis os procedimentos com vigilância de 90 dias, e a lista é fechada: implante de prótese mamária, implante de prótese de quadril primária, implante de prótese de joelho primária, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e cirurgia de catarata. A cesariana é monitorada por 30 dias. Repare no que a palavra 'primária' faz na lista: revisão de artroplastia não está nela. E repare no que a catarata faz ali — é uma cirurgia sem prótese no sentido intuitivo do termo, e mesmo assim tem 90 dias, porque o critério é o procedimento, não o material.

Essas sete cirurgias — as seis de 90 dias mais a cesariana — são também as que compõem a lista de infecções de sítio cirúrgico de notificação nacional obrigatória para 2026. Vigilância e notificação obrigatória, aqui, andam juntas: o documento define o período justamente para os procedimentos cujas infecções o país acompanha nacionalmente.

A contagem tem um detalhe que decide questão com data: o 1º dia É A data do procedimento. Ou seja, a janela de 30 dias se fecha no vigésimo nono dia depois da cirurgia, e a de 90 dias, no octogésimo nono. Um paciente operado em 1º de março tem a janela de 30 dias encerrada em 30 de março; uma secreção purulenta que aparece em 31 de março está fora.

Uma regra nova cuida da reoperação, e ela é contraintuitiva em dois sentidos. Se, durante o período de vigilância, o paciente precisa voltar ao centro cirúrgico para nova abordagem no mesmo sítio operatório, o período de vigilância reinicia do zero. O exemplo do próprio documento: revascularização do miocárdio em 13 de junho, nova abordagem no mesmo sítio em 15 de junho por necrose — os 90 dias passam a contar de 15 de junho, essa nova abordagem não entra no denominador das revascularizações, e, se houver infecção, a data da infecção continua sendo 13 de junho, a do procedimento inicial. Relógio novo, denominador intocado, data antiga.

Existe um terceiro relógio, muito mais longo, e ele cai em prova de infectologia e de cirurgia plástica. Identificada micobactéria não tuberculosa ou de crescimento rápido, considera-se até 24 meses após o procedimento como critério para diagnóstico de infecção de sítio cirúrgico. É o cenário dos surtos ligados a vídeocirurgia e a implantes: paciente que abre um trajeto fistuloso meses depois, com cultura convencional negativa. A notificação é obrigatória e se faz pelo formulário nacional de notificação de surtos em serviços de saúde.

A vigilância acompanha o mesmo relógio depois que o paciente vai embora. Vigilância pós-alta é o método de busca ativa de infecção em quem já recebeu alta, mantida durante todo o período de vigilância da ISC — isto é, 30 ou 90 dias, a depender do procedimento. Busca ativa quer dizer telefonema, retorno programado, revisão de prontuário: não é esperar o paciente voltar.

O que NÃO é infecção de sítio cirúrgico

A nota técnica de 2026 carrega uma única exclusão, e ela está no rodapé dos critérios incisionais: não considerar inflamação mínima e drenagem de secreção limitada aos pontos de sutura como infecção de sítio cirúrgico incisional. É o abscesso de ponto, e ele não conta.

O manual de critérios de 2017 traz a lista longa, que continua sendo o ensino clássico do tema e o repertório de distratores da prova. Não são definidos como ISC superficial: o diagnóstico ou tratamento de celulite isolada — vermelhidão, calor e inchaço sem coleção; o abscesso do ponto; e a infecção de episiotomia e de circuncisão do neonato.

A exclusão da celulite tem uma cláusula que precisa ser lida inteira, porque é a chave da questão bem feita: uma incisão que é drenada, ou na qual se identifica microrganismo em cultura ou por método molecular, não é considerada uma celulite. Quer dizer: hiperemia perilesional sozinha não vira notificação; hiperemia perilesional com pus que sai, ou com microrganismo identificado, é infecção de sítio cirúrgico superficial e conta.

A mesma prudência aparece do lado clínico, no relógio da febre. Alteração cutânea plana e avermelhada ao redor da incisão pode ocorrer na primeira semana sem edema e sem drenagem, e a maioria se resolve sem tratamento nenhum — a causa provável é sensibilidade ao adesivo ou outra agressão tecidual local, não bactéria. Antibiótico iniciado logo depois da operação, ou mantido por períodos longos, não previne nem cura essa inflamação.

Um quarto grupo fica de fora por não caber na definição de cirurgia. Para a vigilância, o manual de 2017 define cirurgia em paciente internado como o procedimento realizado dentro do centro cirúrgico com pelo menos uma incisão, em regime de internação superior a 24 horas, excluídos desbridamento cirúrgico, drenagem, episiotomia e biópsias que não envolvam vísceras ou cavidades. Um desbridamento de úlcera de pressão feito no centro cirúrgico não entra no denominador — e, portanto, o que acontece com aquela ferida depois não entra no numerador.

Reconhecer: o que a ferida mostra e quando ela mostra

Os sinais locais de dor, edema, hiperemia e drenagem purulenta são a informação mais confiável para o diagnóstico de infecção de sítio cirúrgico. Em obesos e em feridas profundas de vários planos, como depois de toracotomia, os sinais externos podem atrasar — a coleção está funda e a parede é espessa. É nesses pacientes que a imagem entra, e é neles que a ausência de sinal externo não afasta a hipótese.

A cronologia dá três marcos que valem como régua. Infecção de sítio cirúrgico raramente ocorre nas primeiras 48 horas, e a febre nesse intervalo geralmente vem de causa não infecciosa ou desconhecida; quando ela é infecciosa e é da ferida, quase sempre se trata de Streptococcus pyogenes ou de Clostridium — dois agentes que exigem inspeção imediata da incisão e levantam a suspeita de infecção necrosante. Depois de 48 horas, a ferida passa a ser fonte comum de febre. E, por volta do quarto dia, a febre é igualmente provável por infecção de sítio cirúrgico ou por outra causa.

Isso resolve a armadilha mais frequente do pós-operatório: febre no primeiro dia não é motivo para prescrever antibiótico e nem para abrir a ferida às cegas; é motivo para examinar a incisão em busca dos sinais que apontam estreptococo ou clostrídio, e para procurar as causas não cirúrgicas. Já a febre do quinto dia, com incisão dolorosa e endurecida, é infecção de ferida até prova em contrário.

Nos critérios vigentes, a incisão superficial fecha o diagnóstico com pelo menos um de quatro achados: drenagem purulenta da incisão superficial; microrganismo identificado em secreção ou tecido da incisão superficial obtido assepticamente, por cultura ou por outro método microbiológico não baseado em cultura; a incisão superficial ser deliberadamente aberta pelo cirurgião ou outro médico na vigência de dor, aumento da sensibilidade, edema local, hiperemia ou calor; ou o diagnóstico de infecção superficial feito pelo cirurgião ou outro médico. Duas mudanças em relação ao manual de 2017 merecem atenção: o terceiro critério perdeu a ressalva 'exceto se a cultura for negativa', e o segundo passou a aceitar identificação por método microbiológico não baseado em cultura, desde que feito para diagnóstico clínico ou tratamento — teste de vigilância não vale.

A infecção incisional profunda é a que mais mudou, e a mudança tem consequência clínica. Pelo critério vigente, é preciso que a incisão profunda tenha sido aberta ou aspirada pelo cirurgião ou outro médico, E que haja microrganismo identificado nos tecidos moles profundos ou que nenhum exame de identificação tenha sido realizado — cultura feita com resultado negativo não preenche o critério —, E que o paciente apresente pelo menos um entre febre acima de 38 °C, dor ou aumento da sensibilidade localizada. Os outros três critérios seguem independentes: drenagem purulenta da incisão profunda não originada de órgão/cavidade; abscesso ou outra evidência de infecção em exame clínico, anatomopatológico ou de imagem; e o diagnóstico feito pelo cirurgião ou médico assistente.

O que saiu do texto vale tanto quanto o que ficou: o manual de 2017 listava a deiscência espontânea profunda como equivalente à incisão aberta pelo cirurgião dentro desse critério, e a redação de 2026 exige a incisão aberta ou aspirada por médico. A parede que se abre sozinha continua sendo o evento clínico grave que este capítulo trata na segunda metade — apenas deixou de fechar, por si, o critério de notificação. Mudou também o sinal do limiar: a febre que compõe o critério era de 38 °C ou mais no manual antigo e é acima de 38 °C no texto vigente, o que deixa exatamente 38,0 °C fora.

Cultura: o que vale, o que não vale

Os critérios trazem uma nota de rodapé repetida em todos os quadros e que quase nunca é lida: não serão considerados os resultados de culturas positivas quando coletadas através de SWABS, isto é, hastes com ponta de algodão. O que vale é secreção ou tecido obtido assepticamente, por cultura ou por outro método microbiológico não baseado em cultura — e mesmo esses só contam quando realizados para diagnóstico clínico ou tratamento, e não como teste de vigilância. Passar a haste na superfície da ferida colhe a flora que colonizou a borda, não o agente que está infectando o plano profundo.

