Ginecologia e Obstetrícia › Pré-natal, rastreios e intercorrências clínicas da gestação
Hiperêmese gravídica
Náusea e vômito são fisiologia do primeiro trimestre até deixarem de ser. Este capítulo marca onde a linha é cruzada, o que precisa ser afastado antes de nomear a doença, e a conduta em degraus — inclusive a ordem que separa a tiamina da glicose.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Gestante de 30 anos, com 12 semanas, chega à UPA com vômitos incoercíveis há 5 dias, incapaz de reter líquidos, com perda de 6% do peso. Ao exame, mucosas secas e turgor diminuído. A fita urinária mostra cetonúria +++. Além da hidratação venosa, qual medida é prioritária no manejo?
Como esse tema cai
Entre 70% e 80% das gestantes têm náusea ou vômito no primeiro trimestre, e o Manual de Gestação de Alto Risco diz, com todas as letras, que sintomas leves podem ser considerados parte da fisiologia normal desse período. A hiperêmese gravídica é a exceção rara dentro dessa maioria banal: 0,3% a 3,0% das gestações, e uma das causas mais comuns de internação na gravidez. A prova quase nunca pergunta se a paciente vomita. Pergunta se aquilo ainda é fisiologia — e a resposta não está na intensidade da queixa, está em quatro achados objetivos que a paciente traz consigo.
Hiperêmese é diagnóstico clínico de exclusão. A frase parece burocrática até se perceber o que ela obriga: antes de nomear a doença, é preciso ter descartado o que produz o mesmo vômito por outro motivo. Duas dessas exclusões são obstétricas, dependem de um único exame e por isso viram alternativa correta com frequência desconfortável. As outras vivem numa tabela de seis colunas que o Manual reproduz e que ninguém decora inteira, mas cujo desenho vale mais que a lista.
A conduta é em degraus, e cada degrau tem dono: orientação alimentar e medida não farmacológica, antiemético oral na ordem que o documento brasileiro põe, hidratação venosa com internação. No meio desse caminho há uma sequência de duas drogas que decide questão sozinha — tiamina antes de glicose — e é a única em que errar a ordem produz uma doença nova em vez de deixar a antiga como estava.
Fica de fora, porque tem capítulo próprio nesta apostila: a doença trofoblástica gestacional inteira, do esvaziamento ao seguimento com hCG, aqui presente apenas como o que a ultrassonografia precisa afastar; e o calendário de exames e ultrassonografias do pré-natal de risco habitual, que o capítulo de exames do pré-natal resolve. As síndromes hipertensivas aparecem só como diferencial de vômito de segunda metade, sem repetir critério de pré-eclâmpsia.
O que muda decisão
Onde a náusea deixa de ser fisiologia
O Manual de Gestação de Alto Risco descreve o curso natural com quatro marcos temporais, e vale conferir a unidade de cada um. Os sintomas começam entre 2 e 4 semanas após a fertilização — o que, contado da última menstruação como se conta idade gestacional, equivale a 4 a 6 semanas de gravidez, e é exatamente a faixa de 5 a 6 semanas que a Febrasgo publica. Atingem o pico com 9 semanas. Resolvem-se entre 16 e 20 semanas em 90% dos casos. Sobram 10% de gestantes com curso prolongado, que podem carregar o sintoma até o parto. Guardar esses números não é preciosismo: uma vinheta que abre com vômito iniciado na 22ª semana está avisando que a náusea da gravidez não explica o caso.
A hiperêmese não é definida por quanto a paciente vomita, e sim pelo que o vômito já produziu. O Manual arrola: vômitos persistentes, ausência de outras doenças, distúrbio hidroeletrolítico, alteração nutricional e metabólica, cetonúria e perda de mais de 5% do peso corporal. São critérios de dano, não de sintoma. Uma gestante que vomita oito vezes ao dia, mantém o peso, urina normalmente e tem eletrólitos normais tem náuseas e vômitos da gestação em forma grave — não tem hiperêmese.
A definição operacional dos Protocolos da Atenção Básica diz a mesma coisa com outras palavras e acrescenta uma que o Manual não usa: vômitos contínuos e intensos que impedem a alimentação da gestante, ocasionando desidratação, oligúria, perda de peso e transtornos metabólicos, com alcalose. É o único documento brasileiro do tema que nomeia o distúrbio ácido-base, e nomeia o mecanismo junto — perda maior de cloro, perda de potássio e alteração no metabolismo das gorduras e dos carboidratos. Essa frase é a ponte entre o quadro clínico e a prescrição de soro, e voltará adiante.
O adjetivo que fecha a definição é o mais cobrado: diagnóstico de exclusão. Não existe exame que confirme hiperêmese. Existe um conjunto de exames que, voltando normais ou irrelevantes, autoriza o nome. Por isso a sequência de raciocínio numa questão é sempre a mesma — dano documentado, causas afastadas, nome dado, degrau escolhido — e por isso a alternativa que pula a etapa de afastar é a que a banca coloca em primeiro lugar, para o candidato apressado.

PUQE: o escore que os dois documentos brasileiros usam
Existe escore brasileiro de gravidade, e é emprestado: o PUQE, sigla de Pregnancy Unique Quantification of Emesis, traduzido de Koren e colaboradores em 2005. Aparece no Quadro 1 do protocolo da Febrasgo e no Quadro 1 do capítulo 3 do Manual do Ministério da Saúde, com o mesmo desenho nos dois. Três perguntas sobre as últimas 24 horas, cada uma pontuando de 1 a 5: por quanto tempo se sentiu nauseada; quantos episódios de vômito apresentou; em quantos momentos observou intensa salivação e esforço de vômito.
Três perguntas de 1 a 5 fixam a aritmética do escore: o mínimo possível é 3 e o máximo é 15. Não existe PUQE zero, e uma alternativa que ofereça um valor abaixo de 3 está fora da escala. As faixas de classificação, idênticas nos dois documentos, cobrem esse intervalo sem sobra: pontuação de até 6 é forma leve, entre 7 e 11 é forma moderada, 12 ou mais é forma grave.
O que o escore compra é o degrau de cuidado, e essa é a única consequência prática que os documentos brasileiros extraem dele. Nas formas leves, medidas não farmacológicas e farmacológicas por via oral resolvem rápido e o tratamento é ambulatorial. Nas formas moderadas e graves, a gestante deve ser abordada de maneira multidisciplinar em ambiente hospitalar. O PUQE não diagnostica hiperêmese e não substitui a busca por perda de peso e desidratação — ele gradua o sintoma, e o dano continua sendo medido à parte.
Há um detalhe de redação no protocolo da Febrasgo que convém conhecer antes de encontrá-lo numa prova. O corpo do texto descreve a forma leve como menor que 6 e o encaminhamento hospitalar como maior que 6, enquanto o Quadro 1 do mesmo documento classifica até 6 como leve. Lido ao pé da letra, o corpo do texto deixaria o valor 6 sem categoria. O Quadro é a versão coerente, e é a que o Manual do Ministério da Saúde reproduziu em 2022 sem o descompasso: até 6, leve.
A ultrassonografia que não é opcional
Das exclusões que o diagnóstico exige, duas são obstétricas e saem do mesmo exame. O Manual é direto: a ultrassonografia está indicada para descartar casos de doença trofoblástica e, igualmente, pode identificar gestação gemelar. Não é o exame do calendário do pré-natal cumprindo sua data — é um exame indicado pela queixa, e por isso a alternativa que trata a ultrassonografia como conduta opcional ou postergável está errada mesmo quando tudo o mais que ela propõe é razoável.
A razão de as duas condições andarem juntas é uma só. Náuseas e vômitos são mais frequentes e mais graves em gestantes com concentrações elevadas de gonadotrofina coriônica, e a Febrasgo lista os cenários em que isso acontece: gestação múltipla, doença trofoblástica gestacional, feto do sexo feminino e feto com síndrome de Down. Massa trofoblástica maior significa hCG maior, e hCG maior significa êmese maior. Quem entende essa cadeia não precisa memorizar a indicação do exame — ela se deduz.
A mola hidatiforme tem no capítulo próprio desta apostila o seu detalhamento; aqui interessa apenas o que a faz aparecer numa vinheta de vômito. O Manual descreve, no capítulo da doença trofoblástica, o aumento do volume uterino acima do esperado para a idade gestacional, a produção exagerada de hCG e o hipertireoidismo decorrente da fração alfa comum ao TSH, com cistos tecaluteínicos que devem ser procurados por via suprapúbica quando o hCG passa de 500.000 mUI/mL. A hiperêmese está nomeada ali, no mesmo parágrafo, como uma das complicações. Sangramento em borra de café, útero maior que o esperado e vômito incoercível na mesma gestante não formam três hipóteses: formam uma.
As exclusões não obstétricas estão no Quadro 2 do capítulo 3, adaptado de Goodwin, e o Manual as organiza em seis grupos que valem mais como mapa do que como lista. Condições gastrointestinais: gastroenterite, gastroparesia, acalasia, doença do trato biliar, hepatite, obstrução intestinal, úlcera péptica, pancreatite, apendicite. Do trato geniturinário: pielonefrite, uremia, torção ovariana, calculose renal, leiomioma em degeneração. Metabólicas: cetoacidose diabética, porfiria, doença de Addison, hipertireoidismo, hiperparatireoidismo. Neurológicas: pseudotumor cerebral, lesões vestibulares, enxaqueca, tumores do sistema nervoso central. Diversas: hipofisite linfocítica, toxicidade ou intolerância a medicamentos, condições psicológicas. E relacionadas à gravidez: esteatose hepática aguda da gravidez e pré-eclâmpsia.
O mapa tem um eixo temporal embutido, e é ele que a banca usa. Vômito que começa antes de 9 semanas e vem com os quatro achados de dano é hiperêmese até prova em contrário. Vômito que começa depois de 20 semanas não é náusea da gestação e obriga a olhar para as duas últimas entradas da tabela — esteatose hepática aguda e pré-eclâmpsia — além das causas cirúrgicas que a gravidez não protege. Febre, dor abdominal localizada, cefaleia progressiva ou sinal neurológico focal tiram a paciente da coluna obstétrica sem discussão.
A tireoide, o hCG e o que não se trata
TSH e T4 livre estão na lista de exames dos casos mais acentuados, nos dois documentos brasileiros, e há um motivo específico para isso. A fração alfa do hCG é comum ao TSH, ao LH e ao FSH — o Manual explicita essa homologia no capítulo da doença trofoblástica. O pico de hCG do primeiro trimestre estimula a tireoide de qualquer gestante; nos estados de hCG muito elevado, estimula o bastante para suprimir o TSH e elevar discretamente o T4 livre. É o mesmo hormônio produzindo os dois fenômenos: o vômito e a alteração hormonal.
A consequência prática é que encontrar TSH suprimido numa gestante com hiperêmese não é encontrar uma doença nova. O Manual dá a régua do que decide tratamento no capítulo 42.3: o diagnóstico laboratorial do hipertireoidismo é T4 livre acima do valor de referência com TSH suprimido, abaixo de 0,1 mUI/L, e o nível de T4 livre é o que importa na decisão terapêutica, sendo preferível manter a gestante na faixa de discreto hipertireoidismo, com T4 livre abaixo de 2,0 — o Manual imprime a unidade como ng/mL, e o T4 livre é habitualmente informado em ng/dL, onde 2,0 é um teto plausível para essa faixa. O mesmo capítulo registra que a doença de Graves é a causa mais prevalente no menacme, com etiologia autoimune, e que os anticorpos estimuladores do receptor de TSH têm papel importante no acompanhamento.
Daí sai o discriminador que a prova cobra sem nomear. Bócio difuso, exoftalmia, taquicardia sustentada, perda de peso que antecede a gravidez e TRAb elevado apontam para doença de Graves e colocam propiltiouracil ou metimazol em cena. TSH suprimido com T4 livre pouco acima do normal, em gestante que só começou a se queixar com a gravidez, sem bócio, sem oftalmopatia e sem autoanticorpos, acompanha o pico de hCG e regride com ele. A alternativa que inicia droga antitireoidiana nessa segunda paciente está errada, e o motivo é o que o próprio Manual escreveu: o tratamento com essas drogas também determina efeitos nocivos e precisa ser muito bem cotejado.
O rótulo internacional dessa situação é tireotoxicose gestacional transitória, e ele não aparece no Manual de Gestação de Alto Risco. A régua que o documento brasileiro oferece é outra e é suficiente: o T4 livre e o TRAb decidem quem recebe droga antitireoidiana, e o hipertireoidismo figura na tabela de diferenciais do capítulo 3 como condição a afastar, não como comorbidade a tratar por reflexo.
O laboratório e o que ele muda na reposição
O painel dos dois documentos é o mesmo, com uma diferença. O Manual pede, nos casos mais acentuados: hemograma, sódio e potássio, testes de função renal, testes de função hepática, amilase, TSH e T4 livre, sumário de urina e urocultura, mais a ultrassonografia. O protocolo da Febrasgo acrescenta sorologias para não vacinadas — teste para sífilis, HIV, toxoplasmose, rubéola e hepatites A, B e C — e a endoscopia digestiva alta com pesquisa de Helicobacter pylori, que o Manual reserva a ponderação nos casos graves. Os dois fazem a mesma ressalva: os exames podem ser dispensáveis quando as primeiras condutas terapêuticas já mostram bons resultados.
O padrão esperado decorre do que se perde. Vomitar é perder suco gástrico, e suco gástrico é ácido clorídrico com potássio. A consequência é a que os Protocolos da Atenção Básica descrevem: alcalose, por perda maior de cloro e perda de potássio. Some-se a isso a hipovolemia, que eleva ureia desproporcionalmente à creatinina, e o jejum, que consome gordura e devolve corpos cetônicos à urina — a cetonúria da definição. Amilase pode subir sem pancreatite, transaminases podem subir sem hepatite, e ambas costumam normalizar com a reidratação.
Essa fisiopatologia tem consequência direta na prescrição e é o que separa quem entendeu de quem decorou. Alcalose hipoclorêmica e hipocalêmica se corrige com o íon que faltou: solução isotônica rica em cloreto, com reposição de potássio guiada pelo eletrólito dosado. Um cristaloide balanceado tipo ringer lactato carrega precursor de bicarbonato e não é a escolha natural para quem já está alcalótico — e é justamente ringer lactato ou solução salina o que o protocolo da Febrasgo oferece como opções equivalentes, sem distinguir uma da outra.
O volume, nos dois documentos brasileiros, é o mesmo e é numericamente explícito: o ideal é repor de 2.000 mL a 4.000 mL em 24 horas, não devendo exceder 6.000 mL em 24 horas. Distribuído em bomba, isso corresponde a algo entre 83 mL e 167 mL por hora, com teto de 250 mL por hora — número útil para reconhecer, numa alternativa, a prescrição que estourou a faixa. A programação vem depois de avaliar o grau de desidratação e desnutrição, as perdas eméticas e o volume urinário, e a internação existe justamente para permitir controle diário de peso e de diurese.
Degrau 1 — o que se faz antes da receita, e o que a atenção primária prescreve
O primeiro degrau é alimentar e comportamental, e o Manual o descreve com detalhe suficiente para virar alternativa. Refeições frequentes, a cada uma ou duas horas, em pequenas quantidades. Evitar alimentos picantes ou gordurosos. Comer alimentos secos ou suaves, lanches ricos em proteínas ou biscoitos pela manhã, antes de se levantar. Repouso e afastamento de estímulos sensoriais que disparam o sintoma — odores, calor, umidade, ruído, luz. Entre as medidas não farmacológicas, apoio psicoemocional, aromaterapia, hidroginástica e outras atividades físicas de baixo impacto articular, e acupressão no ponto PC6, a duas polegadas proximais à prega distal do punho, entre os tendões do palmar longo e do flexor radial do carpo, que a própria gestante pode pressionar.
Ainda no degrau não farmacológico, dois suplementos com dose escrita: piridoxina, a vitamina B6, 25 mg a cada oito horas, e gengibre 250 mg a cada seis horas. A piridoxina merece uma conta que o documento não faz. A Rename 2024 padroniza o cloridrato de piridoxina em comprimido no Componente Básico, e a apresentação da lista principal é de 50 mg — o dobro da dose que o Manual prescreve. Meio comprimido por tomada, três vezes ao dia, é o que a prescrição significa na farmácia da unidade.
O documento que descreve o degrau da atenção primária não é o Manual de Gestação de Alto Risco, e sim os Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, cujo Fluxograma 2 organiza o atendimento por executor. Acolhimento com escuta qualificada pela equipe multiprofissional. Enfermeiro ou médico verifica sinais de alerta: queda do estado geral, sinais de desidratação, sinais de distúrbios metabólicos. Sem sinais de alerta, orientação alimentar em onze itens — alimentação fracionada com pelo menos três refeições e dois lanches, alimentar-se logo ao acordar, evitar jejum prolongado, comer devagar, preferir alimentos pastosos e secos como pão, torrada e bolacha, evitar gordurosos, condimentados, doces muito concentrados e alimentos de odor forte, manter boa ingestão de líquidos e apoio psicoterápico se necessário.
Se o vômito se mantém, o Fluxograma 2 prescreve nesta ordem: metoclopramida 10 mg de 8 em 8 horas; dimenidrinato 50 mg associado a cloridrato de piridoxina 10 mg de 6 em 6 horas, sem exceder 400 mg ao dia. Vale conferir o teto contra a posologia: 50 mg de seis em seis horas somam 200 mg em 24 horas, metade do limite anunciado, que só seria alcançado dobrando a dose por tomada ou reduzindo o intervalo à metade. É um teto folgado para o esquema que o próprio documento recomenda, e serve para descartar a alternativa que apresenta a dose padrão como já no limite.
Duas observações sobre disponibilidade, que é matéria de prova. A Rename 2024, estabelecida pela Portaria GM/MS n.º 6.324, de 26 de dezembro de 2024, padroniza no Componente Básico a metoclopramida em comprimido de 10 mg, solução injetável de 5 mg/mL e solução oral de 4 mg/mL; a ondansetrona em comprimido e comprimido orodispersível de 4 mg e 8 mg; e a prometazina em comprimido de 25 mg e solução injetável de 25 mg/mL. O dimenidrinato, que os dois documentos de conduta citam, não está no elenco nacional em nenhuma forma farmacêutica — quem o dispensa o faz por padronização estadual ou municipal.
A segunda observação é sobre a forma da ondansetrona. O elenco nacional traz o comprimido orodispersível de 4 mg e de 8 mg, e essa é uma apresentação desenhada para exatamente esta paciente: dissolve na boca sem necessidade de líquido, o que importa em quem não retém água. Na prescrição ambulatorial, é a forma que faz sentido pedir.
Degrau 2 — internação, jejum e a ordem dos antieméticos
A internação, nos dois documentos brasileiros, tem quatro justificativas escritas, e uma delas não é clínica: controle diário de peso e de diurese; correção de distúrbios hidroeletrolíticos; evitar suplementação de derivados de ferro, porque aumentam os sintomas; e apoio psicológico, em especial da família, recorrendo à psicoterapia se necessário. A frase que abre o item é a que costuma passar despercebida — a internação é necessária tanto para o tratamento como para retirar a paciente do ambiente de estresse. A suspensão do sulfato ferroso é o detalhe operacional que mais aparece em alternativa, porque contraria o reflexo de manter a suplementação do pré-natal.
