Ginecologia e Obstetrícia › Pré-natal, rastreios e intercorrências clínicas da gestação
HIV na gestação e profilaxia da transmissão vertical
A prova não cobra este tema como doença: cobra como cascata. Testar, tratar, medir a carga viral na 34ª semana, decidir a via de parto, ligar o AZT venoso, medicar o recém-nascido e cortar o aleitamento — cada etapa tem número próprio, e errar um número derruba a questão inteira. Aqui a cascata está montada elo a elo, com a régua brasileira vigente e as divergências nomeadas.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Recém-nascido de 32 semanas de idade gestacional, pesando 1.680 g, nasce de mãe com carga viral de 4.500 cópias/mL no terceiro trimestre, em uso irregular de terapia antirretroviral. Qual a profilaxia antirretroviral indicada para essa criança?
Como esse tema cai
Este capítulo tem um formato próprio, e ele não é o de uma doença. HIV na gestação, em prova de residência, é uma cascata de sete elos: testar, tratar, medir a carga viral na 34ª semana, escolher a via de parto, ligar a zidovudina venosa no parto, medicar o recém-nascido e cortar o aleitamento. Cada elo tem um número, e é quase sempre o número — não o conceito — que a alternativa troca.
Os quatro números que sustentam tudo cabem numa linha: 1.000 cópias/mL é o limiar que decide a via de parto; 34 semanas é quando a carga viral que decide é colhida; 38 semanas é quando a cesárea eletiva é feita; 3 horas é a antecedência mínima da zidovudina venosa antes dessa cesárea. Some-se a eles 4 semanas de profilaxia do recém-nascido e a contraindicação absoluta do aleitamento, e a questão está resolvida em oito de cada dez casos.
O ganho que essa cascata produz é grande o bastante para justificar o rigor. Sem planejamento e sem seguimento, o risco de transmissão vertical do HIV é de 15% a 45%; com as intervenções feitas no pré-natal, no parto e na amamentação, cai para menos de 2% — e, quando a terapia antirretroviral alcança supressão plasmática próxima ao parto, para menos de 1%. Trabalhando com a redução de cerca de 30% para menos de 1%, são cerca de 29 pontos percentuais evitados: uma infecção a menos a cada três ou quatro gestações que percorrem a cascata inteira.
Uma advertência de leitura, porque ela decide questão. O PCDT de Transmissão Vertical vigente é o de 2020, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 55, de 11 de novembro de 2020 — é o que a página de protocolos do próprio Departamento de HIV/Aids indica. Mas dois pontos dele foram superados por normas posteriores do mesmo Ministério: o dolutegravir no primeiro trimestre, liberado pela Nota Informativa nº 1/2022, e a profilaxia do recém-nascido, reescrita pelo PCDT de HIV em Crianças e Adolescentes de 2024. Este capítulo adota as normas novas e sinaliza, em cada ponto, o que o protocolo antigo ainda imprime.
Fica fora daqui, porque já está escrito. O calendário de testagem do pré-natal por inteiro está em 'Exames do pré-natal'. O manejo do HIV fora da gestação — estadiamento, contagem de LT-CD4+, falha virológica, infecções oportunistas, critérios de aids — está em 'HIV/aids', na apostila de Infectologia; aqui só entra o que muda por causa da gravidez. A sífilis tem capítulo próprio nesta mesma apostila, e o rastreio conjunto é o que amarra os dois. A hepatite B está em 'Hepatite B'. As infecções congênitas estão em 'Infecções congênitas (STORCH)', na Neonatologia. A técnica e as indicações gerais de cesariana estão em 'Cesariana e parto vaginal operatório'. O aleitamento normal está em 'Aleitamento materno'. E a suplementação de ferro e ácido fólico está em 'Suplementação e vacinação na gestação' — inclusive porque um dos erros de fonte deste capítulo é justamente sobre a dose de ácido fólico.
O que muda decisão
Diagnóstico: três momentos, e o que fazer com o teste rápido reagente
A testagem para HIV na gestação acontece em três momentos fixos: na primeira consulta do pré-natal, idealmente no primeiro trimestre; no início do terceiro trimestre; e no momento do parto — este último independentemente de exames anteriores. O PCDT-TV acrescenta um quarto momento, que não é de calendário e sim de evento: sempre que houver exposição de risco ou violência sexual. A figura que resume esses momentos no próprio protocolo data o terceiro trimestre como a 28ª semana, a mesma marca da testagem de sífilis.
Os testes rápidos são os métodos preferenciais de diagnóstico na gestação, e a razão é temporal, não técnica: eles devolvem resultado no mesmo atendimento e por isso permitem iniciar a terapia antirretroviral mais cedo, encurtando o tempo entre o diagnóstico e a supressão viral. O protocolo autoriza a testagem laboratorial, mas com uma condição explícita — que a entrega do resultado ocorra em tempo oportuno, porque a prevenção da transmissão vertical depende de uma janela que se fecha.
A regra que a prova cobra logo depois é a que quase todo aluno atrasa: diante de qualquer fluxo diagnóstico, a coleta da carga viral deve ser feita imediatamente e antes do início da terapia antirretroviral. Não se espera confirmação para colher. O motivo declarado no protocolo é que resultados falso-reagentes, ainda que raros, ocorrem em gestantes por presença de aloanticorpos, e as situações de alerta são nomeadas: doenças autoimunes, múltiplos partos, transfusões sanguíneas, hemodiálise e vacinação recente. A carga viral colhida antes do primeiro comprimido resolve as duas coisas de uma vez — desfaz a dúvida e estabelece a magnitude da viremia.
Quando a estrutura laboratorial existe, o fluxograma sugerido pelo Ministério da Saúde parte de um imunoensaio de quarta geração — capaz de detectar anticorpos anti-HIV-1 e anti-HIV-2 e também o antígeno p24 do HIV-1 — seguido de teste molecular complementar nas amostras reagentes. É a estratégia que fecha o diagnóstico mais cedo, porque a detecção combinada de antígeno e anticorpo reduz a janela diagnóstica para cerca de 15 dias. O teste rápido, por sua vez, dispensa estrutura laboratorial, pode ser feito por punção digital e é lido em até 30 minutos.
Feito o diagnóstico, duas providências não são negociáveis. A primeira: a genotipagem pré-tratamento está indicada para toda gestante que vai iniciar terapia, com a amostra colhida antes do primeiro comprimido — mas não se espera o resultado para iniciar. A segunda: a gestante diagnosticada com HIV é encaminhada ao pré-natal de alto risco, mantendo o vínculo com a atenção básica em cuidado compartilhado; se houver imunossupressão mais grave, com contagem de LT-CD4+ igual ou inferior a 350 células/mm³, sinais e sintomas de aids ou infecção oportunista, o caso vai para serviço especializado.
Carga viral: três coletas, e a que decide é a da 34ª semana
A carga viral é descrita no protocolo como o fator mais importante associado ao risco de transmissão vertical, e ela cumpre três funções distintas na gestação: estabelecer a viremia inicial, medir a resposta ao tratamento e decidir a via de parto. Por isso são exigidas pelo menos três coletas: na primeira consulta do pré-natal, algumas semanas após a introdução ou mudança da terapia, e na 34ª semana.
A terceira coleta é a que a prova usa. A carga viral da 34ª semana é a que define a via de parto e o uso das profilaxias, e ela precisa ser colhida com folga suficiente para que o resultado chegue antes de a cesárea eletiva ser agendada para a 38ª semana. Entre uma marca e outra há exatamente quatro semanas — 28 dias —, e essa janela é o motivo de a coleta ter data fixa em vez de 'próximo ao parto'.
A segunda coleta tem um número que exige atenção porque o próprio protocolo o escreve de dois jeitos. O texto corrido manda repetir a carga viral 'quatro semanas após a introdução ou mudança da TARV'; o Quadro 10, que é a tabela operacional do mesmo documento, diz 'duas a quatro semanas após introdução/modificação'. As duas redações convivem: a faixa de 2 a 4 semanas é a do quadro e é a mais citada, e o que se avalia nela é objetivo — queda de pelo menos 1 log₁₀ na carga viral. Não caiu 1 log, investiga-se adesão e interação medicamentosa antes de culpar o esquema.
Aqui mora a armadilha aritmética do tema. 1 log₁₀ é uma queda de dez vezes, não de dez unidades nem de dez por cento. Uma gestante que entra com 100.000 cópias/mL e chega a 10.000 caiu exatamente 1 log e está dentro do esperado, ainda que o número absoluto continue alto. Outra que sai de 5.000 para 3.000 caiu menos de 0,3 log e não respondeu, ainda que a diferença de 2.000 cópias pareça grande. Sempre que o enunciado der dois valores de carga viral, divida um pelo outro antes de julgar.
As metas têm dois patamares e eles não se confundem. Supressão é carga viral plasmática abaixo de 50 cópias/mL — é o alvo terapêutico e o valor que o protocolo usa quando fala em transmissão inferior a 1%. Abaixo de 1.000 cópias/mL não é meta: é o limiar operacional da via de parto, faixa em que a taxa de transmissão já é inferior a 1% em gestante em uso de terapia. Confundir os dois produz a alternativa errada mais elegante do tema — a que oferece cesárea para quem tem 300 cópias/mL.
A contagem de LT-CD4+ segue calendário próprio e mais frouxo: na primeira consulta e pelo menos a cada três meses para quem está iniciando tratamento; para quem já vinha em terapia com carga viral indetectável, basta na primeira consulta e na 34ª semana, junto com a carga viral. E há uma coleta que não tem data: sempre que houver dúvida sobre adesão, pede-se carga viral, em qualquer momento da gestação.
TARV: para todas, em qualquer idade gestacional, e o esquema é um só
A primeira frase deste bloco é a que mais rende ponto: a terapia antirretroviral está indicada para toda gestante vivendo com HIV, independentemente de critérios clínicos e imunológicos, e não é suspensa após o parto. Não existe contagem de LT-CD4+ que dispense, não existe carga viral baixa que dispense, e não existe alta da maternidade que encerre. Alternativa que condicione o início da terapia a CD4 abaixo de algum valor está errada por construção.
O esquema preferencial brasileiro é tenofovir 300 mg + lamivudina 300 mg + dolutegravir 50 mg, um comprimido ao dia de cada componente, preferencialmente na apresentação de dose fixa combinada da dupla de inibidores nucleosídeos. A arquitetura é a mesma da população geral: dois inibidores de transcriptase reversa nucleosídeos mais um terceiro antirretroviral, que aqui é um inibidor de integrase, escolhido pela alta barreira genética e pela rapidez com que derruba a carga viral.
O ponto que mudou — e que separa quem leu o documento certo de quem decorou o antigo — é a idade gestacional. A Nota Informativa nº 1/2022 do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, publicada em 26 de janeiro de 2022 e em situação vigente, recomenda o dolutegravir como terceiro antirretroviral preferencial para gestante em início de tratamento, independentemente da idade gestacional. O PCDT-TV de 2020, que continua sendo o PCDT-TV vigente, ainda imprime o recorte antigo: dolutegravir só a partir da 13ª semana, e efavirenz ou atazanavir/ritonavir no primeiro trimestre. A norma posterior é a que vale; o protocolo é que não foi reimpresso.
A razão do recuo é rastreável e vale saber, porque a banca às vezes pergunta o porquê. Em maio de 2018 a Organização Mundial da Saúde alertou para possível associação entre dolutegravir no período periconcepcional e defeito do tubo neural, e o Brasil restringiu o uso. A vigilância brasileira acompanhou então 1.427 mulheres entre janeiro de 2017 e maio de 2018 e não encontrou nenhum caso de defeito do tubo neural nos conceptos expostos ao dolutegravir nem nos expostos ao efavirenz. Depois do encerramento do estudo, dois casos foram notificados; reestimado o período até fevereiro de 2019 com esses dois casos incluídos, a proporção ficou em 0,18% — abaixo de 1%, ainda que superior à estimativa de 0,06% da população geral brasileira. A atualização do estudo Tsepamo, de Botsuana, apresentada em 2021, não mostrou diferença estatisticamente significativa. As evidências não confirmaram a associação.
Os alternativos existem e têm ordem. Para a gestante em início de tratamento com contraindicação ao dolutegravir, a Nota Informativa lista raltegravir 400 mg de 12 em 12 horas — com troca programada para dolutegravir após o parto —, atazanavir 300 mg + ritonavir 100 mg ao dia e darunavir 600 mg + ritonavir 100 mg de 12 em 12 horas. O efavirenz 600 mg ao dia só entra se houver contraindicação aos anteriores e condicionado à sensibilidade demonstrada na genotipagem pré-tratamento — precaução justificada, já que o relatório de monitoramento das gestantes brasileiras encontrou 9% de resistência ao efavirenz nas genotipagens pré-tratamento.
Duas contraindicações precisam ser sabidas de cor porque são as únicas nomeadas. A do dolutegravir é farmacológica e curta: uso concomitante de oxcarbazepina, dofetilida ou pilsicainida, além de reação adversa ou intolerância ao próprio medicamento. A do darunavir é de apresentação, não de princípio: darunavir 800 mg não se usa na gestação, porque o nível sérico cai a partir do segundo trimestre; quem engravida usando 800 mg ao dia passa para 600 mg + ritonavir 100 mg duas vezes ao dia, e a volta para 800 mg é reavaliada depois do parto. E o abacavir, alternativo à dupla de nucleosídeos, só entra com HLA-B*5701 negativo.
Fora do esquema, uma trava que costuma cair em pergunta de conduta: não há dados suficientes para terapia dupla na gestação. Gestante não é candidata a simplificação de esquema.
Quem já vinha em tratamento: a regra é não mexer
A mulher que engravida já em terapia antirretroviral obedece a uma regra diferente da que inicia, e ela é essencialmente conservadora. Se a carga viral está abaixo de 50 cópias/mL, mantém-se o mesmo esquema, desde que não contenha medicamento contraindicado na gestação. O protocolo escreve isso com todas as letras: o ideal é não trocar a terapia de uma gestante com boa adesão, assintomática e com carga viral indetectável.
O motivo da cautela é quantitativo e vale mais que a memória do enunciado: toda troca de esquema carrega risco de escape viral, sobretudo em quem já teve falha virológica prévia, e escape viral aumenta o risco de transmissão vertical. Trocar para evitar um risco teórico e produzir um rebote de carga viral é piorar o desfecho que se quis proteger.
O caso específico da mulher que engravida em uso de dolutegravir é o que a prova mais explora, e a resposta atual é simples: mantém. A Nota Informativa nº 1/2022 recomenda cautela nas trocas, restringindo-as a situações excepcionais ou a decisão compartilhada, com controle precoce de carga viral. O PCDT-TV de 2020 traz a orientação anterior — trocar para atazanavir/ritonavir se a gestação tiver 12 semanas ou menos, manter acima disso, com uma nota de rodapé mandando individualizar já a partir de 8 semanas. A referência embriológica que sustentava aquela nota é a mesma de sempre: o fechamento do tubo neural se conclui até a 8ª semana gestacional, de modo que trocar depois disso não previne nada.
Se a gestante já em terapia chega com carga viral detectável, o caminho é outro e tem três passos na ordem certa. Primeiro, reforçar adesão e investigar interação medicamentosa — a principal hipótese de falha virológica declarada no protocolo é má adesão. Segundo, solicitar genotipagem, e aqui a régua é mais permissiva do que fora da gestação: para gestante, uma única carga viral detectável acima de 500 cópias/mL já basta para pedir o exame. Terceiro, ajustar o esquema conforme o resultado, com prioridade de análise junto à Câmara Técnica.
A gestante em abandono de terapia tem conduta própria. Recomenda-se reiniciar empiricamente com dois inibidores nucleosídeos associados a um inibidor de protease com ritonavir, preferencialmente darunavir 600 mg + ritonavir 100 mg de 12 em 12 horas. Mas se ela chega tardiamente, após 28 semanas, considera-se reintroduzir com inibidor de integrase, preferencialmente dolutegravir, exatamente porque suprime mais rápido — e o tempo que resta até o parto é o recurso escasso. A reavaliação da carga viral vem em quatro a seis semanas.
A 34ª semana decide o parto: a régua de 1.000 cópias
Este é o parágrafo que resolve metade das questões do tema. A carga viral colhida a partir da 34ª semana classifica a gestante em três faixas, e cada faixa tem uma via de parto e uma decisão sobre zidovudina venosa. Nenhuma outra variável entra antes dessa.
Faixa 1 — carga viral desconhecida ou acima de 1.000 cópias/mL. Indica-se cesárea eletiva a partir da 38ª semana, e a razão de ser 38 e não 39 está escrita no protocolo: evitar prematuridade iatrogênica, mas também chegar antes do trabalho de parto e da rotura prematura de membranas. Some-se a zidovudina venosa. A idade gestacional precisa ser confirmada por parâmetros obstétricos — data da última menstruação confiável, altura uterina e ultrassonografia precoce, preferencialmente do primeiro trimestre ou antes da 20ª semana.
Faixa 2 — carga viral detectável, porém abaixo de 1.000 cópias/mL. A via de parto é obstétrica, e o parto vaginal está liberado se não houver contraindicação. Mas o serviço precisa estar avisado de uma coisa: essa mulher recebe zidovudina venosa. É a faixa que a prova usa para separar quem entendeu a régua de quem decorou 'detectável, então cesárea'.
Faixa 3 — carga viral indetectável na 34ª semana, em uso de terapia com boa adesão. Parto segundo indicação obstétrica, preferencialmente vaginal, e sem zidovudina venosa — mantém-se a terapia oral habitual, nos horários de sempre, inclusive no dia da cesárea programada e durante o trabalho de parto.
A justificativa de por que não se opera abaixo de 1.000 cópias é explícita e vale citar em prova discursiva: abaixo dessa contagem a cesariana não é fator estatisticamente relevante para prevenção da transmissão vertical e passa a ser causa importante de morbidade, com incidência maior de complicações pós-operatórias e hospitalizações em mulheres vivendo com HIV do que em mulheres soronegativas. Operar sem indicação obstétrica, nessa faixa, é trocar um benefício que não existe por um dano que existe.
Há um vão na redação que convém conhecer: o protocolo escreve 'maior que 1.000' para indicar a cesárea e 'menor que 1.000' para liberar o parto vaginal. O valor exatamente 1.000 cópias/mL não recebe categoria em nenhuma das duas frases. Na prática, ele é tratado como a faixa alta, que é a leitura segura — mas o vão é da fonte.
Há também uma armadilha de figura. O fluxograma do protocolo abre o primeiro ramo com 'gestante com carga viral desconhecida ou detectável na 34ª semana' e manda cesárea, enquanto o ramo seguinte, 'detectável, porém menor que 1.000 cópias/mL', manda parto obstétrico. Lido ao pé da letra, o primeiro ramo engoliria o segundo. O texto corrido resolve: o primeiro ramo quer dizer acima de 1.000 cópias/mL. Responda pelo texto, não pelo desenho.

Zidovudina venosa: quem recebe, quando começa, quantos mililitros
A zidovudina injetável é indicada para prevenção da transmissão vertical e é administrada desde o início do trabalho de parto — ou antes da cesárea eletiva — até o clampeamento do cordão umbilical. As três indicações são: carga viral desconhecida a partir da 34ª semana; carga viral detectável a partir da 34ª semana, em qualquer valor; e histórico de má adesão, mesmo com carga viral indetectável.
A dispensa também tem regra própria: não é necessária zidovudina venosa na gestante com carga viral indetectável após 34 semanas e em terapia com boa adesão. A ressalva vem logo em seguida e é a que salva a questão de conduta: independentemente da carga viral, o médico pode eleger o uso da zidovudina intraparto se julgar haver risco de má adesão. A dispensa é da regra, não do julgamento clínico.
O esquema posológico tem duas fases e a apresentação é de frasco-ampola de 10 mg/mL. A dose de ataque é de 2 mg/kg na primeira hora; a manutenção é de 1 mg/kg por hora em infusão contínua, diluída em 100 mL de soro glicosado a 5%, com a ressalva de que a concentração não deve exceder 4 mg/mL.
Faça a conta uma vez e ela serve para qualquer peso da vinheta. Uma gestante de 70 kg recebe, no ataque, 140 mg — que são 14 mL do frasco de 10 mg/mL. Diluídos em 100 mL, o volume total da primeira hora é de 114 mL, ou seja, 114 mL/h; em equipo macrogotas de 20 gotas por mililitro, isso dá 114 × 20 ÷ 60 = 38 gotas por minuto, exatamente o número impresso na tabela do protocolo. Na manutenção, 70 mg são 7 mL, o volume total vira 107 mL/h e a velocidade cai para 36 gotas por minuto. A tabela inteira do protocolo fecha com essa aritmética, do peso de 40 kg ao de 90 kg.
A concentração máxima de 4 mg/mL merece um segundo de atenção porque quase nunca é o fator limitante. Na maior dose tabelada — 90 kg, 180 mg de ataque em 118 mL — a concentração resultante é de cerca de 1,5 mg/mL, bem abaixo do teto. O limite só passa a importar se alguém decidir diluir em volume muito menor que os 100 mL previstos.
A antecedência antes da cesárea eletiva tem uma sutileza de redação que convém conhecer. A seção da via de parto escreve 'pelo menos 3 horas antes da cesariana eletiva'; a seção da terapia intraparto, três páginas adiante, escreve 'até 3 horas antes'. As duas frases descrevem o mesmo ato, e a leitura que faz sentido clínico é a primeira — a infusão começa com três horas ou mais de antecedência, para que haja nível sérico no momento da incisão. Adotar a leitura de 'no máximo 3 horas' esvaziaria a profilaxia.