A consequência prática é de técnica, não de burocracia: o material bom é aspirado de coleção por punção asséptica ou fragmento de tecido colhido durante a abertura da incisão. Em coleção de órgão/cavidade, a punção guiada por imagem cumpre esse papel. Cultura de ponta de dreno não substitui nenhuma das duas.

Cultura, porém, não é pré-requisito para tratar. A conduta diante de uma incisão com pus é abrir, drenar e desbridar; a coleta acontece no mesmo ato. Esperar resultado de cultura para abrir uma ferida coleccionada inverte a ordem do tratamento e é o erro que transforma uma coleção superficial em coleção profunda.

Há uma assimetria fina entre não colher e colher errado, e ela está escrita: no critério da infecção incisional profunda, a ausência de exame de identificação preserva o critério, mas uma cultura realizada com resultado negativo o derruba. Colher mal, portanto, custa mais do que não colher — mais uma razão para o material vir de punção asséptica ou de fragmento retirado durante a abertura.

O tratamento é mecânico — o antibiótico é adjuvante e tem quatro números

A recomendação 22 da diretriz da Infectious Diseases Society of America é de uma linha e é forte: retirada dos pontos com incisão e drenagem. É esse o tratamento da infecção de sítio cirúrgico incisional. A frase que a acompanha no corpo do documento vale como princípio geral do pós-operatório: a suspeita de possível infecção de sítio cirúrgico não justifica o uso de antibiótico sem diagnóstico definitivo e sem a instituição de outras medidas terapêuticas, como abrir a ferida.

A antibioticoterapia sistêmica adjuvante não está indicada de rotina. Ela pode ser benéfica, em conjunto com a incisão e a drenagem, quando há resposta sistêmica significativa, e a diretriz define essa resposta por quatro parâmetros: eritema e endurecimento estendendo-se por mais de 5 cm além da borda da ferida; temperatura acima de 38,5 °C; frequência cardíaca acima de 110 batimentos por minuto; ou contagem de leucócitos acima de 12.000/µL. Basta um.

Esses quatro números não são os critérios de síndrome da resposta inflamatória sistêmica, e a confusão entre os dois é um distrator elegante. Na mesma diretriz, a decisão sobre antibiótico em abscesso e furúnculo usa limiares mais baixos — temperatura acima de 38 °C ou abaixo de 36 °C, frequência respiratória acima de 24, frequência cardíaca acima de 90 bpm, leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 400/µL. Um paciente de pós-operatório com 38,2 °C e 100 bpm cumpre a régua de SIRS e não cumpre a régua de resposta sistêmica significativa da infecção de sítio cirúrgico.

Há uma indicação com força forte, e ela é específica: curso breve de antimicrobiano sistêmico está indicado em infecção de sítio cirúrgico que se segue a operações limpas de tronco, cabeça e pescoço ou extremidades e que também apresentam sinais sistêmicos de infecção. A palavra que define a indicação é 'limpa' — a lógica é que a flora ali é de pele, e a infecção estafilocócica de uma ferida limpa evolui mal quando só drenada.

A escolha do agente segue o sítio operado, e essa é a parte que a prova cobra com nome de droga. Para operação limpa, o esperado é Staphylococcus aureus: cefalosporina de primeira geração ou penicilina antiestafilocócica quando sensível à meticilina; vancomicina, linezolida, daptomicina, telavancina ou ceftarolina quando os fatores de risco para MRSA são altos — colonização nasal conhecida, infecção prévia por MRSA, internação recente, uso recente de antibiótico. Para infecções que se seguem a operações da axila, do trato gastrointestinal, do períneo ou do trato genital feminino, é preciso cobrir gram-negativos e anaeróbios: cefalosporina ou fluoroquinolona associada a metronidazol.

Repare no que a axila faz nessa lista. Ela aparece ao lado do trato gastrointestinal e do períneo porque a flora axilar é rica em gram-negativos e anaeróbios — uma ferida de esvaziamento axilar que infecta não se trata como ferida de pele. É o tipo de item que separa quem decorou 'limpa igual a cefazolina' de quem entendeu a regra.

A taxa: como o serviço mede, e as três regras de atribuição

A taxa de infecção de sítio cirúrgico tem no numerador o número total de ISC relacionadas a um procedimento cirúrgico no período e, no denominador, o número total de procedimentos cirúrgicos realizados no período, multiplicado por 100. O cálculo é feito por procedimento para fins de notificação; em serviços de menor volume, admite-se calcular por especialidade, para avaliação interna. E recomenda-se um acúmulo mínimo de 30 procedimentos no denominador — abaixo disso a taxa oscila demais para significar alguma coisa.

A primeira regra de atribuição é a que mais surpreende: as infecções devem ser computadas na data em que O procedimento cirúrgico foi realizado, não na data em que foram identificadas. O próprio manual traz o exemplo: 40 herniorrafias em março de 2016, com uma ISC superficial identificada em 25 de março e uma ISC profunda identificada em 3 de abril; a taxa de março é (2 / 40) × 100 = 5%. A infecção de abril entrou na taxa de março porque a cirurgia foi em março.

A segunda regra trata de reoperação: em procedimentos múltiplos inter-relacionados, em datas diferentes do mesmo período e no mesmo paciente, a infecção é atribuída ao primeiro procedimento realizado. Reoperar não zera o relógio nem transfere a infecção para a segunda cirurgia.

A terceira trata de procedimentos combinados pelo mesmo acesso cirúrgico: computa-se apenas o procedimento de maior risco, segundo uma hierarquia descendente de quatro níveis — A, abertura de víscera oca ou mucosa; B, procedimento de maior duração; C, porte da cirurgia; D, inserção de prótese. Colecistectomia com herniorrafia inguinal videolaparoscópica com tela, pelo mesmo acesso, sem abertura de víscera oca: desce-se ao nível B, e computa-se a de maior duração. Já procedimentos diferentes por acessos diferentes são notificados todos, no numerador e no denominador; e procedimentos simétricos ou bilaterais por acessos diferentes contam como um só — prótese mamária bilateral é um procedimento, a mamoplastia bilateral.

A nota técnica de 2026 acrescentou uma quarta regra, sobre a reabordagem. Quando o paciente volta ao centro cirúrgico para nova abordagem no mesmo sítio dentro do período de vigilância, esse novo procedimento não entra no denominador, o período de vigilância recomeça a partir dele, e a data da infecção continua sendo a do procedimento inicial. É a única situação em que o relógio e o denominador andam em sentidos diferentes.

O Protocolo de 2025 fecha o desenho com dois indicadores de resultado: a taxa de ISC em cirurgias limpas, de análise mensal, e a taxa estratificada por tipo de procedimento. Para a estratificação, ele manda incluir prioritariamente os procedimentos de notificação compulsória definidos pela Anvisa — cesariana, mamoplastia com prótese, artroplastias, revascularização do miocárdio e derivações neurológicas internas.

Quando a parede abre: deiscência e evisceração

Deiscência da ferida operatória é a ruptura parcial ou total dos planos que a constituem. Quando a ruptura atinge todas as camadas da parede abdominal e as vísceras se exteriorizam ou ficam expostas, o nome muda: é evisceração. A distinção não é de vocabulário — a deiscência aponeurótica coberta por pele íntegra admite discussão de conduta; a víscera do lado de fora não admite.

A incidência de deiscência da parede abdominal descrita na literatura vai de 0,4% a 3,5%, e a mortalidade relatada chega a 45%. O número global esconde uma variação enorme por cenário: aproximadamente 1% a 3% em cirurgia eletiva, 5% a 50% em cirurgia de urgência e 5% a 10% em laparotomia por trauma. A coorte nacional dinamarquesa que acompanhou 14.169 pacientes operados eletivamente por câncer de cólon por via aberta encontrou deiscência em 549 (3,9%), e mostrou que ela não é só um problema de parede: a sobrevida em 5 anos foi de 42,4% nos que abriram contra 53,4% nos que não abriram, com razão de risco ajustada de 1,22 (IC 95% 1,06-1,39), mortalidade em 90 dias com razão de chances de 1,60 (1,12-2,27) e mais correções posteriores de hérnia incisional.

O dia é característico e vale decorar. Na série de Rotterdam, com 363 casos, a apresentação média foi no 9º dia de pós-operatório, com amplitude de 0 a 32 dias e 90% de todos os casos ocorrendo antes do 15º dia. A série brasileira de 252 pacientes ressuturados por evisceração, num hospital terciário do sul de Santa Catarina, encontrou mediana de 8 dias entre a cirurgia índice e a ressutura — os dois números se sobrepõem, e a literatura descreve a evisceração concentrada entre o 4º e o 14º dia.

O sinal que antecede a abertura tem cor e nome: a drenagem clássica cor de salmão é preocupante para deiscência fascial. Drenagem nova ou nitidamente aumentada pela ferida, e abaulamento novo da parede abdominal, são indicadores de que a fáscia cedeu. O sintoma que o paciente relata costuma ser uma sensação de tração ou de estalo, desencadeada por tosse, esforço ou vômito — e é preciso perguntar ativamente por náusea, vômito e obstipação, porque quadro obstrutivo muda a urgência. Do ponto de vista da vigilância, atenção: pela redação vigente, a deiscência espontânea sozinha não fecha o critério de infecção incisional profunda — ele exige incisão aberta ou aspirada por médico, com microrganismo identificado ou exame não realizado, e febre acima de 38 °C, dor ou aumento da sensibilidade localizada. Era o manual de 2017 que listava a deiscência espontânea profunda nesse critério.