A dieta na internação segue o esquema clássico brasileiro: jejum por 24 a 48 horas ou até a estabilização do quadro, com retorno progressivo à dieta líquida e depois aos sólidos, dando preferência a alimentos pobres em lipídios e ricos em carboidratos, em pequenas porções e a cada três horas. É uma recomendação que os documentos internacionais recentes já não fazem nesses termos, e que a prova brasileira continua cobrando pelo Manual.
A ordem dos antieméticos por via venosa está escrita e é curta. Recomenda-se a dose de 8,0 mg de ondansetrona por via venosa a cada seis horas; o antiemético de segunda escolha nesse quadro será a metoclopramida na dose de 10 mg, via venosa, a cada seis horas. São 32 mg de ondansetrona e 40 mg de metoclopramida em 24 horas. O primeiro número é o que o Manual quer que se responda numa questão de conduta hospitalar. O segundo exige uma nota, que está no bloco de divergências: a bula brasileira da metoclopramida fixa dose máxima diária de 30 mg e duração máxima de cinco dias, e 10 mg de seis em seis horas passa desse teto.
Vale fazer a conta que decide qual teto morde primeiro, porque ela transforma uma regra decorada em raciocínio. A revisão europeia que originou a restrição fixa 30 mg em 24 horas ou 0,5 mg/kg em 24 horas, o que for menor. Os dois limites se cruzam em 60 kg: abaixo desse peso, o limite por quilo é o mais restritivo — uma gestante de 50 kg tem teto de 25 mg ao dia, e mesmo o esquema de 10 mg de oito em oito horas já o ultrapassaria; acima de 60 kg, vale o teto fixo de 30 mg, que é exatamente o que 10 mg de oito em oito horas entrega.
Sobre a ondansetrona, o Manual acrescenta a única ressalva de segurança do capítulo, e ela tem marco temporal: embora alguns estudos tenham mostrado aumento do risco de defeitos congênitos cardíacos e orofaciais e outros não, o risco absoluto para qualquer feto é baixo, as mulheres devem ser aconselhadas sobre os dados disponíveis, e o uso antes de dez semanas de gestação deve ser individualizado quanto a riscos e benefícios. Dez semanas é a data que cai na alternativa. Não é contraindicação — é decisão compartilhada com registro.
Um detalhe de coerência entre documentos que interessa a quem vai prescrever e a quem vai responder prova de gestão: a Rename 2024 não padroniza ondansetrona injetável. O elenco nacional tem apenas as formas oral e orodispersível. O esquema venoso do Manual depende, portanto, da padronização do hospital, e não do elenco básico do SUS — enquanto a metoclopramida e a prometazina existem em solução injetável na lista nacional.
Tiamina antes da glicose
É a frase mais cobrável do capítulo 3, e está numa caixa de Atenção, ao pé da página: a hidratação intravenosa deve ser usada para a paciente que não tolera líquidos orais por período prolongado ou se houver sinais clínicos de desidratação; a correção da cetose e da deficiência de vitaminas deve ser fortemente considerada; dextrose e vitaminas devem ser incluídas na terapia quando os vômitos prolongados estiverem presentes; e a tiamina deve ser administrada antes da infusão de dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke.
A ordem tem mecanismo, e sabê-lo dispensa decorar. A tiamina é cofator da piruvato desidrogenase e da alfa-cetoglutarato desidrogenase, as duas portas de entrada da glicose no metabolismo oxidativo. Numa gestante que vomitou por semanas, o estoque de tiamina está baixo — é uma vitamina hidrossolúvel com reserva de poucas semanas. Infundir glicose nessa situação acelera exatamente as reações que consomem o pouco que resta, e o consumo se concentra nos territórios de maior demanda: corpos mamilares, tálamo medial, substância cinzenta periaquedutal. A glicose não causa a deficiência — ela converte uma deficiência latente em lesão clínica, e em horas.
O quadro que se instala é a encefalopatia de Wernicke, e a tríade clássica raramente vem completa. Confusão, nistagmo e ataxia de marcha são os três achados que a prova oferece; na hiperêmese, a apresentação tende a ser episódica e de instalação lenta, o que atrasa o reconhecimento. O peso da complicação está numa revisão sistemática de 177 casos citada pelo RCOG: distúrbio cognitivo crônico em 65,4%, perda gestacional em 50% e óbito materno em 5%. Não é uma nota de rodapé de fisiologia — é uma complicação evitável cuja prevenção custa uma ampola e uma ordem de prescrição.
Há um ponto em que o Manual brasileiro se contradiz e convém saber qual metade responder. Na caixa de Atenção, ele manda dar tiamina antes da dextrose para prevenir Wernicke. Poucas linhas antes, no item da hidratação, escreve que a reposição deve ser feita preferencialmente por solução glicofisiológica — isto é, começando por uma solução que já contém glicose. E, no item dos medicamentos, afirma que os casos de comprometimento neurológico severo, como a psicose de Wernicke, devem ser medicados com doses altas de corticoides. Corticoide é o resgate descrito para a hiperêmese refratária, não o tratamento da encefalopatia de Wernicke, cuja terapia é a reposição de tiamina — e é a própria caixa de Atenção do Manual que sustenta isso. A resposta segura numa questão sobre Wernicke é tiamina, e antes da glicose.
Fecha o assunto uma observação de elenco. A Rename 2024 padroniza o cloridrato de tiamina apenas em comprimido de 300 mg. A forma injetável não consta da lista nacional, e é a forma de que se precisa exatamente na paciente que não retém nada por via oral — a mesma para quem a recomendação foi escrita. Quem prescreve depende, aqui também, da padronização local.
Quando o degrau acaba: sonda, cateter e caso refratário
O Manual define o ponto de virada com dois critérios simultâneos: a mulher que não responde à terapia e não consegue manter seu peso. Para essa paciente, a recomendação é explícita quanto à ordem — a alimentação por sonda enteral, nasogástrica ou nasoduodenal, deve ser iniciada como o tratamento de primeira linha para fornecer suporte nutricional. Primeira linha significa antes do cateter, antes da nutrição parenteral.
O cateter vem com advertência incomum para um manual do Ministério. Cateteres centrais inseridos perifericamente não devem ser usados rotineiramente em mulheres com hiperêmese gravídica, dadas as complicações significativas associadas a essa intervenção; a inserção de cateteres centrais deve ser utilizada apenas como último recurso, pelo potencial de morbidade materna grave. Trombose, infecção de corrente sanguínea e complicação vascular são o que essa frase resume. A alternativa que oferece nutrição parenteral por cateter central a uma paciente que ainda não tentou sonda enteral está errada por ordem, não por indicação.
O corticoide fecha a escada, e o documento que o descreve com dose é o internacional. O RCOG estabelece que corticoides não devem ser usados até que o tratamento convencional com reposição de fluidos e antieméticos regulares tenha se mostrado ineficaz, e sugere hidrocortisona 100 mg por via venosa duas vezes ao dia, convertida, depois da melhora clínica, em prednisolona oral de 40 a 50 mg ao dia, com desmame gradual até a menor dose de manutenção que controle os sintomas; mulheres em corticoide devem ser rastreadas para diabetes gestacional. Os documentos brasileiros mencionam doses altas de corticoide sem posologia, e num contexto que o bloco de divergências detalha.
Um dado deve ser dito com honestidade porque muda a expectativa de quem prescreve: o efeito do suporte nutricional invasivo não está estabelecido. O RCOG registra um ensaio randomizado com 116 gestantes internadas por hiperêmese entre 5 e 20 semanas, alocadas para sonda nasogástrica ou cuidado padrão — 59 contra 57 —, em que os desfechos não diferiram entre os grupos e a adesão ao protocolo foi baixa por efeitos adversos no braço da sonda. É medida de último recurso porque é o que resta, não porque comprovou superioridade.
Desfechos, trombose e recorrência
A hiperêmese entra em outro capítulo do Manual, e quem lê só o capítulo 3 perde a conexão. No capítulo 51, do tromboembolismo venoso, hiperêmese e desidratação constam entre os fatores de risco transitórios adaptados do RCOG, e — mais importante para a prova brasileira — pontuam no escore da Comissão Nacional Especializada da Febrasgo reproduzido no Quadro 2: desidratação e hiperêmese valem 2 pontos, na faixa de risco médio, e a tromboprofilaxia farmacológica com heparina de baixo peso molecular está indicada a partir de 3 pontos.
A aritmética desse escore vale a leitura porque quase nenhuma gestante internada por hiperêmese fica só com os 2 pontos. Basta um fator de baixo risco somado — idade igual ou maior que 40 anos, índice de massa corporal igual ou maior que 40 kg/m², imobilidade no leito por mais de quatro dias com IMC abaixo de 30 — para o escore chegar a 3 e a profilaxia passar a estar indicada. A internação prolongada por vômito, que imobiliza, é ela própria o segundo ponto. A magnitude do risco tem número no documento internacional: razão de chances ajustada de 4,4 para trombose venosa profunda em mulheres com hiperêmese, com intervalo de confiança de 2,4 a 8,4.
Os desfechos perinatais seguem o ganho de peso, não o vômito. O RCOG registra que gestantes com hiperêmese e ganho ponderal inferior a 7 kg na gestação têm risco aumentado de parto pré-termo, com risco relativo ajustado de 3,0 e intervalo de 1,9 a 4,3, e de baixo peso ao nascer abaixo de 2.500 g, com risco relativo ajustado de 2,8 e intervalo de 1,7 a 4,3. O Manual brasileiro nomeia, na abertura do capítulo 3, a mesma família de complicações: encefalopatia de Wernicke, restrição de crescimento fetal e até morte materna e fetal.
A recorrência é alta e a faixa publicada é larga, porque depende de como se conta. O RCOG reporta de 15,2%, num registro hospitalar norueguês, a 89% quando o diagnóstico é autorrelatado — a diferença mede critério de caso, não biologia. O protocolo da Febrasgo dá a mesma informação por outro caminho, ao registrar que as taxas mais elevadas de recorrência em gestações sucessivas reforçam a teoria genética, e ao citar a maior prevalência entre parentes de primeiro grau. Para a conversa com a paciente, o número honesto é que o antecedente pesa e a próxima gestação merece tratamento precoce.
E é justamente aí que está a única medida preventiva com apoio nos dois documentos brasileiros. O Manual põe na caixa de Atenção que o tratamento precoce de náuseas e vômitos durante a gravidez pode ser benéfico para prevenir a progressão para hiperêmese gravídica; o protocolo da Febrasgo diz que apoio psicológico e educativo desde o início da gestação, junto com reorientação alimentar e antieméticos precoces, são as melhores maneiras de evitar os casos de hiperêmese. Tratar cedo a náusea banal é a profilaxia da doença grave — e a mortalidade materna por náuseas e vômitos, que a Febrasgo situa abaixo de 1 por 10.000 nascimentos no Brasil, é o resultado de se fazer isso.
Régua do diagnóstico, do degrau e da ordem
Três decisões, sempre na mesma sequência, e a prova costuma cobrar a segunda esperando que o candidato tenha pulado a primeira: isto ainda é náusea da gestação ou já é hiperêmese; o que precisa estar afastado antes de o nome valer; e em que degrau esta paciente entra. O bloco reúne a régua brasileira das três, com o número escrito onde o documento escreveu número.
- 1Situe no tempo. Náusea e vômito da gestação começam entre 2 e 4 semanas após a fertilização — de 4 a 6 semanas de idade gestacional —, atingem o pico com 9 semanas e se resolvem entre 16 e 20 semanas em 90% dos casos. Início depois de 20 semanas não é náusea da gravidez: obriga a procurar outra causa.
- 2Procure o dano, não a intensidade. Hiperêmese exige vômitos persistentes mais perda de mais de 5% do peso corporal, desidratação, distúrbio hidroeletrolítico e cetonúria — com ausência de outras doenças que expliquem o quadro.
- 3Gradue com o PUQE. Três perguntas sobre as últimas 24 horas, de 1 a 5 cada, escore de 3 a 15: até 6 é leve, de 7 a 11 é moderada, 12 ou mais é grave. O escore define o degrau de cuidado, não o diagnóstico.
- 4Peça a ultrassonografia obstétrica. Não é opcional: descarta doença trofoblástica e identifica gestação gemelar, os dois estados de hCG elevado que produzem êmese mais frequente e mais grave.
- 5Peça o painel dos casos acentuados: hemograma, sódio, potássio, função renal, função hepática, amilase, TSH e T4 livre, sumário de urina e urocultura. Podem ser dispensados se as primeiras medidas já resolverem.
- 6Leia o TSH suprimido no contexto. T4 livre pouco acima do normal, sem bócio, sem exoftalmia e sem TRAb, acompanha o pico de hCG e não recebe droga antitireoidiana; T4 livre alto com TRAb elevado é doença de Graves e muda a conduta.
- 7Forma leve, PUQE até 6: tratamento ambulatorial. Orientação alimentar e comportamental, acupressão em PC6, piridoxina 25 mg de 8 em 8 horas e gengibre 250 mg de 6 em 6 horas.
- 8Se o vômito persiste na atenção primária, o Fluxograma 2 prescreve nesta ordem: metoclopramida 10 mg de 8 em 8 horas; depois dimenidrinato 50 mg com cloridrato de piridoxina 10 mg de 6 em 6 horas, sem exceder 400 mg ao dia. Injetável na unidade, se disponível, com a mesma dupla e os mesmos intervalos.
- 9Formas moderada e grave, PUQE acima de 6: abordagem multidisciplinar em ambiente hospitalar. Interna também quem não responde ao tratamento inicial ou quando a unidade não tem como executar as medidas.
- 10Na internação: controle diário de peso e de diurese, correção dos distúrbios hidroeletrolíticos, suspensão dos derivados de ferro e apoio psicológico. Jejum por 24 a 48 horas ou até estabilizar, com retorno progressivo a líquidos e depois sólidos.
- 11Hidrate com solução isotônica: de 2.000 mL a 4.000 mL em 24 horas, sem exceder 6.000 mL em 24 horas, com potássio guiado pelo eletrólito dosado. Programe depois de avaliar desidratação, perdas eméticas e diurese.
- 12Administre tiamina ANTES de qualquer solução com dextrose. É a única ordem do capítulo cuja inversão cria uma doença nova — a encefalopatia de Wernicke.
- 13Antiemético venoso na ordem do Manual: ondansetrona 8 mg de 6 em 6 horas; metoclopramida 10 mg de 6 em 6 horas como segunda escolha. Antes de 10 semanas, o uso da ondansetrona é individualizado quanto a riscos e benefícios, com aconselhamento registrado.
- 14Some o escore de tromboembolismo. Desidratação e hiperêmese valem 2 pontos no escore da Febrasgo; a partir de 3 pontos, heparina de baixo peso molecular. Imobilidade no leito por mais de quatro dias é o ponto que costuma completar a conta.
- 15Sem resposta e sem manter o peso: sonda enteral, nasogástrica ou nasoduodenal, como primeira linha de suporte nutricional. Cateter central inserido perifericamente não é rotina — é último recurso.
PUQE — a escala vai de 3 a 15, e o corte é 6
Três perguntas sobre as últimas 24 horas, cada uma de 1 a 5: duração da náusea, número de episódios de vômito, número de momentos de intensa salivação e esforço de vômito. O mínimo possível é 3, o máximo é 15, e as faixas cobrem o intervalo inteiro sem sobra: até 6 é leve e resolve no ambulatório; de 7 a 11 é moderada; 12 ou mais é grave. Acima de 6 o documento manda abordagem multidisciplinar em ambiente hospitalar. O escore gradua o sintoma — o diagnóstico continua vindo do dano.
Tiamina antes da glicose — a ordem que cria doença quando invertida
A caixa de Atenção do capítulo 3 exige tiamina antes da infusão de dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke. O mecanismo dispensa decorar: a tiamina é cofator das desidrogenases que metabolizam a glicose, e a reserva do organismo é de poucas semanas — a mesma janela em que a gestante vomitou. Glicose primeiro consome o estoque restante e converte deficiência latente em lesão de corpos mamilares e tálamo medial, em horas. Confusão, nistagmo e ataxia raramente vêm juntos, e na hiperêmese a instalação é lenta e episódica.
Metoclopramida: os dois tetos se cruzam em 60 kg
A restrição vigente fixa dose máxima de 30 mg em 24 horas OU 0,5 mg/kg em 24 horas, o que for menor, por no máximo cinco dias — e a bula brasileira reproduz os 30 mg e os cinco dias. Os dois limites se encontram em 60 kg. Abaixo desse peso manda o limite por quilo: uma gestante de 50 kg tem teto de 25 mg ao dia, e 10 mg de 8 em 8 horas já o ultrapassa. Acima de 60 kg vale o teto fixo, e 10 mg de 8 em 8 horas o alcança exatamente. Os 10 mg de 6 em 6 horas do Manual somam 40 mg ao dia e ficam acima em qualquer peso.