Há um cenário de exceção que cai com frequência: a gestante com indicação de cesárea eletiva que entra em trabalho de parto antes da data marcada. Se ela chega à maternidade com dilatação cervical menor que 4 cm, mantém-se a indicação de cesárea, inicia-se imediatamente a zidovudina venosa e opera-se, se possível, após três horas de infusão.
E há uma proibição explícita: não se substitui a zidovudina injetável pela via oral no momento do parto. A justificativa declarada é a absorção errática do comprimido, sem evidência que garanta nível sérico adequado no momento oportuno. Para a terapia habitual da gestante, o oposto vale — os antirretrovirais de uso contínuo são mantidos nos horários de sempre, com um pouco de água, mesmo em trabalho de parto ou no dia da cesárea.
Cuidados obstétricos: a lista do que se evita
O manejo obstétrico da gestante vivendo com HIV é feito de subtrações, e a prova costuma cobrá-lo pela alternativa que acrescenta um procedimento. A lógica que unifica a lista é uma só: reduzir o contato do feto e do recém-nascido com sangue e secreções maternas, e encurtar o tempo de exposição.
Procedimentos invasivos estão contraindicados durante o trabalho de parto — amniocentese, cordocentese, amniotomia precoce e monitorização fetal invasiva. A amniotomia artificial deve ser evitada, a menos que extremamente necessária, e a progressão espontânea do trabalho de parto com bolsa íntegra é preferível à indução.
O parto instrumentalizado deve ser evitado; quando indicado, o fórceps é preferido ao vácuo-extrator, e a aplicação só se admite com indicação obstétrica precisa que supere o risco de infecção da criança. A episiotomia só é realizada após avaliação cautelosa, e, sendo feita, deve ficar coberta por compressa umedecida com degermante — tarefa que o protocolo atribui nominalmente a um auxiliar, porque um único profissional não consegue assistir ao parto e simultaneamente evitar o contato do nascituro com a ferida.
O tempo de bolsa rota é cronometrado: a taxa de transmissão vertical aumenta progressivamente após 4 horas de bolsa rota. É esse número que transforma 'aguardar a evolução' em conduta errada quando o parto se anuncia demorado ou distócico — nesse cenário, mesmo com carga viral abaixo de 1.000 cópias/mL, considera-se a resolução por cesariana.
O partograma é obrigatório e os toques repetidos e desnecessários devem ser evitados. Já os uterotônicos não estão contraindicados — ocitocina e misoprostol podem ser usados para induzir ou estimular o trabalho de parto, seguindo os padrões de segurança habituais. É um detalhe que separa a alternativa correta da que proíbe tudo por reflexo.
No nascimento, três atos e uma proibição. Parto empelicado sempre que possível — retirar o neonato com as membranas corioamnióticas íntegras. Clampeamento imediato do cordão após a expulsão ou a retirada. E nunca, sob nenhuma hipótese, ordenha do cordão. Na cesárea, faz-se a hemostasia completa dos vasos da parede abdominal e troca-se de compressas antes da histerotomia, para reduzir o contato do recém-nascido com sangue materno. A antibioticoprofilaxia é a mesma de qualquer cesárea — cefazolina 2 g por via endovenosa em dose única — e vale tanto para a eletiva quanto para a de urgência.
Sobre biossegurança, o protocolo é enfático em um ponto que também vira questão: não há recomendação de paramentação específica para o parto de gestante vivendo com HIV. As precauções padrão valem para todos os partos, independentemente de diagnóstico conhecido ou presumido. Exigir equipamento especial para essa parturiente é discriminação travestida de cuidado — e é a alternativa errada.
O recém-nascido: risco alto ou risco baixo, e o esquema muda
Todo recém-nascido exposto ao HIV recebe profilaxia antirretroviral, sem exceção. O que muda é o número de medicamentos, e isso depende de uma classificação binária de risco que o PCDT de HIV em Crianças e Adolescentes de 2024 estabeleceu — substituindo, na prática, o esquema de zidovudina com ou sem nevirapina que o PCDT-TV de 2020 ainda imprime.
Baixo risco exige três condições simultâneas, e o 'e' é literal: uso de terapia antirretroviral na gestação e carga viral indetectável a partir da 28ª semana e ausência de falha na adesão. Basta uma faltar para a criança sair da categoria. Esses recém-nascidos recebem zidovudina isolada por 4 semanas.
Alto risco é qualquer uma de nove situações, e vale a pena guardá-las porque a vinheta as descreve em vez de nomeá-las: pré-natal não realizado; terapia não utilizada durante a gestação; profilaxia no parto indicada mas não realizada; início da terapia após a segunda metade da gestação; uso de antirretroviral apenas no intraparto; infecção materna aguda durante a gestação ou o aleitamento; persistência de carga viral detectável no terceiro trimestre; carga viral materna desconhecida; e diagnóstico materno feito no momento do parto. Esses recém-nascidos recebem profilaxia combinada com zidovudina + lamivudina + raltegravir granulado 100 mg, por 28 dias.
A prematuridade recorta esse esquema em três degraus, e é aqui que a questão difícil mora. O raltegravir só é usado a partir de 37 semanas de idade gestacional e é contraindicado abaixo disso ou com peso inferior a 2 kg. Para o alto risco entre 34 e 37 semanas, o terceiro medicamento passa a ser a nevirapina, mantendo zidovudina e lamivudina por 28 dias. E abaixo de 34 semanas, a profilaxia é zidovudina isolada, independentemente do risco — inclusive no alto risco. Quanto mais prematuro o bebê, menos medicamentos ele tolera, e a régua inverte o reflexo de 'mais risco, mais droga'.
O relógio é curto e tem duas marcas. A profilaxia começa preferencialmente ainda na sala de parto, logo após os cuidados imediatos, ou nas primeiras 4 horas de vida. A indicação após 48 horas do nascimento deixa de ser automática e passa a ser discutida caso a caso, preferencialmente com especialista. A duração é sempre 4 semanas, ou seja, 28 dias, em todos os cenários.
As posologias da zidovudina oral seguem a idade gestacional: 35 semanas ou mais, 4 mg/kg/dose de 12 em 12 horas; entre 30 e 35 semanas, 2 mg/kg/dose de 12 em 12 horas nos primeiros 14 dias e 3 mg/kg/dose de 12 em 12 horas a partir do 15º dia; menos de 30 semanas, 2 mg/kg/dose de 12 em 12 horas. Quando a via oral é impossível, a dose endovenosa corresponde a 75% da dose oral, no mesmo intervalo — 4 mg/kg viram 3 mg/kg, 2 mg/kg viram 1,5 mg/kg. Lamivudina, para 34 semanas ou mais, é 2 mg/kg/dose de 12 em 12 horas do nascimento até a 4ª semana. O raltegravir tem escalonamento próprio: 1,5 mg/kg/dose uma vez ao dia na 1ª semana e 3 mg/kg/dose de 12 em 12 horas da 2ª à 4ª semana.
Dois detalhes que a prova adora. O primeiro: se a mãe recebeu raltegravir entre 2 e 24 horas antes do parto, a primeira dose do neonato é postergada para 24 a 48 horas após o nascimento, porque o medicamento atravessou a placenta. O segundo: nem lamivudina nem raltegravir existem em apresentação injetável, de modo que, se a via oral falhar, a alternativa é sonda nasoenteral, não troca de via.
Na sala de parto, os cuidados imediatos são cinco e nenhum deles é medicamentoso. Banho imediato, preferencialmente com água corrente, limpando com compressas macias todo sangue e secreção visível — com delicadeza, para não lesar a pele. Aspiração delicada de vias aéreas, se necessária, evitando traumatismo de mucosa. Aspiração do conteúdo gástrico com sonda oral, e, se houver sangue, lavagem gástrica com soro fisiológico. Colocar o recém-nascido junto à mãe o mais brevemente possível — o alojamento conjunto em período integral é recomendado, para fortalecer o vínculo. E iniciar a profilaxia.
Seguimento da criança exposta: quatro cargas virais e uma sorologia
O diagnóstico da criança exposta não se faz por sorologia, e a razão é imunológica: os anticorpos maternos do tipo IgG atravessam a placenta e podem persistir até os 18 meses de idade, e em casos raros até os 24. Por isso, em criança com 18 meses ou menos, o diagnóstico não é feito pela detecção de anticorpos — usa-se teste molecular: carga viral ou DNA pró-viral.
O calendário de coletas tem quatro marcas e as duas últimas são definidas pelo fim da profilaxia, não pela idade: ao nascimento, aos 14 dias de vida, duas semanas após o término da profilaxia — que, com 4 semanas de profilaxia, cai nas 6 semanas de vida — e oito semanas após o término, ou seja, nas 12 semanas de vida. A primeira coleta é feita imediatamente após o nascimento, por punção periférica, preferencialmente antes do início da profilaxia, e nunca de sangue de cordão umbilical. Mas a coleta não atrasa o medicamento: se for preciso escolher, o antirretroviral vem primeiro.
A razão desse desenho é farmacológica e vale entender, porque explica por que não se dosa carga viral no meio da profilaxia: os antirretrovirais usados pela mãe e pelo bebê reduzem a sensibilidade do exame e retardam a detecção, sobretudo quando a criança está em profilaxia com mais de um medicamento. Colher antes de começar e depois de terminar contorna a interferência.
O ponto de corte mudou e é o número novo do tema. Diante de qualquer carga viral detectável, independentemente do valor, indica-se coleta imediata de DNA pró-viral (preferencialmente) ou de nova carga viral. Considera-se que houve transmissão vertical quando há uma carga viral detectável seguida de DNA pró-viral detectável, ou duas cargas virais detectáveis, sendo a segunda igual ou superior a 100 cópias/mL. Se a segunda carga viral vier abaixo de 100 cópias/mL, colhe-se DNA pró-viral imediatamente; detectável, fecha o diagnóstico. E, para toda criança com carga viral detectável, o tratamento preemptivo é iniciado imediatamente, mantido até a definição diagnóstica.
A sorologia volta ao jogo no final, e só para o encerramento. A exclusão definitiva do diagnóstico exige três critérios simultâneos: pelo menos duas cargas virais indetectáveis obtidas após a suspensão da profilaxia; boas condições clínicas e bom desenvolvimento neuropsicomotor, sem evidência de déficit imunológico; e documentação da sororreversão em imunoensaio realizado aos 12 meses. Se aos 12 meses o teste ainda for reagente, aguarda-se até os 18 meses; se permanecer reagente, nova coleta aos 24 meses.
Existe uma exclusão presumida, mais precoce e mais frouxa, que resolve a conduta prática: criança não amamentada, assintomática, sem evidência de imunodeficiência e com pelo menos duas cargas virais indetectáveis após o término da profilaxia. Nesse ponto pode-se suspender o sulfametoxazol-trimetoprima da profilaxia primária para Pneumocystis jirovecii, mantendo a investigação para a exclusão definitiva.
O acompanhamento clínico é mensal nos primeiros seis meses e, no mínimo, bimestral a partir do primeiro ano de vida. A primeira consulta após a alta da maternidade não pode passar de 15 dias do nascimento, idealmente na primeira semana. Toda criança exposta é notificada ao núcleo de vigilância epidemiológica, e o cuidado é compartilhado entre serviço especializado e atenção primária.
Aleitamento: a regra brasileira é absoluta, e é aí que a divergência aparece
No Brasil, a amamentação é contraindicada para toda pessoa vivendo com HIV, e o PCDT de 2024 fecha a única brecha que restaria ao acrescentar, textualmente, 'mesmo quando estáveis, em uso regular de terapia antirretroviral e com carga viral indetectável'. A justificativa declarada é que o uso de antirretroviral não controla a eliminação do vírus pelo leite e não garante proteção contra a transmissão.
A proibição alcança quatro práticas, e a prova costuma testar as três periféricas em vez da óbvia. Estão contraindicados o aleitamento materno, o aleitamento misto — leite humano mais fórmula —, o aleitamento cruzado, que é a amamentação da criança por outra nutriz, e o leite humano com pasteurização domiciliar. O que é permitido é o leite humano pasteurizado de banco de leite credenciado pelo Ministério da Saúde, opção que existe sobretudo para o prematuro e o bebê de baixo peso.
A inibição da lactação é farmacológica e tem dose única, escrita do mesmo modo em dois documentos: cabergolina 1 mg por via oral em dose única — dois comprimidos de 0,5 mg —, administrada imediatamente após o parto, antes da alta hospitalar. Diante de lactação rebote, fenômeno descrito como pouco comum, pode-se repetir a dose. O enfaixamento das mamas é a alternativa de exceção, indicada apenas na ausência do inibidor farmacológico: compressão com atadura logo após o parto, sem restringir os movimentos respiratórios, mantida por dez dias, evitando manipulação e estimulação. O próprio protocolo registra que a adesão é baixa em país de clima quente e que a efetividade é questionável — os serviços devem se organizar para oferecer a cabergolina.
A criança exposta, infectada ou não, tem direito à fórmula láctea infantil pelo menos até completar 6 meses de idade, prazo extensível conforme avaliação de casos específicos. E há um detalhe de processo que aparece em questão de gestão: o código do procedimento de inibição da lactação deve constar na Autorização de Internação Hospitalar do parto.
A orientação mais eficaz, segundo o próprio protocolo, é temporal: começar a conversa sobre alimentação artificial ainda no pré-natal. Comunicar a necessidade de suprimir a lactação só depois do parto é considerado tardio, com resultados insatisfatórios. É a resposta certa para a vinheta que pergunta 'em que momento abordar'.
Duas condutas de resgate fecham o bloco. Se, em algum momento do seguimento, for identificada prática de aleitamento, suspende-se imediatamente e solicita-se carga viral para o recém-nascido. Se a criança foi amamentada por pessoa vivendo com HIV — inclusive por infecção materna adquirida depois do parto —, a conduta é: interrupção imediata da amamentação, carga viral, início de profilaxia pós-exposição simultânea à investigação, e novas cargas virais duas e oito semanas após o término dessa profilaxia. O risco é maior justamente na infecção aguda, pelo pico de viremia e pela queda de LT-CD4+.
A divergência internacional é real e é a mais cobrada do tema, mas ela não muda a conduta no Brasil. A Organização Mundial da Saúde, na diretriz de 2016, recomenda que mães vivendo com HIV amamentem por pelo menos 12 meses, podendo seguir até 24 meses ou mais, em recomendação forte com evidência de qualidade baixa e muito baixa — recomendação desenhada para cenários em que a alimentação de substituição não é segura, e em que o risco de morrer de diarreia e desnutrição supera o de adquirir HIV. As diretrizes perinatais norte-americanas, revisadas em 2023, mantêm fórmula e leite humano de banco como as opções que eliminam o risco, mas passaram a apoiar decisão compartilhada com quem preenche critérios clínicos de supressão sustentada. O Brasil não seguiu nenhum dos dois caminhos: aqui há água tratada, rede de fórmula garantida por lei e banco de leite, e a régua permanece a contraindicação absoluta.
Coinfecções, o que se rastreia junto e a Caderneta
A gestante vivendo com HIV é rastreada para tudo o que compartilha via de transmissão com ele, e o protocolo é explícito: todas devem ser testadas para hepatite B e hepatite C no início dos cuidados, além da testagem de sífilis do calendário comum. Acrescenta-se anti-HAV na primeira consulta, com vacinação para hepatite A se não reagente, e vacinação para hepatite B se HBsAg não reagente e sem histórico vacinal. Para hepatite C, a pesquisa é anual em toda pessoa vivendo com HIV, gestantes incluídas.
A coinfecção com hepatite B tem uma consequência direta sobre o esquema: trata-se todas as pessoas coinfectadas, independentemente de HBeAg, carga viral do vírus B e transaminases, e o esquema antirretroviral da gestante deve conter tenofovir, que age nos dois vírus. Se houver troca por falha virológica do HIV, o tenofovir é mantido como tratamento do vírus B, combinado a outros antirretrovirais. As transaminases são monitoradas um mês após o início da terapia e depois continuamente.
A coinfecção com hepatite C vai no sentido oposto: o tratamento da hepatite C é contraindicado durante a gestação, pelos efeitos teratogênicos da ribavirina e da alfapeguinterferona e pela ausência de estudos de segurança dos antivirais de ação direta. Deve-se evitar gravidez durante todo o tratamento e nos seis meses seguintes ao seu término. O que o diagnóstico precoce oferece na gestação é outra coisa — manejo menos invasivo no parto, seguimento em pré-natal de alto risco, tratamento programado para depois e seguimento da criança exposta. Na coinfecção HIV-HCV, o risco de transmissão vertical da hepatite C é o dobro do da população geral.
A tuberculose é pesquisada em todas as consultas do pré-natal, porque é a principal causa de óbito em pessoas vivendo com HIV. Perguntam-se ativamente tosse, febre, emagrecimento e sudorese noturna. Faz-se rastreio de infecção latente na primeira consulta em gestante assintomática e sem história prévia de tuberculose, e também quando a contagem de LT-CD4+ for igual ou inferior a 350 células/mm³, desde que excluída doença ativa. Prova tuberculínica igual ou superior a 5 mm manda investigar tuberculose ativa; negativa a investigação, indica-se isoniazida associada à piridoxina.
Duas profilaxias primárias entram por contagem de LT-CD4+ e caem em prova: sulfametoxazol-trimetoprima abaixo de 200 células/mm³, para pneumocistose e toxoplasmose, e a avaliação de isoniazida abaixo de 350 células/mm³, no contexto do rastreio de infecção latente. E há um exame de rotina que o protocolo manda antecipar: o citopatológico do colo do útero, semestral no primeiro ano após o diagnóstico de HIV e anual depois, se normal.
Duas armadilhas farmacológicas do puerpério e da gestação merecem linha própria porque são específicas desta paciente. Na hemorragia pós-parto, não se usa derivado de ergotamina em quem faz uso de inibidor de protease — a associação produz resposta vasoconstritora exagerada e risco de isquemia grave, central e periférica. Na hiperêmese gravídica, não se usa metoclopramida, pelo maior risco de liberação extrapiramidal em associação com os antirretrovirais; e, como a hiperêmese altera a biodisponibilidade e pode levar à falha virológica, monitora-se a carga viral. Se a êmese for grave a ponto de impedir o uso regular, retira-se todo o esquema durante o período — nunca parte dele —, reintroduzindo-o após a melhora, para não expor o vírus a doses subterapêuticas. E a sepse puerperal tem risco cerca de três vezes maior nessa população.
A Caderneta da Gestante entra no tema em três funções, e a prova usa as três. Primeira, ela é onde o resultado do teste é documentado, junto com o prontuário — o protocolo lista isso nominalmente entre os itens do atendimento inicial. Segunda, ela é o documento que atravessa os serviços: deve ser devolvida à puérpera com todas as anotações referentes à internação para o parto, porque carrega informação necessária ao acompanhamento da criança e a futuras gestações; é a Caderneta que faz a maternidade saber o que o pré-natal descobriu e o serviço especializado saber o que a maternidade fez. Terceira, e é a que vira pegadinha: o cuidado com o sigilo. O protocolo manda atentar para as anotações feitas na carteira do recém-nascido que remetam à exposição ao HIV, porque é documento manuseado pela família e por vezes exigido no trabalho dos pais, para salário-família e matrícula em creche. Registrar na Caderneta da gestante, sim; carimbar a exposição na caderneta da criança, não.
Por fim, o registro de alta do recém-nascido tem conteúdo mínimo definido, e ele é uma lista de números: informações do pré-natal, condições do nascimento, tempo de uso da zidovudina injetável na mãe, momento do início da profilaxia no recém-nascido, dose, periodicidade e data de término, medidas antropométricas e tipo de alimento fornecido à criança. Tudo isso é disponibilizado ao serviço especializado e à unidade básica que farão o seguimento.
Régua da cascata: a carga viral, a semana e o número de drogas
Três perguntas resolvem quase qualquer questão do tema, sempre nesta ordem: qual é a carga viral e em que semana ela foi colhida? A gestante já vinha em tratamento ou está iniciando? E, no fim da cascata, quantos antirretroviais o recém-nascido recebe? O que segue é o caminho pronto para percorrer em prova, do primeiro elo ao último.
- 1Confira primeiro se a testagem foi feita nos três momentos. Primeira consulta, início do terceiro trimestre e momento do parto — este último independentemente de exames anteriores. Se a vinheta diz que a gestante testou negativo no primeiro trimestre e não repetiu, a falha já está no enunciado.
- 2Diante de teste rápido reagente, colha carga viral imediatamente e antes do primeiro comprimido. Colha também a genotipagem pré-tratamento. E não espere nenhum dos dois para iniciar a terapia.
- 3Encaminhe ao pré-natal de alto risco. Toda gestante vivendo com HIV vai para o alto risco, mantendo vínculo com a atenção básica. Com LT-CD4+ igual ou inferior a 350 células/mm³, sinais de aids ou infecção oportunista, vai para serviço especializado.
- 4Prescreva a terapia sem procurar critério para não prescrever. É para toda gestante, independentemente de clínica e de imunologia, e não se suspende após o parto. Esquema: tenofovir 300 mg + lamivudina 300 mg + dolutegravir 50 mg, em qualquer idade gestacional.
- 5Se ela já vinha em terapia com carga viral abaixo de 50 cópias/mL, mantenha o esquema. Inclusive se contiver dolutegravir. Trocar produz escape viral, e escape viral aumenta a transmissão vertical.
- 6Se ela já vinha em terapia com carga viral detectável, siga a ordem: adesão, interação medicamentosa, genotipagem. Em gestante, uma única carga viral acima de 500 cópias/mL já autoriza a genotipagem.
- 7Depois de iniciar ou modificar, recolha a carga viral em duas a quatro semanas e cobre queda de pelo menos 1 log₁₀. Um log é dez vezes, não dez unidades. Divida um valor pelo outro antes de julgar a resposta.