As causas relatadas na série de Rotterdam desenham o mecanismo: em 29% dos casos o fio rasgou a fáscia, em 9% houve infecção, em 8% o fio se rompeu, em 6% houve necrose fascial e em 4% os nós estavam frouxos — e em 44% nenhuma explicação foi registrada. O fio rasgando o tecido, e não o fio se rompendo, é o mecanismo dominante: o problema quase nunca é a resistência do material, é a resistência do tecido em que ele foi ancorado.

O desfecho tardio de quem abre e é fechado de novo é a hérnia incisional, relatada em até 31% dos pacientes em algumas séries — o que transforma a deiscência num evento com duas contas a pagar, uma na internação e outra anos depois.

O escore de Rotterdam: onde a infecção pesa mais que a ascite

O primeiro modelo de risco de deiscência construído e validado para a população cirúrgica geral saiu de 363 casos comparados a 1.089 controles, num serviço que realizou 429.906 procedimentos entre 1985 e 2005. Dez fatores independentes sobraram na regressão: idade, sexo masculino, doença pulmonar crônica, ascite, icterícia, anemia, cirurgia de urgência, tipo de cirurgia, tosse no pós-operatório e infecção de ferida.

Os pesos do escore são os coeficientes da regressão, e a hierarquia deles é a lição da seção. infecção de ferida vale 1,9 — o maior peso isolado da tabela, acima da ascite (1,5) e do esôfago como sítio operado (1,5). Na análise multivariada, a razão de chances ajustada da infecção de ferida foi de 6,43 (IC 95% 4,56-9,06); na comparação bruta, ela estava presente em 52% dos pacientes que abriram a parede contra 11% dos controles. Nenhum outro fator chega perto.

Isso reorganiza a conduta à beira do leito. Diante de uma incisão infectada no quinto dia, a decisão de abrir, drenar e desbridar não é só o tratamento da infecção: é a intervenção disponível sobre o fator de risco mais forte para a parede abrir no nono. Tosse no pós-operatório, que vale 1,4 e é a segunda maior variável modificável da tabela, entra na mesma lógica — analgesia que permita tossir com a mão apoiando a incisão, fisioterapia respiratória e controle do broncoespasmo não são cuidados acessórios.

O escore tem máximo teórico de 10,6 pontos. Na validação, com 686 pacientes operados em 2006, a incidência de deiscência foi de 2,8% (19 casos), e os escores dos que abriram foram significativamente maiores. Vale um exercício com a tabela: homem de 72 anos, com doença pulmonar crônica, anemia, operado de urgência do cólon, soma 1,1 + 0,7 + 0,7 + 0,7 + 0,6 + 1,4 = 5,2 pontos. Se ele infectar a ferida, soma mais 1,9 e vai a 7,1 — pelas faixas de risco reproduzidas na série brasileira, ele sai de um patamar em torno de 5,5% para um patamar em torno de 26%.

Prevenir a abertura: pontos pequenos e tela profilática

A técnica de fechamento da linha média mudou, e a mudança tem nome e medida. Pontos pequenos significam passar a agulha a 5 mm da borda, com intervalo de 5 mm entre os pontos, pegando apenas a aponeurose, com fio de polidioxanona 2-0 em agulha de 31 mm. Pontos grandes, a técnica antiga, significam 10 mm por 10 mm, com fio em alça e agulha de 48 mm, frequentemente em massa. A relação entre comprimento de fio e comprimento de ferida se mantém em pelo menos 4 para 1 nos dois casos — o que muda é o tamanho da mordida.

O ensaio holandês que testou as duas técnicas em laparotomia mediana eletiva randomizou 559 pacientes em 10 centros e foi seguido por 13 anos. A incidência cumulativa de hérnia incisional foi de 34% com pontos pequenos contra 49% com pontos grandes, razão de risco de 0,61 (IC 95% 0,43-0,86); a de hérnias com mais de 20 mm foi de 17% contra 34%, razão de risco de 0,36 (0,21-0,60); e as hérnias que ocorreram eram menores — largura média de 25 mm contra 43 mm. A diferença absoluta de 15 pontos percentuais no desfecho principal significa que fechar cerca de sete laparotomias com a técnica de pontos pequenos evita uma hérnia incisional em 13 anos.

A metanálise mais recente, com 5.886 pacientes de 7 ensaios randomizados e 5 estudos comparativos, aponta na mesma direção e acrescenta um dado que interessa às duas metades deste capítulo: além de menos hérnia incisional (razão de chances 0,47; IC 95% 0,38-0,58) e menos deiscência da linha alba (0,60; 0,38-0,93), os pontos pequenos se associaram a menos infecção de sítio cirúrgico (0,53; 0,42-0,67) e a internação um dia mais curta.

A segunda estratégia é a tela profilática pré-aponeurótica em quem tem risco alto. A série brasileira de 252 eviscerados aplicou retroativamente o escore de Rotterdam modificado por Lima, cuja regra de indicação é escore acima de 2,2 quando há fator de risco, ou acima de 4,0 quando não há; dos 227 pacientes com dados suficientes, 164 — 72,2% — teriam recebido tela, e a evisceração poderia ter sido evitada. A mesma publicação reproduz os números que sustentam a estratégia: numa casuística de 52 pacientes com sutura contra 63 com tela profilática, a deiscência da aponeurose ocorreu em 13,5% no primeiro grupo e em nenhum do segundo, com número necessário para tratar de 7,4.

A leitura honesta desses achados é a de que a régua existe e é aplicável no pré-operatório, e não a de que a tela virou rotina. O desenho retrospectivo, aplicado só a quem já eviscerou, não mede quantos pacientes de baixo risco receberiam tela sem necessidade — e é exatamente esse o custo que os ensaios prospectivos precisam medir.

A parede abriu: o que se faz agora

Evisceração é urgência cirúrgica, e a conduta imediata à beira do leito tem uma frase só: as alças devem ser envolvidas em gaze umedecida com salina morna, para prevenir perdas de fluidos, e o paciente preparado para exploração abdominal de emergência — na qual as alças são reintroduzidas na cavidade e a parede é fechada. Nada de reduzi-las à força no leito, e nada de aguardar exame de imagem para confirmar o que já está visível. Reposição volêmica e jejum completam a preparação.

Há uma regra de imagem que separa os dois cenários e que a prova adora: em paciente estável e sem evisceração, deve-se obter imagem para avaliar a presença e o tamanho do defeito fascial, e a tomografia de abdome e pelve com contraste oferece o detalhe anatômico adequado. Diante de vísceras exteriorizadas, o diagnóstico já está feito pela inspeção e a imagem apenas atrasa a exploração.

A deiscência aponeurótica sem exteriorização de vísceras é o cenário em que existe decisão a tomar, e a série de Rotterdam mostra que ela é tomada nos dois sentidos: dos 363 pacientes, 61 foram tratados de forma conservadora e 302 foram operados, com tempo de internação, idade, mortalidade e comorbidade estatisticamente comparáveis entre os dois grupos. Não é uma comparação randomizada — é a descrição de uma prática —, mas ela desautoriza a leitura de que toda deiscência fascial precisa de reoperação imediata. A condição para cogitar o manejo não operatório está escrita com precisão: paciente estável, sem evidência de complicação infecciosa subjacente, e com a pele sobre o defeito fascial permanecendo fechada — porque é ela que está impedindo a evisceração.

Quando se reopera, a recidiva não é rara: entre os 302 reoperados dessa série, 29 apresentaram nova deiscência dentro de 30 dias da reoperação, e 6 deles tiveram uma segunda recidiva. É esse número que sustenta a discussão sobre como fechar, e não apenas se fechar — e é o assunto do bloco de divergências.

O que não muda em nenhum cenário é o cuidado com a causa. A parede que abriu num paciente com infecção de ferida não se resolve com fio mais grosso: exige drenagem e desbridamento do que estiver infectado, controle da tosse e da distensão abdominal, correção da anemia e atenção ao estado nutricional. Reoperar a parede sem tratar o que a fez ceder é comprar a recidiva.

04

Da incisão suspeita à parede fechada

Três decisões encadeadas organizam o tema: nomear o que está acontecendo — em que plano e dentro de que prazo —, decidir o que se faz com a incisão e se o antibiótico entra, e reconhecer quando o problema deixou de ser a pele e passou a ser a aponeurose. As tabelas trazem os critérios vigentes da Anvisa, os períodos de vigilância por procedimento, os quatro números que autorizam o antimicrobiano sistêmico, os pesos do escore de Rotterdam e a separação entre os três eventos da parede.