Escore de PUQE — o que se pergunta e o que a pontuação compra
| Pergunta (últimas 24 horas) | 1 ponto | 3 pontos | 5 pontos |
|---|---|---|---|
| Por quanto tempo se sentiu nauseada? | Nunca | Até 8 horas | Mais de 12 horas |
| Quantos episódios de vômito apresentou? | Nenhum | Até 3 episódios | Mais de cinco |
| Em quantos momentos observou intensa salivação e esforço de vômito? | Nenhum | Até 5 vezes | Todo o tempo |
| Classificação e consequência | Até 6 pontos: forma leve. Medidas não farmacológicas e farmacológicas por via oral, tratamento ambulatorial. | De 7 a 11 pontos: forma moderada. Abordagem multidisciplinar em ambiente hospitalar. | 12 ou mais pontos: forma grave. Abordagem multidisciplinar em ambiente hospitalar. |
Antieméticos: o que cada documento brasileiro põe, e o que o SUS padroniza
| Droga | Onde entra e com que dose | Efeito adverso que o documento destaca | Rename 2024 — Componente Básico |
|---|---|---|---|
| Piridoxina (vitamina B6) | Medida do degrau não farmacológico no Manual: 25 mg de 8 em 8 horas. Na atenção primária, associada ao dimenidrinato em 10 mg por tomada. | Sem efeito destacado. | Cloridrato de piridoxina em comprimido — a apresentação da lista principal é de 50 mg, ou seja, meio comprimido por tomada. |
| Gengibre | Degrau não farmacológico: 250 mg de 6 em 6 horas. | Sem efeito destacado. | Fora do elenco nacional, inclusive da relação de 12 fitoterápicos do Componente Básico. |
| Metoclopramida | Primeira droga do Fluxograma 2 da atenção primária: 10 mg de 8 em 8 horas. Segunda escolha venosa na internação pelo Manual: 10 mg de 6 em 6 horas. | Boca seca, sonolência, distonia e sedação; efeitos extrapiramidais limitam o uso. | Comprimido de 10 mg, solução injetável de 5 mg/mL e solução oral de 4 mg/mL. |
| Dimenidrinato | Segunda linha oral do Fluxograma 2, associado a piridoxina 10 mg: 50 mg de 6 em 6 horas, sem exceder 400 mg ao dia. | Sedação, boca seca, tontura e prisão de ventre, como os demais anti-histamínicos. | Não consta do elenco nacional em nenhuma forma farmacêutica. |
| Prometazina | Citada pelo Manual entre os anti-histamínicos utilizados por via oral. | Sedação, boca seca, tontura e prisão de ventre. | Comprimido de 25 mg e solução injetável de 25 mg/mL. |
| Ondansetrona | Primeira escolha do Manual, oral ou intravenosa; na internação, 8 mg por via venosa de 6 em 6 horas. Antes de 10 semanas, uso individualizado com aconselhamento. | Flush facial como principal; dados conflitantes sobre defeitos cardíacos e orofaciais, com risco absoluto baixo. | Comprimido e comprimido orodispersível de 4 mg e de 8 mg. A forma injetável não está na lista nacional. |
| Tiamina (vitamina B1) | Antes da infusão de dextrose, sempre, para prevenir encefalopatia de Wernicke. | Sem efeito destacado. | Cloridrato de tiamina em comprimido de 300 mg. A forma injetável não está na lista nacional. |
Quadro 2 do Manual — o que precisa estar afastado para o nome valer
| Grupo | Condições | O que costuma denunciar na vinheta |
|---|---|---|
| Gastrointestinais | Gastroenterite, gastroparesia, acalasia, doença do trato biliar, hepatite, obstrução intestinal, úlcera péptica, pancreatite, apendicite. | Dor abdominal localizada, febre, parada de eliminação de gases e fezes, icterícia, amilase e transaminases desproporcionais ao jejum. |
| Trato geniturinário | Pielonefrite, uremia, torção ovariana, calculose renal, leiomioma uterino em degeneração. | Febre com dor lombar, giordano positivo, dor pélvica súbita e unilateral, disúria, sedimento urinário alterado. |
| Metabólicas | Cetoacidose diabética, porfiria, doença de Addison, hipertireoidismo, hiperparatireoidismo. | Hiperglicemia, acidose em vez de alcalose, hiponatremia com hipercalemia, bócio e exoftalmia, hipercalcemia. |
| Neurológicas | Pseudotumor cerebral, lesões vestibulares, enxaqueca, tumores do sistema nervoso central. | Cefaleia progressiva, papiledema, vertigem verdadeira com nistagmo, vômito sem náusea, déficit focal. |
| Diversas | Hipofisite linfocítica, toxicidade ou intolerância a medicamentos, condições psicológicas. | Uso recente de droga nova, cefaleia com alteração de campo visual, quadro que remite fora do ambiente doméstico. |
| Relacionadas à gravidez | Esteatose hepática aguda da gravidez e pré-eclâmpsia. | Vômito iniciado na segunda metade da gestação, hipertensão, dor epigástrica, coagulopatia, hipoglicemia. |
A cetonúria é elemento da definição brasileira de hiperêmese e continua a ser cobrada como tal, embora o documento internacional mais recente a tenha desqualificado como medida de gravidade em recomendação de grau A. Numa prova brasileira, cetonúria a favor do diagnóstico é a resposta esperada.
O corpo do texto do protocolo da Febrasgo classifica a forma leve como PUQE menor que 6 e manda ao hospital acima de 6, enquanto o Quadro 1 do mesmo documento classifica até 6 como leve. Lido ao pé da letra, o corpo do texto deixa o valor 6 sem categoria. O Quadro é a versão coerente e é a que o Manual de Gestação de Alto Risco reproduz.
A Rename 2024 lista o cloridrato de piridoxina em duas apresentações diferentes dentro do mesmo documento: 50 mg comprimido na relação alfabética principal, com o código ATC A11HA02, e 40 mg comprimido no Anexo I, que reproduz o Componente Básico. A dose do Manual — 25 mg de 8 em 8 horas — cabe em fração de qualquer das duas, mas a conta de comprimidos muda conforme a página consultada.
Dois esquemas do Manual dependem de forma farmacêutica que o elenco nacional não padroniza: a ondansetrona por via venosa e a tiamina parenteral. A Rename 2024 traz ondansetrona apenas em comprimido e comprimido orodispersível, e tiamina apenas em comprimido de 300 mg. Executá-los depende da padronização do hospital.
A prescrição de metoclopramida 10 mg de 6 em 6 horas do Manual soma 40 mg em 24 horas e ultrapassa o teto de 30 mg ao dia que a bula brasileira registra. O esquema da atenção primária, 10 mg de 8 em 8 horas, entrega exatamente 30 mg e fica no limite — e para gestante abaixo de 60 kg mesmo esse esquema excede o teto por quilo.
Confira a unidade do limiar de T4 livre antes de reproduzi-lo: o capítulo 42.3 do Manual escreve 2,0 ng/mL como valor abaixo do qual convém manter a gestante hipertireóidea em tratamento. O T4 livre é informado em ng/dL na prática laboratorial brasileira, e 2,0 ng/mL equivaleriam a 200 ng/dL, cerca de cem vezes o limite superior habitual de referência. O número a guardar é 2,0; a unidade coerente com o exame é ng/dL.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Ondansetrona em primeiro lugar — o Manual de Gestação de Alto Risco
O capítulo 3 abre a terapêutica farmacológica com a ondansetrona e a descreve como muito efetiva tanto nos casos mais leves como nos mais graves, com baixa incidência de efeitos colaterais. Na internação, o esquema venoso é ondansetrona 8 mg de 6 em 6 horas, e a metoclopramida aparece nomeada como antiemético de segunda escolha. O protocolo da Febrasgo de 2018 sustenta a mesma hierarquia, afirmando que todos os estudos comparativos mostram superioridade de ação da ondansetrona sobre os demais grupos farmacológicos.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3, itens 3.2 e 3.3, p. 32-33; e VAZ, J. O. Náuseas e vômitos na gravidez. Protocolo Febrasgo — Obstetrícia n. 3, FEMINA 2019;47(2):52-4.
Metoclopramida em primeiro lugar — os Protocolos da Atenção Básica
O Fluxograma 2 do documento do Ministério da Saúde para a atenção primária lista, quando o quadro de vômitos se mantém, primeiro a metoclopramida 10 mg de 8 em 8 horas e depois o dimenidrinato com piridoxina. A ondansetrona não aparece no fluxograma. É o mesmo Ministério, em documento de outro nível de atenção e de outra data.
BRASIL. Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Fluxograma 2, p. 97.
Anti-histamínicos e fenotiazinas em primeira linha, ondansetrona em segunda — RCOG
A diretriz britânica inverte a hierarquia: anti-histamínicos H1, fenotiazinas e a associação doxilamina com piridoxina devem ser prescritos inicialmente, em recomendação de grau A; a ondansetrona é apresentada como segunda linha, cujo uso não deve ser desencorajado quando os de primeira linha falham; e a metoclopramida também é segunda linha, pelo risco de efeitos extrapiramidais, com dose intravenosa em bolus lento de pelo menos três minutos.
NELSON-PIERCY, C. et al. The Management of Nausea and Vomiting in Pregnancy and Hyperemesis Gravidarum. Green-top Guideline No. 69, 2. ed. BJOG, 2024, Key recommendations.
Na prova
Identifique o nível de atenção que a vinheta descreve e o documento que o governa. Unidade básica de saúde, gestante que anda, orientação alimentar já tentada: a régua é o Fluxograma 2 e a resposta começa por metoclopramida. Gestante internada, com acesso venoso e distúrbio hidroeletrolítico: a régua é o capítulo 3 e a resposta é ondansetrona 8 mg venosa de 6 em 6 horas. A hierarquia britânica não é a resposta de prova brasileira — serve para reconhecer quando o enunciado foi traduzido de fonte estrangeira, o que costuma aparecer junto com doxilamina, droga que não está na régua nacional.
Solução glicofisiológica, preferencialmente — o Manual de Gestação de Alto Risco
O item da hidratação venosa e reposição iônica determina que a reposição deve ser feita preferencialmente por solução glicofisiológica, de 2.000 mL a 4.000 mL em 24 horas, não devendo exceder 6.000 mL em 24 horas. É solução que contém glicose, e o mesmo capítulo, na caixa de Atenção, exige tiamina antes da infusão de dextrose — de modo que executar a recomendação obriga a respeitar a ordem.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3, item 3.3, p. 33.
Ringer lactato ou solução salina — o protocolo da Febrasgo
O documento que serviu de base ao capítulo do Ministério escreve outra coisa no mesmo parágrafo: a reposição é feita com solução isotônica, ringer lactato ou solução salina, nos mesmos volumes de 2.000 mL a 4.000 mL em 24 horas com teto de 6.000 mL. Não menciona glicose e trata as duas soluções como equivalentes.
VAZ, J. O. Náuseas e vômitos na gravidez. Protocolo Febrasgo — Obstetrícia n. 3, FEMINA 2019;47(2):52-4, Recomendações finais, item 6.
Soro fisiológico a 0,9% com cloreto de potássio, evitando dextrose — RCOG
A diretriz britânica recomenda, em grau C, o soro fisiológico a 0,9% com cloreto de potássio adicional em cada bolsa, guiado por dosagem diária de eletrólitos, como a hidratação intravenosa mais apropriada; e afirma que soluções contendo dextrose podem precipitar encefalopatia de Wernicke em estados de deficiência de tiamina e por isso devem ser evitadas, reservando-as ao vômito de terceiro trimestre para prevenir e tratar a cetose de jejum.
NELSON-PIERCY, C. et al. Green-top Guideline No. 69, 2. ed. BJOG, 2024, Key recommendations e seção 6.1.
Na prova
A fisiopatologia aponta para o cloreto: vomitar é perder ácido clorídrico e potássio, e o distúrbio esperado é alcalose hipoclorêmica e hipocalêmica, como os Protocolos da Atenção Básica descrevem. Numa alternativa que ofereça soro fisiológico a 0,9% com potássio, essa é a escolha coerente com o distúrbio. Se a banca reproduzir literalmente o Manual, a palavra glicofisiológica virá acompanhada da tiamina — e o item a marcar continua sendo o que respeita a ordem tiamina antes de dextrose, que é onde os três documentos concordam. Este capítulo adota, para a conta de volume, os 2.000 a 4.000 mL em 24 horas, que são idênticos nos dois documentos brasileiros.
Sim, é elemento da definição — Ministério da Saúde e Febrasgo
O Manual inclui a cetonúria entre os achados que caracterizam a hiperêmese, ao lado dos distúrbios hidroeletrolíticos, das alterações nutricionais e metabólicas e da perda de mais de 5% do peso corporal, e põe a correção da cetose entre as medidas a considerar fortemente na hidratação intravenosa. O sumário de urina está no painel laboratorial dos casos mais acentuados.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3, itens 3.1 e 3.3, p. 29-30 e 33.
Não, e não deve ser usada — RCOG
A diretriz britânica traz, entre as recomendações-chave e em grau A, que a cetonúria não é indicador de desidratação e não deve ser usada para avaliar gravidade; e acrescenta que a avaliação de cetose urinária pode induzir a erro no julgamento do estado de hidratação e nutrição, devendo ser evitada na avaliação e no acompanhamento. O nível de cetonas não deve informar decisão clínica sobre tratamento ou hidratação.
NELSON-PIERCY, C. et al. Green-top Guideline No. 69, 2. ed. BJOG, 2024, Key recommendations, Tabela 1 e seção 6.2.
Na prova
É a divergência mais fácil de identificar pelo vocabulário do enunciado. Se a vinheta descreve cetonúria na fita e pergunta o que ela indica, a banca está usando a régua brasileira e espera que ela conte a favor do diagnóstico e da gravidade. Este capítulo adota a régua brasileira. A posição britânica só aparece em prova quando o enunciado cita a definição de Windsor ou o escore HELP — sinais de que o item foi montado sobre documento estrangeiro.
Doses altas de corticoide no comprometimento neurológico severo — Ministério da Saúde e Febrasgo
Os dois documentos brasileiros encerram o item dos medicamentos com a mesma frase: os casos de comprometimento neurológico severo, como a psicose de Wernicke, devem ser medicados com doses altas de corticoides, além das outras medidas de controle metabólico. Nenhum dos dois indica dose, via ou duração, e nenhum dos dois menciona tiamina nesse ponto — a tiamina aparece, no Manual, apenas na caixa de Atenção, como prevenção antes da dextrose.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3, item 3.3, p. 33; e VAZ, J. O. Protocolo Febrasgo — Obstetrícia n. 3, FEMINA 2019;47(2):52-4, Recomendações finais, item 6.
Tiamina para Wernicke; corticoide só para hiperêmese refratária — RCOG
A diretriz britânica separa as duas coisas. Recomenda tiamina, 100 mg três vezes ao dia por via oral ou por via parenteral como complexo B, para toda mulher internada com vômitos ou ingestão alimentar gravemente reduzida, especialmente antes da administração de dextrose ou de nutrição parenteral. E estabelece que corticoides não devem ser usados até que o tratamento convencional com reposição de fluidos e antieméticos regulares tenha se mostrado ineficaz, sugerindo hidrocortisona 100 mg venosa duas vezes ao dia, com conversão para prednisolona oral de 40 a 50 mg ao dia e desmame gradual, além de rastreamento para diabetes gestacional.
NELSON-PIERCY, C. et al. Green-top Guideline No. 69, 2. ed. BJOG, 2024, Key recommendations e seção 5.2.2.
Na prova
Este capítulo adota a segunda posição, e a razão é interna ao documento brasileiro: a caixa de Atenção do próprio Manual trata a tiamina como o que previne a encefalopatia de Wernicke, o que torna incoerente responder corticoide diante do quadro neurológico instalado. Uma banca que quisesse cobrar a frase literal do Manual teria de reproduzi-la inteira, com a expressão psicose de Wernicke — e é esse o sinal de alerta. Diante de confusão, nistagmo e ataxia em gestante que vomita, marque tiamina; reserve corticoide para o enunciado que descreve explicitamente falha de hidratação e de antieméticos regulares.
hCG e esteroides sexuais — os documentos brasileiros
O protocolo da Febrasgo afirma que o aparecimento da gonadotrofina coriônica e o aumento do estrogênio e da progesterona têm potencial direto ou indireto de causar náuseas, e que o quadro é mais frequente e mais grave em gestantes com concentrações elevadas de hCG — gestação múltipla, doença trofoblástica, feto do sexo feminino, feto com síndrome de Down. O Manual repete que as causas hormonais são as principais reconhecidas, justificando a maior incidência em gestações múltiplas e na doença trofoblástica.
VAZ, J. O. Protocolo Febrasgo — Obstetrícia n. 3, FEMINA 2019;47(2):52-4, Etiologia; e BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3, item 3.1, p. 30.
Hipersensibilidade ao GDF15, e hCG improvável como causa — RCOG
A diretriz britânica registra que o mecanismo principal foi recentemente elucidado como hipersensibilidade ao fator de diferenciação de crescimento 15, o GDF15, e que níveis circulantes mais altos de GDF15, e não de hCG, foram encontrados em pacientes hospitalizadas com hiperêmese; acrescenta que nenhuma variante genética do hCG foi associada à condição, mesmo em estudos muito grandes, e conclui que o hCG é, portanto, improvável como causa.
NELSON-PIERCY, C. et al. Green-top Guideline No. 69, 2. ed. BJOG, 2024, seção 1 (Introduction and background).
Na prova
A divergência é de mecanismo e não muda uma única conduta, mas muda o que se pode afirmar numa alternativa. A prova brasileira segue a explicação pelo hCG, e é ela que sustenta a indicação de ultrassonografia para afastar gestação múltipla e doença trofoblástica — cadeia de raciocínio que continua correta mesmo se o GDF15 for o mediador final, já que a massa trofoblástica maior produz mais dos dois. Marque a alternativa que liga hCG elevado a êmese mais grave; desconfie do item que apresenta o GDF15 como conhecimento cobrável em banca nacional.
Caso resolvido
- escore
- Antes de qualquer coisa, gradue. Náusea por mais de 12 horas nas últimas 24 (5 pontos), mais de cinco episódios de vômito (5 pontos), salivação e esforço de vômito o tempo todo (5 pontos): PUQE 15, o máximo da escala. Pelos dois documentos brasileiros, forma grave — o que já retira esta paciente do manejo ambulatorial e pede abordagem multidisciplinar em ambiente hospitalar.
- dano
- Agora confira os critérios de dano, que são o que nomeia a doença. Perda de 3,8 kg sobre 58 kg é 6,6% do peso corporal, acima do corte de 5%. Desidratação com taquicardia, hipotensão postural e oligúria. Cetonúria de três cruzes. Falta apenas o distúrbio hidroeletrolítico, que os exames vão documentar. O quadro preenche a definição, mas o nome ainda não pode ser dado.
- tempo
- O início com 6 semanas e o quadro máximo com 9 semanas caem exatamente sobre a curva descrita pelo Manual — começo entre 4 e 6 semanas de idade gestacional, pico com 9 semanas. Isso mantém a paciente dentro da janela obstétrica e afasta, pelo cronograma, as causas de vômito de segunda metade, como esteatose hepática aguda e pré-eclâmpsia.
- altura uterina
- Altura uterina de 12 cm com 9 semanas é a discrepância que muda o caso. Útero maior que o esperado, em gestante com vômito incoercível, é a combinação que o Manual descreve na mola hidatiforme, junto com hCG exageradamente elevado. Sem sangramento a hipótese não se desfaz — na mola diagnosticada precocemente ele pode não ter aparecido ainda.
- exame que não se adia
- Ultrassonografia obstétrica, agora, e por indicação clínica: descartar doença trofoblástica e identificar gestação gemelar. É o único exame do capítulo que não pode ser dispensado por boa resposta terapêutica, porque o diagnóstico de hiperêmese é de exclusão e essas são as duas exclusões obstétricas. O detalhamento da conduta na mola está no capítulo próprio desta apostila.
- painel
- Solicite o painel dos casos acentuados: hemograma, sódio e potássio, função renal, função hepática, amilase, TSH e T4 livre, sumário de urina e urocultura. O padrão esperado é alcalose hipoclorêmica e hipocalêmica, com ureia elevada desproporcionalmente à creatinina. TSH suprimido com T4 livre pouco alto, sem bócio e sem exoftalmia, não vai pedir droga antitireoidiana.
- referência
- Pelo Fluxograma 2, esta paciente tem os três sinais de alerta — queda do estado geral, sinais de desidratação e sinais de distúrbios metabólicos — e a conduta da unidade básica é referenciar ao hospital. Antieméticos orais não são o degrau desta paciente: ela não retém nada desde ontem.
- ordem no hospital
- Na chegada, a ordem importa mais que a velocidade. Tiamina antes de qualquer solução com dextrose — a paciente vomita há três semanas e está com o estoque baixo. Só então hidratação isotônica, entre 2.000 mL e 4.000 mL em 24 horas, sem exceder 6.000 mL, com reposição de potássio guiada pelo eletrólito dosado.