- 8Colha a carga viral que decide o parto a partir da 34ª semana. É essa, e só essa, que classifica a via de parto e o uso das profilaxias. Entre a 34ª e a 38ª semana há quatro semanas de janela para o resultado chegar.
- 9Aplique a régua de 1.000 cópias/mL. Desconhecida ou acima de 1.000: cesárea eletiva a partir da 38ª semana. Detectável abaixo de 1.000: parto obstétrico, pode ser vaginal. Indetectável: parto obstétrico, preferencialmente vaginal.
- 10Decida a zidovudina venosa por um critério mais largo que o da via de parto. Recebe quem tem carga viral desconhecida, quem tem carga viral detectável em qualquer valor, e quem tem histórico de má adesão mesmo com carga indetectável. Não recebe quem está indetectável com boa adesão.
- 11Ligue a infusão na hora certa. No parto vaginal, desde o início do trabalho de parto até o clampeamento. Na cesárea eletiva, começando com pelo menos três horas de antecedência. Se ela entrar em trabalho de parto antes da data e chegar com menos de 4 cm, mantenha a cesárea e inicie o AZT já.
- 12Calcule a dose sem decorar a tabela. Ataque de 2 mg/kg na primeira hora e manutenção de 1 mg/kg/h, com o frasco a 10 mg/mL, diluído em 100 mL de soro glicosado a 5%. Divida os miligramas por 10 para achar os mililitros.
- 13Subtraia procedimentos no parto. Sem amniocentese, sem cordocentese, sem amniotomia precoce, sem monitorização invasiva, sem ordenha de cordão. Fórceps só com indicação precisa e preferível ao vácuo. Episiotomia só após avaliação, e protegida por compressa com degermante.
- 14Cronometre a bolsa rota. A transmissão sobe progressivamente depois de 4 horas. Diante de previsão de parto demorado ou distócico, considere a cesariana mesmo com carga viral abaixo de 1.000 cópias/mL.
- 15No nascimento: parto empelicado quando possível, clampeamento imediato, banho com água corrente, aspiração delicada, lavagem gástrica com soro fisiológico se houver sangue, e o bebê junto à mãe o quanto antes.
- 16Classifique o recém-nascido em baixo ou alto risco antes de prescrever. Baixo risco exige as três condições juntas: terapia na gestação, carga viral indetectável a partir da 28ª semana e nenhuma falha de adesão. Falhou uma, é alto risco.
- 17Prescreva pelo risco e corrija pela prematuridade. Baixo risco: zidovudina isolada. Alto risco com 37 semanas ou mais: zidovudina + lamivudina + raltegravir. Alto risco entre 34 e 37 semanas ou peso abaixo de 2 kg: troque o raltegravir por nevirapina. Abaixo de 34 semanas: zidovudina isolada, mesmo no alto risco.
- 18Comece em até 4 horas de vida e mantenha por 4 semanas em todos os cenários. Depois de 48 horas, a indicação deixa de ser automática e passa a ser discutida caso a caso.
- 19Programe as quatro cargas virais da criança: nascimento, 14 dias, 6 semanas e 12 semanas. As duas últimas contam a partir do fim da profilaxia, não da idade. A primeira é por punção periférica, nunca de cordão.
- 20Corte o aleitamento sempre, inclusive com carga viral indetectável. Cabergolina 1 mg em dose única antes da alta, fórmula láctea garantida até 6 meses, e nada de aleitamento misto, cruzado ou leite com pasteurização caseira.
- 21Se o enunciado citar a Organização Mundial da Saúde para justificar amamentação, ele está citando régua de outro cenário. No Brasil a contraindicação é absoluta.
A régua de 1.000 cópias na 34ª semana
Um só número classifica a gestante em três faixas e resolve três decisões de uma vez: via de parto, zidovudina venosa e esquema do recém-nascido. Repare que os limiares não coincidem — a via de parto muda em 1.000 cópias/mL, mas a zidovudina venosa muda em 'detectável', que é qualquer valor acima de 50. É por isso que existe uma faixa em que se faz parto vaginal e ainda assim se liga a infusão.
A conta do AZT venoso, feita uma vez
Frasco de 10 mg/mL, diluição em 100 mL de soro glicosado a 5%. Ataque de 2 mg/kg na primeira hora, manutenção de 1 mg/kg por hora até o clampeamento. Divida os miligramas por 10 e você tem os mililitros; some 100 e você tem o volume da hora. A tabela do protocolo é só esta conta repetida de 40 a 90 kg, com equipo de 20 gotas por mililitro.
O recém-nascido: risco decide o número, prematuridade decide qual
Duas perguntas em sequência. Primeira: é baixo ou alto risco? Baixo risco exige as três condições juntas — terapia na gestação, carga viral indetectável a partir da 28ª semana e adesão sem falhas. Segunda: quantas semanas tem o bebê? A prematuridade retira medicamentos, nunca acrescenta. Abaixo de 34 semanas, é zidovudina isolada mesmo no alto risco.
A cascata inteira, elo a elo
| Elo | Quando | O que se faz | Número que a prova cobra |
|---|---|---|---|
| Testagem | 1ª consulta, início do 3º trimestre e no parto | Teste rápido é preferencial; testar no parto independentemente de exames anteriores | 3 momentos fixos; 28ª semana no 3º trimestre |
| Carga viral inicial | Imediatamente ao diagnóstico, antes do 1º comprimido | Estabelecer a viremia e afastar falso-reagente | Antes da TARV, sempre |
| TARV | Assim que possível, em qualquer idade gestacional | Tenofovir 300 mg + lamivudina 300 mg + dolutegravir 50 mg | Para todas; não suspender no pós-parto |
| Carga viral de resposta | 2 a 4 semanas após iniciar ou modificar | Verificar queda de pelo menos 1 log₁₀ | 1 log = 10 vezes |
| Carga viral decisória | A partir da 34ª semana | Classificar em três faixas | Limiar de 1.000 cópias/mL |
| Via de parto | Cesárea eletiva a partir da 38ª semana, se indicada | Cesárea só se CV desconhecida ou acima de 1.000 | 38 semanas; 4 cm de dilatação como limite |
| AZT intraparto | Do início do trabalho de parto ou 3 h antes da cesárea | Ataque 2 mg/kg na 1ª hora, manutenção 1 mg/kg/h até clampear | 3 horas de antecedência mínima |
| Recém-nascido | Sala de parto ou até 4 h de vida | AZT isolado no baixo risco; AZT + 3TC + raltegravir no alto risco | 4 semanas de duração |
| Aleitamento | Imediatamente após o parto | Contraindicado; cabergolina 1 mg dose única; fórmula até 6 meses | 1 mg de cabergolina; 6 meses de fórmula |
| Seguimento da criança | Nascimento, 14 dias, 6 e 12 semanas | Cargas virais; sorologia só a partir dos 12 a 18 meses | 2ª CV igual ou acima de 100 cópias/mL fecha o diagnóstico |
Via de parto e zidovudina venosa pela carga viral da 34ª semana
| Carga viral a partir da 34ª semana | Via de parto | AZT venoso no parto | Risco do recém-nascido |
|---|---|---|---|
| Desconhecida | Cesárea eletiva a partir da 38ª semana, empelicada | Sim — iniciar pelo menos 3 h antes da incisão | Alto risco |
| Acima de 1.000 cópias/mL | Cesárea eletiva a partir da 38ª semana, empelicada | Sim — iniciar pelo menos 3 h antes da incisão | Alto risco |
| Detectável, porém abaixo de 1.000 cópias/mL | Segundo indicação obstétrica; pode ser vaginal | Sim — do início do trabalho de parto até o clampeamento | Alto risco |
| Indetectável (abaixo de 50 cópias/mL), boa adesão | Segundo indicação obstétrica, preferencialmente vaginal | Não — manter TARV oral nos horários habituais | Baixo risco |
| Indetectável, mas com histórico de má adesão | Segundo indicação obstétrica | Sim, a critério clínico — a dispensa é da regra, não do julgamento | Alto risco |
| Cesárea eletiva indicada, mas entrou em trabalho de parto | Manter cesárea se a dilatação for menor que 4 cm | Iniciar imediatamente; operar após 3 h de infusão, se possível | Conforme a carga viral |
Profilaxia do recém-nascido exposto — PCDT de HIV em Crianças e Adolescentes, 2024
| Risco | Idade gestacional ao nascer | Esquema | Posologia | Duração |
|---|---|---|---|---|
| Baixo (TARV na gestação E CV indetectável a partir da 28ª semana E sem falha de adesão) | 35 semanas ou mais | Zidovudina isolada | 4 mg/kg/dose de 12/12h | 4 semanas |
| Baixo | 30 a 35 semanas | Zidovudina isolada | 2 mg/kg/dose de 12/12h por 14 dias, depois 3 mg/kg/dose de 12/12h | 4 semanas |
| Baixo | Menos de 30 semanas | Zidovudina isolada | 2 mg/kg/dose de 12/12h | 4 semanas |
| Alto (qualquer uma das nove situações do protocolo) | 37 semanas ou mais | Zidovudina + lamivudina + raltegravir | AZT 4 mg/kg 12/12h; 3TC 2 mg/kg 12/12h; RAL 1,5 mg/kg 1×/dia na 1ª semana e 3 mg/kg 12/12h da 2ª à 4ª | 4 semanas |
| Alto | 34 a 37 semanas, ou peso abaixo de 2 kg | Zidovudina + lamivudina + nevirapina | AZT conforme a IG; 3TC 2 mg/kg 12/12h; NVP 4 mg/kg 12/12h na 1ª semana e 6 mg/kg 12/12h da 2ª à 4ª | 4 semanas |
| Alto | Menos de 34 semanas | Zidovudina isolada | 2 mg/kg/dose de 12/12h | 4 semanas |
| Qualquer | Sem condição de via oral | AZT injetável | 75% da dose oral, no mesmo intervalo; 3TC e RAL não têm injetável — avaliar sonda nasoenteral | 4 semanas |
Antirretrovirais na gestante: o que se usa, o que se troca, o que não entra
| Situação | Conduta | Fonte que governa |
|---|---|---|
| Gestante virgem de tratamento, qualquer idade gestacional | Tenofovir 300 mg + lamivudina 300 mg + dolutegravir 50 mg | Nota Informativa nº 1/2022, item II.2 |
| Contraindicação ao dolutegravir | Raltegravir 400 mg 12/12h (trocar para DTG após o parto); depois ATV 300 + RTV 100/dia; depois DRV 600 + RTV 100 12/12h | Nota Informativa nº 1/2022, item II.2 |
| Contraindicação a todos os alternativos | Efavirenz 600 mg/dia, condicionado à sensibilidade na genotipagem pré-tratamento | Nota Informativa nº 1/2022, item II.2 |
| Contraindicação ao tenofovir | Zidovudina + lamivudina; se também contraindicada, abacavir + lamivudina com HLA-B*5701 negativo | PCDT-TV 2020, p. 71 |
| Já em TARV com CV abaixo de 50 cópias/mL | Manter o mesmo esquema, inclusive se contiver dolutegravir | Nota Informativa nº 1/2022, item II.3 |
| Já em TARV com CV detectável | Reforçar adesão, avaliar interação, genotipar se CV acima de 500 cópias/mL, ajustar | Nota Informativa nº 1/2022, item II.3 |
| Abandono de TARV | Reiniciar com 2 ITRN + darunavir 600 mg/ritonavir 100 mg 12/12h; se após 28 semanas, considerar dolutegravir pela supressão mais rápida; nova CV em 4 a 6 semanas | Nota Informativa nº 1/2022, item II.4 |
| Coinfecção com hepatite B | O esquema deve conter tenofovir, e ele é mantido mesmo em troca por falha do HIV | PCDT-TV 2020, p. 92-93 |
| Contraindicações nomeadas ao dolutegravir | Oxcarbazepina, dofetilida, pilsicainida; reação adversa ou intolerância | PCDT-TV 2020, p. 62 |
| Darunavir 800 mg | Não usar na gestação — nível sérico cai a partir do 2º trimestre; usar 600 mg + ritonavir 100 mg 12/12h | Nota Informativa nº 1/2022, item I |
| Terapia dupla / simplificação de esquema | Não há dados suficientes na gestação — não simplificar | Nota Informativa nº 1/2022, item I |
| Hepatite C na gestação | Tratamento contraindicado; evitar gravidez durante o tratamento e por 6 meses após | PCDT-TV 2020, p. 93 |
Contradição de dose dentro do mesmo protocolo, com fator de 12,5. No PCDT-TV de 2020, as notas de rodapé das Figuras 4 e 5 (p. 64 e 67) mandam 'associar ácido fólico na dose de 5 mg/dia até 12 semanas de IG'; a nota de rodapé da Figura 6 (p. 70), no mesmo capítulo, manda 'ácido fólico na dose de 400 microgramas/dia até 12 semanas de IG'. Cinco miligramas são 5.000 microgramas — doze vezes e meia a outra dose. O texto corrido do próprio documento desempata e é explícito ao fazê-lo: na abordagem nutricional da gestante vivendo com HIV (p. 58) lê-se 'suplementação do ácido fólico na dose correta, 400 microgramas/dia (0,4 mg/dia), iniciando 1 mês antes da concepção e manter até a 12ª semana de gestação'. Adote 400 µg/dia. Viver com HIV não é, por si, gatilho para a dose alta de ácido fólico — os gatilhos nomeados estão no capítulo 'Suplementação e vacinação na gestação'.
Valor sem categoria na régua da via de parto. O PCDT-TV escreve 'CV desconhecida ou maior que 1.000 cópias/mL' para indicar a cesárea e 'menor que 1.000 cópias/ml' para indicar o parto vaginal. O valor exatamente 1.000 cópias/mL não é alcançado por nenhuma das duas frases. A leitura segura é tratá-lo como faixa alta, mas o vão é da fonte e não do leitor.
Figura que contradiz o texto que a acompanha. A Figura 7 do PCDT-TV (p. 100) abre o primeiro ramo com 'gestante com CV desconhecida ou detectável na 34ª semana' e conclui por cesárea eletiva; o ramo seguinte, 'CV detectável, porém menor que 1.000 cópias/mL', conclui por parto obstétrico. Lido literalmente, o primeiro ramo engoliria o segundo, porque toda carga viral abaixo de 1.000 e acima de 50 também é detectável. O texto corrido da mesma página resolve: o primeiro ramo significa acima de 1.000 cópias/mL. Responda pelo texto.
Operadores inconsistentes entre duas seções do mesmo documento. Na seção da via de parto (p. 98), o AZT injetável deve ser administrado 'ou pelo menos 3 (três) horas antes da cesariana eletiva'; na seção da terapia intraparto (p. 102), quatro páginas adiante, o mesmo ato aparece como 'ou até 3 (três) horas antes da cesariana eletiva'. 'Pelo menos' e 'até' são operadores opostos. A leitura que preserva a finalidade da profilaxia é a primeira — a infusão começa com três horas ou mais de antecedência. Este capítulo adota 'pelo menos'.
Janela de reavaliação escrita de dois modos. O texto corrido do PCDT-TV (p. 45-46) manda repetir a carga viral 'quatro semanas após a introdução ou mudança da TARV'; o Quadro 10 (p. 48), do mesmo documento, diz 'duas a quatro semanas após introdução/modificação'. A Nota Informativa nº 1/2022 acrescenta uma terceira redação para o caso do abandono: 'após quatro a seis semanas de uso efetivo'. As três convivem sem se anularem, mas a faixa de 2 a 4 semanas é a operacional e a mais cobrada.
Faixas de idade gestacional que se sobrepõem no quadro do recém-nascido. Tanto o Quadro 20 do PCDT-TV quanto o Quadro 5 do PCDT de Crianças e Adolescentes de 2024 escrevem as posologias da zidovudina como '35 semanas ou mais', 'entre 30 e 35 semanas' e 'menos de 30 semanas'. Um recém-nascido com exatamente 35 semanas cai nas duas primeiras faixas ao mesmo tempo. O mesmo ocorre com a nevirapina, tabelada como '34 a 37 semanas' e '37 semanas ou mais'. A leitura consistente com o resto do quadro é tratar o limite superior de cada faixa como exclusivo — 35 semanas exatas usam 4 mg/kg/dose.
Percentual sem denominador declarado. A Nota Informativa nº 1/2022 informa que a vigilância brasileira acompanhou 1.427 mulheres entre janeiro de 2017 e maio de 2018, sem nenhum caso de defeito do tubo neural. Em seguida, reestima o período até 28 de fevereiro de 2019 incluindo dois casos notificados depois, e apresenta 0,18% com intervalo de confiança de 95% entre 0,05 e 0,67 — sem informar o número de mulheres desse período estendido. Recuperando o denominador pela própria proporção, dois casos em 0,18% correspondem a cerca de 1.100 gestações expostas. O valor é verificável, o denominador é que não está impresso.
Duas estimativas de eficácia que não coincidem exatamente. O PCDT-TV diz que a terapia antirretroviral reduz a transmissão vertical 'de aproximadamente 30% para menos de 1%' quando se alcança supressão plasmática abaixo de 50 cópias/mL próxima ao parto (p. 59). Duas dezenas de páginas antes (p. 23), diz que 'com intervenções realizadas adequadamente durante o pré-natal, o parto e a amamentação, o risco é reduzido a menos de 2%', partindo de 15% a 45%. A cascata completa aparece, portanto, com resíduo maior que o da terapia isolada. As duas frases vêm de literaturas diferentes e nenhuma anula a outra; use 'menos de 1%' quando o enunciado falar em supressão viral e 'menos de 2%' quando falar na cascata inteira.
Reduções absolutas, calculadas. Partindo de 15% a 45% e chegando a menos de 2%, a cascata completa evita entre 13 e 43 pontos percentuais de transmissão — o que corresponde a uma infecção evitada a cada 2,3 a 7,7 gestações que a percorrem por inteiro. Pela outra estimativa do protocolo, de cerca de 30% para menos de 1%, são cerca de 29 pontos percentuais evitados, ou uma infecção a menos a cada 3,4 gestações. É um dos números mais favoráveis da obstetrícia, e explica por que cada elo tem regra escrita.
A tabela de gotejamento do AZT confere, e a conta é reprodutível. Com frasco de 10 mg/mL, diluição em 100 mL de soro glicosado a 5% e equipo de 20 gotas por mililitro, os seis pesos tabelados no PCDT-TV fecham exatamente: 40 kg no ataque dá 8 mL, volume total de 108 mL na hora, 36 gotas por minuto; 90 kg dá 18 mL, 118 mL na hora, 39 gotas por minuto. Na manutenção, 40 kg dá 4 mL, 104 mL na hora, 35 gotas; 90 kg dá 9 mL, 109 mL na hora, 36 gotas. Nenhum valor da tabela está fora da conta — o que permite calcular qualquer peso que a vinheta apresentar sem consultar a tabela.
O teto de concentração quase nunca aperta. O protocolo determina que a concentração do AZT não exceda 4 mg/mL. Na maior dose tabelada — 90 kg, 180 mg diluídos em 118 mL —, a concentração resultante é de cerca de 1,5 mg/mL, e no exemplo de 70 kg fica em cerca de 1,2 mg/mL. O limite só passa a importar se a diluição for feita em volume muito menor que os 100 mL previstos, o que não é o esquema padrão.
Duração da profilaxia neonatal e o calendário que dela decorre. A profilaxia dura 4 semanas, ou 28 dias, em todos os cenários. As duas últimas cargas virais da criança são datadas a partir do fim da profilaxia: 'duas semanas após o término' cai nas 6 semanas de vida e 'oito semanas após o término' cai nas 12 semanas — as duas somas fecham com a duração declarada. No esquema antigo, com nevirapina em três doses, a primeira ia até 48 h de vida, a segunda 48 h depois e a terceira 96 h depois da segunda, de modo que as três se distribuíam por 144 horas, ou 6 dias, a partir da primeira.
Um vão no calendário de acompanhamento clínico. O PCDT-TV determina acompanhamento 'mensal nos primeiros seis meses e, no mínimo, bimestral a partir do 1º ano de vida'. O intervalo entre 6 e 12 meses não recebe periodicidade em nenhuma das duas frases. A leitura segura é manter, no mínimo, o ritmo bimestral já a partir do sétimo mês; o detalhamento está no PCDT de HIV em Crianças e Adolescentes.
Contradição interna no capítulo de HIV do Manual de Gestação de Alto Risco de 2022. O texto do item 24.4 (p. 274) apresenta, para o primeiro trimestre até 12 semanas, 'o esquema associando os inibidores da transcriptase reversa nucleosídicos tenofovir+lamivudina associado ao inibidor da integrase dolutegravir', com as doses; o Quadro 1, na página seguinte, traz o mesmo esquema com a consideração 'Iniciar DTG após 12 semanas de gestação'. Texto e tabela do mesmo capítulo dizem o oposto sobre a mesma semana. Quem desempata é a Nota Informativa nº 1/2022, citada pelo próprio manual duas páginas adiante: dolutegravir liberado em qualquer idade gestacional.
Um número do PCDT-TV que é de outro vírus. Na página 16, ao tratar do HTLV, o protocolo afirma que 'o aleitamento materno é a principal via de transmissão vertical, ocorrendo em 20% a 30% dos lactentes amamentados por mães infectadas'. Essa faixa é do HTLV, não do HIV, e aparece num documento cujo título e cuja maior parte tratam do HIV. Não a transporte para o HIV — para o HIV, as faixas do mesmo documento são as de 15% a 45% sem intervenção e menos de 1% a 2% com a cascata.