  1. 11. Datar. Contar os dias desde a cirurgia, lembrando que o 1º dia é a data do procedimento, e verificar QUAL foi o procedimento: seis cirurgias têm vigilância de 90 dias — prótese mamária, prótese primária de quadril, prótese primária de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata —, a cesariana tem 30, e o prazo vale igual para os três planos.
  2. 22. Examinar a incisão. Procurar drenagem purulenta, dor, edema, hiperemia, calor, endurecimento e afastamento de bordas; medir até onde o eritema se estende a partir da borda. Nas primeiras 48 horas, procurar especificamente sinais de infecção por estreptococo ou clostrídio.
  3. 33. Classificar pelo plano acometido: superficial (pele e subcutâneo), profunda (fáscia e músculo) ou órgão/cavidade (mais profunda que fáscia e músculo). Fechando mais de um plano, computa-se o mais profundo. Havendo mais de uma incisão, avalia-se cada incisão.
  4. 44. Excluir o que não conta: celulite sem coleção nem cultura, abscesso do ponto, episiotomia, circuncisão de neonato e eritema plano da primeira semana sem edema nem drenagem.
  5. 55. Tratar mecanicamente: retirar os pontos, abrir, drenar e desbridar. Colher secreção ou tecido por punção asséptica ou durante a abertura — nunca swab.
  6. 66. Decidir o antibiótico sistêmico: indicado quando há eritema e endurecimento além de 5 cm da borda, temperatura acima de 38,5 °C, frequência cardíaca acima de 110 bpm ou leucócitos acima de 12.000/µL; e indicado em cirurgia limpa de tronco, cabeça e pescoço ou extremidades com sinais sistêmicos.
  7. 77. Escolher o agente pelo sítio: cobertura antiestafilocócica nas cirurgias limpas; cobertura de gram-negativos e anaeróbios nas de axila, trato gastrointestinal, períneo e trato genital feminino.
  8. 88. Reavaliar a aponeurose. Drenagem cor de salmão, drenagem nova ou nitidamente aumentada, abaulamento novo da parede e sensação de tração ou estalo ao tossir mudam o problema de plano — e, no paciente estável e SEM evisceração, a tomografia de abdome e pelve com contraste avalia presença e tamanho do defeito fascial.
  9. 99. Evisceração: envolver as alças em gaze umedecida com salina morna para prevenir perda de fluidos, não reduzi-las à força, repor volume e preparar para exploração abdominal de emergência.
  10. 1010. Notificar e contar: computar a infecção na data do procedimento; atribuí-la ao primeiro procedimento em caso de reoperação; manter fora do denominador a reabordagem do mesmo sítio, reiniciando por ela o período de vigilância; e, em procedimentos combinados pelo mesmo acesso, computar apenas o de maior risco pela hierarquia A a D.

Superficial

Pele e tecido subcutâneo apenas. O prazo é o do PROCEDIMENTO — 30 ou 90 dias —, e não mais 30 dias fixos: desde a nota técnica de 2026, a superficial acompanha a mesma janela da profunda e da de órgão/cavidade. Drenagem purulenta, microrganismo identificado em material colhido assepticamente, abertura deliberada por médico com sinais locais, ou diagnóstico do médico assistente.

Profunda

Fáscia e músculo, no mesmo prazo do procedimento. O critério composto exige incisão ABERTA OU ASPIRADA por médico, mais microrganismo identificado ou exame não realizado — cultura negativa derruba o critério —, mais febre acima de 38 °C, dor ou aumento da sensibilidade localizada. A deiscência espontânea profunda, que o manual de 2017 listava aqui, saiu da redação vigente.

Órgão/cavidade

Órgão ou cavidade mais profunda que fáscia e músculo, aberta ou manipulada. Exige, além do critério geral, um critério de sítio específico. O primeiro critério da lista vigente é a drenagem purulenta de DRENO COLOCADO NO ÓRGÃO OU ESPAÇO. Osteomielite de esterno após cirurgia cardíaca e endoftalmite entram aqui, assim como as cirurgias endoscópicas com penetração de cavidade.

Deiscência da aponeurose

Ruptura da linha de sutura da aponeurose, com ou sem pele íntegra por cima. Apresentação média no 9º dia de pós-operatório, 90% dos casos antes do 15º. Quando todas as camadas se rompem e as vísceras se exteriorizam, o nome é evisceração e a conduta é centro cirúrgico. Fator de risco isolado mais forte: infecção da ferida.

Classificação e critérios definidores de infecção de sítio cirúrgico (Anvisa, Nota Técnica nº 03/2026)

ClassificaçãoPlano acometidoPrazoBasta UM destes critérios
Incisional superficialApenas pele e tecido subcutâneoAté 30 ou 90 dias conforme o PROCEDIMENTO, sendo o 1º dia a data do procedimentoDrenagem purulenta da incisão superficial; microrganismo identificado em secreção ou tecido obtido assepticamente, por cultura ou outro método microbiológico não baseado em cultura; incisão superficial deliberadamente aberta pelo cirurgião ou outro médico com dor, aumento da sensibilidade, edema local, hiperemia ou calor; diagnóstico de infecção superficial pelo cirurgião ou outro médico
Incisional profundaTecidos moles profundos à incisão (fáscia e/ou músculos)Até 30 ou 90 dias conforme o PROCEDIMENTODrenagem purulenta da incisão profunda, não originada de órgão/cavidade; incisão profunda aberta OU aspirada por médico E microrganismo identificado nos tecidos profundos ou exame não realizado (cultura negativa NÃO preenche) E febre > 38 °C, dor ou aumento da sensibilidade localizada; abscesso ou outra evidência em exame clínico, anatomopatológico ou de imagem; diagnóstico pelo cirurgião ou médico assistente
Órgão/cavidadeÓrgão ou cavidade MAIS PROFUNDA que fáscia e músculo, aberta ou manipulada na cirurgiaAté 30 ou 90 dias conforme o PROCEDIMENTODrenagem purulenta de dreno colocado no órgão/espaço (sucção fechada, dreno aberto, tubo em T, drenagem guiada por TC); microrganismo identificado em secreção ou tecido do órgão/cavidade obtido assepticamente; abscesso ou outra evidência em exame anatômico, histopatológico ou de imagem conclusivo ou sugestivo; diagnóstico pelo cirurgião, preferencialmente, ou outro médico — E pelo menos um critério de sítio específico
Micobactéria não tuberculosa / de crescimento rápidoQualquer planoAté 24 meses após o procedimentoIdentificação do agente — notificação obrigatória pelo formulário nacional de surtos
Regra de profundidadeFechando superficial e profunda, computa-se a profunda; fechando profunda e órgão/cavidade, computa-se a de órgão/cavidade; fechando superficial e órgão/cavidade, computa-se a de órgão/cavidade
Regra das incisõesHavendo mais de uma incisão, considera-se a ocorrência de ISC em TODAS elas (incisional primária e incisional secundária, como a área doadora da revascularização)

Antibiótico sistêmico na infecção de sítio cirúrgico: quando entra e qual

SituaçãoCondutaForça
Qualquer infecção de sítio cirúrgico incisionalRetirada dos pontos com incisão e drenagem — este é o tratamentoForte, evidência de baixa qualidade
Sem resposta sistêmica significativaAntimicrobiano sistêmico adjuvante NÃO indicado de rotinaFraca, evidência de baixa qualidade
Eritema e endurecimento além de 5 cm da borda, OU temperatura acima de 38,5 °C, OU frequência cardíaca acima de 110 bpm, OU leucócitos acima de 12.000/µLAntimicrobiano sistêmico adjuvante à drenagem — basta um dos quatroFraca, evidência de baixa qualidade
Cirurgia LIMPA de tronco, cabeça e pescoço ou extremidades com sinais sistêmicosCurso breve de antimicrobiano sistêmicoForte, evidência de baixa qualidade
Sítio limpo, S. aureus sensível à meticilinaCefalosporina de 1ª geração ou penicilina antiestafilocócicaForte, evidência de baixa qualidade
Fatores de risco altos para MRSA (colonização nasal, infecção prévia, internação recente, antibiótico recente)Vancomicina, linezolida, daptomicina, telavancina ou ceftarolinaForte, evidência de baixa qualidade
Axila, trato gastrointestinal, períneo ou trato genital femininoCobrir gram-negativos e anaeróbios: cefalosporina ou fluoroquinolona associada a metronidazolForte, evidência de baixa qualidade

Escore de Rotterdam para deiscência da parede abdominal — pesos

VariávelPontos
Infecção de ferida1,9
Ascite1,5
Cirurgia de esôfago1,5
Tosse no pós-operatório1,4
Cirurgia gastroduodenal1,4
Cirurgia de cólon1,4
Cirurgia vascular1,3
Idade acima de 70 anos1,1
Cirurgia de intestino delgado0,9
Idade de 50 a 59 anos0,9
Idade de 60 a 69 anos0,9
Sexo masculino0,7
Doença pulmonar crônica0,7
Anemia0,7
Cirurgia de vesícula ou via biliar0,7
Cirurgia de urgência0,6
Icterícia0,5
Idade de 40 a 49 anos0,4
Máximo teórico do escore10,6