- antiemético
- Pelo Manual, ondansetrona 8 mg por via venosa de 6 em 6 horas; metoclopramida 10 mg venosa de 6 em 6 horas como segunda escolha. Com 9 semanas, a paciente está dentro da janela em que o uso da ondansetrona é individualizado quanto a riscos e benefícios: converse, registre e prescreva — o risco absoluto é baixo e a hiperêmese mal controlada tem risco próprio.
- rotina de internação
- Peso e diurese diários. Correção dos distúrbios hidroeletrolíticos. Suspensão do sulfato ferroso, porque agrava os sintomas. Apoio psicológico, com a família. Jejum de 24 a 48 horas ou até estabilizar, com retorno progressivo a líquidos e depois a sólidos pobres em lipídios e ricos em carboidratos, de três em três horas.
- trombose
- Some o escore da Febrasgo: desidratação e hiperêmese valem 2 pontos. Se a internação passar de quatro dias com a paciente restrita ao leito, soma-se 1 ponto e o total chega a 3 — limiar da tromboprofilaxia com heparina de baixo peso molecular. Reavalie o escore a cada dia, e não só na admissão.
- alta
- Alta com antiemético mantido, retorno precoce e orientação de procurar serviço se o vômito ou os sinais de desidratação recorrerem. O tratamento precoce da náusea é, pelos dois documentos brasileiros, a melhor forma de evitar a progressão para hiperêmese — inclusive nesta gestação, e inclusive na próxima, já que a recorrência é alta.
Agora feche você
- pergunta 1
- Nomeie o quadro neurológico e diga qual decisão de prescrição do primeiro dia o produziu. Depois responda o que fazer agora e por quê — e o que o Manual escreve sobre isso em dois lugares diferentes que não dizem a mesma coisa.
- pergunta 2
- Interprete o painel eletrolítico e a gasometria. Que distúrbio ácido-base é esse, por que mecanismo ele se instalou nesta paciente, e o que ele determina na escolha da solução e do que se acrescenta a ela?
- pergunta 3
- Confira a dose de metoclopramida contra o peso da paciente. Quantos miligramas ela recebeu em 24 horas, qual é o teto que vale para 52 kg, e o esquema estaria correto se o intervalo fosse de 8 em 8 horas?
- pergunta 4
- A ultrassonografia da admissão está normal e o diagnóstico de hiperêmese foi dado. Que diferenciais o quadro atual reabre, e qual é o critério que decide se esta paciente entra em suporte nutricional invasivo — e por qual via primeiro?
Onde a banca derruba
- 1Chamar de hiperêmese a paciente que vomita muito e está bem Atrai porque a queixa é dramática e o número de episódios impressiona. O erro é confundir intensidade com dano. Hiperêmese exige perda de mais de 5% do peso, desidratação, distúrbio hidroeletrolítico e cetonúria — critérios do que o vômito já produziu. Gestante com PUQE 13, peso mantido, diurese normal e eletrólitos normais tem forma grave de náuseas e vômitos da gestação, e o degrau que ela merece é o hospitalar pelo escore, não o rótulo de hiperêmese pelo sintoma.
- 2Deixar a ultrassonografia para depois porque a paciente melhorou com o antiemético Atrai porque o Manual autoriza dispensar exames quando as primeiras condutas dão bons resultados — e a ultrassonografia parece um exame como os outros. Ela não é. A frase que a dispensa se refere ao painel laboratorial; a ultrassonografia está indicada para descartar doença trofoblástica, e mola que responde a antiemético continua sendo mola. A alternativa que resolve o sintoma sem afastar a causa está sempre errada num diagnóstico que se define por exclusão.
- 3Infundir soro glicosado primeiro em quem vomita há semanas Atrai porque a paciente está em jejum, cetonúrica e hipoglicêmica ao toque clínico, e a glicose parece o que falta. É a inversão que cria encefalopatia de Wernicke: a tiamina é cofator das enzimas que metabolizam a glicose, o estoque dura poucas semanas, e a carga de glicose consome o que restou. A caixa de Atenção do capítulo 3 é explícita — a tiamina deve ser administrada antes da infusão de dextrose. Em prova, tiamina antes; sempre.
- 4Tratar o TSH suprimido da gestante com hiperêmese com droga antitireoidiana Atrai porque o exame está alterado e existe droga para isso. O hCG compartilha a fração alfa com o TSH e estimula a tireoide justamente no pico em que a êmese é máxima; TSH suprimido com T4 livre pouco acima do normal, sem bócio, sem exoftalmia e sem TRAb, acompanha esse pico e regride com ele. O próprio Manual condiciona o uso de propiltiouracil ou metimazol ao T4 livre e aos autoanticorpos, e adverte que essas drogas atravessam a placenta e bloqueiam a tireoide fetal.
- 5Manter o sulfato ferroso do pré-natal na gestante internada por hiperêmese Atrai porque suspender suplementação parece contrariar a rotina do pré-natal, e a paciente costuma estar anêmica. Os dois documentos brasileiros põem, entre os quatro itens da internação, evitar a suplementação de derivados de ferro, porque aumentam os sintomas. É item de lista, cabe em alternativa, e é o tipo de detalhe que separa quem leu o capítulo de quem deduziu a conduta.
- 6Indicar nutrição parenteral por cateter central antes de tentar sonda enteral Atrai porque a paciente não come e o cateter parece a via definitiva. O Manual inverte essa intuição em duas frases: a sonda enteral, nasogástrica ou nasoduodenal, é o tratamento de primeira linha para suporte nutricional em quem não responde e não mantém o peso; cateteres centrais inseridos perifericamente não devem ser usados rotineiramente e ficam como último recurso, pelo potencial de morbidade materna grave. O erro aqui é de ordem, não de indicação.
- 7Contraindicar ondansetrona no primeiro trimestre Atrai porque a associação com fenda orofacial circula como se fosse proibição. O Manual não contraindica: individualiza o uso antes de dez semanas, com aconselhamento sobre os dados disponíveis, e registra que o risco absoluto para qualquer feto é baixo. O número que dimensiona isso está no documento internacional — a razão de risco ajustada de 1,24 corresponde a 14 casos por 10.000 nascimentos com exposição contra 11 sem, ou três casos adicionais em 10.000. A alternativa correta costuma ser a que prescreve com aconselhamento, não a que proíbe.
- 8Responder corticoide para encefalopatia de Wernicke porque o Manual escreveu isso Atrai porque a frase existe mesmo: os casos de comprometimento neurológico severo, como a psicose de Wernicke, devem ser medicados com doses altas de corticoides. Ela contradiz a caixa de Atenção do próprio Manual, que trata a tiamina como a prevenção da encefalopatia, e o documento internacional reserva o corticoide à hiperêmese refratária ao tratamento convencional — hidrocortisona 100 mg venosa duas vezes ao dia, depois prednisolona oral. Diante de nistagmo, ataxia e confusão numa gestante que vomita, a resposta é tiamina.
- 9Somar 2 pontos de hiperêmese e concluir que não há profilaxia de trombose Atrai porque o escore da Febrasgo exige 3 pontos e a hiperêmese com desidratação vale 2. O ponto que falta quase sempre está na mesma vinheta: imobilidade no leito por mais de quatro dias, idade igual ou maior que 40 anos, índice de massa corporal igual ou maior que 40 kg/m². A internação prolongada por vômito é ela própria fator de risco, e a razão de chances ajustada de 4,4 para trombose venosa profunda na hiperêmese mostra que não é formalidade de escore.
Na hiperêmese gravídica com desidratação e vômitos prolongados, a reposição de tiamina antes ou concomitante à glicose é prioritária para prevenir a encefalopatia de Wernicke, complicação grave da depleção de tiamina agravada pela infusão de glicose. Ondansetrona por via oral (distrator) é inadequada em paciente que não retém líquidos — a via deve ser parenteral. Dieta por sonda (distrator) não é a medida inicial e não substitui a estabilização hidroeletrolítica. Corticoide em altas doses (distrator) é reservado a casos refratários, não é primeira medida.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Gestante de 31 anos, 8 semanas, comparece à UBS para primeira consulta de pré-natal. Refere náuseas e vômitos frequentes, com perda de 3 kg em duas semanas, sinais de desidratação e cetonúria na urina de fita. Não tolera dieta oral. PA 100x60 mmHg, FC 104 bpm. Qual a conduta mais apropriada?
Vômitos incoercíveis com perda ponderal significativa, desidratação, taquicardia e cetonúria caracterizam hiperêmese gravídica, que ultrapassa a náusea fisiológica. A conduta é referenciar para hidratação endovenosa, antieméticos e correção de distúrbios hidroeletrolíticos/metabólicos, geralmente com internação. Dieta domiciliar isolada é insuficiente diante da intolerância oral e desidratação. Corticoide é medida de segunda/terceira linha para casos refratários, não a conduta inicial. Tranquilizar como quadro fisiológico ignora os sinais de gravidade.
Uma gestante de 25 anos, na 10ª semana de gestação, comparece à consulta de pré-natal referindo náuseas e vômitos matinais leves, que cedem ao longo do dia e não impedem a alimentação. Nega perda de peso significativa, sinais de desidratação ou distúrbios eletrolíticos. Ao exame, apresenta bom estado geral, mucosas úmidas e sinais vitais estáveis. A paciente está preocupada e pergunta se necessita de internação. Considerando o quadro clínico típico de êmese gravídica não complicada, qual é a conduta inicial mais adequada na atenção primária?
A êmese gravídica leve, sem desidratação, perda de peso ou distúrbio eletrolítico, é manejada ambulatorialmente com orientações dietéticas (fracionamento das refeições, evitar jejum prolongado), medidas comportamentais e antieméticos quando necessário. A internação é reservada à hiperêmese gravídica com desidratação e distúrbios metabólicos. Não há indicação de interrupção da gestação. Corticoide sistêmico em altas doses não é conduta de primeira linha para êmese gravídica.
Primigesta de 24 anos, com 9 semanas de gestação, é levada ao pronto-socorro por vômitos incoercíveis há 5 dias, sem ingestão de líquidos ou alimentos nas últimas 24 horas. Refere tontura ao levantar. Ao exame: PA 90x60 mmHg, FC 118 bpm, mucosas secas, turgor cutâneo diminuído. Exames laboratoriais: Na+ 128 mEq/L (VR 135–145), K+ 2,9 mEq/L (VR 3,5–5,0), Cl- 88 mEq/L (VR 98–106), gasometria com pH 7,52 e HCO3- 34 mEq/L (VR 22–26), cetonúria 3+. Considerando o distúrbio hidroeletrolítico e acidobásico apresentado, qual é a conduta inicial mais adequada?
Correta: o quadro é de hiperêmese gravídica com desidratação, hipocalemia, hipocloremia e alcalose metabólica hipoclorêmica (pela perda de HCl no vômito) e cetose de jejum. A base do tratamento é reidratação com cristaloide (SF 0,9%), que corrige volume, cloro e sódio, associada à reposição de potássio (K+ 2,9) e antieméticos EV. Erra SG 5% isolado não repõe cloro/sódio nem potássio, e a dieta oral está contraindicada com vômitos incoercíveis. Erra: a alcalose é secundária à depleção de cloro/volume e corrige com SF, não com bicarbonato (que agravaria a alcalose). Erra: a hiponatremia é hipovolêmica e leve/moderada; corrige-se com SF isotônico — NaCl 3% em bolus arrisca mielinólise pontina por correção abrupta. Erra: nutrição parenteral é medida de exceção, reservada a falha da terapia clínica e não é a conduta inicial.
Gestante de 28 anos, com 8 semanas de gestação (primeira gestação), procura atendimento por náuseas e vômitos persistentes desde a 6ª semana, com dificuldade para se alimentar. Refere perda de peso e mal-estar. Ao exame: PA 100x70 mmHg, FC 96 bpm, mucosas discretamente ressecadas. Exame de urina com cetonúria 2+ e perda ponderal de 5% do peso pré-gestacional. Qual das alternativas caracteriza o diagnóstico de hiperêmese gravídica?
Correta: a hiperêmese gravídica é definida por vômitos incoercíveis no início da gestação, perda de peso superior a 5% do peso pré-gestacional, desidratação, cetonúria e distúrbios hidroeletrolíticos — exatamente o quadro descrito. Erra: descreve a êmese gravídica fisiológica (náuseas leves e autolimitadas), que não configura hiperêmese. Erra: a hiperêmese é típica do 1º trimestre (início entre 4–8 semanas, pico ~9 semanas); vômitos de início após 20 semanas exigem investigação de outras causas. Erra por definição há perda de peso e alterações laboratoriais (cetonúria/distúrbios eletrolíticos). Erra: icterícia e elevação acentuada de transaminases não fazem parte da definição — quando presentes, obrigam a afastar hepatopatias e outras causas.
Secundigesta de 30 anos, com 10 semanas de gestação, internada por hiperêmese gravídica. Após reposição volêmica e uso de antieméticos, mantém vômitos e é necessário prolongar o jejum e iniciar reposição nutricional. Antes de introduzir aporte de glicose e nutrição, o obstetra prescreve tiamina (vitamina B1) por via parenteral. Qual é a principal justificativa para a administração de tiamina nesse contexto?
Correta: na hiperêmese prolongada há depleção de tiamina; a oferta de glicose sem reposição prévia de B1 aumenta o consumo do estoque restante e pode precipitar encefalopatia de Wernicke (confusão, ataxia, oftalmoplegia). Por isso a tiamina deve preceder ou acompanhar a infusão de glicose. Erra: a tiamina não trata anemia ferropriva — esta se corrige com ferro. Erra: a tiamina não tem efeito antiemético; o controle de vômitos é feito com antieméticos. Erra: a prevenção de defeitos do tubo neural é papel do ácido fólico, não da tiamina. Erra: a alcalose hipoclorêmica corrige-se com reposição de cloro/volume (SF), não com tiamina.
Mulher, 24 anos, primigesta, com 9 semanas de gestação, refere náuseas e vômitos há 3 semanas, que se intensificaram e tornaram-se incoercíveis (8 a 10 episódios/dia), com incapacidade de reter alimentos e líquidos. Apresenta perda de 5,5 kg (superior a 5% do peso pré-gestacional). Ao exame: mucosas ressecadas, turgor cutâneo diminuído, PA 100x60 mmHg, FC 104 bpm. Exame de urina: cetonúria 3+. Ultrassonografia: gestação tópica única viável, sem sinais de doença trofoblástica. Qual o diagnóstico mais provável?
Correta: a hiperêmese gravídica é definida por vômitos persistentes e incoercíveis no 1º trimestre associados à tríade clássica: perda de peso >5% do peso pré-gestacional, desidratação e distúrbio metabólico (aqui evidenciado pela cetonúria). O quadro se instala tipicamente entre 6 e 12 semanas. As náuseas e vômitos fisiológicos são leves, autolimitados e NÃO cursam com perda ponderal significativa, desidratação ou cetonúria. Gastroenterite costuma ter diarreia e curso autolimitado de poucos dias. Colecistite cursa com dor em hipocôndrio direito, febre e Murphy positivo, ausentes aqui. Pancreatite se manifesta com dor epigástrica intensa irradiada ao dorso e elevação de amilase/lipase — não descritas.
Mulher, 28 anos, com 11 semanas de gestação, é internada por hiperêmese gravídica, com vômitos há 4 semanas, perda de 8% do peso e sinais clínicos de desidratação. Está prostrada, com aporte alimentar praticamente nulo desde o início do quadro. Foi prescrita reposição volêmica e a equipe se prepara para iniciar infusão de soro glicosado. Qual medida deve preceder/acompanhar a administração de glicose para prevenir complicação neurológica grave?
Correta: Gestantes com hiperêmese prolongada e jejum têm depleção de tiamina (vitamina B1). A infusão de glicose sem reposição prévia de tiamina consome os estoques residuais e pode precipitar encefalopatia de Wernicke, complicação neurológica grave e potencialmente irreversível. Por isso, a tiamina deve ser administrada antes (ou junto) da glicose. A reposição de potássio é importante (a hiperêmese cursa com hipocalemia), mas não previne Wernicke, que é o risco neurológico em questão. Ácido fólico é essencial na gestação, mas não tem relação com a prevenção da encefalopatia de Wernicke. Ondansetrona controla os vômitos, porém não protege contra a complicação neurológica da carga de glicose. Magnésio e cálcio corrigem outros distúrbios eletrolíticos, mas não substituem a tiamina na prevenção de Wernicke.
Mulher, 26 anos, G2P1, com 10 semanas de gestação (idade gestacional confirmada por ultrassonografia), procura o pronto-socorro por vômitos incoercíveis há 4 semanas, com incapacidade de tolerar dieta via oral nos últimos 5 dias. Refere perda de 6 kg em relação ao peso pré-gestacional (peso atual 52 kg). Ao exame: desidratada (mucosas secas, turgor diminuído), PA 96/58 mmHg, FC 112 bpm, FR 18 ipm, afebril. Exames: cetonúria 3+, Na 129 mEq/L (VR 135–145), K 2,9 mEq/L (VR 3,5–5,0), TSH 0,08 mUI/L (VR 0,4–4,0) e T4 livre no limite superior da normalidade. Ultrassonografia com gestação tópica única, sem sinais de doença trofoblástica. Assinale a conduta inicial mais adequada.
Trata-se de hiperêmese gravídica (vômitos incoercíveis com início no 1º trimestre, perda ponderal > 5%, cetonúria e distúrbios hidroeletrolíticos), afastadas doença trofoblástica e gestação múltipla. A conduta inicial é hidratação com cristaloide isotônico (SF 0,9%), correção de potássio e sódio e — ponto-chave — reposição de TIAMINA parenteral ANTES de infundir soluções glicosadas, pois a oferta de glicose em paciente com depleção de tiamina precipita encefalopatia de Wernicke (opção correta). Errada: administrar glicose hipertônica antes da tiamina é exatamente o gatilho da Wernicke, além de não priorizar a correção volêmica/eletrolítica. Errada: o TSH suprimido com T4L normal traduz tireotoxicose gestacional transitória mediada pelo beta-hCG, autolimitada e que NÃO se trata com antitireoidianos. Errada: corticoide não é primeira linha — reserva-se a casos refratários; jejum absoluto prolongado não é conduta adequada. Errada: ondansetrona pode ser usada como antiemético, mas não dispensa a reposição de volume, eletrólitos e tiamina, que são a prioridade de segurança nesta fase.
Uma mulher de 26 anos, primigesta, comparece à Unidade Básica de Saúde com 9 semanas de gestação relatando náuseas intensas e vômitos incoercíveis há cerca de duas semanas, com incapacidade de reter alimentos e líquidos. Ao exame, apresenta-se com mucosas desidratadas, turgor cutâneo diminuído, taquicardia (FC 108 bpm) e refere perda de aproximadamente 6% do peso pré-gestacional. A fita urinária evidencia cetonúria (3+). A ultrassonografia obstétrica demonstra gestação tópica única. Considerando o quadro descrito, qual é o diagnóstico mais provável e a conduta inicial mais apropriada?