Definição de detectável e indetectável, com a sobreposição resolvida pela própria fonte. O PCDT de Crianças e Adolescentes de 2024 define, para efeito de suas recomendações, carga viral indetectável como resultado inferior a 50 cópias e detectável como resultado igual ou superior a 50 cópias — e depois acrescenta que 'resultados de carga viral detectáveis e inferiores a 50 cópias/mL não representam, por si só, falha virológica ou alto risco de transmissão vertical' e devem ser manejados como indetectáveis. A redundância é aparente: a primeira definição é operacional, para classificar risco, e a segunda cuida do laudo que traz a palavra 'detectável' com valor abaixo de 50.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Não, só a partir da 13ª semana — PCDT-TV de 2020, que segue sendo o PCDT-TV vigente
O protocolo diz que 'o DTG não é recomendado para início de terapia no primeiro trimestre de gestação' e organiza o esquema por trimestre: no primeiro, tenofovir + lamivudina + efavirenz se a genotipagem mostrar sensibilidade, ou tenofovir + lamivudina + atazanavir/ritonavir se a genotipagem não estiver disponível ou mostrar resistência a inibidores não nucleosídeos; a partir da 13ª semana, tenofovir + lamivudina + dolutegravir. O Quadro 13 repete: 'Iniciar DTG após 12 semanas de gestação. Contraindicado no primeiro trimestre'.
BRASIL. Ministério da Saúde. PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais, 2020, p. 61-63 e Quadro 13, p. 68.
Sim, em qualquer idade gestacional — Nota Informativa nº 1/2022, posterior e vigente
A nota do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, publicada em 26 de janeiro de 2022, tem por objeto exatamente 'as recomendações do uso de dolutegravir em gestantes independentemente da idade gestacional'. O item II.2 lista, para gestante em início de tratamento independentemente da idade gestacional, dolutegravir 50 mg como terceiro antirretroviral preferencial. O PCDT de HIV em Adultos de 2024 vai na mesma direção ao afirmar que a recomendação não se diferencia pelo desejo ou possibilidade de engravidar e que tenofovir/lamivudina + dolutegravir é a preferencial.
BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Informativa nº 1/2022-CGIST/.DCCI/SVS/MS, itens I e II.2; e PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo I, 2024, p. 42-43.
Na prova
Responda dolutegravir em qualquer idade gestacional. A norma mais recente do mesmo órgão prevalece sobre o protocolo não reimpresso, e é assim que as bancas vêm cobrando. Guarde, porém, a razão da mudança, porque ela também cai: o alerta de 2018 da Organização Mundial da Saúde sobre defeito do tubo neural não se confirmou — a vigilância brasileira de 1.427 mulheres não achou nenhum caso, a reestimativa posterior com dois casos notificados ficou em 0,18%, e a atualização do estudo Tsepamo não mostrou diferença estatisticamente significativa. Se, ainda assim, o enunciado disser explicitamente 'segundo o PCDT de Transmissão Vertical', a resposta esperada pode ser a antiga.
Zidovudina com nevirapina em três doses — PCDT-TV de 2020
O Quadro 20 do PCDT-TV manda acrescentar nevirapina ao AZT quando a mãe tiver carga viral acima de 1.000 cópias/mL no último trimestre ou carga viral desconhecida, entre outros cenários. A posologia é por peso de nascimento — 12 mg por dose acima de 2 kg, 8 mg entre 1,5 e 2 kg, não usar abaixo de 1,5 kg — e o calendário é de três doses: a primeira até 48 h de vida, a segunda 48 h depois e a terceira 96 h após a segunda.
BRASIL. Ministério da Saúde. PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais, 2020, Quadro 20, p. 109-110.
Zidovudina + lamivudina + raltegravir por 28 dias — PCDT de HIV em Crianças e Adolescentes de 2024
O Quadro 5 do protocolo de 2024 substitui a lógica: classifica em baixo e alto risco, dá zidovudina isolada no baixo risco e profilaxia combinada com zidovudina, lamivudina e raltegravir granulado 100 mg no alto risco, por 28 dias, justificando com estudos que apontam maior eficácia dos esquemas combinados. A nevirapina passa a ocupar o lugar do raltegravir apenas entre 34 e 37 semanas ou com peso abaixo de 2 kg, e abaixo de 34 semanas a profilaxia é zidovudina isolada mesmo no alto risco.
BRASIL. Ministério da Saúde. PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo I, 2024, seção 4.2 e Quadro 5.
Na prova
Responda pelo protocolo de 2024 — é o documento específico da criança exposta, é o mais recente e é o que descreve o esquema de três medicamentos. Reconheça o esquema antigo quando aparecer: se a alternativa oferece 'AZT mais nevirapina em três doses', ela está reproduzindo o PCDT-TV de 2020. E note o que não mudou entre os dois documentos e por isso é resposta segura em qualquer redação: início até 4 horas de vida, duração de 4 semanas e zidovudina para todo recém-nascido exposto.
Nunca — Brasil
A amamentação é contraindicada para toda pessoa vivendo com HIV, e o protocolo de 2024 fecha a brecha ao acrescentar 'mesmo quando estáveis, em uso regular de Tarv e com carga viral do HIV indetectável'. A justificativa declarada é que o antirretroviral não controla a eliminação do vírus pelo leite. A conduta vem completa: inibição farmacológica da lactação com cabergolina 1 mg em dose única, fórmula láctea garantida à criança exposta pelo menos até os 6 meses, e proibição de aleitamento misto, cruzado e de leite humano com pasteurização domiciliar.
BRASIL. Ministério da Saúde. PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical, 2020, p. 113-115; e PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo I, 2024, seções 3 e 3.2.
Amamentar por pelo menos 12 meses — Organização Mundial da Saúde, 2016
A diretriz da Organização Mundial da Saúde recomenda que mães vivendo com HIV amamentem por pelo menos 12 meses, podendo continuar até 24 meses ou mais, com recomendação forte e evidência de qualidade baixa para os 12 meses e muito baixa para os 24. A recomendação vale para cenários em que os serviços promovem e apoiam terapia antirretroviral contínua com aconselhamento de adesão — e onde a alimentação de substituição não é comprovadamente segura, situação em que o risco competitivo de diarreia e desnutrição supera o de aquisição do HIV.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guideline: updates on HIV and infant feeding — the duration of breastfeeding, and support from health services to improve feeding practices among mothers living with HIV. Genebra, 2016, recomendação 1.
Decisão compartilhada — diretrizes perinatais norte-americanas, revisão de 2023
As diretrizes dos Estados Unidos mantêm fórmula e leite humano de banco como as opções que eliminam o risco de transmissão pelo leite, mas passaram a apoiar decisão compartilhada com quem preenche critérios clínicos de supressão virológica sustentada, em ruptura com a proibição categórica anterior. A literatura que acompanha a mudança reproduz taxas de transmissão pelo aleitamento abaixo de 1% sob supressão sustentada, com metanálise de 2025 apontando risco que se aproxima de zero, de 0,2% ou menos.
ANDERSON, P. M.; BACHMANN, M.; GROSS, M. S. Unlearning prohibition: the de-implementation of HIV breastfeeding restrictions in the United States. Frontiers in Reproductive Health, 2026, DOI 10.3389/frph.2026.1869376; e IKERI, K. et al. Open Forum Infectious Diseases, 2025, 12(10):ofaf607.
Na prova
Em prova brasileira, responda sempre pela contraindicação absoluta — inclusive com carga viral indetectável, e essa é justamente a versão que a banca escolhe. O que a divergência ensina é o porquê: as três posições não discordam sobre o vírus, discordam sobre o cenário. Onde a alimentação de substituição não é aceitável, factível, acessível, sustentável e segura, o risco competitivo muda o cálculo. No Brasil há água tratada, fórmula garantida por norma à criança exposta e rede de bancos de leite — e por isso a régua nacional não acompanha nem a da Organização Mundial da Saúde nem a norte-americana. Se o enunciado citar a OMS para justificar amamentação em vinheta brasileira, ele está usando a régua do cenário errado.
Duas a quatro semanas — Quadro 10 do PCDT-TV, e a Nota Informativa para o abandono
O quadro operacional do protocolo diz que, para gestantes em início de tratamento ou modificação, uma segunda amostra deve ser solicitada 2 a 4 semanas após, avaliando queda de pelo menos 1 log. Para a gestante em abandono que reinicia, a Nota Informativa nº 1/2022 estende o prazo: nova carga viral após quatro a seis semanas de uso efetivo.
PCDT-TV, 2020, Quadro 10, p. 48; Nota Informativa nº 1/2022, item II.4.
Quatro semanas — texto corrido do PCDT-TV; e a cada quatro semanas até negativar — Manual de Gestação de Alto Risco
O texto corrido do mesmo protocolo fixa 'quatro semanas após a introdução ou mudança da TARV'. O Manual de Gestação de Alto Risco de 2022 vai além e transforma o intervalo em rotina: repetir a carga viral a cada 4 semanas até a negativação e, depois disso, próximo ao parto, ao redor de 34 semanas — acrescentando que a última carga viral deve ser idealmente realizada até 4 a 5 semanas antes do parto.
PCDT-TV, 2020, p. 45-46; Manual de gestação de alto risco, 2022, p. 273.
Na prova
Nenhuma das redações anula a outra, e todas cabem dentro da mesma prática. Se o enunciado pedir o intervalo de reavaliação após início ou troca, responda 2 a 4 semanas — é o do quadro operacional e o mais cobrado. Se pedir o monitoramento da gestante que ainda não negativou, responda a cada 4 semanas até a negativação. E, em qualquer redação, a coleta que decide a via de parto é sempre a da 34ª semana.
400 microgramas por dia — texto do próprio PCDT-TV e Nota Informativa nº 1/2022
A seção de abordagem nutricional do PCDT-TV manda 'especial atenção à suplementação do ácido fólico na dose correta, 400 microgramas/dia (0,4 mg/dia), iniciando 1 mês antes da concepção e manter até a 12ª semana de gestação'. A Nota Informativa nº 1/2022 orienta que toda mulher em planejamento de engravidar use ácido fólico pelo menos 2 meses antes da gravidez e mantenha no primeiro trimestre, como método de prevenção do defeito do tubo neural. O PCDT de HIV em Adultos de 2024 escreve 'pelo menos dois meses antes da gravidez e nos dois primeiros meses da gestação'.
PCDT-TV, 2020, p. 58; Nota Informativa nº 1/2022, item II.1; PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo I, 2024, p. 43.
5 mg por dia — rodapé das Figuras 4 e 5 do mesmo PCDT-TV
As notas de rodapé de dois fluxogramas do capítulo de terapia antirretroviral mandam 'associar ácido fólico na dose de 5 mg/dia até 12 semanas de IG'. A nota de rodapé do terceiro fluxograma, três páginas adiante, manda 400 microgramas por dia. A diferença entre os dois números é de doze vezes e meia, e as três notas descrevem a mesma paciente.
PCDT-TV, 2020, rodapés das Figuras 4 (p. 64), 5 (p. 67) e 6 (p. 70).
Na prova
Adote 400 microgramas por dia. É o número que o texto corrido do próprio protocolo chama de 'dose correta', é o que a Nota Informativa repete e é o que a régua geral da suplementação na gestação já estabelece. Viver com HIV não é, por si, gatilho para a dose alta — os gatilhos nomeados são outros e estão no capítulo 'Suplementação e vacinação na gestação'. Repare, porém, na antecedência: as normas do HIV pedem pelo menos 2 meses antes da concepção, enquanto a régua geral da atenção básica pede 30 dias. Se a vinheta for de planejamento reprodutivo em mulher vivendo com HIV, os 2 meses são os do documento que governa o caso.
Caso resolvido
- leia a resposta ao tratamento antes de olhar o número final
- Da carga viral inicial de 62.000 para 3.400 cópias/mL houve queda de cerca de 18 vezes, o que corresponde a aproximadamente 1,26 log₁₀ — acima do mínimo de 1 log exigido na reavaliação de 2 a 4 semanas. A terapia respondeu. Isso importa para o julgamento de adesão que virá adiante: uma resposta virológica documentada é evidência objetiva a favor da adesão que ela relata.
- classifique pela carga viral da 34ª semana, e só por ela
- Quatrocentos e vinte cópias por mililitro é carga viral detectável e abaixo de 1.000. É a faixa do meio. Não é supressão — supressão seria abaixo de 50 cópias/mL —, mas também não é a faixa que indica cesárea. Nenhum outro exame desta vinheta muda essa classificação: nem o CD4 de 480, nem o peso, nem a paridade.
- defina a via de parto
- Via de parto obstétrica, e o parto vaginal está indicado se não houver contraindicação. O protocolo é explícito: abaixo de 1.000 cópias/mL a cesariana não é fator estatisticamente relevante para prevenção da transmissão vertical e passa a ser causa importante de morbidade nessa população, com mais complicações pós-operatórias e hospitalizações do que em mulheres soronegativas. Operar aqui é trocar um benefício inexistente por um dano real.
- não confunda a via de parto com a indicação do AZT venoso
- Os dois limiares são diferentes, e é neste passo que a maioria erra. A carga viral está detectável — qualquer valor acima de 50 conta —, logo ela recebe zidovudina venosa. Parto vaginal e zidovudina venosa convivem, e é exatamente esta a combinação que a faixa do meio produz. O serviço precisa estar avisado antes da admissão.
- prescreva a infusão com a conta feita
- Sessenta e oito quilos. Ataque de 2 mg/kg na primeira hora: 136 mg, que são 13,6 mL do frasco-ampola de 10 mg/mL, diluídos em 100 mL de soro glicosado a 5% — volume total de aproximadamente 114 mL na primeira hora, cerca de 38 gotas por minuto em equipo de 20 gotas por mililitro. Manutenção de 1 mg/kg por hora: 68 mg, ou 6,8 mL, em 100 mL, resultando em cerca de 107 mL/h e 36 gotas por minuto. Início ao chegar em trabalho de parto, manutenção até o clampeamento do cordão. A concentração resultante fica em torno de 1,2 mg/mL, muito abaixo do teto de 4 mg/mL.
- mantenha a terapia oral
- Tenofovir, lamivudina e dolutegravir seguem nos horários habituais, por via oral, com um pouco de água, inclusive durante o trabalho de parto. A zidovudina venosa se soma ao esquema, não o substitui. E a terapia não será suspensa após o parto, independentemente de CD4, de carga viral ou de sintomas.
- escreva o plano de parto com as subtrações
- Sem amniotomia artificial salvo necessidade extrema, sem procedimentos invasivos, sem toques repetidos, partograma obrigatório. Fórceps apenas com indicação obstétrica precisa e preferível ao vácuo-extrator. Episiotomia só após avaliação cautelosa e, se realizada, coberta por compressa umedecida com degermante, tarefa de um auxiliar. Bolsa rota cronometrada, porque a transmissão sobe progressivamente depois de 4 horas — diante de previsão de parto demorado ou distócico, a cesariana volta a ser considerada mesmo nesta faixa de carga viral. Clampeamento imediato e nunca ordenha do cordão.
- classifique o recém-nascido antes de ele nascer
- Baixo risco exige três condições simultâneas: terapia na gestação, carga viral indetectável a partir da 28ª semana e nenhuma falha de adesão. Ela cumpre a primeira e a terceira, mas não a segunda — a carga viral é detectável. Logo, alto risco. Sendo o parto a termo, com 37 semanas ou mais, a profilaxia é zidovudina + lamivudina + raltegravir granulado 100 mg, por 4 semanas, iniciada na sala de parto ou até 4 horas de vida. Deixe a prescrição pronta antes da admissão.
- programe os cuidados imediatos do recém-nascido
- Banho logo após o nascimento, preferencialmente com água corrente, limpando com compressa macia todo sangue e secreção visível, com delicadeza para não lesar a pele. Aspiração delicada das vias aéreas se necessária. Aspiração do conteúdo gástrico com sonda oral e, se houver sangue, lavagem gástrica com soro fisiológico. Bebê junto à mãe o mais brevemente possível, com alojamento conjunto em período integral. Carga viral do recém-nascido colhida por punção periférica, nunca de cordão, preferencialmente antes da primeira dose — mas sem atrasar o medicamento.
- responda à pergunta que ela fez
- Não poderá amamentar, e a resposta não muda se a carga viral chegar a indetectável antes do parto. O protocolo brasileiro de 2024 antecipa exatamente essa objeção: a amamentação é contraindicada mesmo em pessoas estáveis, em uso regular de terapia e com carga viral indetectável, porque o antirretroviral não controla a eliminação do vírus pelo leite. Estão contraindicados também o aleitamento misto, o aleitamento cruzado e o leite humano com pasteurização domiciliar. Permitido é o leite humano pasteurizado de banco credenciado.
- converta a resposta em conduta, ainda no pré-natal
- Esta conversa está acontecendo no momento certo — o protocolo considera tardia a orientação feita apenas após o parto, com resultados insatisfatórios. Programe agora: cabergolina 1 mg por via oral em dose única, ou seja, dois comprimidos de 0,5 mg juntos, imediatamente após o parto e antes da alta hospitalar, com o código do procedimento registrado na Autorização de Internação Hospitalar. Garanta a fórmula láctea, direito da criança exposta pelo menos até os 6 meses. Enfaixamento das mamas só se não houver cabergolina disponível, por dez dias, sabendo que a adesão é baixa e a efetividade questionável.
- feche o seguimento e o registro
- Cargas virais da criança ao nascimento, aos 14 dias, às 6 semanas e às 12 semanas — as duas últimas datadas a partir do fim das 4 semanas de profilaxia. Primeira consulta em serviço especializado agendada para até 15 dias de vida, idealmente na primeira semana. Notificação da criança exposta ao núcleo de vigilância. No resumo de alta, registre o tempo de uso da zidovudina injetável na mãe, o momento de início da profilaxia no recém-nascido, dose, periodicidade, data de término e o tipo de alimento fornecido. A Caderneta da Gestante volta às mãos dela com todas as anotações da internação — e a carteira do recém-nascido não carimba a exposição, pelo sigilo.
- o que não fazer
- Não indique cesárea eletiva: 420 cópias/mL está abaixo do limiar de 1.000. Não dispense a zidovudina venosa porque o parto será vaginal: a indicação é 'detectável', não 'acima de 1.000'. Não substitua a zidovudina injetável pelo comprimido, pela absorção errática. Não troque o dolutegravir, que está funcionando. Não exija paramentação especial para o parto. E não prometa amamentação condicionada à supressão viral.
Agora feche você
- pergunta 1
- Qual a conduta com o teste rápido reagente na admissão, e que exame precisa ser colhido antes de qualquer medicamento? Justifique pelo que o protocolo diz sobre resultados falso-reagentes em gestantes.
- pergunta 2
- A equipe deve indicar cesárea? Enquadre esta parturiente na régua da 34ª semana e diga por que ela cai onde cai.
- pergunta 3
- Ela recebe zidovudina venosa? Escreva o esquema completo para 74 kg — miligramas, mililitros, diluição, volume por hora e velocidade em gotas por minuto, nas duas fases.
- pergunta 4
- Classifique o recém-nascido em baixo ou alto risco, nomeando qual das nove situações do protocolo se aplica, e prescreva a profilaxia com esquema, posologia, momento de início e duração.
- pergunta 5
- Que orientação de alimentação do recém-nascido será dada, com que medicamento e em que dose, e qual é a principal limitação de fazer essa abordagem só agora, na maternidade?
- pergunta 6
- Além do HIV, o que mais precisa ser testado ou providenciado nesta admissão, e qual será o calendário de exames da criança até as 12 semanas de vida?
Onde a banca derruba
- 1Indicar cesárea porque a carga viral é 'detectável' É o erro central do tema e o mais frequente. Detectável e acima de 1.000 cópias/mL não são a mesma coisa. Uma gestante com 400 cópias/mL na 34ª semana tem carga viral detectável e mesmo assim faz parto vaginal, se não houver contraindicação obstétrica — o que ela ganha é a zidovudina venosa, não a cesárea. Abaixo de 1.000 cópias/mL, o próprio protocolo registra que a cesariana não é fator estatisticamente relevante para prevenção da transmissão e passa a ser causa importante de morbidade nessa população.
- 2Dispensar a zidovudina venosa porque o parto será vaginal As duas decisões têm limiares diferentes e por isso não andam juntas. A via de parto muda em 1.000 cópias/mL; a zidovudina venosa muda em 'detectável', qualquer valor. Existe, portanto, uma faixa inteira — detectável e abaixo de 1.000 — em que se faz parto vaginal e se liga a infusão do início do trabalho de parto até o clampeamento. A alternativa que amarra o AZT à cesárea está errada.
- 3Dar zidovudina venosa a toda gestante vivendo com HIV O erro simétrico do anterior. Não é necessário AZT venoso na gestante com carga viral indetectável após 34 semanas e em terapia com boa adesão — ela mantém a terapia oral nos horários habituais, inclusive no dia da cesárea programada. A ressalva que a prova esconde é que a dispensa não é absoluta: independentemente da carga viral, o médico pode eleger o uso do AZT intraparto se houver risco de má adesão. A dispensa é da regra, não do julgamento clínico.
- 4Ler '1 log' como uma unidade, um ponto percentual ou dez cópias A meta da reavaliação é queda de pelo menos 1 log₁₀, e um log é um fator de dez. Cem mil cópias caindo para dez mil é queda de exatamente 1 log e resposta adequada, ainda que o número absoluto pareça alto. Cinco mil caindo para três mil é menos de 0,3 log e é resposta insuficiente, ainda que a diferença de duas mil cópias impressione. Divida um valor pelo outro antes de decidir se houve resposta.