Três eventos da mesma ferida

ItemInfecção incisionalDeiscência da aponeuroseEvisceração
O que aconteceuColeção ou infecção em pele, subcutâneo ou plano profundoRuptura da linha de sutura da fáscia, pele podendo estar íntegraRuptura de todas as camadas com exteriorização ou exposição de vísceras
Momento típicoRaramente antes de 48 horas; a partir do 4º dia a febre já é tão provável dela quanto de outra causaMédia no 9º dia, 90% antes do 15ºConcentrada entre o 4º e o 14º dia
Sinal que avisaDor, edema, hiperemia, endurecimento, drenagem purulentaDrenagem serossanguinolenta abundante em paciente que vinha bemVísceras visíveis ou exteriorizadas na incisão
Primeira condutaRetirar pontos, abrir, drenar, desbridar e colher material adequadoAvaliar a extensão e o paciente; existe espaço para conduta conservadora sem exteriorizaçãoEnvolver as alças em gaze umedecida com salina morna, não reduzir à força, repor volume e exploração abdominal de emergência
Como se notificaISC superficial, profunda ou de órgão/cavidade, conforme o plano mais profundo que fechar critérioSó fecha ISC incisional profunda se a incisão for aberta ou aspirada por médico, com microrganismo identificado ou exame não realizado, e febre > 38 °C, dor ou aumento da sensibilidade localizadaMesmos critérios da incisional profunda, quando presentes
Conta tardiaProlonga internação e aumenta reoperaçãoHérnia incisional em até 31% em algumas sériesHérnia incisional e mortalidade hospitalar mais alta

Períodos de vigilância: quem tem 90 dias, quem tem 30

ProcedimentoPeríodo de vigilância
Implante de prótese mamária90 dias
Implante de prótese de quadril PRIMÁRIA90 dias
Implante de prótese de joelho PRIMÁRIA90 dias
Revascularização do miocárdio90 dias
Derivação interna neurológica90 dias
Cirurgia de catarata90 dias
Cesariana30 dias
Micobactéria não tuberculosa ou de crescimento rápido, em qualquer procedimento24 meses
Nova abordagem no MESMO sítio dentro do períodoReinicia do zero; a reabordagem fica fora do denominador e a data da infecção continua sendo a do procedimento inicial

Como o serviço conta: regras de atribuição da taxa de ISC

SituaçãoRegra
Data de contagemA infecção é computada na data em que o PROCEDIMENTO foi realizado, não na data em que foi identificada
Reoperação (procedimentos inter-relacionados em datas diferentes)A infecção é atribuída ao PRIMEIRO procedimento realizado
Nova abordagem no mesmo sítio dentro do período de vigilânciaNão entra no denominador; o período de vigilância recomeça; a data da infecção continua sendo a do procedimento inicial
Procedimentos combinados pelo MESMO acessoComputa-se apenas o de maior risco: A, abertura de víscera oca ou mucosa; B, maior duração; C, porte; D, inserção de prótese
Procedimentos diferentes por acessos DIFERENTESNotificam-se todos, no numerador e no denominador
Procedimentos simétricos ou bilateraisComputa-se um só procedimento (prótese mamária bilateral = mamoplastia bilateral)
Denominador mínimoAcúmulo mínimo recomendado de 30 procedimentos no período
Vigilância pós-altaBusca ativa por todo o período de vigilância da ISC — 30 ou 90 dias, conforme o procedimento

A contagem define o 1º dia como a DATA DO PROCEDIMENTO. Por isso a janela de 30 dias se encerra no 29º dia depois da cirurgia, e a de 90 dias no 89º — diferença de um dia que só aparece em questão com datas explícitas.

O período de vigilância mudou de eixo entre os dois documentos brasileiros, e a diferença muda a resposta. No manual de critérios de 2017, o prazo dependia da INFECÇÃO e do implante: superficial sempre 30 dias, profunda e órgão/cavidade até 90 dias quando havia implante. Na Nota Técnica nº 03/2026, que é a vigente, o prazo depende do PROCEDIMENTO e vale igual para os três planos, com lista fechada de seis cirurgias de 90 dias e a cesariana com 30. O histórico de alterações do próprio documento registra a inserção da nota nos três critérios e a exclusão da tabela que aplicava os 90 dias apenas à profunda e à de órgão/cavidade.

Dois limiares mudaram de sinal e de palavra na passagem de 2017 para 2026, dentro do critério de infecção incisional profunda: a febre era de 38 °C OU MAIS e passou a ser ACIMA de 38 °C, o que deixa exatamente 38,0 °C sem categoria; e 'tumefação localizada' virou 'aumento da sensibilidade localizada'. No mesmo critério, a deiscência espontânea profunda deixou de figurar como equivalente à incisão aberta pelo cirurgião, e o texto vigente exige incisão aberta OU ASPIRADA por médico.

O papel do dreno se inverteu entre as duas versões. O manual de 2017 advertia que pus saindo por dreno não era necessariamente infecção de órgão/cavidade; a nota técnica de 2026 abre a lista de critérios dessa categoria com a drenagem purulenta de dreno colocado no órgão ou espaço. A régua vigente é a de 2026.

A Nota Técnica nº 03/2026 fixa os períodos de vigilância para os procedimentos cujas infecções são de notificação NACIONAL obrigatória — as seis cirurgias de 90 dias e a cesariana. Fora dessa lista, quem define o que vigiar é o serviço, e o Protocolo de Prevenção de ISC da Anvisa, de 2025, ainda descreve a vigilância pós-alta na formulação antiga: até 30 dias nas cirurgias sem implante e até 90 dias naquelas com implante. Os dois documentos são da mesma agência, estão vigentes e não usam o mesmo eixo. Para classificar e notificar, a régua é a nota técnica; para uma laparotomia eletiva, que não está em nenhuma das duas listas, o horizonte prático continua sendo 30 dias.

Os quatro limiares que autorizam o antimicrobiano sistêmico na infecção de sítio cirúrgico (eritema com endurecimento além de 5 cm, temperatura acima de 38,5 °C, frequência cardíaca acima de 110 bpm, leucócitos acima de 12.000/µL) NÃO são os critérios de síndrome da resposta inflamatória sistêmica. A mesma diretriz, ao tratar de abscesso e furúnculo, usa limiares mais baixos (temperatura acima de 38 °C ou abaixo de 36 °C, frequência respiratória acima de 24, frequência cardíaca acima de 90 bpm, leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 400/µL). Um paciente com 38,2 °C e 100 bpm cumpre a segunda régua e não cumpre a primeira.

A tabela de pesos do escore de Rotterdam atribui 0,9 ponto tanto à faixa de 50 a 59 anos quanto à de 60 a 69 anos — as razões de chances das duas faixas foram praticamente idênticas na regressão (2,44 e 2,43), e o escore preservou essa igualdade em vez de forçar uma progressão.

As faixas de risco do escore reproduzidas na série brasileira aparecem impressas como 0-2, 2-4, 4-6, 6-8 e acima de 8. Escritas assim, os valores 2, 4 e 6 pertencem a duas faixas ao mesmo tempo. A leitura que fecha a tabela sem sobreposição é tomar cada faixa como aberta no limite superior, e é a adotada aqui; a forma impressa fica registrada porque é a que está publicada.

A mesma série brasileira declara amostra final de 252 pacientes, e a tabela de indicação de tela soma 227 classificáveis mais 26 sem dados suficientes, total de 253. A conclusão do artigo se apoia na fração 164/227, que confere: 72,2%.

O modelo de risco de Rotterdam informa, no resumo, que os pacientes sem deiscência na validação eram 677; o corpo do texto e a tabela de características informam 667, e 19 mais 667 fecham os 686 pacientes validados. O número usado aqui é o do corpo do texto.

A metanálise mais recente sobre técnica de sutura tem dois de seus quatro autores vinculados ao departamento de assuntos científicos de um fabricante de fios cirúrgicos, e o próprio documento registra que a recomendação atual da European Hernia Society sobre o tema tem força BAIXA, apoiada em apenas dois ensaios randomizados. O tamanho dos braços do ensaio holandês foi tomado da publicação de seguimento do próprio ensaio, e não da tabela dessa metanálise, que os apresenta invertidos.

As fontes não concordam sobre QUANDO a parede abre. A série de Rotterdam registra apresentação média no 9º dia de pós-operatório, com 90% dos casos antes do 15º; a série brasileira de eviscerados descreve o intervalo de 4º a 14º dia e mediana de 8 dias até a ressutura; e o capítulo de referência norte-americano escreve, no mesmo texto, que a deiscência ocorre mais comumente dentro de 1 a 2 semanas e que ocorre tipicamente entre o 3º e o 7º dia — duas janelas que não coincidem entre si. O número adotado aqui é o da série com 363 casos: média no 9º dia, 90% antes do 15º.

A diferença absoluta de 15 pontos percentuais em hérnia incisional aos 13 anos (34% contra 49%) corresponde a cerca de 7 laparotomias fechadas com pontos pequenos para evitar uma hérnia — número calculado a partir dos percentuais publicados, não fornecido pelo ensaio.

No primeiro dos quatro parâmetros de resposta sistêmica significativa, a diretriz americana escreve eritema E endurecimento estendendo-se além de 5 cm da borda — os dois sinais juntos, num único parâmetro. É entre os QUATRO parâmetros que a conjunção é alternativa: basta um deles. Eritema isolado, sem endurecimento, não preenche o primeiro parâmetro.