O quadro de vômitos incoercíveis com desidratação, perda ponderal maior que 5%, cetonúria e distúrbio hidroeletrolítico caracteriza hiperêmese gravídica, cuja conduta é internação para hidratação venosa, reposição eletrolítica e antieméticos parenterais. A êmese gravídica leve não cursa com desidratação/cetonúria. A gastroenterite teria diarreia e história epidemiológica. A doença trofoblástica exigiria alterações ultrassonográficas, mas aqui a US é normal.
Uma gestante de 24 anos, na 10ª semana, está internada por hiperêmese gravídica há três dias, em uso de hidratação venosa com soro glicosado e antieméticos. Evoluiu com confusão mental, nistagmo horizontal e marcha atáxica. Nega comorbidades prévias e a glicemia capilar está normal. A equipe suspeita de uma complicação neurológica relacionada ao quadro e à terapêutica instituída. Qual é a complicação mais provável e a medida que teria prevenido seu surgimento?
A tríade confusão mental, oftalmoplegia/nistagmo e ataxia em gestante com vômitos prolongados aponta para encefalopatia de Wernicke, decorrente da deficiência de tiamina; a infusão de glicose sem reposição prévia de tiamina precipita o quadro, de modo que a reposição de tiamina antes/junto da glicose é preventiva. AVE seria focal e sem relação com o jejum. Eclâmpsia exige hipertensão/proteinúria e geralmente ocorre após 20 semanas. A glicemia está normal, afastando hipoglicemia.
Uma mulher de 22 anos, gestante de 8 semanas, procura a Unidade Básica de Saúde com náuseas e vômitos matinais leves, que melhoram ao longo do dia e não impedem a alimentação. Nega perda de peso significativa, mantém boa aceitação de líquidos e o exame físico é normal, sem sinais de desidratação. A fita urinária não mostra cetonúria. Qual é a orientação inicial mais adequada para essa paciente?
Trata-se de náuseas e vômitos leves da gestação (êmese gravídica), sem desidratação, perda de peso ou cetonúria, cuja conduta inicial é orientação de medidas não farmacológicas (fracionar refeições, evitar gorduras/odores) associada a antiemético oral se necessário. Internação e nutrição parenteral são reservadas à hiperêmese refratária. A interrupção da gestação não tem indicação. Corticoterapia é medida de exceção em casos graves e refratários, não conduta inicial.
Uma mulher de 23 anos, primigesta, com 9 semanas de gestação, é atendida em uma unidade de pronto atendimento com náuseas e vômitos incoercíveis há três semanas, atualmente cerca de dez episódios por dia, com incapacidade de aceitar líquidos ou alimentos nas últimas 48 horas. Refere perda de 5 kg desde o início da gestação (peso prévio de 60 kg). Nega febre, diarreia, dor abdominal, disúria ou uso de medicamentos. Ao exame físico: regular estado geral, mucosas secas, turgor cutâneo diminuído, PA 90x60 mmHg, FC 112 bpm, afebril, abdome flácido e indolor. Exames: cetonúria 3+, densidade urinária 1.030, sódio 131 mEq/L, potássio 3,1 mEq/L. A ultrassonografia mostra gestação tópica única, embrião único com batimentos cardíacos presentes. Quais são, respectivamente, o diagnóstico e a conduta adequada para o caso?
A tríade vômitos persistentes no primeiro trimestre + perda ponderal maior que 5% do peso pré-gestacional + desidratação com distúrbio hidroeletrolítico e cetonúria define hiperêmese gravídica, e a presença de instabilidade (taquicardia, hipotensão, hipocalemia, intolerância total à via oral) impõe internação com hidratação intravenosa, correção de eletrólitos, tiamina profilática e antiemético parenteral, conforme os protocolos de urgências obstétricas do Ministério da Saúde/FEBRASGO. A alternativa dos vômitos fisiológicos está errada porque estes não cursam com perda ponderal significativa, cetonúria nem desidratação, e a paciente não tolera a via oral. Gastroenterite aguda é insustentável sem febre, diarreia ou dor abdominal, e a via oral já falhou. A conduta ambulatorial com ondansetrona oral e corticoide é inadequada porque a paciente não retém medicação por via oral e o corticoide não é terapia de primeira linha, sendo reservado a casos refratários após internação.
Uma gestante de 31 anos, com 14 semanas de gestação, apresenta vômitos incoercíveis desde a 7ª semana, com três internações prévias por hiperêmese gravídica e perda acumulada de 11 kg; nas internações anteriores, recebeu apenas hidratação com soro glicosado e antieméticos, sem suplementação vitamínica. É trazida ao pronto-socorro pelo companheiro por confusão mental iniciada há dois dias. Ao exame: desorientada no tempo e no espaço, sonolenta, com nistagmo horizontal, paresia do reto lateral bilateral e marcha atáxica, sem sinais meníngeos ou déficit motor focal. PA 100x60 mmHg, FC 108 bpm, afebril. Glicemia capilar 58 mg/dL; sódio 133 mEq/L; enzimas hepáticas normais; amônia normal. Quais são, respectivamente, o diagnóstico mais provável e a conduta imediata?
Vômitos prolongados com perda ponderal importante e hidratação com soro glicosado sem reposição de tiamina esgotam os estoques da vitamina B1 e precipitam a encefalopatia de Wernicke, cuja tríade clássica — confusão, alterações oculomotoras (nistagmo e oftalmoparesia) e ataxia — está completa no caso; a conduta é tiamina intravenosa imediata, obrigatoriamente antes da glicose, pois a infusão de glicose consome a tiamina residual e agrava o quadro de forma irreversível. Encefalopatia hepática é afastada por enzimas hepáticas e amônia normais e ausência de hepatopatia. A hiponatremia de 133 mEq/L é leve e não explica o quadro neurológico, além de a correção rápida ser iatrogênica. A hipoglicemia é discreta e não justifica oftalmoparesia nem ataxia; tratá-la primeiro com glicose, sem tiamina, precipitaria a piora neurológica.
Primigesta de 24 anos, com 9 semanas de gestação, é atendida na UBS com náuseas e vômitos persistentes há três semanas, incapaz de manter a alimentação e com perda ponderal de 7% do peso pré-gestacional. O exame de urina evidencia cetonúria. Não há febre, dor abdominal ou diarreia. Qual é o diagnóstico mais provável?
Vômitos persistentes no primeiro trimestre com perda de peso maior que 5%, desidratação e cetonúria caracterizam a hiperêmese gravídica. A gastroenterite cursaria com diarreia e caráter autolimitado; os vômitos fisiológicos não levam a emagrecimento e cetonúria; a colecistite exigiria dor em hipocôndrio direito e sinais inflamatórios.
Gestante de 11 semanas é internada por hiperêmese gravídica, com vômitos há três semanas, importante perda de peso e desidratação. A equipe planeja iniciar reposição volêmica com soro glicosado e antieméticos. Antes de infundir grandes quantidades de glicose nessa paciente, qual medida é fundamental para prevenir complicação neurológica?
Vômitos prolongados depletam a tiamina; infundir glicose sem repô-la pode precipitar encefalopatia de Wernicke, por isso a tiamina deve preceder a glicose. O ácido fólico previne defeitos de tubo neural, não Wernicke; o sulfato de magnésio é usado na pré-eclâmpsia/eclâmpsia; a corticoterapia é recurso de exceção nos casos refratários, sem papel na prevenção dessa complicação.
Primigesta de 26 anos, com 9 semanas de gestação, é internada por vômitos incoercíveis há 12 dias, com perda de 4 kg e cetonúria. Nega doença tireoidiana prévia, palpitações fora dos episódios de vômito, tremor ou emagrecimento antes da gravidez. Ao exame: sem bócio, sem oftalmopatia, FC 96 bpm, sem tremor de extremidades. Ultrassonografia obstétrica: gestação tópica única, embrião com batimentos cardíacos presentes, anexos sem alterações. Exames: TSH 0,03 µUI/mL (VR 0,4–4,0); T4 livre 1,9 ng/dL (VR 0,7–1,8); TRAb indetectável. Assinale a conduta adequada.
O quadro é de tireotoxicose gestacional transitória, presente em até 60% das hiperêmeses: o hCG, análogo estrutural do TSH, estimula o receptor tireoidiano, suprimindo o TSH e elevando discretamente o T4 livre. Contra doença autoimune pesam a ausência de bócio, oftalmopatia, sintomas pré-gestacionais e TRAb negativo. É condição autolimitada, que regride com a queda do hCG após 14–18 semanas — o tratamento é o da hiperêmese (hidratação, antieméticos, tiamina), com repetição da função tireoidiana no segundo trimestre. Propiltiouracil e metimazol não trazem benefício e expõem o feto a risco (hepatotoxicidade materna e embriopatia do metimazol, respectivamente); metimazol é justamente o evitado no primeiro trimestre. Propranolol com antitireoidiano trata Graves, não esta condição.
Gestante de 22 anos, com 11 semanas, está internada há 6 dias por hiperêmese gravídica, com perda de 9% do peso corporal. Recebeu hidratação venosa com soro glicosado a 10% e metoclopramida, sem reposição vitamínica, mantendo vômitos e aceitação oral mínima. Hoje evolui sonolenta, desorientada no tempo, com nistagmo horizontal bilateral e marcha atáxica ao ser levantada do leito. PA 104x64 mmHg, FC 100 bpm, afebril, sem rigidez de nuca, glicemia capilar 96 mg/dL. Assinale a conduta imediata mais adequada.
A tríade confusão mental + oftalmoplegia/nistagmo + ataxia em gestante com vômitos prolongados e infusão de glicose sem reposição vitamínica caracteriza encefalopatia de Wernicke por deficiência de tiamina — a glicose consome o estoque residual de B1 e precipita o quadro. O diagnóstico é clínico e o tratamento não deve ser postergado: tiamina parenteral em altas doses imediatamente, sempre antes de nova carga de glicose, pois o atraso leva a sequela irreversível (síndrome de Korsakoff). Aguardar ressonância retarda uma terapia de baixo risco e alto benefício. Trocar o antiemético e aumentar o soro glicosado agrava a deficiência de tiamina. Encefalite herpética não explica a tríade nem o contexto, e a paciente está afebril e sem meningismo.
Primigesta de 22 anos, com 10 semanas de gestação, procura a emergência por vômitos incoercíveis há 12 dias, com impossibilidade de aceitar dieta ou líquidos. Perda de 5,5 kg, equivalente a 8% do peso pré-gestacional. Ao exame: desidratada (2+/4+), mucosas secas, PA 96 x 58 mmHg, FC 112 bpm, afebril. Exames: sódio 132 mEq/L, potássio 3,0 mEq/L, cloro 92 mEq/L, gasometria venosa com alcalose metabólica, urina tipo I com cetonúria 3+. Ultrassonografia: gestação tópica única, embrião com batimentos presentes. Assinale a conduta inicial mais adequada.
O quadro é hiperêmese gravídica (vômitos persistentes, perda > 5% do peso, desidratação, distúrbio hidroeletrolítico e cetonúria) com instabilidade e hipocalemia, o que impõe internação: reidratação com cristaloide isotônico, reposição de potássio, antiemético parenteral e — ponto-chave — tiamina ANTES de solução glicosada, para prevenir encefalopatia de Wernicke (correta). Infundir glicose antes da tiamina é justamente o erro que precipita Wernicke. Nutrição parenteral é medida de exceção, reservada à falha de todas as etapas anteriores, pelo risco infeccioso e trombótico. Corticoide é terapia de resgate em casos refratários, nunca primeira linha, e é evitado antes de 10 semanas.
Primigesta de 23 anos comparece ao pronto-socorro obstétrico com 10 semanas de idade gestacional. Refere náuseas desde a 6ª semana, hoje com vômitos incontáveis e incapacidade de reter alimentos ou líquidos há 30 horas. Pesava 62 kg na primeira consulta e pesa agora 58,4 kg. Ao exame, mucosas secas, frequência cardíaca de 116 bpm, pressão arterial de 94 por 58 mmHg com queda ao sentar, altura uterina compatível. Fita urinária com cetonúria acentuada, sem nitrito. Nega febre, dor abdominal localizada, cefaleia e sangramento. Qual é a conduta diagnóstica que não pode ser omitida antes de firmar o diagnóstico?
A hiperêmese gravídica é diagnóstico clínico de exclusão, e as duas exclusões obstétricas saem do mesmo exame: o Manual de Gestação de Alto Risco determina que a ultrassonografia está indicada para descartar casos de doença trofoblástica e que, igualmente, pode identificar gestação gemelar. Não é exame de calendário do pré-natal — é exame indicado pela queixa, porque a êmese acompanha a carga de gonadotrofina coriônica e esses são os dois estados de hCG elevado. A endoscopia com pesquisa de H. pylori aparece nos dois documentos brasileiros, mas como ponderação nos casos graves e sem valor confirmatório: nenhum exame confirma hiperêmese, ela se define por exclusão. A alternativa que dispensa investigação inverte a ressalva do Manual, que autoriza dispensar o painel laboratorial quando as primeiras condutas dão bons resultados — a ultrassonografia não está nessa dispensa, e mola que responde a antiemético continua sendo mola. A tomografia de crânio não é rastreio: as causas neurológicas do Quadro 2 se investigam quando há cefaleia progressiva, papiledema ou sinal focal, ausentes aqui. E o beta-hCG quantitativo não define origem de êmese; o valor de 500.000 mUI/mL citado pelo Manual serve para indicar a busca de cistos tecaluteínicos por via suprapúbica em mola já suspeitada, não como teste diagnóstico da náusea.
Gestante de 25 anos internada por hiperêmese gravídica com 9 semanas. Exames: sódio 132 mEq/L, potássio 2,8 mEq/L, cloro 90 mEq/L, ureia 62 mg/dL, creatinina 0,7 mg/dL, gasometria venosa com pH 7,49 e bicarbonato 31 mEq/L, fita urinária com cetonúria. Qual é o distúrbio predominante e a reposição mais coerente com ele?
O conjunto — pH 7,49 com bicarbonato de 31 mEq/L, cloro de 90 e potássio de 2,8 — descreve alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica, e o mecanismo está escrito na própria definição de hiperêmese dos Protocolos da Atenção Básica: transtornos metabólicos com alcalose, pela perda maior de cloro, perda de potássio e alteração no metabolismo das gorduras e dos carboidratos. A ureia de 62 mg/dL com creatinina de 0,7 mg/dL confirma a hipovolemia. A reposição coerente devolve o íon perdido: solução isotônica rica em cloreto, com cloreto de potássio acrescentado e guiado por dosagem, exatamente como a diretriz internacional recomenda e como a fisiopatologia exige. A alternativa da acidose inverte o exame — o pH está acima de 7,45 e o bicarbonato está alto, o oposto de acidose; a cetonúria acompanha o jejum e não domina o quadro. A alcalose respiratória exigiria pCO2 baixa como distúrbio primário, e o bicarbonato elevado aponta para causa metabólica. O ringer lactato é armadilha atraente porque o protocolo da Febrasgo o oferece como equivalente da solução salina: o lactato é precursor de bicarbonato e não é a escolha natural para quem já está alcalótico, o que torna essa alternativa clinicamente incoerente mesmo tendo respaldo literal num documento brasileiro. E a salina hipertônica está indicada em hiponatremia sintomática grave, não em sódio de 132 mEq/L de origem hipovolêmica, que corrige com a reposição isotônica.
Gestante de 32 anos, com 12 semanas, está internada há seis dias por hiperêmese gravídica. Recebeu hidratação venosa adequada, tiamina, ondansetrona e depois metoclopramida, sem controle dos vômitos. Perdeu mais 2 kg durante a internação e permanece restrita ao leito. Qual é a conduta correta neste momento?
O Manual de Gestação de Alto Risco define o ponto de virada por dois critérios simultâneos — a mulher que não responde à terapia e não consegue manter seu peso — e determina a ordem: a alimentação por sonda enteral, nasogástrica ou nasoduodenal, deve ser iniciada como o tratamento de primeira linha para fornecer suporte nutricional. O mesmo capítulo adverte que cateteres centrais inseridos perifericamente não devem ser usados rotineiramente, dadas as complicações significativas associadas, e devem ficar como último recurso pelo potencial de morbidade materna grave — o que torna a primeira alternativa errada por inversão de ordem, não por indicação inexistente. A reavaliação do escore de tromboembolismo pertence à mesma conduta: no escore da Comissão Nacional Especializada da Febrasgo reproduzido pelo Manual, desidratação e hiperêmese valem 2 pontos, e a imobilidade no leito por mais de quatro dias acrescenta o ponto que atinge o limiar de 3 para heparina de baixo peso molecular. Aguardar a resolução espontânea ignora que a paciente continua perdendo peso e que o ganho ponderal insuficiente é o que se associa a parto pré-termo e baixo peso. A interrupção da gestação não se coloca antes de esgotadas todas as medidas terapêuticas, entre as quais o suporte nutricional que ainda não foi tentado. E reintroduzir o sulfato ferroso contraria item expresso da internação nos dois documentos brasileiros: evitar suplementação de derivados de ferro, porque aumentam os sintomas.
Gestante de 30 anos, com 11 semanas, está internada há 24 horas por hiperêmese gravídica. Recebeu soro glicosado a 5%, 2.500 mL, e metoclopramida venosa. Nas últimas horas apresenta confusão mental, nistagmo horizontal e ataxia de marcha. Qual é o diagnóstico e a conduta imediata?
Confusão, nistagmo e ataxia numa gestante que vomita há semanas e recebeu carga de glicose é a apresentação clássica da encefalopatia de Wernicke, e o mecanismo explica a pressa: a tiamina é cofator das desidrogenases que metabolizam a glicose e a reserva do organismo dura poucas semanas, de modo que infundir glicose sem repor tiamina consome o estoque restante e converte deficiência latente em lesão de corpos mamilares e tálamo medial. A caixa de Atenção do capítulo 3 do Manual de Gestação de Alto Risco é explícita ao exigir que a tiamina seja administrada antes da infusão de dextrose para prevenir a encefalopatia. A alternativa do corticoide reproduz literalmente outra frase do mesmo Manual, que manda medicar com doses altas de corticoide os casos de comprometimento neurológico severo, como a psicose de Wernicke — a frase existe, mas contradiz a própria caixa de Atenção do documento, e o corticoide é o resgate descrito para a hiperêmese refratária ao tratamento convencional, não a terapia da deficiência de tiamina. A esteatose hepática aguda da gravidez está no Quadro 2 dos diferenciais, mas é doença da segunda metade da gestação e cursa com icterícia, coagulopatia e hipoglicemia, ausentes aqui. Distonia aguda por metoclopramida produz movimento involuntário e crise oculógira, não ataxia com nistagmo e confusão. E hiponatremia dilucional não explica nistagmo nem ataxia, além de que 2.500 mL em 24 horas está dentro da faixa de 2.000 a 4.000 mL que os documentos brasileiros recomendam.
Gestante de 29 anos, com 10 semanas, internada por hiperêmese gravídica. Exames mostram TSH de 0,04 mUI/L e T4 livre de 1,9 ng/dL. Não há bócio, exoftalmia, tremor fino ou taquicardia sustentada fora dos episódios de vômito; não há antecedente de doença tireoidiana. Qual é a conduta correta em relação a esse achado?