- 5Confundir a meta de 50 cópias com o limiar de 1.000 São dois números com funções diferentes. Abaixo de 50 cópias/mL é supressão — meta terapêutica, e o patamar em que o protocolo fala em transmissão menor que 1%. Abaixo de 1.000 cópias/mL é limiar operacional da via de parto, não meta. Ninguém trata uma gestante para chegar a 900 cópias; trata-se para chegar a menos de 50. Enunciado que apresenta 900 cópias como 'meta alcançada' está montando a armadilha.
- 6Trocar o esquema da gestante que engravidou usando dolutegravir O reflexo vem do alerta de 2018 sobre defeito do tubo neural, que foi revertido. A Nota Informativa nº 1/2022 recomenda cautela nas trocas, restringindo-as a situações excepcionais, e o argumento é de risco comparado: toda troca carrega risco de escape viral, e escape viral aumenta a transmissão vertical. Além disso, o tubo neural se fecha até a 8ª semana — depois disso, trocar não previne nada e só expõe ao rebote. Se a carga viral está abaixo de 50 cópias/mL e a adesão é boa, mantenha.
- 7Adiar o início da terapia até sair a genotipagem ou a confirmação sorológica Duas esperas erradas de uma vez. A genotipagem pré-tratamento é indicada para toda gestante que vai iniciar terapia, mas o protocolo diz expressamente que o tratamento não deve ser retardado pela espera do resultado — colhe-se a amostra antes do primeiro comprimido e começa-se. E a carga viral inicial, do mesmo modo, é colhida imediatamente e antes da terapia, não depois de confirmar o diagnóstico. O recurso escasso aqui é tempo até o parto.
- 8Condicionar a terapia antirretroviral à contagem de LT-CD4+ Não existe valor de CD4 que dispense a terapia na gestante. Ela está indicada para toda gestante vivendo com HIV, independentemente de critérios clínicos e imunológicos, e não é suspensa após o parto. O CD4 na gestação serve para outra coisa: decidir profilaxias de infecção oportunista — sulfametoxazol-trimetoprima abaixo de 200 células/mm³ e avaliação de infecção latente por tuberculose em 350 ou menos — e para definir onde a gestante será acompanhada.
- 9Manter nevirapina como a segunda droga do recém-nascido de alto risco a termo É a régua antiga. O PCDT-TV de 2020 ainda imprime zidovudina com ou sem nevirapina, mas o PCDT de HIV em Crianças e Adolescentes de 2024 reescreveu o esquema: alto risco a partir de 37 semanas recebe zidovudina + lamivudina + raltegravir granulado 100 mg. A nevirapina não sumiu, e ocupa dois lugares — é o terceiro medicamento entre 34 e 37 semanas ou com peso abaixo de 2 kg, exatamente onde o raltegravir é contraindicado, e permanece como alternativa ao raltegravir no alto risco a termo, na dose de 6 mg/kg/dose de 12 em 12 horas, quando o granulado não estiver disponível. O que mudou foi a preferência, não o elenco.
- 10Somar drogas ao recém-nascido muito prematuro porque o risco é alto A régua inverte o reflexo. Abaixo de 34 semanas, a profilaxia é zidovudina isolada, independentemente do risco de exposição — inclusive no alto risco. Entre 34 e 37 semanas, o raltegravir sai e entra nevirapina. Quanto mais prematuro, menos medicamentos, porque a segurança dos antirretrovirais nessa faixa não está estabelecida. A alternativa que dá três drogas a um prematuro de 31 semanas parece diligente e está errada.
- 11Achar que a carga viral indetectável libera a amamentação No Brasil, não. O PCDT de 2024 antecipa a objeção e a fecha com todas as letras: a amamentação é contraindicada por pessoas vivendo com HIV 'mesmo quando estáveis, em uso regular de Tarv e com carga viral do HIV indetectável'. O argumento declarado é farmacológico — o uso de antirretroviral não controla a eliminação do vírus pelo leite. Se o enunciado citar a Organização Mundial da Saúde para sustentar a amamentação, está citando régua desenhada para cenários em que a alimentação de substituição não é segura.
- 12Aceitar aleitamento misto, cruzado ou leite pasteurizado em casa A proibição tem quatro braços e a prova costuma testar os três periféricos. Estão contraindicados o aleitamento materno, o aleitamento misto — leite humano mais fórmula —, o aleitamento cruzado, que é a amamentação por outra nutriz, e o leite humano com pasteurização domiciliar. O que é permitido é o leite humano pasteurizado de banco de leite credenciado pelo Ministério da Saúde. E, se em algum momento do seguimento a prática de aleitamento for identificada, suspende-se e solicita-se carga viral para o recém-nascido.
- 13Deixar a conversa sobre não amamentar para depois do parto O protocolo classifica isso como conduta tardia, com resultados insatisfatórios, e diz que uma das intervenções mais efetivas é começar a orientação para o aleitamento artificial ainda durante o pré-natal. A vinheta que pergunta 'em que momento abordar a alimentação do recém-nascido' tem resposta única: no pré-natal, não na maternidade.
- 14Fazer sorologia para definir se a criança exposta se infectou Anticorpos maternos IgG atravessam a placenta e podem persistir até os 18 meses, e em casos raros até os 24. Por isso, em criança com 18 meses ou menos, o diagnóstico não se faz por detecção de anticorpos: usa-se carga viral ou DNA pró-viral. A sorologia só reentra no fim, para documentar a sororreversão aos 12 meses — e, se ainda reagente, aos 18 e depois aos 24.
- 15Colher a primeira carga viral do bebê no sangue de cordão O PCDT de Crianças e Adolescentes de 2024 é explícito: a coleta é por punção periférica e não se deve colher material de cordão umbilical, pelo risco de contaminação com sangue materno. Preferencialmente antes do início da profilaxia, porque os antirretrovirais reduzem a sensibilidade do exame. Mas a coleta não atrasa o medicamento: se for preciso escolher, o antirretroviral vem primeiro.
- 16Exigir paramentação especial para o parto O protocolo diz o contrário, e o diz de propósito: não há recomendação de paramentação específica no momento do parto de gestante vivendo com HIV. As precauções básicas e universais valem para todo indivíduo, independentemente de diagnóstico definido ou presumido. A alternativa que cria um ritual próprio para essa parturiente está transformando estigma em conduta.
- 17Proibir uterotônico por reflexo A lista de subtrações do parto é longa, e por isso o candidato tende a proibir tudo. Mas o uso de medicamentos que aumentam a atividade uterina não está contraindicado — ocitocina e misoprostol podem ser usados para induzir ou estimular, seguindo os padrões de segurança conhecidos. A restrição farmacológica real é outra e é específica: na hemorragia pós-parto, não usar derivado de ergotamina em quem faz uso de inibidor de protease, pelo risco de vasoconstrição exagerada e isquemia grave.
- 18Prescrever metoclopramida para a hiperêmese da gestante em TARV É o antiemético do reflexo e está contraindicado aqui, pelo maior risco de liberação extrapiramidal em associação com os antirretrovirais. E há um segundo cuidado, que é virológico: a hiperêmese altera a biodisponibilidade e pode levar à falha, de modo que se monitora a carga viral. Se a êmese impedir o uso regular da medicação, retira-se todo o esquema durante o período — nunca parte dele — e reintroduz-se após a melhora, para não expor o vírus a doses subterapêuticas.
- 19Trocar o AZT injetável do parto pelo comprimido O protocolo veta expressamente a substituição, e o motivo é farmacocinético: a absorção do AZT por via oral é errática, sem evidência que garanta nível sérico adequado no momento oportuno. Para a terapia habitual da gestante vale o oposto — os antirretrovirais de uso contínuo são mantidos por via oral, nos horários de sempre, com um pouco de água, mesmo em trabalho de parto ou no dia da cesárea.
- 20Anotar a exposição ao HIV na caderneta da criança O registro na Caderneta da Gestante é obrigatório e ela deve ser devolvida à puérpera com todas as anotações da internação para o parto. Já na carteira do recém-nascido, o protocolo manda atentar para anotações que remetam à exposição ao HIV, porque é documento manuseado pela família e por vezes exigido no trabalho dos pais, para salário-família e frequência à creche. Registrar o cuidado, sim; expor o diagnóstico da mãe num documento de circulação social, não.
Esta questão testa a inversão de reflexo do tema. A criança é claramente de alto risco — carga viral materna detectável e persistente no terceiro trimestre, mais uso irregular da terapia —, mas o esquema não é definido apenas pelo risco: a idade gestacional recorta a prescrição. Abaixo de 34 semanas, a profilaxia é zidovudina isolada, independentemente do risco de exposição, porque a segurança dos demais antirretrovirais não está estabelecida nessa faixa. Com 32 semanas, a posologia da zidovudina é a da faixa de 30 a 35 semanas: 2 mg/kg/dose de 12 em 12 horas nos primeiros 14 dias e 3 mg/kg/dose de 12 em 12 horas a partir do 15º dia, mantida por 4 semanas. O esquema de três drogas com raltegravir esbarra em dois vetos simultâneos: idade gestacional abaixo de 37 semanas e peso abaixo de 2 kg. A substituição por nevirapina resolveria o veto do raltegravir, mas só se aplica na faixa de 34 a 37 semanas, que não é a desta criança. A dose de 4 mg/kg é a do recém-nascido com 35 semanas ou mais. E deixar o bebê sem profilaxia contraria a regra que abre o tema: todo recém-nascido exposto ao HIV recebe antirretroviral.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Puérpera de 25 anos, vivendo com HIV, em uso regular de terapia antirretroviral, com carga viral indetectável em todas as coletas da gestação, incluindo a da 34ª semana, teve parto vaginal sem intercorrências. Manifesta forte desejo de amamentar e argumenta que sua carga viral está indetectável. Qual a conduta correta?
A régua brasileira é a contraindicação absoluta, e o protocolo de 2024 antecipa exatamente este argumento ao registrar que a amamentação é contraindicada 'mesmo quando estáveis, em uso regular de Tarv e com carga viral do HIV indetectável' — porque o antirretroviral não controla a eliminação do vírus pelo leite. A conduta completa é inibir a lactação com cabergolina 1 mg por via oral em dose única, isto é, dois comprimidos de 0,5 mg, administrada imediatamente após o parto e antes da alta hospitalar, e garantir a fórmula láctea, direito da criança exposta pelo menos até completar 6 meses. O aleitamento misto está explicitamente contraindicado, e não reduz risco algum. O aleitamento cruzado, que é a amamentação da criança por outra nutriz, é descrito como terminantemente contraindicado, assim como o leite humano com pasteurização domiciliar — o que se permite é o leite humano pasteurizado de banco de leite credenciado. E a recomendação da Organização Mundial da Saúde, de amamentar por pelo menos 12 meses, foi desenhada para cenários em que a alimentação de substituição não é comprovadamente segura, situação que não descreve a rede brasileira; citá-la em vinheta nacional é aplicar régua do cenário errado.
Criança de 3 meses, exposta ao HIV, nascida a termo, completou 4 semanas de profilaxia com zidovudina isolada, nunca foi amamentada e está assintomática, com bom desenvolvimento. Sobre a investigação diagnóstica dessa criança, assinale a alternativa correta.
O calendário de cargas virais tem quatro marcas, e as duas últimas contam a partir do fim da profilaxia: nascimento, 14 dias, duas semanas após o término — que, com 4 semanas de profilaxia, cai nas 6 semanas de vida — e oito semanas após o término, ou seja, nas 12 semanas. A exclusão definitiva do diagnóstico exige três critérios simultâneos: pelo menos duas cargas virais indetectáveis após a suspensão da profilaxia, boas condições clínicas e de desenvolvimento sem déficit imunológico, e documentação de sororreversão em imunoensaio aos 12 meses — repetido aos 18 e, se ainda reagente, aos 24. Sorologia aos 3 meses não afasta nada, porque anticorpos maternos IgG atravessam a placenta e podem persistir até os 18 meses, e em casos raros até os 24; por isso o diagnóstico em criança com 18 meses ou menos não se faz por detecção de anticorpos. Colher de cordão é expressamente vedado — a coleta é por punção periférica. E uma única carga viral detectável não fecha diagnóstico: ela dispara coleta imediata de DNA pró-viral, preferencialmente, ou de nova carga viral, e a transmissão só se confirma com DNA pró-viral detectável ou com segunda carga viral igual ou superior a 100 cópias/mL — embora o tratamento preemptivo já se inicie diante da primeira detecção, mantido até a definição diagnóstica.
Gestante de 28 anos, em acompanhamento no pré-natal de alto risco por infecção pelo HIV, faz uso regular de tenofovir, lamivudina e dolutegravir desde a 16ª semana. A carga viral colhida na 34ª semana é de 480 cópias/mL. Contagem de LT-CD4+ de 610 células/mm³. Não há intercorrências obstétricas e a apresentação é cefálica. Assinale a conduta correta quanto à via de parto e à profilaxia intraparto.
Quatrocentas e oitenta cópias por mililitro é carga viral detectável e abaixo de 1.000 — a faixa do meio da régua da 34ª semana. Abaixo de 1.000 cópias/mL, o protocolo registra que a cesariana não é fator estatisticamente relevante para prevenção da transmissão vertical e passa a ser causa importante de morbidade nessa população, de modo que a via de parto segue a indicação obstétrica e o parto vaginal está liberado. Por outro lado, a indicação da zidovudina venosa não usa o limiar de 1.000: usa 'detectável', em qualquer valor. Por isso as duas alternativas de cesárea erram — a primeira por operar sem indicação e a quarta ainda soma um segundo erro, pois a cesárea eletiva desse protocolo é a partir da 38ª semana, e não da 39ª, justamente para chegar antes do trabalho de parto e da rotura de membranas. A alternativa que dispensa a zidovudina venosa confunde os dois limiares: a dispensa vale para carga viral indetectável, isto é, abaixo de 50 cópias/mL, com boa adesão — e não é o caso. E substituir o injetável pelo comprimido é vetado expressamente, pela absorção errática do AZT por via oral, sem evidência que garanta nível sérico adequado no momento oportuno.
Mulher de 29 anos vivendo com HIV, em uso de tenofovir, lamivudina e dolutegravir há três anos, com carga viral indetectável nas últimas cinco coletas, descobre gestação de 7 semanas. Está assintomática e refere adesão sem falhas. Qual a conduta quanto à terapia antirretroviral?
A regra da mulher que engravida já em tratamento é conservadora: com carga viral abaixo de 50 cópias/mL e boa adesão, mantém-se o mesmo esquema, desde que não contenha medicamento contraindicado na gestação. O dolutegravir não é contraindicado — a Nota Informativa nº 1/2022 do Ministério da Saúde dispõe justamente sobre seu uso em gestantes independentemente da idade gestacional, depois de as evidências não confirmarem a associação com defeito do tubo neural que motivara a restrição de 2018. A troca para atazanavir com ritonavir reproduz a orientação anterior, hoje superada, e ainda carregaria o risco que o próprio Ministério da Saúde nomeia: toda troca de esquema pode produzir escape viral, e escape viral aumenta o risco de transmissão vertical. Trocar por efavirenz é duplamente errado — ele é a última opção da lista de alternativos e seu uso na gestação está condicionado à sensibilidade demonstrada na genotipagem pré-tratamento, dado que o monitoramento brasileiro encontrou 9% de resistência transmitida a esse fármaco. Suspender a terapia é a pior das opções, já que o tratamento está indicado para toda gestante e não se interrompe nem após o parto. E trocar todo o esquema por drogas 'mais antigas' desmonta uma supressão estável para resolver um risco que não se confirmou.
Recém-nascido a termo, com 39 semanas e 3.250 g, nasce de mãe que descobriu a infecção pelo HIV no momento do parto, sem pré-natal e sem uso de antirretrovirais durante a gestação. Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, qual a profilaxia indicada?
Diagnóstico materno feito no momento do parto, ausência de pré-natal e terapia não utilizada na gestação são três das nove situações que definem alto risco de transmissão vertical — e bastaria uma. No alto risco, a profilaxia é combinada: zidovudina, lamivudina e raltegravir granulado 100 mg por 28 dias. O bebê tem 39 semanas e 3.250 g, portanto está acima dos dois cortes que restringiriam o raltegravir, que são 37 semanas de idade gestacional e 2 kg de peso. Zidovudina isolada é o esquema do baixo risco, que exigiria terapia na gestação, carga viral indetectável a partir da 28ª semana e adesão sem falhas — nenhuma delas presente. O esquema com nevirapina em três doses é o do PCDT de Transmissão Vertical de 2020, superado pelo protocolo específico da criança de 2024; a nevirapina permanece, mas como terceiro medicamento entre 34 e 37 semanas ou com peso abaixo de 2 kg. A duração é de 4 semanas, não de 6. E nenhuma das versões autoriza aguardar exame: a profilaxia é iniciada preferencialmente na sala de parto, e a coleta da carga viral, embora deva preceder a primeira dose sempre que possível, jamais a atrasa.
Gestante de 23 anos inicia terapia antirretroviral na 25ª semana, com carga viral pré-tratamento de 180.000 cópias/mL. A carga viral de reavaliação, colhida três semanas após o início, é de 21.000 cópias/mL. Sobre a interpretação desse resultado, assinale a alternativa correta.
A conta precisa ser feita antes de julgar: 180.000 dividido por 21.000 é cerca de 8,6 vezes, o que corresponde a aproximadamente 0,93 log₁₀ — ou seja, pouco abaixo do mínimo de 1 log estabelecido como resposta esperada. A conduta que o protocolo indica diante de queda insuficiente é investigativa, não cirúrgica: avaliar adesão e interação medicamentosa, especialmente quanto à efetividade dos antirretrovirais prescritos, e só então adequar a terapia conforme genotipagem. Pular direto para a troca de esquema salta a etapa que o próprio documento aponta como principal hipótese de falha, que é a má adesão. Chamar 0,93 log de resposta plena e dispensar reavaliação até a 34ª semana ignora tanto o limiar quanto o fato de a carga viral poder ser solicitada em qualquer momento diante de dúvida sobre adesão. A afirmação de queda superior a 2 log é aritmeticamente falsa — 2 log seriam cem vezes, o que levaria a 1.800 cópias/mL — e a via de parto não se decide na 25ª semana, e sim pela carga viral colhida a partir da 34ª. Quanto ao prazo, a reavaliação é prevista para 2 a 4 semanas após introdução ou modificação no quadro operacional do protocolo, de modo que três semanas está dentro da janela.
Parturiente de 30 anos é admitida com 39 semanas, em trabalho de parto, dilatação de 2 cm e bolsa íntegra. Não realizou pré-natal. O teste rápido para HIV na admissão é reagente. Pesa 60 kg. Qual a conduta obstétrica e a prescrição da profilaxia intraparto?
Carga viral desconhecida ocupa a mesma faixa da carga viral acima de 1.000 cópias/mL, e essa faixa indica cesárea. O cenário específico da parturiente que já entrou em trabalho de parto tem regra própria e o corte é a dilatação: com menos de 4 cm, mantém-se a indicação de cesárea, inicia-se imediatamente a infusão de zidovudina e opera-se, se possível, após três horas de infusão. Com 2 cm, ela está dentro do critério. A dose confere: 2 mg/kg em 60 kg são 120 mg, que correspondem a 12 mL do frasco-ampola de 10 mg/mL, diluídos em 100 mL de soro glicosado a 5%. Aguardar a evolução para parto vaginal ignora que carga viral desconhecida é faixa de cesárea. Operar sem infusão perde a profilaxia que justifica a antecedência de três horas — o protocolo pede 'pelo menos três horas antes', não 'no momento da incisão'. Trocar a via endovenosa pela oral é vetado pela absorção errática do comprimido. E aguardar o resultado da carga viral inverte a lógica do tema: colhe-se a carga viral imediatamente, mas não se retarda nenhuma intervenção por causa dela, porque a janela de prevenção se fecha no parto.
Parturiente vivendo com HIV, em uso regular de terapia antirretroviral, com carga viral indetectável na 34ª semana, evolui em trabalho de parto espontâneo com bolsa íntegra e progressão adequada. Qual conjunto de condutas obstétricas está correto?
O manejo obstétrico se faz de subtrações, com uma lógica única: reduzir o contato do feto com sangue e secreções maternas e encurtar o tempo de exposição. Procedimentos invasivos estão contraindicados no trabalho de parto — amniocentese, cordocentese, amniotomia precoce e monitorização fetal invasiva —, prefere-se a progressão espontânea com bolsa íntegra e, no nascimento, faz-se o parto empelicado sempre que possível, com clampeamento imediato do cordão. A ordenha do cordão é vedada sob qualquer hipótese, e propô-la pelo benefício hematológico é exatamente a troca que o protocolo recusa. Uterotônicos não estão contraindicados: ocitocina e misoprostol podem ser usados seguindo os padrões de segurança habituais, e proibi-los é excesso por reflexo. O parto instrumentado deve ser evitado, mas quando indicado o fórceps é preferido ao vácuo-extrator. Vale ainda cronometrar a bolsa rota, porque a transmissão aumenta progressivamente após 4 horas, e nesse cenário considera-se a resolução por cesariana mesmo com carga viral abaixo de 1.000 cópias por mililitro.
Gestante de 10 semanas vivendo com HIV, em uso de tenofovir, lamivudina e dolutegravir, é internada por hiperêmese gravídica com desidratação e perda de peso. A equipe discute qual antiemético usar e o que fazer com os antirretrovirais, já que ela não retém nada por via oral. Qual é a conduta correta?
É necessário controlar os vômitos, corrigir a desidratação e avaliar como garantir a administração efetiva da TARV. O uso de dolutegravir não impõe proibição geral de metoclopramida; a escolha do antiemético considera eficácia, efeitos adversos e interações do esquema específico. Se nenhuma via enteral for possível, a interrupção deve ser a mais breve possível, envolvendo todos os componentes e com reinício conjunto, sob orientação especializada. Não se deve manter um esquema parcial nem presumir que doses vomitadas garantem exposição adequada. A dificuldade de adesão e absorção justifica acompanhamento virológico próximo.