Os dois documentos brasileiros definem PROCEDIMENTO CIRÚRGICO de formas diferentes, e a diferença muda o denominador. O manual de critérios de 2017 exige internação superior a 24 horas para a cirurgia de paciente internado e exclui nominalmente desbridamento, drenagem, episiotomia e biópsias que não envolvam vísceras ou cavidades. O protocolo de 2025 adota a definição alinhada ao CDC de 2024 — intervenção invasiva em ambiente de centro cirúrgico com pelo menos uma incisão, por via aberta, laparoscópica ou por orifício de broca craniana, incluindo a reabertura de incisão deixada intencionalmente aberta — e não repete o critério de 24 horas nem a lista de exclusões. Em questão que descreva desbridamento ou drenagem isolada, a régua que responde é a do manual de critérios.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Por quanto tempo uma infecção depois da cirurgia ainda é infecção de sítio cirúrgico

Anvisa, Nota Técnica nº 03/2026 (vigente): o prazo é do PROCEDIMENTO e vale para os três planos

O período de vigilância é determinado pelo procedimento cirúrgico e pode ser de 30 ou de 90 dias, com o 1º dia sendo a data da cirurgia. São seis os procedimentos de 90 dias: implante de prótese mamária, implante de prótese de quadril primária, implante de prótese de joelho primária, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e cirurgia de catarata; a cesariana é monitorada por 30 dias. O histórico de alterações do documento registra que a nota foi inserida nos três critérios — superficial, profunda e órgão/cavidade — para deixar claro que o tempo de vigilância está relacionado ao procedimento e não à classificação da infecção, e que a tabela anterior, com 90 dias apenas para as infecções profunda e de órgão/cavidade, foi excluída.

Nota Técnica GVIMS/GGTES/Dire3/Anvisa nº 03/2026 — Critérios Diagnósticos das IRAS de Notificação Nacional Obrigatória, ano 2026, quadro 35, notas *1, e histórico de alterações.

Anvisa, manual de critérios de 2017: 90 dias quando havia IMPLANTE, e superficial sempre 30

O manual da série Segurança do Paciente fixava a infecção incisional superficial nos primeiros 30 dias em qualquer caso, e as infecções incisional profunda e de órgão/cavidade nos primeiros 30 dias ou até 90 dias se houvesse colocação de implantes — definindo implante como todo corpo estranho implantável não derivado de tecido humano, com exceção expressa dos drenos cirúrgicos. É a régua que a maior parte do material didático ainda reproduz.

Anvisa. Critérios Diagnósticos de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde, 2ª ed., 2017, Quadro 1 e seção de definições.

IDSA (2014): 1 ano quando houve inserção de prótese

A diretriz de infecções de pele e partes moles da Infectious Diseases Society of America descreve a infecção incisional profunda como aquela que ocorre dentro de 30 dias da operação, ou dentro de 1 ANO se uma prótese foi inserida, aplicando as mesmas restrições de tempo à infecção de órgão/espaço; e registra que os padrões de vigilância obrigam seguimento de 30 dias para operações sem material protético e de 1 ano para aquelas com prótese inserida.

Stevens DL et al. Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Skin and Soft Tissue Infections: 2014 Update by the IDSA. Clin Infect Dis. 2014;59(2):e10-e52, seção VII.

Na prova

Três pistas resolvem. A primeira é a DATA do documento citado: enunciado que fale em nota técnica, notificação nacional obrigatória de 2026, vigilância pós-alta ou lista de procedimentos está na régua vigente, em que o prazo é do procedimento e a lista de 90 dias tem seis nomes; enunciado que amarre os 90 dias à presença de implante e fixe a superficial em 30 dias está reproduzindo o manual de 2017, que é o que a maioria dos materiais de cursinho ainda ensina. A segunda é o PLANO: alternativa que dê prazos diferentes para superficial e para profunda no mesmo procedimento está na régua antiga. A terceira é o cenário: se a questão é de infectologia clínica, cita a IDSA ou discute tratamento de infecção de prótese, aparece 1 ano. E, quando o enunciado descreve trajeto fistuloso meses depois de implante com culturas convencionais negativas, o número não é nenhum dos três: são os 24 meses da micobactéria não tuberculosa ou de crescimento rápido.

Como fechar a parede abdominal que abriu

Ressutura primária: prática majoritária e conduta conservadora possível na deiscência sem exteriorização

Na maior série publicada sobre deiscência da parede abdominal, com 363 casos, 302 pacientes foram tratados operatoriamente e 61 de forma conservadora, com tempo de internação, idade, mortalidade e comorbidades estatisticamente comparáveis entre os dois grupos. Entre os reoperados, 29 apresentaram nova deiscência dentro de 30 dias e 6 tiveram uma segunda recidiva. A ressutura primária permanece a conduta mais frequente e não foi superada em desfechos de curto prazo. O manejo não operatório tem condição escrita: paciente estável, sem evidência de complicação infecciosa subjacente, e com a pele sobre o defeito fascial permanecendo fechada — porque é ela que impede a evisceração.

van Ramshorst GH et al. Abdominal Wound Dehiscence in Adults: Development and Validation of a Risk Model. World J Surg. 2010;34(1):20-27; e Andronic F, Sequeira Campos MB, Sandhu R. Fascial Dehiscence. StatPearls, atualizado em 23 de janeiro de 2026, NBK551644.

Tela sintética: menos hérnia incisional, com infecção equivalente

Revisão de 19 estudos com 632 pacientes comparou o fechamento da deiscência com tela sintética e com ressutura primária. A hérnia incisional ocorreu em 11,1% (19/171) com tela contra 30,7% (67/218) com ressutura, com razão de chances de 4,01 (IC 95% 1,70-9,46) desfavorável à ressutura. A infecção de sítio cirúrgico foi equivalente nos dois grupos (27,6% na ressutura contra 27,9% na tela), com necessidade de explantar a tela em cinco pacientes. A recidiva não diferiu de forma estatisticamente significativa. Os autores classificam os estudos incluídos como de qualidade baixa a muito baixa.

Denys A, Monbailliu T, Allaeys M, Berrevoet F, van Ramshorst GH. Management of abdominal wound dehiscence: update of the literature and meta-analysis. Hernia. 2021;25:449-462.

Na prova

O eixo é o desfecho que o enunciado persegue. Se a pergunta é sobre o que acontece no curto prazo — recidiva na internação, infecção da própria reoperação —, as duas estratégias empatam, e a alternativa que promete menos infecção com tela está errada. Se a pergunta olha para o futuro do paciente — hérnia incisional, reoperação tardia —, a tela sintética tem a vantagem demonstrada. Cenário com vísceras expostas, instabilidade ou contaminação grosseira desloca a questão inteira: ali não se está escolhendo material, está-se controlando uma urgência. E qualquer alternativa que apresente esses dados como evidência de alta qualidade contraria a própria fonte, que classifica os estudos incluídos como de qualidade baixa a muito baixa.

Pontos pequenos como padrão de fechamento da linha média

Evidência acumulada favorece consistentemente os pontos pequenos

O seguimento de 13 anos do ensaio holandês, com 559 pacientes de laparotomia mediana eletiva, encontrou hérnia incisional cumulativa de 34% com pontos pequenos contra 49% com pontos grandes (razão de risco 0,61; IC 95% 0,43-0,86), e hérnias mais estreitas nos que receberam a técnica. A metanálise de 7 ensaios randomizados e 5 estudos comparativos, com 5.886 pacientes, encontrou menos hérnia incisional (razão de chances 0,47; 0,38-0,58), menos infecção de sítio cirúrgico (0,53; 0,42-0,67), menos deiscência da linha alba (0,60; 0,38-0,93) e internação um dia mais curta.

van den Berg R et al. Small Bites vs Large Bites for Closure of Abdominal Midline Incisions: A Randomized Clinical Trial. JAMA Surg. 2026;161:566-573; e Golling M, Baumann P, Kuger F, Fortelny RH. SUBITE — a systematic review and meta-analysis. Hernia. 2026;30:art. 1.

A recomendação formal de sociedade permanece com força baixa

A própria metanálise registra que a força da recomendação da European Hernia Society sobre a técnica de sutura para fechamento da parede abdominal é BAIXA e se apoia apenas em dois ensaios randomizados — motivo declarado pelos autores para conduzir a revisão e propor uma atualização da diretriz. A série brasileira de eviscerados descreve a técnica como recomendada nos guias mais recentes, mas com nível de evidência ainda baixo, e registra que a padronização não estava difundida no serviço estudado.

Golling M et al. SUBITE. Hernia. 2026;30:art. 1 (introdução e discussão); e Tomasi JF et al. Eviscerações são evitáveis? Rev Col Bras Cir. 2025;52:e20253814 (discussão).

Na prova

A divergência aqui não é de direção — é de FORÇA. Todo o corpo de evidência aponta para o mesmo lado, e a recomendação formal ainda é fraca. Enunciado que pergunta pela técnica com melhor desfecho, cita medidas em milímetros ou fala em relação entre comprimento de fio e de ferida está no terreno dos ensaios, e a resposta é 5 mm por 5 mm apenas na aponeurose. Enunciado que pergunta pelo GRAU de recomendação, cita a European Hernia Society ou pede o nível de evidência está no terreno da diretriz, e ali a força é baixa. Alternativa que descreve pontos pequenos como sutura em massa contradiz a própria técnica: o ponto pequeno pega só a aponeurose.