A fração alfa da gonadotrofina coriônica é comum ao TSH, homologia que o próprio Manual de Gestação de Alto Risco explicita ao descrever o hipertireoidismo da doença trofoblástica, e o pico de hCG do primeiro trimestre é o mesmo que produz a êmese máxima. TSH suprimido com T4 livre apenas discretamente elevado, sem bócio, sem exoftalmia e sem autoanticorpos, acompanha esse pico e regride com ele. O capítulo 42.3 do Manual dá a régua da decisão terapêutica: o nível de T4 livre é o que importa, sendo preferível manter a gestante na faixa de discreto hipertireoidismo, abaixo do limiar de 2,0 que o documento fixa, evitando a exposição fetal às drogas antitireoidianas, que atravessam a placenta e podem bloquear a tireoide do feto. As duas alternativas que iniciam metimazol ou propiltiouracil erram por tratar reflexo laboratorial em vez de doença: a doença de Graves, causa mais prevalente no menacme segundo o mesmo capítulo, se manifesta com bócio difuso, exoftalmia e TRAb elevado, ausentes aqui. A cintilografia de tireoide usa radioisótopo e é proscrita na gestação — o Manual, no capítulo das doenças biliares, registra que exames com radioisótopos devem ser evitados pela elevada taxa de radiação. E a ondansetrona não suprime TSH: seu efeito adverso destacado pelo Manual é o flush facial, e suspendê-la retiraria da paciente justamente o antiemético de primeira escolha do documento.
Gestante de 26 anos, com 8 semanas, tem hiperêmese gravídica e não respondeu a medidas não farmacológicas. O médico considera prescrever ondansetrona e a paciente pergunta se a droga é segura. Qual orientação está de acordo com o Manual de Gestação de Alto Risco?
O Manual de Gestação de Alto Risco descreve a ondansetrona como muito efetiva tanto nos casos mais leves como nos mais graves e a coloca à frente na terapêutica farmacológica, mas acrescenta a única ressalva de segurança do capítulo: embora alguns estudos tenham mostrado aumento do risco de defeitos congênitos cardíacos e orofaciais com o uso precoce e outros não, o risco absoluto para qualquer feto é baixo, as mulheres devem ser aconselhadas sobre os dados disponíveis, e o uso antes de dez semanas deve ser individualizado quanto a riscos e benefícios. A dimensão do risco ajuda a conversa: a razão de risco ajustada de 1,24 para fenda orofacial corresponde a 14 casos por 10.000 nascimentos com exposição contra 11 sem exposição, ou seja, três casos adicionais em 10.000. A alternativa da contraindicação formal transforma individualização em proibição, que o Manual não faz. A que nega qualquer associação apaga a ressalva escrita no documento. A que restringe ao uso venoso hospitalar contraria o próprio texto, que registra que a droga pode ser utilizada por via oral e intravenosa — e a Rename 2024 padroniza justamente as formas oral e orodispersível. E a que adia o uso para depois de 14 semanas cria um marco que nenhum documento brasileiro estabelece: a data que aparece no Manual é dez semanas, e como limite para individualizar, não para proibir.
Gestante de 27 anos, com 8 semanas, é atendida em unidade básica de saúde por náuseas e vômitos que persistem apesar de duas semanas de orientação alimentar. Está eutrófica, mantém o peso, não tem sinais de desidratação nem alteração do estado geral. Segundo o Fluxograma 2 dos Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, qual é a conduta medicamentosa correta neste nível de atenção?
O Fluxograma 2 é o documento que descreve o degrau da atenção primária e prescreve, quando o quadro de vômitos se mantém, primeiro a metoclopramida 10 mg de 8 em 8 horas e depois o dimenidrinato 50 mg associado ao cloridrato de piridoxina 10 mg de 6 em 6 horas, com a ressalva de não exceder 400 mg ao dia. A ondansetrona por via venosa é o esquema da internação descrito no Manual de Gestação de Alto Risco, e não cabe numa gestante ambulatorial que mantém o peso e não tem desidratação — além de a Rename 2024 padronizar a ondansetrona apenas em comprimido e comprimido orodispersível. Referenciar ao hospital não se justifica porque o Fluxograma reserva a referência a quem tem sinais de alerta — queda do estado geral, sinais de desidratação, sinais de distúrbios metabólicos — ou a quem não responde ao tratamento instituído, e esta paciente ainda não recebeu antiemético. A opção do dimenidrinato 100 mg de 6 em 6 horas erra por duas razões: inverte a ordem do documento, que põe a metoclopramida primeiro, e confunde teto com dose recomendada, já que 50 mg de 6 em 6 horas somam 200 mg ao dia, metade do limite de 400 mg. E a prometazina intramuscular em dose única, embora a droga esteja padronizada na Rename e seja citada pelo Manual entre os anti-histamínicos, não é o esquema que o fluxograma da atenção primária determina, e dose única sem manutenção não trata um quadro que persiste há duas semanas.
Gestante de 28 anos, com 9 semanas, é avaliada em unidade básica de saúde. Nas últimas 24 horas sentiu-se nauseada por cerca de três horas, teve um episódio de vômito e observou salivação intensa com esforço de vômito em dois momentos. Mantém o peso da primeira consulta, tem diurese normal, mucosas úmidas e sinais vitais normais. Considerando o escore de gravidade adotado pelo Manual de Gestação de Alto Risco e pelo protocolo da Febrasgo, qual é a classificação e a conduta correspondente?
O PUQE pontua três perguntas sobre as últimas 24 horas, de 1 a 5 cada, e o quadro reproduzido nos dois documentos brasileiros dá as faixas. Náusea por até quatro horas vale 2 pontos; um episódio de vômito vale 2; salivação e esforço de vômito em até três momentos valem 2. O total é 6, e 6 é a fronteira: pelo quadro, pontuação até 6 é forma leve, e nas formas leves as medidas não farmacológicas e farmacológicas por via oral resolvem rápido, com tratamento ambulatorial. Vale saber que o corpo do texto do protocolo da Febrasgo descreve a forma leve como menor que 6 e o encaminhamento hospitalar como maior que 6, o que deixaria justamente o valor 6 sem categoria — o quadro do mesmo documento é a versão coerente, e é a que o Manual de Gestação de Alto Risco reproduziu. A alternativa de 8 pontos superestima cada item em um nível e empurra ao hospital uma gestante sem nenhum sinal de alerta, contrariando o Fluxograma 2 dos Protocolos da Atenção Básica, que reserva a referência a quem tem queda do estado geral, sinais de desidratação ou de distúrbios metabólicos. A de 12 pontos exigiria pontuação máxima ou quase máxima nos três itens. A de 3 pontos erra porque 3 é o mínimo absoluto da escala, atribuído a quem não tem sintoma algum — não existe PUQE zero. E a que nega aplicabilidade do escore inverte o papel do instrumento: o PUQE é o que os dois documentos brasileiros usam para graduar em qualquer idade gestacional, embora não sirva para diagnosticar, porque o diagnóstico de hiperêmese continua vindo do dano — perda de peso, desidratação, distúrbio hidroeletrolítico e cetonúria.
Gestante de 11 semanas internada por hiperêmese gravídica, com desidratação moderada e diurese reduzida, tem prescrição de hidratação venosa. Pesa 62 kg e está hemodinamicamente estável. Segundo o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde (2022), qual faixa de reposição é apresentada como referência nas primeiras 24 horas?
O Manual de Gestação de Alto Risco de 2022 apresenta 2.000–4.000 mL em 24 horas, sem exceder 6.000 mL nesse período. A programação depende da desidratação, das perdas por vômitos e do volume urinário; a faixa não substitui reavaliação clínica e laboratorial. O volume e a reposição de eletrólitos devem ser ajustados à resposta e às condições da gestante.
Gestante de 24 anos, com 9 semanas, refere náuseas quase o dia inteiro e cerca de oito episódios de vômito por dia há uma semana. Pesava 58 kg na primeira consulta e pesa 57,6 kg hoje. Mucosas úmidas, diurese normal, fita urinária sem cetonúria, sódio e potássio normais. Qual é a classificação e a conduta?
Oito episódios por dia exigem tratamento e avaliação cuidadosa, mas o número isolado não determina internação. Também não se exclui hiperêmese apenas porque não há cetonúria, alteração eletrolítica ou perda superior a 5%: essas alterações podem ser consequências, e cetonúria não é medida confiável de desidratação ou gravidade. É necessário investigar capacidade de ingerir líquidos, alimentos e medicamentos, impacto nas atividades e outras causas de vômitos. Pode-se tratar ambulatorialmente se houver tolerância oral, estabilidade e acompanhamento próximo, com antiemético e orientação; intolerância oral, deterioração ou falha do tratamento exigem escalonamento do cuidado.
Gestante de 10 semanas internada por hiperêmese gravídica, já hidratada e com tiamina administrada antes da glicose, mantém vômitos incoercíveis e não retém líquidos. Segundo o Manual de Gestação de Alto Risco, qual é o antiemético de primeira escolha por via venosa e a posologia correta?
A ordem está escrita e é curta: recomenda-se ondansetrona 8 mg por via venosa a cada seis horas, o que soma 32 mg em 24 horas, e a metoclopramida 10 mg por via venosa a cada seis horas é o antiemético de segunda escolha nesse quadro. Colocar a metoclopramida à frente inverte a sequência do documento, e vale saber que a bula brasileira fixa dose máxima diária de 30 mg com duração máxima de cinco dias, teto que o esquema de seis em seis horas ultrapassa. Prometazina e dimenidrinato aparecem entre os anti-histamínicos e no degrau da atenção primária, não como primeira escolha venosa da internação. Manter a via oral em quem não retém líquido é insistir na via que já falhou — e a apresentação orodispersível, útil no ambulatório, também depende de deglutição. Vale registrar que a lista nacional de medicamentos essenciais não padroniza ondansetrona injetável, de modo que o esquema venoso depende da padronização do hospital.
Gestante de 28 anos, 8 semanas, com náuseas e três a quatro episódios de vômitos por dia, tolerando líquidos e sem perda de peso. Já fracionou as refeições e evitou gatilhos, sem melhora. Qual é o tratamento farmacológico de primeira linha?
A associação de piridoxina com doxilamina é a primeira linha consagrada na gestação: eficaz para o quadro leve a moderado e com o maior lastro de segurança no primeiro trimestre. A ondansetrona engana porque é o antiemético que o plantão mais usa e que a paciente costuma responder rápido, mas ela é resgate — fica para quem não respondeu ao esquema inicial. O corticoide é reservado ao quadro refratário e internado. Dieta zero em casa apenas piora a cetose, já que jejum prolongado alimenta o ciclo de vômitos.
Gestante de 25 anos, internada há três semanas por hiperêmese e mantida com soro glicosado, evolui com confusão mental, marcha instável e diplopia. Ao exame há nistagmo horizontal e oftalmoparesia. Qual é a conduta imediata?
A tríade de confusão, ataxia e alteração oculomotora em paciente com vômitos prolongados e aporte glicosado sem reposição vitamínica é encefalopatia de Wernicke, e o tratamento é tiamina parenteral imediata — a demora converte quadro reversível em síndrome amnéstica permanente. A ressonância engana porque as alterações periaquedutais realmente aparecem na imagem, mas o diagnóstico é clínico e esperar exame custa neurônio. Eclampsia não se cogita com 25 semanas ausentes de hipertensão e proteinúria, e antes de 20 semanas a hipótese praticamente não existe fora da doença trofoblástica.
Gestante de 21 anos, com amenorreia de 11 semanas, é internada por vômitos incoercíveis. O útero está com altura correspondente a 16 semanas. A ultrassonografia mostra cavidade preenchida por imagem heterogênea com múltiplas áreas anecoicas, sem embrião, e ovários com cistos de 6 cm bilateralmente. Beta-hCG de 462.000 mUI/mL. Qual é o diagnóstico?
Útero maior que a idade gestacional, ausência de embrião, imagem intrauterina em cachos e hCG muito acima do esperado formam o quadro de mola completa; os cistos ovarianos bilaterais são tecaluteínicos, resposta ovariana ao hCG elevadíssimo. O achado importa porque a hiperêmese aqui é sintoma de doença trofoblástica, e o tratamento é esvaziamento uterino com seguimento seriado do hCG. A hiperestimulação ovariana engana quem ancora nos cistos bilaterais, mas ela exige indução de ovulação prévia e não produz a imagem intrauterina descrita.
Gestante de 9 semanas apresenta vômitos há três semanas, perda de 6 kg (8 por cento do peso), cetonúria de 3+ e sinais de desidratação. Qual a conduta inicial mais adequada no pronto-socorro?
A hiperêmese com perda ponderal maior que 5 por cento, cetonúria e desidratação exige hidratação venosa e antiemético parenteral. O detalhe que decide a questão é a tiamina antes da glicose: em paciente com vômitos prolongados e depleção de vitamina B1, infundir glicose primeiro consome o pouco de tiamina restante e pode precipitar encefalopatia de Wernicke. Por isso a glicose isolada em bolus é a armadilha. O corticoide é reservado para casos refratários às medidas iniciais, não para primeira linha. Alta com antiemético oral ignora a desidratação já documentada, e a nutrição parenteral é medida de exceção depois que hidratação, antieméticos e tentativa de dieta falharam.
Mulher de 25 anos com 8 semanas de gestação é internada por vômitos incoercíveis. Exames: sódio 128 mEq/L, potássio 2,9 mEq/L, cloro 88 mEq/L, pH 7,50 e bicarbonato 32 mEq/L. Qual o distúrbio predominante e a correção prioritária?
A perda repetida de suco gástrico leva hidrogênio e cloro, produzindo alcalose metabólica hipoclorêmica, com hipocalemia por perda renal ligada ao hiperaldosteronismo secundário da depleção de volume. A correção é soro fisiológico, que repõe cloro e volume, mais potássio. A cetonúria da hiperêmese engana muito aluno para acidose com ânion gap, mas a cetose de jejum aqui não supera a perda ácida gástrica, e o gasômetro mostra pH alto com bicarbonato elevado. Restringir água em paciente hipovolêmica agrava a hiponatremia, que é de depleção e não dilucional. Bicarbonato pioraria a alcalose.
Gestante de 22 anos, 10 semanas, internada por vômitos incoercíveis há uma semana. Exames: Na 133 mEq/L, K 2,9 mEq/L, Cl 88 mEq/L, gasometria venosa com pH 7,50 e bicarbonato 32 mEq/L. Qual é o distúrbio que explica esse conjunto?
O vômito perde ácido clorídrico e volume: sai cloro, sobe bicarbonato e o rim, tentando reter sódio e água, troca por potássio — daí o padrão de alcalose com cloro e potássio baixos. A cetose de jejum é o distrator mais tentador porque a fita urinária dessa paciente vem com cetonúria franca, mas a cetonemia aqui coexiste sem dominar a gasometria: o pH está alcalino, e não ácido. O pensamento de hiperventilação por ansiedade se desfaz diante do bicarbonato elevado, que é achado metabólico e não respiratório.
Gestante de 27 anos, 12 semanas, internada por hiperêmese, apresenta após novo episódio de vômito intenso a eliminação de conteúdo com raias de sangue vivo, cerca de 20 mL. Está estável, sem dor abdominal, com hemoglobina 11,8 g/dL. Qual é a hipótese mais provável?
Hematêmese de pequeno volume que aparece depois de vários episódios de vômito, em paciente estável e sem dor, é a laceração mucosa da transição esofagogástrica produzida pelo próprio esforço — quadro autolimitado, tratado com suporte e controle do vômito. A ruptura esofágica completa é o distrator que assusta, mas ela cursa com dor torácica intensa, enfisema subcutâneo e toxemia, quadro que não combina com uma paciente estável. Úlcera péptica sangrante costuma ter epigastralgia prévia e sangramento que não se limita a raias.
Qual das situações abaixo NÃO deve ser atribuída de imediato à hiperêmese gravídica e obriga investigar outra causa?
A náusea e o vômito da gestação começam antes de 9 semanas, atingem pico entre 9 e 12 semanas e regridem no segundo trimestre. Início após 9 a 10 semanas, especialmente com dor abdominal, febre, cefaleia, sinais neurológicos ou icterícia, retira o caso do rótulo de hiperêmese e obriga procurar colecistite, pancreatite, pielonefrite, gastroenterite, hepatite ou causa neurológica. As demais descrições correspondem exatamente ao padrão temporal e sintomático esperado do quadro gestacional benigno, incluindo a sialorreia, que acompanha a hiperêmese com frequência e não indica outra doença.
Gestante de 26 anos, 10 semanas, internada por hiperêmese. Exames de rotina mostram TSH 0,02 mUI/L e T4 livre 1,9 ng/dL (limite superior 1,7). Ao exame não há bócio, tremor fino, oftalmopatia nem taquicardia fora dos episódios de vômito. Anticorpo antirreceptor de TSH negativo. Qual é a conduta?
O quadro é tireotoxicose gestacional transitória: o hCG, muito elevado na hiperêmese, estimula o receptor de TSH por semelhança estrutural e suprime o TSH sem que exista autoimunidade. Ausência de bócio, de oftalmopatia e de anticorpo antirreceptor, com resolução espontânea por volta do segundo trimestre, define o quadro. Iniciar tionamida é o erro mais comum e não é inócuo: expõe o feto a droga com risco de embriopatia sem tratar a causa. A cintilografia está proscrita na gestação por usar radioisótopo.
Paciente com náuseas e vômitos da gestação, sem desidratação, não melhorou com medidas dietéticas. Qual a primeira linha farmacológica recomendada?
A piridoxina (vitamina B6), isolada ou combinada com doxilamina, é a primeira linha farmacológica das náuseas e vômitos da gestação, com o melhor perfil de segurança documentado no primeiro trimestre. Anti-histamínicos e metoclopramida vêm em seguida, e a ondansetrona costuma ser reservada para a falha das opções anteriores, ainda com discussão sobre uso muito precoce. Escolher a ondansetrona de saída é o erro mais comum, porque é a droga que o aluno vê ser mais prescrita no pronto-socorro para vômito em geral. Corticoide é resgate em casos refratários e internados. A domperidona não é recomendada na gestação e o canabidiol não tem indicação nesse cenário.
Gestante de 30 anos, 11 semanas, chega desidratada após dez dias de vômitos, sem aceitar nada por via oral. O acesso venoso está pronto e a prescrição de hidratação vai ser feita. Qual cuidado é obrigatório antes de infundir solução glicosada?
Glicose sem tiamina em paciente com semanas de aporte nutricional zerado consome a reserva vitamínica remanescente no metabolismo do carboidrato e pode desencadear encefalopatia de Wernicke — complicação evitável e potencialmente irreversível. A correção do potássio engana porque a hipocalemia é real e precisa mesmo de reposição, mas ela é feita junto da hidratação e não é pré-requisito para infundir volume. Bicarbonato não tem papel aqui: o distúrbio predominante é alcalose, e a cetose se resolve com aporte calórico e volume.