Gestante de 27 anos com diagnóstico recente de infecção pelo HIV, virgem de tratamento, tem HBsAg reagente na testagem inicial. As transaminases estão normais e o HBeAg é não reagente. Qual é a conduta quanto ao esquema antirretroviral?
Todas as pessoas coinfectadas são tratadas, independentemente de HBeAg, da carga viral do vírus B e das transaminases, e o esquema antirretroviral da gestante deve conter tenofovir, que age nos dois vírus. Condicionar o tratamento ao HBeAg reagente ou à elevação das transaminases é justamente a restrição que o protocolo afasta. Montar o esquema sem tenofovir deixa a hepatite sem cobertura e desperdiça a droga que resolve as duas infecções ao mesmo tempo; guardá-la para uma falha futura tem o mesmo defeito, e vale o inverso: se houver troca por falha virológica do HIV, o tenofovir é mantido como tratamento do vírus B, combinado a outros antirretrovirais. Alfapeguinterferona não entra na gestação, e é pelo risco teratogênico dela e da ribavirina que o tratamento da hepatite C fica contraindicado nesse período. As transaminases são monitoradas um mês após o início da terapia e depois continuamente.
Qual medida está diretamente relacionada à redução do risco de transmissão vertical do HIV no momento do parto de uma gestante sem pré-natal?
A testagem rápida na porta da maternidade é justamente o que permite identificar a gestante que chegou sem pré-natal e disparar a profilaxia a tempo. Episiotomia, amniotomia precoce e eletrodo em couro cabeludo fetal são procedimentos que rompem barreiras e AUMENTAM a exposição do bebê a sangue e secreções; adiar o banho é o oposto do recomendado, já que a limpeza precoce da pele faz parte dos cuidados.
Gestante de 29 anos com HIV e hepatite C, carga viral do HIV indetectável em uso de terapia antirretroviral. No contexto das recomendações brasileiras para gestante com HIV, qual é a orientação mais adequada para acompanhar a hepatite C e planejar os cuidados após o parto?
A presença de HCV isoladamente não equivale a contraindicação ao aleitamento, mas esse raciocínio não pode ser aplicado à paciente coinfectada pelo HIV. No contexto brasileiro, a supressão viral não autoriza ignorar a contraindicação ao aleitamento por HIV. O HCV requer avaliação da doença hepática e planejamento terapêutico; DAA não deve ser iniciado automaticamente no segundo trimestre e decisões excepcionais exigem discussão especializada. Após o parto, reavaliar HCV RNA e definir tratamento. Ribavirina é contraindicada na gestação. Não se deve prometer que qualquer adiamento será sempre isento de risco.
Gestante de 30 anos com HIV, em terapia antirretroviral desde a 20ª semana, tem carga viral de 4.300 cópias/mL colhida na 35ª semana. Está com 37 semanas e sem contrações. Qual é a conduta quanto à via de parto?
Carga viral acima de mil cópias no terceiro trimestre, ou desconhecida, indica cesariana programada com 38 semanas — a proteção depende de operar com bolsa íntegra e antes das contrações, porque é o trabalho de parto e a rotura de membranas que expõem o feto. Esperar o parto espontâneo desperdiça exatamente essa janela. Antecipar para 37 semanas acrescenta prematuridade sem ganho, e amniotomia é justamente uma das manobras proscritas nessa paciente.
Gestante de 29 anos com HIV, em terapia antirretroviral com boa adesão, tem carga viral indetectável na 36ª semana. Chega em trabalho de parto com 39 semanas, 6 cm de dilatação, bolsa íntegra, apresentação cefálica e boa vitalidade fetal. Qual é a conduta?
Com supressão virológica documentada, a cesariana perde o benefício de redução da transmissão e passa a somar apenas a morbidade cirúrgica: a via se decide por critério obstétrico, como em qualquer parturiente. O que muda é o cuidado durante a assistência — evitar amniotomia, episiotomia de rotina, fórceps e procedimentos invasivos que aumentem o contato do feto com sangue materno. Indicar cesariana pelo diagnóstico, isoladamente, é o reflexo antigo que a prova cobra como erro.
Mulher de 34 anos vivendo com HIV há oito anos, em uso de esquema com dolutegravir, carga viral indetectável há três anos, descobre gestação de 6 semanas. Qual é a conduta em relação ao tratamento?
Esquema eficaz e bem tolerado se mantém: interromper ou trocar arrisca perder a supressão, gerar rebote virológico e selecionar resistência justamente no período em que a carga viral indetectável mais protege. O receio antigo em torno de defeito de fechamento do tubo neural com o inibidor de integrase não se sustentou nos dados subsequentes, e a droga é hoje preferencial também na gestação. Suspender no primeiro trimestre e reduzir dose são condutas sem respaldo e diretamente prejudiciais.
Gestante de 26 anos com HIV está internada em trabalho de parto com indicação de parto vaginal. Qual conduta deve ser EVITADA durante a assistência?
As manobras que se evitam são as que aumentam o contato do feto com sangue e secreções maternas ou criam solução de continuidade na pele fetal: romper a bolsa antecipadamente prolonga a exposição, e instrumentos de extração podem escoriar o couro cabeludo. Ocitocina é aliada, porque abreviar o trabalho de parto reduz o tempo de exposição. Clampear o cordão sem ordenha, aspirar apenas quando indicado e banhar o recém-nascido precocemente são justamente as condutas recomendadas.
Puérpera de 31 anos com HIV, carga viral indetectável e boa adesão ao tratamento, pergunta se pode amamentar. Qual é a orientação no Brasil?
No Brasil o aleitamento é contraindicado para toda mulher vivendo com HIV, inclusive com carga indetectável, porque existe risco residual de transmissão pelo leite e há alternativa segura disponível — a fórmula é garantida pelo serviço público. A conduta se completa com inibição da lactação, feita com medida farmacológica e enfaixamento, e com o cuidado de orientar sobre aleitamento cruzado, também proscrito. Permitir amamentar com base na carga indetectável é o erro que a prova cobra, porque transporta para o leite uma regra validada para a transmissão sexual.
Gestante de 25 anos, na 14ª semana, recebe diagnóstico de infecção pelo HIV no pré-natal. Está assintomática, com CD4 de 620 células/mm³ e carga viral de 18.000 cópias/mL. Qual é a conduta?
Toda gestante com HIV inicia terapia combinada assim que o diagnóstico é feito, sem qualquer limiar imunológico ou virológico — o objetivo é chegar ao parto com carga viral indetectável, que é o determinante isolado mais forte da transmissão vertical. Adiar o início reduz o tempo de supressão e aumenta a chance de carga detectável no terceiro trimestre. A monoterapia com zidovudina pertence à história do tratamento e hoje é inaceitável, por selecionar resistência e suprimir de forma insuficiente.
Recém-nascido de mãe com HIV que fez pré-natal adequado, com terapia antirretroviral e carga viral indetectável no terceiro trimestre, nasce a termo e em boas condições. Qual é a profilaxia e quando iniciá-la?
Todo recém-nascido exposto recebe profilaxia, e o tempo importa: iniciar nas primeiras horas de vida é o que garante a eficácia, com perda progressiva de benefício depois disso. Em cenário de baixo risco a monoterapia é suficiente, ao passo que o esquema ampliado com mais drogas fica reservado à exposição de alto risco, como mãe sem tratamento, diagnóstico no parto ou carga viral elevada. Aguardar o resultado do exame do bebê inverte a lógica da profilaxia, que existe justamente para agir antes de saber.
Gestante de 27 anos com diagnóstico recente de HIV, virgem de tratamento, sem comorbidades e sem uso de outras medicações, iniciará terapia antirretroviral. Qual é o esquema preferencial?
A dupla de análogos nucleosídeos associada ao inibidor de integrase é o esquema preferencial na gestação por alcançar supressão viral com rapidez, ter alta barreira genética e boa tolerância. Esquemas com nevirapina caíram em desuso pela hepatotoxicidade e pelo exantema grave, especialmente em mulheres com CD4 mais alto. Dupla terapia e monoterapia com inibidor de protease não suprimem de forma confiável e selecionam resistência, sendo justamente o erro conceitual que a prova cobra.
Parturiente de 24 anos chega à maternidade em trabalho de parto avançado, sem pré-natal. Teste rápido para HIV reagente na admissão, confirmado por segundo teste. Qual é a conduta imediata?
Sem pré-natal e sem carga viral conhecida, a paciente é tratada como de alto risco de transmissão: o antirretroviral endovenoso é iniciado durante o trabalho de parto e mantido até o clampeamento, e o recém-nascido recebe profilaxia ampliada com mais de uma droga, iniciada nas primeiras horas de vida. Esperar exame nesse momento é perder a única janela que existe. A via de parto se define pela situação obstétrica quando a paciente já está em período avançado, sem que isso dispense a medicação.
Em qual situação a zidovudina endovenosa está indicada no periparto de gestante com HIV?
A infusão endovenosa de zidovudina no periparto é reservada às situações de maior risco: carga viral desconhecida ou detectável, sobretudo acima de mil cópias, pois em gestante com supressão sustentada o benefício adicional não se demonstra. Indicar para todas é a prática antiga que ainda aparece em prova e gera infusão sem ganho. A indicação depende da carga viral e não da via de parto nem da contagem de CD4, e a infusão precisa começar antes do nascimento para fazer sentido.
Qual é a rotina de testagem para HIV recomendada no pré-natal e no parto?
A rotina brasileira inclui testagem no início do pré-natal, repetição no terceiro trimestre e testagem na admissão para o parto, independentemente dos exames anteriores, além de avaliação após novas exposições. Um resultado negativo prévio não exclui aquisição posterior do HIV. Restringir o teste no parto à ausência de resultado recente ou a risco relatado pode perder infecções adquiridas durante a gestação. O diagnóstico oportuno permite instituir as medidas de prevenção da transmissão vertical.
Gestante de 36 semanas em uso regular de terapia antirretroviral apresenta carga viral coletada com 34 semanas de 4.800 cópias/mL. Feto único, cefálico, sem outras indicações obstétricas. Qual a conduta quanto à via de parto?
Carga viral acima de mil cópias por mililitro após 34 semanas, ou desconhecida, indica cesariana eletiva com 38 semanas, realizada com membranas íntegras e fora de trabalho de parto, porque é nessa condição que a cirurgia reduz a transmissão. Apostar no parto vaginal apenas porque a paciente usa terapia é o erro que ignora o dado que decide, que é o valor da carga viral. Antecipar para 36 semanas acrescenta prematuridade sem benefício, e esperar bolsa rota anula justamente a proteção pretendida.
Puérpera com HIV e carga viral indetectável pergunta se pode amamentar, alegando que a supressão viral elimina o risco. Qual a orientação no contexto brasileiro?
No Brasil o aleitamento materno permanece contraindicado na infecção pelo HIV, com inibição da lactação e fornecimento garantido de fórmula, porque existe alternativa segura e acessível — a supressão viral reduz, mas não anula o risco pelo leite. A liberação com carga indetectável é a informação que mais circula equivocadamente e não corresponde à recomendação nacional. O aleitamento misto é o pior cenário, por somar exposição ao leite e lesão de mucosa intestinal pela fórmula.
Gestante de 39 semanas chega em trabalho de parto avançado, com 8 cm de dilatação, sem pré-natal e com teste rápido para HIV reagente na admissão. Qual a conduta mais adequada?
Em trabalho de parto avançado, a cesariana perde o benefício, porque a proteção depende de membranas íntegras e ausência de trabalho de parto — o que ainda muda o desfecho é a zidovudina endovenosa imediata, o parto sem procedimentos invasivos e a profilaxia combinada precoce no recém-nascido. Indicar cirurgia com oito centímetros é o reflexo mais comum e o menos útil. Esperar confirmação laboratorial desperdiça a única janela disponível, e o aleitamento está contraindicado desde o teste rápido reagente.
Durante a assistência ao parto vaginal de gestante com HIV e carga viral indetectável, qual conduta deve ser evitada?
O princípio é reduzir a exposição do feto ao sangue e às secreções maternas, e por isso amniotomia precoce, episiotomia de rotina e partos instrumentados devem ser evitados, mantendo as membranas íntegras o maior tempo possível. As demais condutas são adequadas: acompanhamento com partograma, clampeamento sem ordenha do cordão, aspiração apenas quando indicada e banho precoce do recém-nascido, medida que remove secreções maternas da pele.
Gestante de 25 anos, 10 semanas, com diagnóstico novo de infecção pelo HIV, assintomática, CD4 de 720 células/mm³ e carga viral de 12.000 cópias/mL. Qual a conduta quanto ao tratamento antirretroviral?
Toda gestante com HIV tem indicação de terapia combinada imediata, independentemente de CD4 e de carga viral, porque o determinante mais forte da transmissão vertical é a carga viral no momento do parto e o tempo de tratamento necessário para suprimi-la. Adiar para o segundo trimestre é o erro clássico, herdado do medo de teratogenicidade, e encurta a janela de supressão. Monoterapia com zidovudina foi abandonada por não suprimir a replicação e por selecionar resistência.
Puérpera com HIV em esquema contendo inibidor de protease apresenta hemorragia pós-parto por atonia uterina. Qual uterotônico deve ser evitado nessa paciente?
Inibidores de protease inibem o metabolismo hepático da metilergometrina, elevando seus níveis e podendo produzir vasoespasmo grave, com isquemia periférica e crise hipertensiva — por isso o derivado do ergot é o que se evita, priorizando ocitocina, misoprostol ou ácido tranexâmico. Descartar a ocitocina é o erro que retira justamente o uterotônico de primeira linha. Misoprostol é opção válida no puerpério, e nem o antifibrinolítico nem a carbetocina interagem com a terapia antirretroviral.
Gestante com HIV, em uso irregular de antirretroviral, apresenta carga viral de 8.000 cópias/mL colhida com 35 semanas. Qual a conduta quanto à via de parto?
Carga viral acima de mil cópias por mililitro após a 34ª semana ou desconhecida indica cesariana programada antes do início do trabalho de parto e com membranas íntegras, momento em que a proteção é máxima; o antirretroviral endovenoso no intraparto completa a estratégia. Antecipar para 35 semanas adiciona prematuridade sem benefício. Instrumentar o parto vaginal é o oposto do recomendado, pois procedimentos que traumatizam o feto aumentam a exposição.
Gestante de 26 anos, 12 semanas, diagnóstico de HIV no pré-natal, HBsAg reagente, HBeAg reagente, HBV-DNA 8 milhões UI/mL. Qual conduta reduz simultaneamente a transmissão vertical do HIV e do HBV?
O antirretroviral com tenofovir cobre os dois vírus e deve começar assim que o diagnóstico é feito — quanto mais precoce a supressão, menor a transmissão vertical do HIV, e a carga viral alta do HBV é exatamente a indicação de profilaxia materna com tenofovir. No recém-nascido a imunoprofilaxia combinada, vacina mais imunoglobulina nas primeiras 12 horas, é o que fecha a prevenção. Aplicar só a vacina engana porque em mãe HBeAg reagente com viremia alta a proteção isolada é insuficiente. Adiar o antirretroviral por medo de teratogenicidade não se sustenta com os esquemas atuais.
Segundo os protocolos brasileiros de prevenção da transmissão vertical do HIV e de cuidado à criança exposta, qual conjunto de intervenções obstétricas deve ser evitado como rotina no parto de gestante vivendo com HIV com carga viral detectável?
A alternativa D reúne intervenções que aumentam a exposição fetal a sangue ou secreções. Instrumentação e episiotomia exigem indicação obstétrica individual; não se trata de proibição absoluta quando necessárias. Ocitocina não é contraindicada apenas pelo HIV. O PCDT da criança exposta de 2024 mantém a orientação de clampeamento imediato, sem ordenha, destacando carga viral desconhecida ou superior a 1.000 cópias/mL, infecção aguda ou falha de adesão; situações fora do protocolo são discutidas com especialistas. Portanto, não cabe afirmar que o clampeamento segue irrestritamente a rotina habitual. Após os cuidados iniciais, favorece-se o vínculo mãe-filho; a amamentação permanece contraindicada no protocolo brasileiro. Fontes: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/20201113_pcdt_para_ptv_hiv_final.pdf/@@display-file/file ; https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/PCDT_HIV_Criana_Modulo_1_2024_e.pdf/@@display-file/file
Mulher de 28 anos, vivendo com HIV, em uso regular de terapia antirretroviral, com carga viral indetectável há 2 anos, deseja engravidar. O parceiro é HIV negativo. Qual a orientação mais adequada?
Carga viral indetectável e sustentada equivale a intransmissibilidade sexual, o que permite concepção por relação sexual programada, e a mesma supressão viral é o que reduz a transmissão vertical a menos de 1%. A terapia deve ser mantida, não suspensa: interromper eleva a carga viral justamente no período periconcepcional e no primeiro trimestre. A reprodução assistida com preparo seminal é opção quando há infertilidade ou quando o casal prefere, não um requisito. E não existe soroconversão negativa a se aguardar: a infecção é crônica, e o que se busca é supressão virológica.
Parturiente de 22 anos chega em trabalho de parto com 8 cm de dilatação, sem pré-natal, e o teste rápido para HIV resulta reagente. Qual a conduta?
Diante de teste rápido reagente na admissão, age-se de imediato: zidovudina intravenosa durante o trabalho de parto, condução obstétrica evitando procedimentos que aumentem a exposição ao sangue materno, contraindicação da amamentação e profilaxia ampliada para o recém-nascido, geralmente com esquema combinado por se tratar de alto risco. Esperar exame confirmatório é o erro que desperdiça a única janela de intervenção. A cesariana perde grande parte do efeito protetor com dilatação avançada, sobretudo com bolsa rota, e não se indica pela sorologia isoladamente nessa fase. Tocólise em trabalho de parto avançado não é opção.
Gestante de 24 anos com diagnóstico de HIV feito na primeira consulta de pré-natal, com 10 semanas. Qual a conduta quanto à terapia antirretroviral?
O tratamento é indicado para toda gestante vivendo com HIV, o quanto antes, independentemente de carga viral e contagem de linfócitos, porque o determinante isolado mais importante da transmissão vertical é a carga viral materna, e é preciso tempo para suprimi-la antes do parto. Adiar para o segundo ou o terceiro trimestre é o erro que reduz a chance de chegar indetectável ao nascimento. Monoterapia com zidovudina está abandonada por seleção de resistência e eficácia inferior. Os esquemas atuais são construídos para uso na gestação, com preferência por combinações de eficácia e segurança estabelecidas.
Gestante vivendo com HIV, em terapia antirretroviral, realiza carga viral com 35 semanas, cujo resultado é 4.500 cópias/mL. Qual a via de parto indicada e qual medida adicional?
Carga viral desconhecida ou acima de 1.000 cópias/mL a partir de 34 semanas indica cesariana eletiva com 38 semanas, realizada antes do trabalho de parto e com membranas íntegras, somada à zidovudina intravenosa iniciada 3 horas antes do procedimento. Com carga abaixo de 1.000 cópias, a via de parto passa a ser decidida por indicação obstétrica. Dizer que a via não importa ignora a faixa em que ela ainda protege. Amniotomia precoce, parto instrumentado e episiotomia são evitados por aumentarem a exposição do concepto ao sangue materno, e esperar 41 semanas expõe ao trabalho de parto espontâneo.
Gestante de 26 anos vivendo com HIV pergunta sobre exames de seguimento durante o pré-natal. Qual a periodicidade adequada da carga viral e qual o momento crítico da coleta?
A carga viral é colhida na primeira consulta, repetida cerca de 2 a 4 semanas após o início ou a mudança do esquema para confirmar resposta, e novamente entre 34 e 36 semanas — esta última é a que decide a via de parto e a profilaxia periparto, e por isso é a coleta que não pode faltar. Confiar apenas no exame inicial deixa a equipe sem o dado que orienta a decisão obstétrica. A contagem de linfócitos T CD4 avalia estado imunológico e risco de infecções oportunistas, mas não substitui a carga viral na predição da transmissão vertical, que é o desfecho em questão.
Qual das medidas a seguir tem o maior impacto isolado na redução da transmissão vertical do HIV?
A carga viral materna é o preditor mais forte da transmissão vertical, e sua supressão com terapia antirretroviral iniciada precocemente é a intervenção de maior impacto, levando as taxas de cerca de 25% sem intervenção para menos de 1%. Cesariana e zidovudina intraparto são camadas adicionais, com benefício concentrado em quem chega ao parto sem supressão — indicá-las para todas seria expor sem ganho proporcional. A suplementação de vitamina A não demonstrou reduzir transmissão, e a lavagem do canal de parto com antisséptico foi testada com resultados inconsistentes e não integra a rotina.
Gestante chega ao pronto-socorro obstétrico em trabalho de parto, sem pré-natal, com teste rápido para HIV reagente. Qual é a conduta para reduzir a transmissão vertical?
A profilaxia da transmissão vertical é uma cadeia: antirretroviral na gestante, zidovudina endovenosa no periparto quando indicada, escolha adequada da via de parto e profilaxia no neonato iniciada o mais precocemente possível, idealmente nas primeiras horas. Aguardar sorologia confirmatória engana quem busca certeza diagnóstica, mas o teste rápido reagente no trabalho de parto já autoriza e obriga a intervenção — a janela é de horas e não se repete.
Qual conjunto de intervenções reduz a transmissão vertical do HIV a taxas inferiores a 2%?