06

Caso resolvido

Homem de 63 anos, tabagista, com doença pulmonar obstrutiva crônica, submetido a hemicolectomia direita por adenocarcinoma há 6 dias, por laparotomia mediana. Vinha evoluindo bem até ontem. Hoje refere dor crescente na incisão e calafrios. Temperatura axilar 38,7 °C, frequência cardíaca 118 bpm, pressão arterial 122 x 74 mmHg. A incisão apresenta hiperemia que se estende cerca de 7 cm além da borda em seu terço inferior, endurecimento e saída de secreção purulenta espessa à compressão. Não há crepitação, não há bolhas e a pele não está acinzentada. Leucócitos 16.400/mm³. O paciente tosse com frequência e refere que a tosse dói.
achado
Sexto dia de pós-operatório, com drenagem purulenta pela incisão: está bem dentro de qualquer período de vigilância e preenche, sozinho, o primeiro critério definidor de infecção de sítio cirúrgico. A cronologia também confere — infecção de ferida é rara antes de 48 horas e passa a ser causa comum de febre a partir do quarto dia.
achado
O plano ainda é superficial pela avaliação clínica: hiperemia, endurecimento e pus na incisão, sem coleção profunda e sem sinais de coleção intracavitária. A classificação definitiva depende do que se encontra ao abrir — se houver drenagem purulenta originada do plano profundo, a notificação sobe para incisional profunda; se houver abscesso intracavitário drenando pela incisão, a notificação é de órgão/cavidade, porque se computa apenas o plano mais profundo que fechar critério.
achado
Quatro dos parâmetros de resposta sistêmica significativa estão presentes, e bastaria um: eritema com endurecimento estendendo-se além de 5 cm da borda (7 cm, com endurecimento), temperatura acima de 38,5 °C (38,7 °C), frequência cardíaca acima de 110 bpm (118 bpm) e leucócitos acima de 12.000/µL (16.400). O antimicrobiano sistêmico adjuvante está indicado — mas como adjuvante, não como substituto da drenagem.
achado
O sítio operado foi o cólon. A cobertura não é apenas antiestafilocócica: infecções que se seguem a operações do trato gastrointestinal exigem agentes ativos contra gram-negativos e anaeróbios, como cefalosporina ou fluoroquinolona associada a metronidazol. Prescrever cefalosporina de primeira geração isolada aqui é aplicar a régua da cirurgia limpa a uma cirurgia que abriu víscera oca.
achado
A ausência de crepitação, de bolhas, de necrose cutânea e de dor desproporcional aos achados afasta, neste momento, a suspeita de infecção necrosante — que seria a hipótese dominante se o quadro tivesse aparecido nas primeiras 48 horas, intervalo em que Streptococcus pyogenes e Clostridium respondem por quase toda infecção de ferida.
achado
Este paciente acumula fatores de risco para deiscência da aponeurose: infecção de ferida (1,9 no escore de Rotterdam), tosse no pós-operatório (1,4), cirurgia de cólon (1,4), sexo masculino (0,7), doença pulmonar crônica (0,7) e idade de 63 anos (0,9) — 7,0 pontos. Sem a infecção seriam 5,1. A drenagem, aqui, é também prevenção da parede que pode abrir por volta do nono dia.
conduta
Retirar os pontos sobre a área comprometida, abrir a incisão, drenar e desbridar o tecido desvitalizado — este é o tratamento, e não pode ser adiado à espera de cultura ou de imagem. Colher secreção ou fragmento de tecido durante a abertura, por técnica asséptica; não colher com swab, porque cultura de haste com ponta de algodão não é considerada. Explorar digitalmente o fundo da ferida para verificar a integridade da aponeurose. Iniciar antimicrobiano sistêmico adjuvante com cobertura de gram-negativos e anaeróbios, pela cirurgia de cólon, e reavaliar com o resultado da cultura. Curativos e reavaliação diária da ferida. Analgesia que permita tossir com a incisão apoiada, fisioterapia respiratória e otimização do broncoespasmo, porque a tosse é o segundo fator modificável mais pesado para deiscência. Notificar como infecção de sítio cirúrgico do plano mais profundo encontrado na abertura, computando o caso na data da hemicolectomia.
07