Gestante de 29 anos, 10 semanas, internada por hiperêmese, respondeu à hidratação e ao antiemético parenteral e voltou a aceitar dieta. A equipe discute os próximos passos. Qual conduta é INADEQUADA nesse momento?
Endoscopia não faz parte do manejo da hiperêmese que responde ao tratamento: é exame indicado apenas diante de sangramento persistente, dor refratária ou suspeita de outra doença gastrointestinal. Manter antiemético em horário após a melhora é o cuidado que evita a recidiva precoce, causa frequente de reinternação. Rastrear infecção urinária e alteração tireoidiana engana quem julga o quadro já explicado, mas essas condições coexistem com frequência e mudam a conduta. O antecedente importa porque a recorrência em gestação futura é alta e justifica profilaxia antiemética precoce.
Gestante de 23 anos, 9 semanas, é atendida na unidade básica com vômitos há cinco dias. Já usa piridoxina com doxilamina e, hoje, vomitou toda a tentativa de ingesta nas últimas 26 horas. Está com mucosas secas, FC 108 bpm e cetonúria 3+ na fita. Qual é a conduta?
Intolerância total à via oral por mais de 24 horas, com desidratação e cetonúria, em paciente que já falhou ao tratamento oral de primeira linha, é indicação clássica de internação: sem via oral, nenhum ajuste de comprimido funciona. O soro de reidratação oral engana porque parece o passo intermediário lógico, mas depende justamente da via que a paciente não tolera. Pedir ultrassonografia é correto no plano de investigação — a gestação molar e a gemelar precisam ser afastadas —, porém não substitui a estabilização e não deve atrasá-la.
Primigesta de 24 anos, 9 semanas, procura o pronto-socorro com vômitos há 12 dias, hoje incoercíveis. Pesava 62 kg na primeira consulta e está com 57,8 kg. PA 96x58 mmHg, FC 112 bpm, mucosas secas. Fita urinária com cetonúria 3+. Qual conjunto de achados sustenta o diagnóstico de hiperêmese gravídica em vez de náuseas e vômitos habituais da gestação?
O que separa a hiperêmese do quadro fisiológico não é a intensidade relatada, e sim a repercussão orgânica objetiva: perda ponderal acima de 5%, desidratação, cetonúria e distúrbio hidroeletrolítico. A intensidade da náusea referida pela paciente é o distrator mais tentador porque parece clínica pura, mas quadros muito sintomáticos e sem perda de peso permanecem no espectro habitual e são tratados ambulatorialmente. O início precoce e o predomínio matinal descrevem a náusea gestacional comum — quase toda gestante com hiperêmese também os apresenta, e por isso não discriminam nada.
Gestante de 14 semanas com derivação gástrica prévia apresenta vômitos incoercíveis há 12 dias, perda de 6 kg, e agora refere visão dupla, marcha instável e confusão mental. Qual a conduta imediata?
A tríade de oftalmoparesia, ataxia e confusão em paciente com vômitos prolongados e cirurgia disabsortiva é encefalopatia de Wernicke, e a tiamina parenteral tem de vir antes da glicose, porque a infusão de glicose em depleção de tiamina precipita e agrava a lesão. Correr para o soro glicosado é justamente o erro que transforma quadro reversível em sequela permanente. A deficiência de cobalamina causa quadro subagudo medular e cognitivo, sem essa tríade aguda, e aguardar imagem retarda um tratamento barato e urgente.
Gestante de 22 anos, com 8 semanas, procura a Unidade Básica de Saúde com náuseas e vômitos há duas semanas. Vomita cerca de duas vezes ao dia, consegue ingerir líquidos e alimentos pastosos e perdeu 800 g desde a consulta anterior. Ao exame: hidratada, corada, pressão arterial 110 x 70 mmHg, frequência cardíaca 84 bpm, sem alterações abdominais. Não há cetonúria na fita urinária. Assinale a conduta inicial mais apropriada para o caso.
O quadro é de náuseas e vômitos leves da gestação, sem sinais de desidratação, distúrbio eletrolítico ou cetonúria, e a abordagem inicial na Atenção Primária combina medidas dietéticas com antiemético oral. A internação para hidratação e tiamina é reservada à hiperêmese gravídica, definida por vômitos incoercíveis, perda superior a 5% do peso, desidratação e distúrbios metabólicos. A tomografia de crânio não se justifica sem sinais neurológicos focais ou cefaleia de alarme. O corticoide é recurso de exceção, considerado apenas em casos refratários e sob assistência hospitalar, nunca como primeira linha.
Gestante de 30 anos, com 10 semanas, é internada em enfermaria obstétrica após três dias de vômitos incoercíveis. Perdeu 6 kg em relação ao peso pré-gestacional, apresenta mucosas secas, turgor diminuído e frequência cardíaca de 112 bpm. Exames: sódio 131 mEq/L, potássio 3,0 mEq/L, cloro 92 mEq/L e cetonúria de três cruzes. A ultrassonografia mostra gestação tópica única com embrião vivo. Assinale a conduta inicial correta neste caso.
Na hiperêmese gravídica com desidratação e hipocalemia, o tratamento inicial é a reidratação venosa com correção do potássio e antiemético parenteral, e a tiamina deve preceder soluções glicosadas para evitar encefalopatia de Wernicke. A nutrição parenteral total é medida de exceção, reservada a casos refratários com incapacidade prolongada de alimentação. Infundir glicose antes da tiamina em paciente com vômitos prolongados é justamente o erro que precipita a encefalopatia de Wernicke. A interrupção da gestação não é conduta terapêutica para hiperêmese, que costuma remitir com suporte clínico e tende a melhorar após o primeiro trimestre.
Gestante de 27 anos, com 11 semanas, comparece à Unidade Básica de Saúde referindo náuseas e vômitos várias vezes ao dia há três semanas. Consegue reter parte da alimentação e perdeu 1,5 kg desde a última consulta, o que corresponde a 2,5% do peso pré-gestacional. Está eupneica, com pressão arterial de 106x66 mmHg, frequência cardíaca de 88 bpm, mucosas úmidas e diurese preservada. Não há dor abdominal, febre ou alteração neurológica. A conduta inicial mais apropriada é
O quadro corresponde a náuseas e vômitos da gestação, não a hiperêmese, pois não há perda ponderal superior a 5%, desidratação ou distúrbio hidroeletrolítico; o manejo ambulatorial começa com medidas dietéticas e antieméticos de segurança estabelecida na gestação. Internação com tiamina destina-se à hiperêmese com vômitos incoercíveis e desidratação. A ultrassonografia é parte da avaliação, mas o quadro descrito não exige investigação de urgência antes de aliviar os sintomas. Negar tratamento sob o argumento genérico de risco no primeiro trimestre é conduta ultrapassada e leva à progressão do quadro e ao sofrimento evitável.
Mulher de 27 anos, gestante de 8 semanas, comparece à Unidade Básica de Saúde referindo náuseas e vômitos frequentes há três semanas, com dificuldade para se alimentar, mas mantendo ingestão de líquidos. Perdeu 1,5 kg desde o início da gestação, o que corresponde a menos de 3% do peso inicial. Ao exame: mucosas úmidas, turgor preservado, PA 106x68 mmHg, FC 88 bpm, sem alteração do estado geral. Cetonúria negativa em fita urinária. A conduta inicial mais adequada é:
Náuseas e vômitos da gestação sem sinais de desidratação, sem cetonúria e com perda ponderal inferior a 5% do peso corporal são manejados ambulatorialmente com medidas dietéticas e antiemético seguro, com reavaliação precoce. Hiperêmese gravídica exige perda ponderal significativa, desidratação, distúrbio hidroeletrolítico ou cetonúria, ausentes aqui, e só então internação. O sulfato ferroso pode ser temporariamente reprogramado por intolerância, mas suspender definitivamente ferro e folato prejudica a gestação. Endoscopia não é etapa inicial em quadro típico do primeiro trimestre e sem sinais de alarme.
Gestante de 23 anos, com 10 semanas, chega à Unidade de Pronto Atendimento com vômitos incoercíveis há cinco dias, incapaz de manter qualquer ingesta. Perdeu 4 kg desde o início da gestação, correspondendo a mais de 5% do peso prévio. Ao exame, mucosas secas, turgor reduzido, frequência cardíaca de 116 bpm, pressão arterial de 98 x 60 mmHg. Exames mostram cetonúria de três cruzes, distúrbio hidroeletrolítico com hipocalemia e alcalose metabólica. A conduta adequada é:
A hiperêmese gravídica caracteriza-se por vômitos persistentes com perda ponderal acima de 5%, desidratação, cetonúria e distúrbios eletrolíticos, exigindo internação para hidratação endovenosa, correção de eletrólitos e antieméticos, com atenção à reposição de tiamina antes de infusões glicosadas, prevenindo encefalopatia de Wernicke. Tratamento domiciliar em paciente que não retém líquidos é inadequado. Orientação dietética isolada é insuficiente nesse grau de gravidade. Interromper a gestação não é o tratamento indicado.
Gestante de 24 anos, com 9 semanas, procura a Unidade Básica de Saúde com náuseas frequentes e vômitos ocasionais, sobretudo pela manhã, há três semanas. Consegue manter alimentação e hidratação, não perdeu peso e mantém suas atividades com algum desconforto. Ao exame, mucosas úmidas, pressão arterial de 108 x 68 mmHg, frequência cardíaca de 84 bpm, sem sinais de desidratação e sem cetonúria no exame de urina. A conduta inicial adequada é:
Náuseas e vômitos leves a moderados da gestação, sem desidratação, perda ponderal ou cetonúria, são manejados com medidas dietéticas e comportamentais, como refeições fracionadas, evitar jejum prolongado e odores desencadeantes, associadas a antieméticos com perfil de segurança conhecido na gestação quando necessário. Internação é reservada à hiperêmese com repercussão. Jejum prolongado agrava as náuseas e a cetose. Corticoide é medida de exceção em casos refratários, não conduta inicial.
Gestante de 24 anos, com 9 semanas, comparece à Unidade Básica de Saúde com náuseas e vômitos incoercíveis há duas semanas, sem tolerar líquidos há 24 horas. Ela perdeu 6 kg desde o início da gestação, o que corresponde a 9% do peso pré-gestacional. Ao exame, apresenta mucosas secas, turgor reduzido, hipotensão postural, frequência cardíaca de 118 bpm e hálito cetônico. Os exames mostram cetonúria intensa, hipocalemia e alcalose metabólica. A ultrassonografia mostra gestação tópica única viável. A conduta correta é
A hiperêmese gravídica com perda ponderal superior a 5%, desidratação, distúrbio eletrolítico e cetonúria exige internação para hidratação venosa, correção de eletrólitos, antiemético endovenoso e reposição de tiamina, que previne a encefalopatia de Wernicke. Manejo ambulatorial é inadequado diante de intolerância total à via oral. Suspender antieméticos deixa a paciente sem tratamento em quadro potencialmente grave. A interrupção da gestação não é tratamento e é medida excepcional em casos refratários com risco de vida.
Mulher, 22 anos, primigesta, 14 semanas, internada há 3 semanas por vômitos incoercíveis, com perda de 9 kg. Nas últimas 48 horas, após início de soro glicosado 10%, evolui com diplopia, marcha atáxica e desorientação temporoespacial. PA 100/60 mmHg, FC 108 bpm, T 36,4 °C. Exame: nistagmo horizontal e paresia do reto lateral bilateral. Na 3,0 mEq/L abaixo do VR; TSH 0,08 mUI/L (VR 0,4–4,0). Qual a conduta imediata?
A tiamina parenteral em altas doses antes da glicose é a conduta correta: a tríade oftalmoplegia, ataxia e confusão em gestante com hiperêmese prolongada define encefalopatia de Wernicke, e a infusão de glicose sem reposição prévia consome o estoque residual de tiamina e precipita ou agrava o quadro — exatamente a sequência descrita. O metimazol é inadequado porque o TSH suprimido reflete tireotoxicose gestacional transitória por estímulo do hCG, autolimitada e sem indicação de antitireoidiano. Solicitar ressonância antes de tratar posterga uma intervenção com janela terapêutica de horas e cujo atraso deixa sequela permanente. A correção rápida com salina hipertônica em hiponatremia crônica arrisca mielinólise pontina e não explica a oftalmoplegia. Interromper a gestação não trata a deficiência vitamínica e não é conduta para hiperêmese, que responde ao suporte clínico.
Mulher, 24 anos, G1P0, com 9 semanas, refere náuseas matinais e dois a três episódios de vômitos por dia há 2 semanas, com perda de 1 kg. Mantém aceitação parcial de líquidos e alimentos fracionados. PA 110/68 mmHg, FC 84 bpm, mucosas úmidas, sem sinais de desidratação. Cetonúria negativa, eletrólitos normais. Já tentou medidas dietéticas e fracionamento das refeições, sem melhora satisfatória. Qual a conduta correta?
Prescrever piridoxina associada a anti-histamínico, como doxilamina ou dimenidrinato, mantendo as orientações dietéticas, é a primeira linha farmacológica para náuseas e vômitos da gestação sem sinais de desidratação, com bom perfil de segurança. Internar para hidratação venosa e nutrição parenteral é desproporcional em paciente com mucosas úmidas, eletrólitos normais e cetonúria negativa. A ondansetrona é opção de resgate em casos refratários, e não primeira escolha, pela discussão sobre segurança no 1º trimestre. A corticoterapia é reservada à hiperêmese refratária a todas as demais medidas. Suspender o ácido fólico é inadequado, embora a troca temporária do polivitamínico com ferro por folato isolado possa reduzir a intolerância gástrica.
Mulher, 23 anos, primigesta, com 11 semanas, apresenta vômitos incoercíveis há 3 semanas, com perda de 6 kg em relação ao peso pré-gestacional de 58 kg. Refere tontura e oligúria. PA 92/58 mmHg, FC 116 bpm, mucosas secas, turgor reduzido. Cetonúria com três cruzes, sódio 129 mEq/L (VR 135–145), potássio 3,0 mEq/L (VR 3,5–5,0), TSH 0,1 mUI/L (VR 0,4–4,0) com T4 livre discretamente elevado. Qual a conduta correta?
Internar para hidratação venosa com correção de sódio e potássio, antieméticos parenterais e reposição de tiamina antes de infundir glicose é a conduta correta na hiperêmese gravídica, definida por vômitos persistentes com perda de mais de 5% do peso pré-gestacional, desidratação, cetonúria e distúrbio hidroeletrolítico, todos presentes. A alta com antiemético oral é inaceitável em paciente com hipotensão, taquicardia e oligúria. O metimazol não está indicado, pois a alteração tireoidiana corresponde à tireotoxicose gestacional transitória mediada pelo hCG, que se resolve espontaneamente. O ultrassom de tireoide não muda a conduta nem justifica adiar a hidratação. A interrupção da gestação não é indicada, pois o quadro responde ao tratamento clínico adequado.
Mulher, 33 anos, com 12 semanas de gestação, comparece à UBS com náuseas e vômitos incoercíveis há 2 semanas, com perda de 5 kg em relação ao peso pré-gestacional. Não retém líquidos há 24 horas. Exame: desidratada, mucosas secas, PA 96/60 mmHg, FC 112 bpm, sem febre. Cetonúria 3+; sódio 132 mEq/L; potássio 3,1 mEq/L; TSH 0,2 mUI/L com T4 livre discretamente elevado. Ultrassonografia com gestação tópica única viável. Qual a conduta correta?
Vômitos incoercíveis com perda ponderal superior a 5% do peso, desidratação, cetonúria e distúrbio hidroeletrolítico caracterizam hiperêmese gravídica, cujo tratamento exige internação com hidratação venosa, correção de eletrólitos, reposição de tiamina antes de soluções glicosadas e antiemético parenteral. Antiemético oral domiciliar é inviável em paciente que não retém líquidos há 24 horas. O padrão de TSH suprimido com T4 livre discretamente elevado corresponde ao hipertireoidismo transitório da gestação mediado pelo hormônio gonadotrófico coriônico, que é autolimitado e não deve ser tratado com metimazol. Gengibre e vitamina B6 são úteis em náuseas leves, mas insuficientes nesse grau de gravidade. Endoscopia não é etapa inicial e adiaria a reposição volêmica urgente.
Mulher, 27 anos, G1P0, com 8 semanas, refere náuseas matinais e um episódio de vômito por dia, sem perda de peso, sem sinais de desidratação e mantendo boa ingesta alimentar e hídrica. PA 112/70 mmHg, FC 80 bpm, mucosas úmidas, cetonúria negativa. Ela prefere evitar medicamentos neste momento e pergunta quais medidas pode adotar antes de considerar qualquer prescrição farmacológica. Qual orientação é a correta?
A orientação correta reúne fracionamento das refeições em pequenos volumes, evitar jejum prolongado e alimentos gordurosos ou de odor forte, ingerir líquidos entre as refeições, considerar gengibre e acupressão no ponto do punho, medidas com algum benefício demonstrado, e trocar temporariamente o polivitamínico com ferro por ácido fólico isolado, já que o ferro agrava a intolerância gástrica. Manter jejum prolongado piora as náuseas, pois o estômago vazio as intensifica. Aumentar alimentos gordurosos retarda o esvaziamento gástrico e agrava os sintomas. Suspender definitivamente o ácido fólico é inadequado, pois ele previne defeitos de fechamento do tubo neural. A corticoterapia é reservada à hiperêmese refratária, não a náuseas leves.
Mulher, 24 anos, G1P0, com 14 semanas, internada há 12 dias por hiperêmese, mantém vômitos apesar de antieméticos combinados e corticoterapia, com perda de 12% do peso pré-gestacional e aceitação oral inferior a 300 kcal por dia. PA 96/58 mmHg, FC 106 bpm, mucosas secas. Albumina reduzida, sódio 132 mEq/L (VR 135–145), potássio 3,1 mEq/L, cetonúria persistente e tiamina já reposta. Qual a conduta mais adequada?
A conduta mais adequada é iniciar suporte nutricional, preferencialmente por via enteral com sonda pós-pilórica, que é mais fisiológica, mantém o trofismo intestinal e tem menos complicações infecciosas e metabólicas, reservando a nutrição parenteral para os casos de intolerância ou impossibilidade da via enteral. Manter apenas hidratação e antieméticos em paciente com perda ponderal de 12% e ingesta muito baixa perpetua a desnutrição. A interrupção da gestação não é indicada, pois o quadro é tratável com suporte adequado. A nutrição parenteral total como primeira escolha expõe a paciente a infecção de cateter, trombose e distúrbios metabólicos sem necessidade. Suspender os antieméticos agravaria os vômitos e a depleção.
Gestante de 25 anos, com 8 semanas, apresenta náuseas e vômitos persistentes, com quatro episódios diários, sem perda de peso significativa e sem distúrbio hidroeletrolítico. Já utilizou piridoxina associada a doxilamina e metoclopramida, com resposta parcial. Está preocupada porque leu na internet que um antiemético usado com frequência causaria malformações. Exame físico normal, PA 106x64 mmHg, sem sinais de desidratação e com glicemia capilar normal. Qual a orientação correta sobre a ondansetrona?