Nenhuma medida isolada alcança esse resultado: é o pacote completo, com a supressão viral materna como pilar principal, que reduz a transmissão de cerca de 25 a 30% para menos de 2%. Apostar apenas na cesariana engana quem se lembra de sua importância histórica, mas em gestante com carga viral indetectável a via de parto pode ser obstétrica, e a cirurgia isolada em mulher sem tratamento tem impacto limitado. Cada elo da cadeia contribui, e a falha em um deles eleva o risco.
Qual é a orientação sobre aleitamento materno para mães vivendo com HIV no Brasil?
No Brasil, a recomendação é a suspensão do aleitamento materno e o fornecimento de fórmula, com inibição da lactação, porque o leite é via comprovada de transmissão e existe alternativa segura disponível na rede pública. Liberar a amamentação com carga viral indetectável engana quem transporta o conceito de intransmissibilidade sexual para a lactação — a recomendação brasileira mantém a contraindicação. O aleitamento cruzado é formalmente proibido, e a fervura domiciliar não é método validado.
Gestante de 29 anos, com 14 semanas, tem teste rápido para HIV reagente confirmado por segundo teste, em pré-natal na Unidade Básica de Saúde. Está assintomática, sem infecções oportunistas e nunca usou antirretrovirais. A contagem de linfócitos T CD4+ é de 520 células/mm³ e a carga viral, de 32.000 cópias/mL. Considerando as recomendações do Ministério da Saúde para prevenção da transmissão vertical, assinale a conduta correta.
O tratamento antirretroviral está indicado para toda gestante com HIV, o mais precocemente possível e em caráter contínuo por toda a vida, e a carga viral aferida por volta da 34ª semana define a via de parto: acima de 1.000 cópias/mL ou desconhecida, indica-se cesárea eletiva com 38 semanas. Adiar o início para o terceiro trimestre eleva o risco de transmissão vertical sem benefício demonstrado. Condicionar o tratamento ao CD4+ reproduz recomendação antiga, já abandonada. Indicar cesariana sem terapia antirretroviral ignora que a supressão viral é a medida isolada mais eficaz na prevenção da transmissão vertical.
Gestante de 30 anos, com HIV, em uso regular de terapia antirretroviral desde a 14ª semana, chega à maternidade com 39 semanas em início de trabalho de parto, com 4 cm de dilatação e bolsa íntegra. A carga viral colhida com 35 semanas era indetectável. Ela está assintomática, com boa adesão ao tratamento, e o pré-natal foi acompanhado na Unidade Básica de Saúde. Assinale a conduta correta quanto à via de parto e às medidas periparto.
Com carga viral indetectável no terceiro trimestre e boa adesão, o parto vaginal é permitido, evitando-se procedimentos invasivos como amniotomia precoce, eletrodo de couro cabeludo e episiotomia de rotina, mantendo-se a terapia antirretroviral e instituindo a profilaxia do recém-nascido, além da contraindicação ao aleitamento. Indicar cesárea para toda gestante com HIV desconsidera que a via cirúrgica só se justifica com carga viral elevada ou desconhecida. Suspender a terapia no periparto eleva a carga viral justamente no momento de maior exposição. Procedimentos invasivos aumentam o risco de transmissão vertical.
Uma equipe de Saúde da Família acompanha gestante de 32 semanas com teste rápido reagente para HIV realizado hoje, sem diagnóstico prévio. A gestante está assintomática e recebeu o resultado na unidade. Qual é a conduta correta na atenção primária?
O diagnóstico de HIV na gestação exige início precoce da terapia antirretroviral, com articulação imediata com o serviço especializado e manutenção do pré-natal na atenção primária, pois a supressão viral reduz drasticamente a transmissão vertical. Aguardar exames adicionais para encaminhar retarda a intervenção mais eficaz. Transferir integralmente o caso fragmenta o cuidado e contraria a coordenação exercida pela equipe. Adiar a terapia para o final da gestação eleva a carga viral no parto e o risco de transmissão.
Gestante de 25 anos, com 24 semanas, faz pré-natal em Unidade Básica de Saúde de área endêmica e apresenta teste rápido reagente para HIV, confirmado por carga viral de 45.000 cópias por mililitro e contagem de linfócitos T CD4 de 380 células por milímetro cúbico. Nunca usou antirretrovirais e está assintomática. Questiona quando deve começar o tratamento e se poderá amamentar o bebê. A orientação correta quanto à prevenção da transmissão vertical é
O tratamento antirretroviral deve ser iniciado assim que o diagnóstico é feito, em qualquer idade gestacional, porque a supressão viral sustentada é o principal determinante da redução da transmissão vertical. No Brasil, o aleitamento materno é contraindicado em toda mulher vivendo com HIV, com garantia de fórmula láctea pelo Sistema Único de Saúde. Adiar o início para o terceiro trimestre reduz o tempo de supressão e eleva o risco de transmissão. A carga viral não cai espontaneamente de forma confiável. Mesmo com carga indetectável, a via láctea permanece contraindicada na política brasileira.
Gestante de 31 anos, com 38 semanas, é admitida na maternidade em trabalho de parto. Ela é portadora de infecção pelo HIV, em uso regular de terapia antirretroviral desde o primeiro trimestre, com carga viral indetectável na coleta realizada com 35 semanas e contagem de linfócitos T CD4 de 620 células por milímetro cúbico. Está com 6 cm de dilatação, bolsa íntegra e cardiotocografia tranquilizadora. Quanto à via de parto e às medidas periparto, a conduta correta é
Com carga viral indetectável no terceiro trimestre e boa adesão, o parto vaginal é permitido e a zidovudina endovenosa deixa de ser indicada, mantendo-se o esquema oral e evitando procedimentos invasivos como amniotomia precoce, eletrodo de escalpo e episiotomia de rotina. A cesariana eletiva é indicada quando a carga viral é desconhecida ou superior a mil cópias por mililitro, não universalmente. A amniotomia precoce prolonga o tempo de bolsa rota e é justamente o que se evita. Suspender os antirretrovirais eleva a viremia no momento de maior risco de transmissão.
Gestante de 25 anos comparece à Unidade Básica de Saúde na décima segunda semana com teste rápido reagente para HIV, confirmado pelo fluxograma vigente. Está assintomática, sem infecções oportunistas, e nunca usou antirretroviral. Ao exame: bom estado geral, sem lesões cutâneas, sem candidíase oral, sem adenomegalias, PA 110x68 mmHg, altura uterina compatível. Exames em coleta. Ela pergunta se poderá ter parto normal e amamentar, e se o bebê nascerá infectado. A conduta e a orientação corretas são:
O início precoce da terapia antirretroviral é a principal medida de prevenção da transmissão vertical do HIV, associado ao acompanhamento em pré-natal de alto risco; no Brasil, o aleitamento materno é contraindicado, com fornecimento de fórmula e inibição da lactação. Adiar a terapia para o terceiro trimestre aumenta o risco de transmissão e não se justifica pelo perfil de segurança dos esquemas atuais. Manter o aleitamento mesmo com carga indetectável contraria a recomendação nacional. A via de parto é definida pela carga viral próxima ao termo, não sendo a cesariana indicada de forma universal.
Gestante de 27 anos, com 12 semanas, recebe resultado de teste rápido reagente para HIV na primeira consulta de pré-natal, confirmado por exame complementar. Está assintomática, sem infecções oportunistas, com bom estado geral. Ao exame, sem linfonodomegalias, sem lesões orais, com sinais vitais normais e altura uterina compatível. Ela está muito preocupada com a possibilidade de transmitir o vírus ao bebê e pergunta o que pode ser feito. A conduta correta é:
A prevenção da transmissão vertical do HIV baseia-se no início precoce da terapia antirretroviral, com meta de carga viral indetectável, definição da via de parto conforme a carga viral próxima ao termo, profilaxia intraparto quando indicada, profilaxia ao recém-nascido e substituição do aleitamento materno por fórmula, com inibição da lactação. Adiar a terapia sem indicação aumenta o risco. Cesariana isolada, sem terapia, é muito menos eficaz. O aleitamento materno é contraindicado no Brasil para mulheres vivendo com HIV, por ser via de transmissão.
Mulher de 34 anos vivendo com HIV, com boa adesão à terapia antirretroviral e carga viral indetectável há dois anos, comparece à consulta de rotina e informa que deseja engravidar. Está assintomática, com contagem de linfócitos T CD4 acima de 600 células por milímetro cúbico. O parceiro é soronegativo. Ao exame: bom estado geral, sem infecções oportunistas, sem lesões genitais e com exames de rotina normais. Ela pergunta se poderá engravidar e amamentar. Qual é a orientação correta?
Mulheres vivendo com HIV podem engravidar com segurança quando há adesão, carga viral indetectável e planejamento adequado, com acompanhamento de pré-natal específico e profilaxia do recém-nascido, mas no Brasil o aleitamento materno permanece contraindicado, com fornecimento de fórmula e inibição da lactação. Proibir a gestação viola direitos reprodutivos. Liberar a amamentação com carga indetectável contraria a recomendação nacional vigente. Suspender a terapia na gestação aumenta a carga viral e o risco de transmissão vertical.
Gestante de 32 anos, com 38 semanas, é admitida na maternidade em trabalho de parto e a equipe verifica que ela é HIV positiva, com carga viral de 3.200 cópias por mililitro na coleta realizada há duas semanas, apesar do uso de terapia antirretroviral. Ela está com 4 cm de dilatação, bolsa íntegra e cardiotocografia tranquilizadora. A pressão arterial é de 118x74 mmHg e ela não tem outras intercorrências obstétricas. A equipe discute a via de parto e as medidas de prevenção da transmissão vertical. A conduta correta é
Carga viral acima de mil cópias por mililitro ou desconhecida próxima ao parto indica cesariana para redução da transmissão vertical, associada à zidovudina endovenosa no periparto e à manutenção do esquema oral. Permitir o parto vaginal apenas por estar em terapia, sem supressão viral, eleva o risco de transmissão. Amniotomia precoce prolonga o tempo de bolsa rota e é evitada. Suspender os antirretrovirais no periparto aumenta a viremia justamente no momento de maior risco.
Puérpera de 28 anos, vivendo com HIV, em uso regular de terapia antirretroviral e com carga viral indetectável no último trimestre, dá à luz recém-nascido a termo com boa vitalidade. Ela relata forte desejo de amamentar, pois amamentou os filhos anteriores antes do diagnóstico, e questiona se a carga viral indetectável permite o aleitamento. A equipe da maternidade precisa orientá-la conforme as recomendações vigentes no país, garantindo acolhimento e apoio para a decisão. A orientação correta é:
No Brasil, o aleitamento materno é contraindicado para mulheres vivendo com HIV, mesmo com carga viral indetectável, pela possibilidade de transmissão pelo leite, sendo a conduta oferecer fórmula infantil garantida pelo serviço, inibir a lactação e acolher a puérpera, que frequentemente vive luto e pressão social em relação à amamentação. Liberar o aleitamento contraria a recomendação vigente. O aleitamento misto aumenta ainda mais o risco de transmissão. O aleitamento cruzado é formalmente contraindicado, por risco de transmissão de infecções.
Gestante de 31 anos, vivendo com HIV, comparece à maternidade em trabalho de parto com 39 semanas. Fez pré-natal regular, com uso adequado da terapia antirretroviral e carga viral indetectável documentada no terceiro trimestre. Ao exame: em trabalho de parto ativo, sem intercorrências obstétricas, com bolsa íntegra e batimentos cardiofetais normais. A equipe discute a via de parto e as medidas para reduzir a transmissão vertical, e a paciente pergunta se precisará de cesariana obrigatoriamente. Qual é a conduta correta?
Com carga viral indetectável no terceiro trimestre e uso adequado da terapia antirretroviral, a via de parto é definida por indicação obstétrica, mantendo-se as medidas do protocolo de prevenção da transmissão vertical, incluindo profilaxia do recém-nascido e contraindicação do aleitamento no Brasil. Cesariana obrigatória para todas contraria a recomendação e expõe a riscos cirúrgicos desnecessários. Suspender a terapia no periparto eleva a carga viral. Amniotomia precoce e procedimentos invasivos desnecessários devem ser evitados.
Gestante de 24 anos, com 20 semanas, comparece à Unidade Básica de Saúde e traz teste rápido reagente para HIV realizado na consulta anterior, com carga viral de 78.000 cópias por mililitro e linfócitos T CD4 de 210 células por milímetro cúbico. Ela está assintomática, sem febre, sem perda de peso e sem lesões cutâneas ou orais. Ao exame, apresenta pressão arterial de 108x66 mmHg, exame obstétrico normal e ausência de adenomegalias. A conduta correta é
O tratamento antirretroviral deve ser iniciado imediatamente após o diagnóstico na gestação, independentemente da contagem de linfócitos, e a contagem reduzida indica avaliar profilaxias para infecções oportunistas conforme protocolo. Aguardar nova carga viral atrasa a supressão viral, que é o principal determinante da prevenção da transmissão vertical. Iniciar apenas no terceiro trimestre reduz o tempo de supressão. Profilaxia isolada sem antirretrovirais não trata a infecção nem previne a transmissão.
Gestante de 30 anos, com 26 semanas, vivendo com HIV, comparece à Unidade Básica de Saúde e relata que interrompeu a terapia antirretroviral há dois meses, por dificuldade de acesso à farmácia e medo de efeitos sobre o bebê. Ela está assintomática, com pressão arterial de 110x68 mmHg e exame obstétrico normal, com crescimento fetal adequado. Os exames mostram carga viral detectável elevada e queda da contagem de linfócitos T CD4 em relação aos valores prévios. A conduta correta é
A interrupção da terapia antirretroviral na gestação eleva a carga viral e o risco de transmissão vertical, sendo a conduta retomar imediatamente o tratamento, acolher as barreiras de acesso e de adesão e reavaliar a carga viral no terceiro trimestre para planejar a via de parto e as medidas periparto. Adiar o reinício mantém o risco. Restringir a profilaxia ao parto é insuficiente. Cesariana isolada não substitui a supressão viral.
Puérpera de 26 anos, sem pré-natal, teve parto vaginal há três horas e o teste rápido realizado na admissão resultou reagente para HIV, com teste complementar em andamento. O recém-nascido está a termo, vigoroso, em alojamento conjunto, e a mãe manifesta desejo de amamentar. Ela está estável, com pressão arterial de 116x72 mmHg, útero contraído e sangramento fisiológico. A equipe organiza as medidas de prevenção da transmissão vertical no pós-parto imediato. A conduta correta é
Diante de teste rápido reagente para HIV no periparto, contraindica-se o aleitamento materno, inicia-se prontamente a profilaxia antirretroviral do recém-nascido e garante-se a inibição da lactação e o fornecimento de fórmula infantil, sem aguardar o teste complementar, cuja demora aumentaria o risco de transmissão. Permitir o aleitamento ou adiar a profilaxia expõe o recém-nascido. Fervura do leite materno não é conduta recomendada nesse contexto.
Gestante de 24 anos, com 12 semanas, realiza teste rápido para HIV na Unidade Básica de Saúde, com resultado reagente, em sua primeira consulta de pré-natal. Ela fica muito abalada e questiona se o resultado pode estar errado e o que acontecerá com o bebê. Está assintomática, com pressão arterial de 110x68 mmHg, exame físico normal e ultrassonografia mostrando feto vivo. A unidade dispõe de fluxo estabelecido com o serviço de referência e de profissionais capacitados para o aconselhamento pós-teste. A conduta correta é
Diante de teste rápido reagente para HIV na gestação, procede-se ao aconselhamento pós-teste, à conclusão do fluxo diagnóstico e ao encaminhamento prioritário para início imediato da terapia antirretroviral, mantendo-se o pré-natal compartilhado com a atenção primária. Adiar a investigação e o tratamento aumenta o risco de transmissão vertical. Encerrar o vínculo com a unidade rompe a longitudinalidade. Repetir o teste em três meses retarda intervenção decisiva.
Mulher, 30 anos, G2P1, com 38 semanas, vivendo com HIV, em terapia antirretroviral iniciada com 20 semanas, com boa adesão. Carga viral colhida com 35 semanas mostra 3.500 cópias/mL e CD4 de 480 células/mm³. Está assintomática, PA 116/72 mmHg, colo com 2 cm de dilatação e sem contrações regulares. Feto único, cefálico, peso estimado de 3.200 g, cardiotocografia categoria I. Qual a conduta correta quanto à via de parto e à profilaxia?
Cesariana eletiva com 38 semanas, antes do início do trabalho de parto e com bolsa íntegra, associada à zidovudina intravenosa periparto, é a conduta indicada quando a carga viral colhida a partir de 34 semanas é igual ou superior a 1.000 cópias/mL ou desconhecida, situação desta paciente com 3.500 cópias/mL. O parto vaginal com amniotomia precoce aumenta o tempo de exposição do feto às secreções maternas e é contraindicado nesse cenário. Considerar a terapia antirretroviral suficiente para dispensar a profilaxia ignora que a carga viral não está suprimida. Fixar o limiar em 100.000 cópias/mL é incorreto, pois o ponto de corte é 1.000 cópias/mL. A indução com misoprostol prolonga o trabalho de parto e a lavagem vaginal com clorexidina não demonstrou reduzir a transmissão vertical.
Mulher, 32 anos, G3P2, vivendo com HIV, em terapia antirretroviral desde antes da concepção, com boa adesão. Carga viral indetectável em todas as coletas, incluindo a de 36 semanas, e CD4 de 720 células/mm³. Chega com 39 semanas em trabalho de parto ativo, com 6 cm de dilatação, bolsa íntegra, cardiotocografia categoria I, PA 118/74 mmHg. Os dois partos anteriores foram vaginais. Qual a conduta correta?
O parto vaginal é a conduta correta em gestante com carga viral indetectável a partir de 34 semanas e boa adesão, mantendo-se a terapia antirretroviral, evitando amniotomia precoce, parto instrumentado e outros procedimentos invasivos sem indicação, e seguindo o protocolo de profilaxia do recém-nascido. Indicar cesariana para toda gestante vivendo com HIV é conduta ultrapassada e aumenta a morbidade materna sem benefício quando a carga é indetectável. A amniotomia precoce prolonga a exposição do feto às secreções maternas e deve ser evitada. A cesariana eletiva com zidovudina intravenosa é reservada a carga viral igual ou superior a 1.000 cópias/mL ou desconhecida. Suspender a terapia antirretroviral no parto é erro grave, pois aumenta o risco de rebote viral e de transmissão.
Mulher, 26 anos, vivendo com HIV, com 30 semanas, apresenta carga viral de 45.000 cópias/mL apesar de estar em terapia antirretroviral há 10 semanas. Relata uso irregular por efeitos adversos gastrointestinais e dificuldade de acesso à medicação. CD4 de 260 células/mm³. PA 114/72 mmHg, sem infecções oportunistas. O feto tem crescimento adequado e cardiotocografia normal, sem outras intercorrências. Qual conduta é a correta?
A conduta correta é investigar e apoiar ativamente a adesão, tratando os efeitos adversos e removendo barreiras de acesso, solicitar genotipagem para pesquisa de resistência, ajustar o esquema antirretroviral conforme o resultado e planejar cesariana eletiva com zidovudina intravenosa caso a carga viral permaneça igual ou superior a 1.000 cópias/mL próximo ao termo. Manter o mesmo esquema sem investigação perpetua a falha virológica. Suspender a terapia é erro grave, com rebote viral e aumento do risco de transmissão. Indicar cesariana com 30 semanas impõe prematuridade sem benefício, pois a via de parto é definida próximo ao termo. Contraindicar a amamentação é necessário, mas insuficiente isoladamente, pois a maior parte da transmissão ocorre no periparto.
Gestante de 38 semanas, 28 anos, com diagnóstico de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana no terceiro trimestre, em terapia antirretroviral há apenas 3 semanas. Carga viral de 12.000 cópias/mL na 36ª semana. PA 118x74 mmHg, FC 88 bpm, T 36,7 °C. Encontra-se sem contrações, com colo impérvio e membranas íntegras. Qual a conduta obstétrica e neonatal indicada?
Com carga viral acima de 1.000 cópias/mL após 34 semanas, indica-se cesariana eletiva com 38 semanas, zidovudina endovenosa no intraparto e profilaxia antirretroviral ao recém-nascido, medidas que reduzem substancialmente a transmissão vertical. O parto vaginal com fórcipe e amniotomia precoce aumenta a exposição do feto a sangue e secreções, sendo justamente o que se evita. Suspender a terapia antirretroviral no parto eleva a viremia no momento de maior risco. O aleitamento materno é contraindicado no Brasil para mulheres vivendo com o vírus da imunodeficiência humana, sendo indicada fórmula infantil. Deixar de administrar zidovudina intraparto e profilaxia neonatal desperdiça intervenções de eficácia comprovada.
Gestante de 13 semanas recebe diagnóstico confirmado de HIV, com carga viral detectável. Não usa antirretrovirais. Está clinicamente estável e é encaminhada para acompanhamento conjunto obstétrico e infectológico. Qual mecanismo explica melhor o quadro?
A supressão viral reduz substancialmente risco de transmissão, integrada às demais medidas preventivas. Referência: https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/preventing-perinatal-transmission-hiv-during-pregnancy-and-childbirth
Gestante de 13 semanas recebe diagnóstico confirmado de HIV, com carga viral detectável. Não usa antirretrovirais. Está clinicamente estável e é encaminhada para acompanhamento conjunto obstétrico e infectológico. Qual é o diagnóstico mais provável?
Diagnóstico confirmado e carga detectável exigem tratamento e prevenção da transmissão vertical. Referência: https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/preventing-perinatal-transmission-hiv-during-pregnancy-and-childbirth
Gestante de 13 semanas recebe diagnóstico confirmado de HIV, com carga viral detectável. Não usa antirretrovirais. Está clinicamente estável e é encaminhada para acompanhamento conjunto obstétrico e infectológico. Qual achado complementar favorece especificamente essa hipótese?