Agora feche você

Mulher de 71 anos, com ascite por cirrose e desnutrição, submetida a laparotomia mediana de urgência por obstrução intestinal há 9 dias. No quinto dia teve a incisão aberta por drenagem purulenta, com culturas colhidas e antibioticoterapia em curso. Esta manhã, ao se sentar, refere sensação de 'algo cedendo' e a enfermagem observa saída abundante de líquido serossanguinolento pelo curativo. Ao exame: incisão com afastamento das bordas em toda a extensão do terço médio, com alças intestinais visíveis e parcialmente exteriorizadas. Pressão arterial 104 x 62 mmHg, frequência cardíaca 106 bpm, temperatura 37,8 °C, abdome sem defesa. Hemoglobina 9,2 g/dL, albumina 2,4 g/dL.
achado
Nono dia de pós-operatório, com ruptura de todas as camadas e alças visíveis e exteriorizadas: é evisceração, e não apenas deiscência. O dia é o característico — a apresentação média da deiscência da parede é no 9º dia, com 90% dos casos antes do 15º.
achado
A drenagem abundante de líquido serossanguinolento pelo curativo é o sinal que costuma anteceder a abertura da parede, e neste caso já veio acompanhado da exteriorização. Para a notificação, atenção à redação vigente: a deiscência espontânea, sozinha, não fecha mais o critério de infecção incisional profunda — ele exige incisão aberta ou aspirada por médico, com microrganismo identificado ou exame não realizado, e febre acima de 38 °C, dor ou aumento da sensibilidade localizada. Como esta paciente já teve a incisão aberta no 5º dia por drenagem purulenta, com culturas colhidas, o critério de infecção incisional profunda se aplica se o material vier positivo.
achado
Ela reúne, pelo escore de Rotterdam, infecção de ferida (1,9), ascite (1,5), idade acima de 70 anos (1,1), anemia (0,7), cirurgia de intestino delgado (0,9) e cirurgia de urgência (0,6): 6,7 pontos de um máximo teórico de 10,6, sem contar a tosse. Era uma paciente de alto risco identificável antes da primeira incisão.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Amarrar o prazo de vigilância ao implante, e não ao procedimento Era a régua do manual de 2017: 30 dias sempre, subindo a 90 apenas para a infecção profunda e a de órgão/cavidade, e apenas quando havia implante. A Nota Técnica nº 03/2026 mudou o eixo — o prazo depende do PROCEDIMENTO e vale igual para os três planos, inclusive a superficial. A lista de 90 dias é fechada: prótese mamária, prótese primária de quadril, prótese primária de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata. Cesariana, 30 dias. Uma infecção superficial no 60º dia depois de prótese primária de joelho está DENTRO da janela vigente e fora da janela antiga.
  2. 2Deduzir o prazo pela presença de material implantado A lista de 90 dias não é 'toda cirurgia com prótese'. Ela nomeia seis procedimentos, e o detalhe está nas palavras: prótese de quadril e de joelho PRIMÁRIA — revisão de artroplastia não está na lista. E a catarata está, embora não seja a cirurgia que vem à cabeça quando se pensa em implante. Herniorrafia com tela, prótese vascular periférica e marca-passo não figuram entre os seis procedimentos de notificação nacional obrigatória com 90 dias.
  3. 3Notificar dois sítios quando a infecção atravessa planos A regra é explícita e vem com exemplos: fechando superficial e profunda, computa-se a profunda; fechando profunda e órgão/cavidade, computa-se a de órgão/cavidade; fechando superficial e órgão/cavidade, computa-se a de órgão/cavidade. Abscesso intracavitário que drena pela incisão é infecção de órgão/cavidade. Cuidado com a regra vizinha, que puxa para o outro lado: havendo MAIS DE UMA INCISÃO, considera-se a ocorrência de infecção em todas elas — a revascularização do miocárdio com incisão primária e área doadora pode gerar duas notificações.
  4. 4Prescrever antibiótico e não abrir a ferida O tratamento da infecção de sítio cirúrgico incisional é retirar os pontos, abrir, drenar e desbridar — recomendação forte. O antimicrobiano sistêmico é adjuvante e não está indicado de rotina; ele entra quando há eritema e endurecimento além de 5 cm da borda, temperatura acima de 38,5 °C, frequência cardíaca acima de 110 bpm ou leucócitos acima de 12.000/µL. A suspeita de infecção, isolada, não justifica antibiótico sem diagnóstico definitivo e sem a abertura da ferida.
  5. 5Usar critérios de SIRS como se fossem os limiares da ISC São duas réguas diferentes dentro da mesma diretriz. Para abscesso e furúnculo, valem os critérios de SIRS: temperatura acima de 38 °C, frequência cardíaca acima de 90 bpm, frequência respiratória acima de 24. Para a infecção de sítio cirúrgico, os limiares sobem: 38,5 °C e 110 bpm. Um pós-operatório com 38,2 °C e 100 bpm não preenche a régua da ISC, e trocar uma régua pela outra transforma drenagem simples em antibioticoterapia desnecessária.
  6. 6Colher cultura com swab da superfície da ferida A nota de rodapé se repete em todos os quadros: não serão considerados resultados de culturas positivas colhidas por swab, isto é, hastes com ponta de algodão. O material que vale é secreção ou tecido obtido assepticamente. E há uma assimetria que castiga a coleta ruim: no critério da infecção incisional profunda, NÃO realizar exame de identificação preserva o critério, mas uma cultura realizada com resultado NEGATIVO o derruba.
  7. 7Chamar de infecção o que o manual exclui A nota técnica vigente exclui, no rodapé dos critérios incisionais, a inflamação mínima e a drenagem de secreção limitada aos pontos de sutura — o abscesso de ponto. O manual de 2017 acrescenta a lista clássica: celulite isolada sem coleção, infecção de episiotomia e infecção de circuncisão do neonato. Atenção à cláusula que devolve o caso para dentro da definição: incisão que é drenada, ou com microrganismo identificado, não é considerada celulite.
  8. 8Tratar febre do primeiro dia como infecção de ferida Infecção de sítio cirúrgico raramente ocorre nas primeiras 48 horas, e a febre desse intervalo geralmente tem causa não infecciosa. Quando é da ferida, quase sempre é por Streptococcus pyogenes ou Clostridium — o que muda a conduta de 'observar' para 'inspecionar a incisão agora', pela possibilidade de infecção necrosante. É a partir do quarto dia que a febre é tão provável por ISC quanto por qualquer outra causa.
  9. 9Computar a infecção no mês em que ela apareceu As infecções são computadas na data em que o PROCEDIMENTO foi realizado. No exemplo do manual, uma ISC profunda identificada em 3 de abril entra na taxa de março, porque a herniorrafia foi feita em março: 2 infecções em 40 herniorrafias de março resultam em taxa de 5% para março. A regra sobrevive à reabordagem: se o paciente volta ao centro cirúrgico pelo mesmo sítio, o período de vigilância reinicia, a reabordagem não entra no denominador, e a data da infecção continua sendo a do procedimento inicial.
  10. 10Confundir deiscência com evisceração Deiscência é a ruptura parcial ou total dos planos da ferida; evisceração é a ruptura de todas as camadas COM exteriorização ou exposição das vísceras. A segunda é urgência cirúrgica: envolver as alças em gaze umedecida com salina morna, não reduzir à força, repor volume e levar à exploração abdominal de emergência. A deiscência fascial sem exteriorização admite discussão de conduta — na maior série publicada, 61 de 363 pacientes foram tratados de forma conservadora.
  11. 11Reoperar a parede sem tratar o que a fez ceder Infecção de ferida é o fator de risco isolado mais forte para deiscência da aponeurose, com razão de chances ajustada de 6,43 e o maior peso do escore de Rotterdam (1,9). Tosse no pós-operatório vem logo atrás, com 1,4. Refazer a sutura sem drenar a coleção, sem controlar a tosse e sem corrigir anemia e nutrição compra a recidiva — que, na série de Rotterdam, ocorreu em 29 dos 302 pacientes reoperados dentro de 30 dias.
  12. 12Esquecer que infecção urinária depois de cirurgia urológica é ISC O manual escreve que TODA infecção do trato urinário após cirurgia urológica será considerada infecção de sítio cirúrgico de órgão/cavidade. Não é infecção do trato urinário associada a cateter, e não muda de categoria porque o paciente estava sondado. Na mesma lógica, osteomielite de esterno após cirurgia cardíaca e endoftalmite são infecções de órgão/cavidade, e a conjuntivite em cirurgia oftalmológica é infecção incisional superficial.
  13. 13Fechar critério de infecção profunda com a parede que abriu sozinha Era assim no manual de 2017, que listava a deiscência espontânea profunda ao lado da incisão aberta pelo cirurgião. O texto vigente exige que a incisão profunda tenha sido ABERTA OU ASPIRADA por médico, mais microrganismo identificado ou exame não realizado, mais febre acima de 38 °C, dor ou aumento da sensibilidade localizada. E cultura colhida com resultado negativo derruba esse critério — enquanto não colher nada o mantém. A deiscência espontânea continua sendo a emergência clínica da segunda metade deste capítulo; ela é que deixou de fechar, sozinha, o critério de notificação.
  14. 14Somar a reabordagem do mesmo sítio ao denominador Quando o paciente retorna ao centro cirúrgico para nova abordagem no MESMO sítio operatório dentro do período de vigilância, três coisas acontecem ao mesmo tempo e nenhuma é intuitiva: o período de vigilância recomeça do zero a partir da reabordagem; a reabordagem NÃO é contada no denominador daquele procedimento; e, se houver infecção, a data dela continua sendo a do procedimento inicial. No exemplo do documento, revascularização em 13 de junho e reabordagem em 15 de junho: os 90 dias passam a contar de 15 de junho e a data da infecção é 13 de junho.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A drenagem serossanguinolenta rósseo/salmão que surge subitamente é sinal clássico de deiscência da aponeurose (fáscia), frequentemente precedendo evisceração — favorecida aqui por desnutrição, tabagismo e tosse (aumento da pressão intra-abdominal). Mesmo sem evisceração visível, indica falha de fechamento fascial e demanda reparo cirúrgico, mantendo jejum e preparo. É correta. Errada: não há pus nem hiperemia; abrir a ferida não trata a falha aponeurótica. Errada: seroma tem líquido claro/citrino e não justifica alta nesse contexto. Errada: esse líquido não é achado fisiológico e sinaliza deiscência iminente. Errada: sem saída de conteúdo entérico não há fístula; TPN/octreotide não se aplicam.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite os três planos e o relógio. Superficial é pele e subcutâneo; profunda é fáscia e músculo; órgão/cavidade é o que está mais fundo que fáscia e músculo e foi aberto ou manipulado. O prazo é do PROCEDIMENTO e vale igual para os três: 90 dias em seis cirurgias — prótese mamária, prótese primária de quadril, prótese primária de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata — e 30 dias na cesariana; micobactéria não tuberculosa ou de crescimento rápido, 24 meses. O 1º dia é a data da cirurgia. Fechando mais de um plano, notifica-se o mais profundo; havendo mais de uma incisão, avalia-se cada uma. Cultura por swab não conta, e no critério da profunda a cultura NEGATIVA derruba o critério enquanto não colher nada o mantém. Reabordagem no mesmo sítio reinicia a vigilância, fica fora do denominador e não muda a data da infecção. E o tratamento é abrir, drenar e desbridar, não prescrever.

em 30 dias

Percorra o fluxo dizendo os números. Antibiótico sistêmico adjuvante: eritema com endurecimento além de 5 cm da borda, temperatura acima de 38,5 °C, frequência cardíaca acima de 110 bpm ou leucócitos acima de 12.000/µL — basta um, e esses não são os critérios de SIRS. Curso breve com força FORTE em cirurgia limpa de tronco, cabeça e pescoço ou extremidades com sinais sistêmicos. Agente pelo sítio: antiestafilocócico na limpa; gram-negativos e anaeróbios na axila, no trato gastrointestinal, no períneo e no trato genital feminino. Cronologia: quase nada antes de 48 horas, e o que aparece nesse intervalo é estreptococo ou clostrídio; a partir do quarto dia a febre é tão provável de ferida quanto de outra causa. Taxa: numerador de ISC sobre denominador de procedimentos vezes 100, infecção computada na data da CIRURGIA, atribuída ao primeiro procedimento em reoperação, hierarquia A a D em procedimentos combinados pelo mesmo acesso, denominador mínimo de 30. Deiscência: média no 9º dia, 90% antes do 15º; drenagem cor de salmão, abaulamento novo e sensação de estalo ao tossir são os avisos; no estável e sem evisceração, tomografia com contraste mede o defeito. Escore de Rotterdam com infecção de ferida valendo 1,9, o maior peso, e razão de chances ajustada de 6,43; máximo teórico de 10,6. Evisceração é urgência: gaze umedecida com salina morna, não reduzir à força, volume e exploração abdominal de emergência. Feche com a prevenção: pontos pequenos de 5 mm por 5 mm só na aponeurose, com 34% contra 49% de hérnia incisional em 13 anos — cerca de 7 laparotomias fechadas assim evitam uma hérnia.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 63 anos, tabagista, no sexto dia de pós-operatório de hemicolectomia direita por laparotomia mediana, chama a equipe por dor crescente na incisão e calafrios. Está febril e taquicárdico, a incisão está hiperemiada e endurecida e sai secreção purulenta à compressão. Conduza: classifique a infecção pelo plano, decida o que fazer com a incisão, diga se o antibiótico sistêmico entra e com que cobertura, e identifique o que neste paciente aumenta o risco de a parede abrir nos próximos dias. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de ferida — Preparatório para provas | OsceLabs