A ondansetrona é opção quando as terapias iniciais falham, devendo-se compartilhar com a paciente a discussão sobre o pequeno aumento absoluto de risco de fenda oral descrito em alguns estudos, ponderado contra o benefício do controle dos vômitos. Considerá-la formalmente proibida por ser teratógeno maior é exagero que não corresponde aos dados disponíveis. Colocá-la como primeira escolha contraria a escada terapêutica, que começa por piridoxina, doxilamina e antieméticos com maior histórico de segurança. Negar qualquer associação descrita omite informação relevante para a decisão compartilhada. Sugerir isotretinoína é erro grave, pois esse fármaco é teratógeno reconhecido e não tem ação antiemética.
Gestante de 22 anos, com 10 semanas, apresenta vômitos incoercíveis há duas semanas, com perda de 6 kg em relação ao peso pré-gestacional, que era de 58 kg. Está desidratada, com PA 96x58 mmHg, FC 116 bpm e mucosas secas. Exames: sódio 128 mEq/L (VR 135 a 145), potássio 2,9 mEq/L (VR 3,5 a 5,0), cetonúria de três cruzes e gasometria com alcalose metabólica hipoclorêmica. Qual a conduta inicial correta?
A hiperêmese com desidratação, distúrbio eletrolítico e cetonúria exige internação, hidratação venosa, reposição de potássio e administração de tiamina antes de soluções glicosadas, para prevenir encefalopatia de Wernicke. Prescrever antiemético oral e liberar a paciente é inadequado diante de instabilidade e alterações laboratoriais significativas. Iniciar glicose antes da tiamina é justamente o erro que precipita a encefalopatia. Indicar nutrição parenteral total como primeira medida é desproporcional, ficando reservada aos casos refratários. O corticoide é opção de resgate em casos refratários e não é primeira linha.
Gestante de dez semanas apresenta vômitos persistentes, incapacidade de ingerir líquidos e perda de 7% do peso. Está desidratada, com hipocalemia. Não há febre, dor abdominal localizada ou hiperglicemia. Qual é o diagnóstico mais provável?
Vômitos intensos com comprometimento nutricional e hídrico ultrapassam náuseas habituais da gestação. Referência: https://medlineplus.gov/ency/article/001499.htm
Gestante de dez semanas apresenta vômitos persistentes, incapacidade de ingerir líquidos e perda de 7% do peso. Está desidratada, com hipocalemia. Não há febre, dor abdominal localizada ou hiperglicemia. Qual intervenção dirigida à causa é a mais adequada entre as opções?
A reposição de tiamina evita precipitar encefalopatia em paciente com privação nutricional prolongada. Referência: https://medlineplus.gov/ency/article/001499.htm
Gestante de dez semanas apresenta vômitos persistentes, incapacidade de ingerir líquidos e perda de 7% do peso. Está desidratada, com hipocalemia. Não há febre, dor abdominal localizada ou hiperglicemia. Qual achado complementar favorece especificamente essa hipótese?
A gravidade é clínica; cetonúria isolada não deve determinar toda a avaliação. Referência: https://medlineplus.gov/ency/article/001499.htm
Gestante de dez semanas apresenta vômitos persistentes, incapacidade de ingerir líquidos e perda de 7% do peso. Está desidratada, com hipocalemia. Não há febre, dor abdominal localizada ou hiperglicemia. Qual mecanismo explica melhor o quadro?
As perdas e a baixa ingestão explicam distúrbios eletrolíticos e deficiência vitamínica. Referência: https://medlineplus.gov/ency/article/001499.htm
No primeiro trimestre, gestante tem vômitos incapacitantes, incapacidade de manter ingestão e perda ponderal, com outras causas excluídas. Qual hipótese melhor integra os achados?
A gravidade ultrapassa náusea gestacional habitual e favorece hiperêmese. Vômitos intensos no início da gestação, com perda ponderal e desidratação, podem associar-se a alterações hepáticas, após excluir outras causas. Referência: https://www.rcog.org.uk/for-the-public/browse-our-patient-information/pregnancy-sickness-nausea-and-vomiting-of-pregnancy-and-hyperemesis-gravidarum/
Gestante de nove semanas tem vômitos persistentes, perda de peso e desidratação, com alteração discreta de transaminases e exclusão de causas hepáticas alternativas. Qual hipótese melhor integra os achados?
O quadro precoce com vômitos intensos favorece hiperêmese. Vômitos intensos no início da gestação, com perda ponderal e desidratação, podem associar-se a alterações hepáticas, após excluir outras causas. Referência: https://www.rcog.org.uk/for-the-public/browse-our-patient-information/pregnancy-sickness-nausea-and-vomiting-of-pregnancy-and-hyperemesis-gravidarum/
Gestante de 11 semanas apresenta vômitos intensos e desidratação, sem sinais de colestase, hemólise ou outra hepatopatia explicativa. Qual hipótese melhor integra os achados?
O momento e o predomínio emético favorecem hiperêmese gravídica. Vômitos intensos no início da gestação, com perda ponderal e desidratação, podem associar-se a alterações hepáticas, após excluir outras causas. Referência: https://www.rcog.org.uk/for-the-public/browse-our-patient-information/pregnancy-sickness-nausea-and-vomiting-of-pregnancy-and-hyperemesis-gravidarum/
Paciente no início da gestação não consegue manter alimentação por vômitos persistentes, perde peso e apresenta alterações metabólicas por desidratação. Qual hipótese melhor integra os achados?
O quadro é compatível com hiperêmese gravídica. Vômitos intensos no início da gestação, com perda ponderal e desidratação, podem associar-se a alterações hepáticas, após excluir outras causas. Referência: https://www.rcog.org.uk/for-the-public/browse-our-patient-information/pregnancy-sickness-nausea-and-vomiting-of-pregnancy-and-hyperemesis-gravidarum/
Quando a hiperêmese não responde adequadamente às medidas iniciais e a gestante não consegue manter aporte nutricional suficiente, qual princípio orienta a escolha entre suporte enteral e parenteral?
O suporte deve ser individualizado. A via enteral pode oferecer nutrientes sem os riscos próprios de acesso venoso central e nutrição parenteral; falha, intolerância ou impossibilidade exigem reavaliação da estratégia. Referência: Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco (2022), capítulos 3, 15, 16, 41, 50 e 51. https://www.saude.mg.gov.br/wp-content/uploads/2025/01/Manual-de-Gestacao-de-Alto-Risco-MS2022.pdf
O escore PUQE pode organizar a avaliação de náuseas e vômitos da gestação e acompanhar sua evolução. Qual conjunto de informações corresponde ao núcleo clínico desse instrumento?
O PUQE quantifica dimensões dos sintomas em um intervalo definido. Ele auxilia a avaliação, mas não substitui exame clínico, estado de hidratação, ingestão, peso e investigação de complicações quando necessária. Referência: Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco (2022), capítulos 3, 15, 16, 41, 50 e 51. https://www.saude.mg.gov.br/wp-content/uploads/2025/01/Manual-de-Gestacao-de-Alto-Risco-MS2022.pdf
Vômitos prolongados na hiperêmese podem produzir distúrbios hidroeletrolíticos e acidobásicos. Qual alteração é diretamente favorecida pela perda repetida de secreção gástrica rica em ácido clorídrico?
A perda de ácido e cloro favorece alcalose, que pode ser mantida por depleção de volume e associada à hipocalemia. Outros processos concomitantes, como cetose ou disfunção renal, podem modificar o quadro e devem ser avaliados. Referência: Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco (2022), capítulos 3, 15, 16, 41, 50 e 51. https://www.saude.mg.gov.br/wp-content/uploads/2025/01/Manual-de-Gestacao-de-Alto-Risco-MS2022.pdf
A presença de gravidez não autoriza atribuir automaticamente todo vômito à hiperêmese gravídica. Qual situação reforça a necessidade de investigar uma causa alternativa ou associada?
Hiperêmese é um diagnóstico clínico que exige considerar outras causas. Achados atípicos podem indicar infecção urinária, doença hepatobiliar, pancreatite, apendicite ou alterações metabólicas, entre outros diagnósticos. Referência: Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco (2022), capítulos 3, 15, 16, 41, 50 e 51. https://www.saude.mg.gov.br/wp-content/uploads/2025/01/Manual-de-Gestacao-de-Alto-Risco-MS2022.pdf
Na gestante em uso de metoclopramida para vômitos, surgem contrações involuntárias do pescoço e desvio sustentado do olhar. Qual efeito medicamentoso deve ser reconhecido na avaliação desse quadro?
Metoclopramida pode provocar efeitos extrapiramidais pelo bloqueio dopaminérgico. O padrão motor deve motivar avaliação e manejo da reação, incluindo revisão do fármaco, sem atribuí-lo automaticamente a manifestação psicológica. Referência: Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco (2022), capítulos 3, 15, 16, 41, 50 e 51. https://www.saude.mg.gov.br/wp-content/uploads/2025/01/Manual-de-Gestacao-de-Alto-Risco-MS2022.pdf
Uma gestante com vômitos persistentes não consegue reter comprimidos ou líquidos. Qual aspecto deve ser revisto para tornar efetivo o tratamento sintomático, juntamente com a correção das repercussões clínicas?
A incapacidade de reter a medicação compromete sua administração e efeito. Vias alternativas podem ser necessárias, associadas à avaliação da hidratação, eletrólitos e nutrição; não basta aumentar repetidamente uma dose que é vomitada. Referência: Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco (2022), capítulos 3, 15, 16, 41, 50 e 51. https://www.saude.mg.gov.br/wp-content/uploads/2025/01/Manual-de-Gestacao-de-Alto-Risco-MS2022.pdf
Qual deficiência deve ser considerada diante de baixa ingestão prolongada e sintomas neurológicos, especialmente antes de glicose parenteral?

Deficiência de tiamina pode causar encefalopatia de Wernicke; reposição oportuna é importante em desnutrição por vômitos.
Qual plano aborda o conjunto apresentado?

Hiperêmese complicada exige abordagem integrada, incluindo investigação de causas e complicações conforme os sinais.
Qual distúrbio eletrolítico está descrito?

O potássio está baixo.
Por que atribuir confusão apenas ao desconforto dos vômitos seria inadequado?

Sintomas neurológicos em contexto de desnutrição e desidratação não são manifestações a serem banalizadas.
Qual dado mostra perda ponderal relevante?

A tabela informa perda de 7% do peso de referência.
Gestante com hiperêmese relata tristeza, isolamento e incapacidade de trabalhar após repetidas internações. Familiares dizem que os vômitos são falta de vontade de manter a gravidez. Qual abordagem é adequada?
A escuta deve evitar culpabilização. Apoio e avaliação de saúde mental complementam o manejo obstétrico, sem invalidar os sintomas físicos. Referências: RCOG. Pregnancy sickness: nausea, vomiting and hyperemesis gravidarum — https://www.rcog.org.uk/for-the-public/browse-our-patient-information/pregnancy-sickness-nausea-and-vomiting-of-pregnancy-and-hyperemesis-gravidarum/
Gestante de 10 semanas não consegue manter líquidos, perdeu peso e apresenta taquicardia, mucosas secas e hipocalemia. A cetonúria está negativa. Qual interpretação é compatível com a diretriz RCOG de 2024?
A decisão assistencial considera tolerância oral, estado clínico e repercussões metabólicas. Um resultado isolado não deve bloquear o cuidado indicado. Referências: RCOG. Green-top Guideline 69: Nausea and vomiting in pregnancy and hyperemesis gravidarum, 2024 — https://doi.org/10.1111/1471-0528.17739
Após falha de medidas convencionais, gestante com hiperêmese refratária recebe corticosteroide sistêmico sob supervisão. Qual medida de acompanhamento tem relação direta com esse tratamento?
A indicação de um tratamento de resgate inclui planejamento dos controles necessários. Eficácia e efeitos adversos devem ser avaliados em conjunto. Referências: RCOG. Green-top Guideline 69: Nausea and vomiting in pregnancy and hyperemesis gravidarum, 2024 — https://doi.org/10.1111/1471-0528.17739 RCOG. Pregnancy sickness: nausea, vomiting and hyperemesis gravidarum — https://www.rcog.org.uk/for-the-public/browse-our-patient-information/pregnancy-sickness-nausea-and-vomiting-of-pregnancy-and-hyperemesis-gravidarum/
Gestante internada por hiperêmese melhorou, tolera líquidos e medicamentos por via oral e terá alta. Ainda necessita de antiemético para manter a ingestão. Qual plano é mais adequado?
A alta é uma transição de cuidado. O plano deve ser claro sobre medicamentos, alimentação tolerada, acompanhamento e sinais de retorno. Referências: RCOG. Pregnancy sickness: nausea, vomiting and hyperemesis gravidarum — https://www.rcog.org.uk/for-the-public/browse-our-patient-information/pregnancy-sickness-nausea-and-vomiting-of-pregnancy-and-hyperemesis-gravidarum/
Gestante com hiperêmese desde o primeiro trimestre continua com sintomas importantes após 22 semanas e apresenta baixo ganho ponderal. Está em seguimento e não há indicação imediata de parto. Qual medida pode ser acrescentada ao acompanhamento fetal?
A persistência de doença importante exige atenção às repercussões maternas e fetais. O seguimento é adaptado à evolução individual. Referências: RCOG. Pregnancy sickness: nausea, vomiting and hyperemesis gravidarum — https://www.rcog.org.uk/for-the-public/browse-our-patient-information/pregnancy-sickness-nausea-and-vomiting-of-pregnancy-and-hyperemesis-gravidarum/
Gestante internada por hiperêmese está desidratada e permanece com mobilidade reduzida. Não há sangramento, trombocitopenia, insuficiência renal relevante ou outra contraindicação à anticoagulação profilática. Qual medida deve ser considerada conforme o RCOG?
O risco deve ser reavaliado conforme a recuperação e outros fatores presentes. A duração após a alta não é automática para todas as pacientes. Referências: RCOG. Green-top Guideline 69: Nausea and vomiting in pregnancy and hyperemesis gravidarum, 2024 — https://doi.org/10.1111/1471-0528.17739
Gestante em tratamento de hiperêmese mantém pirose intensa e regurgitação ácida, apesar de melhora parcial dos vômitos. Não há hematêmese, disfagia ou dor abdominal focal. Qual medida pode integrar o cuidado após avaliação?
O manejo não se resume à frequência de vômitos. Identificar sintomas associados permite tratar fatores adicionais que prejudicam alimentação e bem-estar. Referências: RCOG. Green-top Guideline 69: Nausea and vomiting in pregnancy and hyperemesis gravidarum, 2024 — https://doi.org/10.1111/1471-0528.17739
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Os números, na ordem em que a prova os pede. Prevalência: náuseas e vômitos em 70% a 80% das gestantes; hiperêmese em 0,3% a 3,0%. Cronologia: início 2 a 4 semanas após a fertilização, isto é, 4 a 6 semanas de idade gestacional; pico com 9 semanas; resolução entre 16 e 20 semanas em 90%; 10% com curso prolongado. Definição de hiperêmese: vômitos persistentes mais perda de mais de 5% do peso, desidratação, distúrbio hidroeletrolítico e cetonúria, com ausência de outras doenças — diagnóstico clínico de exclusão. PUQE: três perguntas de 1 a 5, escore de 3 a 15; até 6 leve e ambulatorial, 7 a 11 moderada, 12 ou mais grave, moderada e grave em ambiente hospitalar multidisciplinar. Exame que não se adia: ultrassonografia obstétrica, para descartar doença trofoblástica e identificar gemelaridade. Painel: hemograma, sódio, potássio, função renal, função hepática, amilase, TSH e T4 livre, sumário de urina e urocultura. Padrão esperado: alcalose hipoclorêmica e hipocalêmica, cetonúria. Ambulatório, Fluxograma 2: metoclopramida 10 mg de 8 em 8 horas; dimenidrinato 50 mg com piridoxina 10 mg de 6 em 6 horas, sem exceder 400 mg ao dia. Degrau não farmacológico: piridoxina 25 mg de 8 em 8 horas, gengibre 250 mg de 6 em 6 horas, acupressão em PC6. Internação: peso e diurese diários, correção hidroeletrolítica, suspender ferro, apoio psicológico; jejum de 24 a 48 horas; hidratação de 2.000 a 4.000 mL em 24 horas, teto de 6.000 mL. Antieméticos venosos: ondansetrona 8 mg de 6 em 6 horas, metoclopramida 10 mg de 6 em 6 horas em segundo lugar; ondansetrona individualizada antes de 10 semanas. Tiamina sempre antes da dextrose. Refratário: sonda enteral em primeira linha, cateter central como último recurso. Trombose: hiperêmese com desidratação vale 2 pontos no escore da Febrasgo, profilaxia a partir de 3.
em 30 dias
Os porquês, que é o que sobra quando os números escapam. Por que hiperêmese é diagnóstico de dano e não de sintoma: porque a náusea da gravidez é tão comum que a intensidade não discrimina nada — só o que o vômito já produziu no peso, no volume e nos eletrólitos separa a fisiologia da doença. Por que a ultrassonografia não é opcional: porque a êmese acompanha a carga de hCG, e as duas condições que multiplicam o hCG — gestação múltipla e doença trofoblástica — se veem no mesmo exame; quem entende a cadeia não decora a indicação. Por que o TSH suprimido não pede droga: porque a fração alfa do hCG é a mesma do TSH, e a tireoide está sendo estimulada pelo hormônio da gravidez, não por autoanticorpo; o que decide tratamento é o T4 livre e o TRAb, e as drogas antitireoidianas atravessam a placenta. Por que o soro tem de ser rico em cloreto: porque vomitar é perder ácido clorídrico e potássio, e a alcalose hipoclorêmica e hipocalêmica se corrige com o íon que faltou, não com um precursor de bicarbonato. Por que a tiamina vem antes da glicose: porque ela é o cofator das enzimas que metabolizam a glicose e a reserva dura poucas semanas — infundir glicose primeiro consome o que restou e converte deficiência latente em lesão de corpos mamilares e tálamo, em horas. Por que sonda antes de cateter: porque o cateter central troca um problema nutricional por risco de trombose e de infecção de corrente sanguínea numa paciente que já tem trombose entre os riscos. Por que o escore de trombose quase sempre atinge o limiar: porque a hiperêmese com desidratação vale 2 pontos e a própria internação prolongada, que imobiliza, entrega o terceiro. E por que tratar cedo a náusea banal é a única prevenção com apoio nos dois documentos brasileiros: porque a progressão para a forma grave é o que se está evitando, e a mesma gestante tem alta chance de repetir o quadro na gravidez seguinte.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Gestante de 26 anos, primigesta, chega ao pronto-socorro obstétrico com 10 semanas referindo vômitos há quatro semanas e incapacidade de reter qualquer alimento nas últimas 36 horas. Trouxe o cartão de pré-natal com o peso da primeira consulta. Você tem a balança, a fita urinária, o aparelho de ultrassonografia e a prescrição em branco. Descubra se ainda é náusea da gestação, afaste o que precisa ser afastado antes de dar o nome, e escreva a prescrição na ordem certa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