O exame monitora resposta e orienta condutas perinatais; contagem de CD4 tem finalidade complementar. Referência: https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/preventing-perinatal-transmission-hiv-during-pregnancy-and-childbirth
Gestante de 13 semanas recebe diagnóstico confirmado de HIV, com carga viral detectável. Não usa antirretrovirais. Está clinicamente estável e é encaminhada para acompanhamento conjunto obstétrico e infectológico. Qual intervenção dirigida à causa é a mais adequada entre as opções?
Tratamento não deve aguardar sintomas; via de parto, profilaxia neonatal e alimentação exigem plano específico. Referência: https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/preventing-perinatal-transmission-hiv-during-pregnancy-and-childbirth
Ao revisar a terapia de uma gestante com HIV, o residente identifica dolutegravir no esquema e deve reconhecer seu alvo farmacológico. Qual etapa do ciclo viral é diretamente inibida por esse medicamento?
Dolutegravir é um inibidor da transferência de fita pela integrase. Impede a inserção do DNA viral no genoma da célula hospedeira, atuando em etapa distinta da transcrição reversa. Referência: NIH. The HIV Life Cycle, revisão de 9/4/2025. https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/hiv-life-cycle
O primeiro teste virológico de um recém-nascido exposto ao HIV, colhido logo após o parto, é negativo. Qual interpretação preserva corretamente os limites desse resultado?
A sensibilidade do teste ao nascer é limitada, especialmente para infecção adquirida muito perto ou durante o parto. A exposição a antirretrovirais também pode afetar a detecção; por isso, o acompanhamento inclui novas avaliações. Referência: NIH. Diagnosis of HIV Infection in Infants and Children, atualização de 25/6/2026. https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/perinatal/management-infants-diagnosis-hiv-infection-children
Na investigação de uma criança pequena com exposição perinatal, um teste de ácido nucleico para HIV resulta positivo. Qual princípio deve orientar a confirmação laboratorial, em paralelo ao cuidado imediato?
Um resultado virológico positivo deve ser confirmado em amostra independente, pois resultados falso-positivos podem ocorrer. Essa confirmação não justifica adiar as medidas assistenciais indicadas. Referência: NIH. Diagnosis of HIV Infection in Infants and Children, atualização de 25/6/2026. https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/perinatal/management-infants-diagnosis-hiv-infection-children
Para investigação virológica de um recém-nascido exposto ao HIV, propõe-se usar sangue do cordão umbilical para evitar outra coleta. Qual problema fundamenta evitar essa amostra para diagnóstico?
Sangue do cordão pode ser contaminado por sangue materno e não é recomendado para a avaliação diagnóstica do HIV do recém-nascido. Deve-se obter amostra adequada da criança, sem atrasar a profilaxia indicada. Referência: NIH. Diagnosis of HIV Infection in Infants and Children, atualização de 25/6/2026. https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/perinatal/management-infants-diagnosis-hiv-infection-children
Um recém-nascido exposto ao HIV durante a gestação apresenta teste de anticorpos anti-HIV reagente. Por que esse resultado isolado não estabelece infecção da criança?
A sorologia pode detectar IgG de origem materna em uma criança exposta, mesmo sem infecção. O diagnóstico precoce exige investigação virológica apropriada, e não interpretação isolada de anticorpos. Referência: NIH. Diagnosis of HIV Infection in Infants and Children, atualização de 25/6/2026. https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/perinatal/management-infants-diagnosis-hiv-infection-children
Uma gestante em tratamento tem carga viral abaixo do limite de detecção do ensaio. Ela interpreta o resultado como eliminação definitiva do HIV do organismo. Qual esclarecimento é correto?
Carga viral indetectável significa que o RNA viral circulante está abaixo do limite do teste. A terapia controla a multiplicação do HIV, mas não é considerada curativa; o tratamento e o acompanhamento permanecem necessários. Referência: NIH. The HIV Life Cycle, revisão de 9/4/2025. https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/hiv-life-cycle
Uma mulher iniciou terapia antirretroviral no pré-natal e pergunta se o tratamento termina depois do nascimento, pois o bebê já recebeu as medidas preventivas indicadas. Qual princípio deve orientar a resposta?
A terapia antirretroviral também trata a infecção da mulher e preserva sua função imune. O parto não encerra essa indicação; o seguimento deve apoiar a continuidade do cuidado. Referência: NIH. HIV Medicines During Pregnancy and Childbirth, revisão de 6/10/2025. https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/hiv-medicines-during-pregnancy-and-childbirth
Uma gestante com diagnóstico recente de HIV, que nunca utilizou antirretrovirais, apresenta mutações de resistência na avaliação viral. Qual explicação é biologicamente possível?
Variantes resistentes do HIV podem ser transmitidas. Assim, a ausência de tratamento prévio não exclui resistência pré-existente ao primeiro esquema. Referência: NIH. Drug Resistance, revisão de 10/7/2026. https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/drug-resistance
Durante o planejamento do esquema antirretroviral de uma gestante, é considerada a genotipagem de resistência do HIV. Qual informação esse exame procura fornecer?
A genotipagem de resistência analisa variantes do HIV associadas à menor sensibilidade a medicamentos. O resultado auxilia a selecionar fármacos ativos, em conjunto com o histórico terapêutico. Referência: NIH. Drug Resistance, revisão de 10/7/2026. https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/drug-resistance
Uma gestante utiliza dolutegravir e suplemento oral de ferro, ambos em jejum. Ao revisar os horários, qual orientação evita a interação que reduz a exposição ao antirretroviral?
Em jejum, deve-se separar dolutegravir de ferro ou cálcio por esse intervalo. A bula permite coadministração desses suplementos com dolutegravir quando tomados com alimento; a regra não deve ser generalizada para qualquer antiácido. Referência: ViiV Healthcare/FDA. Tivicay, bula profissional, seção 7.3. DailyMed. https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/drugInfo.cfm?setid=63df5af3-b8ac-4e76-9830-2dbb340af922
Alguns esquemas antirretrovirais utilizados em situações selecionadas na gestação contêm um inibidor da protease. Qual processo viral é o alvo fundamental dessa classe?
A protease do HIV cliva poliproteínas em componentes funcionais. Sua inibição prejudica a maturação das partículas virais, mecanismo diferente do bloqueio da integrase ou da transcriptase reversa. Referência: NIH. The HIV Life Cycle, revisão de 9/4/2025. https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/hiv-life-cycle
A compreensão do ciclo do HIV ajuda a diferenciar as classes empregadas no tratamento durante a gestação. Qual transformação é catalisada pela transcriptase reversa viral?
A transcriptase reversa produz DNA a partir do RNA do HIV. O DNA viral poderá depois ser integrado ao genoma da célula pela integrase. Referência: NIH. The HIV Life Cycle, revisão de 9/4/2025. https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/hiv-life-cycle
Por que dificuldades de acesso devem ser tratadas como problema do cuidado?

Barreiras materiais exigem soluções e acompanhamento da resposta.
Qual exame mede quantidade de vírus circulante?

Carga viral auxilia a avaliar resposta e risco de transmissão.
Qual decisão evita planejar o parto com base em informação desatualizada?

Carga viral pode mudar com interrupções; prevenção depende de informação atual e tratamento contínuo.
Após nascimento, por que o bebê ainda precisa de plano específico mesmo com tratamento materno?

Prevenção vertical inclui medidas maternas, obstétricas e neonatais coordenadas.
Qual tratamento reduz replicação do HIV?

Terapia antirretroviral efetiva suprime replicação e reduz transmissão.
Gestante de 32 anos, com 34 semanas, vivendo com HIV, em uso regular de tenofovir, lamivudina e dolutegravir desde a 12ª semana. Carga viral colhida hoje: indetectável (< 40 cópias/mL). Nega intercorrências. Colo impérvio, feto único cefálico, cardiotocografia categoria I. Está preocupada com a possibilidade de amamentar, pois leu em fóruns internacionais que mulheres com carga viral indetectável poderiam fazê-lo. Qual orientação está de acordo com a normativa brasileira vigente?
No Brasil, o aleitamento materno é contraindicação absoluta para mulheres vivendo com HIV, independentemente da carga viral, conforme o PCDT-TV e o PCDT de Manejo do HIV em Crianças e Adolescentes. Deve-se ofertar fórmula láctea infantil e inibir a lactação preferencialmente com cabergolina 1 mg VO em dose única na primeira hora pós-parto (alternativa: enfaixamento mamário). Recomendações da OMS/2016 (aleitamento em contextos onde a fórmula não é aceitável, factível, sustentável e segura) e do DHHS/EUA (2023, decisão compartilhada) não constituem referencial normativo no país. Referências: PCDT de Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes — Módulo I (2024) — https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/PCDT_HIV_Criana_Modulo_1_2024_e.pdf PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais — https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/p/prevencao-da-transmissao-vertical-do-hiv-sifilis-e-hepatites-virais/view
Primigesta de 24 anos, em pré-natal de rotina na Unidade Básica de Saúde, comparece à primeira consulta com 9 semanas de gestação. Teste rápido para HIV reagente, confirmado por segundo teste rápido de fabricante distinto também reagente. Nega comorbidades, uso de medicamentos ou sintomas. Exame físico sem alterações; PA 112x70 mmHg. A paciente pergunta quando poderá iniciar o tratamento. Considerando o PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical do HIV e a Nota Informativa nº 1/2022-CGIST/DCCI/SVS/MS, qual é a conduta correta quanto ao início da terapia antirretroviral?
Toda gestante vivendo com HIV deve iniciar TARV o quanto antes, independentemente de CD4 ou carga viral. A Nota Informativa nº 1/2022-CGIST/DCCI/SVS/MS ampliou a indicação do dolutegravir para gestantes em qualquer idade gestacional (inclusive primeiro trimestre) e para mulheres com intenção reprodutiva, tornando TDF + 3TC + DTG o esquema preferencial. Antes da primeira dose, colhem-se carga viral basal (para afastar falso-reagente e definir viremia) e genotipagem pré-tratamento, mas não se aguarda o resultado da genotipagem para começar o tratamento. Referências: Nota Informativa nº 1/2022-CGIST/DCCI/SVS/MS — https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/notas-informativas/2022/sei_25000-010273_2022_15_-_nota_informativa_no_12022-cgist-dcci_-svs_-ms_-_dispoe_sobre_as_recomendacoes_do_uso_de_dolutegravir_em_gestantes.pdf PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS) — https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/p/prevencao-da-transmissao-vertical-do-hiv-sifilis-e-hepatites-virais/view
Gestante de 33 anos, com 22 semanas, vivendo com HIV, em uso de tenofovir + lamivudina + dolutegravir há 3 anos, com adesão excelente e cargas virais indetectáveis persistentes há mais de 2 anos. É acompanhada em conjunto pelo pré-natal de alto risco e pelo neurologista, tendo iniciado recentemente oxcarbazepina para controle de epilepsia parcial. A equipe se depara com a questão de interação farmacológica. Qual é a conduta correta em relação à TARV?
A oxcarbazepina é indutora enzimática (UGT1A1/CYP) que reduz de forma significativa a exposição ao dolutegravir, sendo listada como contraindicação farmacológica pelo PCDT brasileiro (junto com dofetilida e pilsicainida). A escolha do anticonvulsivante deve ser individualizada pelo neurologista, e nem sempre é possível ou seguro trocar. Nessa situação, o PCDT-TV orienta substituir o dolutegravir por raltegravir 400 mg 12/12h, mantendo o backbone. Após o parto e eventual reavaliação neurológica, considera-se retorno ao dolutegravir. Efavirenz só entra se houver contraindicação aos preferenciais e sensibilidade confirmada em genotipagem; não é primeira alternativa. Suspender a TARV é conduta inadequada. Referências: PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais — https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/p/prevencao-da-transmissao-vertical-do-hiv-sifilis-e-hepatites-virais/view Nota Informativa nº 1/2022-CGIST/DCCI/SVS/MS — https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/notas-informativas/2022/sei_25000-010273_2022_15_-_nota_informativa_no_12022-cgist-dcci_-svs_-ms_-_dispoe_sobre_as_recomendacoes_do_uso_de_dolutegravir_em_gestantes.pdf
Puérpera de 30 anos, vivendo com HIV, em uso de tenofovir + lamivudina + darunavir/ritonavir 600/100 mg 12/12h durante toda a gestação (dolutegravir contraindicado por interação com anticonvulsivante em uso). Parto ocorreu há 2 dias, sem intercorrências. A equipe planeja a conduta em relação à TARV no puerpério. Considerando as recomendações do Ministério da Saúde, qual é a orientação correta?
A TARV deve ser mantida no puerpério, sem suspensão, para preservar a saúde da mulher e reduzir risco de resistência viral. O darunavir 800 mg + ritonavir 100 mg 1x/dia não é recomendado durante a gestação porque há queda dos níveis séricos a partir do segundo trimestre, sendo utilizado darunavir 600 mg + ritonavir 100 mg 12/12h. Após o parto, com a reversão das alterações farmacocinéticas gestacionais, pode-se avaliar a substituição para darunavir 800/100 mg 1x/dia, simplificando a posologia. Terapia dupla, monoterapia com IP ou suspensão de TARV são condutas incorretas. Referências: Ministério da Saúde: novas recomendações sobre darunavir 800 mg — https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/noticias/2022/maio/ministerio-da-saude-faz-novas-recomendacoes-ao-uso-do-darunavir-800-mg PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV — https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/p/prevencao-da-transmissao-vertical-do-hiv-sifilis-e-hepatites-virais/view
Gestante de 29 anos, G2P1, vivendo com HIV há 5 anos, em uso de tenofovir + lamivudina + dolutegravir com adesão excelente. Realiza pré-natal de alto risco. Traz resultados: carga viral na 1ª consulta (10 semanas) indetectável (< 40 cópias/mL); CD4 620 células/mm³ na 1ª consulta. Encontra-se hoje com 20 semanas, assintomática, ganho ponderal adequado, PA 110x70 mmHg, altura uterina compatível. Pergunta quando deverão ser repetidos os exames de monitorização. Considerando o PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical, qual é a programação correta de carga viral e CD4 nesta paciente já suprimida?
Na gestante vivendo com HIV já em TARV e com supressão viral documentada, o PCDT preconiza monitorização mais enxuta: nova carga viral 2 a 4 semanas após qualquer mudança de esquema (não é o caso) e, obrigatoriamente, na 34ª semana, pois é esse resultado que define a via de parto e a necessidade de AZT intravenoso periparto. O CD4 pode ser colhido na 1ª consulta e repetido na 34ª semana em quem já vem indetectável, sem necessidade de dosagens trimestrais. Programações mensais ou semanais não têm respaldo e sobrecarregam o sistema; por outro lado, colher CV apenas no dia do parto perde a janela para planejar via de nascimento e profilaxias. Referências: PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais — https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/p/prevencao-da-transmissao-vertical-do-hiv-sifilis-e-hepatites-virais/view Relatório CONITEC/PCDT-PTV 2020 — https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/consultas/relatorios/2020/20201125_relatorio_pcdt-ptv_hiv_568_2020.pdf
Gestante de 27 anos, G1, com 12 semanas, encaminhada ao pré-natal de alto risco após diagnóstico de HIV na primeira consulta (dois testes rápidos reagentes). Assintomática, sem comorbidades. Foram coletados carga viral basal e genotipagem pré-tratamento, e iniciado imediatamente tenofovir + lamivudina + dolutegravir. Retorna com 16 semanas para reavaliação, mantendo boa adesão e sem intercorrências. Traz resultados: carga viral basal de 85.000 cópias/mL; CD4 410 células/mm³; genotipagem sem mutações de resistência. Considerando o PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, qual é a conduta correta em relação à monitorização laboratorial neste momento?
A monitorização da gestante que iniciou TARV segue três marcos obrigatórios: carga viral na primeira consulta (basal), nova carga viral 2 a 4 semanas após introdução ou modificação do esquema (para avaliar resposta virológica precoce, cuja meta é queda ≥ 1 log10) e uma terceira coleta na 34ª semana, que definirá a via de parto e as profilaxias intra e pós-parto. A genotipagem pré-tratamento não deve ser repetida rotineiramente após início da TARV, e trocas empíricas de esquema por carga viral basal alta não são recomendadas — a decisão baseia-se na resposta virológica documentada. Referências: PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS) — https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/p/prevencao-da-transmissao-vertical-do-hiv-sifilis-e-hepatites-virais Nota Informativa nº 1/2022-CGIST/DCCI/SVS/MS — https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/notas-informativas/2022/sei_25000-010273_2022_15_-_nota_informativa_no_12022-cgist-dcci_-svs_-ms_-_dispoe_sobre_as_recomendacoes_do_uso_de_dolutegravir_em_gestantes.pdf
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Os números, na ordem da cascata. Testagem em três momentos: primeira consulta, início do terceiro trimestre e no parto, independentemente de exames anteriores. Carga viral colhida imediatamente ao diagnóstico e antes do primeiro comprimido, junto com a genotipagem — e sem esperar nenhuma das duas para iniciar. Terapia para toda gestante, independentemente de clínica e imunologia, mantida após o parto: tenofovir 300 mg + lamivudina 300 mg + dolutegravir 50 mg, em qualquer idade gestacional. Reavaliação em 2 a 4 semanas, cobrando queda de pelo menos 1 log₁₀, que é uma queda de dez vezes. Carga viral decisória a partir da 34ª semana. Acima de 1.000 cópias/mL ou desconhecida: cesárea eletiva a partir da 38ª semana, empelicada, com zidovudina venosa iniciada pelo menos 3 horas antes. Detectável abaixo de 1.000: parto obstétrico, pode ser vaginal, e ainda assim zidovudina venosa. Indetectável com boa adesão: parto preferencialmente vaginal e sem zidovudina venosa. Zidovudina venosa: ataque de 2 mg/kg na primeira hora e manutenção de 1 mg/kg/h, frasco a 10 mg/mL, diluído em 100 mL de soro glicosado a 5%, até o clampeamento. Cesárea que vira urgência: manter a indicação se a dilatação for menor que 4 cm. Bolsa rota conta a partir de 4 horas. Cefazolina 2 g em dose única. Recém-nascido: baixo risco exige terapia na gestação e carga viral indetectável a partir da 28ª semana e adesão sem falha — recebe zidovudina isolada; alto risco a partir de 37 semanas recebe zidovudina + lamivudina + raltegravir; entre 34 e 37 semanas ou abaixo de 2 kg, nevirapina no lugar do raltegravir; abaixo de 34 semanas, zidovudina isolada mesmo no alto risco. Início até 4 horas de vida, duração de 4 semanas em todos. Cargas virais da criança ao nascimento, 14 dias, 6 semanas e 12 semanas; segunda carga viral igual ou acima de 100 cópias/mL fecha o diagnóstico. Aleitamento contraindicado sempre, inclusive com carga viral indetectável: cabergolina 1 mg em dose única antes da alta e fórmula garantida até 6 meses.
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Os porquês, que é o que sobra quando os números escapam. Por que a carga viral é colhida na 34ª semana e não 'perto do parto': porque entre a 34ª e a 38ª há quatro semanas de janela para o resultado chegar e a cesárea ser agendada, e a data fixa é o que garante essa folga. Por que não se opera abaixo de 1.000 cópias/mL: porque nessa faixa a cesariana não reduz a transmissão de forma estatisticamente relevante e passa a ser causa importante de morbidade, com mais complicações e hospitalizações nessa população. Por que existe uma faixa com parto vaginal e zidovudina venosa junto: porque os dois limiares são diferentes — a via de parto muda em 1.000, a profilaxia intraparto muda em 'detectável'. Por que a zidovudina do parto é venosa e não oral: absorção errática do comprimido, sem garantia de nível sérico no momento oportuno. Por que se subtrai procedimento no parto: cada toque, cada amniotomia, cada instrumentação e cada hora de bolsa rota é mais contato do feto com sangue e secreção materna. Por que não se troca o esquema de quem está indetectável: toda troca carrega risco de escape viral, e escape viral aumenta a transmissão — o risco do movimento supera o risco da droga. Por que o dolutegravir voltou ao primeiro trimestre: o alerta de 2018 sobre defeito do tubo neural não se confirmou, e a vigilância brasileira de 1.427 mulheres não encontrou nenhum caso. Por que o prematuro extremo recebe menos drogas apesar de mais risco: a segurança do raltegravir e da nevirapina não está estabelecida abaixo dos cortes de idade gestacional e peso, e abaixo de 34 semanas só a zidovudina entra. Por que a criança exposta não é diagnosticada por sorologia: anticorpos maternos atravessam a placenta e persistem até 18 meses, às vezes 24 — por isso teste molecular, e por isso a sorologia só volta no encerramento. Por que se colhe a carga viral do bebê antes de começar a profilaxia e depois de terminá-la: os antirretrovirais reduzem a sensibilidade do exame e retardam a detecção. E por que o Brasil proíbe a amamentação que a Organização Mundial da Saúde recomenda: porque as duas réguas não discordam sobre o vírus, discordam sobre o cenário — onde a alimentação de substituição é segura, acessível e garantida por norma, o risco competitivo desaparece e a proibição volta a ser a escolha melhor.
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Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Gestante de 24 anos, primigesta, com 36 semanas, comparece ao ambulatório de pré-natal de alto risco trazendo o resultado da carga viral solicitada na 34ª semana. Iniciou terapia antirretroviral na 20ª semana, após diagnóstico de HIV no pré-natal, e diz que 'esqueceu alguns comprimidos no mês passado'. Conduza a consulta: interprete o resultado, defina a via de parto, decida sobre a zidovudina venosa, antecipe a classificação de risco do recém-nascido e conduza a conversa sobre alimentação do bebê. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
